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Tres capitaes

Chapter 35: Recenseamento
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About This Book

A first-person travel and civic study visits three South American capitals, combining vivid urban and natural description with comparative analysis of economic and social development. The narrative contrasts two dominant metropolises with a smaller, strategically placed capital, examining immigration, agriculture, commerce, industry, and the civic institutions that shape prosperity. Political tensions and diplomatic rivalries appear alongside admiration for visible progress, while local panoramas, architecture, and daily life are recorded in detail. The work balances patriotic viewpoints with measured praise for rivals, aiming to extract practical lessons from each city’s strengths and faults to guide future improvement.

Porto do Rio de Janeiro

A incomparavel e formosissima bahia de Guanabara, ou do Rio de Janeiro, com 140 kilometros de circumferencia, 30 kilometros de comprimento e 28 de largura, era bem digna do auxilio dos seus possuidores na construcção de um porto commercial a aproveitar-lhe as riquezas naturaes e a facilitar o importantissimo commercio da capital da Republica.

Esta obra colossal, iniciada em 20 de Março de 1904, deve ficar concluida em 1910, e é de todos os grandes melhoramentos da metropole fluminense, o mais gigantesco e util ao seu futuro.

É devido á iniciativa do dr. Lauro Müller, quando ministro da Viação e Obras Publicas, na Presidencia do dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves. Para a sua realisação, foi levantado um emprestimo de 8:500:000 libras, tres vezes coberto na praça de Londres.

É constructora, por contracto, a firma J. C. Walcker & C.ª

Se o novo porto, propriamente dito, começa na Ponta do Cajú e termina na Avenida Central, na extensão de 7:200 metros, póde dizer-se que as obras demandadas pelo seu trafego e pelo aformoseamento das suas dependencias, teem o seu inicio na praça Onze de Junho, com a dupla, magestosa e novissima Avenida do Mangue, empolgante de belleza.

Ella substituiu uma série de pantanos immundos e prejudicialissimos á saúde publica e á segurança individual. Além da quadrupla fila de altas e elegantes palmeiras, que ladeiam o canal do Mangue, a Avenida, cujo centro é cortado por essa arteria liquida, ostenta, por sua vez, outras tantas fileiras do mesmo vegetal, que lhe seguem e aformoseiam a arrebatadora trajectoria.

No ponto em que as aguas do canal entram na amplissima bahia, a Avenida contorna, dos dois lados, os caes acostaveis, seguindo-os ás suas extremidades. O paredão, para encosto e descarga das grandes embarcações, terá a extensão total de 3:750 metros, estando já promptos uns 2:000 metros. É de fortissimo granito, tem a altura de 25 metros e enfrenta uma faixa liquida e livre de 250 metros de largura, cujos trabalhos de drenagem, pela abundancia de lama e de varios dectrictos, constituem um esforço assombroso do trabalho humano. De 30 em 30 metros, grossos pégões de ferro, fundidos no granito, offerecem sólida amarração aos transatlanticos, e uma galeria subterranea acompanha toda a extensão das muralhas, para a conducção dos varios encanamentos exigidos pelo serviço publico.

Vastissimos armazens erguem-se defronte dos caes acostaveis, e entre estes e aquelles passa um ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil.

A construcção d’este porto, trouxe tambem a vantagem da eliminação das velhas edificações, a desmoronarem-se e anti-hygienicas, dos bairros da Gambôa e da Saúde, lado do mar, e o desapparecimento dos ilheus Pombeba, Santa Barbara, Melões, Moças e Ferreiros que, pela proximidade da terra firme, serviam de depositos de immundicies e de refugios de malfeitores.

De hoje em deante, a carga e descarga de mercadorias, que era feita das grandes embarcações para as fragatas e vice-versa, com atrazo de semanas e de mezes, terá rapido despacho, como o exigem a importancia e grandeza do porto do Rio de Janeiro e as necessidades do seu commercio de importação e exportação. Concluidas todas as obras e adoptadas as medidas de largo alcance administrativo e economico, tendentes ao desenvolvimento da riqueza nacional, este porto será não só o primeiro da America do Sul, mas tambem um dos mais importantes do mundo.

A commissão de engenheiros, encarregada de estudar o projecto das obras do porto, orçamentou a sua construcção em 86:000 contos de réis, além das desapropriações já feitas no seu trajecto.


Recenseamento

O ultimo recenseamento official e o mais regular e completo que se tem feito no Rio de Janeiro, é datado de 20 de Setembro de 1906, e dá as cifras de 463:453 homens e 347:990 mulheres, sommando um total de 811:443 habitantes. Conhecida a reluctancia popular para o recenseamento, especialmente nas classes incultas, com receio do augmento de impostos e do serviço militar; attendendo á transformação, recentissima, da cidade e á era de paz, de trabalho e de desenvolvimento que o Brasil actualmente desfructa, não é exaggero calcular-se a população da sua capital em 900:000 habitantes, numero redondo, incluindo os arrabaldes e suburbios.

O penultimo recenseamento data de 1890, accusando uma população fluminense de 522:651 individuos.

Eis a divisão dos habitantes pelos 25 actuaes districtos municipaes do Districto Federal, ou seja da cidade do Rio de Janeiro, arrabaldes e suburbios:

Candelaria 4:454
Santa Rita 45:929
Sacramento 24:612
S. José 42:980
Santo Antonio 38:996
Santa Thereza 7:971
Gloria 57:477
Lagôa 47:992
Gavea 12:570
Sant’Anna 37:266
Gambôa 42:049
Espirito Santo 57:682
S. Christovão 45:098
Engenho Velho 37:695
Andarahy 48:556
Tijuca 7:708
Engenho Novo 28:422
Meyer 34:476
Inhaúma 67:478
Irajá 27:406
Jacarépaguá 14:980
Campo Grande 31:248
Guaratiba 17:928
Santa Cruz 15:380
Ilhas 8:982
População terrestre 805:335
» maritima 6:108
811:443

Quadro de instrucção da população do Rio de Janeiro:

Edade Sabem lêr Não sabem lêr Total
6 a 15 annos 71:041 78:405 149:446
7 » » » 68:829 63:769 132:598
8 » » » 64:392 50:993 115:385
9 » » » 58:253 40:329 98:582
10 » » » 50:740 31:978 82:718
11 » » » 41:291 23:728 65:019
12 » » » 32:488 17:876 50:364
13 » » » 21:181 10:679 31:860
14 » » » 107:083 5:293 112:376

Menores de 6 annos havia, pelo ultimo recenseamento official, o de 20 de Setembro de 1906, 106:853 analphabetos, sendo 57:606 do sexo masculino e 49:247 do feminino, e 1035 que já sabiam lêr e escrever, 515 do sexo masculino e 520 do feminino. Maiores, de 15 annos, eram analphabetos 103:803 homens e 101:310 mulheres, sabendo lêr e escrever, 221:404 homens e 117:592 mulheres.

A area total do Rio de Janeiro é de 1:116:593:000 metros quadrados, da qual a setima parte, ou sejam 158:316:000 metros, constitue a zona urbana, com a densidade de 3:928 habitantes por kilometro quadrado.

Na zona suburbana, a densidade é de 191.

O numero de predios, no Districto Federal era, em 1906, de 84:375, e o de domicilios, de 83:686.

Sexualmente considerada, a população fluminense, em cada milhar de creaturas, dá 571 homens e 429 mulheres.

Quadro da população, por edades e sexos:

Edade Homens Mulheres Total
1 anno 9:653 8:487 18:140
2 annos 8:890 7:560 16:450
3 » 10:740 9:145 19:885
4 » 10:081 8:471 18:552
5 » 9:485 8:219 17:704
6 » 9:272 7:885 17:157
7 » 9:060 7:788 16:848
8 » 9:175 8:038 17:213
9 » 9:178 7:625 16:803
10 » 8:558 7:306 15:864
11 » 9:618 8:081 17:699
12 » 7:731 6:924 14:655
13 » 10:039 8:465 18:504
14 » 8:203 7:581 15:784
15 » 8:563 7:513 16:076
20 » 42:794 37:299 80:093
25 » 55:439 35:898 91:337
30 » 51:270 31:962 83:232
35 » 40:576 25:502 66:078
40 » 35:165 23:360 58:525
45 » 29:650 19:150 48:904
50 » 20:965 14:303 35:268
55 » 15:883 15:338 31:221
60 » 9:221 7:121 16:342
65 » 6:888 6:737 13:625
70 » 3:463 3:407 6:870
75 » 2:082 2:538 4:620
80 » 1:019 1:279 2:298
85 » 598 941 1:539
90 » 164 292 456
95 » 74 244 318
100 » 46 88 134
Maiores de 100 50 128 178
463:453 347:990 811:443

Eram solteiros 270:444, sendo 176:146 homens e 94:298 mulheres; casados 214:730; d’estes 124:904 homens e 89:826 mulheres; viuvos 52:704, 14:227 do sexo masculino e 38:477 do sexo feminino. Ignorava-se o estado civil de 9:860 homens e 6:311 mulheres. Dos casados 61 eram menores de 15 annos, dos quaes 56 mulheres e 5 homens.

Quadro da população fluminense, por profissões e sexos:

Profissão Homens Mulheres Total
Agricultura horticultura e floricultura 18:605 2:806 21:411
Creação 846 11 857
Caça e pesca 2:410 4 2:414
Pedreiras 890 1 891
Salinas
Outras 2 2
Textis 1:924 1:010 2:934
Couros 59 4 63
Madeiras 1:240 1 1:241
Metalurgia 7:140 4 7:144
Ceramica 666 666
Productos chimicos 172 172
Alimentação 3:297 288 3:585
Vestuario 13:523 18:187 31:710
Mobiliario 755 1 756
Edificação 31:785 15 31:800
Construcção de apparelhos de transporte 669 669
Producção de forças physicas 5:301 5:301
Industrias de luxo 3:680 39 3:719
» não classificadas 23:292 2:727 26:019
Transporte maritimo 6:639 9 6:648
Transporte terrestre 14:276 11 14:287
Correios, telegraphos e telephones 1:787 85 1:872
Bancos 76 76
Casas de commissões 634 3 637
Commercio 61:022 1:040 62:062
Exercito 7:133 7:133
Armada 4:639 4:639
Policia 4:059 4:059
Bombeiros 653 653
Municipio 1:232 57 1:289
União 10:965 28 10:993
Estudos (serviços) 63 2 65
Administrações annexas 90 90
Profissões religiosas 346 280 626
» judiciarias 1:804 6 1:810
» sanitarias 3:476 308 3:784
Magisterio 883 1:959 2:842
Sciencias, lettras e artes 2:846 146 2:988
Pessôas que vivem dos seus rendimentos 2:183 1:339 3:522
Serviço domestico 23:174 94:730 117:904
Trabalhadores braçaes 29:514 419 29:933
Profissões mal classificadas 6:289 306 6:595
Classes improductivas 20:549 7:339 27:888
Profissões desconhecidas 25:780 39:712 65:492
Sem profissão declarada:
Menores de 15 annos 91:666 90:980 182:646
Maiores » » » 25:423 84:183 109:556
463:453 347:990 811:443

Pelo mesmo recenseamento havia, no Rio de Janeiro, em 1906, 312:573 brasileiros, do sexo masculino e 288:355 do feminino; 101:777 portuguezes e 31:616 portuguezas, 17:148 italianos e 8:409 italianas; 14:110 hespanhoes e 6:589 hespanholas; 1:522 allemães e 1:053 allemãs; 1:173 inglezes e 498 inglezas; 1:678 francezes e 1:796 francezas; 1:417 estrangeiros de outras nacionalidades, do sexo masculino, e 2:364 do sexo feminino, na seguinte totalidade:

Brasileiros 600:928
Portuguezes 133:393
Italianos 25:557
Hespanhoes 20:699
Allemães 2:565
Inglezes 1:671
Francezes 3:474
De outras nacionalidades 3:781

Segurança Publica

A população fluminense dorme sob a guarda de cinco differentes collectividades, tres civis e duas militares, 4 das quaes tambem fazem o policiamento da cidade durante o dia. As corporações puramente militares são a Brigada Policial e as forças do exercito que fazem parte da guarnição do Rio de Janeiro. Estas fornecem os contingentes para as guardas dos edificios e monumentos publicos e auxiliam, em caso de necessidade, as outras corporações na manutenção da ordem publica. É muito variavel o numero de unidades do exercito que estacionam na Capital Federal, por causa das exigencias do serviço, podendo, todavia, calcular-se em 7:000 as praças das tres armas, infantaria, cavallaria e artilharia, que habitualmente guarnecem a capital da Republica.

A Brigada Policial consta de 4:500 homens, dos quaes 2:700 de infantaria e 1:800 de cavallaria, sob o commando em chefe de um general, e subordinados, directamente, ao ministro da Justiça. Estaciona em dois quarteis, o de infantaria, na rua Evaristo da Veiga, e o de cavallaria, na rua Frei Caneca.

As tres corporações civis são a Guarda Nocturna, a Guarda Civil e o Corpo de Agentes de Segurança Publica. Estes, os buffos de toda a parte do mundo, indispensaveis á policia para o serviço de espionagem e de pesquizas, são apenas 50, e immediatamente dependentes do Chefe de Policia.

A Guarda Civil é composta de 1:500 homens, e tem a seu cargo o policiamento das circumscripções urbanas. Á noite, esta Guarda é auxiliada por patrulhas de cavalleiros da Brigada Policial.

Os guardas-nocturnos estão organisados em 14 das 25 zonas municipaes da cidade, e são pagos pelos moradores das respectivas parochias. São quatrocentos homens, approximadamente.

Quinze pretores, quinze juizes de direito, dois tribunaes do Jury e uma Côrte de Appellação, constituem a justiça civil e penal do Districto Federal.

O Pretor, que é tambem o juiz dos casamentos, tem attribuições limitadas no Civel, no Commercial e no Crime.

Em cada Pretoria, além do juiz-pretor, ha tres supplentes, nomeados para o substituirem no caso de falta.

No Civel e no Commercial, o Pretor processa e julga, em 1.ª instancia, as causas cujo valôr não exceda 5:000$000 réis. No Crime processa as causas destinadas a julgamento no Tribunal do Jury, e aquellas em que lhe cabe lavrar sentença.

Obedecendo á antiga divisão ecclesiastica da cidade, ainda hoje aproveitada, para os effeitos civis, em muitos casos, a 1.ª Pretoria comprehende a circumscripção da Candelaria e a ilha de Paquetá; a segunda a de Santa Rita e a ilha do Governador; a 3.ª actúa na circumscripção do Sacramento; a 4.ª na de S. José; a 5.ª na de Santo Antonio; a 6.ª na da Gloria; a 7.ª Lagôa e Gavea; a 8.ª Sant’Anna; a 9.ª Espirito Santo; a 11.ª Engenho Velho; a 12.ª Engenho Novo; a 13.ª Inhaúma e Irajá; a 14.ª Jacarépaguá e Guaratiba; e a 15.ª Pretoria comprehende as circumscripções de Campo Grande e Santa Cruz.

Em cada Pretoria funcciona o Registro Civil da circumscripção.

Ha tres juizes de direito do Civel; tres do Commercial; dois de Orfãos e Ausentes; um da Provedoria e Residuos; um dos Feitos da Fazenda Municipal e cinco do Crime. Estes processam e julgam todas as causas não pertencentes á alçada do Pretor e á do Tribunal do Jury.

Os juizes de direito do Civel e do Commercial, julgam qualquer causa que exceda o valor de 5:000$000 réis.

O juiz da Provedoria e Residuos, processa e julga todos os inventarios com testamento, em que não haja menores interessados.

Havendo-os, as causas são da alçada dos juizes de Orfãos e Ausentes.

O juiz dos Feitos da Fazenda Nacional, processa e julga todas as questões em que a Fazenda Municipal fôr interessada, como auctora ou ré.

O Tribunal do Jury é composto de doze juizes de facto, ou jurados, sorteados entre cidadãos brasileiros e eleitores, de 21 a 60 annos de edade. Este tribunal julga os crimes que não são submettidos a outra qualquer jurisdicção. A presidencia é exercida, alternada e mensalmente, pelos juizes do Crime.

A Côrte de Appellação é dividida em primeira e segunda camara, e tem jurisdicção em todo o Districto Federal.

É composta de 15 juizes-desembargadores, que elegem, annualmente, o seu Presidente, não podendo reelegel-o sem que passe o periodo de tres annos.

A Côrte de Appellação é o tribunal de segunda instancia, e julga todas as causas que sobem dos tribunaes dos juizes de direito, que são os de 1.ª instancia.

A terceira e ultima instancia é constituida pelo Presidente da Côrte de Appellação e pelos presidentes da primeira e da segunda camara da mesma Côrte, que formam o Conselho Superior, o qual tambem resolve os conflictos de jurisdicção das auctoridades judiciaes do Districto Federal, bem como a suspeição opposta aos desembargadores, juizes de direito e ao Procurador Geral.

O Ministerio Publico compõem-se de um Procurador Geral, cinco promotores publicos, seis adjuntos de Promotor, um Curador de Orfãos, um Curador de Massas Fallidas, um Curador de Ausentes e de Evento, e de um Curador de Residuos. É o Presidente da Republica quem nomeia todos os juizes e os membros do Ministerio Publico.

Funcciona um escrivão privativo em cada uma das pretorias e das varas de direito, havendo tres nas orphanologicas e dois escrivães na Provedoria e Residuos.

Os escrivães das pretorias suburbanas exercem as funcções de tabellião. A Côrte de Appellação tem dois escrivães, um para cada camara, e um secretario geral. Cada um dos dois tribunaes do jury, é servido por dois escrivães privativos.

A Chefia de Policia superintende nas seguintes repartições de serviço de segurança publica:

—Inspectoria de Policia do Porto.

—Inspectoria de Vehiculos.

—Casa de Detenção.

—Escóla Correccional.

—Colonia Correccional.

—Gabinete de Identificação e Estatistica.

A 1.ª fiscaliza o serviço de embarque e desembarque de passageiros, assim como o movimento das embarcações mercantes. A 2.ª faz a matricula dos cocheiros e carroceiros, depois de submettêl-os a um exame profissional, e regularisa o transito de carros e outros vehiculos, de accôrdo com as posturas municipaes e sob as ordens do 1.º Delegado de Policia.

A Escóla Correccional é, tambem, uma instituição de beneficencia, visto que dá educação physica, profissional e moral aos menores, agarrados na via publica, como vadios e gatunos, dos nove aos quatorze annos. Occupa um predio da rua de S. Christovão.

A Colonia Correccional está installada na ilha Grande, fóra da barra, e é destinada á rehabilitação de adultos viciosos, por meio do trabalho. É uma grande fazenda agricola e possúe varias officinas e escólas, trabalhadas e frequentadas pela escumalha criminosa da população carioca, ebrios, falsos mendigos, proxenetas, desordeiros e ladrões recalcitrantes.

O Gabinete de Identificação e de Estatistica tira o cadastro de todos os presos; trata da identificação de cadaveres desconhecidos e organisa os serviços de estatistica policial e criminal. Tambem photographa os locaes de delicto.

A Casa de Detenção abriga, provisoriamente, os presos cujos processos correm os trâmites legaes.


Nictheroy

A capital do Estado do Rio de Janeiro, mal restabelecida ainda dos grandes estragos que soffreu com a revolta da armada, estende-se, com os seus arrabaldes, da ponta de Gragoatá á da Armação, ambas fortificadas.

A travessia, do Rio de Janeiro, faz-se em vinte minutos, nas excellentes barcas, a vapor, da Companhia Cantareira e Viação Fluminense.

A cidade não encerra palacios, nem monumento algum digno de nota, porém é agradavel á vista, pelas symetricas e impeccaveis linhas dos seus longos e largos arruados, pelo aceio mantido em todo o perimetro civico, pelas manifestações progressivas que patenteia aos olhos dos visitantes e pela belleza dos seus contornos. D’estes, o mais pittoresco é a praia do Icarahy, que as ondas docemente acariciam, bordada de lindas vivendas ao centro de formosos jardins.

Santa Rosa, arrabalde onde os salesianos teem um collegio, é dominado pelo monumento de Nossa Senhora Auxiliadora, estatua dourada sobre uma torre de granito.

Do lado da Armação está o gigantesco edificio do Laboratorio Pyrotechnico. É digno de menção o novo predio da Companhia Cantareira, para a estação das barcas.

A matriz de S. João Baptista e as egrejas da Conceição, de S. Domingos e de S. Lourenço, elevam as suas torres em limpida e diaphana atmosphera, dominando um feerico panorama, em que a surprehendente bahia de Guanabara, com todos os seus thesouros naturaes, e a paisagem terrestre, assombrosamente arrebatadora, disputam a primazia na formosura e no encanto do conjuncto. Nictheroy e as suas dependencias são servidas por extensas linhas de tramways electricos. Nos arredores ha algumas fabricas, que occupam centenas de operarios.

A cidade possúe Escóla Normal, um hospital publico e o Asylo de Santa Leopoldina, para meninas, instituição de caracter particular. Nictheroy é a séde do Governador e de todas as repartições officiaes do Estado do Rio de Janeiro, bem como a residencia predilecta de parte da população que moireja na grande metropole fronteira.


Petropolis

A ex-cidade imperial, que continúa a ser, de verão, a residencia do Chefe da Nação, do mundo official e do corpo diplomatico, está em lamentavel estado de decadencia, quasi de ruina.

O trajecto é um encanto, e muito mais apreciavel por barca e caminho de ferro, a galgar as encostas e contrafortes da Serra dos Orgãos, do que só por terra. No percurso de uma hora, em barca, o observador tem occasião de extasiar-se perante as bellezas naturaes da amplissima Guanabara, salpicada de encantadoras ilhas e ilhotas e circumdada de montanhas ridentes, onde as projecções solares aureolam deslumbrantes panoramas.

Desde o portosinho de Mauá que a paisagem muda, por completo, e então o comboio, como uma fita cinematographica, deslisa por entre vegetação luxuriante, realçada por gigantescos e formosos ramalhetes de flôres, que corôam os cimos do arvoredo, e por onde lindos colibris, reflectindo todas as côres da nuance universal, adejam a formosura da natureza e os esplendôres divinos.

O trem pára na estação da Raiz da Serra, muda-se de machina e entra-se n’aquella biblica região de primôres e de delicias que os nossos primeiros paes trocaram por uma simples e saborosa maçã.

A opulencia vegetativa passa a segundo plano. É a téla que sublima a belleza do céo e o deslumbramento do sol e que além, nos esplendorosos limites do horizonte, põe termo ao assombro da nossa retina e ao supremo encanto da nossa alma.

Descrever os innumeros e maravilhosos panoramas que a subida da Serra proporciona ao nosso espirito, é sublimidade que, por sobrehumana, só aos arroubos do genio é permittido attingir.

Percorrem-se, na cidade, as avenidas ladeadas de bellas vivendas no meio de formosos jardins e suavisadas pelo deslisar de limpidas aguas; vae-se á Cascatinha, sitio encantador e votado ao mais criminoso olvido; contempla-se e admira-se o ineffavel amplexo da excelsa natureza a povoação tão amimada de primôres; e como se de páramos celestes caissemos em infectado pantano, o nosso espirito divaga da grandeza divina ás miserias humanas.

Os buracos das ruas e a lama que os occultam, o capim que começa a invadir os proprios passeios abandonados pela incuria official; frontarias sujas; edificações que se não completam e outras que ameaçam ruina; tudo isso revela, ao forasteiro, quão monstruosa é a inepcia e vergonhoso o desleixo de quem assim trata uma localidade que é um primôr de situação topographica e a residencia dos representantes dos povos nossos irmãos e collaboradores na evolução ascencional para o Progresso e para a Luz.

O brio, a dignidade nacional, o simples criterio e bom senso exigem a conservação e o aperfeiçoamento material de Petropolis.

Conviver, no meio de um charco, com as summidades diplomaticas que, no Brasil, representam as nações civilisadas de todo o mundo, é provar-lhes que a nação prefere a economia de alguns vintens á subida honra de dignamente fraternisar com os povos que a distinguem com a sua presença e amisade. E um charco será Petropolis, em poucos annos, se continuar a incuria e o abandono das auctoridades brasileiras.

Não é acceitavel o argumento de que a municipalidade não dispõem de recursos financeiros.

Este é um dos casos excepcionaes em que o governo federal póde e deve intervir por dignidade propria e do paiz que representa.

É preciso, porém, regressar e a paisagem, a natureza, Deus, o conjuncto de perfeições que paira por sobre a Terra, na immensidade dos céos, e que a humanidade jámais conseguirá corromper, enlevam-nos, pelos vôos do pensamento e pelos effluvios da alma, até onde a creatura divinisa-se pelo esquecimento eterno e pelo infinito amôr.


Apreciação Geral

Passando periodica e triumphalmente por todos os numerosos e variados aspectos de povoação colonial, de metropole de um paiz livre e de centro grandioso e bello da actividade humana, em todas as suas brilhantes manifestações, Rio de Janeiro, como desde o berço, terá sempre a aureolar-lhe o vértice glorioso dos destinos, a sua famigerada belleza natural que, sob este especialissimo ponto de vista, a sublima á apotheose de primeira cidade do mundo.

A sua esplendorosa situação geographica e topographica foi, genialmente, escolhida para capital de primeira grandeza.

Porto de entrada admiravelmente defensavel e tão vasto que, com superabundancia, abrigaria todas as esquadras mercantes e bellicas do nosso planeta; maravilhoso scenario de cordilheiras, serras e montanhas, corôadas de picos gigantescos, caprichosos e como que desenhados e vestidos para enfeite e realce da colossal metropole; valles amenissimos, encostas verdejantes e cabeços que desapparecem no seio das nuvens, onde haurem a frescura e a seiva que alimentam e suavisam a grandiosa cidade; todo esse conjuncto de primôres mantem a capital brasileira em um deslumbramento natural, que é o enlêvo e o supremo encanto dos seus moradores e visitantes. Mas, se tal é o seu aspecto geral, quanto á natureza e á situação geographica, vejamos o que é Rio de Janeiro como cidade, analysando-a detalhadamente, em todas as suas curiosidades.

Esse mesmo amplexo, tão apertado quão assombrosamente bello, das preciosidades naturaes que a envolvem, prejudicam a localidade na sua expansão material e civica, difficultando-lhe o desenvolvimento. No centro, como nas extremidades, a povoação esbarra em morros, collinas e outeiros, uns que galgou, cobrindo-os de casaria, outros que procura derrubar, para expandir-se, e ainda alguns, cuja estructura é tão formidavel, que se torna forçoso contornar ou acceitar como limite da cidade.

A soberba Avenida Central, algumas ruas largas que a cortam e outras que lhe são parallelas; a magestosa Avenida Beira-Mar; o aformoseamento de largos e praças; a erecção de monumentos publicos e a substituição de velhas edificações, transformaram, em grande parte, o Rio colonial, do Imperio e dos primeiros annos da Republica. A reedificação continúa a par da construcção gigantesca e utilissima do novo porto; novissimas avenidas e outros melhoramentos estão iniciados ou projectados, de modo que, no espaço de um decénnio, a capital brasileira será não só o primeiro centro civico e commercial da America do Sul, mas um dos melhores do globo, como já é o primeiro na incomparavel formosura dos seus contornos.

Na execução do extensissimo plano de melhoramentos materiaes não se nota, porém, o criterio que seria para desejar em assumpto de tal magnitude e importancia.

É assim que no aproveitamento de velhos arruamentos que ainda servem a povoação, taes como: Ouvidor, Rosario, Hospicio, S. Pedro, General Camara, Theophilo Ottoni e outros que communicam com a Avenida Central, para alargamento d’esses arruados, ou para construcção de novas avenidas, o que terá, impreterivelmente, de realisar-se em futuro mais ou menos proximo, serão sacrificados os grandiosos e artisticos edificios que, na Avenida Central, fazem esquinas com as ruas citadas.

Tal não se daria se houvesse o bom senso de não consentir em novas construcções nas proximidades d’esses arruamentos, edificações que, pela sua grandeza, quasi fazem desapparecer, á vista, a já exigua largura d’aquelles.

Outro gravissimo erro do governo federal e da municipalidade é a conservação, entre outros, dos morros do Castello e de Santo Antonio, cuja suppressão aproveitaria ás mesmas collectividades, pela acquisição de terreno edificavel; á salubridade e á hygiene publica pela circulação, mais livre, do ar e da luz, e á esthetica da cidade, que ficaria completa e aprimorada. Outros defeitos de menor importancia desapparecerão com o tempo e a boa vontade de dirigentes e dirigidos.

Especialmente notavel é a falta de um Jardim Zoologico, digno d’este nome, em um centro como Rio de Janeiro, capital de um dos mais ricos paizes do globo, em quasi todas as especies animaes. O que existe com este nome é deposito particular, vergonhoso e deprimente para o civismo de uma população das tradições da capital fluminense.

A burricada das companhias S. Christovão e Carris Urbanos, deve desapparecer, com brevidade, de um centro já abundantemente servido pela tracção electrica.

A população mista e bizarra da grande cidade carioca, sendo morigerada e primorosamente hospitaleira está, comtudo, longe de corresponder á grandeza material do Rio de Janeiro e ás proporções civicas, que os seus governantes, homens novos e progressistas, estão a imprimir-lhe. Ella ainda não se adaptou aos costumes dos grandes centros civilisados, onde cada qual trata da sua vida e do bem commum, sem importar-se, por educação e por falta de tempo, com o que faz o vizinho.

Nas cidades europeias e americanas, os moradores do mesmo predio não se conhecem, geralmente, limitando-se a cumprimentos de respeito quando, por acaso, encontram-se na escada. No Rio ainda impéra a bisbilhotice, e censuram constantemente os defeitos do proximo aquelles que não se conhecem. Muito ha ainda a fazer, a caminhar no sentido progressivo, n’este como sob outros pontos de vista.

Trata-se, todavia, de um paiz novo, insufficientemente preparado nos primôres da civilisação; mas cuja população é intelligente e dotada de energia e de civismo sufficientes para, dentro em poucos annos, ascender ao logar que lhe compete no convivio universal dos povos e das nações.

Possuidor de todos os elementos progressistas e civilisadores, de uma natureza uberrima, bellissima e fecunda, de homens eminentes pelas primorosas faculdades de espirito e qualidades moraes que formam os benemeritos da humanidade e da patria, o Brasil, que ainda recentemente impoz-se á consideração universal pelo genio de um dos seus filhos, continuará, ininterruptamente, a caminhar pela senda gloriosa dos seus destinos; e a sua capital, material e scientificamente aformoseada á altura da belleza natural que a sublima, brilhará, perante o mundo, como o vivo e deslumbrante testemunho do incommensuravel poder do genio da humanidade, fundido no cadinho immortal do trabalho, do talento, da justiça e do amôr.


INDICE

Pag.
Razão de Ser 5
Domingo de Ramos 13
Situação e Aspecto Geral 19
Historia 27
Phases Fluminenses 39
Monumentos 45
Egrejas 61
Museus 69
Bibliothecas 77
Jardins e Parques 81
Theatros 91
Cemiterios 95
Curiosidades 99
Estabelecimentos Scientificos 117
Da Carioca ao Somaré 125
Assistencia Publica 129
Beneficencia Particular 145
Batalha de Confetti 193
Instrucção Publica 197
Corcovado 205
Governo Municipal 209
Copacabana, Leme e Ipanema 213
Salubridade 217
Viação Urbana 223
Imprensa 229
Commercio e Industria 233
Porto do Rio de Janeiro 237
Recenseamento 241
Segurança Publica 249
Nictheroy 257
Petropolis 259
Apreciação Geral 263

MONTEVIDEU


Situação e Aspecto Geral

O nome de Montevideu, que os orientaes-uruguayos escrevem—Montevideo—provém de um cerro, com 149 metros de altura, que se eleva defronte da capital. Encima-o a fortaleza General Artigas.

A cidade está situada em uma peninsula da embocadura do Rio da Prata, no extremo sul do departamento de Montevideu, o mais pequeno da Republica, em extensão territorial.

O seu porto é formado por vasta e bella bahia, de facillimo accesso, com um ante-porto artificial, que é um arrojo de engenharia, e numerosos cáes acostaveis, quasi concluidos, que farão de Montevideu um dos primeiros portos do mundo.

A povoação é toda plana e o clima, regular nas quatro estações do anno, é geralmente ameno. É raro elevar-se a temperatura, no verão, além de 30 graus e no inverno descer a zero. Apenas o vento de sudoeste, ou pampero, açoita, por vezes, os mares visinhos, a bahia e a cidade. Esta póde considerar-se dividida em tres secções. A primeira comprehende a primitiva povoação de Zavala, o fundador, desde o extremo oeste até á actual rua da Cidadella. Traçou-a o capitão Millan. A segunda prolonga-se da Cidadella até Egido, e a terceira secção é a novissima cidade, que abrange os antigos bairros de Cordon e da Aguada, bem como a area até ao riacho Miguelete e o caminho da povoação de Propios.

Os limites actuaes e officiaes de Montevideu são o arroio Miguelete, desde a sua foz, no Prata, até Propios, ao norte; a éste o caminho de Propios, e ao sul e oeste o rio da Prata.

A população total da cidade é de cêrca de 260:000 habitantes, a do departamento de 290:000, e a de toda a Republica Oriental do Uruguay, de 1.250:000 habitantes.

O aspecto geral de Montevideu é tristonho. As casas, em geral de um só pavimento e velhissimas, dão-lhe a perspectiva de uma antiga cidade colonial; mas, de espaço a espaço, a monotonia do conjuncto é quebrada por bellas e modernas edificações, algumas com artisticas frontarias.

O que muito contribúe para afear as antigas e muitas das modernas casas da cidade, é fazerem as cimalhas em fórma de sacada e de varandas salientes, o que dá-lhes um tom original mas desagradavel á vista e attentatorio da esthetica.

As ruas são quasi todas largas e muito arborisadas, porém a vegetação é macilenta e rachitica. Ha lindas avenidas, sendo a principal a Dezoito de Julho, com 30 metros de largura.

O centro civico de Montevideu é constituido pelas tres praças, da Independencia, da Constituição e de Cagancha, assim como pelas arterias publicas que as communicam, taes como Rincon, Uruguay, Sarandi, Vinte e Cinco de Maio, Vinte e Cinco de Agosto e Zavala.

A primeira das grandes praças acima citadas, occupa o centro, é vastissima e ajardinada, como as outras duas, não possuindo edificio algum notavel. As fachadas de quasi todos os predios que a circundam, assentam sobre columnas.

Na praça da Constituição avultam a Matriz, e os edificios do Jockey-Club, do Grande Hotel e da Representação Nacional, antigamente do Cabido.

O Atheneu e o Museu e Bibliotheca Pedagogicos, são as melhores construcções da praça Cagancha, tambem conhecida pelo nome de Liberdade, por ostentar, ao centro, o monumento da Liberdade, uma figura feminina, de bronze, sobre alta e elegante columna de granito. Depois d’estas, as melhores praças da capital uruguaya são as de Trinta e Tres e do General Flôres.

Todas, bem como as ruas principaes, são illuminadas a profusão de arcos voltaicos, ou de fócos electricos, sendo pelo mesmo systema a illuminação geral de toda a cidade.

Numerosos canaes subterraneos conduzem do rio Santa Lucia, a sessenta kilometros de distancia, abundancia de agua potavel para abastecimento da cidade.

D’entre os mais notaveis edificios de Montevideu, sobresahem, além dos já citados, a Universidade, a Camara Municipal, o Monte de Piedade, o Theatro Solis, a Estação Central, o Manicomio, o Banco Britannico, as casas de Jackson, de Golorons e de Chiarino; os templos da Aguada, Metropolitano, de S. Francisco, de Cordon e dos Redemptoristas; os hospitaes Italiano, Hespanhol, Militar e da Caridade; os asylos dos Expostos e de Mendigos; a Bolsa; a Escóla de Artes e Officios; o Palacio do Governo e o Seminario Conciliar. Ha outras construcções particulares notaveis, principalmente algumas sédes bancarias. Porém, os principaes monumentos de Montevideu consistem nas suas instituições de Educação e de Beneficencia. Estas, então, são modelares. O Manicomio e os asylos de Expostos e de Mendigos, fariam honra e dariam gloria ás maiores metropoles do nosso globo. É que a população de Montevideu é essencialmente caritativa e affavel.

Em parte alguma poderá haver quem exceda o montevideano em extremos de hospitalidade, de cortezia e de carinho.

As senhoras, vestindo com elegancia e estonteadoramente formosas, dardejam scintillações astraes no taciturno aspecto da velha cidade. Por toda a parte o forasteiro sente-se bem; gosa e aprecia as delicias de um grande centro, eminentemente progressista, metropole de um paiz pequeno, mas admiravelmente bem organisado e dotado de instituições que o honram e glorificam, sublimando a grande familia humana aos esplendôres da civilisação e do amôr universal.


Historia

Com a designação de San Felippe de Montevideo, o general Bruno Mauricio de Zavala, que desempenhava, em nome do governo hespanhol, o cargo de governador de Buenos-Aires, mandou delinear uma nova povoação, na embocadura do rio da Prata.

Em 24 de Dezembro de 1726, o capitão D. Pedro Millan, por nomeação do Governador, começou a abertura das ruas e a repartição dos terrenos para as primeiras edificações.

Oito familias, compostas por 33 pessôas, foram os primeiros povoadores da novissima localidade, que já em 1770 contava mil e cem habitantes.

As primitivas construcções eram de couro, com estacas, empregando-se a pedra, com cobertura de palha, nas melhores edificações.

A 1 de Janeiro de 1730, Zavala creou a primeira instituição de Montevideu, o Cabido, especie de municipalidade, composta de 9 membros. O fundador mandou cercar de muralhas a nova povoação.

O coronel José Joaquim de Viana, foi o primeiro governador civil e militar de Montevideu, nomeado em 1749.

Em 1796 inaugurou-se a primeira escóla publica, sendo construida a casa, para o seu funccionamento, em um terreno doado por D. Maria Clara Zavala de Vidal.

Ao alvorecer do seculo XIX, a população da nova cidade já era superior a 15:000 habitantes. Em 1807, Montevideu foi tomada pelos inglezes, sob o commando de Beresford, que muito pouco tempo depois a abandonaram, assignando a capitulação de Buenos-Aires.

A primeira eleição popular, livre, fez-se em 1808, para a Junta do Governo. No anno seguinte começou a evolução emancipadora, que em 1809 transformou-se em revolução, sendo abafada pelas tropas hespanholas, que até 1814 resistiram dentro dos muros da cidade, aos caudilhos da independencia nacional. Finalmente, em 1815, o general Artigas entrou em Montevideu, arvorando nas suas muralhas a bandeira oriental—uruguaya.

Dois annos depois, a capital foi tomada pelos portuguezes, em seguida á batalha de India Muerta, cujo effeito os combates de Rincon, Sarandi e Ituzaingó destruiram, voltando a famosa cidade á unidade nacional.

Desde 1 de Maio de 1829 que Montevideu é a capital official da Republica Oriental do Uruguay. Esta cidade foi uma formidavel praça de guerra e é hoje um grandioso centro civico e commercial. A primeira fortificação foi levantada dois annos antes da fundação da localidade, no intuito de resistir aos portuguezes, que em 1723 tinham-se apoderado da peninsula de Montevideu, abandonada pelos hespanhoes.

As muralhas, cuja construcção começou com a da cidade, communicavam com a Cidadella, elevada no local occupado hoje pela praça da Independencia. D’ahi seguiam até ao portão de S. Pedro, agora rua Vinte e Cinco de Mayo, entre Juncal e Cerro, e d’ahi até ao Cabo do Norte, na costa maritima. Ahi existia um cordão de baterias para proteger as Bóvedas, deposito de material de guerra.

O Cabo del Sur, completava as fortificações exteriores de Montevideu, que assim resistiu a um cêrco de nove annos, de 1843 a 1851, ao cêrco de Artigas, de 1812 a 1814. A batalha de Guayabos, ganha pelo general Artigas ás tropas hespanholas, deu-lhe não só, em 1815, a posse da cidade, como ensejo á proclamação da independencia nacional, perturbada, em 1817, pelos portuguezes, e consolidada pela conquista das Missões e pelos feitos de armas de Ituzaingó, Rincon e Sarandi.

Depois de quasi dois seculos de luctas pertinazes e gloriosas, começando pelas dos indigenas, que tornaram difficil a existencia dos primeiros habitantes, pretendendo mesmo destruir o primitivo nucleo civico, Montevideu é hoje uma grande cidade, residencia dos altos poderes da nação e destinada, pela admiravel situação geographica, pelo seu amplo e magnifico porto e pelo trabalho e patriotismo dos montevideanos, aos mais brilhantes destinos.


Assistencia Publica

Hospital de Caridade—O maior e mais importante de Montevideu. Foi fundado no anno de 1809, por doação de Francisco Antonio Maciel.

A média annual de doentes é de sete mil.

É um grande edificio, em 3 pavimentos, pessimamente situado no centro da cidade e nas proximidades do porto.

No primeiro pavimento estão duas enfermarias cirurgicas, para o sexo masculino, uma enfermaria para militares, sala de operações cirurgicas, a pharmacia e uma enfermaria ophtalmologica. Nota-se, na sala das operações, a falta de apparelhos especiaes, cirurgicos, se bem que ahi trabalhe o dr. Navarro, primeiro cirurgião da Republica.

No segundo pavimento ha uma enfermaria mista de medicina e cirurgia, para presos; enfermaria de partos e sala de operações da especialidade; enfermaria geral de medicina, para mulheres; enfermaria geral cirurgica, feminina; enfermaria para venereos, masculinos; sala de operações para homens; sala e enfermaria para officiaes militares, pensionistas do Estado, e mais duas enfermarias de medicina e uma de cirurgia, para homens.

No rez-do-chão estão installados os depositos geraes do estabelecimento, entre elles o de cadaveres, bem como as cosinhas e as despensas. O edificio tem quatro pateos interiores. Em um d’elles está a sala de autopsias e dois são ajardinados. Nota-se pouca limpeza e, em consequencia, o odôr pronunciado e caracteristico dos hospitaes que, como este, são indignos de uma cidade da cathegoria de Montevideu, e deprimentes para o seu glorioso renome de beneficente e altruista.

Manicomio—Foi fundado em 25 de Maio de 1880, pelo governo do general Santos.

É construcção vasta e dividida em dois pavilhões, um para cada sexo. O das mulheres é servido por irmãs de caridade.

O serviço interno é feito por cinco medicos, um cirurgião e cinco praticantes.

Á entrada, entre os dois pavilhões, está o estabelecimento hydrotherapico, com excellente installação. Salão de recepção.

Sala provida dos mais modernos e aperfeiçoados apparelhos, para a cura pela electricidade.

Enfermaria de observação de alienados, com banheiros.

Secção especial de pensionistas, com pequenos pavilhões, e jardins privativos. Pavilhões, na cêrca, para observações. Grande pavilhão—lavanderia que prepara a roupa de todas as casas de caridade da capital. Officinas de carpintaria, mechanica, e de trabalhos manuaes.

Quinta-pomar, entretida pelos doentes brandos, e que fornece o estabelecimento. Pavilhão com uma enfermaria de cirurgia, outra de medicina, salas de operações, de radiographia e consultorio odontólogico. Bibliotheca da especialidade. Pharmacia especial. Capella com torre, e interiormente revestida de marmores diversos.

Grande cêrca e jardins com apparelhos para gymnastica e outros exercicios. Existencia de 1:500 alienados, de ambos os sexos. Ao contrario do Hospital de Caridade, nota-se n’este estabelecimento primoroso aceio.

Asylo de Expostos e Orfãos—Deve-se a sua fundação, em 7 de Outubro de 1818, á iniciativa do vigario D. Damaso Larreñaga, e do general portuguez Sebastião Pinto de Araujo Correia.

Ao principio esteve este estabelecimento aggregado ao Hospital de Caridade. O actual edificio foi começado a construir em 1873 e concluido e inaugurado em 1875. Este Asylo é mantido pelo Estado, seu proprietario, e administrado pela Commissão de Caridade e Beneficencia Publica, entidade de nomeação official e que tambem superintende nos outros estabelecimentos de assistencia publica, de Montevideu. Em Maio de 1908 tinha uma existencia de 220 varões, de 3 a 17 annos, e de 180 meninas, que são admittidas dos 3 aos 18 annos. Abriga e sustenta orfãos e expostos na roda do estabelecimento, ou entregues pelos paes com o pretexto de indigencia.

Ha cinco dormitorios para meninos e seis para meninas, todos bem ventilados e com muita luz. Escóla gratuita para meninas externas; enfermarias especiaes para syphiliticos e tuberculosos; ditas para enfermos de olhos e dos ouvidos; sala de operações cirurgicas, estufas de desinfecção, pharmacia e enfermarias de convalescentes e de observação. As creanças recem-nascidas e abandonadas, são entregues a amas que as criam fóra, e restituem ao Asylo, aos tres annos de edade.

A pharmacia, além do estabelecimento, tambem serve a pobreza da cidade, despachando, diariamente, a média de 250 receitas.

Consultorios medicos, interno e externo, e enfermaria de herpeticos.

Este edificio está situado na rua do Salvador e tem uma area de 5:600 metros. A manutenção do Asylo custa ao Estado, mensalmente, quinze contos de réis.

A Commissão administradora substituiu, ultimamente, as irmãs que faziam o serviço d’esta casa de caridade, por pessoal laico, tambem feminino, porque, no seu fanatismo, as irmãs martyrisavam as creanças com praticas religiosas, em excesso, e que principiavam de madrugada.

Asylo de Mendigos e Chronicos—Este edificio, situado na rua Larravide vale, com o terreno annexo, cêrca de trezentos contos de réis, moeda portugueza.

Foi principiado a construir para universidade, depois vendido a particulares e, finalmente, comprado pelo Governo, em 1852. O Asylo foi fundado por decreto de 22 de Novembro de 1858, e inaugurado em 19 de Agosto de 1860. Ao centro eleva-se uma grande torre, que domina a cidade e os arrabaldes.

Os fins principaes d’este estabelecimento de caridade, são alojar e alimentar anciãos dos dois sexos, que tenham, pelo menos, sessenta annos de edade, e chronicos desamparados, de qualquer edade. Ha dois grandes pateos centraes circumdados de dois pavimentos de varandas abertas e em columnata.

A secção masculina encerra 8 enfermarias-dormitorios, 2 enfermarias de cancerosos e uma de chronicos; pharmacia e laboratorio.

Na secção feminina ha 4 enfermarias geraes e 5 dormitorios, uma enfermaria de chronicas e outra de cancerosas.

Além d’estas, o Asylo encerra 2 enfermarias para creanças, uma para cada sexo.

O numero de asylados é de 690, entre homens e mulheres.

Em face d’este Asylo e annexo ao seu serviço e administração, estão o Collegio de S. José e o Asylo Maternal n.º 4. Ahi são admittidos os varões até aos 7 annos, e as meninas até aos 16. São estabelecimentos de educação, o Collegio para o sexo masculino e o Asylo para o feminino. Teem classes de engommadeiras, costureiras, cosinheiras e bordados. Para meninos ha apenas a classe geral de primeiras lettras.

Hospital Pereira Rossel—É o nome do casal que doou o terreno para a edificação do hospital. Está situado no bairro das Tres Cruzes, boulevard Artigas. Foi fundado em 1894, e inaugurado em 22 de Fevereiro de 1908. É especialmente destinado ao tratamento de creanças de ambos os sexos. Possúe uma grande cêrca com um pavilhão de isolamento. Em outro pavilhão, tambem isolado, estão installadas as cosinhas. As secções principaes são os gabinetes ophtalmologico, de radiographia, de observações; o laboratorio, a pharmacia, a sala de operações e a casa de banhos. Encerra varias enfermarias, em separado, para meninos e meninas, uns e outras admittidos só até á edade de 14 annos. Existencia, em Junho, de 1908 de cincoenta doentes dos dois sexos.

Além d’estes estabelecimentos officiaes, administrados pela Commissão de Caridade e Beneficencia Publica, existem, em Montevideu, as Escólas Maternaes, em numero de 4, casas de caridade que abrigam, sustentam e educam creanças de ambos os sexos. Estão sob a mesma administração official. Ha ainda o Asylo Nocturno, na rua Estanzuela, n.º 7, para abrigar os que não teem onde dormir e a Assistencia Medica Nocturna, para soccorros nocturnos urgentes. Funcciona na rua 18 de Julho, n.º 285.

Directamente subordinado ao Ministerio da Guerra, está o Hospital Militar, installado no Caminho de Outubro, n.º 239. Na rua de Larrañaga, em Buceo, ha uma casa de isolamento, para infecciosos.