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Tres capitaes

Chapter 75: Imprensa
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About This Book

A first-person travel and civic study visits three South American capitals, combining vivid urban and natural description with comparative analysis of economic and social development. The narrative contrasts two dominant metropolises with a smaller, strategically placed capital, examining immigration, agriculture, commerce, industry, and the civic institutions that shape prosperity. Political tensions and diplomatic rivalries appear alongside admiration for visible progress, while local panoramas, architecture, and daily life are recorded in detail. The work balances patriotic viewpoints with measured praise for rivals, aiming to extract practical lessons from each city’s strengths and faults to guide future improvement.


Imprensa

Em 1765, o vice-rei governador e capitão general do Rio da Prata e das provincias do Perú e do Chile, D. Manuel de Amat y Jumient, concedeu licença ao padre D. Mathias Roza, procurador geral da Companhia de Jesus, afim de estabelecer uma imprensa no collegio de Monserrat, da cidade de Cordoba, para facilitar as impressões dos actos litterarios e outras obras.

O prélo que havia, até então, n’essa jurisdição, era o de Lima, no Perú, a 1:200 leguas de distancia. Os jesuitas pagaram 100 pesos de licença e fizeram transportar, da Hespanha, o prélo e todos os seus pertences.

A permissão foi-lhes concedida com a condição de não imprimirem livro algum que tratásse das Indias, nem de papel sellado, nem do vocabulario ou lingua dos indios, sem prévia auctorisação das auctoridades superiores.

Pouco tempo depois foram expulsos os jesuitas e parou a imprensa de Cordoba, até que em 16 de Setembro de 1775, o vice-rei Vertiz officiou ao reitor de Monserrat, propondo-lhe a transferencia da imprensa para Buenos-Aires, o que teve logar no anno seguinte, pelo preço de mil pesos, tendo ella custado 2:000 duros aos padres de Loyola. Foi, ao principio, montada em uma casa velha, no local onde hoje funcciona o Collegio Nacional e Central, sendo pouco depois transferida para a esquina das ruas Bolivar e Moreno. Para o cargo de administrador geral da imprensa, foi nomeado D. José da Silva y Aguiar, pelo tempo de dez annos, a unica pessôa de Buenos-Aires que, ao tempo, entendia da arte typographica.

Em Maio de 1780 fez-se a primeira impressão, um formulario de nomeação para empregos de milicias.

O primeiro papel impresso que appareceu em Buenos-Aires, com o caracter de publicação periodica, foi em 1 de abril de 1801, o Telegrafo Mercantil, Rural, Politico, Economico e Historiografico del Rio de la Plata, fundado pelo coronel D. Francisco Antonio Cabello y Mesa. Era bi-semanal, de oito paginas 13×20, e muito mal imprésso na que então já se chamava Real imprenta de niños expósitos.

Seguiu-se-lhe o Semanario de Agricultura y Comercio, publicado por D. Hipolito Vieytes, em 1802, na mesma imprensa, porém melhor elaborado. Belgrano fundou, em 1810, o Correo de Comercio de Buenos-Aires, jornal politico, apesar do seu titulo.

No mesmo anno appareceu La Gaceta de Buenos-Aires, editada pela typographia de M. J. Gandarillos y socios, com melhor material e superiormente redigida por D. Mariano Moreno, insigne patriota.

Surgiram, até 1835, numerosos periodicos politicos, noticiosos e commerciaes, supprimindo-os o dictador Rosas, com excepção do seu orgão—La Gaceta Mercantil de Buenos-Aires, que se publicou de 1823 a 1852.

Derrubado o tyranno e proclamada a liberdade da imprensa, pela constituição de 1853, o periodismo entrou em nova phase, apparecendo numerosos jornaes diarios, semanarios e revistas, dos quaes os primeiros e os mais importantes fôram El Comercio, El Federal, La Avispa, El Correo Argentino, El Nacional, La Tribuna, La Crónica, El Orden e Los Debates.

Este ultimo começou a ser publicado em 1852 e resurgiu em 1857, sendo seu redactor, em chefe, o celebre general Mítre. Em 1862 mudou o titulo para La Nacion Argentina, e em 1870 para La Nacion, que ainda hoje ostenta, disputando a La Prensa, a gloria de ser o primeiro jornal argentino.

Actualmente publicam-se, em Buenos-Aires, mais de quatrocentos diarios, periodicos e revistas, sendo uns cem estrangeiros.

Além dos dois acima citados, os principaes são El Diario, El Pais, La Patria degli Italiani, La Razón, El Diario de España e El Tiempo.

Porém o melhor installado é La Prensa, que possúe um esplendido palacio, na Avenida de Mayo.

É em quatro pavimentos e remata-o uma torre-observatorio, á altura de 55 metros, com uma estatua que empunha um poderoso fóco electrico. Este monumental edificio foi mandado construir pelo dr. José Paz, fundador do jornal.

As principaes installações de La Prensa, além dos soberbos machinismos rotativos, movidos a electricidade e que imprimem 95:000 exemplares por dia, são a sala geral de recepção, espelhada, perfumada e luxuosamente mobilada, o salão de bilhar, o grande refeitorio, com rica e artistica mobilia, a bibliotheca, com 6:000 volumes, o museu de curiosidades, as officinas de photographia, a de photogravura, o salão de conferencias, decorado a pinturas douradas e a esplendidos lustres e as salas e aposentos para hospedes de distincção. O papel para impressão está depositado em dois subterraneos, abaixo do das machinas. Ha tambem um salão de esgrima e outras dependencias. Vários ascensores electricos communicam os diversos pavimentos entre si e com a torre-observatorio.

Das revistas e illustrações avultam Ilustración Sud-Americana e Caras y Caretas.

Em nenhum outro centro da intellectualidade universal o periodismo está mais adeantado e aperfeiçoado do que em Buenos-Aires.


Viação Urbana

As dez companhias de tramways electricos, de Buenos-Aires, transportaram, em 1907, 200:700:247 passageiros, que pagaram passagens na importancia total de 20:436:090 pesos e 35 centavos.

D’essas empresas, só tres estão ainda em transformação do serviço de tracção animal para a tracção electrica, adoptando as outras sete este ultimo systema de locomoção. Das tres primeiras, duas teem a electricidade adoptada já em quasi todas as suas linhas.

A companhia Anglo-Argentina explorava, em 1908, 8 kilometros e 34 metros de linhas a tracção animal e 257 kilometros e 944 metros a tracção electrica; tinha 880 carros e 2:170 empregados em actividade.

A empresa La Capital, dispunha, no mesmo anno, de 3 kilometros servidos a tracção animal, 56 kilometros e 491 metros a tracção electrica, 157 carros e de 760 empregados.

A F. C. C. Argentino tinha 1,ᵏ 300,ᵐˢ de linhas em exploração pela tracção animal.

A companhia Electricos de Buenos-Aires, fazia circular 85 carros, por 38,ᵏ 660,ᵐˢ com 415 empregados.

A Metropolitana, electrica, explorava 33,ᵏ 70,ᵐˢ com 90 carros e 420 empregados.

A Gran Nacional, electrica, 121,ᵏ 700,ᵐˢ 463 carros, 1:440 empregados.

A Lacroze de Buenos-Aires, Limtd., 42,ᵏ 094,ᵐˢ 158 carros, 554 empregados.

A Belga—Argentina, electrica, 16,ᵏ 390,ᵐˢ 40 carros, 85 empregados.

Finalmente, a companhia Electricos del Sud, tinha 8,ᵏ 486,ᵐˢ 8 carros e 46 empregados.

Da capital da Republica partem cinco grandes linhas geraes de caminhos de ferro, pertencentes a outras tantas companhias, na extensão total de 11:314 kilometros, com 1:227 machinas, 1:368 carruagens e 33:605 vagões em serviço.

Essas empresas são—Sul de Buenos-Aires, com 4:093 kilometros (em 1907), 510 locomotivas, 433 carruagens e 11:578 vagões.

De Buenos-Aires ao Pacifico, 1:610 kilometros, 319 locomotivas, 240 carruagens e 5:501 vagões.

De Buenos-Aires ao Rosario, 1:977 kilometros, 239 locomotivas, 237 carruagens e 6:837 vagões.

Central-Argentino, 1:823 kilometros, 145 locomotivas, 254 carruagens e 5:201 vagões.

Oeste de Buenos-Aires, 1:555 kilometros, 185 locomotivas, 174 carruagens e 4:488 vagões.

No mesmo periodo, essas companhias transportaram, só para as estações do municipio de Buenos-Aires, 15:135:230 passageiros e 3:726:714 toneladas de mercadorias.

Em igual anno havia, em Buenos-Aires, 978 carruagens particulares, 601 com rodas de borracha, 1:095 de aluguel, das quaes 454 com rodas de borracha; 2:277 carruagens de praça; 423 automoveis particulares, 109 ditos de aluguel; 31 automoveis de carga, 25 motocyclos, 4:877 bicycletas, 11:547 carroças e 1:317 carrinhos de mão.

Todas as companhias de tramways teem contractos com a municipalidade, por um periodo que varia entre 60 e 99 annos. Findos os prazos todo o material e as installações d’essas empresas pertencerão ao municipio.

As passagens nos omnibus, ou tramways, e dentro do perimetro da cidade, regulam o preço de 10 centavos por pessôa e por viagem.

Nas horas de maior movimento, atrelados aos carros communs, circulam outros, a meios preços, para a população operaria e indigente. Os horarios são submettidos á apreciação e approvação da municipalidade, havendo só uma companhia que sustenta o serviço permanente, regulando a labuta das outras empresas, das cinco da madrugada á 1 hora da noite.


Movimento Associativo

O ultimo recenseamento d’este movimento, feito em 1906, deu o seguinte resultado:

—291 associações, com a totalidade de 167:977 membros.

D’estas, 97 eram de soccorros mutuos, com 66:693 associados. Em 1904, todas as sociedades de Buenos-Aires arrecadaram, de mensalidades, 3:129:279 pesos, correspondendo 1:112:812 ás collectividades de soccorros mutuos. Ás de beneficencia couberam 689:573 pesos.

Os circulos catholicos de operarios, fundados ha 15 annos pelo padre Grote, do gran-ducado de Luxemburgo, teem, actualmente, mais de 40:000 socios, dando-lhes o censo de 1906, apenas 4:414 membros.

Quadro demonstrativo do caracter das associações, do numero de sociedades e do numero dos associados:

Caracter Sociedades Socios
Social 10 5:031
Beneficente 23 19:485
Recreativo 52 5:664
Litterario, scientifico e artistico 25 5:622
Maçon 3 209
Mutualista 97 66:693
Sport 15 18:382
Operario, (circulos) 6 4:414
Socialista 16 22:568
Protector de irracionaes 1 500
Politico 2 719
Protector da infancia 5 2:749
Diverso 36 15:941
291 167:977

D’estas associações 118 eram argentinas, 85 italianas, 19 hespanholas, 12 francezas, 7 inglezas, 7 allemãs e 6 suissas. Dos seus membros, 147:420 eram homens e 16:242 mulheres.

A de maior numero de socios era o Circulo da Guarda Nacional, com 14:000. Segue-se-lhe a Associacion Española de Soccorros Mutuos, com 12:428 socios e a Confederación de Ferrocarrileros, com 12:000.

As que possuiam maiores bibliothecas eram o Circulo Medico Argentino, 8:573 volumes; o Club del Progresso, 7:530; a English Literary Society, 4:000 volumes, e o Centro Socialista de la Boca, 3:400 volumes.

Das agremiações beneficentes e promotoras da instrucção, citaremos a Protectora de Niños Desvalidos, que sustenta um asylo e uma escóla; a Sociedad de Beneficencia Ospedale Italiano, que mantem o importante hospital da colonia; a Sociedad Española de Beneficencia, idem; a Nazionale Italiana, que sustenta uma escóla frequentada por 535 alumnos; A Union Operai Italiani, com escóla de 380 alumnos: a Italia Unita, escóla de 170 creanças; a Cosmopolita de Proteccion Mutua e Instrución, escóla com 157 alumnos; a Umberto I, escóla com 117 frequentadores; o Circulo de Obreros de Palermo, escóla com 300 crianças, e a Associacion Rivadavia de Jóvenes Cristianos, que sustenta uma escóla frequentada por 250 alumnos.

A notar, ainda, a associação franceza Les Dames de la Providence, fundadora de um orphelinato francez, que em 1906 abrigava 120 asylados.

A sociedade que mais dispendeu, no mesmo anno, foi a Sociedad de Beneficencia Ospedale Italiano, com 3:142 socios, a receita de 260:880,71 e a despesa de 243:324 pesos e 38 centavos.

Segue-se-lhe a Asociacion Española de Soccorros Mutuos, com 12:428 socios, que arrecadou 173:234,50 e dispendeu 185:668,01 e a Sociedad Española de Beneficencia, respectivamente, 3:673, 286:000, e 194:784,75.

A Caja de Socorros de Policia y Bomberos de la Capital, tinha 5:536 socios, recebeu 174:183,61, gastou 167:065 pesos e 65 centavos.

De 914:000 habitantes, que então contava Buenos-Aires, 104:808 pertenciam a sociedades mutualistas, dos quaes 94:640 eram homens, 8:880 mulheres e 1:288 crianças.


Parallelo

Synthetizando o estudo feito nos 50 capitulos que tratam das manifestações vitaes das metropoles brasileira e argentina, em todos os ramos da actividade humana, passaremos, para terminar este livro, a estabelecer um parallelo entre as duas capitaes, baseando o nosso trabalho nos principaes pontos até aqui desenvolvidos. E é assim que poderemos considerar, comparativamente, Rio de Janeiro e Buenos-Aires, sob os seguintes 26 aspectos:

  • —Situação geographica e topographica.
  • —Climatologia.
  • —Aspecto geral.
  • —Monumentos religiosos.
  • —Monumentos profanos.
  • —População.
  • —Area civica.
  • —Museus.
  • —Bibliothecas.
  • —Logradouros publicos.
  • —Arte.
  • —Esthetica.
  • —Historia.
  • —Assistencia publica.
  • —Beneficencia particular.
  • —Theatros.
  • —Instrucção publica.
  • —Salubridade e hygiene.
  • —Commercio e Industria.
  • —Intellectualidade.
  • —Municipalismo.
  • —Viação urbana.
  • —Movimento civico.
  • —Movimento associativo.
  • —Alimentação publica.
  • —Natureza.

Situação Geographica e Topographica—Não obstante a largura do rio da Prata ser de 45 kilometros, defronte de Buenos-Aires, o porto d’esta cidade, amplo e profundo, não deixa de ser de costa, ou margem de rio, e a sua situação geographica inferior á do Rio de Janeiro. Amplissimo e profundo, como o da capital argentina, o porto fluminense é, além d’isso, especial e de belleza natural incomparavel. A differença é radical não só quanto ao porto propriamente dito, como em relação á situação geographica e á exposição topographica das duas capitães. A entrada natural do Rio de Janeiro consta de dois canaes entre fortalezas e montanhas. Transpostos aquelles, depara-se-nos uma immensa bacia liquida de 140 kilometros de circumferencia, semeada de 80 ilhas, abrigada por cordilheiras, ladeada de cidades, villas e aldeias, enfeitada por uma vegetação tropical e luxuriante. A exposição da cidade é prejudicada pela topographia do terreno, extraordinariamente accidentado. Em consequencia, as edificações galgam e contornam as elevações, não podendo, por isso, fazer-se, exteriormente, ideia da extensão e formosura da cidade. É preciso desembarcar e percorrêl-a, subir ao vértice das collinas edificadas e á cúspide das montanhas circumvisinhas, para abranger-se o panorama geral e os detalhes da povoação, surprehendendo-se situações imprevistas e gravando-se, no pensamento e no coração, a indelével impressão que resulta do conjuncto formado por um porto natural de primeira ordem, rival glorioso dos portos de Constantinopla e de Napoles, pelos esplendôres de uma paisagem feerica e unica e pela bellissima, se bem que irregular situação de uma grande cidade prejudicada por excrecencias naturaes que urge destruir, mas tão rica de moldura quão irradiante de primôres.

Em Buenos-Aires não ha belleza natural. O porto é vasto e vulgar e a cidade está edificada em immensa planicie mal vestida de vegetação e pantanosa.

Climatologia—Pela situação geographica da povoação, o clima de Buenos-Aires é mais regular e ameno do que o da sua rival.

É no clima, no aspecto geral e no movimento civico que a metropole argentina mais se assimilha ás capitaes da Europa central. O clima do Rio de Janeiro é, em geral, quente e humido, se bem que suavisado, de dia e á noite, por brisas terrestres e maritimas. A não dar-se esta circumstancia e a existencia da pujante vegetação que perennemente abraça a capital brasileira em transportes de ineffavel suavidade, a metropole fluminense seria ainda hoje uma insignificante povoação indigena, a vegetar em constante e desigual lucta com a inclemencia dos elementos. Ao passo que aqui a temperatura rarissimas vezes baixa de 20.° centigrados, no mez de Julho, o mais frio do anno, em Buenos-Aires desce, frequentemente, a 5.° pela mesma epocha. Em Janeiro não é raro marcar o thermometro 32.°, no Rio de janeiro, se bem que a média da temperatura seja de 27.°, o que poucas vezes acontece na sua rival, cuja média de temperatura, no verão, é de 25.°, e no inverno, de 12.°. Cidade aberta e desabrigada, Buenos-Aires é, com frequencia, açoitada pelos pampeiros, furacões que se formam nos pampas. Devido á sua situação geographica e topographica, Rio de Janeiro está naturalmente mais defendida da furia dos vendavaes.

Aspecto Geral—Sob este ponto de vista não é menos profunda a differença entre as duas capitaes, do que em relação á sua topographia e climatologia.

Buenos-Aires é um grandioso centro civico, extraordinariamente movimentado. Quem percorre a povoação de dia ou á noite, nas horas de maior labuta, experimenta a illusão de que está em plena Paris, Hamburgo ou Berlim.

Examinada, todavia, em detalhe, conclúe-se pela monotonia e ausencia da esthetica, n’esses arruados demasiadamente longos e estreitos, que fatigam a vista e a imaginação, a não ser que procuremos rapidamente um derivativo e um refrigerio na avenida e praça de Mayo, ou no parque de Palermo.

Rio de Janeiro, visitada n’estes ultimos tempos, produz o effeito de reconstrucção civica, após medonho cataclismo. Não obstante estarem já concluidas soberbas avenidas e transformados, para melhor, numerosos arruados, na maioria dos bairros continúa, activamente, a substituição da cidade colonial por outra mais digna da grandiosa nacionalidade que representa e dirige.

Exteriormente, o aspecto geral do Rio de janeiro, arrabaldes e suburbios é não só superior, em extensão e belleza, ao de Buenos-Aires, mas tambem ao de quasi todas as metropoles do globo; interiormente, porém, somos forçados a dar a preferencia á capital porteña, pelo seu feitio completo, internacional, europeu e pela assombrosa animação das suas arterias publicas, do seu commercio e de todas as manifestações da actividade humana.

Monumentos—Caracteristicamente monumental, nenhuma das duas capitaes é; em ambas predomina ainda o mestre de obras a fazer casas sem arte, estylo nem gosto. Quando apparece, raramente, o architecto a manifestar-se em frontarias classicas e em detalhes interiores e artisticos trata-se, geralmente, de edificios do Estado ou de grandes empresas do commercio e da industria. Não ha muitos annos que, n’uma e n’outra capital, as casas, em geral, não passavam do segundo pavimento, o que explica-se, em parte, pela abundancia e barateza do terreno edificavel. Hoje, que elle vae escasseando e encarecendo, que as populações são mais numerosas e outras as condições da vida civica, os andares accumulam-se uns sobre os outros, apresentando as arterias publicas mais imponente aspecto. Rio de Janeiro não possúe um Congresso Nacional nem um Palacio de Justiça, monumentos grandiosos em qualquer dos maiores centros da vida terraquea; mas e em compensação, Buenos-Aires não encerra coisa que se pareça com a Candelaria, precioso escrinio monumental e artistico. Os outros santuarios fluminenses são ainda superiores aos da capital argentina, á excepção da Cathedral. S. Bento e S. Francisco da Penitencia reflectem, deslumbrantemente, o ouro e a arte dos tempos coloniaes, em que as energias moraes, physicas e economicas eram consumidas a celebrar a gloria de Deus e a da sua côrte celestial. Quanto a estatuas e a grupos artisticos, as praças e os parques das duas metropoles estão egualmente guarnecidos e ornamentados em numero e qualidade. Temos, pois, que em monumentos religiosos a superioridade pertence ao Rio de janeiro, e em monumentos civis, ou profanos, a Buenos-Aires, não obstante a monumental decoração da Avenida Central, e os edificios publicos e particulares que, na capital fluminense, ostentam, aqui e alli, as suas imponentes frontarias.

População—463:453 homens e 347:990 mulheres, eis os numeros officiaes da população fluminense, em 20 de Setembro de 1906, data do ultimo recenseamento. Total 811:443 habitantes. 16 annos antes, em 1890, os habitantes do Rio de Janeiro eram 522:651, havendo um augmento de 288:792 individuos. Este censo abrange as duas zonas, urbana e suburbana, subdivididas em 25 districtos municipaes. A densidade da população, na zona urbana, é de 3:928 habitantes por kilometro quadrado, e na zona suburbana, apenas de 191.

D’aquelles 811:443 moradores do Rio de Janeiro 600:928 eram brasileiros, e 210:515 estrangeiros; 195:880 solteiros, 214:730 casados e 52:704 viuvos. Dos restantes não se conhecia o estado civil. Sabiam lêr 260:941 homens e 160:131 mulheres; eram analphabetos 202:512 homens e 187:859 mulheres; total 390:371. Existiam 50 homens e 128 mulheres com mais de cem annos de edade.

Hoje, a população do Rio de Janeiro, arrabaldes e suburbios, é computada em 900:000 habitantes.

Em Buenos-Aires, no mesmo periodo de tempo em que foi feito o recenseamento official da população da capital brasileira (setembro de 1906) havia, tambem officialmente recenseados, 1:084:113 habitantes.

Dois annos antes, o censo déra o total de 950:891 almas, das quaes 497:839 homens e 453:052 mulheres; 523:041 argentinas e 427:850 estrangeiras.

Em 31 de Março de 1908, a população de Buenos-Aires era, officialmente, de 1:140:377 moradores, que n’este momento poderão computar-se, sem exaggêro, em 1:200:000. Só as cidades norte-americanas, e não todas, podem competir com a capital argentina em rapidez de augmento de população, o que explica-se, principalmente, pelo movimento immigratorio. Só no mez de Março de 1908 entraram no porto de Buenos-Aires, 309 embarcações com 31:846 passageiros, dos quaes 12:330 eram immigrantes. No anno de 1906 entraram 419 embarcações, transportando 419:024 passageiros, dos quaes 114:889 eram immigrantes.

Pelo recenseamento geral e official de 18 de Setembro de 1904, dos 950:891 habitantes de Buenos-Aires, apenas eram analphabetos 70:825 homens e 86:474 mulheres. 104:925 homens e 97:898 mulheres eram solteiros; 159:310 homens e 149:576 mulheres eram casados, e 12:541 homens e 34:016 mulheres eram viuvos.

Do resto da população ignorava-se o estado civil. Superioridade da população de Buenos-Aires sobre a do Rio de Janeiro—300:000 habitantes, numeros redondos.

Area Civica—A superficie da cidade do Rio de Janeiro, é, actualmente, de 1:100 kilometros quadrados, isto é, maior do que a de New-York, que tem 770 kilometros, a de Paris, com 500 e a de Vienna de Austria, com 178 kilometros quadrados e inferior á área civica de Londres, que é de 1:704 kilometros quadrados. O facto de tamanha area em relação á população, explica-se pela topographia da povoação, cujo desenvolvimento acompanha os accidentes do terreno, extremamente montanhoso, e pelo systema de construcção de habitações, em geral baixas e separadas por espaços ajardinados.

Ha ainda quem dê á capital do Brasil, a superficie total de 1:892 kilometros quadrados, maior do que todo o Districto Federal, que é de 1:394 kilometros quadrados. De Norte a Sul, a extensão da cidade é de 14 kilometros e de 16 de Leste a Oeste. Pelo ultimo recenseamento official, o de 1906, o numero de casas edificadas era de 84:000.

O perimetro civico de Buenos-Aires é de 200 kilometros, e o numero de casas edificadas, em 1904, era de 83:000 (ultimo recenseamento official). A enorme differença da superficie total, em kilometros quadrados, de uma a outra metropole, está em que Buenos-Aires é uma povoação compacta, onde os quarteirões, ou manzanas, succedem-se, ininterruptamente, e Rio de janeiro é uma cidade de bairros distantes e distanciados, divididos entre si e do nucleo central por grandes depressões de terreno e por exuberancias naturaes.

O centro civico da capital do Brasil, é pequenissimo em proporção dos nucleos edificados que com elle communicam e dos numerosos arrabaldes que circumdam os bairros populares.

A extensão de Buenos-Aires é de 18 kilometros de Norte a Sul e de 25 kilometros de Leste a Oeste.

Museus—As preciosidades artisticas encerradas na Escóla Nacional, ou Academia de Bellas Artes, onde avultam quadros de Raphael, Corregio, Dominichino, Jordaens, Rubens, Ribera, Ticiano, Van Dyck, Valasquez, Paulo Veronese, Pedro Americo, Victor Meirelles, Amoedo e outras summidades do pincel; o Museu Nacional, com as suas valiosas e numerosissimas collecções, que occupam o espaço de mais de 3:000 metros quadrados; O Museu Naval e o Pedagogium, avantajam-se aos quatro museus de Buenos-Aires.

Estes são o Museu Nacional de Bellas Artes, o Museu de Historia Natural, o Museu Historico Nacional e o Museu de Armas. Falta á capital do Brasil uma installação que recorde á mocidade e ao publico, em geral, os actos de heroicidade e de civismo praticados pelos seus filhos mais illustres, na curta mas já brilhante trajectoria da existencia nacional; todavia, e em compensação, as collecções de historia natural, mineralogia, ethnographia, pintura, numismatica, e ainda outras dos museus fluminenses, são mais preciosas do que as suas similares dos museus de Buenos-Aires. Nas 17 salas do Museu Nacional de Bellas Artes da capital argentina, ha maior numero de quadros do que nos exiguos e escuros compartimentos da Academia de Bellas Artes, do Rio de janeiro; porém os quadros d’esta ultima são de maior valor artistico e constituem, incontestavelmente, a primeira collecção da America do Sul.

Quanto ao Museu Nacional, esse é tambem, no seu genero, o melhor do continente sul-americano. Brevemente, reunidas todas as collecções naturaes e artisticas no sumptuoso palacio das Bellas Artes, em construcção na Avenida Central, a capital do Brasil possuirá um dos primeiros museus do globo.

Bibliothecas—A Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, possúe 240:000 volumes, e a Bibliotheca Nacional, de Buenos-Aires, 180:000. Além de que a primeira tem 100:000 estampas e gravuras e 25:150 moedas e medalhas.

Em compensação, a argentina possúe imprensa propria, officina de encadernação e estufas de desinfecção, o que a fluminense ainda não contem, mas que certamente não lhe faltarão, e em condições de superioridade, na sua nova installação da Avenida Central que, dentro em pouco, será inaugurada. A Bibliotheca Nacional, brasileira, já estava melhor installada do que a sua similar, argentina; agora, transferida para o novo e magestoso palacio, em conclusão, não terá rival em toda a America do Sul.

Quanto á frequencia média, mensal, a da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro é de 3:500 leitores e a da sua congenere de Buenos-Aires, é de 2:500.

A Bibliotheca Municipal, fluminense, encerra 22:000 volumes, com a media mensal de 1:200 leitores; a Bibliotheca Municipal, ou Rivadavia, de Buenos-Aires, 43:000 livros, com equivalente frequencia.

As outras collecções de livros mais importantes, nas duas capitaes são, em Buenos-Aires, as bibliothecas General Mitre, do jornal La Prensa, das Faculdades de Direito e de Medicina e da Sociedade Typographica Bonaerense; no Rio de Janeiro, a Fluminense, com 90:000 volumes, a Germania; a do Commercio e as especiaes do Exercito e da Marinha, nos respectivos arsenaes.

De associações e particulares, ha numerosas collecções de livros, mais ou menos importantes, em uma e outra capital, equivalendo-se em numero e qualidade.

Se a existencia de livros, na Bibliotheca Nacional, fluminense, é superior em 60:000 volumes aos exemplares da sua congenere do Rio da Prata, o numero de livros que enriquecem a Bibliotheca Municipal de Buenos-Aires, é superior em 11:000 volumes á collecção da Bibliotheca Municipal do Rio de Janeiro.

A primazia d’esta capital, em bibliothecas, é principalmente devida ás respectivas installações.

Logradouros publicos—Principaes parques e jardins de Buenos-Aires, com as competentes areas em metros quadrados:

Parque Tres de Fevereiro, ou de Palermo 3:677:467
Parque Saavedra 426:397
» Patricios 228:795
Jardim Zoologico 179:400
Parque Christovão Colombo 162:000
» Lezama 76:635
Jardim Botanico 80:427
Passeio de Julho 33:085
» Colon 20:216

Ha ainda outros parques e jardins, menos importantes e citados no capitulo respectivo, que completam o algarismo de 7:100:000 metros quadrados, para a indicação da superficie total dos logradouros publicos da capital argentina.

Quanto aos da sua rival, brasileira, eis o quadro:

Jardim Botanico 544:611
Parque da Republica 198:000
» de S. Christovão 180:000
Passeio Publico 28:196
Jardim da Gloria 20:000

Addicionando as superficies de todos os outros jardins e passeios ajardinados do Rio de Janeiro, muito inferiores aos mencionados anteriormente, temos, no maximo, uma area de 1:500:000 metros quadrados de superficie total para todos os logradouros publicos da capital do Brasil. Propositadamente não incluimos, n’este quadro, o Jardim Zoologico e a Floresta da Tijuca, do Rio de Janeiro, ambos descriptos no capitulo respectivo, porque o primeiro é indigno d’esse nome e está alugado a particulares, e a segunda fica muito além da area civica e está inculta, em grande extensão e liga-se, por diversos pontos, a matagaes virgens.

É, sob este ponto de vista, esmagadora a superioridade da capital argentina sobre a brasileira; mas o que Buenos-Aires jámais possuirá é um Jardim Botanico comparavel ao do Rio de Janeiro, mesmo porque este não tem rival em parte alguma do mundo, quanto a belleza e desenvolvimento da vegetação.

N’este particular, todos os logradouros publicos fluminenses são superiores aos bonaerenses, cujo arvoredo é, em geral, rachitico e raro.

Arte e Esthetica—Em manifestações estheticas e artisticas temos, nas duas capitaes, os monumentos publicos e particulares, as preciosidades contidas nos seus museus e a esthetica geral e civica das duas metropoles. Considerado este especialissimo ponto de vista, Buenos-Aires avantaja-se ao Rio de Janeiro, na generalidade, e esta capital áquella nos detalhes. A capital argentina tem um caracter definido do bello, apreciavel e discutivel, mas emfim é uma cidade regularmente edificada em arruados symetricos e que obedecem a um plano preconcebido, se bem que na sua execução haja a notar a pouca amplidão das arterias em relação ao comprimento, o que faria de Buenos-Aires uma cidade triste e monotona, se a não animásse a extraordinaria actividade de 1:200:000 individuos, que parecem multiplicados por quatro. Rio de Janeiro é uma cidade em transformação. Esta obedece tambem a um plano revelador do caracter esthetico; mas a verdade é que muito resta ainda da antiga povoação colonial, mesmo no centro da cidade, e que só muito mais tarde será completamente transformado; ao passo que ha mais de trinta annos que Buenos-Aires é uma capital regularmente edificada, por igual.

Considerados os detalhes não ha parallello possivel. A Avenida de Mayo, com todo o seu movimento parisiense e londrino, não vale a esthetica nem a arte da Avenida Central, ladeada por cem palacios, como a perspectiva do parque de Palermo, não se compara aos esplendores irradiantes do percurso pela Avenida Beira Mar.

Em todas as coisas d’este mundo, porém, a verdade é só uma e a logica implacavel, obrigando-nos a resolver o assumpto pela generalidade. Em valor e formosura de monumentos e de collecções artisticas, já vimos a superioridade da capital argentina quanto ao primeiro ponto. O thesouro artistico, em pintura, da Academia de Bellas Artes, do Rio de Janeiro, compete vantajosamente com todas as collecções de arte que enriquecem os museus e as galerias particulares de Buenos-Aires.

Historia—É egualmente gloriosa para as duas primeiras capitaes sul-americanas, a historia da sua fundação. Gonçalo Coelho e Pedro de Mendoza, militares de alta patente, o 1.º almirante e o 2.º governador militar, ou adelantado, foram os primeiros europeus que pisaram o solo onde, mais tarde, deveriam ser fundadas as soberbas metropoles que nos occupam. O adelantado foi mesmo o fundador da primitiva cidade de Buenos-Aires, cujo nome provem da exclamação do seu subordinado, o capitão Sancho del Campo, ao saltar em terra:—Qué buenos aires son los de este suelo!

A hostilidade dos naturaes e a falta de recursos pelo esquecimento e abandono da metropole, não permittiram que prevalecêsse a obra do governador hespanhol, e cinco annos após a fundação, a localidade era abandonada, para só reviver 39 annos depois, sob o genial impulso de Juan de Garay.

O almirante portuguez continuou a sua derrota para o Sul, limitando-se a baptisar falsamente, com o nome de Rio de Janeiro, a bahia de Guanabara, na supposição de que fôsse a foz de um grande rio. Foram os francezes, vinte e seis annos depois da visita de Gonçalo Coelho, os primeiros europeus que se estabeleceram nas margens guanabarinas, em 1528, e só em 1531 appareceu Christovão Jacques, enviado por D. João III, a desalojal-os. Reincidiram os gaulezes, por varias vezes, até que definitivamente os expulsaram Mem de Sá e seu sobrinho Estacio de Sá, em 20 de Janeiro de 1567. Já então e desde 1565, estava fundada por Estacio de Sá, a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, entre os morros da Babilonia e da Urca, no porto de Martim Affonso. O fundador morreu dos ferimentos recebidos na batalha de 20 de Janeiro, e o seu tio Mem de Sá transferiu a recente povoação para o morro do Castello, mais defensavel dos inimigos.

Ambas as cidades foram baptisadas em sangue e nasceram do espirito de aventura e da ambição do mando, causas do impulsionamento dos extraordinarios feitos que desenvolveram a civilisação e o progresso da humanidade, ao mesmo tempo que davam logar a contendas armadas e ao odio entre povos, sedentos de riquezas, de poderio e de vingança.

No Rio de Janeiro, como em Buenos-Aires, a cruz estabeleceu-se á sombra da espada, e no terreno onde os capitães traçavam perimetros civicos com a ponta das espadas, fincavam os monges as bases da sua grandeza no dominio das consciencias e na exploração de bens materiaes e da ignorancia popular. Foi preciso que os abusos attingissem a meta da paciencia humana, para que se manifestassem as energias dos dois povos, retemperados no trabalho e no soffrimento, aquecidos por esse bello e fecundo sol da America, que só resplende para aureolar a Liberdade e cujo occaso é a imagem da tyrannia, mergulhada nas trevas da maldição universal.

O 25 de Mayo de 1810 e o 12 de Outubro de 1822 fôram, em Buenos-Aires e no Rio de Janeiro, os primeiros passos dados na senda gloriosa dos brilhantes destinos de argentinos e brasileiros. Fundada 15 annos antes da sua rival, só 12 anos depois conseguiu a capital do Brasil emancipar-se do jugo da metropole, como só 79 annos depois de Buenos-Aires e da Republica Argentina, entraram Rio de Janeiro e o Brasil na orbita das capitaes e das nacionalidades que gravitam e expandem-se livremente, illuminadas por instituições democraticas, cuja base firma-se na liberdade, no trabalho, na instrucção, na justiça e no amôr.

Eis o que explica o atraso da capital brasileira em relação á argentina, quanto ao desenvolvimento material e ao caracter de internacionalisação. Essa differença, porém, desapparecerá em poucos annos, a continuarem os patrioticos esforços desenvolvidos desde a proclamação da Republica dos Estados Unidos do Brasil. Em vinte annos a esta parte, Rio de Janeiro tem conquistado quasi tudo quanto lhe fizeram perder os 257 annos de sujeição colonial e os 67 annos de marasmo imperial.

Por seu lado, Buenos-Aires não estacionará na actual expansão, continuando as duas grandiosas capitaes a dar ao mundo o glorioso espectaculo de uma rivalidade que, para honra de ambas e da civilisação universal, jámais ultrapassará os limites contidos na ambição maxima pela paz suprema.

Assistencia Publica—No Rio de Janeiro funccionam os seguintes hospitaes:

Da Santa Casa de Misericordia.—É de administração particular, mas de funccionamento publico e o principal do Rio de Janeiro. Movimento annual de 12:000 enfermos, na média. A mesa da Santa Casa administra e sustenta mais 5 hospitaes e 5 asylos. Possúe 350 prédios, 1:506:000:000 réis em apolices municipaes e 600:000:000 réis em outros papeis.

Nacional de Alienados.—Para os dois sexos, com a média annual de 1:200 enfermos. É federal.

De S. Sebastião.—Para infecciosos. Tem 300 leitos. Estabelecimento modêlo, com grandes laboratorios. Federal.

Militar, ou Central do Exercito.—Em 8 pavilhões com 25 enfermarias. É federal e está por concluir.

Da Ilha das Cobras.—Para marinheiros. Federal.

Dos Lazaros.—Estabelecimento modelar. Federal.

De Barbonos.—Para o Corpo Policial. Federal.

Da Beneficencia Portugueza.—Particular.

Da Ordem Terceira da Penitencia.—Particular.

Da Ordem Terceira do Carmo.—Particular.

Da Ordem Terceira de S. Francisco de Paula.—Particular.

De N. S. das Dôres.—Da Santa Casa.

De N. S. do Soccorro.—Da Santa Casa.

De N. S. da Saúde.—Da Santa Casa.

De S. João Baptista.—Da Santa Casa.

De Crianças.—Da Santa Casa.

Ao todo 16, sendo apenas 7 geraes. Dos 9 restantes, 1 é da colonia portugueza, 3 pertencem a Ordens Terceiras e 5 á administração e propriedade da Santa Casa de Misericordia.

Em Buenos-Aires, ha os seguintes hospitaes:

De Las Mercedes.—Dois hospitaes, separados, um para cada sexo. O feminino é modelar. Existencia, média, de 2:000 mulheres e de 1:800 homens.

De S. Roque.—Municipal, de 1.ª cathegoria. Media de 700 enfermos, entre homens, mulheres e crianças.

Rawson.—Municipal. 500 enfermos, na média, entre homens, mulheres e crianças, mensalmente.

De Clinicas y Maternidad.—Federal. Média, mensal, de 600 enfermos dos dois sexos e crianças.

De Aislamento, ou Muñiz.—Para infecciosos. É o maior hospital de Buenos-Aires. 25 pavilhões, isolados, com 32 enfermarias. Para os 2 sexos e crianças. Municipal.

Militar.—Federal. 268 camas.

Rivadavia.—Só para mulheres. Federal.

De Niños ou de S. Luiz Gonzaga.—Especial para crianças. 500, na média. Federal.

Juan Fernandez.—Municipal. Média, mensal, de 200 doentes.

Enrique Tornú.—Para tuberculosos. Municipal.

Pirovano.—Regional e Municipal.

Theodoro Alvarez.—Regional e Municipal.

Cosme Argerich.—Regional e Municipal.

Ophtalmologico.—Federal.

Italiano. }

Allemão. }

Francez. }

Britannico. } Das respectivas colonias.

Total, 19. Mas não é só, nem principalmente em numero, que a hospitalisação, em Buenos-Aires, é superior á do Rio de Janeiro, e sim na situação topographica e na installação, em geral.

Á excepção do Militar, dos de S. Sebastião e dos Lazaros, os hospitaes, na capital do Brasil, occupam péssimas situações e estão longe de corresponder, a começar pelo principal, ás actuaes exigencias da sciencia, e especialmente da hygiene. Em Buenos-Aires os estabelecimentos hospitalares são quintas de recreio. O systema é de pavilhões isolados por espaços ajardinados e arborisados, como no Rio de Janeiro começa a adoptar-se com a installação do Hospital Militar.

Tendo-os minuciosamente descripto nos capitulos—Assistencia Publica—ao tratar do Rio de Janeiro e de Buenos-Aires, o auctor abstem-se de repetir agora pormenores de installação, synthetizando, todavia, que ainda n’este ponto a prioridade pertence aos hospitaes bonaerenses.

Não obstante o grande numero de casas para abrigar e tratar enfermos, existentes em ambas as capitaes, nota-se ainda a falta de hospitaes, tal e tão rapido augmento é o da população das duas cidades. Accresce a circumstancia de, por falta de hospitalisação no interior dos dois paizes, serem muitos enfermos remettidos para as capitaes, pelas auctoridades das provincias e Estados.

O serviço de assistencia na via publica é feito, no Rio de Janeiro, pela Directoria Geral de Hygiene e Assistencia, municipal, pela Policlinica de Botafogo, na respectiva area, e pela Associação dos Empregados no Commercio do Rio de Janeiro. Essas instituições dispõem de material rodante, aperfeiçoado, e de corpos clinicos para accudirem immediatamente e a qualquer hora do dia ou da noite, aos accidentes de rua. A municipalidade tem postos de soccôrro, estabelecidos em varios pontos da cidade.

Em Buenos-Aires o mesmo serviço é realisado pela Administração Sanitaria e Assistencia Publica, municipal, que dispõem de uma Casa Central e de varias succursaes, uma por cada bairro, para immediatos soccorros publicos na rua, com excellente e rapido material e serviço de ambulancia, e para consultas gratuitas, fornecimento de medicamentos e visitas domiciliarias.

Como no Rio de Janeiro, a Assistencia de Buenos-Aires, manda buscar, aos domicilios, os cadaveres de indigentes e sepulta-os gratuitamente.

Em 1906, a Assistencia Publica, da capital argentina, fez recolher aos hospitaes 14:188 enfermos indigentes, deu 76:826 consultas gratuitas e fez 5:298 visitas a domicilios.

No mesmo anno, os hospitaes tiveram um movimento geral de 43:782 doentes e a Assistencia acudiu a 27:541 accidentes de rua.

A Assistencia Publica do Rio de Janeiro, em 1904, soccorreu 2:422 doentes em domicilio; deu consultas e fez curativos a 11:969 indigentes; acudiu a 36 accidentes na via publica; passou, gratuitamente, 78 attestados de obito e 1:641 guias para os hospitaes, e praticou 4:190 vaccinações e revaccinações.

Beneficencia Particular—A Santa Casa de Misericordia do Rio de Janeiro, que tambem consideramos sob o ponto de vista da assistencia publica, por causa do seu grande hospital geral e dos hospitaes regionaes por ella mantidos e administrados, tambem sustenta o Recolhimento das Orfãs e das Desvalidas de Santa Thereza; o Asylo da Misericordia; o Asylo de S. Cornelio e o Asylo Provisorio do Hospital Geral.

O Asylo dos Invalidos da Patria, é nacional, e o Asylo de S. Francisco d’Assis, de administração municipal.

O Asylo Gonçalves de Araujo, é administrado pela Irmandade de N. S. da Candelaria.

O Dispensario Azevedo Lima, para tuberculosos, é uma das mais uteis instituições da beneficencia particular, fluminense, se bem que subsidiado pelo Governo. Os asylos da Caridade, do Bom Pastor e de Santo Antonio, são mantidos pela Ordem da Immaculada Conceição.

A Policlinica Geral do Rio de Janeiro, é tambem uma instituição de beneficencia particular, assim como a sua derivada, a Policlinica de Botafogo. A Maternidade das Laranjeiras, se bem que subsidiada pelo governo é administrada particularmente.

O Instituto de Protecção e Assistencia á Infancia, sustenta um Dispensario, para crianças pobres. É subvencionado pela municipalidade e pelo governo federal. O Asylo da Velhice Desamparada, é uma grandiosa instituição particular. A Missão Central, gremio protestante, mantem um Dispensario Central.

A Sociedade Amante da Instrucção sustenta um Asylo de Orfãs.

A Associação de S. Vicente de Paula, de senhoras, e a Associação de Senhoras da Egreja Evangelica Brasileira, soccorrem os seus associados, assim como 185 collectividades beneficentes, que funccionam na capital do Brasil.

Em Buenos-Aires as associações beneficentes são divididas em duas categorias, as que prestam auxilio a qualquer habitante e as que só o fazem aos seus associados.

O Patronato da Infancia, protege crianças pobres, enfermas e abandonadas e possúe dois asylos de expostos, cada um para 200 crianças, em edificios proprios; uma colonia agricola: consultorios gratuitos, para crianças e custeia e dirige a Revista de Hygiene Infantil, com a tiragem de 20:000 exemplares, que distribúe gratuitamente, para instrucção das mães e das amas. A Sociedade de S. Francisco de Paula sustenta 4 asylos maternaes, para abrigar crianças pobres de ambos os sexos, de 3 a 10 annos, desde as 7 da manhã ás 4 da tarde, fornecendo-lhes almoço e lições de primeiras lettras.

São especialmente destinados a filhos de operarios. Estas instituições não existem no Rio de Janeiro, que em compensação possúe o grandioso Instituto Benjamim Constant, para cégos, o que faz falta a Buenos-Aires. Esta capital encerra dois institutos de surdos-mudos, um para cada sexo, e a capital brasileira só tem um. Ha 6 orfanatos, em Buenos-Aires, mantidos por outras tantas associações beneficentes.

A Liga Argentina Contra a Tuberculose, tem o triplice caracter nacional, particular e municipal. Com o auxilio do governo e da municipalidade fundou os dispensarios Enrique Tornú (que nada tem com o sanatorio-hospital de egual nome) e Rawson, para distribuição diaria, aos tuberculosos indigentes, de 750 grammas de carne, meio kilo de pão e 1 litro de leite, além de roupas de cama e de corpo, e de escarradores. A Sociedade de Beneficencia da Capital depende hoje do governo mas é composta de senhoras da alta sociedade bonaerense. Dirige nove estabelecimentos de caridade.

Em ambas as capitaes ha institutos Pasteur e Vaccinico—Municipal e, frequentemente, grandiosas festas de caridade, por motivos de catastrophes publicas e para auxilio a associações beneficentes.

No Rio de Janeiro ha mais a Casa de S. José, municipal, para rapazes abandonados; a Escóla Quinze de Novembro, federal e subordinada á chefia de policia, para menores vagabundos; o Instituto Profissional, municipal, para os dois sexos; a Assistencia Judiciaria, destinada a proporcionar defesa e amparo aos criminosos pobres, e a Assistencia Policial, para conducção de enfermos dos domicilios, ou caídos na via publica.

A Irmandade da Misericordia mantem a Roda dos Engeitados e um serviço de consultas gratuitas e fornecimento de medicamentos.

Para concluir, citaremos ainda as duas recentissimas instituições de philantropia fluminense—Soccorros Immediatos ás Victimas de Accidentes no Mar e o Deposito de Menores.

Theatros—No Rio de Janeiro:—Municipal, S. Pedro de Alcantara, Lyrico, Sant’Anna, Recreio Dramatico, Apollo, S. José e Lucinda.

Em Buenos-Aires—Colon, Opera, Polytheama, Odeon, Nacional, Marconi, San Martin, Mayo, Moderno, Comedia, Apollo, Scala, Colyseu Argentino, Royale Theatre, Victoria, Argentino e Rivadavia.

As outras casas de espectaculo, como circos, frontões, cinematographos, cafés cantantes, etc., são muito mais numerosas em Buenos-Aires, do que no Rio de Janeiro, o que explica-se pelo clima e pela differença de população.

O Theatro Municipal, da capital brasileira, não póde competir com o theatro Colon, um dos primeiros do mundo em dimensões, architectura e decorações, não obstante aquelle ser tambem um monumento. Nenhum dos outros theatros do Rio de Janeiro póde comparar-se aos theatros bonaerenses de segunda ordem.

Instrucção Publica—Na Republica Argentina, a instrucção publica é obrigatoria e gratuita.

No caso de indigencia, o Estado não só dispensa o alumno do pagamento do peso (450 réis) annual de matricula, mas tambem fornece-lhe livros e o mais que fôr indispensavel á instrucção.

A instrucção primaria é dirigida pelo Conselho Nacional de Educação, que tem por auxiliares um corpo de inspectores technicos, e os Conselhos Escolares de districto, formados por paes de familia, encarregados da inspecção administrativa das escólas.

O Conselho Nacional de Educação, depende do Ministerio da Instrucção Publica e funcciona na capital.

A instrucção primaria é, em Buenos-Aires, dada officialmente em escólas superiores de meninos, superiores de meninas, elementares de meninos, elementares de meninas, infantis, nocturnas e militares. O seu numero era, em 1908, respectivamente de 19, 27, 38, 59, 55, 40 e 80. Ao todo, 246 escólas primarias officiaes.

Na mesma epocha, a matricula geral era de 83:171 alumnos, com a frequencia média de 68:183.

A instrucção secundaria é fornecida nos seguintes estabelecimentos officiaes:

Collegio Nacional Central 692 alumnos
» » de Oeste 388 »
» » do Sul 337 »
» » do Norte 385 »
» » de Noroeste 287 »
Instituto Livre de Ensino Secundario 186 »
2:275 »

A instrucção normal, commercial e industrial, consta das seguintes instituições officiaes:

Instituto do Professorado Secundario 243 alumnos
Escóla Normal de Professores 139 »
» de Professoras, n.º 1 440 alumnas
» » » » 2 565 »
Escóla Nacional de Commercio para varões (Central) 714 alumnos
Escóla Nacional de Commercio para varões (Sul) 292 »
Escóla Nacional de Commercio, para mulheres 276 alumnas
Escóla Industrial da Nação 36 alumnos
» Profissional de Artes e Officios, n.º 1 (mulheres) 316 alumnas
Escóla Profissional de Artes e Officios, n.º 2 (mulheres) 565 »
Instituto Nacional de Surdas-Mudas 94 »
Instituto Nacional de Surdos-Mudos 92 alumnos
Instituto Nacional de Meninas Cegas 22 alumnas
3:794 »

A instrucção superior está a cargo da Universidade, com as seguintes Faculdades:

Mathematica 490 alumnos
Medicina 2:467 »
Direito 1:038 »
Philosophia e Lettras 77 »
4:072 »

Todos estes algarismos de matricula são officiaes e correspondentes ao anno de 1908.

As escólas para a instrucção primaria e official estão divididas em 14 districtos e, segundo as ultimas estatisticas, eram regidas por 298 professoras ordinarias e 67 especiaes as do sexo feminino, e por 1:579 professores ordinarios e 318 especiaes as do sexo masculino. Total, 2:262 professores de ambos os sexos, para 246 escólas e 83:000 alumnos.

Ha bellos edificios de escólas primarias, grandiosos e artisticos, taes como as escólas Presidente Roca, Sarmiento, Rodriguez Peña, Pellegrini, Rivadavia, Benjamin Zorilla, Saavedra, Irigoyen, que teem cursos diurnos e nocturnos, distribuição gratuita de leite; museus, bibliothecas, jardins, gymnastica, officinas, etc.

No Rio de Janeiro ha tres categorias de escólas primarias, officiaes—primarias, modêlo e elementares, todas municipaes, porque é o municipio que subsidia e dirige a instrucção publica. Ha 11 districtos escolares, urbanos e 4 suburbanos.

Escólas elementares 79, alumnos 5:500
» primarias 193, » 26:891
» modêlo 11, » 4:267
283 36:658

Esta matricula é de 31 de Dezembro de 1907. O total de professores diplomados pelo municipio era, em 1907, de 952, para todas as escólas. O Conselho Superior de Instrucção Publica, municipal, é quem superintende n’estas escólas, bem como nos seguintes institutos:

Escóla Normal 686 alumnas
Instituto Profissional, masculino 300 alumnos
» » feminino 120 alumnas
1:106

O Governo Federal sustenta, no Rio de Janeiro, os seguintes estabelecimentos de instrucção secundaria, technica e superior:

Escóla Nacional de Bellas Artes, Faculdade de Medicina, Escóla Polytechnica, Gymnasio Nacional (internato), Gymnasio Nacional (externato), Instituto Nacional de Musica, Escóla Militar, Collegio Militar, Escóla Naval, Instituto Benjamin Constant, Instituto de Surdos-Mudos, e Escóla Preparatoria e de Tactica.

Dos edificios escolares-municipaes do Rio, os melhores são as escólas Tiradentes, Prudente de Moraes e Rodrigues Alves, mas não possúem installações comparaveis ás suas congéneres da capital argentina.

Temos, portanto, em Buenos-Aires, 246 escolas primarias, officiaes, com a matricula de 83:171 alumnos, e regidas por 2:262 professores; e 23 estabelecimentos de ensino official secundario, normal, commercial, industrial, profissional e superior, com a totalidade de 10:141 alumnos matriculados.

No Rio de Janeiro, ha 283 escólas primarias e elementares com a frequência de 36:658 alumnos e 15 estabelecimentos, 3 municipaes e 12 federaes, de ensino secundario, normal, profissional e superior, de onde se conclúe que havendo, na capital argentina, menos 37 escólas primarias do que na metropole brasileira, aquellas são frequentadas por mais 47:513 alumnos, o que dá a média de 338 para cada escóla contra 126 alumnos para cada escóla do Rio de Janeiro. Os estabelecimentos de ensino secundario e superior são mais numerosos e importantes em Buenos-Aires, que possúe uma universidade completa, com installações independentes e modelares, havendo no Rio de Janeiro apenas uma Faculdade de Medicina, pessimamente installada.

De 811:443 habitantes do Rio de Janeiro, em 20 de Setembro de 1906, 361:501 eram analphabetos, dos quaes 185:873 homens e 175:628 mulheres.

Dos 950:891 habitantes de Buenos-Aires, em 18 de Setembro de 1904, apenas 157:299 eram analphabetos, dos quaes 70:825 homens e 86:474 mulheres.

Salubridade e Hygiene—A cidade do Rio de Janeiro está hoje abundantemente fornecida de agua, para o que possúe 26 reservatorios, ou depositos. Ha o fornecimento regular de 210 milhões de litros por cada 24 horas. O abastecimento de aguas está a cargo da Inspectoria Geral de Obras Publicas, subordinada ao Ministerio da Industria e Viação.

Buenos-Aires é abastecida por tres systemas, independentes, de aguas correntes, captadas no rio da Prata, e conduzidas por cinco cannos de ferro ao grande e monumental deposito distribuidor, o palacio das Aguas Correntes, que encerra 12 immensos tanques de ferro, de onde partem os cannos geraes e distribuidores de agua por toda a cidade.

Ha 105:056 metros de canalisação geral, de ferro fundido, e 880:929 metros de canalisação de distribuição.

O serviço de limpeza ao sub-sólo, isto é, de captação e conducção, para o mar, de detrictos e aguas servidas é feito por um systema complicado e interessante de cloacas domiciliarias, internas e externas, collectoras, interceptoras e cloaca maxima. A area de serviço de cloacas abrange a superficie de 2:557 hectares. A extensão da canalisação total, relacionada com a rêde geral de cloacas, é de 600 kilometros. O serviço de limpeza publica, á superficie, municipal, como o anterior, está a cargo de um administrador geral, que tem sob as suas ordens 1:700 individuos. O orçamento de limpeza é, annualmente, de cêrca de 3 milhões de pesos. O processo divide-se em tres—rega, varredura e lavagem das ruas—apanha de lixo e queima de immundicies e de animaes. Ha 535 vehiculos e 2:000 cavallos empregados n’este serviço.

A Inspecção Technica de Hygiene, municipal, e o Departamento Nacional de Hygiene, federal, superintendem na salubridade e hygiene de Buenos-Aires. A 2.ª trata de toda a Republica, a 1.ª só da capital e depende da Administração Sanitaria e Assistencia Publica, tambem municipal. Investiga tudo quanto seja prejudicial á saude publica, inspecciona o estado sanitario do municipio, a propagação das molestias, vigia o cumprimento das posturas municipaes e os estabelecimentos prejudiciaes á saúde publica.

O serviço divide-se em 3 secções—a Inspecção, que comprehende a hygiene pessoal e veterinaria—a Desinfecção, praticada em domicilio ou nas estações officiaes, e a Prophylaxia, ou vaccinação. Ha duas grandes estufas geraes para desinfecção. Logo que ha denuncia de um fóco de infecção, o inspector sanitario da secção respectiva vae, pessoalmente, verifical-o, fazendo remover os infectados para a Casa de Isolamento, e manda proceder á desinfecção do domicilio, segundo a gravidade do caso. Os objectos portateis e pequenos são levados ás estufas geraes e o mobiliario é desinfectado em casa.

Ha um corpo de inspectores para impedir a venda de carnes deterioradas, e agentes fiscaes encarregados de denunciar e comprovar a prostituição clandestina e a existencia de casas onde se prostituem mulheres não inscriptas.

A vaccina é obrigatoria no primeiro anno do nascimento, ou installação, e de 10 em 10 annos. Os vaccinadores são medicos e praticantes, sob a direcção de um chefe. O Registro Civil remette uma lista dos recem-nascidos á Casa Central que intima os parentes. Ha um corpo de medicos para as visitas bi-semanaes aos prostibulos. O Laboratorio Bacteriologico, examinando chimicamente os productos organicos, remettidos dos consultorios medicos, seccionaes, e a qualidade das provisões destinadas aos hospitaes, presta relevantes serviços á salubridade e hygiene de Buenos-Aires.

Em 1906, dos 1:084:113 habitantes de Buenos-Aires, falleceram 17:916, na proporção de 16,52 por 1:000. D’esses, 1:662 nasceram mortos. 10:462 eram homens e 7:454 mulheres. No mesmo anno nasceram 36:009 pessôas, sendo 18:362 varões e 17:647 femeas. Nascimentos legitimos, 31:062, illegitimos, 4:947.

No Rio de Janeiro, no mesmo anno, morreram 13:957 dos 811:443 habitantes, ou sejam 17 por 1:000. A mortalidade infantil foi na proporção de 150 por mil adultos.

A assistencia publica, no Rio de janeiro, está a cargo da Directoria Geral de Hygiene, municipal, que tem postos medicos installados nas agencias da Prefeitura.

O serviço é feito, pouco mais ou menos, como em Buenos-Aires, se bem que mais embaraçado por attrictos entre as auctoridades federaes e municipaes. Devido a essa circumstancia e ao facto da hospitalisação, na capital argentina, ser mais aperfeiçoada e completa do que no Rio de Janeiro; á amenidade do clima, ao abundante material e numeroso pessoal para a limpeza publica e ao aperfeiçoado systema de esgotos e de abastecimento d’aguas, a proporção da mortalidade, em relação á população, é menor em Buenos-Aires do que no Rio de Janeiro, e as ruas da primeira capital são, geralmente, mais limpas do que as da segunda, não obstante o assombroso movimento d’aquellas.

Commercio e Industria—Pelo recenseamento official, de 1906, havia, no Rio de Janeiro, 22:000 estabelecimentos commerciaes, em todos os generos, e 7:000 vendedores ambulantes. O maior numero de lojas era de mercearia. As fabricas, de todas as industrias, eram 250, avultando, pela quantidade, as de calçado. No mesmo anno, o commercio exterior do Brasil ascendeu á cifra de 400 mil contos, tres quartas partes pertencendo á actividade dos portos do Rio de Janeiro e de Santos. O movimento annual do porto do Rio é, na média, de 600 embarcações á véla, e de 2:400 a vapor, entradas e saídas, representando 3 milhões de toneladas.

A média da renda mensal da Alfandega do Rio de Janeiro, é de seis mil e quinhentos contos de réis e o de volumes transitados pelos seus armazens é, annualmente, de tres milhões e quinhentos mil.

A estatistica official de 1904, a ultima existente, dá 17:985 estabelecimentos commerciaes á cidade de Buenos-Aires, sendo 9:358 de generos alimenticios. O valor d’este commercio era representado por 520:706:300 pesos. O resumo das transacções effectuadas na Bolsa de Commercio da capital argentina, em 1907, foi de 90:712:47 pesos, a dinheiro, e de 5:247:513 pesos, a praso.

O movimento de entrada e saída de embarcações, no porto de Buenos-Aires, em 1906, foi de 29:178, com 13:335:737 toneladas.

A Alfandega rendeu, no mesmo periodo, 54:266:699 pesos, ou sejam cêrca de 80 mil contos em moeda brasileira, notando-se que as mercadorias exportadas, apenas pagam, na Republica Argentina, o imposto do sêllo. Só este imposto rendeu, n’aquelle anuo, para as mercadorias exportadas pelo porto de Buenos-Aires, 140:470 pesos. N’esta capital e seus suburbios trabalhavam, em 1904, 8:877 estabelecimentos fabris, que produziram, n’esse anno, 183 e meio milhões de pesos, em mercadorias, impulsionados pela força de 19:858 cavallos e com o capital de 60 milhões de pesos. Essas fabricas empregavam 68:512 operarios de ambos os sexos.