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Tres capitaes

Chapter 53: Theatros
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About This Book

A first-person travel and civic study visits three South American capitals, combining vivid urban and natural description with comparative analysis of economic and social development. The narrative contrasts two dominant metropolises with a smaller, strategically placed capital, examining immigration, agriculture, commerce, industry, and the civic institutions that shape prosperity. Political tensions and diplomatic rivalries appear alongside admiration for visible progress, while local panoramas, architecture, and daily life are recorded in detail. The work balances patriotic viewpoints with measured praise for rivals, aiming to extract practical lessons from each city’s strengths and faults to guide future improvement.

Egrejas

Cathedral—A Sé, Matriz, ou Metropolitana, como lhe chamam os montevideanos, ergue-se na praça da Constituição. A frontaria é de granito, vistosa, mas de vulgar architectura. Tres magestosos portões de ferro, gradeados, dão accésso ao templo, depois de atravessado o simples vestibulo. O portão central é ladeado por 4 meias-columnas caneladas. No interior, ha tres espaçosas naves formadas por quatro pesados arcos de granito, encimados por outras tantas tribunas gradeadas e em arcaria.

Nas naves lateraes, estão 4 altares á esquerda e tres á direita de quem entra, todos guarnecidos de columnas caneladas e douradas. Logo á entrada, vê-se o tumulo de marmore, com estatua ajoelhada, de D. Jacintho Véra, 1.º bispo de Montevideu.

O templo é em forma de cruz latina, e transposto o corpo principal, depara-se com mais dois altares, que rematam os braços da cruz. Ladeando o altar-mór estão duas capellas fundas, com os altares no mesmo estylo dos anteriores. A capella-mór é simples; apenas o altar ostenta oito columnas caneladas e douradas. O aspecto geral d’este santuario é pesado e sombrio. Data de 102 annos.

Na crypta da capella da Virgem das Dôres, está sepultado D. Venancio Flôres, grande general da Republica.

La Aguada—É a parochial da freguezia de Nuestra Señora del Carmen de la Aguada, e eleva-se na rua Graciana.

A frontaria d’este santuario é elegantissima, em estylo Renascença, com duas altas e bellissimas torres, tudo de cantaria.

Interiormente é dividida em tres naves, não correspondendo o estylo decorativo á belleza artistica do exterior. As naves são formadas por oito arcos de pedra, revestidos de estuque e rematados por outras tantas tribunas abobadadas e gradeadas de ferro.

Ha seis altares lateraes, cada um a duas columnas caneladas, de marmores de côres.

O templo é em forma de cruz latina, com dois altares nas extremidades dos braços da cruz, e outros dois ladeando a capella-mór, que é de estylo simples mas elegante, e cujo altar é ornamentado por 6 lindas columnas de roseo marmore, 4 caneladas e 2 salomonicas. A Virgem do Carmo, que está no altar-mór, é uma obra prima, de madeira, e feita em Barcelona. A balaustrada que precede a capella-mór, é uma maravilha em marmore branco, de Carrara, executada em Genova. Finge uma cortina franjada e sustentada por anjos. O templo encerra dois crucifixos de muito valor; um que rematava o tumulo do general Artigas, e outro cuja cruz enorme, é de uma só peça de marmore preto.

Cada um tem 5 metros de altura.

Seminario—Egreja em tres naves, com zimborio. Estylo simples. São notaveis os altares, rica e artisticamente dourados. O da capella-mór é de imponente aspecto, guarnecido a columnata, tambem dourada.

Cordon—Templo em estylo grego. Fóra, o frontão é sustentado por 4 columnas jonicas, e interiormente, ha vinte columnas, desde a entrada ao altar-mór, que sustentam a architrave. Esta é sobreposta de janellas, que illuminam o santuario. Dois dos altares lateraes teem columnas de marmore mesclado, ao passo que a grande columnata decorativa é em marmore fingido.

S. Francisco—Vistosa fachada granitica, e interior de simples estylo e grandioso aspecto.

Fórma a cruz latina e encerra tres naves com seis arcos e duplas tribunas. Sobre estas, outras tantas janellas com vitraes coloridos. O altar-mór é dourado e subdividido em nichos.

Capuchinhos, ou Santo Antonio—Santuario em tres naves, sem importancia alguma architectonica. No altar-mór vê-se uma pintura valiosa.

As outras egrejas de Montevideu, são Salesias, Huerto, Tierra Santa, Reducto, Concepcion, Dominicos, Pocitos, Paso del Molino e Redentoristas.


Beneficiencia Particular

Hospital Italiano Humberto I—A pedra fundamental d’este bellissimo e incompleto edificio, foi solemnemente lançada em 21 de setembro de 1884, em substituição de outro hospital que já havia sido fundado pela colonia italiana de Montevideu. Está situado em Tres Cruzes, nas proximidades do Hospital Rossell.

A edificação apenas abrange a quinta parte do plano geral. Tem dois pavimentos, abrindo o primeiro, ou nobre, para uma especial varanda circular, guarnecida a grupos de columnas de marmore, por onde passeiam os convalescentes, quando o tempo o permitte. Vê-se ahi o marmoreo busto de Victor Manoel II.

Ha quatro enfermarias geraes, duas pagas e duas gratuitas, uma sala de operações, excellentemente montada; uma outra de curativos, pharmacia, laboratorio, rouparia e oito quartos para pensionistas. É servido por sete irmãs capuchinhas, enfermeiras. Em Junho de 1908, abrigava 50 doentes do sexo masculino.

Hospital Hespanhol—Foi fundado ha 19 annos, pelos principaes membros da colonia hespanhola, para tratamento dos seus compatriotas domiciliados no territorio da Republica Oriental do Uruguay, mas ainda será inaugurado no proximo anno. O edificio, em via de conclusão, é em dois pavimentos, com 2 enfermarias já promptas e duas a preparar. Está situado na Avenida do General Garibaldi.

Ha tambem um hospital privativo da colonia ingleza, na rua Juan Cuestas, n.º 77.


Edificios Publicos

Palacio da Representação Nacional—Este edificio, onde funccionam a Camara dos Deputados e o Senado, foi construido em 1890, e eleva-se na praça da Constituição.

A sala onde se reunem os deputados é estreita e comprida, tem o tecto abobadado, galeria para o publico e logares reservados para a imprensa e o corpo diplomatico. Não tem tribunas. Ha assentos para 87 deputados e seis ministros. Por detraz da meza da presidencia está o retrato, a oleo, do general Artigas.

O Senado, que funcciona no mesmo pavimento, está installado em sala maior e lisa de tecto. As cadeiras para senadores são apenas 19, porém é n’esta sala que reunem-se as duas assembleias, nas occasiões solemnes. Decoram-n’a os retratos de Artigas e Flôres.

As cadeiras são de talha e forradas a velludo azul e carmesim. Projecta-se a construcção de um verdadeiro e grandioso palacio para as duas camaras. Nos baixos d’este velho edificio, está a repartição central da policia. No pavimento superior, ha uma sala com os retratos, a oleo, dos personagens constituintes da Republica.

Palacio da Presidencia da Republica—Está situado na praça da Independencia, centro civico de Montevideu. É modestissimo, exterior como interiormente.

Consta de um só pavimento. A frontaria assenta sobre columnas lisas, que enfrentam a praça. No rez-do-chão, á entrada, está installada a chefatura de policia.

Subindo-se a escada de marmore, que tem grade de ferro e corrimão dourado, depara-se com a saleta de espera, mobilada a velhas cadeiras de pau preto, com fôrro de velludo carmesim. Depois entra-se no unico salão do edificio, que serve para recepções officiaes. É decorado a sanefas e cortinados de velludo vermelho-escuro, que tambem forra as cadeiras, de madeira preta. Completam a guarnição, tres grandes espelhos emmoldurados a metal dourado, um lustre pendente do centro do tecto e uma grande mesa de pau preto, com trabalho de talha. Segue-se a casa do Despacho, ou Secretaria, que nada contem de notavel.

Não ha, por certo, em todo o nosso planeta, menos sumptuoso palacio de Chefe de Estado, o que impressiona muito agradavelmente o visitante, especialmente por tratar-se de um paiz democratico e que não é uma grande potencia, sem deixar de ser importante.

As grandes como as pequenas Republicas da Terra, ou antes, as verdadeiras democracias, que gosam da unica fórma racional de governo, deviam todas inspirar-se na simplicidade burocratica da Republica Oriental do Uruguay. O dinheiro do contribuinte deve ser applicado no desenvolvimento economico das collectividades sociaes e politicas. Estradas, caminhos de ferro, escólas, hospitaes, asylos, protecção á lavoura, ao commercio e á industria, eis o que deve occupar a attenção dos governantes e em que deve ser gasto o dinheiro dos governados.

Camara Municipal—É linda e artistica a perspectiva exterior da municipalidade; porém o interior, por pequeno, é insufficiente ao serviço municipal, motivo porque quatro das repartições camararias estão installadas em outro local. É em tres pavimentos, accessiveis por bella escadaria de marmore branco, com duas tribunas-terraços sobre o pateo. Foi adquirido, este edificio, ha quarenta annos, pela municipalidade, a um particular. Além da escada apenas encerra de notavel a sala das sessões e a bibliotheca, installada no rez-do-chão, com 2:500 volumes.


Universidade

Santiago Vasquez iniciou a creação d’este grandioso instituto scientifico, fundado pelo dr. Manuel Herrera y Obes, e inaugurado em 18 de Julho de 1849, no actual edificio. Anteriormente, já a universidade de Montevideu funccionava no extincto convento de S. Francisco. O palacio é imponente e de bella architectura; porém está situado em péssimo local, nas proximidades do porto. Em uma das principaes e novas avenidas da capital, procede-se á construcção de um novo edificio para séde d’este importantissimo estabelecimento scientifico.

Além de laboratorios e pequenos museus especiaes para cada faculdade, são notaveis as bibliothecas de Direito e Sciencias, com mais de 11:000 volumes; de Medicina, com 13:000; da Faculdade de Mathematica, com 5:000; a do Instituto de Hygiene Experimental, com 2:000; e, finalmente, a do Ensino Secundario, que contem 10:000 volumes. N’este particular, é a universidade de Montevideu uma das primeiras do mundo.

Funccionam as seguintes Faculdades:

—De Direito e Sciencias Sociaes.—De Medicina.—De Commercio.—De Mathematica.—De Agronomia e Veterinaria.

Á Universidade está annexo o ensino secundario, ou seja, officialmente, o Curso Geral de Preparatorios, comprehendendo as seguintes materias:

Grammatica Hespanhola, Latim, Francez, Geographia, Arithmetica, Algebra, Geometria e Trigonometria, Physica, Cosmographia, Historia Universal, Historia Americana e Nacional, Chimica, Historia Natural, Botanica, Zoologia, Zoographia, Litteratura, Philosophia, Desenho, Ampliação de Mathematicas e Gymnastica.

Ha ainda tres cursos geraes annexos ao ensino universitario, e que são os de Pharmacia, Odontologia e Obstetricia.

O plano de estudos do primeiro comprehende:

—Chimica ampliada.—Physica Pharmaceutica.—Historia Natural Pharmaceutica.—Chimica Pharmaceutica.

—Analyses Chimicas.—Materia Pharmaceutica.—Pharmacia Galénica.—Toxicologia e Posologia.

A Odontologia abrange:

—Systema Dentario e Anatomia da Bocca e Pharinge.—Pathologia da Bocca e Dentaria.—Therapeutica Dentaria.—Prothese Dentaria.—Chimica Odontologica.

No curso de Obstetricia ensina-se:

—Anatomia e Physiologia Preparatorias.—Obstetricia.—Clinica de Partos.

Em 1906 inscreveram-se em todas as secções de ensino 1:212 alumnos; entraram a exame 858; foram approvados 596 e reprovados 262.

Os doutores mais graduados gosam de viagens gratuitas á Europa, ou aos Estados Unidos, durante dois annos, para aperfeiçoaram-se nas sciencias em que obtiveram diplomas.


Museus

Museu Nacional—1.ª secção e 1.º salão. Historia Natural.

Numeroso mostruario, em armarios e vitrinas, de peixes, volateis e de quadrupedes do paiz. Duas enormes couraças, restauradas, do Panochthus (fossil da ordem dos desdentados). Ninhos e ovos. Mostruario mineral-uruguayo. Medalhas e moedas da Republica e estrangeiras. Vasos antigos. Ceramica nacional. Saleta, ao lado, com varias cópias, em gêsso, de obras primas da esculptura greco-romana.

Secção de Bellas Artes.

Sala com varios quadros e algumas cópias de esculptura. Dois gabinetes, contendo quadros de pintores nacionaes. Sala com quadros, bustos e moveis antigos. Sala Historica. Encerra vitrinas com exposição de objectos historicos, que serviram nas campanhas pela independencia da patria uruguaya. Placas commemorativas. Retratos, a oleo, de personagens notaveis da Republica. Tratados e diplomas. Dois gabinetes contendo bustos, quadros, moveis, armas, munições e outros objectos historicos. Prélo portatil em que foi impresso o primeiro jornal do Rio da Prata, o Telegrafo Maritimo, em 1750. Foi tomado pelo general oriental Rivera ao seu collega argentino Echagüe, na batalha de Cagancha, em 1839.

Museu Pedagogico—Está installado em um predio da praça da Liberdade, ao lado do Atheneu. Encerra, em varias salas, gabinetes e corredores, numeroso mostruario de objectos escolares para todas as classes de ensino, taes como bancos, mesas, pedras, indicadores, esqueletos humanos e de irracionaes, instrumentos geographicos, bustos e modêlos em gêsso, etc., etc.

Tribuna historica, de madeira, de cujo ambito José Pedro Varella, preleccionava em favor do desenvolvimento da instrucção.

Busto, em bronze, do mesmo educador. Sala especial de hygiene escolar. Amostras de cereaes do paiz. Salas para leitura, trabalhos e conferencias publicas.

Este utilissimo estabelecimento, que apenas é dotado, pelo Governo, com a mensalidade de réis 400$000, contem as seguintes secções:

—Productos Nacionaes.—Jardins de Infancia e Trabalhos Manuaes.—Geographica.—Hygienica-Escolar.—Encyclopedica.—Historica.—Archeologica.—Iconographica.—Bibliotheca.—Photographica.—Officinas.—Galerias.

Ha tambem os museus privativos da Universidade, além de muitas collecções particulares.


Bibliothecas

Bibliotheca Nacional—O predio que contem esta Bibliotheca é uma construcção sem importancia architectonica, situado na esquina das ruas Florida e Mercedes.

A bibliotheca foi fundada por Damaso Antonio Larrañaga, e inaugurada em Maio de 1816, sendo o seu iniciador o general Artigas. A existencia actual é de 42:500 volumes em 27:000 obras.

Ha mais 185 gravuras e photographias, 63 peças musicaes e 197 mappas e planos. O estabelecimento lucta com a falta de espaço e de luz. Os gabinetes que encerram livros são acanhados e escuros. O salão geral de leitura ostenta os retratos de Larrañaga e do general Artigas.

Em 1907, o numero de leitores foi de 9:871, que consultaram 12:310 obras.

Em toda a Republica foram publicadas, em 1906, 112 obras, por auctores nacionaes.

No mesmo anno publicaram-se, em todo o paiz, 241 diarios e periodicos.

A casa, além de muito pequena, é velhissima, esperando-se que, muito brevemente, o Governo faculte mais decente installação á Bibliotheca Nacional.

Bibliotheca Pedagogica—Occupa o mesmo edificio do Museu Pedagogico. É dividida em theorica e didactica e foi, assim como o Museu, creada por decreto de 5 de Janeiro de 1889, sendo presidente da Republica o general D. Maximo Tajes, e ministro da instrucção publica, o douctor Martin Berinduague. A ideia da fundação partiu do actual director, Alberto Gomez Ruano. A Noticia Historica, sobre esta Bibliotheca e Museu, publicada pelo actual director, não menciona o numero de exemplares contidos n’esta collecção de livros.

Depois d’estas, as bibliothecas mais importantes de Montevideu, são as universitarias, já mencionadas, e em numero de cinco, com um total de 42:850 volumes que, em 1906, foram visitadas por 58:745 leitores. A de maior movimento foi a do Ensino Secundario, que teve 36:200 leitores, seguindo-se-lhe a da Faculdade de Medicina, com 10:476, a da Faculdade de Direito com 8:471 e a da Faculdade de Mathematica, com 3:599 leitores.


Commercio

Bolsa—Funcciona em bello edificio proprio, situado na rua Zavala e comprado, em 21 de Janeiro de 1907, pela Camara de Comercio, e pela quantia de 150:000 pesos uruguayos. A instituição foi fundada em Junho de 1875, com o nome de Centro Comercial. Este Centro foi substituido pela Bolsa de Comercio, com caracter de sociedade anonyma, e cujos estatutos foram approvados em 17 de Julho de 1907. O seu capital é de 110:000 pesos, em ouro, representados por 500 Acções, de preferencia e de 200 pesos.

A Camara de Comercio dirige os destinos d’esta aggremiação e ha uma Commissão de Correctores, d’ella derivada. O recinto das operações, vasto hemyciclo rodeado pelos escriptorios dos correctores, é muito animado, nos dias uteis, das 2 ás 4 horas da tarde. Ás 3 horas começam os pregões publicos.

A somma total das operações effectuadas n’esta Bolsa, em 1907 foi de 91.384:518:61, moeda uruguaya, valor nominal, e de 59.725:700:99, valor effectivo[3].

Balanço Demonstrativo do Activo e Passivo da Bolsa do Comercio de Montevideu, em 31 de Dezembro de 1907:

Activo
Edificio da Bolsa, seu custo 155:000:00
Acções de preferencia, a emittir: 54 Acções, saldo das 500 fixadas pelos Estatutos, correspondendo 446 aos senhores socios 10:800:00
Acções ordinarias: 1:000 Acções a 10 pesos 10:000:00
10 Acções do Banco Comercial de 400 pesos, custo 4:300:00
Saldo, em conta corrente, no Banco Commercial 3:476:20
Dinheiro em caixa 345:35
Valor de moveis e utensilios 4:438:31
Recibos a cobrar (subscripção) 2:479:00
» » » de socios 950:00
» de alugueis, a cobrar 417:00
192:205:86
Passivo
Capital 110:000:00
Saldo das Obrigações Hypothecarias emittidas para a compra do edificio 79:200:00
Lucros realisados desde 1 de Outubro a 31 de Dezembro 3:005:86
192:205:86

Na mesma época existiam 450 socios contribuintes.

Alfandega—Installada em amplo e velho casarão, apenas interessante pelo movimento e pelo grande numero de armazens e de dependencias em que é subdividido.

O movimento geral em 1907, foi o seguinte:

Navios de véla e a vapor, entradas, 2:325; saídas, 1:652. Total, 3:977.

Toneladas de registro: Entradas, 3:134:446; saídas, 1:959:113. Total, 5:093:559.

Carga effectiva: Entrada, 1:227:428; saída, 373:783. Total, 1:601:211. Os direitos sommaram:—Importação, 11:895:656:44. Exportação, 1:467:941:38. Total, 12:863:597:82.

Faceia a Alfandega um amplo e formoso cáes acostavel a embarcações de qualquer calado, que faz parte das importantissimas obras do novo porto, em via de conclusão.

Outr’ora os transatlanticos fundeavam ao largo, na linha do horizonte. Ha poucos annos construiu-se um ante-porto, para abrigo e fundeadouro das grandes embarcações, e n’este momento trabalha-se activamente na breve conclusão de cêrca de 2:000 metros de excellentes cáes acostaveis, intermeados de dócas e com uma profundidade de 7 e meio metros.

Durante o anno de 1907, a Republica Oriental do Uruguay exportou 43:286:827 kilos de lã; 22:850:497 kilos de trigo; 2:217:505 kilos de milho e 500:000 cabeças de gado.

É este o principal commercio da Republica, que para aperfeiçoamento das suas diversas especies productoras importou, em 1907, 540 animaes de raça bovina, 2:282 de raça ovina e 181 da raça equina, especialmente dos Estados Unidos, da Allemanha, da Nova Zelandia, da Suissa e da Inglaterra.

O movimento industrial não é tão importante, se bem que em Montevideu e nos suburbios, já existam algumas fabricas de cortumes, vidros, calçado, roupas brancas, etc.

[3] O peso uruguayo vale, approximadamente, 1:000 réis portuguezes.


Parques

Villa Dolores (Jardim Zoologico)—Este encantador parque, uma das principaes curiosidades da capital uruguaya, está situado nas proximidades da praia de Pocitos. É propriedade de D. Aleixo José de los Rios. A entrada custa apenas 20 centimos.

Apesar de ser variada e interessante a collecção zoologica, com numerosos e bellos exemplares de bipedes, quadrupedes e de reptis, o que mais delicia o visitante é a lindissima decoração de todo o recinto. Desde o minusculo museu de historia natural, á entrada, aos lagos, cascatas, mirantes, estatuas, pontes, fontanarios, chalets elegantissimos e jardinetes, caprichosamente tratados, tudo prende e satisfaz o observador, revelando o finissimo gosto do proprietario.

Porém, o que de mais original e curioso a villa encerra é o cemiterio dos irracionaes. Pequeno e encantador, elle revela-nos a saudade dos donos aos seus bichos mais queridos, em numerosos jazigos, alguns com figuras jacentes, grupos allusivos e dedicatorias.

Predominam, como é de justiça, os sepulchros caninos, muitos com estatuas, bustos e medalhões dos fieis lebreus, ao lado de sentidissimas phrases gravadas, a buril, no marmore e no granito.

Todas as sepulturas teem cercaduras floridas, vendo-se tambem, além dos tumulos especiaes, uma valla commum a cada especie representada na collecção.

Parque del Prado—É o Bosque de Bologna de Montevideu.

Accessivel por dupla e formosa avenida de eucalyptos, elle prolonga-se e desenvolve-se em amplas e frondosas alamedas, ruas, caminhos, clareiras, tanques, lagos e espaçosos relvados.

Encerra lindos e artisticos fontanarios, cafés cantantes e uma esplendida e luxuriante vegetação. Aos Domingos, principalmente, é no seu ambito que palpita a vida montevideana no que ella tem de mais valioso e distincto.

Pelas alamedas centraes desfilam as ricas e as modestas equipagens, os cavalleiros, os cyclistas e os automobilistas, vendo-se nos arruados lateraes, e em muitos outros que atravessam o parque, milhares de senhoras e de cavalheiros, apuradamente vestidos, que ora desfilam, ou enfileiram-se, observando-se, trocando-se olhares de curiosidade, de admiração, de indifferença ou de amôr.

Ao mesmo tempo, uma banda marcial fere-nos os tympanos com duvidosas harmonias, e nos cafés ao ar livre, cantores dos dois sexos despedaçam as gargantas em berros inconcebiveis.

Faz-se noite e a concorrencia não diminue, continuando a passeiata á luz de grandes arcos voltaicos e de lampadas electricas pendentes do arvoredo.

É este o grande mercado elegante da metropole oriental—uruguaya.

Exposição ambulante e colossal de damas naturalmente formosas e de outras mais ou menos pintadas, algumas ricamente vestidas e de varias cathegorias sociaes, é alli que pelo olhar, por palavras e por intermedio de missivas, discretamente passadas, iniciam-se, combinam-se e decidem-se os destinos de milhares de creaturas, sob o pretexto do mais sublime e deturpado de todos os sentimentos humanos—o amôr.

Parque Urbano—É o segundo passeio publico-municipal da capital uruguaya.

Ao contrario do Prado, este parque encerra uma vegetação muito rachitica, talvez por estar situado á beira-mar.

Todavia, esta mesma situação o faz interessante, por causa dos seus estabelecimentos balneares e dos terraços, ou passeios de madeira que dominam as vagas.

Além d’isso decoram-no um lago, um chalet acastellado, ruinas fingidas, um café cantante e varias alamedas. É pouco frequentado de inverno e preferido, na estação calmosa, pela população fluctuante das visinhas praias de los Pocitos e de Ramirez.


Theatros

Montevideu está bem fornecida de bons theatros. O Solis é, architecturalmente, tão gracioso quão imponente. Em estylo de templo romano, a sua frontaria consta de tres corpos. Os lateraes estão occupados, o da direita pelo Museu Nacional, o da esquerda pelo Splendid Hotel.

Estes têem a fachada circular, em columnatas, ao passo que o corpo central é composto de uma architrave recta, com frontão que descansa sobre oito columnas jonicas. O interior é amplo e tem cinco ordens de camarotes.

Ultimamente, funccionava ahi uma excellente companhia, expressamente contractada para interpretar obras nacionaes.

O theatro Urquiza, em estylo mais modesto, é tambem grandioso, se bem que o aspecto geral da sala seja pesado e sem elegancia. Encerra um bello vestibulo e cinco ordens de camarotes. O mobiliario é rico e a concorrencia é, geralmente, selecta. Frequentam-n’o companhias internacionaes.

O Polytheama é o mais vasto de todos os theatros de Montevideu, com tres ordens de camarotes e amplissima plateia. É frequentado, de preferencia, por companhias de zarzuella, e brevemente será transformado para melhor estylo architectonico.

O Ciblis tem quatro ordens de camarotes, é de simples decoração e architectura e egualmente entretido por companhias de zarzuella.

O Casino é de madeira, de tristonha e pobre perspectiva, funccionando ahi uma companhia de variedades.

O Odéon, o Stella d’Italia e o Pabellon Pipo, nada têem de notavel.

Brevemente será inaugurado o Theatro Moderno, na rua dos Andes.

Ha ainda outras salas de espectaculo, de menor importancia, bem como numerosos cinematographos, a actual praga de todos os centros civilisados e populosos. Em 1907, os theatros de Montevideu deram 2:227 espectaculos, com a assistencia de 2.001:664 espectadores.


Curiosidades

Pocitos—É uma praia de banhos, a pequena distancia da cidade e a ella ligada por dupla via de tramways electricos. Possúe um grande hotel, á margem do oceano, com terraços construidos sobre o salso elemento, e muitas avenidas já povoadas de lindas e artisticas villas de recreio, O clima aqui é ameno e a temperatura geralmente agradavel.

Atheneu—É Academia de Sciencias e Lettras, e, ao mesmo tempo, club recreativo. O edificio, que data de 1896, é de formoso estylo architectonico. Está situado na praça de Cagancha, ou da Liberdade.

No rez-do-chão visita-se a sala de jogo, a secretaria, a sala das pequenas reuniões e a bibliotheca, com dez mil volumes, que occupa um immenso salão, com galerias.

No andar nobre, entre outros compartimentos como, por exemplo, a sala de fumo, que tem sacadas sobre a praça, admira-se o amplissimo e bello salão dos actos publicos. Dão-se ahi os grandes banquetes e realisam-se outras festas de caracter internacional.

Cemiterio Central—Este campo santo, eminentemente artistico, é de agradavel aspecto e dividido em duas secções, por altos e longos muros que contem centenares de tumulos-gavetas. Os monumentos estão semi-encobertos pela abundancia do arvoredo, cuja côr verde-escura realça a alvura das niveas e marmoreas sepulturas.

Á entrada, está a capella das encommendações, que encerra uma crypta-pantheon de homens illustres. O centro é occupado pela urna contendo os restos mortaes do general Artigas.

Em volta, ha outras urnas e sepulchros de personagens notaveis da Republica.

D’entre os monumentos que guarnecem este cemiterio, destacam-se os seguintes, pela belleza artistica e sumptuosidade decorativa:

Sepultura de Alcino Sanguinetti, com uma bellissima estatua feminina, de marmore.

Tumulo encimado pelo marmoreo busto do almirante brasileiro Guilherme Parker, fallecido em 1873.

Artistico sepulchro da familia de José Rodriguez, decorado a formosas estatuas, a um busto e por quatro columnas caneladas, que sustentam um pedestal com a estatua da Virgem. Tumulo do general Venancio Flôres. Estatua feminina, de marmore branco, com lindissima roupagem.

Jazigo de Luiz Suppervielle, e familia. É em marmore mesclado.

Grande, artistico e vistoso tumulo de Juan Martin, em marmore de Italia. Encima-o um Christo gigantesco e decoram-n’o bellas estatuas femininas.

Grandioso jazigo, em marmore preto e branco, decorado a estatuas e a medalhões, dos cidadãos sacrificados em Paso de Quintetos.

Além d’este ha, em Montevideu, os cemiterios de Buceo, Britannico, de la Teja e de Cerro, os dois ultimos nos suburbios.

Parques Particulares—O Central e o Giot são dois parques particulares, muito interessantes.

O primeiro é accessivel a carruagens, cavalleiros e peões, pela estrada Oito de Outubro. A entrada é, quasi sempre, livre.

Realisam-se ahi, ordinariamente, os jogos de foot-ball, pelota, cricket e outros, para os quaes ha excellentes installações.

O parque Giot está situado na Villa Colón. Communica com a estação ferrea d’este nome, por meio de um tramway especial.

Bancos—Na capital do Uruguay funccionam, actualmente, os seguintes estabelecimentos bancarios e instituições de credito:

—Banco de la Republica, rua Zavala, 79.

—Banco Hypothecario, Zavala, 167.

—Banco Comercial, rua Cerrito, 189.

—Banco Español, rua 25 de Mayo.

—Banco de Londres, rua Cerrito, 205.

—Banco Italiano, Cerrito, 135.

—Banco Britanico, rua Zavala, 96.

—Banco Inglez, rua Missiones, 117.

—Banco London and Brazilian, rua Zavala, 83.

—Banco Francés, rua 25 de Mayo, 322.

—Banco Anglo-South-Americano, Zavala, 81.

—Bolsa de Comercio, Zavala, 59.

—Crédit Français, Missiones, 200.

—Casa de Préstimos, rua 33, 180.

—Monte de Piedad, rua Piedras, 265.

—Banco Alleman Transatlantico, Cerrito, 183.

—The Agency Company of Uruguay, rua Rincon, 66.

—Credito Publico, rua Solis, 33.

—Credito Real del Uruguay, rua 33, n.º 55.

—Banco de Cobranzas y Locaciones, rua Sarandi, 78.

—Centro de Productos del Pais, rua Miguelete, esquina da rua Rio Negro.

Hoteis—Os hoteis principaes de Montevideu, são o Splendid Hotel, na praça do theatro Solis; o Grande Hotel, entre as ruas Sarandi e Gomez; o Hotel de las Piramides, na rua Ituzaingó, 183; o Hotel de Paris, na rua 25 de Mayo, 280; o Hotel Central, na mesma rua, 247; o Internacional, na rua Ituzaingó, 89; o Barcelona, na rua da Ciudadela, n.º 120; o Del Globo, na rua Colón, 37; o Oriental, na rua Solis, 22; o Comercio, na Praça da Independencia, 97, e o Hotel Piazza Bianchi, em Muelle Viejo, 280.

Viação Urbana—A capital uruguaya é servida pelas seguintes companhias de tracção electrica e animal:

La Transatlantica, com oito linhas geraes a tracção electrica e duas a tracção animal.

La Comercial, com 18 linhas geraes, todas a tracção electrica.

Union y Maroñas, com tres linhas geraes a tracção animal.

O serviço d’estes tramways rivalisa, pela perfeição, com os das melhores capitaes do globo terrestre.


Apreciação

Sete grandes linhas telegraphicas e duas telephonicas communicam Montevideu entre si, com o interior da Republica e com todo o mundo civilisado.

Em todo o territorio uruguayo só existiam, em 1869, dezenove kilometros de via ferrea. Actualmente, ha mais de 2:000 kilometros em exploração.

A Republica possúe, para uma população total de 1.200:000 habitantes, cêrca de 700 escólas primarias, o que dá uma escóla para 1:700 habitantes. Esse numero vae ser consideravelmente augmentado porque, ha pouco tempo, foi votada a quantia de mil contos de réis para desenvolvimento da instrucção. Entre outros, a Universidade, o Atheneu e a Escóla de Artes e Officios, são estabelecimentos modelares.

Na diffusão do ensino, no desenvolvimento material do paiz e na beneficencia publica e particular, assentam a grandeza e a gloria da Republica Oriental do Uruguay e da sua grandiosa capital.

A Commissão Nacional de Caridade e Beneficencia Publica, dirige os estabelecimentos beneficentes do Estado, que são o Hospital de Caridade, o Asylo de Expostos e Orfãos, o Asylo de Mendigos, e quatro asylos Maternaes.

Não obstante a Constituição da Republica consignar, no artigo 5.º, que a religião do Estado é a catholica-apostolica-romana, ha plena liberdade de cultos, e ainda recentemente a Commissão de Caridade, que é de nomeação official, substituiu, nos estabelecimentos sob a sua direcção, as irmãs de caridade por pessoal laico, não só porque, no seu fanatismo, ellas martyrisavam as creanças com excessivos exercicios religiosos, mas tambem para impedir que no animo de tão tenras creaturas prevaleça qualquer crença religiosa especial, deixando essa escolha ao raciocinio e aos sentimentos da sua maioridade, como convem a cidadãos de uma republica verdadeiramente democratica.

Existe, na capital, um templo protestante, pertencente á egreja anglicana, e outro methodista, da egreja evangelica.

Duas coisas impressionam agradavelmente o visitante, logo á chegada a Montevideu—a belleza das mulheres e a urbanidade dos habitantes.

Ficam, perennemente, no pensamento, no coração e na alma a impressão do bello irradiada dos grandes e formosos olhos das montevideanas, da elegancia do seu porte, do fino gosto do seu vestuario; o supremo encanto que nos transmitte o contacto da população da capital, na doçura da phrase e na expressão dos sentimentos, facilitando-nos o estudo e a observação de tudo quanto, interior e exteriormente, revela ao forasteiro, estupefacto, as sublimes qualidades moraes e os preciosos elementos civilisadores de um povo que desperta enthusiasticamente para a vida, para a lucta e para a gloria.

Da cúspide de um dos campanarios do templo de la Aguada, por exemplo, o panorama geral de Montevideu encanta-nos pela extensão e grandeza da cidade, pela amplitude e belleza do seu porto, coalhado de embarcações e dominado, da margem fronteira, pela fortaleza do Cerro, a coroar a unica elevação de terreno que a vista abrange em toda a linha do horizonte.

O Brasil e a Argentina disputam-se a influencia sobre este paiz encantador, de largo e brilhante futuro, que já patenteia, a todo o mundo, valiosos documentos de progresso e de civilisação; povo bello, instruido e bom, como nenhum outro e que possúe uma capital dotada de todos os melhoramentos das grandes metropoles do globo. Ella é grande, rica e gloriosa em importantes estabelecimentos scientificos, nas suas numerosissimas livrarias, na estonteante formosura das suas habitantes, no assombroso desenvolvimento do seu commercio e, principalmente, no culto sacrosanto da caridade, que é a suprema belleza da alma.


INDICE

Pag.
Situação e Aspecto Geral 273
Historia 279
Assistencia Publica 283
Egrejas 291
Beneficencia Particular 295
Edificios Publicos 297
Universidade 301
Museus 305
Bibliothecas 309
Commercio 311
Parques 315
Theatros 319
Curiosidades 321
Apreciação 327


BUENOS-AIRES


Situação e Aspecto Geral

Aos 34.° 36, 21´ 4 de latitude austral e 58.° 21´, 33´ 3 de longitude occidental de Greenvich, á margem direita do Rio da Prata e a 20 metros acima do nivel do mar, está situada a cidade de Buenos-Aires, capital da Republica Argentina e a metropole mais importante, commercial e populosa da America do Sul.

N’esse ponto, a 275 kilometros da foz e a 200 de Montevideu, tem o rio 45 kilometros de largura e uma profundidade sufficiente para fundeadouro de grandes transatlanticos.

O perimetro da cidade é de 200 kilometros as maiores extensões são—de Norte a Sul 18 kilometros e de Este a Oeste 25 kilometros, com uma superficie de 19:006 hectares, isto é, mais do que Paris, que tem 7:802 hectares, Berlim, 6:326, Vienna d’Austria, 5:540 e do que Hamburgo, que tem 6:346 hectares de superficie.

Manchester, Londres e Marselha teem, respectivamente, 38:486, 30:486 e 22:336 hectares de superficie.

Á excepção de algumas das grandes metropoles norte-americanas, nenhuma outra cidade do mundo apresenta mais rapido augmento de população. Os seus principaes periodos de crescimento, foram de 1869 a 1887 e d’este anno ao de 1895. Na primeira das citadas datas os habitantes eram em numero de 177:000 e na segunda de 433:000, tendo augmentado em 256:000 moradores no espaço de 18 annos.

Em 1895, a população da capital era de 663:000 habitantes, ou mais 230:000 do que oito annos antes!

Fundada, em 1580, com 16 quarteirões ou quadrados de casas, pelo recenseamento geral de 1895, verificou-se constar a cidade de 54:795 casas, das quaes 912 com mais de 3 pavimentos, 6:332 com dois andares e 30:083 de um só pavimento. Hoje, Buenos-Aires encerra cêrca de 83:000 edificações, que abrigam 1:200:000 habitantes.

O aspecto geral d’esta soberba metropole é o de uma immensa planicie edificada e corôada pelos campanarios das suas egrejas e pelos zimborios dos seus palacios. O horizonte é limitado pela superficie do rio da Prata, cuja margem oriental apenas se avista nos dias muito claros, e pela aridez e côr pardacenta das campinas, que se estendem e prolongam além dos limites do municipio.

O excessivo comprimento de muitas arterias publicas faz com que, para o observador, a sua já exigua largura desappareça na altura da casaria.

A rua de Rivadavia, que divide, por completo e de um a outro extremo, o municipio, tem a extensão total de 18:000 metros, ou sejam 18 kilometros.

Nos primeiros 2:080 metros de comprimento tem a largura de 9½ metros; de Callao á Praça das Flôres, essa largura attinge 26 metros, que conserva até final. A rua de Santa Fé, parallela á anterior, é comprida de 12:000 metros; a de Cordoba, de 10:500; a de Corrientes, de 9:000; as de Callao e de Entre Rios, de 8:500 metros cada uma; a rua Independencia de 8:000 metros e muitas outras têm extensões immediatamente inferiores ás já citadas.

A magnifica Avenida de Mayo, com 30 metros de largura e kilometro e meio de comprimento, corre na direcção Este-Oeste e é, pelo movimento civico, pela situação topographica e pelo esplendôr dos seus edificios, a principal arteria publica da capital argentina.

Termina na amplissima e magestosa praça do mesmo nome, ladeada de monumentos e palacios, como a Cathedral, o Banco da Nação Argentina, a Camara Municipal e o Palacio do Governo. Na extremidade opposta da Praça de Mayo, ergue-se o grandioso monumento do Congresso Nacional.

A praça do general Lavalle, com 25:000 metros quadrados, é decorada a lindissimos jardins e, ao centro, pela estatua do general Lavalle.

As avenidas de Corrientes, de San Juan, de Belgrano, de Santa Fé e de Callao, são as mais importantes, depois da de Mayo, e mais extensas do que esta, se bem que o seu aspecto geral não seja tão bello e imponente.

A praça do general San Martin, profusamente ajardinada e ostentando a estatua equestre do seu homonymo, é um dos mais bellos pontos do centro da capital, assim como o passeio Alvear, ou da Recoleta e os parques Lezama e 3 de Fevereiro, especialmente o ultimo, com uma superficie de 3:677:464 metros quadrados, e que é o Bosque de Bologna de Buenos-Aires, excepto na vegetação. É especialmente frequentado ás terças e quintas-feiras, os dias da moda, por numerosas e ricas equipagens, que imprimem a esta capital o cunho essencialmente europeu dos grandes centros da aristocracia, da riqueza e da elegancia.

Quem chega a Buenos-Aires em dia de semana e nas horas de maior movimento civico, tem a illusão de que está em Paris, por exemplo, tal é o feitio caracteristico e eminentemente parisiense da metropole buonarense. Os cafés installados nos amplos passeios lateraes; os kiosques de jornaes e de tabaco, espalhados em profusão; a assombrosa quantidade de carruagens e de vehiculos de toda a especie, e até os vendedores de jornaes e de bugigangas, que como o camelot dos boulevards, tanta animação imprimem ás já animadissimas arterias da colossal cidade, tudo nos faz sentir que estamos em um dos formidaveis laboratorios humanos, onde se desenvolve a vida universal. Pena é que as arterias largas de Buenos-Aires, ou avenidas, sejam poucas em relação aos arruados que dividem as suas 3:500 manzanas, ou quadrados de casas, e que são excessivamente estreitos, para o espantoso movimento que os anima.

É facillimo ao visitante orientar-se na famosa capital porteña, devido á originalidade da sua topographia.

Effectivamente, o plano de Buenos-Aires é formado por quadrados de metros 130×130, que se cortam em angulo recto, formando como que taboleiros de xadrez. A numeração começa na direcção do porto e segue até á rua Rivadavia, que divide o municipio e onde principia a nomenclatura e a numeração de outras ruas.

Os nomes d’estas estão escriptos, em todas as esquinas, em lettras brancas sobre fundo azul e em chapas ou placas de ferro esmaltado. Cada quadrado tem o maximo de cem unidades, com a numeração par á direita e a impar á esquerda.

Todas as ruas e avenidas centraes são calcetadas a madeira e a asphalto, e as mais afastadas a parallelipipedos. Só a abertura da Avenida de Mayo custou dez milhões de pesos argentinos, e sommas fabulosas gastam actualmente o governo e a municipalidade na expropriação para alargamento de novas ruas, praças e avenidas, bem como na construcção de magnificos edificios publicos, que são verdadeiros monumentos.

Trinta e quatro mercados publicos abastecem a maravilhosa cidade e mais de 25:000 candieiros de electricidade, gaz e petroleo a illuminam profusamente. Todas as praças, avenidas e ruas principaes são realçadas, durante a noite, por poderosos fócos electricos.

As condições climatericas são excellentes, graças á situação topographica e geographica da localidade e já pelo cuidado e esmero das repartições competentes, em tudo o que diz respeito á salubridade e hygiene publicas.

Até 1890, a mortalidade de Buenos-Aires era de 29 a 30 por 1:000 habitantes. Depois das obras de saneamento, terminadas n’esse anno e nas quaes foram gastos 33 milhões de pesos em ouro, as defuncções baixaram a 15 e 16 por 1:000.

Tambem contribúe para esse resultado satisfactorio a amenidade da temperatura, cuja média, no mez mais frio do anno, o de Junho, é de 7.° centigrados e em Dezembro, o mez mais quente, é de 26.°

Sob o ponto de vista artistico, e especialmente architectonico, a perspectiva geral da cidade é bizarra e variadissima. Da povoação colonial pouco resta e a nova capital foi edificada, até bem pouco tempo, ao capricho dos proprietarios e de architectos na maioria incompetentes.

N’estes ultimos vinte annos, todavia, verdadeiras obras de arte teem apparecido a engrandecer a cidade, tanto particulares como publicas, especialmente nas novas e centraes avenidas.

Buenos-Aires é não só metropole assombrosamente commercial, mas tambem centro importantissimo de gôso, de luxo e de prazer. Na estação invernosa, de Maio a Outubro, funccionam tres ou quatro companhias lyricas, com os melhores elementos de reputação universal, assim como numerosas emprezas e celebridades artisticas na zarzuella, na declamação e no genero variado. Os seus grandiosos theatros são o assombro e o encanto dos forasteiros, que tambem sentem a impressão do bello e do supremo gosto ao contemplarem defronte de esplendidas vitrinas, nos passeios e em ricas equipagens, formosas damas, elegantemente vestidas, e irradiando das suas gentilissimas pessôas, a graça que seduz o espirito e incendeia os corações.


Historia

O nome de Buenos-Aires tem duas versões, adoptadas ambas por historiadores da famosa capital argentina. Segundo uns, Sancho del Campo, official do adelantado, especie de vice-rei, D. Pedro de Mendoza, primeiro fundador da povoação, ao saltar em terra exclamára:—buenos-aires!—referindo-se aos ares agradaveis que circulavam na atmosphera. Outros escriptores sustentam que o nome provem do de Santa Maria de Buenos-Aires, muito da devoção dos mencionados expedicionarios. Effectivamente, o primeiro nome dado á localidade, foi o de cidade de Santa Maria.

D. Pedro de Mendoza partiu de Sevilha em 24 de Agosto de 1535, com quatorze navios e 220 homens de equipagem, entre officiaes e soldados. O almirante da armada era D. Diogo de Mendoza, irmão de D. Pedro.

A causa d’esta expedição foi a descoberta e exploração das minas de ouro e de prata, que o navegador Gaboto affirmára, em Hespanha, ter visto nas margens do Rio da Prata. Como o informador tambem se referisse á extraordinaria fertilidade e belleza das terras platinas, o espirito aventureiro d’aquellas épocas, acabou por decidir a organisação da frota, na qual o adelantado foi acompanhado por muitas pessôas gradas, umas que tinham de transportar-se ao Paraguay, e outras desejosas de riquezas e de aventuras.

Na altura das Ilhas Canarias, a expedição foi surprehendida por grande temporal, que a forçou a arribar ao Rio de Janeiro, onde, por vingança, Mendoza mandou matar o mestre de campo João de Osorio. Como a crueldade d’este acto provocasse a indignação da maioria da equipagem, o chefe mandou levantar ferro para impedir as deserções e nos primeiros dias do anno de 1536, ignorando-se a data exacta, fundeou a armada na embocadura do Rio da Prata. Seguiu-se o desembarque e a fundação da cidade, ao mesmo tempo que de um forte para defeza da nova povoação contra os ataques dos naturaes. Estes, os indios querandies, tentaram impedir o estabelecimento dos hespanhoes, conseguindo surprehender e matar dez d’entre elles, que haviam-se internado á procura de lenha. No intuito de vingar esta affronta, D. Diogo de Mendoza, á frente de uma expedição militar, partiu á procura da tribu, que o esperou nas margens de uma lagôa e em numero de alguns milhares de guerreiros.

Os invasores succumbiram ao numero, e o proprio D. Diogo foi morto, o que profundamente desanimou o fundador de Buenos-Aires. D. Pedro caiu gravemente enfermo e á derrota seguiu-se a falta de viveres, que degenerou em fome, a ponto dos vivos alimentarem-se com a carne dos companheiros mortos. O governador resolveu retirar-se para o Brasil, mas quando ia a partir, appareceu-lhe, com algumas provisões, o capitão Oyolas, que elle mandára ao interior, em busca de viveres. Este successo reanimou um pouco os hespanhoes, porém os indios, tendo-se reunido em numero superior a 20:000, atacaram a nova povoação, ao mesmo tempo que incendiavam os seus tectos de palha, arremessando-lhes flechas ardentes. Os habitantes foram obrigados a refugiar-se, com D. Pedro de Mendoza, nos navios que os indios não puderam queimar, e partiram, em numero de 400, na direcção do Paraguay, ficando no porto de Buenos-Aires e a bordo de 4 navios, 160 homens, ao mando de Juan Romero. Do meio da viagem, D. Pedro de Mendoza, voltou a Buenos-Aires, onde encontrou reinstallada a gente de Romero, pela retirada dos indios.

O adelantado nomeou capitão do porto e da povoação a Francisco Ruiz Galán, e partiu para Hespanha, morrendo em viagem e a bordo do navio «Magdalena», em 23 do Junho de 1537. Privações de toda a especie continuaram a flagellar a pequena população de Buenos-Aires, até que em Abril de 1538, chegou de Hespanha uma caravella de soccorro, carregada de provisões. Em Outubro d’esse anno appareceu uma expedição auxiliar composta de dois navios e 200 tripulantes, com viveres para dois annos, sob o commando de Alonso Cabrera.

Com estes reforços começou-se a reconstrucção das casas incendiadas, pelos indios, e da egreja.

A Ayolas, capitão de Mendoza, que foi assassinado pelos indios do Chaco, succedeu no commando Domingo Martinez de Irala. Este reuniu, em Assumpção, os homens que Mendoza tinha deixado nas margens do Paraná, e dirigindo-se a Buenos-Aires, ahi fez proclamar a despovoação, levada a effeito em 10 de Maio de 1541, queimando-se os navios emprestaveis para navegar; e partindo Irala com toda a população para o Paraguay.

Da expedição e tentativa de D. Pedro de Mendoza ficou, como recordação indelével, o rebanho de 75 cavallos e eguas que elle trouxera de Hespanha e que solto nas immensas planicies regadas pelas aguas dos rios Riachuelo e da Prata, foi a origem da actual riqueza animal das regiões platenses.

D. Juan de Garay, nascido em 1528, em Villalba de Lora, provincia de Burgos, aos 16 annos de edade embarcou para Lima, no Perú, em companhia de seu tio, o licenciado Pedro Ortiz de Zárate, ouvidor n’aquella cidade sul-americana. Em 1549 acompanhou o general Juan Nuñez del Prado ás provincias de Tucuman.

Tendo estado em Charcas e tomado parte em varias expedições contra os indios, em 1561 foi nomeado alguazil-mór do governo do Rio da Prata, pelo que estabeleceu-se na cidade de Santa Cruz da Serra, fundada por Nuflo de Chaves. Commissionado pelo governo do Paraguay para fundar uma povoação nas margens do Paraná, para alli partiu em uma caravella, a 14 de Abril de 1573, fundando a cidade de Santa Fé, em 15 de Novembro do mesmo anno.

Depois de voltar ao Perú, para tratar um assumpto de familia e de derrotar, no Paraguay, o cacique Oberá, Juan de Garay, um dos maiores e mais celebres aventureiros do seculo XVI, organisou uma expedição e dirigiu-se ao Rio da Prata, em cuja foz lançou ferro. Desembarcando, com os seus companheiros, em 11 de Junho de 1580, depois de meia hora de marcha, fez alto em uma planura que lhe pareceu apropriada, e ahi traçou o local da praça principal de uma nova povoação, a que pomposamente deu o titulo de Ciudad de la Trinidad de Buenos-Aires. O fundador estava a pequena distancia do povoado fundado, 44 annos antes, por D. Pedro de Mendoza, e o espaço traçado pela sua espada é a actual praça 25 de Mayo.

Quatro mezes mais tarde, procedeu-se á repartição das terras fóra do perimetro da cidade. Esta occupava um espaço de 16 quadras de frente por 9 de fundo, limitado pelas actuaes ruas 25 de Mayo, Balcarce, Viamonte, Libertad, Salta e Estados Unidos.

Em 1762 já Buenos-Aires tinha 24 quadras de frente por doze de fundo. Cada quadra comprehende 140 varas de comprimento. As casas que, em 1650, não passavam de 400, eram algumas cobertas de telha, porém a maior parte tinha os tectos de palha, e eram muito baixas, de madeira e pedra. N’essa época e mesmo até ao fim do seculo XVII, nenhuma habitação attingia a altura de cinco metros.

Assegurada a fundação e garantido o sustento da cidade, aquella por uma derrota inflingida aos indios querandies, e este pelas numerosas tropas de gado que povoavam as campinas circumvisinhas, partiu o fundador Juan de Geray para Assumpção, no Paraguay, com escala pelas colonias do rio Paraná, algumas tambem de sua fundação. Em uma d’estas excursões, tendo pernoitado em terras dos indios miunanes, ainda selvagens, foi traiçoeiramente morto por estes, bem como os da sua comitiva. Sabida, em Buenos-Aires, a noticia do desastre, assumiu o mando um sobrinho do adelantado Vera, até á chegada d’este, em 1587.

Já em 1585, a cidade tinha sido atacada pelo corsario inglez Eduardo Fontano, que foi repellido, renovando a tentativa dois annos mais tarde e com egual resultado, o famoso pirata, da mesma nacionalidade, Thomaz Cavendish.

Os heroicos habitantes da povoação, todos soldados, tambem repelliram, victoriosamente, um ataque dos hollandezes, então estabelecidos no Brasil, em 1618.

Um seculo depois da fundação, Buenos-Aires passou por longo periodo de decadencia, em consequencia do abandono da metropole, das hostilidades dos indigenas e da falta de navegação e de commercio, o que provocou a carestia dos generos de primeira necessidade. A primeira Audiencia, estabelecida por decreto de 6 de Abril de 1661, representou a situação da colonia ao rei de Hespanha, Filippe IV, recebendo resposta, sete annos mais tarde, firmada por D. Marianna d’Austria, viuva d’aquelle monarcha e regente do reino, durante a menoridade de Carlos II. Esse documento apenas recommendava ao mestre de campo, D. José Martinez de Salazar, que empregasse todos os esforços para debellar a crise que affligia a colonia. N’essa época a população de Buenos-Aires era de 4:000 pessôas, das quaes apenas uns 250 europeus.

Já então a cidade começava a reanimar-se, devido á expansão commercial, maritima e do interior, a ponto que, em 1730, o jesuita Cattaneo, que a visitou, calculou os seus habitantes em 16:000.

D. Juan José de Vertiz, governador que succedera a Zeballos, iniciou, em 1778, una série de melhoramentos que deram novo aspecto á cidade. Deve-se-lhe a illuminação publica, o empedramento das ruas, a introducção do primeiro prélo e a fundação da Casa dos Expostos e do Collegio de S. Carlos. Em fins do seculo XVIII, fôram construidos o primeiro theatro e a primeira praça de touros.

Em 24 de Junho de 1806 e quando assistia a um espectaculo, com a sua familia, o vice-rei marquez de Sobremonte, recebeu a noticia de que acabára de ancorar, no porto, uma esquadra ingleza em attitude hostil. Immediatamente aquelle funccionario fugiu para Cordova, sem, ao menos, dar as providencias que requeriam a urgencia e a gravidade do caso. A 26 desembarcaram os inglezes e no dia seguinte, ao mando do general Beresford, entraram na cidade, quasi sem combate.

No interior e na visinha Montevideu, principiou a organisar-se a resistencia contra os invasores, e depois de um fracasso, em Perdriel, os naturaes tendo-se reforçado pela juncção dos generaes Pueyrredon e Liniers, marcharam sobre Buenos-Aires, que retomaram em 12 de Agosto, depois de sangrentos combates que custaram, aos dois exercitos, mais de quinhentas vidas.

Os inglezes retiraram-se para voltar, no anno seguinte, 1807, no mez de Junho, commandados, o exercito, pelo general Whiteloeke, e a esquadra pelo almirante Murray. O inimigo desembarcou em numero de 11:000 homens, das tres armas, principiando a assaltar a cidade em 2 de Julho.

Defendiam-n’a Liniers e 8:500 soldados regulares, conseguindo no dia 5, em uma batalha geral, derrotar completamente os inglezes, que, a 7, assignaram uma convenção, compromettendo-se a abandonar as cidades de Buenos-Aires e Montevideu e todas as regiões banhadas pelo Rio da Prata, assim como as proprias aguas platenses.

O governo da metropole galardoou a cidade com o titulo de Excellencia, e os seus vereadores com o de Senhoria. Em signal de regosijo, a Municipalidade, ou Cabido, libertou trinta escravos.

Em 25 de Maio de 1810, rebentou a revolução pela independencia, que é não só o principal acontecimento historico de Buenos-Aires como de toda a nacionalidade argentina.

Aos vivos desejos de autonomia politica e administrativa, manifestados pela população creoula e mestiça, principalmente, juntaram-se as noticias da invasão napoleonica da metropole e da independencia dos Estados Unidos da America do Norte. Além d’isso, o espirito bellico e auctoritario dos naturaes tinha sido animado pelas recentissimas luctas e victorias contra os inglezes.

Quando o vice-rei Cisneros, em 18 de Maio de 1810, publicou, em nome de Fernando VII, uma proclamação dando conta dos successos passados na peninsula iberica e exhortando a população a unir-se em volta da auctoridade e do throno, o povo de Buenos-Aires começou a agitar-se e foi para a praça da Victoria manifestar-se, em altos brados, pela reunião de um Congresso Geral, ou Cabido Pleno, no qual o povo tivesse directa representação e resolvêsse sobre a proclamação do vice-rei. Em face d’essa attitude dos habitantes, reuniu-se o Cabido ordinario, no dia 21 e resolveu, de accôrdo com os desejos do povo, convocar um congresso geral dos habitantes para o dia seguinte, ás 9 horas da manhã. Foram convocadas 450 pessôas gradas, que nada resolveram no mesmo dia, que foi passado em calorosas discussões, combinando-se voltar a reunir a 23, ás 3 horas da tarde. A pluralidade de votos decidiu que o vice-rei Cisneros deveria depositar o seu mandato nas mãos do Cabido, até que fôsse eleita uma junta governativa. O vice-rei acatou e cumpriu as resoluções do povo, mas no dia seguinte o proprio Cabido convidou-o a reassumir o governo, auxiliado por 4 das pessôas mais gradas da cidade, formando uma especie de Junta, presidida por Cisneros.

Finalmente, no dia seguinte, 25 de Maio, o povo da cidade, descontente com a solução da crise, sublevou-se de novo, e invadindo a praça Victoria, delegou uma deputação ao Cabido e á Junta, intimando-os a depôrem o mando nas seguintes mãos:

D. Cornelio Saavedra, commandante geral das armas, presidente, e vogaes Juan José Castelli, Manuel Belgrano, Miguel Azcuénaga, Manuel Alberti, Domingo Matheu, Juan Larrea, Juan José Paso e Mariano Moreno, os dois ultimos como secretarios.

Este triumpho popular e nacional deu em resultado o Congresso de Tucuman, reunido na cidade d’este nome, que em 9 de Julho de 1816 proclamou a independencia da Republica Argentina. No anno seguinte fôram as reuniões do Congresso Nacional transferidas para Buenos-Aires.

Em 24 de Setembro de 1812, o general Belgrano derrotou as tropas hespanholas do commando do general Pio Tristán, no campo de Carreras, suburbios de Tucuman.

Nos annos de 1817 e 1818, o mesmo general Belgrano e o seu collega San Martin, ganharam as batalhas de Chacabuco e de Maipú, que não só confirmaram e consolidaram a independencia nacional-argentina, como deram em resultado a proclamação da Republica do Chile.

Depois do da revolução de Maio, o facto historico mais importante da capital e da Republica, foi a dictadura tyrannica de Juan Manuel Rozas, a quem o Congresso Nacional concedêra o poder supremo. Em 1851, o general Urquiza, governador da provincia de Entre Rios, collocou-se á frente dos patriotas, que propunham-se derrubar o tyranno, e auxiliado por brasileiros e orientaes, deu a Rozas, em 3 de Fevereiro de 1852, a batalha de Caseros, derrotando-o com 24:000 homens contra 30:000, e obrigando-o a fugir para a Europa. Rozas governára por espaço de vinte annos.

Com a quéda da tyrannia foi promulgada nova constituição e Buenos-Aires entrou em phase de decidido desenvolvimento material.

Ao cair Rozas, em 1852, contava a cidade 76:000 habitantes, em 1864, 140:000, 404:000 em 1867, 800:000 em 1900 e 1:150:000 em 1908.

N’estes ultimos cincoenta annos, de muitos acontecimentos historicos teem sido theatro as ruas de Buenos-Aires, e ainda não ha muito tempo que ellas foram regadas com o sangue de irmãos, em feroz disputa do supremo poder. E por isso que ainda vivem muitos dos protagonistas d’esses infaustos successos, é de justiça lançar, sobre homens e factos, o véo do esquecimento e deixar á geração vindoura a tarefa de, serenamente, apreciar uns e outros e preparar o julgamento severo e perenne da Historia.