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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 19: NO ESCRIPTORIO
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

—Então quer almoçar aqui?

—E julgo que é uma resolução muito louvavel.

—Mas…

—Mas o quê?… Que objecções lhe pões? Falla.

—É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.

Carlos de um salto sentou-se na cama.

—Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa—chega-me d'ahi esse robe-de-chambre.—Isso não… não vês que é um dominó?… Anda… avia-te… Aquelle lenço… O outro… Bem… Vae… Dize a Jenny que n'um momento estou com ella.

E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro toilette de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.

Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras, objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr. Richard Whitestone.

—Bom dia, Charles—disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou affectuosamente.

—Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube dizer-me logo que tu…

—Desculpa mandar-te acordar, mas…

—Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.

—Vieste hontem muito tarde, Charles—disse Jenny, abaixando-se disfarçadamente para acariciar o terra-nova, que se lhe deitára aos pés.

—Pois ouviste-me?

—Ouvi.

—Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém… sempre sou um desastrado!

—Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.

—Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?

—Não, mas…

Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.

—Querem ver que foi por minha causa?… Então que te tenho eu dito, Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a ponto de…

—Não, não foi por canceira, é que…

—É que tu és uma teimosa e o que merecias…

—Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?

—Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois… depois verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de… Tens-te enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?

—Ora, não fallo por mim; mas… é que… isso faz-te doente por certo,
Charles. Esses jantares tão longos… Essas noites tão mal dormidas…

—A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso…

—E depois… Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos comnosco, á noite… Não é por mim que fallo, repito; mas o pae… bem sabes, antigos habitos… gosta de nos ver reunidos todos… a certas horas. Coitado! Não digo sempre, mas… ás vezes, de quando em quando, se te não custasse…

—Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto… prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou aquelle bom Thomson nas suas Estações, são tão longas para se passarem em casa!

—As de estio… depois… já sei… has de achal-as tão formosas que…

—Não—replicou Carlos, sorrindo;—então depois de eu te prometter havia de… Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por que o pae costuma passar aqui as suas soirées. Aquelle eterno Times, aquelle Times sem fim aterra-me, Jenny. A Biblia é um livro que respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos reverendos lettrados; confesso que tremo. O Tristam Shandy do Sterne já o sei de cor; no Tom Jones de Fielding, quando o não tivesse ainda lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar, mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno… a fallar verdade!

—Charles!—disse Jenny, em tom reprehensivo.

—E para cumulo dos males—proseguiu Carlos—estar sempre debaixo da permanente ameaça de uma visita do spleen de Mr. Morlays ou da, não menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito, inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos».

Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:

—Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!… no dia dos teus annos!…

—Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita.
Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!

—Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes queres dar o prazer de t'o affirmarem?

—Daria se… se me lembrasse.

—O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este relogio—disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr. Richard.

—Devéras?! Pois elle… Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae no coração, não é assim?

—Sei, Charles, sei.

—Mas os outros…

—Todos te fazem justiça, só tu é que…

—Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar; acabando elle … penitenciar-me-hei na quaresma.

—O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para assim te attrahirem, Charles!

—Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas… Tu não pódes talvez entender isto, que não obstante é exacto… são insipidos, mas irresistiveis ao mesmo tempo.

—Ora!

—Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo, Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.—Não é assim que diz o Milton?—E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me a expatriação. Vês?

—Estás a gracejar, Charles?

—Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se…

—E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da manhã?

—Hoje? Ah, mas… perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo confessal-o.

—Então?

—Então… é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me escutar e prometteres não me ralhar muito…

—Ah! pois temos culpas?

—Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que procedesse bem. Mas tu o dirás.

Jenny sorriu.

—Ouçamos—disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de trazer para a sala.

VI

REVISTA DA NOITE

—Como te disse, Jenny,—principiou Carlos, procedendo áquelle extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e importante tarefa da digestão do jantar—hontem correu-me a noite mais agradavel que de costume.

—Sim? Então que te succedeu?

—Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar, ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso; atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e d'aquelle ruído todo…

—E pezaroso…

—Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.

—Ah!… remorsos?!…

—Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras, gritos de condemnados as desafinações da orchestra…

—E ficaste?

—E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar.

—Continúa—disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras inglezas, que estava na mesa.—Mas é devéras estranha essa maneira de te divertires… martyrisando-te.

—É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o.

—Bem; vamos adiante—replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras douradas da brochura.

Carlos proseguiu:

—Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem a sorte me arrojára.

Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular.

—Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta bemaventurança e voltei-os…

—Para o lado esquerdo?

—Justamente; para o lado esquerdo.

—E… e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?—perguntou
Jenny, sorrindo.

—Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões.

—Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é devéras uma paixão?

—Receio que sim.

—Pobre Charles! Que fatalidade!

—Estás a rir?—disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena para a encher outra vez—Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma maneira … como nem te sei dizer… e com uns olhos… mal sabes que bonitos olhos eram aquelles, Jenny!

—Os da mascara?—perguntou Jenny, preparando a chavena.

—Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude desviar mais d'alli o olhar extasiado, e… e… Então que quer dizer agora esse teu sorriso, Jenny?

—Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.

—É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um pouco, o preciso… o conveniente… Porque na maior parte dos rostos ha pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço…

—Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que conheces, visto que ainda hontem…

—Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica, cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não podéra occultar…

—Ah! Que singular cabeça!

—E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a palavra!

—A quem dirigiste a palavra!

—Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentações, ridicula invenção da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa diplomatica Inglaterra.

A reflexão historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de
Jenny.

Carlos continuou:

—E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido á mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas, irmanzita, eu, que arranjei por ahi, não sei bem como, a reputação de atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam já aos quinze annos.

Esta confissão, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porém suavisar.

—Olha que é assim—proseguiu o irmão—e senão… escuta. Como te disse, fallei á minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito fatigada. Ahi tens; a pergunta é mais do que ingenua, é quasi ridicula. Que lhe censuras tu?

—A essa, de certo que nada. E depois?

—Ella respondeu-me:—«Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava, vindo aqui, snr. Carlos.»

—Como disseste?… Snr. Carlos?!

—É verdade, «snr. Carlos». Sabia o meu nome a mysteriosa incognita; sabia o meu nome! Está de ver que augmentou a minha curiosidade. Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli acompanhada de outros dóminós femininos, cujo humor mais galhofeiro contrastava com aquella melancólica seriedade. Ficamos a conversar um com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora comtigo. E… queres que te diga? havia até alguma cousa do teu fallar, maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que não podia livrar-me. Não imaginas a graça, o bom senso, a viveza, que revelou em todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito e até a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras de querer fallar de ti; eu porém evitei a conversa…

—Porquê?!—perguntou Jenny, fingindo-se offendida.

—Porque…—balbuciou Carlos embaraçado, e depois, com mais resolução, continuou:—Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu nome uma veneração muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por…—não obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da desconhecida—mas… por labios que… não sei ainda… que não tenho a certeza se serão dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este inoffensivo conversar, chegaram, já fartos de alvorotar o salão, alguns dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel, confesso-o, a presença dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos os galanteadores conceitos que dirigiram á minha interlocutora e os gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.

—Coitada!

—Coitada? Ai, se já principias assim a lamental-a … mal vae á minha historia.

—Pois acaso?…

—Escuta. Ao principio, ella não mostrou timidez; sustentou com vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva armas, de que ella não podia servir-se. Foi então, ao reconhecer isto, que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a; á porta do salão ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram atemorisadas. Ella então, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e eu…

—Tu protegeste-as, não é verdade?—disse Jenny, juntando as mãos, e fixando no irmão um olhar de sympathia—Protegeste, não protegeste?

—Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Então que queres tu? Não te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze annos?

—Não te arrependas, Charles, não te arrependas de ser generoso.

—É certo que consegui afastar os meus associados, o que não foi pequena tarefa; fiz valer porém os direitos de descobridor e prometti-lhes revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigação me competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effusões de gratidão á minha nobreza de caracter, ao meu coração, aos meus sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e passou o perigo da perseguição que temiam, tudo mudou de figura e principiaram já a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratidão offendeu-me e recusei… Então? ahi estás séria outra vez!

—E com razão, Charles. Pois pediam-te e tu… Isso já não é de generoso… Quem sabe os motivos?

—Perdôa-me, Jenny; tu é que não sabes nada d'estas cousas. Pouco generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra é recusal-os sempre; e está certa de que quasi nunca a recusa offende.

—Basta que uma vez…

—Mas repara, Jenny… Valha-me Deus!… Ora vem cá. Tu estás-me ahi a phantasiar uns bailes de mascaras á tua moda. Suppões que todos estes dóminós eram… eu sei lá… outras tantas princezas disfarçadas ou outras Jennys como tu.

—Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?…

Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese e porisso interrompeu a irmã, dizendo:

—Mas não supponho, nem posso suppôr, porque… porque ainda ninguem viu uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu não sou ainda assim merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para desistir, exigia conhecel-as; ellas porém recusaram tirar a mascara e sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. Ás tres horas e meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti á tentação e transpuz, sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha incognita levavam já o caso a rir e acredito que não poriam grande duvida em darem-se a conhecer; ella porém mostrava-se… ou fingia-se, deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mãos juntas pediu-me que me retirasse.

—E tu?…

—Eu… eu recusei.

—Ó Charles!

—Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se teimasse, e eu insisti…

—Como és ás vezes tão mau!

—Mas se eu não acreditava na sinceridade d'aquelles mêdos, e agora mesmo… Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual me pareceu descobrir tanta sinceridade: «—Peço-lhe este favor por…» Adivinhas por quem ella me foi pedir?

—Não.

—«Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny»; sim, por ti, foi por ti que ella me pediu e fêl-o ajuntando as mãos com tal candura, que eu… Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?

Jenny estendeu a mão ao irmão.

—Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu coração. Estava certa d'isso.

Carlos baixou a cabeça, como mortificado com estes louvores da irmã. Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos, longe de os desvanecerem.

Depois de uma hesitação de momentos, terminou por dizer, com evidente enleio:

—Olha, Jenny… eu por fim de contas não sou homem para aceitar louvores que não mereço… repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras, mas… sou forçado a dizer-te que… que não sou digno d'esses applausos.

—Porquê?

—Porque… alguma cousa se passou… Eu não disse tudo ainda e… É verdade que… condescendi… sim… mas não tão desinteressadamente como… sim… porque exigi… usurpei… á maneira de compensação…

—O quê?

—Um beijo, ao qual a pobre rapariga não retirou a tempo a face e que a lançou n'uma especie de desespêro, fingido talvez, de certo… mas bem fingido…

Jenny reproduziu o gesto de desgosto.

—Mas não me condemnes, Jenny,—apressou-se Carlos a acrescentar—porque a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca descobrir quem ella seja. Além d'isso cumpri religiosamente o promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devéras; ainda hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento… Vamos, não continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me, quando eu…

—A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final… o final… na verdade…

—E vês o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que me deixou mais agradavel memoria de si…

—Então!—disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mão—Olha se queres que retire ainda o perdão que já te dei. Que mais terás a pezar-te na consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposição benevola.

—Julgo que não tenho mais nada.

—Ahi está uma alma com excellente opinião de si! Visto isso, tens cumprido todos os teus deveres?

—Mas… deveres de que genero?

—Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!
Deveres de christão, de cidadão, de filho, e de…

—O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem és, Jenny! vamos por partes, senão…

—Pois bem, quero fallar-te agora só de uns, que me parece teres descurado um pouco.

—Falla.

—Dize-me: tens ido ao escriptorio?…

—Ai, o escriptorio!—disse Carlos, rindo—Então era d'isso que me querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.

—Tens lá ido?

—Eu não.

—Não!

—Ha já bastante tempo que lá não vou, ha… mas… achas isso grande peccado?

—E pergúntal-o? Não é o trabalho um dever?

—O trabalho será.

—Então…

—É que faz sua differença. Tu não sabes como eu trabalho no escriptorio? É outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir devéras, se não fossem tão fastidiosas. É preciso que saibas, minha boa Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o trabalho—trabalho, está encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse sim. É quem alli faz tudo, quem a tudo dá solução, e parece-me que o unico até capaz de o fazer. Exige-se que eu vá lá tambem, não para trabalhar; a minha cooperação o mais que faz é impacientar o bom do homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos papeis commerciaes. Eu vou só para fingir que entro n'aquellas cousas, para representar de commerciante, embora não penetre em nenhum dos segredos ou transacções, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois tão dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle; ámanhã, dar-me-hão parte da conclusão de outro, cuja existencia eu ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de me ver lá em baixo, como representante da firma Whitestone & C.ª, e mais nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praça, converso em tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto é trabalhar…

—Mas, já que te repugna essa ociosidade, porque não trabalhas devéras?

—Porque não é costume. O trabalho é para o guarda-livros. Nós somos uma especie de padrinhos; damos o nome á creança e pagamos-lhes o enxoval, mas não nos encarregamos das fadigas da sua educação. Comtudo, já uma ou outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrança minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal disfarçado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.

—Pois bem; porisso mesmo que tão pouco se exige de ti é que devias ser mais assiduo.

—Mas é tão monotono! Fazes lá ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,
Jenny; abomino-a.

—E preferes mortificar o pae, que já hoje se queixou das tuas faltas, quando um pequeno sacrificio…

—Não lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a fazel-o para te agradar. Ámanhã…

—Ámanhã!—disse Jenny, encolhendo os hombros.

—Pois então? queres que já hoje?…

—E porque não?

—Mas vê que já é tarde…

—Mais tarde será se te demorares.

Carlos emmudeceu.

—E ao mesmo tempo—proseguiu Jenny—aproveitaria a occasião de mandar saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha já tantos dias não apparece. Não tenho querido que lá vá nenhum criado, porque, por mais que lhes recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se tanto… Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho…

Jenny sabia que qualquer acção generosa servia a Carlos de estimulo para realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. Não se enganou a previdencia da irmã.

—Está dito—disse Carlos com modo resoluto.—Vou hoje … trabalhar. Mal sabe Manoel Quentino, que é o grande motor d'aquella machina commercial, o que lhe está imminente. O homem dá ao demo o meu auxilio; mas que t'o agradeça, Jenny. Manda-me o José para me ajudar a vestir; inda hoje me não deu o gosto de o ver, o mariola.

—Ai, o José?—disse Jenny, pousando a mão no hombro do irmão—Olha, Charles, o pobre rapaz tem a mãe tão doente, que eu tive pena d'elle e mandei-o…

—Basta, basta; fizeste bem. Eu não me lembrava d'isso, senão…
Passaremos sem o José, e não passaremos mal.

Jenny abraçou o irmão, e saiu contente da sala.

Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praça Commercial pelas duas horas da tarde.

VIII

NA PRAÇA

Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.

A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em occasião assim.

Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar indicios da posição commercial, que elles occupam.

Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento, mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes oraculos;—são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes, meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III, na abertura do parlamento francez.

Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.—São estes os negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem, mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada esperam d'ella.

Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de novo. Que quer dizer isto?—É um negociante fallido de pouco e rodeiado de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes negociantes fallidos.

O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram suspensos, aquelles, cujas remotas fracturas teem sido miraculosamente consolidadas pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é possivel a discriminação.

A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa, agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo—attenção nem sempre retribuida—; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser incommoda de ver-se.

É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se dizem—caixeiro e patrão—. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe, olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de longe falla por acênos—distracção perigosa para a clareza da ordem dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu; os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado, emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito, circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.

Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes, sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios, transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços, amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram a atacar.—São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.

A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta bureaucracia ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre os dedos, como para significar que é momentanea a pausa—o que nem sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos distrahidamente correspondidos por estes.

Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes capitalistas—commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz, como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade, estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.

Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre gente, que toda lhe era igualmente familiar.

Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.

O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.

Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça. Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados; d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o: chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia, conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.

N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,—unico fim que tinha na ideia.

Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era assiduo frequentador.

Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se das mais graduadas individualidades da praça.

Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho inglez, que estava na companhia tambem.

—O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto—dizia um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que temos ainda por cá.

O inglez estremeceu de pasmo.

What!!—A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão—Na Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?

—Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores…

—Ora então… então… A Bolsa de Londres… o Royal Exchange… não vamos mais longe… o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em tres annos estava completo.

—E esse quando ardeu?—perguntou Carlos.

O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.

Carlos interrompeu-o outra vez:

—O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel disposição para arderem as bolsas.

O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da noticia historica e architectonica.

—Mas, senhores!—dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos directores da mesma—Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram. O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se penhore; porisso voto que…

—Mas repare,—dizia o director com exemplar paciencia—repare que as garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se…

—E adeus, minhas encommendas!—tornou o outro—Ora que é scisma! Mas quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje são tudo e ámanhã são nada… Faz-se o contracto com uns e ámanhã respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu… E os nossos capitaes…

Estes capitaes eram cem mil réis por junto.

O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.

Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio, dizendo-lhe a meia voz:

—O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma companhia monstro.

—Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o senhor…

—Ouça—insistia Carlos—é negocio dos accionistas ganharem quarenta por cento, avaliando muito por baixo.

O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.

Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!

A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.

—Pois sim, mas… eu agora…—dizia ainda o homem.

Carlos insistiu:

—Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes, que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da instituição. É porisso que eu…

—Mas que é a final?—perguntou o sujeito com curiosidade.

—Demais espera-se que o governo conceda um subsidio…

O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á tentação d'esta vez.

—Mas qual é o fim?—perguntou em vez d'isso.

—E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este commettimento—continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal companhia.

—Mas o fim da empreza? … o fim?—bradava já o outro.

—O fim? Um grande fim… uma nova via de trafego commercial entre a cidade alta e a baixa.

—Como? Alguma rua…

—Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no seio da cidade.

Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:

—Mas… que é? como?

—Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.

O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas cêdo depois voltou-lhe as costas desapontado e procurou o director, que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro lhe apontára ao peito—Quem era o governo?

O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são, que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado, no Douro.

O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de pedidos—da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como resentiu—parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu valimento e ser até importuno para servir o amigo.

Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido, aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:

—Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?

Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar orações sem nexo, separaram-se friamente.

O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais com elle pela sua pouca lisura.

E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda aos mais reservados e egoistas.

Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.

Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo, baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.

Parou a escutal-o.

—V. s.ª passou bem?—disse o recem-chegado.

Carlos correspondeu ao cumprimento.

—Ora eu—continuou o homem—já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª; mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me conhece.

—Não, senhor—disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do seu interlocutor.

—Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o anno passado…

Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o botão de peito do snr. Anastacio Rebello.

—Ora v. s.ª—proseguiu este—ha de estar certo de que ha dois mezes… um meu correspondente de Braga me pediu… Eu não sei se o pae de v. s.ª lhe disse… Talvez não dissesse…

—Talvez não—disse Carlos, sem o attender…

—Pois o negocio é simples: este meu correspondente… que é também meu compadre… isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por causa de uns humores frios que…

Carlos assobiava já.

—Mas agora quer este meu compadre… Olhe; aqui está a carta que elle me escreveu;—proseguiu o homem, procurando-a no casaco—eu julgo que a trago commigo… Por ella fará ideia.

E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens, letras, contas, recibos… dizendo, ao passo que examinava cada qual por sua vez:

—Não… isto é outra cousa… é a ordem para me pagarem uns cincoenta e tantos mil réis… E já não veem sem tempo… Mas onde diabo puz eu a carta?… Não é isto… Isto é o escripto de arrendamento da minha casa do Forno Velho… Isto é… Que S. Pedro é isto?… Ah! a carta do Maranhão… isto … isto é uma encommenda que me fazem de Bragança… V. s.ª não me sabe dizer onde se vende… a estampa da guerra da Crimeia?

—Eu não, senhor—disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.

—Encommendaram-m'a e eu…—continuava o homem, seguindo-o—Ah! achei; cá está a carta!—exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco—Ora quer ler?

—Eu não, senhor—respondeu este, tentando evadir-se.

—«Prezado amigo e compadre—principiou o homem a ler.—«Recebi a sua de 13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre…—é a mulher d'elle—recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo—é a minha mulher…—e o Juca…—é o tal meu afilhado…—manda muitos beijos ao padrinho…

—Que é o senhor—disse Carlos, já impaciente com a massada.

—Justamente—respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.

—Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me—acrescentou Carlos, fazendo outra tentativa para fugir.

—Isto tambem não interessa…—concordou o homem—aqui mais abaixo é que… tal, tal, tal… sim, senhores…—«A festa do Bom Jesus este anno promette ser feita com espavento e eu espero que vocemecê…»—Elles querem que eu…

—Com licença, que estou com pressa.

—Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo…—«A camara municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma derrota que…»

Carlos já não podia mais.

—Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?

—Tem v. s.ª razão… É que eu julgava… Tal, tal, tal—«O seguro não quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do Souto…»—Olhe que tambem isto de seguros…

—Adeus—disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.

—Ah! é aqui; agora sim—exclamou este triumphantemente—Cá está…—Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra…

Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua, deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.

—Adeus, minha flor.

A rapariga respondeu-lhe:

—Ninguem o conheceu hontem no baile.

—Então esteve lá?

E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.

Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado com o que via.

Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.

Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.

Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no escriptorio.

IX

NO ESCRIPTORIO

Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho, onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino, personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como mantenedores da serenidade do espirito.

Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com que lidava, taes como:—correspondencias, facturas, contas correntes, contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição ordenada.

D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua parte.

Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard, antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do guarda-livros.

Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.

Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia: «para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado alguma vez.

Observava pontualmente o judicioso preceito: festina lente, e comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.

Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso, visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.

Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos, aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas, os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo os velhos modelos dos escriptorios antigos.

Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como taes as amava.

Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para fazer tudo por suas mãos.

Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle, com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para Londres.

Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa, aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade, entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio um silencio, que agradava a Manoel Quentino.

Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.

Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.

Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a, reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que se pretende guiar.

—Anda, anda,—dizia elle—que ronceira que estás hoje! Olha que não temos esse tempo, que julgas… Então?… Que é isso agora?… Pois já queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te… Bonito R! Isso não esperava eu de ti!… Adeus! Agora mais este cabello!… E sujas-me todo!… Trapalhona!… Ai, que impertinente que estás!… Adiante! adiante! adiante!… Espera, espera… Lá te esqueceu um D!… E agora?… Agora vê se te mexes entre essas duas lettras… Assim… Ah! … não toques nos SS … assim… Bem… Continúa, mas com tento… Então! Não querem ver que páras outra vez? Ora isto é demais!… Deixa estar que… Oh!

Era um borrão, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a correspondencia quasi no seu termo.

  «Trai la rai, la rai, larai lai
  Trai, larai, larai, larão, lão
  Trai larai lai, larai larai lai,
  Trai lari, lari, lari, larão lão.
  Trai lari, lari, lari, larão lão.»

Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre n'estas occasiões criticas. E sem mais alguma observação pôz a folha suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, não sem primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:

—Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu—dizia para outra.—Vê lá como te portas!

E, olhando fixo para ella:

—Umh! Não tens lá muito boa cara! não… Ora vamos a ver… Vá,
despacha-te, que tenho mais que fazer!… Abre os bicos… abre…
Assim… bem! Sim, senhora!… Bravo… Ninguem havia de dizer que tu…
Caspite!…

E com estas palavras de animação ia applaudindo o bom serviço da penna e quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.

Foi n'este momento que um valente encontrão abriu a porta do escriptorio, e o terra-nova, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.

Manoel Quentino, que estremecera com a subita apparição do quadrupede, ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pôz-se a olhar silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com mais alguma invasão, não menos revolucionaria do que esta.

Effectivamente Carlos não se fez esperar.

Good Morning, Mr. Manoel Quentino!—bradou Carlos do limiar, fazendo para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.

Good Morning, Mr. Charles—respondeu Manoel Quentino, encolhendo os hombros e dando ás feições um ar de paciente resignação, uma especie de bondoso mau humor.

Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graças á sua longa convivencia com os Her Majesty's subjects residentes na nossa cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o portuguez do patrão. Causava especial sensação ouvil-o pronunciar todas as palavras inglezas n'um tom, inflexão e maneiras, do cunho mais genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava portuguez em inglez.

—Ditosos olhos que o vêem!—disse elle a Carlos; e depois para o rapaz do escriptorio:—Olha aquella agua que se entornou…—e para Carlos outra vez com gesto velhaco:—Então esteve doente?

—Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo—respondeu Carlos.

—Como não tem apparecido!—Anda, avia-te rapaz!

—Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?

—Umh!—resmungou Manoel Quentino.

Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.

—E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?—perguntou Carlos, mexendo-lhe nos papeis—Cada vez mais bonito, cada vez mais contente.

—Adeus, adeus. Não bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?

—Lumes. Não ha lumes n'esta casa? que diabo!…

—Eu logo vi. Não pensa senão em fumar. Espere lá, espere lá. Não me desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.

Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros, que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.

—Fumem—insistia Carlos.

Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.

Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.

Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem, e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:

—Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. Não seja fossil.

—Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de… E demais a mais, é distrahil-os do serviço…

—Que serviço? Olhem o grande serviço que elles faziam!—Rapaz—acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das moscas da janella—vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu casaco está prompto… e chega de caminho ao theatro de S. João, pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis cadeiras para a recita de quinta-feira… entendes? Seis cadeiras; depois…

—E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a correspondencia ao correio?—perguntou com mau humor Manoel Quentino.

—Eu sei lá d'isso? Anda, vae…

—Mas…

—Ora! mande ao correio quem quizer… Avia-te. Salta.

O rapaz saíu a correr.

Manoel Quentino encolheu os hombros.

Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de vento, entrando na sala, fez esvoaçar toda a papelada da banca de Manoel Quentino.

—Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!—exclamou o guarda-livros—Adeus, minha vida; estou arranjado!

Carlos desatou a rir.

—Isso; ria-se, que tem muita graça! Então os senhores que fazem?—perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros—Ponham-se á palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?

—Deixe estar que eu apanho isso—disse Carlos, continuando a rir.

E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.

—Vão lá saber agora…—proseguiu Manoel Quentino—vão lá saber agora a ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem… olhem… Ficou bonita a carta do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas apolices… E o maldito cão a afocinhar-me na agua aquella minuta!… Passa fóra! Eh!… passa fóra, tratante.

E voltando á escrivaninha pôz-se a coordenar outra vez os papeis.

—Ó Manoel Quentino—perguntou-lhe Carlos já da janella—quem é aquella rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova para mim.

—Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.

—Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade…—disse
Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.

Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia, transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda incompletos, dezoito annos.

Á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.