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Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Chapter 14: VI CELIBATO
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About This Book

The narrative opens in a rural noble estate where three young women converse on a stormy evening; the plot centers on a high-born heroine whose beauty, wealth, and uncommon education set her apart from her companions, two almost indistinguishable maidens. Through their relationships and household life the story examines ideas of honor, social vanity, and female agency, while interweaving citations of historical events with fictionalized episodes drawn from the author's memory. The prose alternates descriptive scenes, moral reflection, and dramatized incidents tied to wider civil disturbance, presenting character sketches and social portraiture rather than a single linear adventure.

IV
MÃE E MADRE

«Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em v. m. padrões de espirituaes exemplos.»

(Fr. Ant. das Chagas--Cartas espirit.)

Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa, acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite, defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos rendimentos.

O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de ferro.

Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras, o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e, reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora. Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a horas bem importunas, implorar de V. Exc.a a minha tranquilidade domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de minha esposa e prima D. Leocadia.

Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.a sabe, a maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!... Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia. Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas, que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade propria dos annos ainda verdes.

Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente, que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má novidade o pozéra assim.

--Está muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo matrimonio.

Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos filhos do mais santo hymeneu.

--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver, podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido, disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem adoptava por seu filho.

Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal affecto.

Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira interpretação.

O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos, por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da extincção d'aquelle convento.

É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.

Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes de João Vidal, o escudeiro.

V
UM LEVITA

«Apostolo é o pae que se afadiga
Só para que descance o filho amado;
Apostolo é a rocha em que se abriga
Ave agoureira e pobre desgraçado;
Apostolo é a lagrima que amiga
Cae pela face em peito amargurado;
E esse monstro do Céu que solitario
Correu o mundo á busca do Calvario.»

(J. de Deus--Flor. do Campo.)

Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.

Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas, tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, quando mais farto era o anno, com o avanço de seu alvitre, segundo o uso e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro para os que o queriam e podiam dar.

É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem desastres, para os que o percorrem violentados.

Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um estudante.

É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo a séde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de impurezas.

Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra havida por mais terna: é assim o coração humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella, como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada, transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada. Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario, em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga á snr.a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e que lhe peço a mercê de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a perguntas, disse:

--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá já buscar meu pae?

--Para quê?!

--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a passam meus paes... Já não quero ser... padre!

--Foi elle, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo como diz aquelle seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor, é que rompo o véu do meu coração!...

A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural desfecho d'aquellas relações.

A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.

Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois de scenas assim expansivas, é que nós não ficamos pela continuação da pureza no sentimento.

Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das solidões,--á solidão d'alma!

Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou tambem semi-morta.

Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de Esporões.

Alvaro, era presbytero!

VI
CELIBATO

«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que sabem a sciencia do céu!»

Alex. Herc.--Eurico.

O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.

O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas pesquizas.

--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.

Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:

«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero humano, o esteio da vida e o centro da piedade?

«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...

«Celibato puro!!...

«Para quê, decretar contra a natureza?!...

«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, a Tua existencia no mundo?...

«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»

O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou, depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu discipulo.

Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:

--Então de que mal padece a snr.a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses quebrantos?! Será isso mimo?...

--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... Elle, está cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e titubeou a palavra:--Perdão.

--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a snr.a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a morte, á quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na terra.

Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião da Mesquita.

Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:

«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»

As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.

Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor, pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das lagrimas, e disse-lhe:

--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer? Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa terra, sim?

--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da lembrança...

Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com agrado, mais aquella visita.

--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo, depois de ter saudado a todos.

--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.

--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem, muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...

--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha, fez com que se beijassem os dous innocentes......

Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre, que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu amigo.

--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus cuidados?

--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...

--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em vez do perdão?!

--E as leis da egreja?!...

--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções da sua vida?...

--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade!

VII
RAPTOS

«Que póde valer á hebrêa
Sentir n'alma chamma infinda?
como a linda Ester ser linda,
e amada como Rachel?
Se o coração da judia
se entre-abre do amor aos lumes,
não lhe dá tempo aos perfumes
o seu destino cruel.»

(T. Ribeiro--Sons que passam).

«O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para espantos nem sequer para censuras.»

(Camillo C. B.--O Condemnado.)

Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos, teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto, que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--emboscada palaciana--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.

A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro de mil oito centos quarenta e seis, uma junta provisoria do governo supremo do reino, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa, como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral.

Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na luta.

Sebastião da Mesquita foi convidado por um general estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico. Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um autographo do principe proscripto,2 que fez abalo na rigidez do velho fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse a esposa na vigilancia do seu casal.

Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte da Liberdade.3

Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da brigada.

No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:

--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia em mim!...

--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.a D. Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.

--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da snr.a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...

--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora, e pôr os criados de atalaia...

--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim, ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as sinto possuidas...

E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.

Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem dado.

Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso, indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte de que o palacio estava cercado de tropa.

Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem, quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades alheias ao sexo chamado fragil.

Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de resistir aos intentos de seus perseguidores.

Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar, houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade.

As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.

A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas, disse-lhes D. Isabel com voz severa:

--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...

Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D. Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente tranquillidade aos que a cercavam:

«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre. Reparae que eu quero caminhar para a residencia do snr. reitor, alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...»

Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o incendio provocara.

A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.

Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados, a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.

Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto, brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor, que D. Maria lhe legára.

2 Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D. Miguel de Bragança.

3 É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os tyrannos estremecem e gelam de terror.

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«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços. Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino, em 8 de Dezembro de 1846.»

(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)