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Chapter 5: III
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About This Book

The narrative opens in a bleak spring in the Mondego lowlands, where a young traveler at a small station meets a married couple. Conversation reveals contrasting attachments: one voice praises foreign travel and urban life, while the wife longs for city pleasures and company and the husband appears blunt and provincial. As they travel together attraction develops between the traveler and the wife, and the text interweaves recollected journeys and amorous encounters with a subdued social landscape. The work examines longing, sensual allure, and the friction between romantic desire and domestic restraint amid provincial manners.

—Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.

Ella correu ao quarto.

—Olha, disse elle, vê se me ajudas, quero levantar-me, falta-me o ar. Lançou-lhe o braço pelas costas, a mão apoiada no hombro, e, quando procurava erguer-se, tombou sobre élla, com todo o seu peso, morto, a cabeça pendida sobre o peito.

Para Claudio a comoção foi extraordinaria. Agora, perante os restos inanimados que tinham sido d'aquelle que mais respeitára, via em toda a luz o que significava uma vida de honestidade e de trabalhos, a riqueza e a ordem que em volta de si derramara durante tão longos annos. Para aquelle não tinha havido hesitações e o triumpho fôra completo; augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos, toda a existencia foi um combate com a natureza, com os homens, com os acasos do destino. Os braços cairam de fadiga, mas o animo não esmoreceu até ao derradeiro alento. Quem lhe déra ser assim!...

Para isto, para estas reflexões, não precisava dos livros, nem leituras nem sabios o inspiravam; o pensamento vinha-lhe do coração, espontaneo, brotando da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez fosse vão todo o caminho andado, tempo perdido o que gastára á procura da verdade, folheando com avidez os tratados de philosophia d'esses homens que diziam serem os mestres da humanidade!

O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, cada vez mais instante, aggravado pelas muito particulares circumstancias que a morte do pae trouxera. Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior que a toda a hora lhe eccoava no peito.

Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se a um modo de cousas transitorio. Considerara a herança do tio como fortuna do pae e não consentiu que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente com as flores e os livros, ora no seu jardim, ora na sala alumiada e silenciosa do modesto casal de Villalva, ora nas palestras da villa, ora em solitarios passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando e estudando, quando não se quedava a fallar com a gente do campo, interrogando-a sobre os seus rebanhos e as suas lavouras. Estudava agora, depois decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel de tudo aquillo e advinhava em si, sem as poder definir, outras ambições, outras esperanças, outros desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus bens.

Hoje as circumstancias são differentes. Passados os primeiros dias de mais pungente saudade, começa a pensar, com um firme proposito de resolução, no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com vinte e quatro annos, que iria fazer da mocidade e da fortuna? Ficar ali?

Era um convento, uma vida estreita, e os livros com que se tinha aconselhado diziam-lhe que a existencia era uma lucta, o ascetismo uma doença, e a expansão de todas as forças, de todos os apetites e de todas as paixões uma lei natural, porventura a condição do vigor e da saude. O luxo e todos os seus prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo; eram vencidos, seres inferiores que o progresso da especie exigia que se consumissem na miseria. Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente sentia-se inclinado á piedade, á modestia, á doçura e á tranquillidade? Vicios hereditarios, casos atavicos, que a regra era luctar, o signal de superioridade vencer.

Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito mal, sem commodidades e sem conforto, que queria frequentar mais assiduamente algumas relações que deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer em Albergaria, d'onde mais facilmente poderia sair.

Demais, pensava em fazer uma longa viagem que era necessaria para se instruir; custava-lhe deixar a mãe em Villalva, entre uma gente estupida, sem recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se do que acontecera com a morte do pae; por pouco deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.

A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na sua simplicidade, tinha imaginado que tudo estava muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de boas teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do mundo, não o considerava ella como supremo favôr de Deus e premio do ardor com que lhe orava? Isolamento não o sentia, que as horas eram poucas para o trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. Tambem não comprehendia a falta de recursos; a doença e a morte vêm quando Deus quer, não temos mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a Claudio convinha sair d'ali, fizesse como melhor fosse para elle. Vivera sempre para os outros e agora que já não tinha marido nada lhe custava obedecer ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam limites n'aquella alma.

Claudio começou pois a cuidar com impaciencia da sua nova installação. Arrendou um palacio, á entrada da villa, do lado do poente, com pateo nobre, escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas janellas saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim e pomares. Tinha sido, segundo se dizia, dos duques d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento rico de Coimbra que o arrendava barato porque não o queria improductivo, não queria, na sua expressão, cavallos d'estado.

Vieram moveis caros, louças da India, quadros, bronzes e damascos, comprados nos bazares de Lisboa por onde Claudio andou em companhia d'um antigo amigo e condiscipulo que era de gente fina e muito entendido em bric-à-brac. Veiu tambem um landau e dois grandes cavallos francezes que tinham pertencido a um negociante que se arruinára em fundos hespanhoes.

—Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vês por um conto e duzentos, custou mais do dobro. A carruagem é de Binder, os cavallos estão novos e os arreios são magnificos! O pobre homem vendeu a medo, envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse, era impossivel que não encontrasse quem lhe desse mais.

Gastaram-se n'esta primeira installação uns oito contos de réis dos doze que o José Portugal tinha deixado em Coimbra, á ordem do filho, em casa d'um commerciante da Praça Velha, que lhe cobrava os juros das inscripções e recebia as rendas que vinham do Minho. O velho, na sua escrupulosa honradez, pensava sempre em não prejudicar o filho em proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por isso punha de parte aquillo que em sua consciencia entendia sobrar dos rendimentos da herança.

—Lá lh'o deixo, pensava, elle lhe dará a applicação que quizer. Não lhe hão-de faltar terras para comprar. Está ahi a casa do fidalgo que, por morte d'elle, se vem a vender toda. Já não podem com dividas.

Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem veiu mobilar-lhe a casa.

Não havia que fiar em estofadores. Um dinheirão e tudo sem gosto! Ainda ha pouco vira na Avenida a casa do Antonio Ferreira, um negociante da praça que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais de trinta contos ao Gaspar e não tinha um cantinho que se diga: benza-te Deus. Muita seda, muitos dourados, uma caixa de amendoas! Emquanto o José de Menezes, que se casou ha pouco, com um conto e quinhentos poz a casa como um brinco. A sala de jantar pouco mais tinha que a meza, uma credencia, velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras, suspensa do tecto uma lampada de bronze e nas paredes quatro prateleiras com pratos de Wedgwood, brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar n'um fundo escuro e mate.

—Original! concluia Jorge.

Aquelles objectos pareciam que tinham acabado de servir e que a todos os instantes estavam em movimento. Davam uma expressão de vida que os armadores de profissão desconheciam. Que barbaridades iam por essas casas de Lisboa! Havia-as armadas em capellas, com muitos pannos, papeis dourados, jarras de porcelana, flores artificiaes e castiçaes de prata; havia as armadas em tumulo, todas em estuque brilhante e frio; e havia-as tambem, de amadores improvisados, armadas em museu onde os moveis, aliás ricos e ás vezes de grande valor, se accumulavam sem relação, sem parentesco que os ligasse. Se lhes pozessem rotulos e preços, a loja era completa. O Menezes não; tinha muitissimo gosto. E sabia comprar: aquella sala de jantar não lhe custou talvez duzentos mil réis.

Claudio comprehendia mal a lição do amigo e estranhava o calor com que lhe era dada; no collegio nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva trabalhava-se de sol a sol; a mais brilhante peça da casa era a enxada polida entre os seixos da serra. Soubera pelos livros que a arte era a corôa da educação d'um bello espirito e queria-a tambem como tudo o que aos olhos da propria consciencia podesse engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupações interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia, quando tivesse a sua vida mais assente. Não tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e de bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor sob impressões deliciosas, os progressos seriam rapidos.

Não o pensava egualmente a mãe, abatida com tamanho encargo, a casa, as salas e os creados. Suspirava pela paz laboriosa de Villalva, baixinho, em silencio, não fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com as suas saudades.

Estabeleceram-se novos costumes em conformidade com a nova vida, almoço ao meio dia, jantar ás seis horas, as manhãs para o estudo, as tardes para os negocios da casa, visita ás propriedades e passeios de carruagem, as noites... oh! as noites eram realmente um grave embaraço. A botica enfadava, era mesquinha com a sua baixa e insalubre curiosidade; o jogo era para velhas, um estupido brinquedo; em casa, o estomago pesado, frente a frente com a velhita, o tedio era extremo. De resto, ella gostava de fazer serão ao pé das creadas, na cosinha, com a sua velha rocca á cinta, fiando o linho de Villalva. Chegando áquella hora, Claudio não sabia onde se refugiasse.

Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro, onde por accaso encontrava quem lhe fallasse de Flaubert, de Zola, de Comte ou de Spenser, as grandes preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo era raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado, levára uma vida bisonha, retrahida e poucas relações deixára.

D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; Jorge de Castro, que ha pouco encontramos em Lisboa, aconselhando-o na installação do palacio de Albergaria, e José d'Albuquerque que mais tarde nos vae apparecer intimamente ligado á vida de Claudio.

Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento e de habitos. Fôra curiosa a maneira porque entre elles e Claudio se creára um profundo affecto, apezar das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.

Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém todas as tardes a uma livraria da baixa, na Calçada, procurando com avidez as novidades litterarias chegadas de França e prescrutando, entre os livros alinhados nas prateleiras, o caminho a seguir na sua ancia de saber. Era ali que invariavelmente encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos como Claudio a cousas litterarias. D'este modo, por este unico laço, começou a constituir-se essa amisade que a uniformidade de sentimentos e de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo porém o tempo escolar, Jorge fôra viver para Lisboa e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, porque todo o apparato de luxo que encontrava brigava com os seus habitos e a sua educação.

Agora que mudára de ideias e de aspirações, aproveitava a hospitalidade do amigo, para desenferrujar a lingua, dizia, que era uma necessidade permutar ideias.

Nem assim, com todo este complicado artificio, podia conformar-se com a vida de estudo que architectara. Ás vezes possuia-se d'um invencivel fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, regando, limpando as arvores e as flôres, voltando instinctivamente aos bons habitos da sua educação.

O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria logo, que não se enxovalhasse s. ex.a, elle faria o que quizesse.

Claudio desculpava-se; era para se entreter, que lhe fazia bem á saude.

—Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando a pericia do senhor.

Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo, o seu gosto era andar a tratar do jardim, mais era um grande fidalgo, empregado no paço da Ajuda, muito amigo do sr. D. Luiz!

O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que Claudio chegou no fim d'um anno de residencia em Albergaria.

Talvez questão de ambiente, falta de incitamento pela ausencia de camaradagem adequada... O melhor era a experiencia, o conhecimento directo das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo, os grandes espectaculos da vida, do trabalho, da arte humana e da natureza. Ainda sobrára alguma cousa do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a Europa.

Começaria pela Hespanha, pelas margens do Mediterraneo passaria a Italia, regressando iria á Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow, voltaria pela Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz e a Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia a Pariz e faria alli quartel general, centro de todas as excursões.

Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, dando-lhe conta da morosidade com que o seu estudo proseguia e da maneira por que pensava em adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.

Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga civilisação, e ficariam para successivas jornadas o Oriente e a Grecia, a India, o Japão e a America do Norte.

O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o mesmo! Mas tinha casado cedo, não podia levar a mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era contentar com a sua sorte. Passava o verão com a mãe em Loures, o inverno em Lisboa, e as suas viagens duravam habitualmente um dia, dois ou tres em casos muito excepcionaes.

Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello e o Carlos d'Azevedo, gastára um dia, a jornada a Evora durou tres dias mas já não parava com saudades de casa, como quando veio a Albergaria, onde recebia cartas da mulher que eram um sermão de lagrimas.

Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle, Claudio, tinha a inteira liberdade de dispender o seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e alcançar uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os carinhos constantes d'um lar amado e alegre. Não era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que se instruisse agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá chegaria.

Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de outubro com uma impaciencia desusada. Não parava em parte alguma, com sêde de impressões, uma embriaguez de aspectos desconhecidos propria de quem fôra creado em horisontes estreitos.

Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo observava, registando na lembrança conhecimentos novos.

Ás vezes deixava-se possuir d'um extremo cansanço, tinha saudades da sua terra, parecia-lhe que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva e até a imagem da sua Conceição d'outros tempos lhe passava meigamente pelos olhos. Fadiga! Eram momentos passageiros; com esforço e tenacidade juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no socego do seu canto, havia de digerir toda aquella massa informe, havia de dispol-a em theorias e systemas, e então o saber seria completo e o estudo deixaria de o enfadar.

Uma tarde, na Flandres, teve uma visão que lhe ficou de lembrança. Saira de Gand, de manhã, a vêr uma propriedade modelo que tinha tido o primeiro premio no ultimo concurso e, já proximo do pôr do sol, esperava o comboio n'uma estação de aldeia. A gare estava deserta e silenciosa; em volta os campos verdes e planos, emoldurados em altas sebes de choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros casaes dispersos; em frente a casa d'um lavrador, uma velha á porta, fiando na roda, á maneira do norte, e ao pé uma creança recolhendo as gallinhas ao poleiro. Que seria da familia? Andava nos campos, certamente.

Em casa ficaram os velhos e as creanças fazendo o pouco trabalho de que eram capazes. Talvez alli estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle a fatigar-se com vãos estudos? O mais sensato seria voltar a Villalva, casar-se e trabalhar; fazer como aquelles que alli via. Uma pungente saude acompanhando o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe apertou o coração e os olhos humedeceram-se n'um movimento de desalento profundo.

Pariz apagava essas impressões fugitivas; desfaziam-se rapidamente na sua atmosphera de luxo, de prazer, de epicurismo.

As theorias materialistas aprendidas nos livros confirmavam as instigações dos sentidos. Claudio convencia-se de que a verdade era a riqueza e o progresso dos gozos e das commodidades. A lucta pela vida reduzia-se á expansão naturalista, á conquista dos regalos do corpo. Que mais poderia significar? Que valor poderia ter o sacrificio pelos outros? Não lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social... mas isso era uma cousa vaga, indefinida. Guia seguro só a expansão do individuo, a satisfação dos seus appetites; o resto, preoccupações moraes, eram vicios hereditarios, remanescente d'um estado metaphysico que a sciencia condemnava.

E n'estas idéas voltava em fins d'outubro a Albergaria, com um scepticismo convencional, mal ajudado pela experiencia do luxo dos hoteis caros das cidades, e sempre em contradição com constantes inclinações interiores para outras e mais altas paragens.

Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram para ouvir a mãe e visitar as terras. A mãe contava-lhe ingenuamente o que se passara na sua ausencia; as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e abundante de milho. Não chegaram as vasilhas da adega, mas, como o filho não estava, não quiz sem consentimento d'elle comprar novos toneis e, para o que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo o que havia em casa e mais duas vasilhas de noventa almudes que se pediram. Se o preço fosse bom, era uma riqueza. Iam agora começar com a azeitona. Tambem não era mau anno mas o feitor dizia que não passaria de metade da colheita anterior. Os creados é que muito lhe custavam a supportar, sempre com intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo muito.

—Grande náo, grande tormenta, dizia lembrando-se com saudade dos tempos de Villalva e do socego em que lá vivera durante quarenta annos.

Claudio ouvia com interesse as palavras da mãe. Involviam-lhe o coração n'um alento d'amor que ha muitos mezes desconhecia; todo se entregava a esta caricia que recebia como uma benção. Demais, nunca tinha esquecido a casa e as lavouras; os habitos da infancia arreigaram-se-lhe no espirito, o ruminar dos bois, o latido dos cães e o murmurio do arvoredo, todos os doces ruidos que acompanham a vida dos campos tornaram-se para os seus ouvidos o mais mavioso dos córos cuja harmonia lhe fazia esquecer o mundo e os homens para o confundir pantheistamente no movimento da natureza. No eterno canto que da terra se desprende, a sua alma vibrava unisona.

Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando secretamente esses queridos seres que ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos platanos voavam já pelas ruas do jardim levadas no humido sudoeste que ia trazer as primeiras chuvas do inverno, os loureiros começavam a destacar negros entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam livres, á borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos orvalhos do outomno; abria-se a hora do recolhimento e da treva.

Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada a hora de recolhimento no estudo, pelas noites de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto ao fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado o espirito n'esta atmosphera amiga, havia então de estudar e, alliando com as leituras a recordação do muito que vira, as infinitas impressões que armazenara na memoria durante seis mezes em que correra sempre, n'este novo consorcio o estudo havia de ser captivante e util. Passaria ali o inverno, todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois iria em nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria na sua educação.

Os dias porém iam correndo, estavamos já em meiado de novembro, e os livros trazidos de Paris jaziam intactos, em monte, a um canto do gabinete, entre recordações de viagem, um punhal de circassiano comprado em Tula, mosaicos de Florença e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de começar como um estudante relapso; todos os pretextos lhe serviam, a necessidade de frequentar o lagar que precisava reparação, as visitas a antigos conhecimentos de Coimbra, um novo curral que construia em Villalva, á maneira do que vira na Hollanda. Dissipava o tempo n'esta inquietação, com um inconfessado temor dos enfados do estudo. Lia desconexamente grande copia de romances, Bourget, Tolstoi e os russos, cuja fama no occidente despontava a este tempo, mas os volumosos tratados de sciencia e de philosophia continuavam esperando.

Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e dos seus prazeres. Estudo, lavouras, deveres sociaes, destino da sua vida, tudo passava então ao rol das phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? Não eram o seu legitimo direito? Amar, beber, regalar os olhos e os ouvidos nas maravilhas da arte, em artistica sensualidade, era o que lhe convinha, era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe trazer em recompensa o riso e a franca alegria de que tanto carecia e em que corpo e alma haviam de expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra a clausura.

E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões das almas simples; a verdade era muito outra. Não tinha sido vão o baptismo nas aguas de cynismo epicurista em que se iniciára pelos templos afamados da devassidão cosmopolita.

Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia Emilia.

III

Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a uma meza do whist, para ser agradavel ao juiz que sem isso se aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz, as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e n'esta especie de reuniões, de fluente banalidade. Animavam muito, dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem interrupção. Á meia noite parecia haver certo cansaço, mas, como o doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria renovou-se.

—Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior é ámanhã a cabra. Eu ainda não vi nem uma linha da lição. Provavelmente já não me deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o que ha de ser de mim!

Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via já ali correspondencia amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:

—Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Coração de Jesus. Não falte. Quero ver...

—Se eu poder... Queira Deus que não venha a cahir em férias de ponto!

Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por finda e Claudio veio então a uma janella respirar por um momento o ar fresco da noite e repousar a cabeça aturdida pela immobilidade e pela attenção forçada.

O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para o distrair.

—Tem-se aborrecido muito, não é verdade?

—Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas meninas para nos communicar alegria. Esta D. Emilia, principalmente, é d'uma vivacidade...

—Ah! muito galante!

—E fina...

—Parece incrivel que ella ainda conserve estas maneiras fidalgas, a viver todos os dias com um homem d'aquelles!

—É grosseiro, o marido?

—Não imagina!

—Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um pouco amigo de vinho.

—Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca vistas. Eu conheço perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um condiscipulo meu que era muito lá de casa d'ella e creio até que ainda parente.

E contou:

—Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo, no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,—coitados, não havia melhor!—viviam lá todo o anno, com excepção do tempo que passavam na quinta do morgado do Véro que os convidava muito, para os ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga, morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, creio que já está tenente, o outro que era um estroinão, foi para o Brazil, e esta, a Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era escripturario de fazenda e que só depois foi nomeado escrivão, por muita instancia do morgado do Véro com o Marques Lino, deputado pela Louzã.

Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha lá de Lisboa, habituada a muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se só, não tinha mais ninguem que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes ainda se oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança de lhe arranjarem um casamento rico, mas começaram, com estas cantigas do costume, a dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era o dinheiro que fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava doidinha de todo, lá se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora o Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é sei-o eu, um grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se convenceu de que a protecção da familia da mulher ainda o podia levar a escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se então um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade deante da mulher e dos filhos... É impossivel que esta mulher, para quem manobrasse com arte... Deus sabe até o que ella terá feito por outras terras!... porque não creio que ella com o genio desinvolto que tem e vendo o que o marido é e como a trata...

—Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.

—Não... mas aquillo não falha. Estava bom para si que é novo e tem tempo para essas cousas!

—Para mim?

—Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?

—Não são annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.

—Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, passeando a passos largos no seu gabinete, de regresso de casa do dr. Carvalho.

Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, educação aristocratica. Que desenfado para os seus ocios de Albergaria!

Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, o marido desleixado, sempre pelas tascas, repellente para quem se mostrava de habitos tão finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar a aventura.

Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a confiança de Emilia, mais dois de correspondencia amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o resto estava certo.

Era claro! Uma mulher casada sabia bem para que era que elle lhe fazia a côrte. Não tinha a esperar casamento. Devia ser boa essa situação em que nunca podia haver compromissos de futuro. E o marido? Com aquella obesidade, calvo e de lunetas, não seria de temer.

Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; não se mostrando muito avaro, havia de o manter em boa disposição. Um achado, um achado! O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam de lhe produzir grande impressão os amores com uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que era a lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio aquelle immundo bebado guardava para si uma deliciosa mulher?

Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais do que qualquer outro; estavam no seu direito, haviam de amar-se livremente.

A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades; os seres attraiam-se por selecção natural, não havia fugir á lei.

Demais, isto era uma aventura; se a velhita se mostrasse muito contrariada, punha-se termo ao episodio. Nem a elle convinha prolongal-o. Um anno, quando muito; na primavera seguinte, malas feitas e a caminho do Oriente! Nada de se prender com pieguices; isso era bom para os tempos em que ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha escrupulos de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o caso seria outro. Já era tempo de ser homem.

Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte iria visital-a. Era correcto. Continuariam a conversação da estrada de S. Braz, que ia em bom caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado sob qualquer pretexto novo encontro. Era preciso bater a caça sem cessar.

Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se até altas horas da noite. E adormeceu contente, nas suas risonhas esperanças.

Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar como de costume! Abriu um livro de botanica, mas não estava em boa disposição de leituras scientificas.

Era melhor um livro de pura litteratura. O quê? Tourgueneff? Não; eram tristes estes russos com as suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria e a dôr. Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e inacção forçada pelos rigores da natureza. Com um sol tão lindo e o jardim como um açafate perfumado de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se em pensamentos sombrios.

Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma obsessão de gente fallida, credores e agiotas por todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a angustia da cubiça.

Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée! Ah! Merimée... este sim, este era um homem são. Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o que é vicio e o que é virtude? Phantasias! O que existe é a natureza humana com todas as suas forças e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta, deixemos livre o instincto.

Abriu as Cartas a uma desconhecida e foi sentar-se proximo da janella, comodamente estirado n'uma poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava uma sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de regatos, scintillações do orvalho na folhagem mimosa, balsamos das flores que desabrocham, vozes sentidas das aves que se amam e preparam o ninho.

Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua doçura, pousou o livro sobre os joelhos e, apoz breves minutos de hesitação, lançou-o sobre a mesa e desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira dos lagos que os ramos beijavam, curvados, em mystico amor. A imagem de Emilia não lhe deixava os olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que lhe diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de conquistador.

Ao meio dia foi almoçar.

De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo morbidamente irritado da atmosphera de fumo e de poeira em que permanecera durante cinco horas. Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente o somno; era um dormir febril em que o retrato de Emilia permanecia como visão insistente. Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao torpor da digestão, adormeceu novamente n'um divan do seu gabinete. Quando accordou, eram cerca de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco estaria ao pé da sua amada.

Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais elegante que trouxera de Londres. A gravata era um problema; as mulheres attentam em todas estas frivolidades e é necessario satisfazer-lhes o espirito. Luvas, sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos a resolver e que Claudio considerou um a um, experimentando e observando, em frente do espelho.

Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da praça, lembrou-se de que tinha de passar em frente da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o traje. Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia ser que elle o não visse... Foi para diante. De facto, o pharmaceutico dormia a sésta. Por esta vez, estava salvo da interrogações compromettedoras.

Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava Emilia, bateu de mansinho duas pancadas com a bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de passos apressados e veiu abrir a porta uma rapariga descalça, os cabellos curtos, escondendo as mãos sob um avental de riscado.

A rapariga olhou Claudio com surpreza.

—O sr. Almeida está?

—O sr. Almeida está a descansar.

—E a sr.a D. Emilia?

—A sr.a D. Emilia acabou ha pouco de jantar.

—Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava fallar-lhe, sim?

E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma de ouro, um cartão em que se lia: C. de Sousa Portugal. Mandara-os fazer em Paris, eram os que usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito passar por conde.

A creada voltou:

—Que faça favôr de subir...

Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, rectangular, com uma só janella saccada, e tendo por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha, algumas cadeiras, um tapete, uma meza com um panno vermelho, sobre ella um candieiro, dois castiçaes, um par de jarras vasias e um album de photographias, e na parede um retrato a carvão, mal desenhado. A pobreza transparecia n'aquella nudez.

Emilia appareceu immediatamente, com um vestido de chita clara muito singelo, apertado no pescoço por uma larga fita de velludo preto e um alfinete de prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o pequenino pé bem calçado de preto. Apertou a mão a Claudio e, começando a conversa, disse-lhe que o marido estava a descansar mas que ia chamal-o.

—Não o incommode v. ex.a por minha causa, vinha só apresentar a v. ex.as os meus respeitos.

—Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.

—Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.

Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e apreciaram a belleza das raparigas que lá foram. Claudio teria estado melhor se podesse conversar um pouco mais, e accentuava significativamente estas palavras; mas o juiz, coitado! é que já não prescindia do whist e não quiz contrarial-o. A ella por certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára toda a noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era verdade?

A conversação da estrada de S. Braz recomeçava. Pela janella aberta via-se um largo campo em que uma rapariga graciosamente curvada ceifava, balouçando a fouce com agilidade, o azevem prestes a amadurecer que se estendia n'um vasto lençol, ondeando ao vento, em fugidios reflexos prateados; em baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando os caminhos e abrigando os regatos; ao longe, a orla negra do horisonte com os montes cobertos de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos fenos que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na terra e polvilhadas de pontos amarellos, murchas flores de malmequeres.

Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana era uma injustiça com a feliz sorte que o destino lhe concedia, dizia Claudio. Que linda payzagem! Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos pontos mais bonitos da villa.

—Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; mas ou por estar habituada ao local ou porque realmente não está no meu feitio apreciar estas cousas, nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para vêr se temos sol ou se temos chuva. Só este silencio é de morrer! Parece-me que estou n'uma sepultura, eu que fui educada no meio de tanta gente. Não! Por emquanto não me dou por convencida!

—Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.a Não me será difficil.

—Talvez...

—Com certeza. E mais tarde v. ex.a ha-de agradecer m'o. Será o meio de se aborrecer menos em Albergaria.

N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova, em chinellos, sem luneta e sem collarinho, a camisa desabotoada.

—Oh! disse confuso, queira v. ex.a perdoar, sr. doutor. Estava a descançar, senti fallar e levantei-me pensando que era o meu escripturario que ficou de me trazer esta tarde o borrão das novas matrizes da Afurada. De fórma que...

—Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu sinto é ter vindo perturbar-lhe a sésta, mas não queria deixar passar mais tempo sem vir apresentar os meus respeitos a vv. ex.as.

—Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario incommodar-se.

—Estava admirando estas lindas vistas de sua casa...

—Ah! sim, não são más, mas a casa não presta para nada. Ora eu lh'a mostro que ella depressa se vê.

Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.

—Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, sem paradeiro, não póde ter a casa em ordem. V. ex.a vae pasmar da nossa sumptuosidade.

—Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embaraço de Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos lá contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.

O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de jantar e para além, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as creadas. Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, este pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava o da janella; serve para os pequenos brincarem.

—Um cantinho delicioso; só esta vista vale um palacio, dizia Claudio.

—Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros tinha! Esta ao menos é mais limpinha.

De pé, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio pedia informações da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.

—É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de fórma que podesse descobrir toda a varzea.

—Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!

—Não me quero prender, tenho ainda uma vida tão incerta... E não incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo a mão a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo perturbar-lhes o seu socego. A culpa não é minha, a culpa é da amabilidade de vv. ex.as.

—Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade, replicava ella. Quando quizer apparecer... Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo, só saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.

—Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo já a caminho da escada.

—Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...

—Hei-de converter, por Deus!

Claudio sahiu contente. A sua intimidade com Emilia caminhava a passos largos; ainda ha dois dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia relações continuadas. O escrivão tambem devia estar contente; um desgraçado, sempre perseguido dos credores, havia de exultar com a amisade de quem lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar nem perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite? Aproveitaria. Excellente! E depois Emilia cada vez lhe parecia mais tentadora. O que era a educação! Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre quatro paredes caiadas e núas! Que differença entre aquelles habitos e o desleixo provinciano. Já mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, na sua modestia, os dois pequenitos de Emilia que via á tarde, na botica, passando da escola. Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de nascimento, ligada a um homem estupido e boçal que necessariamente a trataria como a qualquer escripturario de fazenda.

Uma breve impressão de piedade lhe passou no coração, mas immediatamente procurou affastal-a. Era uma preza que buscava, uma amante delicada e fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já com pretensões a gôsos artisticos; nada de romantismos. Se se punha com pieguices, tinhamos outra Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. Ia gosar, não ia chorar.

Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum passo em falso e prejudicasse a sua grande ambição! N'isso é que devia pensar. O resto... nada de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro; era impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle bebado que demais tinha, segundo diziam, uma amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já teria acontecido pelas outras terras onde ella andou. Caça d'arribação!

E com estes pensamentos fortalecia o animo para a sua nova empreza.

Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia de o fazer, era até a hora que mais lhe convinha.

Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!

O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite que até agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.

Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podéra seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta ausencia de prazeres.

Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria perfeição, para alcançar a plenitude de desenvolvimento mental a que aspirava.

Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma lacuna da sua existencia.

Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em esperanças de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre; e, o espirito enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em que havia de voltar a casa de Emilia.

Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve pela primeira vez. Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e vaidosamente resolbêra usar de todas as precauções que á sua conquista conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar á porta.

Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, palestrou alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a Emilia.

Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em boa disposição, a alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.

Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanças. Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse facto na conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus olhos o habito elegante de, ainda na provincia e só, mudar de trajo para se sentar á meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um espaço de tempo em que não sabia que fazer... Era melhor vestir-se então e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.

Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava tão profundamente? Sim, mas por costume, por vicio de educação de que necessitava corrigir-se. Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque não o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei! N'essa é que precisava inspirar-se.

O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe chamava ceia e pouco comia porque, dizia, tinha jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou, ainda a noite não se tinha cerrado.

Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se pausada e esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, caminhava lento; mau grado seu, achou-se prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado talvez, apezar do proposito em contrario que fizera.

Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, quieto; ia dar um pequeno passeio e depois das oito horas se dirigiria a casa de Emilia.

Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da descida, sentou-se n'um banco de pedra que alli havia. Não iria mais longe. A poeira enxovalhava o e não queria voltar a casa para se limpar; poderiam estranhar tantos cuidados.

A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça uma abobada de arvores colossaes, cortada a espaços breves e raros pelas manchas do céu que empallidecia á luz do luar nascente.

Além, para lá do valle em que as aguas corriam murmurosas, ficava a casaria da encosta, ainda na sombra; depois, a viva crista dos montes; por detraz, erguia-se a lua jorrando silenciosamente a claridade. Nos loureiros, á beira dos regatos, debruçados sobre alfobres mimosos, cantavam os rouxinoes.

Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. A figura de Emilia passou-lhe nos olhos como uma apparição de pureza; não era n'aquelle momento a sensual amante que buscava, era uma belleza ideal que adorava.

Romantismo! oh! o maldito romantismo que o atacava! Quando se veria livre d'aquella molestia? Porventura seria incuravel e nunca chegaria a sua hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes sentimentos, que tinha por fraqueza, e começou a pensar no que iria dizer á Emilia.

Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos feminis, fallar-lhe de elegancia, mostrar-lhe com que luxo vivera em Paris, no Continental, e como sabia aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua admiração; d'ahi a mostrar-se em confronto com a grosseria e a rudeza do marido, o caminho era curto. Não poderia escapar-lhe.

Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. Podia ir sem risco de mostrar ignorancia dos costumes elegantes.

Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis não, porque aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua desproporcionada agitação mais o irritava. Que podia temer? Que o não recebessem? Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma só batalha. Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! Não havia de succeder assim.

Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita descalça, correndo pressurosa, da cosinha, onde preparava o chá, mangas arregaçadas e o lenço mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.

—A sr.a D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.

—Os senhores estão na sala, respondeu promptamente a creada. Faça favôr de subir.

Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava, um pequeno açafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que estendia os braços e o papel.

—Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.

—Eu tinha promettido... começou Claudio.

—Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que não tenho de ir a Coimbra é sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão deitados; mal anoitece, começam logo a cair com somno. A Emilia passa o tempo com os farrapos. A mim, o que me vale é o Seculo. É muito bom jornal. V. ex.a não costuma lêl-o?

—Não, nunca o vejo.

—Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o que me vale. E ainda assim, quando Deus quer, ás nove horas estou na cama. Quando quizer... faz-nos muito favôr.

—Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. Imagino que os celibatarios hão-de ser muito importunos para a gente casada.

—Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não pude habituar-me a deitar-me cedo; antes da meia noite não durmo. Por aqui me entretenho conforme posso. E ainda v. ex.a quer que me conforme com a vida de provincia!... Só estas noites são um castigo!

—N'esse ponto concordo. Tambem me custam um pouco.

Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos os desejos de Claudio; teria ensejo de mostrar que, apezar das suas preferencias pela vida do campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica, experimentára-a, e em Paris tinha andado em todos os regalos do luxo. Para Emilia devia ser uma fascinação.

Mas em breve a conversação caiu no extremo opposto. Não era de Paris que se fallava, era de Villalva, da sua paz e das suas alegrias. Emilia ouvia-o com tanto interesse, tão meigamente o instigava á intimidade que Claudio, impensadamente, esquecendo todo o proposito anterior, caiu no mais completo abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea, d'um coração que estava a trasbordar d'affecto, almejando por um coração gemeo em que o vertesse.

Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo a casa, fôra encontral-o no leito, os olhos cerrados e a face livida, n'uma serenidade em que lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada consciencia.

Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto do cadaver do esposo e quanta grandeza vira n'aquella mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura que se concentrava recatada, como temendo polluir-se no contacto com a indifferença mascarada de lucto que sempre apparece n'essas horas. Elle, Claudio, não chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante esse quadro em que se resumiam tantos annos de communhão no amor e no trabalho. Intimamente perguntava em que dissipára os trinta e tres annos da sua existencia.

Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade; só mais tarde é que percebeu bem o desapparecimento d'aquella sombra querida a labutar, a labutar, pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, pelo frio penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo reverbero das estrellas. No primeiro instante, fôra apenas uma grande lição. Que era a sua vida de estudo ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim, aquelle tinha chegado ao posto, aquelle tinha sido digno.

A confissão corria torrencial, como as aguas do açude que se despenham. Ricardo ouvia e vagamente presentia qualquer cousa captivante; Emilia, na sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo e inconsciente arrebatamento de admiração. Já não provocava a conversação, interrogando; o mais espontaneo tornava-se para ella o mais agradavel. E, quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou com visivel pezar:

—Já?!

—São dez horas e não quero contrariar os habitos de v. ex.as Estou aqui ha duas horas! Para sécca não foi pouco.

—Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois não lhe faço a vontade! Não digo nada.

—Faz v. ex.a muito mal. Quem cála consente e eu sou capaz de voltar.

—Queira Deus que seja breve!

Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando á sala:

—Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se a Emilia.

—É muito sympathico e muito fino, respondeu ella. Ninguem ha-de dizer que foi creado na aldeia.

—Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa gente de Lisboa é que sabe conversar. Um rapaz rico e que tem viajado!...

Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem do marido e não queria provocal-as.

Ambos se alegravam com as novas relações: ella, porque via em Claudio uma boa companhia para attenuar o aborrecimento das noites provincianas e o marido porque systematicamente cortejava todas as pessoas ricas que poderiam ter influencia, esperando alcançar melhor collocação. A sua aspiração, presentemente, era passar para recebedor; teria menos trabalho e mais alguns proventos.

Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. Não era aquella a conversação que tinha marcado como inicio de conquista; tinha feito tenção de fallar a Emilia da vida elegante e fôra contar-lhe intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!

O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes lhe recusavam. E, depois, praticára uma ruim acção cujos aspectos negros a imaginação lhe avolumava, dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; fallára a Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemão tinha considerado sua amante! Como, por que estranha aberração de todas as regras moraes, que tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as cousas intimas e sagradas, aquillo que no seu coração havia de mais recatado e nobre, com os mais baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, e esta suspeita torturava-o.

A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppressão. A fadiga e a frescura da madrugada trouxeram-lhe porém duas horas de repouso. Pelas sete horas da manhã despertava e a alegria da natureza, o bulicio do mercado, que era junto á sua casa, todo o fremito de vida proprio d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.

Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado da morte do pae, mas que mal houvera n'isso? Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a apparencia de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado com que olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os amores não tinham passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se na sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. Não havia de que se arrepender. Tivera confissões intimas com uma mulher que conhecia ha pouco, mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; a isto se reduzia a sua falta, se falta tinha havido. Não era motivo para inquietações.

Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar os serões de Emilia, duas ou tres vezes por semana.

Os fumos de conquistador pareciam apagados, lançara-os á conta das suas bastas phantasias, e entregava-se sem reserva á doçura d'um convivio em que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar Emilia. Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de gostar d'ella.

—Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! Nunca me entendi com essa gente. Não saio do meu canto, estou velha para aprender costumes novos. E quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não ha um mez e já te parece uma santa. Caça d'arribação! dizia teu pae que Deus haja.

—É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo, ha-de gostar d'ella, verá.

Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não se dava por vencida, meneando negativamente a cabeça.

Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho. Claudio nunca faltava. Dispunha sempre as suas cousas de modo a que estivesse livre n'essas noites.

Emilia pedia-lhe singelamente que não faltasse e elle queria mostrar-lhe que nunca esquecia os seus desejos.

Demais, se o juiz não vinha, não havia whist e todos se juntavam em volta da meza do loto, palestrando e interrompendo o jogo a cada instante.

Então corriam horas deliciosas para Claudio, entregue desprendidamente á admiração de Emilia cujo espirito d'uma infantil alegria contrastava tão singularmente com as suas pesadas e sombrias duvidas habituaes. Para ella, a vida era apparentemente um trinado de aves.

Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.

—Ha um muito bonito, mas é um pouco longe, disse Claudio, Lourosa.

Ninguem sabia onde ficava.

Claudio explicou:

—Lourosa fica entre Villar e a Ariosa. Sóbe-se a estrada até Villar, depois começa-se a descer e no fim d'uns tres ou quatro kilometros encontra-se a povoação. É uma aldeia, sem cousa alguma de notavel; os pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar, esses são d'uma extraordinaria belleza, cortados de ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes abundando em vegetação. Um retalho delicioso de natureza montanhosa!

Todos desejavam vêl-a.

—É bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de manhã, levamos o almoço, passamos por lá o dia e ao anoitecer estamos em casa. Depende só da vontade de v ex.as. É marcarem o dia e eu me encarregarei de tudo.

—Vamos lá! Estou prompto! Magnifico! Não falto!—grande alarido de vozes confusas em torno da meza.

Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a mulher, Emilia e Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira que tinha vindo advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas dez pessoas.

Assim é que os passeios são bons, diziam; onde vae muita gente, d'ordinario não se passa sem qualquer cousa desagradavel.

Tres dias depois, ás seis horas da manhã, no pateo do palacio de Claudio, um char-à-banc ordinario tirado por dois magnificos cavallos, nédios e impacientes nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes, esperavam os convidados. Em cima do carro havia tres cestos de verga, da ilha da Madeira, dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha por baixo da qual se adivinhavam as garrafas de vinho.

Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os á porta. O primeiro foi o reitor que, contava, já tinha dito missa e tomado a sua chavena de café; era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago vasio. A isso, graças a Deus, devia a sua saude; não havia de fazer como o seu collega do Eiral que não tinha cuidado nenhum comsigo e agora lá ia para as Pedras Salgadas a vêr se conseguia algumas melhoras. Incommodo, despeza, e no fim viria bem ou mal, como Deus quizesse:

Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado um pouco e pedia desculpa, mas não quiz sair sem vêr a mulher do José Manco que estava com uma pneumonia, muito doente.

—Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas pneumonias como as d'estes sitios nunca encontrei. Terriveis! Quasi sempre fataes. Não sei se é do clima, se da constituição da gente... Ahi vem já o Ricardo e a sr.a D. Emilia com o dr. Maia. Bom! Só faltam as Silvas. Não pensei, ainda assim, que fossem todos tão pontuaes.

Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido que conversava com o advogado, queixando-se ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita azul guarnecido de rendas brancas, luvas côr de camurça e grande chapéu de palha clara com papoulas vermelhas. Trabalhára até á meia noite, a burnir o vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e a enfeitar o chapéu composto com uma velha carcassa que tinha comprado ha dois annos e as flores que trouxera no chapéu de inverno.

O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas e envergonhada, ás occultas, andava constantemente remexendo os farrapos para improvisar enfeites que satisfazessem os seus appetites de elegancia.

Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom gosto começava a admirar, esmerara-se e vinha contente, julgando que elle havia de reconhecer no traje a distincção da pessoa.

Não se enganava. Claudio admirou a sua gentileza; intimamente fazia confrontos entre as senhoras da villa. Emilia era decididamente a unica com educação. Fina, muito fina! concluia no seu juizo.

Pelo seu lado, procurava tambem não decair no conceito da sua amada e pedia-lhe agora desculpa da pobreza da carruagém. Uma grande falta de recursos para fazer alguma cousa em termos! Tinha procurado um breack decente, mas nem em Coimbra o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se obrigado a remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos. Se continuasse por ali, porque pensava em se estabelecer definitivamente em Albergaria, havia de comprar uma carruagem propria para aquelles passeios.

Eram quasi sete horas quando appareceram as Silvas, acompanhadas d'uma creada ofegante, com uma pequena cesta á cabeça.

—Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa! Mas a culpa não foi minha. A mana não quiz vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,—é muito bom, é ainda feito por uma receita que nos deu a D. Adelaide Saldanha,—e aquelle forno é um castigo. Primeiro que aqueça...

—Ora v. ex.a a incommodar-se... interrompeu Claudio.

—Deixe lá, deixe lá, disse o dr. Carvalho, que mostrava com ellas grande confiança, quem corre de gosto não cansa. E visto que foi para nosso regalo, havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, já ali vão,—e apontava para o cesto das garrafas.

Recolheram-se todos á carruagem que partiu, oscillando ao sair o portal. O reitor e Ricardo tomaram logar ao pé do cocheiro.

—Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor, escusamos de aturar senhoras. É bom para o Maia que está novo e o Carvalho tambem... chega-se muito para as Silvas. É menino! Eu cá já não faço versos. Tomára eu mas é o almoço. Parece-me que já ia.

—O sr. tambem está sempre com essas cousas! Ora não seja má lingua... dizia o reitor.

Ao passarem na botica, estava o boticario á porta a conversar com o regedor do Sobral.

—A vida está para aquelles, disse despeitado por não ter recebido convite. O pae e o tio a pouparem para estes agora gozarem!

A companhia ia alegre.

As Silvas palravam com o advogado; interiormente sonhavam ali um casamento, sua ambição capital. Fallavam das suas flores, das suas gallinhas, dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar d'azeite, procurando com deligencia pôr em relevo as suas virtudes domesticas. Mutuamente se elogiavam; uma sabia de cosinha como ninguem, não havia má cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam, tinha nascido para homem, constantemente nos campos, á frente dos bandos na apanha da azeitona, entre as vinhas, no outomno, com grande chapeu de palha, dando ordens e berrando aos trabalhadores:

—Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada em ordem! Que estupidos! Não póde a gente ter um momento de descanso...

O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.

—Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.as foram educadas á antiga. Bons tempos! As meninas d'agora vão para os collegios e vêm de lá anemicas, sem prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem para tocar piano.

Tambem elle pensava em casamento: queria cousa de conveniencia. A sua ambição era um dote de dez a doze contos de réis. Não o tinha ainda encontrado, mas não desanimava nas suas deligencias.

O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação, ora com gracejos, ora lisongeando as Silvas.

—Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda vêm a cair.

Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher do dr. Carvalho e a Emilia, empenhado em prender esta ultima aos seus sentimentos. Apontava tudo o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, os carvalhos nodosos do Casal Novo, projectando-se nos montes nus e asperos, a varzea de Villar humida e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam em torno.

—N'este tempo, o campo é muito bonito, exclamava a mulher do doutor em admiração convencional.

Emilia, intimamente insensivel, sómente por ser agradavel a Claudio, repetia:

—É bonito, é realmente muito bonito.

Sentia-se bem, não pelas impressões da paysagem, mas pelo doce prazer de ouvir Claudio.

Tinham passado a primeira cadeia de montanhas começavam agora a descer rapidamente para Lourosa.

Á esquerda, no extremo horisonte, ficavam as corôas de neve da serra da Estrella, em frente, em toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as serras da Louzã, as faldas bordadas de aldeias, de pinhaes e de campanarios, os píncaros despidos e negros, respirando, no ceu sereno e mudo, solidão e grandeza.

—Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me que você se enganou; isto aqui ainda é mais feio que do outro lado.

—Oh! não. Eu acho este panorama magestoso. Magestoso, meu amigo!

—Será, não digo que não. Eu é que não vejo senão muita pedra. O que vale é que você hade tratar-nos bem. Que horas serão?

—Oito.

—Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar é enorme e nós viemos devagar. Os seus pobres cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma carga d'estas!

—Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui a meia hora estamos em Lourosa.

A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes modificava-se; a vegetação tornava-se mais basta e os raros casebres dispersos eram construidos de delgadas laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco atravessavam Lourosa.

—Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor diz que estamos em Lourosa. Para onde nos leva você, ó doutor?

—Não seja impaciente; vá andando, vá andando que não se hade arrepender, respondia Claudio.

—Eu sei lá! Desconfio...

Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando nos pinhaes bastos e sem interrupção que cobrem aquella região de monticulos e desfiladeiros. Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno são continuados e dos valles apertados, entre o matto espesso e tenro, solta-se um alento de viço e de frescura. As urzes floriam em quebradiços calices de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam as suas fulvas e aladas flores.

—Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr. Carvalho. Dou a mão á palmatoria. Sim, senhor. Valle a pena vir cá.

—Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.

Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, um pobre abrigo com uma só porta, sem janellas, feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a luz espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que esperavam os creados de Claudio que tinham vindo adiante, alta madrugada, para fazerem os primeiros preparativos. Com a mobilia do cantoneiro conseguiram montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte, longe da estrada, para fugir aos curiosos, de modo que não fossem vistos de quem passasse. Eram essas as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto, dizia um dos creados, para quando s. ex.as quizessem.

Claudio propôz á companhia um passeio. Era muito cedo, passeiariam agora pela fresca viriam depois a almoçar quando o sol apertasse, que o dia promettia ser quente.

Todos acceitaram. Só o reitor e Ricardo é que se apressaram a pedir que os deixassem ficar. Já sabiam o que era gente nova e o que eram as serras; não se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.

—Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa a seu modo; e as Silvas, aproveitando o ensejo para fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia que não sabiam que gente era aquella, tão commodista. Para ellas não havia como andar a pé. Tinham ido uma vez á Senhora da Penha, umas boas tres léguas por maus caminhos. Pois ainda não era noite quando voltaram a Barrosas e do dia seguinte, ás cinco horas da manhã, estavam a pé como se nada tivesse acontecido.