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Tres capitaes

Chapter 32: Imprensa
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About This Book

A first-person travel and civic study visits three South American capitals, combining vivid urban and natural description with comparative analysis of economic and social development. The narrative contrasts two dominant metropolises with a smaller, strategically placed capital, examining immigration, agriculture, commerce, industry, and the civic institutions that shape prosperity. Political tensions and diplomatic rivalries appear alongside admiration for visible progress, while local panoramas, architecture, and daily life are recorded in detail. The work balances patriotic viewpoints with measured praise for rivals, aiming to extract practical lessons from each city’s strengths and faults to guide future improvement.

Este substancioso documento, melhor do que qualquer descripção especial, dá bem a ideia da beneficencia, ou assistencia particular no Rio de Janeiro, assumpto que continuaremos a tratar nos sub-capitulos que vão seguir-se.

O relatorio acima transcripto não refere, porém, que a limpeza do Hospital Geral, deixa muito a desejar, sentindo-se em todas as suas dependencias o cheiro forte e caracteristico d’estas casas de caridade, quando a hygiene não é sufficientemente observada. Este immenso edificio, em 2 quadrilateros a 3 pavimentos e 4 torreões a 3 andares, faceia a praia de Santa Luzia e foi construido com o producto de loterias, tendo sido a primeira de 110 contos, concedida por D. João VI. Os pavimentos encerram 28 enfermarias geraes, com nomenclatura de santos. O Necroterio, adjunto ao Hospital, é indigno da instituição.

A irmandade da Misericordia, do Rio de Janeiro, data de 1545, e o hospital foi fundado nos primeiros annos do seculo XVII, ignorando-se exactamente a data, occupando varios immoveis, antes da construcção do actual edificio.

Como consta do Relatorio acima transcripto, a Santa Casa da Misericordia do Rio de Janeiro, tem as seguintes organisações subsidiarias, ou complementares:

Asylo da Misericordia, em S. Clemente, inaugurado em 27 de Julho de 1890, com 162 asylados, no fim de 1907;

Asylo de Santa Maria, funccionando desde 29 de Abril de 1877, e que encerra, actualmente, 52 orfãos;

Asylo das Velhas, inaugurado em 1 de Maio de 1884, com 43 invalidas;

Casa dos Expostos, ao principio, isto é, em 14 de Janeiro de 1738, data da sua fundação, intitulada Roda dos Expostos. Abriga 260 creanças dos dois sexos, além de cêrca de 200 dadas a criar fóra do estabelecimento.

Até ao fim de 1900, tinha esta instituição recolhido 43:038 creanças.

Recolhimento das Orfãs, fundado em 15 de Outubro de 1739, em Botafogo. Em fins de 1907, tinha 170 internadas, ás quaes é ministrada educação elementar, além da alimentação, até á puberdade.

Asylo de S. Cornelio, no Cattete, inaugurado em 1 de Setembro de 1900. 34 asylados.

Asylo de N. S. da Saúde, annexo ao hospital da mesma denominação. Foi inaugurado em 1853 e abriga 340 orfãos.

Asylo Provisorio do Hospital Geral, especialmente destinado a recolher orfãos deixados sem abrigo por enfermos fallecidos nos hospitaes da Santa Casa.

Asylo de N. S. das Dôres, em Cascadura, para asyladas tuberculosas, ou extraordinariamente debeis, mandadas a melhores ares pelos varios estabelecimentos que a Santa Casa mantem na cidade.

Hospital de S. João Baptista da Lagôa, em Botafogo, com 100 leitos e 5 enfermarias, para homens. Consultorio externo e distribuição gratuita de remedios.

Hospital de N. S. do Soccorro, em S. Christovão, com 50 leitos.

Hospital de N. S. da Saúde, na Gambôa, com 300 leitos. Tambem abriga meninas desvalidas, não reclamadas pelos interessados.

Consultorio gratuito para a indigencia.

Instituto Pasteur. Inaugurado em 1888. Assistencia preventiva de pessôas mordidas por animaes hydrophobos.

Não obstante o numero e a variedade de estabelecimentos beneficentes, a Santa Casa resente-se, especialmente no grandioso Hospital Geral, da accumulação de enfermos invalidos, convalescentes e em tratamento de molestias incuraveis, sendo insufficientes as enfermarias existentes e de urgentissima necessidade a creação de novas instituições destinadas a recolher o excesso da população hospitalar.

Asylo Gonçalves de Araujo—Antonio Gonçalves de Araujo, negociante portuguez fallecido no Rio de Janeiro, em 21 de Setembro de 1889, legou mil e quinhentos contos de réis á Irmandade de N. S. da Candelaria, para a fundação e custeio de um asylo destinado a abrigar menores dos dois sexos.

O edificio, com tres pavimentos, occupa na praça Marechal Deodoro, uma area de 12:000 metros.

No 1.º pavimento estão as salas da Administração, o almoxarifado, a despensa, as officinas, o lavabo e as banheiras; no 2.º andar, a bibliotheca, a residencia do Director e das regentes, as aulas, os refeitorios e a cosinha; no terceiro pavimento, o salão de honra, os dormitorios, as enfermarias e a rouparia. Em fins de 1907 havia 92 asylados, sendo 67 do sexo feminino. A condição de admissão é a extrema pobreza, dos 7 aos 18 annos. Ensina-se costura, bordado, fabríco de flôres, lavagem, engommado, arte culinaria, além do curso primario, completo.

Dispensario Azevedo Lima—Esta altruistica instituição foi, em principio, denominada—Dispensario da Liga Brasileira contra a Tuberculose—por ser creado por esta collectividade, mas o Presidente da Republica, dr. Affonso Pena, ao inaugural-o, em 25 de Maio de 1907, escreveu no auto de inauguração—Dispensario Azevedo Lima—em homenagem ao seu fundador e Presidente da Liga, o eminente e benemerito facultativo, dr. José Jeronymo de Azevedo Lima.

O governo cedeu o terreno, junto da Avenida Central, e a Liga levantou o predio, que custou 120 contos de réis. Fica isolado, por tres das suas faces, dos predios visinhos, e ergue-se entre jardins. O Estado subsidia o Dispensario com a annuidade de 24 contos. Os clinicos são beneficentes e effectivos.

No vestibulo ha duas salas de espera; um gabinete de exame, com balança de pesagem e apparelhos para desinfecção; uma sala para exame especial de laringe, com o material competente; um laboratorio bacteriologico e uma dependencia com estufa para encineração de residuos. Primeiro pavimento. Gabinete da Directoria. Sala das sessões, com o busto da Caridade, em bronze, por Teixeira Lopes. Bibliotheca da especialidade. Esta secção continua no 2.º andar, onde tambem ha um terraço com a admiravel perspectiva da Avenida Central e de parte da cidade e da bahia.

A Liga resolveu fundar novos sanatorios em varios bairros da capital e no interior do paiz, assim como um sanatorio para creanças tuberculosas, com o nome da rainha D. Amelia, de Portugal. A commissão da colonia portugueza que promovia grandiosos festejos para a recepção de D. Carlos I, resolveu entregar á Liga, para o fim acima exposto, as sommas arrecadadas. Para avaliar-se da necessidade d’esta philantropica instituição, bastará considerar-se que, em 1906, morreram, na cidade do Rio de Janeiro, 2:782 tuberculosos, em um total de 13:957 defuncções. Antes do actual a Liga já possuira um Dispensario na rua Gonçalves Dias, em 1902. Em 1906 a Liga deu 621 consultas, fez 77 visitas domiciliarias, aviou 883 receitas, fez 160 exames microscopicos e 87 laryngoscopicos. Além d’isso distribuiu 131 porções de oleo de figado de bacalhau, 2:150 de carne, 2:150 de leite e 353 escarradores.

Hospital da Real Sociedade Portugueza de Beneficencia—A ideia da fundação, no Rio de janeiro, de uma Sociedade Portugueza de Beneficencia, pertence ao então ministro de Portugal, no Brasil, Joaquim Cesar Figaniére Mourão, que, em 1839, a suggeriu ao consul, dr. José Marcellino da Rocha Cabral. Tomou a iniciativa da fundação a Directoria do Gabinete Portuguez de Leitura, que organisou os estatutos. Quanto ao hospital, foi seu iniciador o socio João Nunes de Andrade, que apresentou a proposta em sessão de 20 de Fevereiro de 1848. Começou-se pela fundação, em 1849, de uma enfermaria denominada de S. Vicente de Paulo, para os portuguezes atacados de febre amarella.

A compra do terreno para edificação do actual hospital, fez-se em 1851 e importou em 9:280$000 réis, na rua de Santo Amaro e nas dimensões de 26 braças e 4 palmos.

Muito concorreu para a fundação d’este estabelecimento, o presidente da Sociedade, Hermenegildo Antonio Pinto. Em 19 de Dezembro de 1853, foi lançada a 1.ª pedra do edificio, e a inauguração realisou-se em 16 de Setembro de 1858. Á entrada ha duplo lance de escadaria de granito, dividido por tres grupos estatuarios, representando a Caridade, depois de transposto o triplice portão de ferro, encimado pelas estatuas de D. Affonso Henriques e de Pedro Alvares Cabral.

O vestibulo é decorado pelos bustos, em marmore, de D. Carlos I, e dos condes de Agrolongo, de Mattosinhos, de Avellar e de S. Mamede. Gabinete da administração, com os retratos de D. Pedro V, de D. Estephania e do conde de Santa Marinha. Seguem-se, no mesmo pavimento vestibular, a secretaria, a rouparia, o gabinete das consultas externas, 2 dos curativos e a sala de operações. Na ala fronteira, uma enfermaria cirurgica, 3 mistas de medicina e cirurgia, refeitorios, installação hydrotherapica e cosinha geral. A pharmacia e o laboratorio funccionam em pavilhão separado. Pavilhão de isolamento de molestias contagiosas. Enfermaria de tuberculosos. Necroterio, na cêrca, em pavilhão isolado. Novissimo pavilhão com 2 salas de operações. Quartos particulares para contribuintes. Vestibulo da 2.ª ala geral do edificio, decorado por um grupo, em marmore, representando a Caridade, e pelos bustos de D. Pedro V, do conde de S. Cosme do Valle, de Julio Alberto da Costa, por Teixeira Lopes, e de Alexandre Herculano, este em ferro prateado e aquelles de marmore branco. Sala da Bibliotheca, com 3:000 volumes. Primeiro pavimento. Sala das sessões, guarnecida a retratos de bemfeitores do hospital. Retratos a oleo de D. Pedro V, D. Luiz I e D. Maria Pia. Quartos particulares e de internos (doutorandos). Consultorio homópathico e pharmacia. Enfermaria S. José (homópatha) composta de quartos a 2 camas. Enfermaria de Santa Luzia, (ophtalmologica). Sala de operações, quartos e camara escura. Enfermaria de invalidos. Passagem sobre terraço e ao ar livre, para o 1.º pavimento da 1.ª ala. Enfermaria de S. Joaquim, para medicina, composta de quartos a 2 leitos; e de S. Jeronymo, para medicina. Mais quartos para contribuintes. Linda e vasta capella, decorada por Bernardelli.

Hospital da Penitencia—É o mais importante dos hospitaes particulares do Rio de Janeiro. Pertence á Veneravel Ordem Terceira da Penitencia, a mais rica da capital da Republica. Occupava, outr’ora, um vastissimo edificio do largo da Carioca, que foi demolido para embellezamento da cidade, e o hospital provisoriamente removido para dois grandes predios da rua do Conde de Baependy, até que fique concluido o grandioso edificio que, nas proximidades, está a construir a mencionada Ordem, a mais antiga do Rio de Janeiro. Sustenta uma escóla para menores, no bairro da Saúde, e soccorre os irmãos nos domicilios.

Hospital do Carmo—Pertence á Ordem de N. S. do Monte do Carmo, que tambem soccorre com dinheiro, pensões e visitas domiciliarias, os seus irmãos enfermos e invalidos.

Hospital de S. Francisco de Paula—É mantido pela Irmandade de S. Francisco de Paula, em vasto predio, na rua Duque de Saxe. Tem sala para consultas externas, cemiterio, em Catumby, e um asylo para meninas orfãs.

Recolhimento de N. S. da Piedade—Mantido pela Irmandade da Candelaria, e fundado em substituição do Recolhimento de Santa Ritta de Cassia, mandado fechar pela municipalidade, que o subvencionava, em consequencia de uma campanha sustentada n’O Paiz, por Francisco Ferreira da Rosa, um dos seus redactores, que descobrira, em minuciosa visita, ser este estabelecimento um antro de immoralidade.

Asylos da Caridade, do Bom Pastor e de Santo Antonio—Estes tres estabelecimentos philantropicos são mantidos pela Ordem da Immaculada Conceição. O 2.º é para regeneração de mulheres transviadas e o ultimo abriga umas 60 orfãs, e está situado no delicioso arrabalde do Rio Comprido.

Policlinica Geral do Rio de Janeiro—Funcciona officialmente, esta prestante collectividade, desde 17 de Junho de 1882. Foi fundada por medicos e empregou o seu patrimonio, de trezentos contos de réis, na construcção de um edificio para sua séde, na Avenida Central. É destinada a prestar soccorros medicos a enfermos pobres e possúe laboratorios para varias especialidades clinicas.

Maternidade das Larangeiras—Funcciona, desde 3 de Março de 1904, em um predio do bairro das Larangeiras, e em 31 de Dezembro de 1907, tinha em tratamento 19 parturientes. É subsidiada pelo governo.

Stranger’s Hospital—Está situado no bello e aristocratico bairro de Botafogo. Foi fundado em 21 de Janeiro de 1892, para realisar a assistencia hospitalar aos estrangeiros domiciliados no Rio de Janeiro. Dirige-o uma associação de beneficencia.

Instituto de Protecção e Assistencia á Infancia—Foi fundado em 24 de Março de 1889 e funcciona desde 14 de Julho de 1901. Sustenta um Dispensario, na rua do Visconde do Rio Branco, que soccorre, por todas as fórmas, as creanças indigentes. Além de medicos e medicamentos gratuitos, essa caridosa instituição fornece leite esterilisado, calçado e vestuario. Tambem examina amas mercenarias e soccorre as creanças victimas de accidentes na via publica. É subvencionado pela municipalidade e pelo governo federal. Este benemerito Instituto foi fundado pelo dr. Moncorvo Filho, e publica mensalmente os seus Archivos.

Policlinica de Botafogo—Em 10 de Junho de 1900, começou esta instituição a funccionar na rua Bambina, n.º 45, em Botafogo, na séde da Sociedade Propagadora da Instrucção ás Classes Operarias da Freguezia da Lagôa. São relevantissimos os serviços prestados por esta philantropica e benemerita collectividade á sociedade fluminense, em geral, e muito especialmente ao populoso bairro de Botafogo. Fundou-a um corpo clinico, a cuja frente está a figura sympathica e prestigiosa do dr. Luiz Barbosa, tão eminente facultativo como primoroso cavalheiro e diamantino caracter, que exerce a medicina como verdadeiro sacerdocio da religião da humanidade, e sublima o seu espirito ao exercicio da caridade, a mais divina de todas as virtudes e a unica a immaterialisar a nossa natureza e a irradiar a nossa alma aos esplendôres eternos.

Até 31 de Dezembro de 1907, a Policlinica tinha dado 427:217 consultas, feito 30:716 applicações electricas e 9:049 operações diversas. Recentemente inaugurou esta altruistica instituição um pavilhão de cirurgia, que consta de sala de operações, sala de consultas e curativos cirurgicos e genecologicos, enfermaria, gabinete do interno, rouparia, quarto de banho, pequena sala de recepção dos medicos e gabinete para os serviços complementares de assistencia aos enfermos. No antigo edificio funccionam as secções de clinica medica, pediatria, dermatologia e syphilis, occulistica, de otologia e rhinologia, homópathia e odontologia, com material e mobiliario apropriados, notando-se em todas as installações o maximo cuidado e aceio. Trata-se da fundação de um Archivo Medico, especie de bibliotheca da especialidade.

A Policlinica de Botafogo, além dos soccorros prestados na sua séde, faz numerosas visitas a domicilios e, com material rolante e dos mais aperfeiçoados, acóde aos accidentes da via publica, na area da sua benefica acção.

Dispensario Central—Funcciona na rua do Acre, n.º 17, e foi fundado pelo gremio protestante Missão Central. Presta, na séde ou nos domicilios, serviços medicos e de odontologia e fornece medicamentos aos seus assignantes, que são admittidos até á idade de 65 annos, pagando a mensalidade de 1$000 réis.

Asylo da Velhice Desamparada—Tambem conhecido pelo nome de Asylo de S. Luiz. Eleva-se em um comoro da rua Tavares Guerra, desde 1820, anno em que o fundou o Commendador, mais tarde Visconde de Ferreira de Almeida.

É um grandioso edificio de tres pavimentos, no centro de jardins e bosques e com esplendoroso panorama geral. Abriga, alimenta, veste e fornece assistencia medica e hygienica a homens e mulheres idosas, invalidas e indigentes de qualquer nacionalidade.

Outras Instituições—Além das já mencionadas, outras e numerosas associações beneficentes elevam bem alto, ás sublimidades da civilisação universal, o espirito philantropico dos brasileiros da capital da Republica. Citaremos as seguintes, que avultam d’entre as 185 collectividades beneficentes que existem, actualmente, no Rio de Janeiro:

Associação dos Empregados no Commercio do Rio de Janeiro—Soccorre os seus associados com medico, medicamentos, dinheiro, e foi a primeira aggremiação que na Capital Federal estabeleceu o serviço de soccorros na via publica, para o que possúe material apropriado. Está installada em um esplendido palacio proprio, na Avenida Central, e organisa uma bibliotheca. Foi fundada em 1880 e possúe um patrimonio de réis 2:340:000$.

Sociedade Amante da Instrucção—É, ao mesmo tempo, uma associação propagadora do ensino e um centro de assistencia, com patrimonio, do qual mantem um asylo de orfãs, que são alimentadas, vestidas, e educadas até aos 19 annos.

O património é de 576 contos e tem 4:400 socios remidos.

Associação das Senhoras da Egreja Evangelica Brasileira—Sustenta um posto medico destinado ás suas associadas. Funcciona no Campo de Marte, á rua de S. Leopoldo, n.º 185.

Associação das Senhoras de Caridade de S. Vicente de Paulo—Fornece roupa, medico, dieta e medicamento ás irmãs necessitadas. Tem onze annos de existencia e bifurca-se por varios bairros da cidade.

Convem citar ainda a Maçonaria Brasileira, a Federação Spirita, a Veneravel Ordem Terceira de N. S. da Conceição e Boa Morte, a Assistencia Pia dos Pobres de Santo Antonio, a Devoção da Piedade, as irmandades de S. Pedro, da Lapa dos Mercadores, da Lapa do Desterro, a Ordem do Bom Jesus do Calvario, o Dispensario de S. Vicente de Paulo, a Irmandade de Santa Cruz dos Militares, a Société Philantropique Suisse, entre as collectividades civis e religiosas que praticam a caridade, em maior ou menor escála, segundo as suas posses e a amplitude dos seus estatutos.


Batalha de Confetti

Ha dez annos passados, não se podia realisar, no Rio de Janeiro, batalhas de flôres, nem de confetti, nenhuma d’essas elegantes diversões que imprimem o tom e constituem a suprema elegancia das grandes capitaes civilisadas. Faltava local apropriado. Hoje, além do Parque da Republica, ha as magnificas avenidas que, pela beira-mar, prolongam-se ao extremo-sul da praia de Botafogo. Ellas constituem excellentes corsos, amplos, arborisados, limpos e floridos.

Por uma bellissima e deliciosa tarde de Abril de 1908, centenares de vehiculos, alguns enfeitados com requintado gosto, deslisavam em quadrupla fila, pelas duas principaes alamedas que marginam a formosa enseada de Botafogo. Com flôres iam, muitos d’elles guarnecidos, mas apesar das bellas hortensias e das perfumadas rosas que os realçavam, o observador ficava indeciso no que mais admirar, se ellas ou as lindissimas senhoras, flôres tambem, que disputavam-lhes a primazia na propria belleza e no encanto e enlevo dos nossos olhos.

Nos passeios lateraes o transito era difficil, quasi impossivel, pela quantidade das gentilissimas passeiantes, que os cavalheiros procuravam não magoar.

A formosura dos rostos dizia bem com o primôr e a elegancia do vestuario das senhoras, como as garridas côres dos trajes realçavam a variedade dos typos, escuros e claros, das simples filhas do povo. Fraternisava-se, e se não com o enthusiasmo das festas carnavalescas, as mais populares da capital fluminense, ao menos em um ambiente mais calmo e perfumado, no apogeu de uma festa eminentemente civilisadora e digna dos centros mais luxuosos do globo. E que supremo gôso espiritual, o d’aquella extraordinaria animação humana, sob a celestial abobada, infinitamente azulada, e em pleno esplendôr d’essa uberrima e pujante natureza, que cingia aquelle grandioso campo de batalha de uma radiante aureola de belleza e de primôres! O mesmo sol, tão ardente, horas antes, affastava-se gentil e deslumbrantemente, illuminando, com suavidade e brilho, a arena e os batalhadores, a superficie das aguas, as encostas e os cimos das montanhas circumvizinhas, e incendiando de formosura e de desejos os olhares das moças cariocas, em um deslumbramento de apotheose.

Mulheres bonitas e olhares de fogo podem vêr-se em todos os povos, porém a brasileira seduz pela dupla e ineffavel expressão de candura e de meiguice com que nos acaricia e anima, como se Deus e a natureza por ella irradiassem o gôso inconcebivel da suprema belleza e do infinito amôr.


Instrucção Publica

Ao municipio fluminense, como a todos os da União Brasileira, compete subvencionar e desenvolver a diffusão da instrucção, pelas classes populares.

Na cidade do Rio de Janeiro, a instrucção primaria é dada em tres cathegorias de escólas officiaes do municipio—as primarias, as escólas modêlo e as escólas elementares.

Pelos onze districtos escolares urbanos e pelos quatro suburbanos estão distribuidas 193 escólas primarias, regidas por professores cathedraticos, diplomados pela Escóla Normal do Districto Federal.

N’essas escólas estavam, em 31 de Dezembro de 1907, matriculados 25:891 alumnos. Ellas são para os dois sexos, umas em separado e outras mistas. O programma d’essas escólas, dividido em curso elementar, médio e complementar, comprehende as seguintes materias:—Leitura, escripta e theoria da linguagem; arithmetica pratica até á regra de tres; elementos de geometria; systema metrico; elementos de geographia e historia, principalmente do Brasil; lição de coisas e noções concretas de sciencias physicas e de historia natural; instrucção moral e civica; desenho; gymnastica; trabalhos manuaes e trabalhos de agulha.

A segunda cathegoria, as escólas modêlo, são apenas cinco, onde os candidatos ao professorado fazem a pratica escolar, sob a direcção dos cathedraticos.

Quanto ás escólas elementares, são casas particulares de ensino da zona rural, ou suburbana, situadas a mais de um kilometro de distancia das escólas publicas-primarias, subvencionadas pela municipalidade, desde que admittam um numero estipulado de alumnos gratuitos e subordinem-se ao programma official de ensino. Existem cêrca de oitenta escólas particulares, com a matricula, approximada, de 5:500 alumnos dos dois sexos. Os professores d’estes estabelecimentos de ensino são diplomados, como os das escólas primarias.

A instrucção profissional, além da Escóla Normal, é dada nos Institutos Profissionaes, um para cada sexo, dos quaes já tratamos no capitulo—Estabelecimentos Scientificos.

Os Institutos Profissionaes, a Escóla Normal, o Pedagogium e as escólas-modêlo, funccionam em edificios proprios, municipaes. Tambem já alguns predios onde é ministrada a instrucção primaria-official, pertencem á municipalidade. Em 1907, o total de professores officiaes, isto é, diplomados pelo municipio, era de 952, para todas as escólas. Estas são divididas em 15 districtos escolares, comprehendendo todas as escólas primarias e elementares, sob a fiscalisação de outros tantos inspectores, subordinados á Directoria Geral de Instrucção Publica.

As cinco escólas-modêlo e os estabelecimentos de instrucção normal e profissional, são directamente fiscalisados pelo Director Geral de Instrucção. Para a solução de assumptos difficeis, nas questões technicas e pedagogicas, reune-se o Conselho Superior de Instrucção Publica, composto de trinta membros, pertencentes ao corpo docente municipal e presididos pelo Director Geral.

O Governo Federal sustenta, na capital da Republica, os seguintes estabelecimentos de instrucção secundaria, technica e superior:

Escóla Nacional de Bellas Artes.

Faculdade de Medicina, que habilita medicos, cirurgiões, pharmaceuticos, dentistas e parteiras.

Escóla Polytechnica.

Gymnasio Nacional (internato e externato).

Instituto Nacional de Musica.

Escóla Militar.

Escóla Naval.

Instituto Benjamim Constant (instrucção aos cegos).

Instituto dos Surdos-Mudos.

Escóla Preparatoria e de Tactica.

Ha duas escólas de sciencias juridicas, que conferem o diploma de bacharel nas mesmas sciencias. Nos capitulos—Estabelecimentos Scientificos e Museus, já descrevemos quasi todas as instituições de ensino acima citadas.

Pelo recenseamento official, realisado em 20 de Setembro de 1906, dos 811:443 habitantes do Districto Federal, 361:501 eram analphabetos, dos quaes 185:873 homens e 175:628 mulheres.

Os melhores edificios escolares que existem no Rio de Janeiro, foram construidos em 1904, a expensas da Prefeitura, e são a Escóla Tiradentes, na rua do Visconde do Rio Branco e no local onde foi suppliciado o proto-martyr da independencia do Brasil; a Escóla Prudente de Moraes, no delicioso arrabalde chamado Fabrica das Chitas; e a Escóla Rodrigues Alves, ao lado do palacio da Presidencia da Republica, na rua do Cattete.

O orçamento geral dos serviços municipaes de instrucção publica, que em 1904 foi de réis 4:155:353$000, é, actualmente, superior a cinco mil contos de réis.

Calculando-se que, ao Governo Federal, custe, pelo menos, somma egual a manutenção dos estabelecimentos de instrucção, já referidos, temos a quantia, approximada, de dez mil contos, despendida, annualmente, com a instrucção publica, no Rio de Janeiro.

Cada professor das escólas-modêlo, vence réis 6:000$000, por anno; um professor cathedratico, 4:000$000; um adjunto effectivo, 3:000$000 réis; um dito estagiario, 1:000$000; cada professor elementar, 4:800$000 réis; um adjunto 2:400$000 réis. Dos 1.ᵒˢ ha 6, no quadro, dos 2.ᵒˢ 193, dos 3.ᵒˢ 300, dos 4.ᵒˢ, 200; 7 professores elementares e 72 substitutos. Ao todo 778 educadores de instrucção primaria, municipal.

Ao quadro da instrucção normal-pedagogica, pertencem 25 professores de sciencias, com o vencimento annual de 5:400$000 réis; 12 professores de artes a 4:000$000 réis annuaes; 5 professores contractados, a 1:800$000 réis; e 2 preparadores e 1 conservador, a 3:600$000 réis.

Á instrucção profissional pertencem 7 professores de sciencias, a 5:000$000 réis; 10 ditos de artes, a 4:000$000 réis; 11 adjuntos e auxiliares de ensino, a 3:000$000; 16 mestres de officinas, a 3:000$000, e 8 contra-mestres, a réis 1:200$000, annuaes. Os professores primarios que não habitam os predios das respectivas escólas, percebem uma gratificação supplementar de 1:800$000 réis, annualmente, a titulo de auxilio de aluguel de casa, e todos os educadores diplomados, de todas as cathegorias, teem direito á gratificação addicional, correspondente aos periodos de tempo de bons serviços.

O seguinte quadro demonstra o numero de escólas municipaes do Districto Federal, das tres cathegorias, bem como as dos ensinos normal e profissional, dos dois sexos, assim como a respectiva frequencia de alumnos, segundo o ultimo recenseamento official:

Escólas elementares 79
Numero de alumnos matriculados 5:136
Escólas primarias 193
Numero de alumnos matriculados 24:151
Escólas-modêlo 5
Numero de alumnos matriculados 2:299
Escóla Normal.
Numero de alumnas matriculadas 431
» » exames effectuados 1:436
» » alumnas diplomadas 50
Pedagogium.
Numero de alumnos matriculados 194
» » exames effectuados 171
Instituto Profissional Masculino.
Numero de alumnos matriculados 300
» » officinas 9
Instituto Profissional Feminino.
Numero de alumnas matriculadas 120
» » officinas 3
Total de individuos frequentando as escólas municipaes 32:631

Abrangendo os tres gráus de instrucção primaria, secundaria e superior ha, no Districto Federal, constituido pela cidade do Rio de Janeiro, os arrabaldes e os suburbios, numerosos estabelecimentos particulares de ensino. Infelizmente, não existe estatistica official das escólas primarias, particulares, calculando-se a sua frequencia em 12:000 alumnos dos dois sexos.

Computa-se em 6:000 o numero de alumnos que frequentam os numerosos collegios de instrucção secundaria, espalhados pela capital e seus contornos.


Corcovado

Ascende-se a esta grandiosa e bella montanha, distante dez kilometros do Caes Pharoux e alta de 711 metros, por uma estrada de ferro em cremalheira, inaugurada em 9 de Outubro de 1884, na extensão de 3:790 metros. Delineou-a, requereu a sua concessão e presidiu á construcção o dr. Francisco Pereira Passos, auxiliado pelo seu collega, o engenheiro João Francisco Soares. Foi um arrojo esta magnifica obra de engenharia, e o começo da celebridade do homem eminente que, mais tarde, deveria aureolar a sua gloriosa carreira publica com a brilhantissima administração de Prefeito do Districto Federal, e de iniciador e executor dos assombrosos melhoramentos que transformaram, por completo, a cidade do Rio de Janeiro.

A estação inicial da Estrada de Ferro do Corcovado é nas Larangeiras, rua do Senador Octaviano, n.º 51. O carro, impellido por minuscula machina, dirige-se á estação das Paineiras, transpondo varios viaductos, o mais importante dos quaes é o do Silvestre. São tantos e tão maravilhosos os encantos visuaes e espirituaes, quantas as sinuosidades e curvas da linha, que nos patenteiam, infelizmente por curtissimo espaço de tempo, os primôres de um panorama que não tem rival em parte alguma do globo terraqueo.

Todos os arrabaldes e suburbios do Rio de Janeiro são pujantissimos de vegetação e de belleza; porém a Tijuca e o Corcovado constituem os vértices, a magnificencia e o deslumbramento d’essa apotheose da natureza, que sublima a capital fluminense á cúspide maxima de primeira entre as metropoles do mundo. Visitar uma e outra, embrenhar-se nas suas florestas e concentrar o espirito nos seus primôres visuaes, é conversar com Deus, é enlevar-se a creatura humana a páramos celestes e, por instantes, despir-se do involucro material para immortalisar-se e ascender aos esplendores divinos e eternos.

As Paineiras são o ponto das excursões pela floresta. D’ahi partem estradas e atalhos que ora seguem o velho e solido aqueducto da Carioca, ora embrenham-se na matta, subdividindo-se e ramificando-se em estreitissimos caminhos, apenas transitaveis por peões. Em tres horas de bom caminhar alcança-se a Tijuca, passando-se a Ponte do Inferno, suspensa sobre um abysmo, entre rochedos.

As Paineiras estão a 465 metros acima do nivel do mar.

O trajecto, que até ahi tinha sido feito em 28 minutos de comboio, prolonga-se por mais 12 minutos até ao alto do Corcovado, em um declive assustador, por sobre insondaveis e vestidos abysmos, e antevendo o passageiro, por duas vezes, trechos do mar, da cidade e de montanhas distantes. Do ponto final da linha ferrea ao Chapéu de Sol, pavilhão de ferro e vidro construido no cimo da montanha, gasta-se 5 minutos a subir por alva e novissima escadaria de granito.

Uma vez attingido o cume, que além do pavilhão contem ainda duas varandas de pedra, é deixar que a alma extasie-se na sublimidade do Bello, e concentrar o pensamento nos mysterios da natureza e de Deus. A immensidade oceanica, que a perder de vista acaricia e suavisa a terra, beijando-a docemente; cadeias de montanhas e montes gigantescos que áquem, além e nos extremos do horisonte, agasalham as nuvens e roubam-nos pequenos trechos do panorama geral; a cidade, os seus extensissimos arrabaldes e suburbios a espreguiçarem-se por entre a opulencia vegetativa; as ilhas que enfeitam a immensa bahia e defendem a entrada do porto; a formosura incomparavel do céo, da terra e das aguas; esse conjuncto ineffavel, esplendoroso e magnifico, constitúe o mais bello e grandioso hymno da excelsa natureza ao seu Creador, a apotheose esthetica e deslumbrantissima do nosso planeta, e a essencia de tudo quanto o genio assombrosamente inconcebivel de Deus creou de sublime e primoroso em todas as maravilhas da amplidão etherea.


Governo Municipal

No periodo colonial, a cidade do Rio de Janeiro foi administrada pelo Senado da Camara, instituição importada da metropole e que findou em 1830, para dar logar á Camara Municipal. Em 7 de Dezembro de 1889, a Republica substituiu-a pelo Conselho da Intendencia Municipal, que por lei de 20 de Setembro de 1892, foi transformado em Conselho Deliberativo. Esta collectividade, que póde ser convocada, extraordinariamente, pela Prefeitura e pelo Governo, compõem-se de dez intendentes, dos quaes o Presidente é eleito pelos seus collegas. Reune-se, em sessões ordinarias, duas vezes por anno, de 2 de Abril a 31 de Maio e de 1 de Setembro a 31 de Outubro, em um edificio da praça Ferreira Vianna, de construcção municipal e que fôra destinado para escóla publica de instrucção primaria. Outr’ora funccionava o Conselho no edificio da Prefeitura, na praça da Acclamação, hoje da Republica, separando-se em 1896.

O Districto Federal é directamente governado pelo Prefeito Municipal, que exerce o poder executivo, e é nomeado por decreto do Presidente da Republica.

O Conselho Deliberativo vota as leis municipaes, o Prefeito sancciona-as e estão encarregados da sua execução vinte e cinco Districtos Munipaes, cada um composto de um agente, um escrivão e variavel numero de guardas. Os funccionarios municipaes, de todas as cathegorias, são cêrca de 3:200, que vencem, annualmente, quantia approximada a 10.500:000$000 réis.

No seu governo e administração o Prefeito tem as seguintes repartições auxiliares:

Directoria de Hygiene e Assistencia Publica.—Compete-lhe a organisação de serviços de assistencia medica; a fiscalisação do abastecimento de viveres; a superintendencia dos hospitaes municipaes; a regulamentação dos cemiterios; a fiscalisação dos serviços dos asylos municipaes; o saneamento geral da cidade; a adopção e execução das providencias de policia sanitaria e a creação de condições mesologicas favoraveis ao desenvolvimento normal da população.

Directoria de Instrucção.—Tem a seu cargo o ensino publico municipal; a organisação e regulamentação dos estabelecimentos officiaes de ensino primario e profissional; o provimento de professores e de material para as escólas e o desenvolvimento dos meios de instrucção popular.

Directoria de Obras e Viação.—Trata do embellezamento da cidade; da superintendencia em todas as obras municipaes; da construcção, reconstrucção, accrescimos e reparos de predios por sua conta e de particulares, em edificações de qualquer especie, provisorias e definitivas. Trata tambem da viação urbana, em geral, e da carta cadastral.

Directoria do Patrimonio.—Compete-lhe o arrendamento, aluguel, fôro, compra e venda dos bens municipaes, moveis e immoveis; as doações, legados, heranças e fidei-commissos; o tombamento e cadastro do territorio e bens do Districto Federal; o processo de aforamento de terrenos devolutos; o de acquisição de terrenos baldios: o processo para desapropriação por utilidade municipal e a avaliação e medição de todos os bens municipaes.

Directoria da Fazenda.—Tem a seu cargo a contabilidade geral da receita e despeza do Municipio; o pagamento das despezas legalmente auctorisadas pelo Prefeito; a direcção, fiscalisação e arrecadação dos impostos e rendas municipaes e, finalmente, os serviços da fazenda municipal, em todas as suas ramificações.

Directoria de Policia Administrativa, Archivo e Estatistica.—Superintende o serviço de policia municipal administrativa, exercida pelos agentes da Prefeitura, pelos fiscaes de inflammaveis e pelos guardas municipaes; organisa a estatistica geral do Districto Federal, investigando todos os factos sociaes, politicos e administrativos de caracter local ou municipal; informa as questões relativas á legislação e policia, assim como as de natureza contencioso-administrativa; conserva, devidamente classificados, todos os documentos relativos á historia e á administração do Municipio e trata de todos os serviços da Prefeitura, que não estejam distribuidos ás outras repartições.

Superintendencia da Limpeza Publica e Particular—Compete-lhe, especialmente, o asseio das ruas e praças publicas, a limpeza e conservação das vallas e dos rios; a collecta e remoção do lixo das habitações particulares, dos quarteis e das repartições publicas.

Inspectoria de Mattas, Jardins, Arborisação, Caça e Pesca—Trata da superintendencia dos serviços que constam da sua nomenclatura.

A receita geral da municipalidade fluminense foi, pelo Conselho Deliberativo, orçada em réis 26.427:215$000, para 1909, com uma despeza equivalente, tendo sido a receita, cinco annos antes, em 1904, de 22.252:645$735 réis, e a despeza de 22.852:874$313 réis.


Copacabana, Leme e Ipanema

Do centro da cidade e pela praia de Botafogo o tramway electrico entra na rua da Passagem, e por ella dirige-se ao tunnel do Leme, que fura um dos contrafortes da serra do Corcovado, ou da Tijuca. Transposta a galeria subterranea, encontra-se duas linhas; a da direita, que segue á praia de Ipanema, e a da frente, que termina na extremidade occidental da praia do Leme. Esta linha é a mais curta, e em poucos minutos attinge-se o obstaculo natural formado pela mesma serra que o tunnel vence e por um gigantesco blóco de pedra, o Pão de Assucar, a desafiar a furia das vagas que, impotentes, desfazem-se, espumantes, de encontro á sua formidavel estructura. Ahi, n’esse encantador final de praia, ha um botequim-restaurante, e organisam-se algumas diversões, no intuito de attraír a concorrencia dos cariocas a sitio tão pittoresco.

Todo o conjuncto, que prolonga-se do extremo da praia do Leme, ao da de Ipanema, visinha da Gavea, tem a denominação generica de Copacabana, cujo ponto principal, além dos já citados, é a Egrejinha, logar elevado e reintrante que divide a praia do Leme da de Ipanema. Um santuario, branco e anti-artistico, occupa o vértice d’aquella elevação, proporcionadora de um dos mais deliciosos encantos que ao nosso espirito possamos offerecer na ephemera passagem pelos esplendores terrestres. O verde glauco das ondas, quebrando-se a nossos pés, em furia tremenda, e projectando-se, em nivea espuma, aos atomos ethereos; a enseada immensa da Copacabana, bordada de casaria, que emerge de tufos de verdura; a verdejante cadeia de montanhas que fecha o horizonte; á nossa direita, a immensidade oceanica, á esquerda as fortalezas que defendem a barra; em face o pharol da Ilha Rasa e os cumes de serras distantes, aureolados por um poente maravilhoso; eis o panorama que sublima a alma a regiões sonhadas pelo que existe, em nós, de immortal e de divino.

O ministerio da guerra tomou conta da Egrejinha, que é tambem um excellente ponto estrategico, outr’ora aproveitado, e trata de fortifical-o.

Ipanema é uma praia tão vasta e bella, dotada de taes condições topographicas e climatericas, que é um crime não preparal-a a ser frequentada e habitada pelos fluminenses, que costumam ir muito mais longe procurar o que possúem ao pé de casa, como nenhum outro povo do mundo.

Aqui não é o oceano a debater-se contra formidaveis gigantes de pedra; as ondas espraiam-se suave e encantadoramente, estendendo niveos e formosos mantos, que as projecções solares bordam de myriades de scintillações deslumbradoras. Já existem muitas habitações em quasi toda a extensão da Copacabana, algumas elegantes; porém o sólo, extremamente arenoso, não está convenientemente preparado; não ha conforto nem distracções.

Só a natureza, nos esplendôres do céo e da terra, gorgeia alli, perennemente, um hymno de triumpho, de belleza e de amôr ao Supremo Creador das celestes espheras.


Salubridade

A Bombaim sul-americana, como era classificada, na Europa, a cidade do Rio de Janeiro, desappareceu sob a alavanca demolidora do dr. Pereira Passos, ex-Prefeito Municipal, a competencia scientifica do dr. Oswaldo Cruz, Director Geral de Hygiene, e a collaboração de muitos elementos officiaes e particulares, que congregaram-se para dar batalha de exterminio á febre amarella e a outras molestias endemicas e epidemicas que afugentavam os immigrantes e os forasteiros, da perola das cidades mundiaes.

Só a febre amarella dizimára, á sua conta, em 1896, 2:929 habitantes da Capital Federal; dez annos depois, em 1906, os seus estragos reduziram-se a 42 vidas!

Hoje, póde affirmar-se que essa terrivel epidemia passou á historia sanitaria do Rio de Janeiro. A transformação da cidade pela abertura de grandes avenidas e pelo alargamento das velhas ruas coloniaes e, principalmente, as providencias energicas adoptadas pelo governo federal e pela municipalidade, isolando os enfermos, destruindo, pelo fogo, as habitações empestadas e dando caça implacavel ás larvas e aos mosquitos conductores e transmissores dos microbios febris, libertaram a formosa metropole brasileira da fama de necroterio universal e transformaram-na em uma das mais salubres capitaes do nosso globo.

Já em 1906 era a seguinte a estatistica comparativa da mortalidade nas principaes capitaes da Europa, da Asia e da America:

Athenas 30,9
S. Petersburgo 30,5
Madrid 28,0
Lisbôa 23,1
Roma 20,8
Rio de Janeiro 20,7
Vienna d’Austria 19,3
Tokio 18,9
New-Iork 18,3
Paris 17,6
Berlim 17,1
Londres 15,6

Actualmente, o Rio de Janeiro é, pelo menos, tão salubre como New-Iork e Paris.

Este assombroso resultado é uma das glorias mais refulgentes e impereciveis da administração republicana do Brasil.

A ultima estatistica official indica a mortalidade, no Districto Federal, de 16 por 1:000 habitantes, annualmente.

Para manter esta proporção consoladôra e acima de toda a espectativa, muito contribúe o abastecimento de aguas á capital da Republica, hoje consideravelmente augmentado e aperfeiçoado.

A distribuição do precioso liquido está a cargo da Inspectoria Geral de Obras Publicas, subordinada ao ministerio da Industria e Viação, e faz-se por 26 reservatorios, caixas, açudes e reprezas, que occupam situações elevadas dos seis districtos em que, para o effeito da distribuição, está dividido o Districto Federal. O primeiro reservatorio construido foi o do Pedregulho, em 1876, celebre pelas suas fendas, que custaram milhares de contos ao Thesouro. Só no anno de 1905 gastou o governo da União a somma de 20:000 contos para augmento do abastecimento de agua á cidade do Rio de Janeiro, arrabaldes e suburbios.

Actualmente é o Districto Federal abastecido, diariamente, da seguinte fórma:

—Rio Maracanã e affluentes 17 milhões de litros
—Rio Macaco 6 » » »
—Rio Cabeça 1, 500 mil litros
—Rios Carioca e Paineiras 3 milhões de litros
—Aguas do Silvestre e morro do Inglez 300 mil litros
—Rio Trapicheiro 2, 500 mil litros
—Rio Tres Rios 4 milhões de litros
—Rios Mendanha, Piraquara e Covanca 3, 700 mil litros
—Serras Tinguá e Commercio 122 milhões de litros
Augmento de 1905 50 milhões de litros
210:000:000 » » »

Eis o quadro da mortalidade geral, no Rio de Janeiro, em 1906:

Tuberculose pulmonar 2:647
Outras tuberculoses 135
Molestias do apparelho respiratorio 1:327
Molestias do apparelho digestivo 2:398
Molestias do apparelho circulatorio 2:242
Molestias do systema nervoso 1:331
Mortes violentas (excepto suicidios) 507
Molestias do apparelho urinario 473
Grippe 453
Molestias de primeira edade e vicios de conformação 437
Cancros e outros tumores malignos 291
Debilidade senil 219
Paludismo agudo 149
Outras molestias geraes 145
Injecção purulenta septicemia (excepto a puerperal) 140
Paludismo chronico 118
Peste 111
Molestias ignoradas ou mal definidas 98
Syphilis 71
Suicidios 71
Beriberi 69
Febre typhoide 65
Dysenteria 60
Molestias da pelle e do tecido cellular 56
Outros accidentes purperaes 55
Febre amarella 42
Septicemia puerperal 42
Diphteria e crup 41
Coqueluche 39
Erysipela 36
Lepra 22
Sarampo 18
Diversos tumores 14
Molestias dos orgãos genitaes 10
Molestias dos orgãos da locomoção 9
Variola 9
Hydrophobia 4
Outras molestias epidemicas 1
Total 13:957

A mortalidade infantil é na proporção, média, de 150 por mil adultos.


Viação Urbana

A Estrada de Ferro Central do Brasil, a mais extensa e poderosa da União, ao partir da sua estação central, na praça da Republica, serve as zonas urbana e suburbana do Rio de Janeiro, pertencentes ao Districto Federal, até á estação de D. Clara.

N’esse perimetro, foi o seguinte o movimento geral, no 1.º trimestre de 1908:

1.ª classe:
1:487:884 viajantes Réis 379:838:860
2.ª classe:
3:523:405 viajantes Réis 583:641:700
Total—5:011:359 viajantes,
cujas passagens custaram
953:480:560

São 19 as estações d’esta Estrada, situadas no territorio do Districto Federal, 8 das quaes são tambem servidas por bondes, ou tramways electricos e a tracção animal.

A Estrada de Ferro Central do Brasil, que já tem em trafego 1:360:000 kilometros, liga a capital da Republica aos Estados do Rio de Janeiro, S. Paulo e Minas Geraes, e será prolongada aos Estados de Goyaz e da Bahia, a este pelo fertilissimo valle do grande rio S. Francisco.

Da estação de S. Francisco Xavier, suburbio fluminense, começa o trafego da Leopoldina Railway Company, que atravessa a zona federal de Irajá e dirige-se á cidade de Petropolis.

Da Ponta do Cajú, arrabalde do Rio de Janeiro, parte o material da Estrada de Ferro do Rio do Ouro, especialmente construida para o serviço de abastecimento de agua á colossal metropole, mas tambem transporta passageiros e carga, no percurso total de 60 kilometros e 247 metros, com 24 estações, até ao Rio S. Pedro, na serra do Tinguá.

A outr’ora Botanical Garden Rail Road Company, e desde 1882, Companhia Ferro Carril do Jardim Botanico, é a mais poderosa empreza de viação urbana da capital brasileira. O seu serviço publico teve inicio em Outubro de 1868, cinco annos antes de ser inaugurada, em Paris, a primeira linha de identico systema de viação, da Praça da Concordia a Sévres. A tracção da Jardim Botanico, foi mudada de animal para electrica em 1891. A sua estação inicial é na Avenida Central, e a principal é no extremo do Cattete; praça Duque de Caxias. Aqui bifurca-se ás Larangeiras e por Botafogo até á Gávea, seu ponto terminal, a 11:880 metros da Avenida Central. A bitola d’esta linha é larga de 1,ᵐ44. A extensão total das linhas d’esta Companhia, é de 79:000 metros.

A velocidade média é de 150 metros por minuto. É tambem esta empreza que serve os habitantes e visitantes das praias do Leme, Copacabana e Ipanema.

A Companhia Ferro Carril da Villa Izabel, serve os arrabaldes do Andarahy, Villa Izabel e Engenho Novo, communicando-os, por tracção electrica, com o centro commercial da cidade. A bitola é de 1,ᵐ44, partindo os seus carros da praça Tiradentes, para um percurso total de 49:000 metros. A mais extensa das suas linhas, a do Engenho Novo, attinge 11:650 metros de comprimento.

Esta empreza tambem serve os povoados suburbanos de Jacaré, Bocca do Matto, e Cachamby, ligando-os com as estações de Engenho Novo, Meyer e Todos os Santos, da Estrada de Ferro Central, em um percurso total de 10:000 metros e com a bitola de 1 metro, a tracção animal.

A Companhia Ferro Carril de S. Christovão, outr’ora Rail Street Company, mantem ainda a tracção animal e é a que possúe maior numero de linhas, que são as seguintes:

Do Largo de S. Francisco á Tijuca 10:630 ᵐˢ.
» » » » ao Jockey Club 10:134 »
» » » á Ponta do Cajú 9:036 »
» » » » Praça Marechal Deodoro 7:194 »
Do Largo de ao Rio Comprido 5:845 »
» » de a Itapagipe 5:469 »
» » de » Itapirú 4:964 »
» » de » Estacio de Sá 4:203 »
» » de » Catumby 4:000 »
Total 61:435 ᵐˢ.

As linhas do Uruguay, S. Januario, Fabrica das Chitas, Santa Alexandrina, Bispo, S. Francisco Xavier e Alegria, são intermediarias das anteriores.

A bitola é de 1,ᵐ35. A média do transporte annual é de 20:000:000 de passageiros, em 850:000 viagens.

A mais carioca, todavia, das emprezas de viação urbana do Rio de Janeiro, a que não transpõem os limites da cidade, é a Companhia Carris Urbanos, de tracção animal e bitola estreita, que deslisa o seu material por 15 linhas differentes.

Quatro partem do Boulevard Carceler, ou rua Primeiro de Março, em direcção ás praças da Carioca, Tiradentes e da Republica, terminando o seu trafego na praça Onze de Junho e nos extremos das ruas do Visconde de Sapucahy, Sant’Anna, Riachuelo e largo da Lapa.

Seis linhas teem o seu inicio na Praça Quinze de Novembro, junto da estação das barcas de Nictheroy, e seguem até á Saúde, Gambôa, Estrada de Ferro e Canal do Mangue.

Cinco linhas cruzam da Estrada de Ferro ao largo de S. Francisco de Paula, da Gambôa ao Arsenal de Marinha e do Largo da Lapa ao de S. Francisco. As linhas, estendidas, occupariam 70 kilometros, com a bitola de 0,ᵐ80. Regula transportar, annualmente, 34 milhões de passageiros.

A Companhia Ferro Carril Carioca, a tracção electrica, tem a sua estação central no largo da Carioca, que communica com o morro de Santa Thereza, Paula Mattos e Silvestre. É a mais pittoresca das linhas fluminenses, cuja belleza foi descripta no capitulo—Da Carioca ao Somaré.

E mais surprehendente de formosura natural será ainda quando estivér concluido o prolongamento ao Alto da Bôa Vista, na Tijuca. O percurso actual é de cêrca de uma hora de viagem. Era 1904 os carros d’esta empreza transportaram 1:134:787 passageiros, em 76:860 viagens.

Da Estrada de Ferro do Corcovado já nos occupamos no capitulo—Corcovado.

Além das já citadas, partem da Capital Federal as seguintes vias de communicação para o exterior:

—Barcas da Prainha a Mauá, isto é, do Rio de Janeiro a Petropolis.

—Barcas da Prainha a Sant’Anna de Maruhy, ou entre o Rio e Friburgo.

—Barcas da Prainha á Piedade, ou Therezopolis.

—Barcas da Companhia Cantareira e Viação Fluminense, serviço permanente e rapido entre a capital e a cidade fronteira de Nictheroy.

Ha uma dezena de companhias nacionaes e estrangeiras, de navegação, que communicam o Rio de Janeiro com os Estados maritimos da União e, directa e indirectamente, com todo o nosso planeta.


Imprensa

A primeira das potencias moraes que orientam as sociedades modernas, tem um dos seus principaes nucleos de expansão e influencia na grandiosa metropole brasileira. Se muitos e eminentissimos jornalistas que, no Rio de Janeiro, sublimaram a divina instituição da imprensa aos páramos da immortalidade, já desappareceram, materialmente, na frialdade dos sepulchros, a sua obra ficou e será uma das mais brilhantes fulgurações da gloria do Brasil.

Outros gigantes da penna e do pensamento os substituiram, e os rutilantes nomes de Ferreira de Araujo, Joaquim Serra, Machado de Assis, Arthur de Azevedo, Saldanha Marinho, Evaristo da Veiga, Ferreira de Menezes, José do Patrocinio e os de tantos outros sacerdotes da imprensa, reflectem-se em Ruy Barbosa, Quintino Bocayuva, Coelho Netto, Olavo Bilac, Ubaldino do Amaral, Nuno de Andrade, Sylvio Romero, Ferreira da Rosa, Edmundo Bettencourt, Eduardo Salamonde, Alcindo Guanabara, José Verissimo, Virgilio Varzea, Paulo Barreto e em outros muitos, para que sejam mantidas as gloriosas tradições do jornalismo fluminense.

O Jornal do Commercio, decano da imprensa fluminense; a Gazeta de Noticias; O Paiz; o Jornal do Brasil; a Noticia; A Imprensa; A Tribuna; o Correio da Manhã; o Diario do Commercio; O Seculo; O Correio da Noite e numerosos outros orgãos diarios, matinaes e vespertinos, e periodicos da opinião carioca, abrilhantam a intensa vida social da maravilhosa capital do Brasil e collaboram efficaz e incessantemente no movimento ascencional da nacionalidade brasileira para a meta dos seus gloriosos destinos.

O jornal é indispensavel ao fluminense, como parte integrante da sua propria natureza; elle o desdobra nas ruas, nos bondes, nos cafés, nas residencias e até durante as refeições; o que explica o extraordinario desenvolvimento de muitas emprezas jornalisticas do Rio de Janeiro que, além dos melhoramentos materiaes introduzidos nas suas officinas e patenteados nos seus periodicos, levantam soberbos palacios, para a propria séde, na Avenida Central e em outras das novas e grandiosas arterias da soberba metropole. D’entre elles destaca-se o do Jornal do Commercio, em via de conclusão, na Avenida Central, que brevemente substituirá o velho casarão onde, ha mais de meio seculo, está installado o primeiro jornal da America do Sul.

Dos semanarios illustrados, destacam-se o Fon-Fon, A Careta, A Semana Illustrada, O Degas, O Tico-Tico, para creanças, e O Malho, que é o de maior circulação.

A Leitura para Todos é uma revista mensal, propriedade da empreza d’A Tribuna, assim como o semanario Tico-Tico.

Dos orgãos vespertinos o mais lido é A Noticia, excellentemente redigido, como quasi todos os jornaes brasileiros. Os mais rendosos são o Jornal do Commercio, que tem feito fortunas, e o Jornal do Brasil.

Quintino Bocayuva, o principe dos jornalistas brasileiros, e talvez sul-americanos, está, infelizmente, arredado das pugnas da imprensa; mas o seu nome fulgirá, ainda por muitissimo tempo, como estrella de primeira grandeza.

Dos mortos, José do Patrocinio e Ferreira de Araujo eram organisações jornalisticas completas, e que fariam a gloria da imprensa dos mais adeantados paizes do globo.

Ha a citar ainda, O Diario Official, O Brasil Medico, Revista Medica, Revista de Engenharia, Kosmos, Os Annaes, A Rua do Ouvidor e Rio Nú. Diariamente apparecem e desapparecem publicações de varia indole.


Commercio e Industria

Ao findar o seculo XVIII, em 1799, a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, com 43:376 habitantes, possuia 97 estabelecimentos commerciaes, em todos os generos. Actualmente, com cêrca de 900:000 moradores, a capital do Brasil encerra um numero approximado de 22:000 casas de negocio, incluindo os arrabaldes e suburbios. Sóbe a 7:000 o numero de vendedores ambulantes de todas as especies de commercio. Os estabelecimentos commerciaes pagam, annualmente, á municipalidade, cêrca de 3:000 contos de alvará, ou licença, e os vendedores ambulantes, 500 contos.

Quanto a fabricas, funccionam cêrca de 250, de todas as industrias, a maior parte na zona suburbana. As mais numerosas são as de calçado, aguas gazozas, flôres, doces, gravatas, chapeus e de colletes para senhora.

Os estabelecimentos commerciaes mais numerosos, são os armazens de generos alimenticios, seguindo-se os açougues, as padarias, os hoteis e hospedarias, os botequins e bilhares, as casas de pasto, os barbeiros, as alfaiatarias, as pharmacias, os armarinhos, as lojas de calçado e as charutarias.

Em menor proporção figuram os armazens de fazenda e artigos de moda, as chapelarias, as drogarias, as typographias, as livrarias, os estabelecimentos de pianos, as luvarias, os joalheiros, as lithographias, as photographias e as lojas de chapéus para senhora.

O maior numero de officinas é de carpinteiro e marceneiro, vindo depois as colchoarias, serrarias, as officinas de encadernação, os marmoristas e os estaleiros, que eram 14 em 1906.

A Junta Commercial da Capital Federal, regulamentada por decreto de 1890, composta de sete deputados, commerciantes, de um secretario e de tres supplentes, estes tambem membros do commercio, tem as seguintes attribuições:—Matricular os commerciantes e sociedades commerciaes; os trapicheiros e administradores de armazens de deposito, assim como todas as pessôas idoneas que pretenderem estabelecer emprezas commerciaes.

—Nomear correctores de mercadorias e de navios; leiloeiros, interpretes e avaliadores commerciaes.

—Rubricar os livros dos commerciantes e sociedades de commercio, das companhias ou sociedades anonymas e dos trapicheiros.

—Admittir á assignatura do termo de fiel depositario o pretendente á concessão de entreposto particular.

—Registar as nomeações de guarda-livros, caixeiros e outros quaesquer propostos de casas commerciaes; as marcas de fabrica e de commercio, nacionaes e estrangeiras; as firmas e razões commerciaes e quaesquer documentos que, por lei, teem de constar de registro publico do Commercio.

—Archivar um exemplar dos contractos, suas prorogações, alterações e distractos de sociedades commerciaes; dos contractos ou estatutos das companhias ou sociedades anonymas, nacionaes e estrangeiras, e das sociedades em commandita por acções, com a lista nominativa dos subscriptores, e das marcas inscriptas no Registro Internacional.

—Representar, informar e consultar o Governo da União, sobre a necessidade de interpretar, modificar ou revogar alguma lei, regulamento ou instrucção, e de reprimir abusos de funccionarios publicos, ou de commerciantes e agentes auxiliares do Commercio, sobre os interesses do Commercio e da Industria.

—Processar administrativamente os funccionarios do Commercio que transgredirem as leis commerciaes, impondo-lhes a pena de multa, suspensão, destituição ou cassação de matricula.

Das decisões d’esta Junta, ha recurso para o ministro da Justiça e Negocios do Interior.

Os deputados e supplentes são eleitos pelo Collegio Commercial e pelo prazo de quatro annos. D’elles o ministro da Justiça escolhe o presidente e nomeia um secretario d’entre os cidadãos graduados em sciencias juridicas e sociaes.

Em 1906, o commercio exterior do Brasil ascendeu á cifra de um milhão e quatrocentos mil contos, tres quartas partes do qual pertence á actividade dos portos do Rio de Janeiro e de Santos.

O movimento maritimo, annual, do porto da Capital Federal é, na média, comparando as estatisticas dos ultimos cincos annos, de 600 embarcações á véla e 2:400 a vapor, entradas e saídas, representando 3.000:000 de toneladas.