Conclúe-se que não obstante haver menor numero de casas de negocio em Buenos-Aires, o commercio é aqui mais importante do que no Rio de Janeiro, sendo maior o movimento do porto e o rendimento da Alfandega. Quanto á industria, é enorme a superioridade da capital argentina.
Intellectualidade—Sob este ponto de vista nós reivindicamos a prioridade para os brasileiros, em geral, e especialmente para os fluminenses. Não que os argentinos, e d’elles os bonaerenses, não sejam, em grande numero, illustrados, intelligentes e talentosos; porém a sua actividade intellectual perde-se, um pouco, no assombroso movimento da sua grandiosa capital. Aqui a vida intensa de trabalho e de prazer prejudica as manifestações subtis do espirito como as sublimes e empolgantes producções do cerebro. As condições climatericas tambem influem, e consideravelmente, na expansão intellectual dos cariocas, mais intensiva e brilhante, se bem que, em geral, o espirito dos fluminenses não seja mais cultivado do que o dos seus visinhos.
Não está nas proporções d’esta resenha synthetica balancear o movimento litterario e scientifico de uma e outra capital, nem encontramos estatisticas publicadas a esse respeito; mas não é difficil, acompanhando a vitalidade intellectual das duas metropoles, e attendendo á differença de população, verificar que no Rio de Janeiro produz-se mais e melhor em prosa e verso. E visto que da imprensa nos occupamos em capítulos especiaes, a ella particularmente nos referimos aqui.
Nenhum dos jornaes do Rio de Janeiro possúe installações comparaveis ás de La Prensa, de Buenos-Aires; mas a verdade é que, sob o ponto de vista intellectual, que é o que nos occupa, o Jornal do Commercio, O Paiz, o Jornal do Brasil, a Gazeta de Noticias, e ainda outros orgãos da imprensa fluminense, que estão magnificamente installados em palacios proprios são, pelo menos, tão bem redigidos como os seus numerosos e brilhantes collegas do jornalismo bonaerense. Não repetiremos a citação de nomes mas curvamo-nos, reverentes, perante a pleiade de homens de lettras, que no Rio de Janeiro sublima a instituição da imprensa e a intellectualidade brasileira aos páramos onde gravitam as mais refulgentes constellações do pensamento humano.
Municipalismo—A instituição municipal foi transplantada, das metropoles, para as colonias sul-americanas. A principio, o Ajuntamiento, ou Cabildo, e o Senado da Camara, tivéram grande importancia e até decidida preponderancia politica e administrativa, como se viu em Buenos-Aires, com a revolução de Mayo, que occasionou a independencia nacional e em varios periodos da historia fluminense. Por vezes, porém, o poder central, em um e outro paiz, absorveu as attribuições dos municipios, indo até ao ponto de supprimir, por completo, as administrações municipaes.
Actualmente, em Buenos-Aires, a municipalidade é, como no Rio de Janeiro, dividida em poder deliberativo e executivo, mas tanto a collectividade que representa o primeiro, e que é composta de 22 cidadãos, com o titulo de Commissão Deliberante, como o Intendente Municipal, que tem a seu cargo o Departamento Executivo, são de nomeação do Presidente da Republica. Não existe, portanto, em Buenos-Aires, o municipalismo electivo, instituição popular que é uma garantia das liberdades publicas e dos direitos individuaes.
No Rio de janeiro, ha o Conselho Deliberativo, que é o poder legislativo municipal, de eleição popular e composto de dez membros. O poder executivo municipal é exercido pelo Prefeito, nomeado por decreto do Presidente da Republica. O Prefeito governa a cidade de accôrdo com as leis votadas pelo Conselho Deliberativo, sobre o qual o poder central não exerce tutela alguma.
Quanto á divisão dos serviços administrativos, é feita, no Rio de Janeiro, por 25 districtos, representados por agentes e pessoal subalterno, e em Buenos-Aires por 23 repartições do Departamento Executivo e por 3 secções municipaes de suburbios.
O orçamento municipal bonaerense, para 1908, foi de 27:445:405 pesos, receita, e 23:669:143 pesos, despesa.
A receita da municipalidade do Rio de janeiro, foi orçada no mesmo anno em 26:427:215$000.
Quanto á despesa, nem é conhecida ainda a dos ultimos annos, em consequencia das obras extraordinarias com a transformação da cidade, colossal tarefa que é o maior titulo de gloria da municipalidade fluminense e do ex-prefeito Pereira Passos.
Viação Urbana—O Districto Federal é servido pelas seguintes linhas ferreas, que o atravessam em direcção aos Estados do Rio de Janeiro, S. Paulo e Minas Geraes:
E. F. Central do Brasil, a principal de toda a Republica, com um movimento de passageiros, só no 1.º trimestre de 1908 e na area suburbana da capital, de 5:011:359.
Leopoldina Railway Company, que parte da estação suburbana de S. Francisco Xavier, atravessa a zona federal de Irajá, e vae a Petropolis.
E. F. do Rio do Ouro, que partindo da Ponta do Cajú termina no rio S. Pedro, serra do Tinguá, depois de um percurso de 60 kilometros.
Dentro do perimetro da cidade do Rio de Janeiro, são as seguintes as empresas de viação:
Companhia Ferro Carril do Jardim Botanico, a mais poderosa empresa de viação urbana fluminense, 79:000 metros de linhas, bitola de 1ᵐ,44, transporte annual, na média, de 22 milhões de passageiros; tracção electrica.
Companhia Ferro Carril Villa Izabel.—Percurso total de 49:000 metros, bitola de 1ᵐ,44, tracção electrica.
Companhia Ferro Carril de S. Christovão.—65:435 metros de rede geral, bitola de 1ᵐ,35, tracção animal.
Companhia Carris Urbanos.—70 kilometros de extensão geral de linhas, bitola de 0ᵐ,80, tracção animal, transporte annual, na média, de 34 milhões de passageiros.
Companhia Ferro Carril Carioca.—Tracção electrica, extensão total de 12 kilometros, transporte médio, annual, de 1:200:000 passageiros.
Estrada de Ferro do Corcovado.—3:790 metros de extensão e tracção a vapor.
Ha tambem as linhas maritimas da bahia, em numero de 4, que communicam a cidade com a visinha Nictheroy, Mauá-Petropolis, Maruhy-Friburgo e Piedade-Theresopolis.
As dez companhias de tramways electricos de Buenos-Aires (ha tambem duas, como no Rio de Janeiro, que ainda empregam a tracção animal) transportaram, em 1907, 200:700:247 passageiros, cuja importancia de passagens foi de 20:436:090 pesos.
Estas empresas teem o percurso total de 358 kilometros, no perimetro civico da capital argentina. São cinco as linhas ferreas que communicam Buenos-Aires com o interior da Republica, e que só para a area suburbana da capital, transportaram, em 1907, 15:135:230 passageiros e 3:726:714 toneladas de mercadorias.
Resumindo:
Rio de Janeiro—5 companhias de viação urbana, a tracção electrica e animal, com o percurso de 276 kilometros e o transporte annual, médio, de 92:000:000 de passageiros.
Buenos-Aires—10 companhias de viação urbana, a tracção electrica e animal, com o percurso total de 358 kilometros e o transporte annual, médio, de 200:700:247 passageiros.
Movimento civico—Sob este ponto de vista Rio de Janeiro não póde competir com Buenos-Aires, não só pela differença de população, mas tambem, e principalmente, pela importancia commercial e industrial da metropole argentina, pelo seu feitio internacional e caracteristicamente europeu, e emfim, pela intensa vida que agita, povôa e anima quasi todas as arterias publicas da capital platense e que no Rio de Janeiro, só se nota nos bairros commerciaes.
Movimento associativo—Pelo recenseamento official de 1904, era o seguinte o movimento associativo de Buenos-Aires:
No Rio de Janeiro, funccionavam na mesma epocha 181 associações beneficentes, contra 120 em Buenos-Aires, em um total de 300 collectividades sociaes, contra 293 bonaerenses. A superioridade da capital fluminense ainda é maior sob o ponto de vista associativo, considerando-se a differença de população, 900:000 habitantes para 1:200:000.
Alimentação Publica—No matadouro de Santa Cruz, que abastece a capital do Brasil, houve o seguinte movimento em Abril, Maio e Junho de 1908:
| Bois abatidos | 29:441 |
| » regeitados | 219 |
| » » em pé | 24 |
| Vitellas abatidas | 634 |
| » regeitadas | 1½ |
| Carneiros abatidos | 4:300 |
| » regeitados | 20 |
| » » em pé | 11 |
| Suinos abatidos | 5:106 |
| » regeitados | 183¼ |
| » » em pé | 2 |
| 39:941¾ |
Foram mais receitados 1:292 figados, 103 linguas e 2:522 fressuras.
Tomando-se por base esta estatistica official, verifica-se que o consumo animal de animaes é, no Rio de Janeiro, de cêrca de 160:000.
No matadouro de Liniers, em Buenos-Aires, a média annual da matança é de 382:000 bois, 108:000 vitellos, 585:000 carneiros, e 55:000 porcos, numeros de assombrosa prioridade, mesmo considerando-se os 300:000 habitantes que a capital argentina tem a maior que a brasileira. As condições climatericas e o bem estar da população contribúem, consideravelmente, para explicar, até certo ponto, a enorme diferença na alimentação publica das duas capitães, differença que se nota, proporcionalmente, em todos os generos de consumo.
Importa-nos, todavia, saber, não só a quantidade, mas tambem a qualidade dos generos consumidos em uma e outra capital, isto é, a fórma porque é feita a inspecção e fiscalisação dos mesmos pelas auctoridades sanitarias. Tanto o matadouro de Santa Cruz, como o de Liniers, são municipaes, dependem da Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica, sendo em ambos o serviço de inspecção feito por veterenarios, que examinam os animaes antes do sacrificio, condemnando os infeccionados, e procedendo egualmente para com a carne dos animaes mortos, que verificam deteriorada.
Ao passo que no gabinete de Microscopia, annexo ao matadouro de Santa Cruz, apenas foram feitos, em 1908, 800 exames de fiscalisação, o Laboratório Municipal de Buenos-Aires, já em 1906 effectuou 65:774 exames, só em generos destinados á alimentação da cidade.
Natureza—É este o ponto final do parallelo e a apotheose da capital do Brasil. Possivel e até provavel é que o auctor tenha errado na apreciação e conclusão de varios dos assumptos desenvolvidos no livro, e em especial n’este capitulo; a sua consciencia, porém, tranquillisa-o quanto a ter agido com imparcialidade e justiça.
Mas se teve de capitular perante a evidencia de provas que affirmam a prioridade da metropole argentina, o seu orgulho nativo é compensado pela natural sublimidade do paraiso fluminense, que paira acima de todas as capitães do universo, como entre as nuvens gravita o condôr dos Andes, a disputar aos mundos da immensidade um atomo d’esse espaço, infinito como a ideia de Deus.
E assim como aquelle gigante alado fende o ether e mantem-se na atmosphera, impulsionado e equilibrado pelas forças que haure da excelsa natureza, o Brasil e a sua esplendorosa capital ascendem á brilhante orbita das constellações internacionaes, ao halito pujante do trabalho e do patriotismo, aureolados pela gloria irradiante da paz, da civilisação e do amôr.
Concluindo:
INDICE GERAL
| Pag. | |
| Razão de Ser | 5 |
| Rio de Janeiro | |
| Domingo de Ramos | 13 |
| Situação e Aspecto Geral | 19 |
| Historia | 27 |
| Phases Fluminenses | 39 |
| Monumentos | 45 |
| Egrejas | 61 |
| Museus | 69 |
| Bibliothecas | 77 |
| Jardins e Parques | 81 |
| Theatros | 91 |
| Cemiterios | 95 |
| Curiosidades | 99 |
| Estabelecimentos Scientificos | 117 |
| Da Carioca ao Somaré | 125 |
| Assistencia Publica | 129 |
| Beneficencia Particular | 145 |
| Batalha de Confetti | 193 |
| Instrucção Publica | 197 |
| Corcovado | 205 |
| Governo Municipal | 209 |
| Copacabana, Leme e Ipanema | 213 |
| Salubridade | 217 |
| Viação Urbana | 223 |
| Imprensa | 229 |
| Commercio o Industria | 233 |
| Porto do Rio de Janeiro | 237 |
| Recenseamento | 241 |
| Segurança Publica | 249 |
| Nictheroy | 257 |
| Petropolis | 259 |
| Apreciação Geral | 263 |
| Montevideu | |
| Situação e Aspecto Geral | 273 |
| Historia | 279 |
| Assistencia Publica | 283 |
| Egrejas | 291 |
| Beneficencia Particular | 295 |
| Edificios Publicos | 297 |
| Universidade | 301 |
| Museus | 305 |
| Bibliothecas | 309 |
| Commercio | 311 |
| Parques | 315 |
| Theatros | 319 |
| Curiosidades | 321 |
| Apreciação | 327 |
| Buenos-Aires | |
| Situação e Aspecto Geral | 335 |
| Historia | 343 |
| Monumentos | 357 |
| Assistencia Publica | 371 |
| Beneficencia Particular | 397 |
| Salubridade e Hygiene | 403 |
| Instrucção Publica | 419 |
| Museus | 441 |
| Bibliothecas | 447 |
| Arte | 451 |
| Egrejas | 453 |
| Commercio e Industria | 457 |
| Jardins e Parques | 475 |
| Theatros | 481 |
| Curiosidades | 487 |
| Alimentação Publica | 495 |
| Municipalidade | 499 |
| Imprensa | 521 |
| Viação Urbana | 527 |
| Movimento Associativo | 531 |
| Parallelo | 535 |
Obras do mesmo auctor
| Preceitos e Devaneios—1 vol. broch. | 400 | réis |
| Chronica Planetaria (Viagem á volta do mundo) Itinerario:—Portugal, Hespanha, França, Italia, Austria, Estados Balkanicos, Turquia, Grecia, Egypto, India, China, Japão, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Ilha da Madeira e Lisbôa. Descripção completa dos Logares Santos. 1 volume brochado 600 réis. 1 volume encadernado | 800 | » |
| Aspectos Europeus—Descripção das seguintes cidades: Madrid, Toledo, Saragoça, San Sebastian, Biarritz, Bordeaux, Paris, Lyon, Turim, Bologna, Florença, Roma, Napoles, Pisa, Milão, Lucerne, Berne, Genebra, Zurich, Constança, Munich, Dresde, Berlim, Hamburgo, Bremen, Salzburgo, Vienna, Varsovia, Moscow, S. Petersburgo, Stockolmo, Upsal, Gefle, Ostersund, Drontheim, Christiania, Goteborg, Copenhague, Odense, Amsterdam, Haya, Rotterdam, Anvers, Bruxellas, Gand, Liége e Namur. 1 volume brochado, 600 réis. 1 volume encadernado | 800 | » |
| Cidades de Portugal—Descripção minuciosa das 29 cidades do continente de Portugal. Obra illustrada com 28 brazões de armas. 1 volume brochado, 500 réis. 1 volume encadernado | 700 | » |
| Suprema Dôr—Um volume brochado, 400 réis. 1 volume encadernado | 500 | » |