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Tres capitaes

Chapter 14: Egrejas
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About This Book

A first-person travel and civic study visits three South American capitals, combining vivid urban and natural description with comparative analysis of economic and social development. The narrative contrasts two dominant metropolises with a smaller, strategically placed capital, examining immigration, agriculture, commerce, industry, and the civic institutions that shape prosperity. Political tensions and diplomatic rivalries appear alongside admiration for visible progress, while local panoramas, architecture, and daily life are recorded in detail. The work balances patriotic viewpoints with measured praise for rivals, aiming to extract practical lessons from each city’s strengths and faults to guide future improvement.

A estatua eleva-se defronte da rua do Ouvidor, ao centro do largo de S. Francisco de Paula.


Egrejas

Cathedral—O bispado do Rio de Janeiro foi creado em 1676, tomando o 1.º bispo conta do seu cargo seis annos depois. A primitiva cathedral foi a egreja de S. Sebastião, erecta no morro do Castello, berço da cidade.

Em 1703 foi a Sé transferida para o templo da Cruz dos Militares, e em 1720, por algum tempo para a basilica da Candelaria, voltando para a Cruz dos Militares, em 1773. Devido, porém, ao estado de ruina d’esta egreja, no mesmo anno, em 1 de Agosto, o cabido sahiu em procissão e dirigiu-se para a egreja do Rosario, elevando-a a cathedral, contra a vontade dos pretos, seus proprietarios.

Ainda assim conservou-se ahi a Sé por mais de setenta annos. Em 1808, o cabido, em virtude de alvará regio, passou para o santuario mandado construir pelos frades carmelitas, em 1761, ao lado do templo do Carmo, onde actualmente se conserva. A ermida, precursora d’esta egreja, foi edificada á beira-mar, e desabou em dia de festividade, matando muitos fieis.

O interior do templo é ornamentado a trabalho de talha e a estuque dourado, em estylo barroco, por mestre Ignacio, que iniciou os trabalhos em 1785. Ha sete altares e duas capellas fundas; uns e outras separados por balaustres dourados. No corpo da egreja ha tres tribunas de cada lado, divididas por pilares. É bella a perspectiva interior pela feliz combinação dos dourados com a guarnição branca, em estuque, e com o primoroso trabalho de talha. A fachada não pertence a ordem alguma architectonica. O grande painel da capella-mór foi pintado por José Leandro de Carvalho.

Carmo—Bella e imponente frontaria de granito, em estylo barroco, com um lindissimo portico lavrado em marmore da Arrabida.

A confraria dos irmãos terceiros do Carmo, do Rio de Janeiro, foi fundada em 19 de Julho de 1648. A primeira pedra do templo foi lançada em 16 de Julho de 1755, sendo inaugurado em 11 de Julho de 1770. Custou 91:088$995 réis. As duas formosas torres lateraes á frontaria, só ficaram concluidas em 1850 e custaram 111:000$000 réis. Um espaço fechado por dois portões separa esta egreja da Cathedral, ex-capella imperial. O gradil de ferro que cercava o adro e que custára, em Londres, 1:764$100 réis, foi mandado retirar, ultimamente, pelo prefeito Pereira Passos, bem como o do santuario contiguo. Foi no Carmo que se celebrou, em 1792, o Te-Deum em acção de graças pelo enforcamento de Tiradentes. O templo foi novamente dourado em 1854. Até 1812 esteve installado o hospital da Ordem, em edificio annexo, sendo removido para a rua de Riachuelo, em 1870.

O interior da egreja é ornamentado a branco, com toques dourados.

Ha seis altares lateraes e a capella-mór. No corpo principal estão seis tribunas e dois pulpitos. A luz é filtrada, além do zimborio da capella-mór, por seis janellas sobrepostas ás tribunas e por tres do côro, com vitraes coloridos.

Cruz dos Militares—Occupava, outr’ora, a beira-mar. Está situada na rua Primeiro de Março, esquina da do Ouvidor, e a pequena distancia dos santuarios anteriormente descriptos. É obra dos ultimos annos do seculo XVIII, sendo seu constructor o brigadeiro José Custodio de Sá e Faria. Se bem que de elegante aspecto exterior, nada contém esta egreja de especialmente notavel.

S. Bento—Templo e mosteiro situados no vértice da collina de egual nome, no extremo da rua Primeiro de Março. É simples e sem arte o aspecto exterior da egreja e dos edificios annexos; ao transpôr, todavia, o peristylo, o visitante fica deslumbrado com a perspectiva e os detalhes da magestosa fabrica. Desde o sopé ás abobadas, o santuario resplandece o velho ouro que os seculos ainda não conseguiram desvanecer. Em talha dourada, é a d’esta egreja a maior, a mais antiga e a mais preciosa decoração que existe na capital do Brasil. É d’uma só nave, ladeada por dez altares, oito dos quaes communicam-se, interiormente, por duas especies de naves. Os dois pulpitos são tambem preciosos. Sobre os arcos que dão ingresso aos altares, ha outras tantas tribunas douradas, com balaustradas. O tecto é em quadriculos de madeira colorida.

No pavimento do corpo principal estão as sepulturas dos doadores, D. Diogo de Brito de Lacerda, e D. Victoria de Sá, com brazões heraldicos.

São riquissimas as capellas do Santissimo Sacramento e da Immaculada Conceição. A primeira tem quatro tribunas e um magnifico altar, com esplendoroso sacrario e quatro columnas salomonicas, tudo dourado. Todos os altares do monumento são guarnecidos a columnas do mesmo estylo e profusamente douradas.

Na capella-mór ha bancadas de nogueira para a assistencia capitular. Á esquerda está o solio, com o docel, para o abbade-bispo de S. Bento.

Os beneditinos estabeleceram-se no Rio de Janeiro, em 1589, e occuparam, primitivamente, a ermida de N. S. do Ó, na praia da cidade, doada pelo governador Corrêa de Sá.

O tecto da capella-mór é decorado a frescos, representando scenas da vida de S. Bento. É grande, valiosa e artistica a collecção de objectos de prata, que adorna o templo, avultando a imagem de N.ª S.ª do Monserrat, que occupa a cúspide do altar-mór; o crucifixo d’este altar, o tocheiro da capella-mór e as lampadas das capellas lateraes.

O corpo da egreja é illuminado por seis artisticos lampeões de ferro, a tres luzes. Da esplanada, bem como de varios pontos da vasta cêrca do convento, a vista é extensa e bella para diversos pontos da cidade e da bahia.

O Gymnasio de S. Bento e a escóla de preparatorios, contiguos ao templo, teem frequencia superior a 300 alumnos. Ha ainda a escóla preliminar de S. José e uma escóla nocturna, tudo para o sexo masculino. Todos os frades d’este convento são allemães. Na cêrca está uma caixa de agua, do rio do Ouro, que communica com o deposito geral do Pedregulho.

S. Francisco da Penitencia—Minusculo e magnifico santuario, pertencente á Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia, situado no alto da collina de Santo Antonio, e junto á egreja d’esta invocação. Depois do de S. Bento, é este o interior sagrado mais artistico e bello do Rio de Janeiro. Os 6 altares lateraes, os 2 pulpitos, as 6 varandas, o magestoso árco-cruzeiro, a capella mór e o côro constituem um grandioso poema em talha dourada, onde a arte da execução rivalisa com os primôres das concepções decorativas e da materia prima empregada, ha seculos, no realce artistico.

O tecto é em madeira pintada e nos intervallos das tribunas ha quadros emmoldurados em talha dourada e pintados por José de Oliveira.

A primitiva egreja da Ordem Terceira da Penitencia, no Rio de Janeiro, foi a capella da Conceição, erecta na visinha egreja de Santo Antonio, por Luiz de Figueiredo e sua mulher, Antonia Carneiro.

O actual edificio foi concluido em 1772, depois de muitas contendas com os visinhos frades franciscanos do convento de Santo Antonio, tendo começado as obras em 1653.

Tanto o interior como o exterior do santuario são em estylo barroco.

Santo Antonio—Communica com o edificio anteriormente descripto. Esta egreja é modestissima, destacando-se apenas a capella do Noviciado, com o tumulo, em marmore, do principe D. Pedro Carlos, filho de D. João VI. Contiguos a estas egrejas estão os dois conventos das mesmas invocações, ambos habitados por frades franciscanos.

Do adro d’estes santuarios, gosa-se o panorama parcial da cidade, da bahia e dos suburbios.

S. Francisco de Paula—No lado Sul da praça de egual nome, ergue-se imponentemente a elegantissima frontaria d’este templo, pertencente á Veneravel Ordem Terceira dos Minimos de S. Francisco de Paula. É construcção architectonica da ordem composita e ostenta um bellissimo portico de marmore da Arrabida. Foi inaugurado em 1801. Os artistas brasileiros Valentim da Fonseca e Silva e Antonio de Padua e Castro, decoraram interior e sumptuosamente esta egreja, a mais central da cidade. Ladeiam a fachada duas torres, que realçam a belleza do conjuncto. Tambem aqui, e em nome da esthetica civica, o prefeito Passos destruiu o gradeado que protegia o adro.

Matriz da Gloria—Esta vastissima egreja eleva-se na face occidental da praça do Duque de Caxias.

A frontaria é aformoseada por oito columnas jonicas, de granito, com dez metros de altura, que assentam em treze degraus de cantaria e sustentam um frontão da mesma pedra, com um painel decorativo, e as estatuas de S. Pedro e S. Paulo, nas extremidades lateraes. Do lado posterior do frontão eleva-se um campanario da altura de quarenta e dois metros, até um terraço guarnecido a balaustrada e a estatuas de granito. Sobre esta esplanada levanta-se outro corpo de torre, rematado por uma pyramide quadrangular, que sustenta uma cruz á altura total de sessenta metros. Interiormente, o templo é decorado em estylo barroco, notando-se a preciosa obra de talha do altar-mór.

Outras muitas egrejas, menos notaveis, accentúam o aspecto monumental do Rio de Janeiro, taes como S. José, Lapa, S. Christovão, Rosario, Sacramento, S. João Baptista, Gavea, e a historica e popular ermida octogona que corôa o vértice da pittoresca altura da Gloria.


Museus

Museu Nacional—Foi fundado em 1710, pelo vice-rei Luiz de Vasconcellos, em um predio da rua do Sacramento, mais tarde ampliado para Thesouro Federal.

Tendo caído em abandono, D. João VI reergueu-o, em 1818, a pedido do seu ministro Thomaz Antonio de Villa Nova Portugal, sendo installado em um palacete do campo de Sant’Anna, depois praça da Acclamação. Em 11 de Julho de 1864, foi inaugurada a bibliotheca d’este Museu, com 3:000 volumes, contando hoje mais de dez mil. Um italiano, em 25 de Junho de 1865, tendo-se escondido no interior do edificio, no momento de serem fechadas as portas, durante a noite roubou 49 diamantes, 153 moedas antigas e 70 medalhas diversas.

O Museu foi mudado, em 1892, para o ex-palacio imperial de S. Christovão, que servira, em 1890 e 1891, de Palacio do Congresso Constituinte da Republica. É um amplo e vistoso edificio situado em terreno elevado, ao centro de terras incultas e enfrentado por um magnifico parque, cuidadosamente ajardinado.

As principaes collecções são a mineralogica e a antropologica, seguindo-se-lhes, em importancia, a numismatica, a ethnographica e a de antiguidades egypcias e pompeanas.

Começando pelo 3.º pavimento, visita-se a Sala Rodrigues Ferreira, com curiosos exemplares de simios, phocas e outros animaes.

Sala Correia de Lacerda. Carnivoros roedores. Bellissimo exemplar leonino. Insectivoros.

Sala Spix. Mammiferos. Antiodactylos ruminantes. Magnificos exemplares de elephantes e de veados.

Sala Blainville. Esqueletos de passaros. Gabinetes, a seguir, com variadissima e abundante collecção de insectos do paiz. Interessantes habitações de maribondos.

Galeria Buffon. Esqueletos de quadrupedes.

Segundo pavimento.

Sala Burmeister. Curiosissima collecção de ninhos de aves.

Sala Natterer. Passaros.

Sala Wied. Aves de rapina. Esplendido exemplar de condor dos Andes.

Sala Schreiner. Numerosa e escolhida collecção avicola-brasileira.

Sala Wallace. Passaros corredores, entre elles dois magnificos exemplares de avestruz.

Galeria Baptista Caetano. Ethnographia. Vestuarios e armas de varias tribus de indios da bacia do Amazonas.

Sala Simão de Vasconcellos. Armas, utensilios e ornatos de indios mundurucús, araras, uaupés e da Guyana Brasileira.

Sala Castelnau. Retratos e estatuas de indigenas do Brasil. Grupo, em bronze, offerecido pelo marechal Deodoro.

Sala Varnhagen. Numerosa e curiosissima collecção de armas, vestuarios, utensilios e ornatos dos indios carajás, appiaças, bororós, mahués e guajarás.

Sala Ferreira Penna. Ceramica greco-romana. Ceramica brasileira, peruana e mexicana. Alguns dos objectos expostos são pre-historicos.

Galeria Fernão Cardim. Ethnographia das ilhas Aleutas, Sandwich, Nova Guiné, Rainha Carlota, Madagascar e Nova Zelandia.

Sala Champollion. Sarcophagos e mumias. Antiguidades mexicanas, africanas e europeias. Ethnographia africana e asiatica. Antiguidades egypcias.

Sala Broca. Mumias pequenas. Esqueletos indianos. 300 caveiras de indios diversos.

Sala Freire Allemão. Fibras textis. Cipós e madeiras do Brasil. Amostras de oleos e de sementes nacionaes.

Galeria Conceição Velloso. Troncos gigantescos de vegetaes do Brasil.

Sala Humboldt. Ethnographia sul-americana.

Galerias Gabriel Soares, Eschwege e Couto de Magalhães. Pirogas, remos e rêdes indianas. Pedras e placas com inscripções e brazões.

Sala Haeckel. Echinoides. Ovos e embryões.

Sala Lamarch. Molluscos. Collecção numerosissima e interessante.

Sala Lacaze-Duthiers. Madreporarios. Hydroides. Espongiarios. Alcyonarios.

Sala Dumeril. Serpentes, lagartos, jabutis, tartarugas, kagados, etc.

Sala Agassiz. Bello exemplar de Cephaloptera Vampyrus Gunth Jamantra, apanhado na praia da Copacabana. Mostruario de peixes em alcool.

Sala Andrada. Riquissima collecção mineralogica.

Rez-do-chão:

Secções de paleontologia brasileira e estrangeira. Ossuario de baleia com 16 metros de comprimento.

Meteorito de Bendegó. É o maior e mais pesado que se conhece. Foi encontrado em 1784, por Joaquim da Motta Botelho, nas proximidades do riacho Bendegó. Chegou ao Rio de Janeiro em 1 de Junho de 1888. Pésa 5,360 kilos.

Composição: Ferro 95,1
Nickel 3,9
Outros elementos 1,  

Museu Naval—Encontra-se, este museu, no rez-do-chão da repartição do Almirantado, na rua de D. Manuel. Foi creado por decreto de 14 de Março de 1868 e inaugurado em 25 de Março de 1884, nos salões do Arsenal de Marinha, devido á intervenção do vice-almirante Arthur de Jaceguay. Por decreto de 26 de Abril de 1890, o almirante Wandenkolck, ministro da marinha, reuniu no mesmo estabelecimento, á rua do Conselheiro Saraiva, n.º 12, o Museu e a Bibliotheca.

No dia 11 de Junho de 1898, sendo ministro da marinha o contra-almirante Manoel José Alves Barbosa, foi solemnemente inaugurado o museu, no edificio actual, e franqueado ao publico.

O principal valor artistico d’este museu, consiste nos seguintes quadros do pintor De Martino:

—Aprisionamento da corveta argentina General Dorrego, pela corveta brasileira Bertioga.

—Passagem do Tonelero, em 1851.

—Combate naval do Riachuelo.

—Abordagem do Barroso e do Rio Grande.

—Bombardeamento do forte de Curuzú.

—Abordagem da fragata brasileira Imperatriz, pela esquadra argentina.

—Couraçado Independencia.

Passagem do Humaytá.

—Noite de luar, no porto de Montevideu.

—Encontro do Almirante Barroso com o Riachuelo, no alto mar.

—Couraçado Independencia, fundeado no Tamisa.

—Abordagem da corveta Maceió, por canhoneiras argentinas.

—Abordagem dos paraguayos á esquadra brasileira, em 2 de Março de 1868.

—Acampamento do Chaco, em frente a Humaytá.

Quadros de Victor Meirelles:

—Passagem do Humaytá, em 19 de Fevereiro de 1868.

—Combate Naval do Riachuelo.

Ha ainda muitos outros quadros a oleo, photographias e retratos de almirantes e de ministros da marinha.

Este museu é dividido em oito secções, constando a 1.ª de quadros a oleo; a 2.ª de retratos e photographias; a 3.ª de modelos de navios; a 4.ª de bandeiras e estandartes; a 5.ª de artilharia, couraças, torpedos e variado armamento fixo; a 6.ª de armamento portatil; a 7.ª de reliquias de navios historicos e de ethnographia nacional; e a 8.ª secção consta de medalhas.

Pedagogium, ou Museu Escolar. Funccionam n’este edificio, defronte do Passeio Publico, os cursos fixos e normaes de sciencias physicas e naturaes e os cursos temporarios[2]. Tambem ahi realisam-se conferencias e exposições pedagogicas. Encerra uma officina de trabalhos manuaes; uma sala-modelo da classe primaria, contendo o material escolar; um gabinete de geographia; um gabinete-museu de historia natural; um gabinete de physica e laboratorios de psychologia experimental, de chimica e de physiologia do systema nervoso. Contem uma bibliotheca que, com o museu e os laboratorios, está patente das 10 horas da manhã ás 3 da tarde, excepto ás segundas-feiras.

As classes são nocturnas.

De maneira que o Pedagogium, que funcciona em edificio proprio e municipal é, ao mesmo tempo, um instituto para habilitação de professores primarios e um museu pedagogico. O laboratorio de psychologia experimental é o unico, no seu genero, no territorio da Republica.

Em 1902 trabalharam 7 cursos, com a frequencia de 153 alumnos; em 1903, 10 cursos com 143 alumnos, e em 1904, 17 cursos com 194 alumnos.

[2] Ao entrar este livro no prélo deixaram de funccionar as aulas do Pedagogium.


Bibliothecas

Bibliotheca Nacional—Foi fundada por D. João VI, em 1810, com os livros que levou da bibliotheca do palacio real de Lisboa. Primitivamente funccionou nos altos do hospital do Carmo, junto do palacio imperial. Até 1822, esta instituição não foi publica.

Em 4 de Agosto de 1858, foi reaberta ao publico no edificio especial que o governo comprára, no Largo da Lapa, por 124 Apolices de um conto de réis. No momento da publicação d’este livro está a construir-se, na Avenida Central, um magestoso palacio destinado á definitiva installação da Bibliotheca Nacional.

Contem cêrca de 240:000 volumes, 25:150 exemplares de moedas e medalhas e 100:000 estampas e gravuras. Possue muitos exemplares rasos, impressos e manuscriptos, e numerosos retratos de artistas celebres, taes como Alberto Durer, Van-Dyck, Lucas de Hollanda, Raimondi, Andréa Mantegna, e outros.

A biblia latina de Fust Schoeffer, de Moguncia, impressa em pergaminho e em 1462, é uma das preciosidades d’esta bibliotheca. Possue officina typographica e de encadernação. Está patente ao publico, ininterruptamente, das dez da manhã ás nove horas da noite. A frequencia média, mensal, é de 3:500 leitores.

Bibliotheca Municipal—Contem, actualmente, cêrca de 22:000 volumes litterarios e scientificos. Foi creada em 15 de Março de 1893, em sessão da Camara Municipal, por proposta do vereador-presidente, tenente-coronel Antonio Barroso Pereira. A frequencia média, mensal, é de 1:200 leitores. É publica nos dias uteis, das 10 horas da manhã ás 3 da tarde, e das 5 da tarde ás 8 horas da noite. Está installada no edificio da Prefeitura, na Praça da Republica.

Bibliotheca Fluminense—É esta a principal das bibliothecas particulares do Rio de Janeiro. Foi fundada em 1847, por Bernardo Joaquim de Oliveira, e está installada no predio n.º 92, da rua do Ouvidor.

Encerra 90:000 volumes de artes, litteratura e sciencias, álem de numerosos e preciosos manuscriptos.

Alem d’estas ha as bibliothecas especiaes do Exercito e da Marinha, nos respectivos arsenaes; a Bibliotheca Germania, na Praia do Flamengo n.º 60; a Bibliotheca do Commercio, no edificio da Associação Commercial, e outras de menos importancia e particulares.


Jardins e parques

Parque da Republica—Occupa o centro da maior praça do mundo, com a superficie de 198:000 metros. O Campo de Marte, em Paris, tem 112:000 metros; a Praça Real, de Berlim, 100:000 metros; a Praça do Hotel de Ville, em Vienna d’Austria, 90:000 metros, e a Praça da Concordia, em Paris, 89:000 metros. E isto para citar só as principaes.

O Parque foi inaugurado em 7 de Setembro de 1880, e é circumdado por um gradil de ferro, da altura de 2,ᵐ30. Esta obra foi custeada pela Camara Municipal e executada sob a direcção do dr. Glaziou, eminente botanico, architecto e paysagista. As obras começaram sete annos antes da inauguração. Nas quatro faces do gradeamento, que é fundido em sopé de cantaria, abrem outros tantos portões monumentaes, com motivos decorativos.

A superficie plantada é de 86:000 metros; os lagos e os rios occupam 18:000 metros e os arruados 43:522 metros. Estes são amplos e calcetados a macadám, O Parque está situado no centro da cidade do Rio de Janeiro, e divide os velhos bairros, hoje transformados, da nova metropole, começada a edificar no seculo XVIII.

Das decorações d’este bellissimo e magestoso logradouro publico avulta a cascata, em fórma de gruta, com galerias transitaveis, de cujos tectos pendem gottejantes estalactites.

Ha dois pavilhões de ferro para concertos, e na vastissima praça central tem-se construido, por vezes, numerosas barracas para kermesses, e realisado esplendidas batalhas de flôres, com o concurso das alamedas que a ella convergem. Numerosas estatuas, grupos artisticos e pontes rusticas decoram este magnifico Parque.

Passeio Publico—O mais antigo e um dos mais bellos logradouros publicos da formosissima capital do Brasil, foi mandado delinear e executar pelo vice-rei Luiz de Vasconcellos e Sousa, sobre a lagôa pantanosa e aterrada do Boqueirão da Ajuda. Foi auctor do trabalho o mestre Valentim da Fonseca e Silva, que da tarefa se desempenhou com aprimorado gosto artistico.

A inauguração realisou-se em 1783, mas tendo sido a conservação do Passeio descurada pelos successores d’aquelle vice-rei, houve necessidade de reformal-o, o que se fez, pela ultima vez, em 1861, sob a direcção do dr. Glaziou. Foi reaberto o Passeio, ao publico, no dia 7 de Setembro do anno seguinte. A area total do terreno é de 28:196 metros, e a superficie plantada, de 17:637.

O arvoredo, mais que secular, é denso, frondoso e bello, constituindo uma preciosidade pela raridade e excellencia dos exemplares que o formam e o melhor local de sombra que existe no centro da cidade. Nota-se um Aquario, inaugurado em 1904 e o primeiro construido na America do Sul, com 20 tanques, ou piscinas e cêrca de 40 variedades de peixes raros, zoophytos, echinodermes, molluscos e crustaceos.

Sob uma formosa e soberba Latania vê-se o busto de Gonçalves Dias, inaugurado em 1901.

É de bronze, sobre pedestal de granito, e execução de Rodolpho Bernardelli. Ha ainda a notar duas columnas de pedra, cobertas de hera, obra do mestre Valentim, e dois tanques com jacarés de bronze, de cujas fauces precipita-se, ha 122 annos, o precioso liquido que dessedenta parte da população fluminense. O mais precioso local d’este pittoresco e bello Passeio Publico, é o amplo terraço, que domina a Avenida Beira-Mar e a magestosa bahia de Guanabara. D’ahi aprecia-se todo o movimento do porto e um dos mais empolgantes panoramas do nosso planeta.

Jardim Botanico—Entre a lagôa Rodrigo de Freitas e o ponto terminal da linha de tramways electricos da Botanical Garden, está situado o mais bello dos jardins botanicos do mundo. A sua area é de 544:611 metros, e encerra mais de 60:000 exemplares de plantas, muitissimas raras, algumas originaes e unicas, e todas extraordinariamente desenvolvidas.

Foi fundado por D. João VI, em 1808, com o nome de Real Horto de D. João VI, mudado por decreto de 11 de Maio de 1809, para Real Jardim Botanico.

Logo á entrada a nossa retina é maravilhada pela Alameda das Palmeiras, com 134 exemplares magnificos, que occupam a extensão de 740 metros, em linha recta. As palmeiras teem 25 metros de altura e cerca de 1,ᵐ30 de circumferencia na base. Esta alameda é universalmente afamada e a primeira no seu genero. Outras alamedas, menos extensas, e tambem bordadas a palmeiras, correm parallelas a esta e dão um aspecto monumental, bello e imponente ao Jardim Botanico do Rio de Janeiro.

Á esquerda da entrada admira-se uma Guarea trichilioides, o mais velho dos vegetaes indigenas d’este estabelecimento. Do lado opposto ostenta-se um soberbo exemplar de Nephelium Li-tchi, importado de Cayenna, em 1809.

A Palma Mater, que produziu as sementes de todas as grandes palmeiras da mesma especie que enfeitam o Jardim Botanico, a capital e todo o Brasil, eleva-se ao lado da Cascatinha, e tem a altura de 36 metros. É oriunda da Ilha de França, e foi plantada por D. João VI, em 1809.

O director Serpa Brandão, cujo nome foi dado á Alameda Central, mandava queimar as sementes da Palma Mater, para que não se reproduzissem fóra do Jardim; porém os escravos subiam, de noite, ao vértice da planta, e roubavam as sementes, que vendiam a 100 réis cada uma.

Ultimamente, apparecendo lagartas verdes a devorar a base das folhas d’esta preciosa e secular palmeira, o director Barbosa Rodrigues, mandou propositadamente construir um andaime para extinguir os damninhos reptis.

Ao fundo da Alameda Serpa Brandão, vê-se um artistico fontanario de bronze que outr’ora esteve em uma praça da cidade.

Proximo d’um magestoso bambual formando curvas em gothico, ergue-se o monumento a Frei Leandro do Sacramento, o primeiro director d’este Jardim. É um busto de bronze com pedestal de marmore e dedicatoria em lettras douradas. Está abrigado por uma construcção octogona com tecto de vidro. Enfrenta-o um lago coberto pela Victoria Regia, representada por esplendidos exemplares.

Este Jardim é cortado por lindissimas avenidas de samambaias, mangueiras, bambús e palmeiras, notando-se todos os exemplares das plantas com as suas designações scientificas, e o maximo aceio e cuidado na conservação do preciosissimo horto, uma das principaes curiosidades da capital do Brasil.

Junto da Palma Mater, inicia-se a construcção do monumento ao fundador do Jardim.

Será inaugurado por occasião da celebração do centenario da fundação d’este maravilhoso escrinio scientifico, natural e artistico.

Floresta da Tijuca—Não obstante estar já situada em um dos mais apraziveis arrabaldes do Rio de Janeiro, nem por isso a floresta da Tijuca deixa de ser um dos logradouros publicos mais procurados e admirados pela população fluminense e, especialmente, pelos forasteiros, que ahi se deliciam em plena apotheose da excelsa natureza.

Na Tijuca, como no Jardim Botanico, na Gavea, no Corcovado e no Pão de Assucar, o visitante é empolgado por esse abraço natural que, pela sua extensão, variedade, abundancia e incomparavel formosura, sublima Rio de Janeiro á culminancia da mais bella e pittoresca metropole do nosso planeta.

O electrico da Light, parte da praça da Constituição e, ao saír da rua do Conde de Bomfim, atravessa terrenos incultos e abundantemente vegetativos, precursores das exuberancias florestaes.

Ao passo que, atravessada a estrada velha, pronuncia-se o movimento ascendente pela encosta, o vehiculo transforma-se em barco, a navegar através de encapellado oceano, pondo em grave risco o equilibrio e as costellas dos passageiros. A linha é pessimamente construida e as curvas são numerosas e rapidas. Porém o observador tem ampla e ineffavel compensação espiritual na formosura da paisagem e no deslumbramento do panorama que os seus olhos abrangem e contemplam.

O electrico pára no alto da Boavista, a 13½ kilometros do largo de S. Francisco de Paula, em uma praça de 15:000 metros de superficie que, ha meia duzia de annos, apenas era um matagal. Hoje está transformada em formoso jardim, com um elegante pavilhão de ferro, ao centro.

Estamos na entrada da serra e da floresta. Começou a aproveital-a e a aformoseal-a o Visconde do Bom Retiro, em 1857, quando ministro do Imperio. Deu-lhe grande desenvolvimento o major Gomes Archer, em 1874, construindo estradas, na extensão de 20 kilometros, regularisando os cursos de agua que atravessam a floresta e plantando arvoredo nas clareiras dispersas.

Quem, da praça da Boavista, internar-se pela estrada principal, na espessura vegetativa, depara, a pouca distancia, com a Cascatinha, primeira quéda d’agua, para quem caminha na direcção norte e que precipita-se da altura de 30 metros. Ao cabo de uns 3 kilometros attinge-se o Excelsior, ponto de vista maravilhoso, á altura de 693 metros. Tambem é notavel o planalto do Bom Retiro, que lhe fica proximo e cuja altura é de 659 metros.

Continuando-se a percorrer a magestosa floresta, visita-se a Gruta de Paulo e Virginia, as Furnas de Agassiz, a Cascata Grande, a Meza do Imperador e a Vista Chineza, com um chalet rustico, de onde se gosa feerica perspectiva. O ponto culminante, porém, da serra e da floresta, é o Pico da Tijuca, na altitude de 1:022 metros acima do nivel do mar. O panorama que d’ahi se descortina escapa á percepção humana, pela sua sublimidade, e não póde descrever-se em linguagem alguma, porque não é dado ao homem immiscuir-se nos esplendores divinos.

Jardim Zoologico—Este estabelecimento, outr’ora um dos mais bellos e interessantes logradouros publicos da capital carioca, no tempo do seu fundador, o barão de Drummond, é agora a desvergonha do Rio de Janeiro. Hoje é deposito da casa Herman Stoltz & C.ª representante do grande parque zoologico Stingler, de Hamburgo, o primeiro do mundo. Nem por isso a collecção é valiosa, antes péssima pela deficiencia de numero e qualidade de individuos expostos.

O parque está quasi abandonado, quando deveria ser um dos melhores no seu genero, ainda que não expozésse senão exemplares nacionaes.

Não obstante ser agora o Jardim Zoologico um deposito particular de animaes importados do estrangeiro, paga-se ainda mil réis de entrada por pessôa, como se verdadeiramente fôsse um parque para gôso da população. Está situado no arrabalde de Villa Izabel.

Rio de janeiro encerra ainda outros parques e praças ajardinadas, taes como a praça Marechal Deodoro, em S. Christovão, com 180:000 metros de superficie; a praça da Gloria, onde se erguem os monumentos do Centenario, a estatua do Visconde do Rio Branco e a Fonte Ramos Pinto; a praça do Duque de Caxias; a da Constituição; a de Quinze de Novembro, e toda a magestosa e bella esplanada de Botafogo, que enfrenta a enseada do mesmo nome.


Theatros

S. Pedro de Alcantara—O principal theatro do Rio de janeiro, ainda por inaugurar, é o Municipal, já descripto no capitulo—Monumentos.

Das antigas casas de espectaculos, o melhor edificio é o do Theatro S. Pedro de Alcantara, na antiga praça da Constituição, hoje Tiradentes.

Segundo a giria popular fluminense, este theatro tem caveira de burro, porque tendo sido construido, primitivamente, em 1770, ardeu em 1824, em 1851 e em 1856. Exterior e interiormente, a sua architectura é vulgarissima. Tem 87 camarotes, 532 cadeiras, na plateia, 28 no balcão e 400 logares de galeria. É frequentado por companhias estrangeiras e nacionaes de opera, opereta e comedia.

Theatro Lyrico—Outr’ora Theatro D. Pedro II. É um casarão situado na rua Treze de Maio, esquina da rua Senador Dantas, e prestes a desapparecer, em nome da hygiene e da esthetica.

Ahi exhibiram-se as maiores celebridades da scena lyrica universal. Póde conter duas mil pessôas. Tem 806 cadeiras de plateia, 220 de balcão, 84 camarotes e 500 logares de galeria.

Theatro Apollo—Está situado na rua do Lavradio e é precedido de um pequeno jardim. Procuram-n’o as companhias de operetas, revistas e magicas. A construcção é ligeira e sem importancia.

Theatro Recreio Dramatico—Ao fundo da rua Luiz Gama, antiga do Espirito Santo. É muito antigo e precede-o vasto jardim, principal attractivo do estabelecimento. É muito frequentado por companhias dramaticas e de operetas. Tem gloriosas tradições. Ahi representaram Antonio Pedro, João Caetano dos Santos e outras notabilidades nacionaes e estrangeiras.

Theatro Sant’Anna—Está, como o antecedente, situado na rua Luiz Gama e tem, como elle, gloriosas tradições artisticas. Á saída d’este theatro, foi D. Pedro II victima de uma tentativa de assassinato, em 1888. Encerra 22 camarotes, 81 cadeiras e 500 logares de galeria. Tem sido frequentado por companhias theatraes de todos os generos.

Theatro Lucinda—Ainda na mesma rua. Contem 306 cadeiras, 13 camarotes e 200 logares de galeria. É para comedias, operetas, dramas, revistas e magicas.

Foi fundado pela grande actriz Lucinda Simões, que o illustrou durante muito tempo.

Álem d’estes theatros, ha o de S. José, na praça Tiradentes, e grande numero de cinematographos, casinos, frontões e cafés cantantes. A vida de theatro é, porém, pouco intensa no Rio de Janeiro, terra de trabalho e de calor. As familias preferem gosar a escassa frescura da noite, aos portões das suas chacaras, a irem metter-se em exiguas salas, cuja atmosphera é insupportavel pelo calor emanante da illuminação, dos corpos e da falta de ventilação e de ventiladores.


Cemiterios

O maior cemiterio da capital do Brasil, é o de S. Francisco Xavier, entre a praia do Cajú, o Retiro Saudoso e a rua Bella de S. João. Foi inaugurado em 1840. Pertence á Irmandade da Misericordia, porém os enterramentos são publicos.

D’entre os seus monumentos destacam-se:

—Aos marinheiros italianos do couraçado Lombardia.

—Capella da familia Jannuzzi. É circular, interessante e artistica.

—Sepultura de Flavia Maciel.

—Sepultura do Barão de Alagôas.

—Campa em marmore preto e lettras de bronze, do marechal Manoel Deodoro da Fonseca e sua esposa.

E poucos mais jazigos notaveis sob o ponto de vista artistico.

Annexo a este, ha um cemiterio para acatholicos.

O cemiterio de S. Francisco da Penitencia está separado do anterior por uma collina. Aqui tambem não abundam as campas artisticas. Destaca-se uma grande capella de granito, com frontaria de marmore cinzento, guarnecida por duas columnas inteiras e duas meias columnas de marmore branco. Remata-a uma cupula de granito. Interiormente, as paredes são occupadas por 460 gavetas de marmore branco, numeradas, para ossuarios. Ha duas galerias circulares, de ferro, e uma crypta com numeroso ossuario, disposto em triplice muralha. Foi inaugurada em 21 de Abril de 1908, e pertence, como o cemiterio, á Veneravel Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia.

Á entrada d’este campo santo, primorosamente ajardinado, estão gravados, em marmore, os seguintes dizeres, a lettras pretas:

—Hoje sois o que nós fômos—.

O cemiterio do Carmo, de propriedade da Ordem de egual nome, está situado a seguir aos antecedentes, na direcção da cidade. É o mais pequeno dos tres.

Ha a notar ahi:—Capella-Jazigo do commendador Manoel Mattos do Souto, em estylo manuelino.

—Sepultura de João Gonçalves Barroso. É de marmore branco e decorada a estatuas. Ladeiam-n’a dois leões da mesma pedra.

—Jazigo de granito, do conselheiro Manoel Pinto de Sousa Dantas, com o seu busto em bronze. É em estylo egypciaco e encerra crypta e urna de granito.

Estes cemiterios estão admiravelmente situados, sob o ponto de vista topographico, á beira-mar e a grande distancia da cidade.

O cemiterio de S. João Baptista, está situado em Botafogo, junto das ruas de S. João Baptista e do General Polydoro. O terreno é ligeiramente accidentado, abrangendo-se, á entrada, a vista geral de todo o campo santo, com os jazigos em amphitheatro.

Que esplendor de scenario, em tão limitado horizonte!

A propria montanha, cuja encosta oriental o cemiterio occupa, e o Corcovado, que magestosamente domina e corôa o panorama, fecham os limites visuaes, com as elevações suas derivadas, patenteando ao observador a indescriptivel belleza natural dos seus contornos. Artisticamente ha a notar:

—Jazigo de marmore e de granito côr de rosa, da familia Murinelli.

—Capella monumental, que encerra o niveo sarcophago do marechal Floriano Peixoto.

—Jazigos das familias Silva Macieira e Torres, com lindissima frontaria a columnas salomonicas.

—Sepulturas das familias Carneiro da Cunha Esteves, Rodrigues Portella, Armand Darlot, Adolpho Hasselman, e uma ou outra estatua decorativa de sepulturas mais modestas.

Um montão de soberbas corôas, sobre uma campa rasa, indicava que, na vespera da nossa visita, tinha alli sido collocado o feretro do almirante Saldanha da Gama.

Notam-se os tumulos de outras notabilidades, como o Barão de Cotegipe e o Marechal Machado Bettencourt.

No arrabalde de Catumby está o cemiterio da Ordem Terceira dos Minimos de S. Francisco de Paula.

Álem d’estes, ha os cemiterios protestante e israelita.


Curiosidades

Avenida Central—Os trabalhos iniciaes da mais bella e monumental arteria publica do Rio de Janeiro, começaram em 8 de Março de 1904, e já em 7 de Setembro do mesmo anno, o Presidente da Republica, Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, e o Ministro da Viação e Obras Publicas, Dr. Lauro Müller, inauguravam officialmente a Avenida Central, comprida de 1812 e larga de 33 metros. Prolonga-se de mar a mar, desde a Prainha ao Passeio Publico. Decoram-n’a sumptuosos edificios, alguns tambem notaveis pela arte architectonica e decorativa. Destacam-se os seguintes:

—Pavilhão de Monröe. É elegantissimo, com estructura de ferro e serviu na Exposição de S. Luiz. Palacio da Justiça. Bibliotheca Nacional. Academia das Bellas Artes. Theatro Municipal. Companhia Jardim Botanico. Casa Guinle. Predio n.º 131, estylo Renascença. Associação dos Empregados do Commercio. Club de Engenharia. Jornal do Commercio. Predio em estylo mourisco e cupula dourada, construido pelo architecto Morales de los Rios. Predio de Theodoro Wille. Companhia Docas de Santos, com uma artistica e monumental porta esculpturada em talha. Palacio da Caixa de Conversão, exteriormente decorado a columnas caneladas, com capiteis dourados. O hall é lindissimo, vistoso e artistico. Casa Roxo Rodrigues, em cantaria cinzenta e em fórma acastellada. Para terminar, citaremos o palacio dos Benedictinos e o edificio do grande jornal O Paiz. Jannuzzi e Heitor de Mello foram, álem do já citado, os principaes constructores dos bellissimos palacios e palacetes que sublimam a Avenida Central do Rio de Janeiro á culminancia de primeira arteria publica da America do Sul. No extremo da Prainha, ergue-se uma columna de granito, destinada a supportar a estatua do Visconde de Mauá.

Palacio da Presidencia da Republica—Foi edificado em 1862, pelo Barão de Nova Friburgo, e adquirido, pelo Governo Federal, em 1896, para residencia do chefe do Estado.

Tem soffrido varias modificações, e o terreno da chácara foi augmentado até á Avenida Beira-Mar; porém, interiormente, á excepção dos sobrados e de alguns motivos decorativos, a fabrica é da primitiva.

A fachada é em tres pavimentos, estando installadas no do rez-do-chão as repartições de serviço; no 1.º andar, ou 2.º pavimento, as salas e os salões de recepção, servindo o 3.º de residencia particular. Á entrada ha duas ordens de columnas caneladas que atravessam o perystillo, ornado a estatuas e grupos.

A escadaria é magnifica, realçando-lhe a belleza as tribunas douradas que circulam o 3.º pavimento.

No andar nobre ha, especialmente a notar, pela decoração a frescos, estuques e dourados, a sala Azul, para recepções de embaixadores; a sala Amarella, ou de Musica; a sala da Capella, que serve de recepção á esposa do Presidente da Republica; a sala Pompeiana, com finissimas decorações e a celebre Jarra Beethoven, obra prima de Raphael Bordallo Pinheiro; o salão dos Banquetes; a sala Mourisca, decorada a marmore preto, e o Salão Official das Recepções, esplendidamente decorado.

Todas estas salas e salões ostentam soberbos lustres e precioso mobiliario. Na sala Silva Jardim, nota-se o quadro de Aurelio de Figueiredo—Juramento de Deodoro—com todos os principaes personagens do 15 de Novembro. Na secretaria vê-se A Descoberta do Brasil, outro quadro de Aurelio de Figueiredo, e A Selva, quadro de Antonio Parreiras.

Um ascensor communica os pavimentos. O parque, esculpturalmente decorado, é atravessado por dupla fila de lindas e gigantescas palmeiras.

Aqueducto da Carioca—É a principal e monumental curiosidade que o Rio de Janeiro possúe dos tempos coloniaes. A sua extensão principal é de nove mil metros, desde a Mãe d’Agua, na serra de Santa Thereza, até ao largo da Carioca. A sua parte monumental, porém, é composta de 42 arcos de alvenaria, da altura de 17,ᵐ6, desde a caixa d’agua da Carioca, onde hoje está a estação da Companhia Ferro Carril Carioca, até ao morro de Santa Thereza. Este é o actual viaducto da linha, que se prolonga até ao Silvestre. Foi este aqueducto mandado construir pelo Conde de Bobadella, 59.º Governador do Rio de Janeiro, em 1744.

Durante o trajecto através d’esta colossal arcaria, gosa-se admiraveis vistas parciaes da cidade, da bahia, e de alguns arrabaldes.

Palacio Itamaraty—Está situado na antiga rua Larga de S. Joaquim. Foi o primitivo palacio do Governo, em seguida á proclamação da Republica. Hoje é o Ministerio das Relações Exteriores e serve tambem de residencia ao respectivo ministro, o Barão do Rio Branco.

No 1.º andar, ou nobre, nota-se a sala do Tribunal Arbitral, com mobilia dourada e estofos côr de rosa. Sala de recepção para o director geral do Ministerio, com os bustos, em bronze, do Visconde de Cabo Frio e de Quintino Bocayuva. Salão Amarello, para recepção de diplomatas. Admira-se aqui um quadro de Pedro Americo, intitulado—Paz—. Bustos, em bronze, de José Bonifacio, José Antonio Saraiva, Barão de Cotegipe, Marquez do Paraná, Visconde do Uruguay, Marquez d’Abrantes, Pimenta Bueno, Visconde do Rio Branco e Visconde de Cachoeira. Gabinete particular de recepção de diplomatas. Vê-se aqui o Grito do Ipyranga, por Pedro Americo, esboço do quadro que está em S. Paulo. Retrato de metal, em relêvo, do Barão do Rio Branco, offerecido pelo povo de S. Paulo.

Outros objectos, em prata e prata dourada, entre elles um do Jornal do Commercio, offerecidos ao actual ministro das Relações Exteriores, por occasião da sentença do tribunal arbitral suisso, na questão das Missões.

Sala Vermelha, decorada a quadros e a retratos. Um dos primeiros foi offerecido ao Barão do Rio Branco, pelo rei D. Carlos I, de Portugal.

Salão de Baile e Banquetes, com um soberbo lustre de metal amarello e crystal de rocha. Contigua está a sala de Fumo, que tambem serviu de recepção particular aos ex-presidentes da Republica, Deodoro e Floriano. Bustos, em bronze, do padre Bartholomeu de Gusmão e do Barão do Rio Branco. Relogio historico de D. João VI. Sala dos Retratos, dos presidentes da Republica.

Ha um edificio annexo, com a Secretaria e a Bibliotheca do Ministerio, que é importantissima.

Em tres salões, dos quaes o maior tem 33 metros de comprimento e o mais pequeno 22, estão 42:000 volumes encadernados, e cêrca de 100:000 brochuras e 25:000 cartas geographicas. Tambem, n’este edificio, está o archivo secreto do Ministerio das Relações Exteriores.

Chafariz Colonial—Outra reliquia do Brasil colonial. Foi o governador Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadella, quem o mandou construir ao centro do largo do Paço. Alguns annos depois, o governador Luiz de Vasconcellos e Souza, mandou que o chafariz fôsse removido para a beira-mar, junto do caes, a fim de abastecer as embarcações, ao mesmo tempo que parte da população da cidade. É uma obra artistica, de granito lavrado, com escudo, almofadas e balaustrada de marmore branco. Occupa, hoje, o fundo do primeiro polygono ajardinado da praça Quinze de Novembro, a 85 metros da bahia. Remata-o a esphera armillar, de ferro. É obra do seculo XVIII.

Casa da Moeda—O primitivo estabelecimento d’este nome, transferido da Bahia em 17 de Março de 1699, funccionou no edificio da Junta do Commercio, apenas durante um anno, sendo transferido para Pernambuco. N’esse curto periodo foram cunhados 612:644$000 réis em ouro e 255:694$980 réis em prata.

Em Janeiro de 1703 foi restabelecida a Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Para installal-a foi construido um edificio entre as travessas das Bellas Artes e da Moeda, aonde tambem funccionavam o Real Erario e a Thesouraria Geral das Tropas. Essa casa ardeu em 1 de Outubro de 1836, sendo os valores e apparelhos recolhidos á egreja do Sacramento.

O actual edificio foi construido de 1851 a 1853, na face occidental do então Campo da Acclamação, hoje Praça da Republica. Occupa uma area de 97:083 palmos quadrados. É precedido de um elegante gradil de ferro fundido em cantaria, com dois portões artisticamente ornamentados.

A frontaria consta de um corpo central saliente e revestido de cantaria, de dois torreões com tres janellas, em cada pavimento, e de dois corpos intermediarios, com 4 janellas em cada andar. O 1.º pavimento é decorado com pilares e columnatas de ordem dorica-romana, e o 2.º com pilares e columnata de ordem jonica, tudo de granito. Interiormente, ha seis columnas graniticas, em cada pavimento, que sustentam entablamentos, cujos frisos são ornados a triglyphos e metopos.

A decoração vestibular é no estylo dorico-romano. Na escadaria do perystillo estão dois leões de bronze. Custou este palacio cêrca de dois mil contos. Foi o Visconde de Itaborahy, ministro da fazenda, em 1853, o iniciador d’esta construcção, levada depois a effeito pelo seu successor Bernardo de Souza Franco. Foram emprezarios-constructores o dr. Theodoro Antonio de Oliveira e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro.

No vestibulo estão 4 peças com o laboratorio de analyses, o gabinete da Direcção e o gabinete de mineralogia. 1.º pavimento. Officina de gravura. Mostruario de medalhas cunhadas no estabelecimento. Officina de estamparia de sêllos e de estampilhas. Occupa 45 operarios.

No rez-do-chão, visita-se os depositos de material, as officinas de fundição de metaes, a officina de laminação e cunhagem e a officina das machinas.

Na officina de xenographia imprime-se notas de 5, 10, 20 e 50$000 réis. Impressão de apolices na secção lithographica.

No Deposito Geral da Thesouraria, no 1.º pavimento, admira-se a magnifica installação, a primeira da America do Sul. Consta de duas secções independentes, uma para a moeda e a outra para o sêllo. As portas, de ferro, abrem por meio de relogios, aos quaes dá-se corda na vespera, não se podendo abrir nem com a propria chave, antes da hora marcada. Em Maio de 1908, continha 200 mil contos de réis, em metal e sêllos.

Rua do Ouvidor—Esta arteria publica, a mais movimentada e caracteristica do Rio de Janeiro, tem setecentos metros de extensão desde a rua do Mercado ao largo de S. Francisco de Paula. A designação porque continúa a ser popularmente conhecida, não obstante haveram-n’a chrismado em rua Moreira Cesar, data de 1780, e provem do facto de ahi ter morado o ouvidor (magistrado) da capital do Brasil colonial, Berquó da Silveira.

Atravessa as ruas Primeiro de Março, da Quitanda, a Avenida Central, e as ruas Gonçalves Dias e Uruguayana. Apesar da grande concorrencia que principia a fazer-lhe a sua visinha, a magestosa Avenida, esta curiosissima arteria continua a ser o club ao ar livre, como lhe chamam, isto é, a reunião da sociedade elegante dos dois sexos, que encontra-se e troca impressões nos passeios, no meio da rua, que não é transitada por vehiculos, e ás portas dos estabelecimentos de luxo, especialmente das casas de modas, redacções de jornaes, tabacarias, cafés e confeitarias. Em nenhuma outra cidade do mundo ha assim uma rua com um feitio tão original, tão intima, interessante e encantadora.

Senado—Occupa, na face occidental da actual Praça da Republica, o edificio construido e offerecido, em 1810, por uma commissão de negociantes da Bahia, ao conde dos Arcos. A sua adaptação a Senado realisou-se em 1824, comprando-o o governo imperial ao procurador do conde, por 44:568$000 réis. A 1.ª sessão teve logar em 6 de Maio de 1826.

Em 1831 foi a casa abandonada por ameaçar ruina, passando o Senado a funccionar no edificio da Relação, na rua do Lavradio.

Reedificou-se o antigo palacete que foi reaberto em 1835. Damnificado, em breve, pelo cupim, passou de novo o Senado a occupar a casa da Relação, até que reedificou-se o edificio actual, sob a direcção do engenheiro Miguel de Frias e Vasconcellos. O interior é pobremente decorado. A sala das sessões é modestissima. Tem 68 cadeiras e algumas galerias e tribunas. É construcção interior e exteriormente indigna e impropria da séde da primeira assembleia legislativa do Brasil.

Pelas salas ha algumas pinturas, bustos e retratos de personagens e de oradores celebres.

Bolsa—Este palacio occupa a area de dois mil metros quadrados, na rua Primeiro de Março, confinando com a rua General Camara, a rua do Visconde da Itaborahy e uma passagem que a separa do edificio do Correio Geral. Iniciou a sua construcção, em 1880, o architecto Francisco Joaquim Bettencourt da Silva, terminando-a, ultimamente, o engenheiro civil José Valentim Dunhan.

Pertence á Associação Commercial do Rio de Janeiro. O chefe da Camara Syndical de correctores de fundos publicos, preside diariamente á venda de papeis de credito, que effectua-se em uma vasta rotunda, ao centro do magnifico hall. As dependencias do edificio são amplas e numerosas, destacando-se a bibliotheca, que é importante, o archivo, o salão de leitura e a sala das sessões.

A Associação Commercial foi fundada em 9 de Setembro de 1834, com o titulo de Sociedade dos Assignantes da Praça do Commercio.

Camara dos Deputados—Ha cêrca de 80 annos que existe este casarão, tendo primitivamente servido de paço municipal e de cadeia.

Esta era no pavimento terreo e n’ella esteve encarcerado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, álem de outros prisioneiros notaveis. A camara dos deputados funcciona n’este edificio, desde 1823. Tem a construcção soffrido varios remendos, mas fica sempre com o mesmo aspecto lugubre e mesquinho, absolutamente impropria para o fim que serve. Admira como na actual quadra, de assombrosos melhoramentos fluminenses, ainda não se começásse a edificação de um palacio proprio á reunião dos representantes do povo brasileiro.

O pavimento superior é occupado pela Camara, e no rez-do-chão estão a Caixa Economica e o Monte de Soccorro. A construcção não pertence a nenhum genero de architectura. O salão, pouco amplo e muito simples, é ladeado por galerias, para o publico, e por tribunas para senhoras e para o corpo diplomatico.

Alfandega—Grande edificio que occupa toda a rua do Visconde de Itaborahy, do lado do mar. Foi construido em 1817, pelo risco do architecto francez Grandjean de Montigny.

Encerra 14 vastissimos armazens.

O corpo principal foi, até 1821, séde da Praça do Commercio, ou Bolsa.

A renda mensal e actual da alfandega do Rio de Janeiro é, na média, de sete mil contos. Regula por quatro milhões de volumes, o movimento annual dos armazens.

Canal do Mangue—É uma das curiosidades da capital brasileira.

O seu nome vem da planta Eugenia Nitida, vulgo mangue, que cobria um enorme pantano onde a população do bairro despejava as immundicies das habitações. Foi começado em 1855 e terminado em 1860, sob a direcção do Barão de Mauá.

Não tendo, porém, declive sufficiente para facil communicação com o mar, procede-se actualmente á sua completa transformação e aformoseamento. O canal tem a extensão de 2:600 metros, desde a praça Onze de Junho até ao mar. É em duas rectas, a 1.ª de 1:200 e a segunda de 1:400 metros. Quadrupla fila de elegantes e gigantescas palmeiras sombreia e embelleza a 1.ª recta, prolongando-se pela 2.ª secção em dupla fila. Tanto a transformação d’este canal, como a esplendida avenida que o margina, do lado direito, fazem parte das obras do porto do Rio de Janeiro.

Supremo Tribunal Federal—É esta uma das mais bellas, artisticas e monumentaes construcções do Rio actual. Ergue-se na rua Primeiro de Março e é um palacio de marmore e de granito, primitivamente destinado e edificado para séde do Banco do Brasil.

Foi seu architecto Paulo Schroeder.

Repartição Geral dos Telegraphos—É o historico palacio construido, em 1743, por ordem do 59.º Governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, depois Conde de Bobadella. Occupou-o elle proprio e, a seguir, installaram-se ahi mais sete governadores, já então vice-reis do Brasil.

Em 1808 occupou-o D. João VI, quando fugido de Portugal, e desde 1822 a 1889, foi palacio imperial. D’ahi embarcou para o exilio, na madrugada de 16 de Novembro de 1889, o imperador D. Pedro II, acompanhado por sua familia. Sob o ponto de vista historico é este o mais notavel edificio da capital da Republica.

Exterior, como interiormente, nada contem de apreciavel.

Prefeitura—Ha dois edificios, occupados pelas duas instituições que constituem a Prefeitura, a saber o Conselho Municipal e a Municipalidade. O primeiro está installado em um elegantissimo predio da rua Treze de Maio, outr’ora escóla publica. Foi restaurado em 1895.

A Municipalidade, ou Prefeitura, funcciona em um vasto edificio da Praça da Republica, lado oriental. Álem de varias salas e salões, amplos e bem decorados e guarnecidos, a Prefeitura encerra uma importante bibliotheca.

Em 1904, a receita municipal foi de réis 28:302:269$242, e a despeza de 28:217:890$888 réis.

Em 1905, foi a receita de 23:834:861$000 réis, e a despeza de 23:807:521$463 réis.

Imprensa Nacional—Este amplo edificio, com 89 metros de frontaria, foi mandado construir, em 1877, pelo Visconde do Rio Branco, então ministro da fazenda, para installação da Typographia Nacional, com todos os seus serviços annexos e derivados.

Occupa uma area de 8:148 metros, e prolonga-se desde a estação da Companhia Carril Carioca, até ao Theatro Lyrico. O dr. Antonio de Paula Freitas, engenheiro, dirigiu as obras. A architectura é em estylo gothico-inglez.

Correio Geral—Esboçou o plano d’este edificio, o constructor Pedro Bosisio, por conta do ministerio da Fazenda e de accôrdo com a Associação Commercial. Afinal esta collectividade, que tinha de occupar um dos pavimentos, edificou casa á parte. A obra do Governo tem 40 metros de frente por 39 de fundo, dirigindo os trabalhos o dr. Antonio de Paula Freitas. O estylo architectonico é o do Renascimento, vendo-se no pavimento do rez-do-chão os caracteristicos da ordem jonica, no andar nobre os da ordem corinthia e no 3.º pavimento os da ordem composita. Também ahi funcciona a Caixa de Amortisação.

Mercado Novo—Tambem chamado Central. É novissimo, pois foi inaugurado em 15 de Fevereiro de 1908.

Foi construido para substituir o mercado Velho, situado na praia do Peixe. O novo occupa a praia de D. Manuel. É de ferro e vitraes, tendo 8 portões, 4 nos angulos e 4 lateraes. Ao centro, eleva-se um elegante pavilhão com torre e relogio. É muito arejado, asseiado e cortado de ruas calçadas a parallelipipedos. O centro é ajardinado. Destina-se esta construcção, a unica do Rio de Janeiro, no seu genero, á venda de peixe, carne e legumes. Em diversos bairros da cidade, ha mercados provisorios, em plena rua, até ás 9 horas da manhã.

Banco da Republica—Foi fundado em 12 de Outubro de 1808, com o titulo de Banco do Brasil, e com o capital de tres milhões de cruzados, em 1:200 acções de um conto de réis, cada uma. Começou a negociar em 1809, em uma casa da rua Direita, esquina da rua de S. Pedro.

Por alvará de 20 de Outubro de 1812, o Governo constituiu-se accionista com cem contos annuaes, producto de novos impostos, no intuito de auxiliar o Banco.

Em 1815 foi o estabelecimento mudado para outro predio, na mesma rua. A 16 de Fevereiro de 1816, foram mandadas estabelecer agencias, d’este Banco, na Bahia e, a seguir, em outras provincias.

Esteve quasi fallido, em 1821, em consequencia de um activo de cinco mil contos contra um passivo de seis mil, sendo reorganisado pelo Governo, em 1823, que o auxiliou com mil e duzentos contos. Alem disso o Estado permittiu que o Banco emittisse bilhetes de 4, 6, 8 e 12$000 réis.

Por causa dos supprimentos feitos pelo Banco ao Governo, durante as guerras do Sul, a assembleia geral dos accionistas recorreu ao Governo, que contractou com o Banco pagar-lhe a divida com nova emissão de notas, proporcional á mesma divida. Esta medida desacreditou o Banco.

Por carta de lei de 23 de Setembro de 1829, foi mandado liquidar, e definitivamente dissolvido em 3 de julho de 1848. Por decreto de 2 de Julho de 1851, foi creado um novo Banco do Brasil, com o capital de dez mil contos, dividido em 20:000 acções de 500$000 réis cada uma, começando as operações a 21 de Agosto, na casa n.º 143 da rua da Quitanda.

Em 12 de Julho de 1853, este Banco foi fundido com o Commercial, sob o titulo do Banco do Brasil. Foi installado no actual edificio, especialmente construido, situado na rua da Alfandega, esquina da rua da Candelaria, em 10 de Abril de 1854. O capital do 3.º Banco do Brasil, era de trinta mil contos, divididos em 150:000 acções.

Esse capital foi depois elevado a 33:000 contos, divididos em 165:000 acções de 200$000 réis cada uma.

O primeiro ministro da Fazenda, da Republica, o dr. Ruy Barbosa, reformou-o em 1890, sob a designação de Banco da Republica dos Estados Unidos do Brasil, concedendo-lhe a faculdade emissora, ao principio com caracter privativo, ampliando-a depois a outros estabelecimentos de credito.

Foi o abuso d’esta faculdade que produziu o ensilhamento, causa do atrazo e do descredito das finanças brasileiras.

Casas de Correcção e de Detenção—A primeira funcciona em edificio proprio, construido de 1835 a 1840, na rua do Conde d’Eu. A segunda, proxima da antecedente, foi inaugurada em 20 de Abril de 1856. Este estabelecimento é, hygienicamente, superior á Casa de Correcção, porém ambos estão mal situados. A primeira d’estas casas é uma especie de penitenciaria para trabalhos forçados e galés perpetuas. A segunda é apenas o deposito de presos das esquadras de policia, até que são julgados.

Palacio Episcopal—Foi edificado de 1701 a 1715, pelo bispo D. Francisco de S. Jeronymo, no local da ermida da Conceição e de uma casa habitada por alguns religiosos francezes. Reformou-o o bispo D. José Joaquim Justiniano.

É um casarão sem architectura alguma definida, mas que occupa uma bellissima posição topographica, no alto do morro da Conceição, de onde o golpe de vista é maravilhoso para a cidade, a bahia e os arrabaldes.

A decoração interior é modesta, notando-se alguns retratos e bustos de prelados e monarchas.