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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 10: V
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

—Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.

—É a Biblia, os Lusiadas e o Paulo e Virginia. Já sei. É o costume—disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, apreciações criticas, cotejos e citações, que saíam, em tom categorico, da palavrosa bôca do vizinho.

—Não ha tal—respondeu este, porém, tomando-lhe o braço e levantando-se igualmente.—Esses são a formula dos tres grandes sentimentos da alma—o da religião, da patria e do amor;—bem o sei; mas confesso-lhe, o que, por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das paixões, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais. A creação de Pantagruel e Gargantua é famosa!

—Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?—exclamou, voltando-se, um dilettante, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle momento..—Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisação! Que sentimento!

—Ahi tornas tu com a Ponti—disse um velho rapaz, pronunciado adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal das companhias escripturadas.—És capaz de sustentar que vae bem na Norma. Se ouvissem a Rossi-Cassi…

—A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! Não sacudas reputações cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.

—Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um assento de baptismo feito pelo menos em 1800.

—Nego—bradou embespinhado o velho rapaz.

Parce sepultis—disse o padre.

Lascia la donna in pace—trauteou outro dilettante.

Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no Ei fu! do Cinque maggio… etc., etc., etc…

Carlos foi retido agora pela mão de um rapaz, junto do qual tinham chegado.

—Aqui está quem nos póde informar—dizia o que o segurava.—Ó Carlos, dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?

—Não—respondeu Carlos, distrahido.

—Conheces por força. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que comprou a quinta do Pedroso.

—E então?

—Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?

Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.

—Não tem que ver; o Viegas não lhe póde dar mais de nove contos.

—Triplique, e não lhe faz favor nenhum—disse, do alto da mesa, o padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre os mais disparatados assumptos.

—Ora ahi tens!—disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de valia provada.

O padre limpava tranquillamente os beiços e enchia um calix de malvasia.

—Então diz o padre Manoel que o Viegas…

—O Viegas tem pelo menos…—dizia de lá o padre, elevando o calix entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de completar a phrase, levou-o á bôca e despejou-o de um trago.

Depois continuou:

—Tem pelo menos … pelo menos…

Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:

—Sessenta e sete contos de réis.

—Ora!

Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista, que lhe ía dizendo:

—É a questão do dia—O dinheiro—A litteratura resente-se…

E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de
Ponsard … etc., etc…

—Deixa-te d'isso;—dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios—a Emilia Victorina é outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do barão de Tavares, me encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha, uma mulher distincta, esplendida.

—Foi, foi; já não é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em ti appareciam os primeiros dentes.

—A idade…—dizia outro.

—Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.

—Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter a idade que tem.

—Barbaro! Ó Carlos, que dizes tu?

—Digo que sim—respondeu Carlos, que nem attendera á discussão.

—Está esta creança do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina á Marianna Prazeres.

—E prefiro, repito.

—Não sejas impio. Quem não acha admiravel aquella bonita cabeça da
Marianna?

—E a mão? Aquella mão comprida e delgada, onde as veias se desenham em azul; a verdadeira mão artistica, aristocratica.

—No assumpto «mãos», peço licença para citar a primeira…—das provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva—lembrou um individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.

—Apoiado!—entoaram muitas vozes.

—A proposito da Clementina Rialva—exclamou uma chronica viva de boatos do dia—sabem que o Chico da Lousã, sempre a tira por justiça?

—Devéras?!

—Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.

—Terrivel catastrophe!

—Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae, tem influencia e, feitas as pazes do estylo…

—Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.

—Que influencia tem o Rialva?—perguntou, encolhendo os hombros, um mallogrado aspirante á eleição popular.

—Não. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino…

—E o ministerio deve-lhe serviços.

—Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos serviços eleitoraes do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao Roboredo.

—Como não arranjou? Ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?

—Quem levou lá o Roboredo, foi…

—Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio, mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e que não obteve, abandonou a regeneração…

—Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh que alarve!

—Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que nunca se pôde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que até lhe fazia mal pensar na posição incommoda, em que haviam de viver esses pobres diabos, se existissem…

—E um dia em que elle…

Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.

Todas as attenções e todos os olhares convergiram para alli.

Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido, poucas disposições para expansão igual.

—É impagavel este homem!—dizia um dos que riam.

—Que foi? que foi?—perguntavam os que não faziam parte do grupo, rindo já com anticipação tambem.

O dos ares constrangidos respondeu:

—Não façam caso; são doudos.

—Que foi? digam—insistiam todos na sala.

—É aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.

—Eu disse…—tentou este interromper.

—Silencio!—bradaram muitos a um tempo.

—O Claudio!—continuou um dos que mais ria—ouvindo aqui o Lourenço fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro, observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.

—Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.

A justificação foi suffocada por um côro geral de gargalhadas.

—O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a
Hollanda a uma geral inundação.

—Que terrivel capricho estomacal!

—Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a
Volney!

E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confusão subia de ponto com isto.

Até que emfim uma voz dominou o tumulto.

—Reparem que são onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada solemne nos bailes de mascaras.

Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo o calix:

—Ás nossas conquistas d'esta noite!

—Apoiado!—disseram todos, imitando-o.—Ás nossas conquistas.

E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.

Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.

Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia.

Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas aspirações no tubo do volumoso cachimbo.

—Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho… Por isso vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso… Eu gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um coração para ecco. Almas de sensitiva…

Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho poetico e improvisador do que fallava assim.

Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a plenos pulmões o duetto da Lucia:

O' sole più rapido a sorger t'apresta

O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era muito para produzir ecco nos corações:

  No centro dos circulos
  De nuvens de fumo,
  Um deus me presumo,
  Um deus sobre o altar!
  Nem d'outros thuribulos
  Me apraz tanto o incenso,
  Como o d'este immenso
  Cachimbo exemplar!

  Em divans esplendidos,
  Cruzadas as pernas,
  Fuma, horas eternas,
  O ardente Sultão.
  Subindo-lhe ao cerebro
  O magico aroma,
  Esquece Mafoma,
  Houris e Alcorão.

  Longe, oh! longe o opio,
  Que os sonhos deleita
  Da misera seita
  Dos Theriakis!
  Horror ao narcotico
  Que vem das papoulas!
  E ao que arde em caçoulas,
  No altar do Caciz!

  Que a raça gentilica
  Das zonas ardentes
  Consuma as sementes
  Do arabio café.
  Despejem-se as chavenas
  Da atroz beberagem
  Da côr do selvagem
  Da adusta Guiné.

  E a tal folha exotica,
  Delicias da China,
  Por nossa má sina
  Trazida de lá,
  Servida em familia,
  N'um morno hydro-ínfuso?…
  Anathema ao uso
  Das folhas do chá!

  Nem tu, ó alcoolico
  Humor dos lagares,
  Terás meus cantares,
  Meus hymnos terás.
  Embora das amphoras
  Vasado nas taças,
  Aos outros tu faças
  A lingua loquaz.

  Cerveja britannica,
  De furor espuma!
  De cousa nenhuma
  Me podes servir.
  Quando ouço do lupulo
  Gabarem proezas,
  Ás bôcas inglezas,
  Desato-me a rir.

  Nem venha da camphora
  Prégar maravilhas
  O das cigarrilhas
  Famoso inventor.
  Raspail é scismatico
  E eu sou orthodoxo,
  O seu paradoxo
  Não me ha de elle impôr.

  Meu canto é da America,
  Paiz do tabaco,
  Perante o qual Baccho
  Seu sceptro partiu.
  A Europa, Asia, e Africa
  E a terra hoje toda
  Este heroe da moda
  De fumo cobriu.

  Até na Laponia,
  Da gente pequena,
  Se fuma; e no Sena,
  No Tibre e no Pó,
  No Volga e no Vistula,
  No Tejo e no Douro;
  Que immenso thesouro
  Se deve a Nicot!

  Meus áridos labios
  Mais fumo inda aspirem
  Que os parvos suspirem
  Por beijos, aos mil.

  Não quero outros osculos,
  Não quero outra amante.
  Qual mais doudejante
  Que o fumo subtil?

  Tornadas Vesuvios,
  As bôcas fumegam.
  De nuvens que cegam
  Vomitam montões.
  Fumar! Oh delicias!
  Prazer de Nababo!
  E leve o diabo
  Do mundo as paixões!

—Bravo!—disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a musa do recitador.

O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a dissipar-se-lhe a nuvem.

—Quem compra uma senha?!

—S. João! quem quer?

—Doze vintens, meus amos, doze vintens.

Com estes analogos pregões caiu um bando de negociantes de senhas sobre os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor maneira possivel. Cêdo entravam no salão do theatro, onde já centenares de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas, apertadas, esmagadas quasi, aos encontrões dos mascaras, arrebatados n'um galope vertiginoso.

O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem, com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez a operação, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos fazem;—uma das mais poderosas razões dos nossos actos na vida.

Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diversão fóra dos seus habitos, provavelmente mais pacificos—o que fiz só por a necessidade que tinha de mostrar em acção o caracter do nosso heroe e exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual—concordo em que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem consolam, nem divertem.

IV

UM ANJO FAMILIAR

Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda.

Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer aventura incompleta do baile da vespera?

A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para sonhos e repouso.

O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.

Esta nossa cidade—seja dito para aquellas pessoas, que porventura a conhecem menos—divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por physionomias particulares.

A região oriental, a central e a occidental.

O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brazileiro; o occidental, o inglez.

No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias modernas que revestiu.

O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo—azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi sempre algum capitalista ocioso.

O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o habitat d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto… até de preto!—Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.—Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças de cabellos louros e de babeiros brancos.

Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas, e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em 1855.

É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.
Richard, e sua familia.

O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.

A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado.

Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos, retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.

A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão, ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.

Era n'este pavilhão o quarto de Carlos.

Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo confortable, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.

Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio, tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes.

Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo depois do meio dia.

Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão, circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse constrangimento prevía utilidade.

Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias novas.

Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.

No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.

Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a denunciar-lhe o acordar.

Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía inspeccionar e dirigir os preparativos do lunch de Mr. Richard, cujas horas se aproximavam já.

N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão, encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny.

A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle perguntou-lhe:

—Como está sua mãe, José?

O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:

—Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.

—Hoje não sabe?!—exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do corredor, que marcava onze horas e meia—Não sabe, e é perto de meio dia!

—Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde…

—Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!… Sabe lá a falta que lhe estará fazendo?

—Mas, se…

—Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.

—Então muito agradecido, minha senhora,—disse o rapaz, sensibilisado com a bondade da sua joven ama.

Jenny continuou passeiando.

Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado.

O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo.

—Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?—perguntou ella a um criado, com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.

—Varreram, sim, minha senhora—respondeu este.

—Repare—acrescentou Jenny.—A fallar verdade são bem pouco cuidadosos.
Veja esse corrimão cheio de pó.

—É que se tornou a sujar. O vento…

—Seria; mas não tira que se limpe outra vez.

—De certo; eu vou já.

—E olhe—continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o jardim—passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços e dê lustro aos metaes dos fechos.

—Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim; depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso—lembrou o criado, como todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos outros do que em cumprir as suas.

Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala de jantar.

Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha, brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza.

Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.

—Pedro—chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira, destinada a Mr. Richard.

O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.

—Então onde pôz a mostarda?

—Ai! é verdade.

O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da cozinha britannica.

—Veja como dobrou esse guardanapo.

O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada.

—Aquelle pão não é o que o pae quer para os lunchs. Bem sabe.

—Tem razão, minha senhora.

O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.

—Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não; chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou. Ficou peior agora. Assim. Ponha o Times ahi ao lado. Está bom. Póde ir.

Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo, attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e voltou de novo ao corredor.

Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos baixos e maneiras enleiadas.

—Que tem, Luiza?—perguntou-lhe Jenny.

—Venho dizer adeus a miss Jenny, porque me vou hoje embora.

—Como vae embora! Quem a mandou?

—Ninguem, mas…

—Não está bem?

—Se estou, mas…

—Então?

—A miss Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega? Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á enfermeira?… Quem pensa n'isso? Assim vou eu… e, quando ella se achar melhor, se a miss Jenny me quizer outra vez…

—A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora.

—Mas…

—Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi.

—Ó minha senhora…

—Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.

—Seja por amor de Deus…

—Olhe, Luiza—apressou-se a interrompel-a Jenny—vá ver se me aprompta aquelles punhos que eu lhe disse, vá.

—Vou já fazel-o, minha querida senhora—disse a rapariga, a quem palpitava o coração alvoroçado de contentamento.

N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza. Vinham do andar superior aquelles gritos.

O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a sorrir:

—É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!

—Pobre Kate!—murmurou Jenny, suspirando—e subiu com ligeireza as escadas, que conduziam ao mirante.

Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora, paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.

—Cães!—bradava ella agora, n'aquelle estranho imbroglio linguistico, impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a seguravam—Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas deixem estar que em vindo Dick… Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me! Dick! Dick!—Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr. Richard.—Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer? Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu… Olha que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios, que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer? Larguem-me!

E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no rosto encarquilhado e contrahido.

N'isto entrou Jenny no quarto.

A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao alcance da mão.

Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e aproximou-se d'elle.

—Cuidado, miss Jenny!—disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára.

—Cautela, menina!—repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos arredores da Maia—Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões.

Jenny não as attendeu.

Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos, delicadas e debeis.

A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador.

—Bons dias, Kate—disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto, risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.

Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.

—Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?

A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não desviava de Jenny os olhos espantados.

—Não me conheces, ama?—continuou esta, em tom mais affectuoso—Kate, então? Já nem queres conhecer a Jenny?

O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo, que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão soltou a faca que ainda segurava.

—Eu logo vi que me conhecias—dizia Jenny, afastando-lhe compassivamente os cabellos da fronte enrugada.—E has de estar quieta, não has de?

—Sim, sim—dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.

—Sim, sim, poor thing; sim—repetia muitas vezes, cingindo-a a cada momento mais a si.

—Ai, miss Jenny, miss Jenny!—dizia a despenseira aterrada.

Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a saír.

A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente Mr. Richard Whitestone.

Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:

  Dorme, filho, que eu vigio,
  E emquanto dormes, sorri;
  Que a tua porção de lagrimas
  Eu as chorarei por ti.

Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do caracter do somno final, que não vem longe.

Adormeceu entoando em voz já mal percebida:

  A tua porção de lagrimas…
  Eu as chorarei… por ti…

Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.

No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto entre as mãos e soluçando.

—Que é isso, Manoel?

O velho ergueu-se com sobresalto.

—Ai, menina Jenny, é que… veja.

E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso de porcelana com uma preciosa begonia.

—Como foi isto?—perguntou Jenny.

—O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e tanto cuidado me recommendou! e vae eu… veja a minha desgraça, logo ao descer a escada escorrego… Valha-me Deus, valha!

—Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito…

—Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.

Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para apresentar-se diante de Mr. Richard.

A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa.

—Onde vae, menina?—dizia o jardineiro admirado.

Jenny não lhe respondeu.

O velho seguiu-a.

Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:

—Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque… Ai!

Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á entrada da estufa.

—Oh!—disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.

—Vêem, vêem!—dizia Jenny, fingindo-se consternada—como Deus me castiga a presumpção!

—É verdade—disse Mr. Richard agachado—um vaso tão bonito! Creança!
Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!

—Está vingado, Manoel—continuou Jenny.—Eu a desconfiar de si, e vae…

O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde retiral-a a tempo.

Era meio dia.

—Vamos,—disse Jenny a Mr. Whitestone—perdôe-me a culpa e venha ao seu lunch.

Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando, a sorrir:

—Estouvada! buliçosa!

No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra, que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.

—Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra…

—Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.

—Agora não, que são horas do seu lunch.

Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos preparativos d'esta refeição matinal.

V

UMA MANHÃ DE MR. RICHARD

Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida domestica. Logo pela manhã, depois de uma leitura de Biblia e de uma revista á preciosa collecção de aves e de insectos de Inglaterra, que possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie, e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das bellezas matutinas e a exercer a sua paixão florista, cavando, mondando, semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupação matinal de Mr. Richard, forçoso é confessal-o, não era demasiadamente favoravel ao horto, para com o qual elle tinha aliás as melhores intenções d'este mundo.

Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros de botanica e de horticultura desde a Flora Londinensis de Curtis e as obras completas de Lindley, até ás publicações periodicas das varias sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel, ensaiava ás vezes processos, não referidos nos manuaes de jardinagem, com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisição, por todo o preço, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente no Covent-Garden market e no Pantheon de Oxford Street.

A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da arte do velho commerciante.

Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era exclusivo nas affeições floristas. A uma unica planta dedicava, em cada época do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram as begonias as suas predilectas. Ia um destroço n'ellas, occasionado por tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devéras affeiçoado ás plantas.

Mr. Whitestone ensaiára nas pobres uma especie de rega, á qual grande numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composição indigesta, e em que elle procurára reunir todos os elementos, que julgára mais proprios para lhes desenvolver a vegetação.

—Isso queima-lhe as folhinhas!—aventurára-se a dizer Manoel, vendo Mr.
Richard a temperar aquella caldeirada.

—Cala a bôca, tolo. Verás como ficarão viçosas.

Á vista do resultado, Mr. Richard teve porém de abandonar o processo, mas sem se dar por vencido.

—É que estes vasos são pouco porosos… Hei de mandar vir de Londres uns.

Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situações apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era.

N'estes entretenimentos levava pois o tempo até á hora do lunch.

Voltava então a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer refeição d'estas. O mercado do Porto a custo póde satisfazer as exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O roast-beef á ingleza, ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de consistencia pastosa forneciam tambem estes lunchs, accommodados á robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto seculo da era christã eram antropophagos—segundo affirma o auctor da Viagem de Jersey a Gran-ville.

Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr. Richard gostava de ver o filho junto de si, em tão solemnes momentos, comquanto não trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o Times e acompanhar o acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro prato.

Porisso a ausencia de Carlos n'esta manhã cavou-lhe uma ruga de descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre dentes vinha trauteando ao entrar na sala.

Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria em Londres a multidão ávida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar as proprias composições, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas, nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na America do Norte, lê-se em noticias d'essa época, repetiam-se as composições d'este musico notavel, cujo caracter nacional se aperfeiçoara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso, diz-se, o cunho da originalidade.

De entre a collecção de melodias, ou cantos populares, publicadas n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroço pelos amadores nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala.

Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez, para justificar de sobra esta preferencia.

É um canto de animação aos numerosos bandos de emigrados, que de todos os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares, á procura da riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do berço natal, que todavia amam com fervor. Se é licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da sociedade actual para conquistar a riqueza, póde ainda incidir um raio d'aquelle esplendor épico, de que se illuminam os trabalhos analogos do mythologico Jason, de certo os inglezes são os heroes d'essas epopeias modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi com fanatismo—a patria e a familia—, aquella coragem estoica, que os alenta nos revézes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita os somnos perigosos, dão a esses argonautas do commercio um prestigio respeitavel, que certas ridiculas exterioridades não podem suffocar.

Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos aqui a traducção dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles afinado pelo sentir do honrado negociante.

Era esta mesma canção a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia, durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular, milhares de espectadores cantavam unisonos:

Cheer, boys!, cheer…

que são as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim:

«Eia! rapazes, eia! Longe de nós a ociosa tristeza. Almas varonis, a coragem nos alentará no caminho! A esperança impelle-nos para diante, e mostra-nos um esplendido ámanhã; esqueçamos portanto a escuridade de hoje.

Adeus, pois, ó Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como nós te amem.

Nós enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois, adeus, Inglaterra! adeus para sempre.

Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!—Eia, rapazes! a vontade forte imprime vigor ao braço. Eia! a riqueza recompensa o trabalho honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz!

Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a recompensal-as; além a abundancia sorrirá ás nossas penas; e nossas serão as planicies e as florestas, e o grão dourado amadurecerá para nós em campos sem limites.»

Foi pois a musica correspondente a esta canção que Mr. Richard interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher estava preparada a mesa.

—Carlos está ainda na cama?—disse, voltando-se para Jenny e n'um tom, em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor.

Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e até segundo as regras de uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu.

Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmão junto de Mr. Richard, que, já bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de indolencia filial.

Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concessões, tratava sempre como inimigo.

Á interrogação paterna, Jenny respondeu:

—Ainda.

—Ho!—acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural interjeição de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume.

Jenny acrescentou:

—Charles teve de se recolher hontem mais tarde…

—Escolheu bem o dia.

—Não se lembrava…

—Exquisito!

—Creia que se não esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho, do anniversario do pae.

Mr. Richard sentou-se e pôz-se a ler o Times.

Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa.

—E, como se deitou tarde—proseguiu ella, passado tempo—e eu receei que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o não chamassem.

—Então veio muito tarde?

—Julgo que … ás duas horas…—balbuciou Jenny.

O criado, que começára a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio corrigindo:

—Perdão, miss Jenny, passava já das quatro.

—Ho!—repetiu Mr. Richard.

Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a inconveniencia da correcção.

—Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos…—disse ella—e só soube o dia que era, quando já não ia a tempo de recusar.

Mr. Richard não precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas censuras. Tinha já perdido o habito de discordar da filha. Porisso só respondeu, lendo o Times:

—Sim, sim. Está bom. O mal d'essas extravagancias é d'elle e porisso…

N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos cães felpudos, pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos exterminadores d'esta raça perseguida.

O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?—exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão predilecto, que lhe estendeu a pata como para um shake-hand. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de fiambre, o que o inglez não indeferiu.

O pequeno quadrupede sentou-se então com familiaridade na cadeira devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justiça ás sobras do lunch, que lhe cabiam em partilha.

Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a particularidades, futeis de mais para merecerem a observação do criado ou de outrem, que não fosse uma filha.

N'uma d'estas occasiões, Mr. Richard, como se não tivesse perdido ainda o fio da conversa anterior, disse a meia voz:

—É que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e … é feio isso.

Jenny não respondeu.

Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o mesmo pensamento occupára o espirito de ambos.

Receio que os redactores do Times não tivessem d'esta vez conseguido captivar a attenção do seu leitor.

Levantou-se por fim o inglez.

Lavando as mãos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do jardim, murmurava ainda:

—Parece mal. É mau costume.

E saíu da sala para o gabinete.

Jenny acompanhou-o.

—E demais nem tanto custa—dizia elle ainda, pelo caminho.

Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mãos de Jenny o chapéo e a bengala, continuou no mesmo tom:

—Dá logar a que se diga … a que se repare…

Calçando as luvas de pellica côr de canna, por uma exquisitice patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda:

—Não sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio.

E, passado um momento:

—É feio, é feio.

Parecia emfim disposto a saír, mas Jenny, costumada a observal-o, descobria-lhe certa hesitação, como se se travasse n'elle uma lucta entre duas resoluções encontradas.

—Até logo, Jenny—dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir.

—Não sei o que me esquece!—murmurou depois com manifesta perplexidade.

Jenny correu os olhos pelo quarto.

—O lenço?—perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador.

—Ah! o lenço, sim … o lenço…

Era evidente que não estava satisfeito ainda.

—Agora … não me falta nada; adeus.

Jenny julgou que d'esta vez sempre saíria.

—Ah! sim—continuava elle, parando novamente.

Jenny fitou-o com olhar interrogativo.

—Não sei o que… Ah!… Então… então Carlos… não se levanta esta manhã?

—Se quer que o chame?

—Não, não… É que…

E depois, interrompendo-se:

—Não é nada.

—Deseja que lhe dê algumas ordens?

—Não… mas… Emfim, o que é tem tempo.

—Mas diga; Charles não deve tardar a erguer-se…

—É que…

E Mr. Richard, com certo modo embaraçado, aproximou-se da secretária, abriu-a e tirou de lá um magnifico relogio e corrente, de construcção ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para presentear o filho no dia dos annos d'elle.

A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso intento.

Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeição resistido inteira ao delicto filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para reprimir as expansões d'ella.

—Ahi está—dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido tirar ás palavras a menor sombra de affecto.—Se quizeres, pódes dar isso a teu irmão. Para elle é que eu o destinava, se hontem…

Jenny tomou o relogio das mãos do pae, a quem agradeceu com um sorriso de ternura.

Mr. Richard proseguiu:

—Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço…

—O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor.

Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de inveterado scepticismo, que não lhe saíu muito expressivo.

Jenny acrescentou:

—E de mais preço ainda, se das suas proprias mãos o recebesse.

—Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de me aceitar as minhas prendas?—perguntou o pae com certo azedume.

—Mas se… logo ao jantar…

—Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia.

—Oh! se Carlos soubesse…

—Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres.

E, dizendo isto, saíu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco tempo transpunha o portão da rua.

O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:

—Parece muito mal.

Mas, chegando á rua, já ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao favorito Butterfly phrases de cordial affecto e trauteava por entre dentes o popular—Cheer, boys, cheer!,…

VI

AO DESPERTAR DE CARLOS

Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o pensamento porém não acompanhava o olhar.

Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a dissimulal-as.

Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.

Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre Carlos tambem.

E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria debalde.

Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella preoccupação.

Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o irmão.

André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já ao collo os dois filhos do inglez.

—Vá,—disse Jenny—diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno, livre de pesadelos e de sonhos importunos.

O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução, bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que entreabriu.

Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo tapete.

Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo fiat lux do Genesis, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.

A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.

Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite, entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia, deslocados da natural situação.

As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de cidade conquistada.

Nas mesas, nos sofás, em voltaires, no chão, por toda a parte emfim, menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas, calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis; alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos, retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim; pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata, transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi debaixo da cama. Um abat-jour de cartão envernizado com figuras extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile; defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.

Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza, obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha mascarada.

No meio de toda esta confusão, um enorme terra-nova, de ventas leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.

Imagine-se o resto.

André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a acordal-o de dormir tão tranquillo.

Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições, paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a crença dos seus biographos.

André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem desejava não ser escutado.

—Snr. Carlos—disse elle.

Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra para o despertar.

Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal distincta:

—Bons dias, André. Que horas são?

—Meio dia.

Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.

Save us!—exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.

—Pois não me parecia—continuou Carlos, ao acabar de contal-as.—Ia até estranhar-te a madrugada, sabes tu? E… e… o pae?

—Saíu já.

—E… e que disse?

André encolheu os hombros, respondendo:

—Nada.

Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.

Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.

—Toca a pôr a pé, que são horas!—dizia o André, occupando-se a levantar alguns dos objectos que via pelo chão.

—Deshumano, cruel, que me recordas?—respondeu-lhe Carlos em tom de recitação tragica.

—Vamos, vamos, preguiçoso.

Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal terra-nova, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas linhas distrahido.

—Então?—insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se—Fica ahi?

—Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.