A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança a Claudio.
Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre as horas, quantidade e especie de refeição a que devia sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.
Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente vestida de negro, levando nas mãos um livro rico, presente do casamento que uma sua parente beata expressamente encommendára em Paris e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar a cruz e o altar.
Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe era permittido, mas ás quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé, para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão. Tinha pressa, para não perder o logar que o conego promettera reservar-lhe.
Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando graciosamente o livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de emoção, clamava no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar o Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais de temor que de piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente acompanhando a onda de povo que se dirigia á porta da egreja e entrou na carruagem.
—Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.
Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, já levemente irritada:
—Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!
Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza, estacou.
A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.
Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.
—Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente no meio da rua.
Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica palavra.
—E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!
Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura acabava de receber? pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões, para retardar ainda por mais algum tempo a convicção de que a sua vida estava unida á mais cruel aridez do coração em que os seus sonhos de piedade christã tinham de se dissipar.
O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir apresental-o. Choviam então as exclamações. Ai! Mas que belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...
—É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras. É o retrato do avô.
Laura passava então momentos felizes. Não era o filho seu producto e propriedade, não vinham os elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?
A satisfação da vaidade continuava-se agora sob uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto, uma belleza!...
O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que por ella começava a ter, lembrando-se da indifferença com que abandonára o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus chóros não a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter novos filhos.
Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados e os braços doridos das longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada que tinha deante de si; a convicção do naufragio das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito. Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..
Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de Claudio.
A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio e posse a que a tinham habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados pela submissa obediencia com que o marido se curvára a todos os seus appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que procurava concentrar-se algumas horas na reflexão sobre a sua malograda existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em movimento. O amor em Laura não era o ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para outrem, era a paixão de possuir e conservar só para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder explical-o.
—Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...
Succederam-se longos mezes sem que a situação se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extincção de todo o affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenções de religião e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho assiduo, procura servir o proximo.
Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço ou se o filho se mostrava impertinente.
O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando, havia de alcançar o conhecimento da verdade, que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar a existencia, estava hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham festejar os annos das pessoas de familia—os pretextos de festas multiplicavam-se,—ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar pressa, rematava a toilette para passeiar de carruagem, ou se consumia em qualquer outro frivolo mistér.
Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de réis de renda que Claudio possuía e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta, sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, uma creada para o serviço de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira, mais outra para o serviço das roupas, mais outra para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da pequena casa da estrada da Beira.
Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de réis além dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.
—Tu bem sabes que não se póde viver com menos! respondia ella com vivacidade. Só se queres que eu lave a roupa e faça a cosinha...
—Não, mas tudo tem limites.
—Tem muita graça essas economias! Quem não quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva, com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses procurar uma pessoa fina.
—Talvez não tivesse sido infeliz...
—Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem, não me faltava lá nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.
Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente, porém, o desengano consumava-se e o desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de revolta.
Começava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos companheiros, já não significavam esperança; eram apenas o natural repouso das cogitações em que a sua infelicidade se revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.
Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que não podia esperar de Laura outra cousa que não fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites venciam todas as tentativas de conversão que o marido tinha tentado, emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.
—Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pôr o chapéu na cabeça.
—Passeiar e tratar umas cousas na baixa.
—Mas eu preciso sair tambem...
—Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.
—Bons costumes! E muito delicados...
Claudio não respondia; continuava o seu caminho. Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se em extensos passeios á beira do rio, na contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o coração dorido um rapido refrigerio.
Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usára com proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos seus sentimentos.
Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o chamar; tivéra um novo ataque de paralysia e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que constituiam, uma ameaça grave.
Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria noticias e depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua vida.
Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava, que o estado da doente era muito grave.
—Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que é, deve ter coragem para se conformar com o destino.
Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.
—Posso fallar-lhe, não posso?
—Póde... Ella por emquanto está ainda bem. Mas não convém conversar muito. Sempre excita...
Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.
A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se, chamou baixinho:
—Minha mãe, minha mãe?
—O que é? respondeu a velhinha abrindo os olhos.
—Está aqui o Claudio.
—Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com a mão esquerda, que o braço direito estava completamente paralytico. Estou muito mal... É tempo de dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que cá viesses hoje...
Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras tardavam e a voz embaraçava-se.
—Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando a chamam, diz meia duzia de palavras e depois fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se lembra de que foi ella que te mandou chamar.
Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo da meia noite, a velhinha moveu-se no leito. Claudio perguntou:
—O que tem? Quer alguma cousa?
—Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.
A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se da mãe, a observal-a. Pareceu-lhe alterada a face; para vêr melhor, desvendou a luz que estava sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno bahú de coiro, antiga herança da casa em que o pae guardava os titulos das suas propriedades.
—Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.
O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.
Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os animára com o seu alento e que lhes legava a eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.
Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas, tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito, mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam o crucifixo, em cima da commoda, convertida em altar.
Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos que vinham com palavras de sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.
Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.
—Vae vel-a, disse para a mulher.
Na confusão do seu espirito perpassou a esperança d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.
Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo parecia dormir.
No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas commodidades. Sabia que ella não podia estar contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presença perturbava-o.
Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu espirito era completa, tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra, lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á irmã e partiu.
Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas de gente fina que vinha trazer-lhe consolações banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras vezes.
Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas e regular os seus negocios, mas a verdade é que queria estar só com as suas saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria concentrar-se na meditação, tentar descobrir e vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças, desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caça. Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.
VI
Villalva! O silencio e a paz no contacto da natureza, a absorpção no seu caudaloso palpitar, o arrebatamento nas suas emanações purificantes! Perante a cintura de montanhas que lhe cerravam o horisonte, lançando os olhos pelo valle em que os casaes dormiam escondidos no arvoredo ou debruçados á beira dos campos vicejantes, Claudio sentia uma vaga aspiração, um desejo obscuro cortado de saudades traduzindo-se n'um pullular de interrogações que opprimiam. Onde estava? Por que agrestes caminhos tinha andado? Onde ia? O que queria?
Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros risos e as suas primeiras lagrimas, perante o vulto sagrado da mãe, agora sempre presente aos seus olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer, na exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia a sua existencia, recordando factos, buscando ainda, com uma tenacidade de naufrago, esperanças de salvação.
O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas sobre a situação a que chegára, a historia da sua vida era um livro aberto em que não ficava o mais breve enigma nem a mais passageira obscuridade. Recordava os annos da infancia e mocidade, o respeito pelo trabalho e pela humildade de que seus paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo ininterrompido, via como depois surgira a tentação accendida pelas fascinações da sciencia materialista e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com angustia a tortura em que o lançára o tormentoso desvairamento do adulterio.
Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda sobre a significação moral da vida elegante, confundindo o luxo e a arte, a delicadeza do espirito e os cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia fidalga sonhando a alliança d'uma simplicidade christã com os requintes artisticos e os gozos e as commodidades da gente fina.
Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido dolorosamente e profundamente. Encontrara um egoismo sem limites, occultando-se em palavras doces e sorrisos convencionaes, onde esperava uma alma aberta á sympathia, ao amor e ao sacrificio; encontrára uma inconsciente crueldade onde phantasiára uma perenne bondade e denguices sentimentaes no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora tudo estava perdido, sem remedio.
Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor de recomeçar a sua vida; ligado pelo casamento seria arrastado na sua desgraça sem remissão. Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, os continuados motivos de desgosto que ella lhe dava e que por constantes definiam a sua vida normal; os ralhos e a odienta brutalidade com os creados, a aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação e essa avidez feroz com que reclamava o marido só para os seus prazeres, para os seus vicios e para as suas futilidades fidalgas, não lhe permittindo um momento de liberdade, não lhe concedendo, n'uma hora de bondoso desprendimento, que vivesse para si, para os seus trabalhos, para o seu repouso, ou, mais singelamente ainda, para as suas meditações.
Na verdade, não tivera com Laura um só acto de violencia, não podia dizer quando começára esse sentimento indefinido que o fazia temer a sua presença e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por isso a dissolução era menos completa; infiltrára-se-lhe na alma, subtilmente, impregnando-a dia a dia mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do fél que trasbordava jorrando um sombrio desespero.
Como supportára até então essa cruz, porque não fugira ha mais tempo do logar em que um tormento incessante o perseguia? Não tinham sido as esperanças de emenda da parte de Laura que o tinham contido. Essas perdera-as por completo quando o filho nascera; a mesquinhez da sua alma revelára-se então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma arreigada convicção que, de resto, os factos quotidianos confirmavam tenazmente.
Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se, n'um exame da propria consciencia, que só por amor de sua velha mãe occultára a sua desgraça tentando deixar-lhe sempre a impressão de que vivia feliz. Sim, só por ella bebera corajosamente esse calix sem trepidar, sem uma apparente contracção, para que a tristeza não perturbasse a sua velhice e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade de quem louva a Deus por ter abençoado de felicidade a sua próle.
Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço que o ligava á terra! Aquelles cyprestes que além oscilavam ao vento junto á egreja, tinham agora para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos não se desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores, fitando os tumulos, buscando a revelação do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre. Para Laura, sua esposa? Era alheia ao seu coração e, ámanhã, quando o tivessem lançado ali ao pé de sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria, em carruagem, a fazer mesuras lacrimosas por casa dos parentes fidalgos, e bateria nos creados quando errassem e em accessos de ira expulsaria os mendigos do jardim.
Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante a imagem d'essa dôr mentirosa, ávida da vida, d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do mundo crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada podia esperar d'elle. Havia de crescer ao sabor dos caprichos da mãe. Já uma atmosphera de louvores e constante lisonja começava a tornal-o enfadonho e falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de regalos, a perversão mostrar se-ia completa. Melhor seria livrar a tempo os seus olhos d'essa imagem em que veria incessantemente a miseria do seu destino. Viver para os estranhos, para os desconhecidos, para uma vida de caridade, enxugando lagrimas, agasalhando os indigentes, levando consolo aos desventurados? Era tarde! Toda a energia estava extincta, consumida na propria desventura. Viver para os prazeres do corpo, lançando para longe todas as preoccupações moraes, despindo-se affoitamente d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando a casa da estrada da Beira sob a impertinente insolencia da mulher, sentira os impetos d'uma reacção naturalista que o vigor dos annos atiçava mas de todas as tentações logo accordava pela lembrança dos tormentos passados em Albergaria da Serra nos tristes annos dos amores de Emilia e pela perseguição de invenciveis espectros da consciencia em que as aspirações de virtude se confundiam com a imagem da sua mãe, no intimo sempre presente.
Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, privada de todas as alegrias que ambicionára, continuamente retalhada de dôres? Tivesse a coragem de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. Para que servia n'este mundo? O pão que o alimentava queimava-lhe os labios como um roubo ao trabalho dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio não seria um crime nem uma deserção, era uma obra de caridade livrando a humanidade d'um ser enfermo e esteril, era um acto de justiça, reconhecendo e castigando o desvairamento da sua existencia perdida em sonhos vãos e agora sacrificada á frivolidade d'uma mulher. Uma pesada sombra lhe escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo eternamente mysterioso como o mar calmo em que precisava lançar-se para seu repouso, para sua gloria, para sua redempção.
N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã, desde que fallecera a mãe de Claudio, a casa de Villalva era invariavelmente visitada pelos devedores, pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella dependiam.
Vinham regular as suas contas, pedir perdão das dividas em atrazo ou que lhes esperassem pelo pagamento das rendas caidas, saber se poderiam contar com as terras, o que seria de futuro, a quem pertenceriam.
Era gente rude, vestida de burel, mostrando no peito uma camisa grosseira, de grandes e toscas botifarras, muitas vezes descalça, tendo deixado á entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres vinham tambem; por homenagem ao novo senhor traziam-lhe aves que iam levar a cosinha, em pequenas cestas.
—Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam gemendo para que Claudio ouvisse e se compadecesse da sua pobreza.
Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, começavam a falar dos seus males, este dos gados que lhe morreram, aquelle das doenças que houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos maus preços. Terminavam pedindo alguma cousa. Por alma da senhora sua mãe... rematavam.
Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal, não tinha coragem de resistir. Era no seu espirito uma instantanea resurreição de qualquer cousa sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.
De resto, as horas que passava com os arrendatarios, com os devedores e com os creados que vinham receber ordens e dar contas das suas obrigações, eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. As riquezas do mundo encerravam-se em algumas medidas de pão guardadas na arca, em meia duzia de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto o rebanho vae traçando o pasto, e tecido nos serões de inverno á minguada luz d'uma candeia.
Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás o pão com o suor do teu rosto», é tudo, um evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o sustento que ella nunca recusa ao teu suor, não contes os teus passos, nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha sempre, para ti, para os filhos, para os visinhos, para os viandantes que passam no caminho; não penses para que nem para quem, os necessitados te virão buscar o pão, como nas horas de miseria tu irás tambem viver do trabalho alheio.
A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam e nada pretendiam ensinar. De tanto estudo e ambição, de todas as suas cogitações e de todos os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli correctivo.
Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera n'essa noite em que, creança ainda, pela primeira vez deixára Villalva para ir buscar riqueza e saber que tão cedo se converteriam em infortunio, e a ideia da morte voltava como a unica redempção.
Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia que crimes eram os seus para que assim fosse abandonada, que todos a estimavam e adoravam, menos elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o pois ella, se por alguma cousa peccava, era pelo muito amor que lhe tinha. O que diriam, perguntava, todas aquellas pessoas com quem convivia ao saber que Claudio desertara a sua casa quasi completamente? Por certo haviam de o condemnar.
No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação do que Claudio por demais conhecia, a vaidade da mulher, a crença nos seus merecimentos alimentada pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma vontade insaciavel, absorvente, de ser senhora de todas as acções do marido.
Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um objecto que era seu, para seu uso e regalo e não para viver para elle, sacrificando-se. Confirmando a sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar das suas cogitações podesse surgir.
Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao campo em que empregára tantos cuidados quando habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes dos amores de Emilia em que julgára ter alcançado a felicidade. Com que risonha esperança alli se sentára em mornos crepusculos do estio e em que desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua culpa!
Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No seu proprio abandono havia uma belleza consoladora; os jacinthos que brotavam entre a herva, as roseiras que se perdiam nos ramos das larangeiras, todo esse desalinho da natureza a que era estranha a mão do homem, cantava a vida ingenua e simples em emanações de viço e de frescura.
Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra e o campo brilhava todo aljofrado de gottas de agua.
Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras que a enleiavam e olhou procurando um carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam todos os caminhos.
Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se para a colher. Reparou então que eram muitas estendendo-se pela beira do caminho, rompendo por meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra das acelgas.
Instinctivamente, começou a limpar o chão das plantas parasitas, primeiro devagarinho, com medo de se sujar e de se picar nas ortigas, depois affoitamente, sentindo um prazer estranho em afundar os dedos na terra. As violetas iam surgindo e, assim libertas, pareciam grandes e bastas.
Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim não podia mais, todo o corpo mortificado pela posição em que estivéra, abaixado. Levantou-se, contemplou com alegria os poucos palmos de terra que tinha limpo, e, para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, enlameando-se, sem receio, procurando as plantas que tinham resistido ao abandono.
No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho, á tarde, depois de ter recebido os clientes. Antes de sair, voltou a vêr as violetas. Abaixou-se novamente, teve tentações de continuar, mas não podia mais, os membros entorpecidos.
—Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.
Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação. Apetecia-os com frenesi.
Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao campo. Trazia a ferramenta, o sacho, a thesoura e a navalha, para poder repousar d'um em outro trabalho. Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo dorido ainda do exercido da vespera. Começou a sachar um alegrete, mas o serviço ia mal feito, deixava escapar algumas hervas e a terra ficava aos montes, mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava a apertar pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, mas a mão tremia-lhe, o córte era incerto, mal rematado.
Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada pelos vendavaes do inverno. Que infelicidade a sua! Quanto desejava, tudo lhe era vedado. Não poder trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!... Seria a salvação. Affluiam as lembranças da mocidade, o prazer de cuidar das suas flores que a mãe vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo ainda, as forças voltariam com o uso.
Cada dia começou então a ter para Claudio os seus momentos de prazer. As violetas expandiam-se agradecendo os carinhos de quem lhes déra espaço e sol, as roseiras mostravam purpureos e tumidos botões e já da cylindra se erguiam suavissimos perfumes. Era uma festa interminavel que recrudescia a cada instante em novas vibrações de vida, coroando e abençoando o esforço humano.
Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira da sua vida, a natureza, e tenazmente procurava vencer e sujeitar o corpo debil ao seu grande amor.
No dia em que pela primeira vez lançou mão da enxada, passou-se na sua alma um grande drama, uma lucta gigante entre o destino e a esperança. Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e cravou-a no sólo. Depois, firmando-se, recuou o corpo e voltou a leiva cortada cerce, rompendo a terra de cuja escuridão se desprendia um alento de fertilidade, como uma promessa. Ergueu novamente a enxada, cravou-a, recuou e voltou uma outra leiva. Triumphava! De repente, porém, cairam os braços e um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo. Não podia! O esforço era superior ás suas forças; uma reacção violenta quasi o prostrava. Encostou se á enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe pela fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!
N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A esperança, succedendo ao desalento, reanimaria o corpo enfermo e d'aquella união, fecunda e casta, sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar a fome aos miseros famintos e para restituirem á vida a alma angustiada.
Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco horas no seu campo, vencendo pelo exercicio e pela perseverança a debilidade physica, affrontando as instancias dos servos, que se julgavam humilhados vendo regeitados os seus serviços, e desprezando risos equivocos dos visinhos que entre si discutiam se Claudio era um avaro, se um louco.
—É aquelle mesmo genio do pae, diziam uns. Muito agarrado!
—Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que lhe deu. Elle não faz aquillo para poupar. Parece até que se importa pouco com o que é seu. Tem perdoado as dividas todas e traz as rendas de rastos.
Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do trabalho n'aquella estreita lavoura, Claudio tomára á sua conta alguns serviços de casa mais ligeiros. Era elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua caracteristica e descompassada alegria, abeirando-se do seu senhor com as caricias de gratidão que elle recebia com avidez, elle que era tão pobre d'essas dadivas.
Mas não podera banir ainda todas as horas de angustia; a fadiga e os novos prazeres d'esta existencia nas graças da natureza não tinham vencido inteiramente as tristezas da meditação. Ás vezes voltavam os zumbidos demoniacos do desespero e com elles a prostração do espirito. Não, não havia modo de se libertar e desprender do passado! A sua vida estava finda, precisava ter a coragem de comprehender e esperar com resignação o esphacelamento d'esse involucro que se lhe afigurava desprezivel e que era o seu corpo.
De longe em longe, vinha a Coimbra. Não tinha animo para um rompimento formal; a dissolução dos antigos vinculos ia lenta, com bastas interrupções, prendia-se em conveniencias que não conseguira combater victoriosamente, e com os estranhos mostrava cuidar da administração da casa e estar preso em Villalva por interesses temporaes.
Laura recebia-o com um azedume que não procurava encobrir, mitigado de contentamento por ter ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente vaidade, julgava se perfeita; attribuia o affastamento de Claudio a sentimentos brutaes e ruins.
Já a mãe deixava entrevêr nas suas conversações entre os intimos a infelicidade da filha e não perdia occasião de repetir:
—Coitadinha! Quasi sempre só... Meu genro tem aquelles gostos extravagantes. Só está bem entre brutinhos.
Claudio comprehendia o que se passava em volta de si; pouco fallava, cortando sempre abruptamente qualquer tentativa de explicação sobre o seu viver.
Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem a mulher lograria fazel-o mudar de rumo nem elle conseguiria emendar o insubmisso caracter da mulher, formado para o egoismo e para a vaidade n'uma atmosphera de inconsciente perversão. Por isso se tornára taciturno. Quando por acaso se encontrava nos serões do palacio da estrada da Beira, apressava-se a tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem de conversar e não o perseguissem com indiscretas e enfadonhas interrogações sobre os seus passos e os seus actos.
Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a Villalva, lançando fóra com desprezo o casaco que o embaraçava de trabalhar e a gravata que tinha por um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal calçado, começava a visitar os gados e as plantas, retemperando-se no silencio d'aquellas montanhas; e este regresso ao ninho, como lhe chamava, deixava-lhe invariavelmente nas primeiras horas a impressão d'uma felicidade reconquistada e segura. Accordava-o uma vibração salutar, emanada d'esses milhões de vidas, mudas para o coração arido, eloquentes para os que palpitam na mesma onda.
Em frente da casa de Claudio morava um velho que fôra creado de seus paes. Juntara um escasso mealheiro á custa d'uma economia inflexivel, casára com a visinha que possuia aquelle albergue em que habitavam, e com isso e com as terras que o seu antigo senhor lhe déra de renda tinha prosperado em certa independencia.
Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns tinham ido para o Brazil, outros trabalhavam em Lisboa, outros tinham-se casado, outros morrido, e em casa, a este tempo, tinha só um rapaz de quatorze annos que o ajudava na lavoura e uma filha de vinte annos, e de nome Maria, que no labutar domestico auxiliava a mãe alquebrada pelos partos, pela creação dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas fadigas.
Claudio olhava aquelle casal como um templo em que se guardava pura a felicidade e a virtude. Era aquillo que elle hoje desejaria para si, se podesse recomeçar a sua vida;—ter tirado da terra com o suor do seu rosto o pão de cada dia e ter dado ao mundo uma numerosa próle de gente honesta e sã.
Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas a conversar com o visinho, interrogando-o com uma curiosidade insaciavel, como começára, d'onde viera para alli, como conseguira crear os filhos. O velho contava singelamente; parecia sentir prazer em rememorar o passado. Para comprar os primeiros gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que o do mealheiro não chegava.
—Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração, tinha aquelle genio... Para os desmazelados era todo imperioso, mas para quem lhe andasse direitinho era bom, gostava de os ajudar. A mim, era elle mesmo que ás vezes me dizia: Porque não compras mais uma junta de bezerros? Tens ahi tanto pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o alli, áquella arca da sala onde a sr.a sua mãe, Deus lhe perdoe, guardava as arrecadas e o cordão. Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. O Julio morreu mais cedo, era um rapagão! tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado. Mettia dó. Mas emfim... Deus Nosso Senhor assim o quiz.
Entretanto a rapariga passava levando para a ceia a hortaliça lavada na ribeira; accendia a candeia, e começava a cortal-a num alguidar, sobre a meza. A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra, em que a agua já fervia.
Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração em que se envolvia a tristeza da sua vida desbaratada.
Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse já alto e a fadiga o prostrasse, procurando a sombra, sentou-se junto a uma oliveira, ao pé da cancella, enxugando o suor.
Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, descalça, o pé comprido e magro, erguendo os braços a amparar o açafate que trazia á cabeça, cruzado no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.
—Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse ella avistando Claudio. Isso até é peccado andar assim a cançar-se sem precisão...
Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á rapariga, embaraçado, como desculpando-se, attentou na sua belleza.
Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e assim de pé, sorrindo, os braços erguidos, lembrava uma estatua antiga, d'estas em que cristalisa o ideal feminino d'um povo inteiro.
—Que linda me pareces! exclamou depois de ter procurado justificar-se das suas fadigas que Maria tanto estranhava.
—Eu! Linda!...
E riu-se.
—Mal diria que havias de ser bonita quando estava em Albergaria e vinha aqui ás tardes. Ainda me lembro bem!... A maior parte das vezes encontrava-te a guardares as ovelhas com o cesto da meia no braço e o fio d'algodão preso no hombro. Agora estás uma moçoila que os rapazes hão-de cubiçar.
—Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada e ao mesmo tempo envergonhada com o elogio, contorcendo-se timidamente.
E seguiu ladeira acima.
D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á rapariga. Prolongava a conversa, á noite, com o pae d'ella para a vêr risonha e deligente a cuidar da casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á cancella do seu campo. Não trocavam palavras de amor; elle interrogando-a sobre o seu viver, sobre as suas ambições e os seus prazeres, procurando penetrar a sua alma, ella respondendo laconica, com um inalteravel sorriso em que revelava meigamente a sua sympathia.
Claudio, reflectindo na attracção que sentia por Maria, tentava convencer-se, a poder de logica, de que não tinha tomado novos amores. Era um symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava a suprema sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a com um fervor intimo, agradecendo-lhe a revelação d'esse mundo de paz e de felicidade. Não passaria d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; queria coroar pela castidade esse novo culto.
Maria tinha um campo proximo áquelle em que Claudio trabalhava e onde elle, na impaciencia de a vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde a conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou na estrada um rapaz ligeiro e agil, com um vigor de mocidade que ao primeiro olhar se mostrava. Ella, vendo-o, disse para Claudio:
—São horas. Vou-me até casa.
E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao lado.
Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.
—Oh, Maria! Isso é que são creados!... Muito boa noite, sr. doutor, gritou de longe o rapaz alegremente.
—Quem é este rapaz? disse Claudio com certa anciedade, parecendo-lhe na frouxa luz do crepusculo que um ligeiro rubor se derramava nas faces da rapariga.
—Então não sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as boas noites.
—Mas não sei quem é. Não me lembra de o ter visto.
—Já lá tem ido a casa. É o filho do tio Antonio da Azinhaga. Móra lá mesmo.
Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no espirito. Áquella hora... fazendo caminho por ali.. o modo como se dirigiu a Maria... Adivinhava! Era o seu namorado!
—Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.
—Creio que sim, respondeu Maria serenamente. Pelo menos assim o diz.
—E tu gostas d'elle?
—Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me que não são comigo. Nunca acredito no que me dizem.
A conversa não continuou. Claudio, confundido, despediu-se de Maria.
—Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está tão lindo!...
Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da varzea ladeada de oliveiras. A lua subia n'uma serenidade divina, espargindo docemente a sua luz, e do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina pousava, erguia-se uma tranquillidade augusta em que se sentia a terra latejante de vida. Claudio parou, voltado para o nascente, ouvindo na contemplação as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. Era certo, era certo! As aves que arrulhavam na rama dos pinheiros, o musgo que rastejava pelos troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato polia, as aguas que desciam pressurosas, todos n'um côro unisono cantavam louvores ao seu destino. Só elle estava proscripto da alegria, pela propria loucura!
Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida, amparada entre as mãos, n'uma agonia de tristeza.
D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a natureza feliz? Bem o sabia; o seu coração já não se illudia. Uma oppressão de inveja e de ciume,—eis o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu namorado. Corára quando o avistou e quiz logo voltar a casa. Amava-o, era indubitavel. Em poucos mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam de celebrar na madrugada a sua união e elle havia de ouvil-os annunciando-lhe a sua desgraça. Que importava?! Não fizera voto de castidade? Não era Maria uma simples imagem perante a qual ajoelhava na adoração da simplicidade? Tivesse animo, desprendesse-se por uma vez das ambições terrenas, elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.
Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O espirito é prompto mas a carne é fraca», e não conseguia libertar-se da propria fraqueza, reconhecendo-a e condemnando-a na sua consciencia. Todos os raciocinios eram impotentes para dominar a dôr. A lembrança de que estavam terminadas as horas em que a voz de Maria, como um canto de feiticeira, lhe fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o. Iam roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.
A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da manhã, por que anciava, ergueu-se e de casa começou a espreitar a saida de Maria. Não tardou que ella apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça. Ia á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos para a casa de Claudio.
—Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu tormento?
E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por atalhos, a cortar-lhe o caminho. Chegou abaixo, proximo do rio, e começou a subir a encosta. Em breve a encontrava.
—Bom dia, minha rola!
—Que madrugada!... Quando saí, olhei lá para casa e vi tudo socegado. Pensei que ainda estivesse a dormir.
—Não, não dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou abruptamente: Quando é o teu casamento?
—Para a semana dos nove dias.
—Mas aquelle rapaz que hontem passou por nós, quer casar comtigo...
—Quer... mas eu por emquanto é que não quero casar-me. Já lh'o disse.
Para Claudio estas palavras foram um completo allivio.
Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos para a sua admiração, para na sua singeleza reanimar a alma enferma de cogitações e contrariedades. Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma confissão em que temia manchar a candidez dos seus sentimentos, e voltou a casa alegre e repousado, cantando, a cuidar dos gados.
Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o trabalho na lavoura. Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas fadigas o alquebravam. Pela madrugada estava a pé, distribuindo o penso aos gados. Almoçava um pedaço de brôa com um ligeiro condimento e vinha para o campo. Não havia já serviço de que não fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e alternar. Prendia-se á terra com um amor febril, talvez n'uma vaga ambição de igualar Maria e por isso melhor a merecer. A rapariga estranhava todos os devaneios de Claudio, perguntava-lhe se não era melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razões que elle lhe dava e que despertavam no seu coração um impulso de meiga sympathia.
Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda ter visto Maria. Algumas vezes isso lhe acontecia mas sempre o deixava aprehensivo e triste; então, o trabalho caminhava lento, os braços a custo podiam com a enxada. Era mal sem remedio; a mãe de Maria é que distribuia o serviço e nem sempre podia saber antecipadamente em que se consumiria a manhã.
Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido mais cedo e resignou-se com a lembrança de a vêr no regresso. Embalde porém a esperou. Maria não veiu, em todo o dia não poude encontral-a. Ficava inquieto. O que seria? Doença? Teria partido para fóra da aldeia? O espirito perdia-se-lhe em conjecturas. Pensava em parar á tarde a conversar com o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a casa de Claudio para vêr umas vitellas que este mandára vir de Miranda e por ali se quedou, no pateo, até á hora da ceia.
Desfeita esta ultima esperança, a inquietação redobrou. Para a acalmar, saiu n'um longo passeio, subindo pelos atalhos da serra. Queria muito áquella aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma sentimentos de força e tenacidade na vida ingrata, sujeita ao açoite de todas as intemperies, despida de todo o viço e de toda a doçura.
A noite ia adeantada, já ha muito tinham batido as dez horas. Desceu á aldeia.
Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir um vulto debruçado no muro da eira que era junto á rua. Aproximando-se, a sua suspeita confirmava-se. Era ella. Que felicidade! Todas as inquietações iam cessar.
—Boa noite, Maria. Que fazes aqui?
—Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o adormecer e agora estava á sua espera. Quero muito fallar-lhe.
Na sua voz percebia-se a perturbação interior. Claudio sentiu um fremito de terror.
—O que foi?! perguntou confundido.
Maria contou-lhe então que tinham dito á mãe que elle a namorava, que todas as manhãs a esperava á porta do campo. A mãe reprehendera-a e prohibira-lhe que lhe tornasse a fallar, a não ser em casa ou quando outras pessoas estivessem presentes. Ameaçara-a de o dizer ao pae, que nada sabia ainda, e de a mandar servir para longe, se continuasse.
—Esqueça-se de mim, esqueça-se de mim, foi o singelo pedido com que respondeu a todos os rogos e protestos apaixonados de Claudio que a deixou assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia de procurar esquecel-a. Bem sabia que não poderia fazel-o, que isso não dependia da sua vontade, mas queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo sacrificio.
Interiormente, quasi estava contente. Estes amores que terminavam sem macula engrandeciam-se aos seus olhos por este facto: a abdicação de todos os seus desejos em proveito da felicidade de Maria coroava d'uma maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.
Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, n'um amor sublimado. Iria a Coimbra, soffreria a tortura de viver ali durante um ou dois mezes e, quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se de Maria. De longe, silenciosamente, faria sua a alegria da sua amada onde a encontrasse, ou cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo a roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.
Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes aos creados os gados, as aves e as plantas. Iam sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas flores que careciam de regas mais frequentes, a hora a que convinha levar o gado ao pasto.
Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros da sua vida. Aquelles sim, aquelles nunca lhe mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas, prosperando e prodigalisando os fructos, derramando em torno a abundancia e a belleza.
Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados. Procurava bastas vezes vencer pelo movimento e pelo cansaço a agitação do espirito; por experiencia sabia quanto o silencio e a contemplação da natureza lhe eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam communicar-lhe uma parcella da sua serenidade.
Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto com grande estranheza. Não que elle tivesse deixado completamente de lá ir mas, sempre que o fazia, a sua vinda era previamente conhecida pelo facto de mandar ir a carruagem a Villalva... D'ordinario, demorava-se um ou dois dias dando solução aos negocios da casa e entregando pontualmente á mulher todos os rendimentos. Ficára assente pelo simples uso, sem qualquer declaração formal, que os rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, que d'elles dispunha como queria, e para elle só reservaria os bens de Villalva.
De resto, Claudio supportava este encargo de visitar e administrar a casa sem maior contrariedade apparente. Transpondo o portão da estrada da Beira era outro; envergava os trajos da gente da cidade e com elles rehavia antigos habitos de polidez e de delicadeza mundana. Ás vezes, parecia mesmo contente; a certeza de que dentro em pouco voltaria ao seu casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe tolerar resignadamente, porventura bondosamente, os costumes que no intimo condemnava e aborrecia. Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando alguem tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas suas lavouras, respondia com um laconismo que cortava todo o seguimento da conversa.
Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito discutido. Em geral, julgavam-n'o um maniaco. Laura e D. Maria Francisca tinham-n'o por um homem brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; o abandono da mulher e do filho, que aliás viviam na abundancia e no luxo, pareciam-lhes um crime. Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára muito a liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe respeitassem a sua.
—Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. Está no seu direito! E tu, dizia para a mulher, não gostas de trazer plumas no chapéu e de jogar o whist? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado sempre muito bom rapaz... Traz ahi a Laura com todas as commodidades e ainda fallam d'elle!
A vida desregrada e a estreiteza de espirito não tinham pervertido o coração do fidalgo. Incapaz de uma bondade activa, conservava um constante pendor á indulgencia e tinha, como homem enfastiado do mundanismo, certa attracção para os caracteres que se desviavam dos typos consagrados. Por isso estimava o genro e o defendia.
Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em Villalva, quando nas caçadas se encaminhava para esses lados.
Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros que se estiravam na sala, offegantes, a lingua pendente e humida, ostentando a dentadura recurva e eburnea.
Claudio recebia-o com sincero contentamento e affagava a matilha cujas proezas D. Pedro logo começava a narrar.
D. Maria Francisca escandalisava-se com essas visitas que destoavam da sua attitude reservada com Claudio. Se por acaso acontecia que o marido dormisse em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo em companhia dos seus hospedes beirões, não deixava de o reprehender, escarnecendo.
—Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a esses palacios! Ha-de-se lá dormir muito bem e com muita limpeza!
—Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos assomos da mulher. O Manoel de Vasconcellos ainda agora me escreveu de Lisboa a chorar pela ceia que Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo de porco, assado no espeto, alli á lareira, nunca mais esquece.
No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra foi á noite a casa dos sogros.
A sua presença despertou grande curiosidade entre os convivas, que eram muitos. Todos o rodeavam, e muitos, estranhando a sua magreza, perguntavam se tinha passado mal ou soffrido qualquer doença.
—Não, tenho passado excellentemente, magnifico, mesmo muito vigoroso, respondia Claudio.
Na verdade, estava magro, os olhos encovados, as faces enrugadas. Illudia-se tomando por vigor a excitação em que o trabalho physico e a intensidade das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.
—Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam insistindo os que o cercavam.
—Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou alguem. Que diz o doutor?
Este doutor era um medico que ha pouco tinha tomado capello em medicina e se preparava para lente da Universidade.
Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes sobre doenças nervosas, escriptos em francez, julgava-se senhor de toda a sciencia e deixava perceber, sem abertamente o declarar, para não crear antipathias que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, que os lentes nada sabiam. Elle é que estava ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o consultassem, tomando a consulta como reconhecimento dos seus talentos, e fallava pausadamente, cathedraticamente.
—Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, hoje a sciencia tem feito grandes progressos que, digamos de passagem, são quasi completamente ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós, estuda-se muito pouco; com excepção de meia duzia de homens de verdadeiro talento e de saber, no geral cura-se por uns processos rotineiros de que a medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças nervosas conhece-se muito pouco... mesmo muito pouco! Quando ultimamente defendi theses, tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes. Convenci-me de que a materia era perfeita novidade para os meus collegas. N'um caso, por exemplo, como este do dr. Claudio, o que a sciencia aconselha é não só o exame de todo o organismo mas particularmente a observação das manifestações nervosas. É cousa que demanda um grande tacto... um grandis...simo tacto! Qualquer medico que o visse, naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes. Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se por ella. Seria um erro! O dr. Claudio diz-nos que se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com apparencias de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio entre a força organica e a actividade nervosa, que é necessario combater. Uma vida tranquilla e particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo da quietação é o que hoje se recommenda n'estes casos. O mar em caso algum; a sua agitação é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio ganharia muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.
—Não digo que não, meu caro doutor, respondeu Claudio disfarçando mal um sorriso, mas nem sempre se pódem tomar remedios... tão energicos. São, ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto grau. Da algibeira, é claro.
—Sim... mas nas circunstancias de v. ex.a isso não é motivo.
—Eu não digo que rejeite por completo o tratamento, mas tomo-o em dóse mais moderada. Uma digressão pelo Minho será o bastante.
—Mas creia v. ex.a que isso não lhe dá resultado. O que tem desacreditado muitas vezes a therapeutica moderna é deixarem de a seguir com todo o rigor que a sciencia aconselha.
Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando o conselho, porque lhe convinha. Já antes tinha pensado que a permanencia em Coimbra não podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de Laura, de que nem o abandono do marido a curara, os serões em casa dos Albuquerques, toda a rede de impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter da vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. Precisava fugir d'alli.
Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi, por Montalegre e Chaves, desceria ao Douro para o atravessar e passar á provincia da Beira Alta d'onde voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o amor o trazia.
Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva inteiramente de posse da sua vontade que empregaria com firmeza em evitar quanto podesse levantar a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. Ia pôr-se a caminho.
Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e fria. Vinha rompendo o dia. No rio a nevoa e as aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam e retemperavam como deuses pagãos, em ondas claras.
Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão da vida ingenua, era o fructo prohibido dos seus anceios, uma recordação amarga.
Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas e pelos valles estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas pela alvorada que se espraiava empallidecendo o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as cupulas dominando e protegendo os tectos negros que, afundando-se pelas quebradas, rastejavam em torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora magestosos, ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas lagrimas, quanta tortura e miseria despertavam com a manhã d'aquella massa obscura! Um sentimento de piedade lhe apertou o coração, e logo o remorso começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem elle era criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, tambem elle ateiara com os seus desvarios o fogo das paixões que alimentam a miseria!
Porque saira de Villalva, porque não ficára ali como seus paes modesto e ignorado? Talvez... talvez... Uma suspeita lhe passava pelo espirito... Talvez então vivesse contente com Maria, no seu casal abençoado e fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade ignorada que só em sonhos sentira!
Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle ahi regressaria. Levava comsigo a saudade da vida que jámais o abandonaria e que agora se personificara poeticamente na lembrança de Maria.
Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. Ficára-lhe d'aquellas terras uma boa recordação. A belleza das mulheres, altas, d'um raro concerto de majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem viçosa e ampla, em que a luz se attenua e pulverisa sobre as aguas extensas e na atmosphera humida, os costumes, a liberdade sem altivez do povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava a voltar a Aveiro.
Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. Dava-lhe agora uma impressão de silencio, de calma, de desolação que provocava a tristeza. O movimento nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, com os seus ruidos caracteristos, muito poucas. Enganára-se; não era aquillo que tinha na memoria.
Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos levando os pescadores para a ria e os marnotos para as salinas; a jarra da agua, o cesto com o almoço e o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita onde se abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a a companheira da sua vida; voltariam á tarde, a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho durante o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos do mar e aos ardores d'um abrazado estio. Tambem assim era em Villalva, tambem áquella hora Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e pela serra aspera.
A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava deserta, era o animo que faltava ao seu coração. Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava em torno, constantemente voltados para uma imagem interior.
Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da viagem. Seria inutil. Ia proseguir, mas adivinhára já o que o esperava. Toda a terra lhe parecia arida e silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que lhe recordasse a existencia de Maria.
Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado, aos primeiros reverberos das estrellas, passeiava á beira do rio e, como se sentisse fatigado, encostou-se sobre um rochedo e adormeceu. Um vento agreste batia as cumiadas dos montes, açoitando as arvores que se curvavam desgrenhadas, mas no valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. Claudio aproveitava o favôr da natureza e no torpor que precedia o somno fixava os olhos com gratidão n'este espectaculo de feliz remanso.
Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se ás palpitações da natureza. O rio transfomára-se em alvas nuvens que pousavam sobre o seu leito apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como uma apparição, em meio d'um nimbo de claridade vermelha e candente, uma cosinha pobre e uma rapariga curvada sobre a lareira ateando o lume que se erguia em labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se as lufadas do vento mordendo as cearas que ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil cubiçava o calor vivificante que irradiava do facho luminoso.
Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos Casaes quando ha muitos annos vinha com Emilia de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que o cercava. Corre-se a aquecer-se ao fogo redemptor da simplicidade que a imaginação sobrexcitada lhe mostrava n'um quadro tentador.
O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para que ir mais longe? Em vão! em vão!... Mais uma vez repetia estas palavras com que tão dolorosamente terminara tanta illusão da sua vida.
Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de ausencia, vencido pela saudade. Vinha na persuasão de que o trabalho na lavoura e a simples presença de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava de fallar-lhe, não precisava d'essas arrastadas conversas á beira da estrada que os estranhos viram com suspeição. Não estava ella divinisada no culto que o seu coração lhe consagrava? Uma adoração muda e casta bastaria a satisfazel-o.
A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de familia disse que se apressara a voltar porque se sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia muito que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam, seguiu immediatamente para Villalva onde chegou noite cerrada.
Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, dando-lhe conta do estado dos gados, das sementeiras, de tudo o que succedera n'aquella pacifica solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou os estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.
Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria, julgava-se victorioso e começava a sentir, penetrado de delicias, a realisação dos seus sonhos de castidade.
Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a aldeia recolhida no valle apertado. Tudo dormia. Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em inquietações d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura tel-o-ia esquecido?... Fixava os astros, escutava as auras da noite procurando o segredo da sua vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de fadiga.
—Amanhã, amanhã!...
N'esta risonha esperança adormecia tambem.
Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que Maria apparecesse tangendo o burro que conduzia a moenda. Ao vêl-a sentiu como uma vertigem em que o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria. Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á noite, muito tarde, junto ao muro da eira, quando ninguem os visse.
Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento e um vigor desusados. Estranhava as suas forças. Como acontecia que, depois de tanto tempo de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação em que o deixava a certeza do amor de Maria, illudia-se; tomava como um triumpho do seu corpo o que era apenas uma passageira febre.
Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em casa; fazia-o frequentes vezes para acalmar a inquietação do espirito.
Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao muro. Sentiu-se um ligeiro bulicio de folhas seccas. Era ella que se aproximava pisando descalça a caruma que cobria a eira.
Claudio começou então a contar o que soffrera na jornada, como os dias lhe pareciam longos, como em toda a parte via a imagem de Maria.
—Não sei viver sem ti. Sou tão infeliz que preciso da tua voz para me dar animo.
Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura e não podesse avaliar na physionomia a impressão das suas palavras, perguntou-lhe:
—E tu? tambem tinhas saudades minhas?
—Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.
O incendio estava lançado. Vieram as confissões d'affecto em serões prolongados pela noite calma, as caricias, as tentações e os impetos d'amor. Essa castidade no contacto da natureza e na adoração das cousas simples que Claudio sonhára, doente do affastamento e da saudade de Maria, voava desfeita como todas as bastas illusões da sua vida.