—Não sei—disse depois de ver a pessoa designada—não a conheço. O
Pires ha de saber.
Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.
E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.
Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de quando em quando para a janella e principiava:
Trai la rai…
trauteava o hymno da Carta.
O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino começou a espirrar.
—Deus me salve!—dizia elle de cada vez.
Á quinta não teve mão em si, que não dissesse a Carlos:
—O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já estou…—e espirrava outra vez—já estou constipado.
—N'esse caso recolho-me—disse Carlos, fechando a janella e vindo debruçar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual começára de novo a correspondencia.
—Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;—dizia Carlos expellindo uma
baforada de fumo, á qual o velho fez caretas—você será parente de
Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o
Walter Scott, Manoel Quentino?
—Eu não, senhor…—respondeu o velho, continuando a escrever.
—Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me, já leu algum romance?
—Não, senhor, que tenho mais que fazer.
—Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler…
—Muito agradecido.
—O primeiro ha de ser O Cavalheiro de…
Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.
—De Harmental—concluiu maliciosamente Carlos—e acrescentou:—Não sei de que se riem estes senhores.
—É porque teem a vida muito canceirosa—respondeu Manoel Quentino.
—Depois hei de emprestar-lhe a Mademoiselle…
O mesmo effeito nos caixeiros.
—Mademoiselle de La Seiglière—delicada concepção de Jules Sandeau—concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.
—Adeus, já me fez enganar!—exclamou Manoel Quentino—Por sua causa escrevi agora—cavalheiro—em vez de—Companhia.
—Isso emenda-se.
—Ha de emendar boas cousas.
—Emenda, sim. Olhe d'esse a faz-se bem um o; depois o m fórma-se do v e do…
—O remedio é outro…
E com exemplar paciencia começou nova carta.
—Oh! com os diabos! Então vae outra vez principiar?
—É o que o senhor faz.
—O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a escrever assim!
—Não precisa.
E, para fixar a attenção, ia dizendo em voz alta o que escrevia:
—Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta…
—Não preciso? Preciso tal—proseguiu Carlos—rapariga a quem eu escreva…
—Do nosso ajuste—dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos alternadamente:—Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram os cuidados!…—O preço do genero…
—Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do seu tempo.
—E a competente commissão.—Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais em que cuidar…—Em vista pois das ordens recebidas…—Cuida que me levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por altas horas, inda por causa d'ellas?
—Então que fazia você?—insistia Carlos, tomando a penna e desenhando uma figura na margem do jornal do dia.
—Com lucros provaveis…—O que eu fazia bem o sei; ainda me não esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos…
—Ah! madrugadas!… Bem entendo!…
—Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que todos tiveram a sua vida. Bom era isso!—A fallencia da casa Rodrigues e…
—Grande vida a minha!—continuava Carlos—Ha lá nada mais semsabor?
Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.
E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia, aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.
—Oh! oh!—exclamou o velho, arredando-lhe a mão—Que ia fazer? Se lhe parece, suje-me agora a carta.
Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.
—O pae inda não veio hoje aqui?
—Ha que tempos!
—E não volta?
—Ha de voltar, se Deus quizer.—É preciso fechar isto mais cêdo hoje—continuou Carlos.—Estes senhores precisam de gosar o carnaval.
—Bom carnaval é o d'este mundo!
—Que horas são?
—Duas e vinte minutos—Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o relogio e não errando meio minuto.
—Se meu pae…—principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.
Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.
Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma folha ingleza e fez que a examinava na secção commercial.
Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.
Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma das suas predilectas toadas inglezas; mas, graças ao duro ouvido musical de que era dotado o velho gentleman, tão transtornada lhe saía ella, que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.
O Butterfly, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro terra-nova, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com benevola, mas sisuda, magestade.
Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar, exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expressão de contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle dia, estava bem longe de esperar alli.
O plano de Jenny sortira bom effeito.
Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos foi ter com elle, para lhe pedir a benção e ao mesmo tempo aproveitou a occasião para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de não ter assistido na vespera ao jantar de familia.
Mr. Richard Whitestone já não tinha cousa alguma no coração contra o filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor sombra de resentimento.
—Não teve duvida—repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa justificação de Carlos—não teve duvida, não teve duvida… Pois… esse relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma aos compradores, não fará differença de meio minuto em cinco annos! Talvez seja confiança de mais!—acrescentou, rindo com vontade.
—Ou cegueira paternal—observou Carlos, rindo como elle.
—Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim—concordou Mr. Richard, rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da tal cegueira.
E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario uma copiosa provisão de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua terceira refeição d'aquella manhã.
Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposições d'este mundo.
Se Jenny os podesse ver então, como exultaria de contentamento!
Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros commerciaes.
Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas, mas peremptorias.
O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturação, abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e dirigindo-se a Carlos:
—Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?—perguntou com affabilidade.
—Ainda não, senhor.
—Manoel Quentino! Então porque lh'a não mostrou?!—disse o pae, voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo para Carlos:—Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade de ser este um anno de vantajosas transacções, se por acaso…
—É um homem diligente, Mr. Leeson—notou Carlos, querendo dizer alguma cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente de Londres pelo do de Liverpool.
—Ho!—disse logo Mr. Richard, mortificado—Leeson!… de Londres!
Repara!… de Londres!?
Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observação, mas o peior era que não sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do tal correspondente.
—Ai, de Londres…—dizia elle embaraçado.—Eu julguei que… sim, de
Londres; é que me pareceu…
Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho; mas não succedeu assim.
Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos—motivos, que o leitor deve prever quaes fossem—para não julgar de instante necessidade pôr Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a escrivaninha e, procurando a carta em questão, levou-a a Carlos, não podendo disfarçar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro movimento de hombros.
Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pôz-se portanto a examinar a carta.
—Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente—disse Manoel Quentino quasi ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde escrevia.
Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mãos, e de quando em quando parava junto da vidraça, onde tocava um ligeiro rufo. Não estava ainda de todo restabelecido da má impressão que lhe causára o haver encontrado o filho tão pouco sciente do nome dos correspondentes da casa.
Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.
Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de
Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da
aguardente, para elle inteiramente mysterioso.
Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da sua posição, longe de diminuil-as.
Manoel Quentino continuava a escrever, lançando para Carlos, ao molhar da penna, um sorriso malicioso.
Este pousou a carta.
O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexão.
Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel signal.
Carlos aventurou-se:
—Emquanto ao negocio da aguardente…—disse elle com certa hesitação—nada…
O effeito foi maravilhoso!
Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarçar a intima satisfação, que lhe causava ver o filho tão bem informado, exclamou:
—Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que nem estavas ao facto!
Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:
—Como era negocio de vulto…
Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.
—Isto é… de vulto não digo… mas…
—Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro … é assim—atalhou Mr.
Richard.
—Exactamente—concordou o filho.
Manoel Quentino sorria.
—Mas já estive a pensar—proseguiu Mr. Richard—talvez influissem n'isto as condições do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de exceder o maximo indicado nas nossas cartas.
—Póde ser, mas…—dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera de receber inspirações d'alli.
Este affeiçoou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos pareceu dever ser «juro». Por isso abalançou-se outra vez a dizer:
—E tambem o juro…
Parou, porque devéras não sabia o que devesse dizer do juro, nem se era natural imaginar que tivesse subido ou descido.
Manoel Quentino moveu a cabeça em direcção do tecto, exprimindo mimicamente a primeira hypothese.
—Talvez o juro subisse—concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.
Mr. Richard aproveitou a insinuação do filho, e evidentemente satisfeito notou com vivacidade:
—Effectivamente o juro está muito alto em Londres.
—Ha muito tempo que o não tivemos tão desfavoravel—apressou-se Carlos em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á mesma ideia.
—É verdade que não. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos não subiu tanto, como agora.
Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovação, que o animou a dizer:
—Isso é que não sei; dez annos será demais, comtudo…
—Olha que não é demais—insistiu Mr. Richard, devéras admirado das informações do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou, voltando-se para o guarda-livros:—Em que anno teve logar aquella quebra da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?
—Em outubro de 1847—respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.
—Em 47?—Ai, então tens razão, tens; 47 a 55… 8… É isso… Porque eu lembro-me de que estava então o juro a 8 por cento.
—E d'essa vez—acrescentou Manoel Quentino—o cambio era-nos mais desfavoravel que hoje.
—É isso, é isso.
Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfação de Mr. Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na obra de pacificação domestica, encetada por ella.
Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard, depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendações mais, saíu do escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era, afagando na passagem o terra-nova, cousa que não praticava, senão em occasiões de grande harmonia com o filho.
Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e o dos latidos de contentamento do Butterfly, impaciente de liberdade, já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.
—Até que soou a hora da redempção!—exclamou elle, pondo o chapéo na cabeça.
—Então já se vae embora?—disse Manoel Quentino, maliciosamente.
—E acha você que não tomei dóse bastante de commercio esta manhã? Isto em pleno carnaval? Que impiedade!
—Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Então com que, está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!
—Vi-me devéras embaraçado com a tal aguardente!
—Mas saíu-se bem.
—Agradeço-lhe o auxilio.
—Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?
—Que vá para o diabo! Não me pôde occorrer o arrevezado nome d'esse maldito. Como se chama elle?
—Então não sabe ainda? Woodfall Hope… Uma das primeiras firmas commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente…
—Não, isso mais devagar, Manoel Quentino—atalhou Carlos—não lhe aturo nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vão ver as mascaras. Adeus.
—Farewell! Mr. Charles… Eh! eh! eh!…
Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.
O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praça estava quasi deserta. Como era terça-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino augmentavam o effeito somnifero do logar.
De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o
«Trai larai, larai, larai, lai» do guarda-livros.
O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omissões e enganos, que o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima paciencia.
Voltou a si todas as culpas.
—Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as creanças; merecia palmatoadas.
Depois, lembrando-se de Carlos:
—Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!
Em seguida para os caixeiros:
—Os senhores podem ir embora. Vão ás mascaras, vão; e olhem se teem juizo e não arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.
—Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino…—disseram elles, por deferencia.
—Eu quero, mas é que me deixem. Vão com Deus.
Os caixeiros não se fizeram rogar.
—Agora, juizo—continuou Manoel Quentino, ficando só—juizo, senão só chego a casa á noite, e a Cecilia ha de estar com canceira já. Como se transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cêdo, pois levava o serviço adiantado e vae… Como diabo lhe deu o rapaz para vir hoje ao escriptorio?… Bom moço, isso lá é, um coração de pomba… A cabeça é que… E n'isto de negocio, então!… Eh! eh! eh!… E o pae a imaginar ha pouco… A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te, bôca, que tambem não pódes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe devéras… Toda a sua pena é o rapaz não tomar gosto para o commercio. Aquillo tambem muda… Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem saír. O pae, um homem de bem ás direitas… a mãe era uma santa senhora… Pois a irmã? Isso então nem fallemos… Um anjo! E pensar que não são catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que remedio tem S. Pedro senão ir recebendo-os no céo.
Em consequencia da visita de Carlos, só ás tres e meia foi que Manoel Quentino pôde terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar a casa com appetite no estomago e tranquillidade no coração. Já vê o leitor que tinha razão Carlos ao assegurar que não era das mais proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.
X
JENNY
Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o escriptorio. Era um delicioso quarto, côr de violeta, onde se divisava o bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um não sei quê de austeridade ingleza, não em tal grau que destruisse a feição leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos, mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.
Não lhe era cabida a descripção, que um romancista francez nos faz do quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos tão abundantes as tapeçarias e alcatifas que, em todo elle, se não mediria uma pollegada de madeira a descoberto, e tão flacidas e macias, que n'essa gaiola perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de magoar as azas.
Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole séria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde áquelle esbelto e inflexivel de fórma, que lhes é proprio, tão diverso do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.
Não se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia, quasi de boneca, dos boudoirs da moda, onde predominam o papier maché, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma arte, que, á força de querer apurar em delicadeza os seus productos, os faz ás vezes acanhados e ridiculos.
A elegancia, alli, não abdicava certa dignidade, á qual hoje é raro combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco, damasco; as rendas, rendas verdadeiras. Não havia nos moveis esses tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preço, outras de menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitação, obtidas com vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com falsos titulos de nobreza. Nem um só objecto mentia dentro d'aquelle recinto.
Os caracteres, naturalmente observadores da boa fé, até n'estas cousas a amam.
A côr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente descidos.
Côres mais garridas só as das camelias, que, em singelas jarras de biscuit e porcellana, adornavam o toucador e o fogão.
Não usurpavam o logar, devido ás pobres flores, essa profusão de quinquilharias, hoje tanto á moda: vidros de essencias, de pomadas, de oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe, flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com preferencia ás verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de varias côres e fórmas e uma infinidade de pequenos objectos, que dão a qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposição de feira.
Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra, algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de religião, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli se podia ver.
As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas, representando meninas a disfarçarem um sorriso atraz do leque, a brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos através de uma luneta e em outras muitas posições todas affectadas, de tão graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, então commum nas salas do Porto, notavam-se as mais afamadas producções do inexcedivel buril britannico e algumas aquarellas, cópias fieis de paizagens inglezas.
A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que lhe temperavam a intensidade, até o grau adequado aos habitos de viver de Jenny.
De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em que se aprazia o espirito, pensador e inclinado á melancolia, da amoravel irmã de Carlos.
Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada ás mãos a fronte pensativa, em silencio, a sós, tantas vezes, como agora, a sympathica menina se entregava a meditações abençoadas de Deus, e das quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.
Agitado o coração de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da mãe, fiel e mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.
A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagára dos labios, produzia em Jenny a mais poderosa impressão.
Ás vezes, á força de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas amadas feições se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos tão cheios de piedade e de tristeza.
Que alegria para o coração da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da mãe, evocada pela sympathia filial, passára alli, illuminára momentaneamente a imagem inerte, e abençoára a filha, que tão pequena deixára orphã de apaixonadas caricias.
Esta illusão vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do coração humano, para os quaes não há confidentes possiveis. Perante a amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por expansiva que seja, não se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que nós mesmos nos ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;—que não ousam. Ha exemplos de perfumes tão subtis, que, aberto o vaso que os contém, quasi instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem, ao tentarmos communical-os.
Guarde cada um para si essa parte do pensamento, superstições infundadas, crenças pueris, que não podem separar-se de nós, sem que nós proprios as desconheçamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das pobres, que não nasceram para viver senão assim, presas á alma, de cuja essencia parece receberem vida.
São como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se expande na agua em formosas arborisações, illudindo as esperanças dos que, namorados de tanta belleza, as arrancam de lá; fóra do ambiente, em que vegetam, cêdo se mirram e desformam.
Bem lucida e forte era a razão de Jenny, e comtudo, no mundo interior, nutria a crença illusoria—pelo menos illusoria me parece, a mim que de fóra a examino—de que aquelle retrato de sua mãe não tinha uma expressão invariavel.
Eu queria dizer que isto era sentido, e não pensado, pela bondosa menina; mas não sei se o rigor philosophico me permittirá a linguagem; e comtudo não vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente phenomeno psychologico—o da persistencia de certas crenças irracionaes, nos espiritos mais vigorosos e logicos.
Dias havia, em que nos traços e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no coração; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos não sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem presagio de mal.
Seriam reflexos de presentimentos proprios, que então a illudiam? Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o assim?
Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?
Jenny era ainda uma creança, quando perdeu a mãe; no meio dos jogos e dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no coração; ao seu lado, crescera o mal ameaçador e terrivel, mas, no descuido de tão tenros annos, só dera por elle, quando a victima lhe caía prostrada nos braços. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um momento a vida inteira se lhe affeiçoou muito diversa, do como até então a antevira. Cêdo, muito cêdo, aquella creança franzina e debil, recebeu a solemne investidura da sacrosanta missão de mulher; transmittiu-lh'a a mãe, já moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa abençoada, que até o fim cumprira, sem um só dia de desalento.
Apertando nas mãos já frias as da filha lacrimosa, que só então vira a morte, que, tanto havia, a ameaçava nos seus mais queridos affectos, incumbiu áquelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz trémula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe que a essas mãos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeições e de carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e desillusões, colhidas lá fóra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo ao peito a filha, como em extrema recommendação, para a qual as palavras lhe faltavam já, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orphã, depois de a chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e fervente da sua nova missão.
É um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no coração d'aquelles que era dever seu tornar felizes. Só então principiou a reflectir que, entre os corações mais nobres e puros, se estabelecem ás vezes contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal, de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais vezes é do encontro de duas paixões, na essencia generosas, que a tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante póde governar o movimento e a derrota de um navio, mas é necessario que seja extrema a sua violencia, para que elle, por si só, o faça sossobrar; penetre porém o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos encontrados; e a submersão será quasi inevitavel.
É assim na vida.
Não basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laços de familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e serão já de temer os embates e as perturbações fataes.
A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam ás vezes da combinação de elementos inoffensivos.
Tudo isto se foi esclarecendo, á força de meditações, no espirito da pequena Jenny, que tão precoce adeus teve de dizer áquellas espontaneas e não motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo suspiro da mãe.
E cêdo foi, muito cedo para uma creança ingleza que, de ordinario, na idade em que as outras principiam já a querer ser senhoras, brinca alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe não humedecer na relva.
Esta livre expansão, que sabem e costumam dar á alegria as pequenas inglezas, é talvez a causa de serem desaffectadamente sérias, quando emfim a natureza, e não a arte prematura, as faz mulheres.
Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e irreprimiveis, que a cada palavra, que á menor causa rebentam, como da laranjeira florida chovem sobre o prado as pétalas nevadas e fragrantes, á mais leve viração que lhe agita a folhagem.
Afez-se a reflectir, a votar-se toda á felicidade dos seus, procurando insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de acção, no mesmo circulo, em que tinham de viver.
Desde essa época principiou a crescer e a vigorar com rapidez o predominio de Jenny em toda a familia—suave sujeição, grata aos que a supportavam, como uma benção do céo.
Até então amára-se em Jenny uma creança meiga, cujas graças joviaes faziam distrahir o espirito de preoccupações mais sérias; cêdo porém tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.
Em Mr. Richard Whitestone á affeição protectora, de que rodeiava a filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios de veneração; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submissão, que em todos os seus actos se denunciava.
Forte com esta dupla preponderancia, ía cumprindo Jenny religiosamente o legado da mãe, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella alma de justa, que a contemplava do céo.
Este oraculo, para todos mudo, só eloquente para os sentidos da filha, consultava-o Jenny com ardente fé ao encerrar-se sósinha no quarto, onde a luz e o rumor de fóra penetravam discretamente, como convinha a logar de tão piedosos mysterios.
Era triste a imagem d'esta vez!
Triste porquê?
Se os labios da irmã de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias, que tão profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:
—Pobre mãe! porque venho encontrar-te assim triste? Não passaria ainda a nuvem d'esta manhã?… Mas era tão ligeira!… tão leve! que a mim mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa mãe?—Isto pensava, ao beijar o retrato—Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio; pobre Carlos! É tão bondoso aquelle coração! Como elle havia de amar-te, como havia de acariciar-te, mãe, se ainda vivesses comnosco! Poucos o conhecem bem. Mas por que estás ainda triste? Has de ver como voltarão amigos. É facil reconciliar aquelles corações, que a final tanto se estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento… resentimento proprio de quem muito estima!… Então! Já não tens confiança na tua filha? Bem vês como todos aqui me querem. Elles de certo vêem em mim alguma cousa do teu espirito, mãe, para serem assim tão doceis com uma pobre rapariga. É á tua alma, á tua alma, que me acompanha, que elles obedecem a final. Continúa ao meu lado, mãe, e eu serei forte; não me abandones, e verás que não ha fundamentos para apprehensões. E ainda triste!—E beijava o retrato—E ainda!… e ainda… e ainda!…—beijava-o repetidas vezes.
Depois tentava a razão dissipar aquelas piedosas illusões:
—Estou louca!—pensava então Jenny—Pois como póde um retrato…
Aproximava-se mais da luz.
As illusões voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o vento afasta das flores.
—Não sei, não sei como isto é, não posso saber… mas esta expressão é mais triste do que a de hontem… De que procede esta tristeza?… A maneira por que me fallou do baile de hontem… O baile! … acaso … aquela mascara?… Mas que póde resultar d'alli?… Meu Deus! diria que ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar…
N'isto ouviu passos fóra da porta.
Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impressão do retrato para os sentidos, meio allucinados, da commovida… visionaria—chamar-lhe-hei assim?—Apressou-se em escondel-o.
A figura de Luiza, aquella mesma criada que já conhecemos, appareceu no limiar.
—Que é, Luiza?
—É a filha do snr. Manoel Quentino.
—Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei para que a fez esperar—acudiu Jenny com vivacidade.
Era Cecilia uma das suas mais affeiçoadas amigas.
XI
CECILIA
Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha, risonha como uma creança, a filha de Manoel Quentino. Era a unica familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.
Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mão … e «beijaram-se», pensará a leitora. Pois não beijaram, não, minha senhora; as inglezas poupam muito mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um amigavel aperto de mãos, um sorriso, uma phrase affectuosa… e mais nada. Será para os fazer mais apreciados, quando concedidos?
Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas suas mais felizes realisações.
É costume entre nós, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as italianas, entre as allemãs, e entre as inglezas, mas nunca entre as nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime resignação de martyres, esta velha e flagrante injustiça.
Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.
É vulgar ouvir-se dizer:—«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso certo ar germanico!»—«Que mulher! Tem o salero de uma hespanhola!»—«Que magestade! que morbideza! É uma perfeita madonna italiana!»—«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida lady!» O que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «—Que sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»
A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.
Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos da origem.
Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma confissão:—Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto, uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar, com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;—fallam dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens, das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.
Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença; envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca, por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia, se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros, elles lhes concedem.
Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez, Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de fidalguia; que por nós … continuariamos, calados, a ler um e a beber o outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.
Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á moda:—«Ah! as hespanholas!»—«Oh! as italianas!»—«Ai, as allemãs!» e julgariamos de mau gosto dizer em publico:—«As portuguezas!» até sem interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.
E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.
Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha gloriosa.
De certo não serão os leitores que m'o levarão a mal.
Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de todas as já estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas, como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria sómente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem merecem essa distincção.
As portuguezas não formam typo especifico, dir-me-hão talvez; são uma variedade apenas de especie mais vasta. Sempre desejava que conhecessem Cecilia, para que depois me dissessem a qual dos typos femininos, consentidos e sanccionados, pertencia a amiga de Jenny.
Se houvesse uma fórmula unica para a belleza feminina, chamar bella a qualquer d'estas duas mulheres, agora reunidas diante do leitor, seria condemnar a outra; tão diversas, tão oppostas até, eram aquellas duas physionomias em tudo! Mas não succede assim; tem tantas maneiras de se realisar a belleza, tantos meios de excitar em nós, no mais intimo do nosso peito, essas mysteriosas vibrações que nos arrebatam, que seria loucura disputar primazias em casos assim. E isto é como no mais.
Pois por serem bellos os vergeis do Minho, perdem a belleza as leziras do Vouga, ou até as paizagens alpestres de Traz-os-Montes?
Cecilia não era loura nem trigueira, nem d'aquella côr pallida, que sonham os poetas e de que os medicos desconfiam; tingia-lhe o rosto, graciosamente oval, um colorido que, em linguagem artistica, julgo que nem tem ainda palavra creada.
Se porém, á falta de termos, sempre lhe quizessem chamar pallida, deviam acrescentar, que era de uma pallidez, através da qual se presentia o sangue cheio de vida, que ás vezes a transformava na diffusa côr de rosa de um rosto de creança; os cabellos que, por um ondado natural, se erguiam levemente no alto da fronte, vacillavam entre o negro e o castanho escuro; os olhos, sim, esses eram negros devéras, e,—qualidade bem rara em olhos!—de uma discrição impenetravel. Olhos discretos, quando de ordinario são elles os que primeiro atraiçôam e inutilisam a reserva dos labios! Olhos, que ousam fitar-vos sem deixar fugir um segredo, nem desviar-se, por desconfiarem de si proprios! Discretos, mas expressivos de sympathia e de familiar bondade! Não se imaginam os encantos de uns olhos assim! E não julguem que são por isso incapazes de eloquencia; anime-os um dia a confiança e o amor, e verão os raios offuscadores que despedem! Mas o que elles não fazem,—e bem hajam por isso—é andarem por ahi a desperdiçar eloquencia, como esses implacaveis falladores, que em toda a parte se occupam a declamar discursos. Na conformação habitual dos labios, no sorrir, no mover da cabeça, em todos os movimentos e gestos emfim, havia, em Cecilia, uma tão completa ausencia de arte, tanta naturalidade e franqueza, que a vista deixava-se ficar, com prazer suave e sem timidez, a contemplal-a.
Ha um meio de reconhecer o genero de belleza, a que pertencia Cecilia—genero que eu sustento ser o nacional:—quando, junto de uma mulher formosa, vos sentirdes á vontade, sem que a razão se vos perturbe, sem que por galanteria vos julgueis obrigados a lisonjas, sem que fermente em vós o tanto ou quanto de poesia, que encerram todos os corações; quando suavemente dominados pela branda influencia de um olhar sem requebros, podérdes sustentar com essa mulher uma conversa affectuosa, sincera, leal, como a sustentarieis com um amigo ou com uma irmã; quando, ao separar-vos d'ella, lhe apertardes cordialmente a mão, sem que nem a vossa nem a sua estremeçam ao encontrarem-se, e finalmente trouxerdes d'essa entrevista uma impressão agradavel, que mais vos acalente do que vos agite os sonhos, ficae certos de que encontrastes um dos typos de que fallo.
Aviso-vos porém que os não julgueis pouco perigosos, apreciando-os pela placidez d'estes primeiros effeitos; se levaes em conta de ventura a liberdade do coração, fugi-lhes emquanto é tempo; pois, continuando n'essa convivencia intima, natural, insinuante, correis o risco de insensivelmente vos deixardes prender, se um dia, ao tentar terminal-a, surprendeis-vos devéras apaixonados; pela dor que experimentaes, conheceis então que fundas raizes lançára já o affecto.
Eu por mim julgo mais irresistiveis as paixões que se geram assim; as que nascem rapidas, teem evolução rapida tambem, e muitas vezes apagam-se em pouco tempo.
Vendo n'isto de paixões uma especie de doenças da alma, como alguns querem, era possivel talvez estabelecer n'ellas divisão analoga á que, nas do corpo, admittem os medicos. Haveria assim paixões agudas e paixões chronicas; umas, como as doenças do mesmo nome, geradas por impressões subitas, rapidas na sua marcha, promptas na sua terminação; outras adquiridas insidiosamente, por influencias de todos os dias, e de que nem se suspeita mal, lavrando a occultas e revelando-se apenas, quando o terreno já é seu e a victoria certa.
Quaes d'ellas zombam mais da arte, devem sabel-o medicos e doentes.
Mas, voltando a Cecilia, o seu conversar, ao qual dava realce o timbre de voz, vibrante e sonoro, tinha uma vivacidade e animação, direi até uma eloquencia natural, que entretinha a ouvir-se; no decurso de qualquer conversação, era notavel a frequencia com que lhe passavam a voz e as feições por contínuas e successivas alternativas de tristeza e alegria; como alternam nas campinas a sombra e a claridade, quando atravessam rapidas o ar, as nuvens impellidas pelo norte.
Era assim que, referindo acontecimentos tristes, uma ou outra circumstancia d'elles desafiava-lhe um sorriso ou uma observação jocosa, e que, no meio da historia mais jovial, não lhe passava despercebido qualquer ligeiro vestigio de sentimento que ella tivesse, e de repente lhe desapparecia o riso dos labios e os olhos reflectiam uma generosa melancolia.
Um dia, por exemplo, contava ella a Jenny, e contava-o quasi a chorar, o infortunio de um pobre centenario, a quem seu pae soccorrera. O desgraçado velho vivia n'uma casa miseravel, e, abandonado de todos, ia succumbindo á fome, quando Manoel Quentino o disputou compassivo a morte tão tormentosa.
—Se visse o pobre homem!—dizia então Cecilia, com tremor de compaixão na voz—se o visse! Como elle nos recebia, chorando e rindo, como me pegava nas mãos para as beijar! Como erguia ao céo aquelles olhos, quasi cegos pela velhice e pela desgraça! Fazia pena! Tão trémulo, tão curvado!…—E, de repente, vindo-lhe aos labios um sorriso, que ella não reprimiu, acrescentou:—E então n'aquella idade e n'aquella miseria toda, o cuidado que o pobresinho tinha ainda com o rabicho, que usava na cabelleira! Coitado!
De outra vez contava, rindo, o episodio caricato de certo operario, seu vizinho, que voltára, uma noite, a casa em completo estado de embriaguez, e atordoára a rua inteira com expansões de extemporanea alacridade, altercando, cantando e tocando até altas horas. Tudo quanto até alli referira lhe merecera sorrisos, mas, n'um instante, cobriu-se-lhe o rosto de profunda tristeza, e suspirando, proseguiu, cingindo a mão de Jenny:
—Mas não quer saber? Quando este homem estava mais contente, vieram trazer-lhe um cão, que elle estimava muito e que n'aquella mesma noite haviam envenenado nas ruas. Parece-me que estou ainda a ver como elle ficou; esteve por muito tempo calado a olhar para o pobre animal e depois desatou a chorar e a abraçal-o, chamando-lhe seu amigo, seu companheiro, até…—acrescentou, sorrindo—até seu irmão. Mettia realmente dó. E aquella gente a rir cada vez mais! Era aquillo para rir? diga.
Justeza de observação, talento para apreciar todas as faces dos sentimentos e das acções humanas, poucas vezes os dá o estudo no grau, em que ella naturalmente os possuia.
Não se podia pois, repetimos, dizer Cecilia apaixonada como uma italiana, pensativa como uma allemã, séria como uma ingleza, languida como uma hespanhola, coquette como uma franceza, porque de nenhum d'esses typos se aproximava; era verdadeiramente portugueza, e, para caracterisar estes, só conheço uma phrase, de que talvez o leitor se vá rir, mas pela qual eu tenho inexplicavel predilecção. Associa-lhe o meu pensamento tal conjuncto de qualidades physicas e moraes, que sempre que a ouço applicar, ella só suppre para mim uma longa descripção, e se for a analysal-a não lhe encontro de certo a comprehensão, que instinctivamente lhe attribuo. Se ao leitor succeder o mesmo, conceberá o typo de Cecilia depois de eu a pronunciar.
Cecilia era o que naturalmente a todos occorre chamar—uma pobre rapariga.—N'esta expressão nada ha que faça suppôr a belleza da pessoa a quem se applica, bem sei; nem em rigor se refere a qualidade alguma moral.
É certo; porisso não analyso. Succede porém que, quando de qualquer mulher, que não conheço, ouço dizer que é—uma pobre rapariga—, não sei por que a imagino bella, bella de belleza nacional e com um coração… como o coração de Cecilia.
Aqui temos a ingleza Jenny, que não poderia receiar confrontos com a sua amiga, nem em gentileza nem em bondade; mas, não sei porquê, lembrou-me chamar a Jenny anjo e fada, e hesitaria em definil-a, como defino Cecilia.
Accusar-me-hão de dar á filha de Manoel Quentino uma feição demasiadamente burgueza, com a phrase burgueza, pela qual a caracteriso. Folgarei de que seja merecida a critica, porque…—vá aqui mais outra confissão, em que revelarei a minha coragem—, eu sympathiso mais com os typos burguezes do que com os typos aristocraticos,—e em mulheres sobretudo. Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burgueza, e sem aspirações a deixar de sel-o, quando a trabalhar á luz do candieiro, do que a elegante dos salões, gastando a imaginação em problemas de toucador; a costura, a simples, a modesta costura, util e abençoada applicação da agulha feminina, agrada-me bem mais do que as bonitas futilidades do, reputado mais nobre, trabalho de bastidor; a mulher que a si propria se penteia, acho-a mais merecedora da contemplação do artista, do que a indolente que, reclinada n'uma poltrona e folheando o jornal de modas, entrega a cabeça ás mãos de uma criada ou do cabelleireiro. Esta, a ser copiada, basta-lhe por téla … um leque ou uma tampa de cartonagem.
Sim, Cecilia não tinha nada do typo aristocratico; n'isso era ella ainda genuinamente do Porto, cidade cujo principal titulo de gloria é o ter, em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia prescindir d'ella, para se engrandecer.
XII
OUTRO DEPOIMENTO
—Esteve doente, Cecilia?—perguntou Jenny, accommodando o chapéo da amiga.
—Não; porque m'o pergunta?
—Nem eu sei. Pareceu-me ler-lhe no rosto… e depois… veio tão tarde.
—Ai, menina,—replicou Cecilia, sorrindo e ageitando o cabello, que o chapéo desordenára—é que se soubesse… Hoje fiz de fidalga. Levantei-me depois das oito horas.
—Sim, preguiçosa? E querem então ver que se esqueceu de trazer aquelles cabeções, de que me fallou.
—Ágora. Olhe; trago esses e até mais alguma cousa…
—Bem, bem; vamos ver isso tudo—atalhou Jenny, com curiosidade.
E as duas raparigas foram sentar-se, uma ao lado da outra, no sofá proximo da janella.
—Veio só?—perguntou Jenny, momentos depois.
—Vim.
—Sem mêdo?… no dia de entrudo!…
—Mêdo nenhum. De minha casa aqui são caminhos, que podem dizer-se todos de aldeia. Quasi sempre por entre quintas e campos… Encontrei umas creancitas, que vinham da mestra, e conversei com ellas todo o tempo.
E continuando a revistar o interior de um sacco de marroquim verde com fechos de aço, Cecilia proseguiu, mudando de tom:
—Não julgue que lhe vou mostrar nenhuma preciosidade; foi uma distracção de meia hora no serão de sabbado. Esta semana tive tanto que fazer, que não pude occupar-me com estas bagatelas. Bem sabe que não me cresce muito tempo para brincar. Olhe.
E mostrava a Jenny um delicadissimo primor da arte feminina; um cabeção apenas, mas do qual, se me auxiliassem conhecimentos technicos, poderia fazer uma descripção, pelo menos do tamanho da que Homero consagrou ao escudo de Achilles.
Mas a sciencia das leitoras e a ignorancia provavel dos leitores n'este assumpto não lhes deixarão sentir a lacuna.
—Pois eu ia quasi dizer-lhe que inda acho este mais bonito, do que o outro que me mostrou ha dias—disse Jenny, demorando-se a examinar o cabeção.
—O desenho d'esse é mais delicado, mas… Ai!—acrescentou passando, a sorrir, a mão pelos olhos, e suspirando—parece-me que nem vejo, de somno que tenho!
—Somno! E levantou-se tão tarde! Que quer dizer isso hoje, Cecilia?
—É que me deitei hontem muito tarde tambem.
—A trabalhar?
Houve um intervallo de silencio, antes que Cecilia se resolvesse a responder. Jenny insistiu, elevando ao mesmo tempo os olhos para ella. Viu-a córando e como entretida a segurar um alfinete.
Os alfinetes são os principaes cumplices de todos os disfarces femininos. Sempre que uma mulher precisa de occultar um sorriso, uma turbação, um rubor, tem a certeza de encontrar estes amigos officiosos a servirem-lhe de pretexto. Ha sempre um alfinete a pregar, a despregar, e a repregar de novo.
A final porém, com visivel esforço sobre si mesma, Cecilia respondeu de uma maneira, que em vão procurou tornar natural:
—Não, Jenny, não foi a trabalhar.
Jenny presentiu um segredo n'aquelle enleio e hesitação, mas não tentou descobril-o; disfarçando as suas suspeitas, disse-lhe:
—Pôz agora de lado um trabalho de crochet, que me pareceu bonito.
Cecilia mostrou-lh'o, sem dizer nada.
E o silencio manteve-se algum tempo entre as duas, silencio de as constranger a ambas; até que emfim Cecilia, n'uma d'essas subitas resoluções tão frequentes n'ella, e pelas quaes parecia querer apressar-se a realisar um bom pensamento, antes que ulteriores reflexões viessem suffocal-o, pôz de lado, com certa impaciencia, toda a obra que tinha estendida no regaço, e tomando as mãos de Jenny, fitou os olhos, negros e cheios de vida, nos olhos azues e suavemente melancolicos, com que esta a seguia admirada:
Cecilia conservou-se ainda alguns momentos silenciosa e indecisa; mas por fim, córando mais e possuida de sobresalto, que não conseguiu disfarçar sob sorrisos:
—Jenny—disse com a voz trémula de commoção—eu sei que a menina é minha amiga, e julgo que o melhor é contar-lhe tudo…
—Seja o que for que tem para me dizer, se o que a faz hesitar é a duvida da minha amizade, posso assegurar-lhe, Cecilia, que…
—Não, não é, não podia ser—acudiu Cecilia, e por um movimento rapido, impensado, irresistivel, levou aos labios as mãos delgadas de Jenny, que não lhe pôde fugir a tempo.
—Que está a fazer?!—disse Jenny, rindo.
—Deixe-me; sabe como eu lhe quero, sabe a confiança que tenho em si, Jenny, pois não sabe? Mas é que … ha certas cousas que sempre custam a dizer.
Jenny sorriu com expressão particular; previa uma confidencia amorosa no embaraço de Cecilia.
Cecilia comprehendeu a significação d'aquelle sorriso, porque se apressou a dizer:
—Não, não é o que julga, Jenny. Não teria a menor hesitação em lh'o dizer, se fosse isso. Póde crêl-o.
Apesar da segurança, com que Cecilia o affirmava, duvido de que, tão sem custo, se resolvesse a fazer uma confidencia, que, sendo a primeira d'esse genero, faz titubear os mais arrojados. Mas acreditemol-a sob palavra, que não temos outro remedio.
—Seja o que for,—respondeu Jenny, procurando inspirar-lhe confiança—não deve ter escrupulos em m'o revelar. Escrupulos porquê? Não somos raparigas ambas? da mesma idade quasi?
—Mas a Jenny é tão differente de todas nós! Tem tanto juizo, que não póde deixar de estranhar certas cousas, que nós, as que temos a cabeça leve, fazemos sem pensar, e de que mais tarde nos arrependemos.
—Está a ser injusta ao mesmo tempo commigo e comsigo, Cecilia. Nem essa cabeça é leve, nem eu da sisudez que me faz.
—Pois bem,—continuou a filha de Manoel Quentino—estou resolvida a contar-lhe tudo, mas ha de prometter-me dizer no fim, com a maior franqueza, o que pensa do que eu lhe contar, sim? Olhe que ficamos de mal se me não disser a verdade, inda que me seja desfavoravel.
—Não ha de ser.
—Adivinho que será.
—Oh meu Deus! Cecilia, está a assustar-me—disse Jenny, jovialmente.—Ha no seu rosto e nas suas palavras tal expressão de terror, que me mette mêdo! Praticaria de facto algum crime?…
Estas palavras de Jenny, e inda mais o tom em que foram ditas, fizeram rir Cecilia, e attenuaram muito a timidez com que luctára até alli.
—O que eu quero então—disse ella—é que me deixe continuar, emquanto fallo, a cercadura d'este cabeção, que ficou em meio. Não sei de que é, mas acho-me mais á vontade tendo os olhos entretidos.
—Como quizer; mas n'esse caso, deixe-me occupar tambem os meus, examinando o fundo da sacca.
—Não trago mais nada, a não ser…
—Está bom, está bom: eu verei o que é. Principie.
Applicadas assim cada uma á occupação que escolheram, Cecilia principiou:
—Não sei se já lhe tenho fallado nas filhas do major Mattos, minhas vizinhas ha bastantes annos e antigas companheiras de mestra.
—Muitas vezes. Bem sei.
—Estas meninas são muito boas, muito minhas amigas, mas…
Jenny ergueu os olhos para Cecilia, sentindo-a hesitar.
Cecilia proseguiu:
—Mas sobretudo o que são…—digo-lhe isto a si, Jenny—são ainda mais amigas de se divertir. O genio do pae, tão alegre como o de qualquer rapaz de vinte annos, não desmereceu nas filhas, que todos os dias inventam novos divertimentos.
—É uma felicidade ter um genio assim, pois não é?—disse Jenny, examinando um pequeno bordado.
—Isso não vale nada,—acudiu Cecilia, reparando tambem—nem sei como o trouxe ahi.
Jenny arredou-a com a mão e fez-lhe signal que continuasse.
—Mas emquanto ás minhas amigas,—proseguiu Cecilia—trabalhadeiras são ellas; isso lá são, coitadas; mas, não faz ideia, n'uma hora de descanso… ás trindades, por exemplo, já não pensam senão em como hão de passar o domingo seguinte, e ahi vão lembrar ao pae um passeio pelo rio acima, um jantar na Pedra Salgada ou em Fonte da Vinha, um almoço a Leça ou á Foz, uma noite ao theatro, e é raro que o pae, que é perdido por ellas, não as satisfaça em alguns d'estes projectos, que de mais a mais lhe agradam a elle tambem, é preciso que se diga. Muitas vezes convidam-me e, devo-o confessar, teem-me valido muitas horas de verdadeira distracção, isso tem. É uma familia muito boa, e meu pae não põe a menor duvida em deixar-me ir com ella para toda a parte.
—Estava á espera de uma confidencia que me fizesse estremecer, espantar, e saem-me cousas tão naturaes e tão boas, que confesso-lhe, menina, chego a estar desgostosa—disse Jenny, fechando o sacco de marroquim, onde acabára de guardar todos os bordados e dando ás feições um fingido ar de mortificação.
Cecilia sorriu a esta reflexão, mas acrescentou:
—Ainda é cêdo. Não se apresse a julgar, que póde ter de contradizer-se depois. Havia muito tempo já… ora eu sei?… desde o anno passado, que estas meninas tinham entre si combinado um projecto, mais difficil porém de executar do que nenhum dos outros. Queriam por força que eu tomasse parte n'elle. Ao principio disse-lhes que não; mas tanto me pediram, tanto me convenceram de que não havia nada a receiar, que eu acabei por prometter que sim. Repare, Jenny, repare. Olhe que principia aqui o mau da minha historia. O projecto era…
—Espere; deixe ver se sei. Incendiar a cidade?
—Ora!
—Fazer uma revolução no paiz?
—Está a brincar?
—Partirem todas para a Crimeia?
—Jenny!
—Ás cautelas e hesitações, com que está…
—O projecto era irmos todas mascaradas ao theatro.
—Ah!—disse Jenny, não podendo reprimir um gesto e um movimento de estranheza.
Cecilia, que elevára os olhos para ella, percebeu-lh'os.
—Eu não disse? Veja como principia já a…
—Não é por isso, mas… Continue—replicou Jenny, com mais curiosidade, e não desviando já os olhos de Cecilia.
—Este projecto—proseguiu a filha de Manoel Quentino—tinha, como lhe disse, grandes difficuldades. O major, tão amigo de fazer a vontade ás filhas, não quiz ouvir fallar em tal. Ellas porém é que já não podiam tirar aquillo da ideia.
—E foram?—perguntou Jenny.
—Havia muito que andavam á espera de occasião. E o carnaval a fugir-lhes! Ha de haver porém tres dias que o major foi, por negocios militares, obrigado a saír da cidade.
—E então?…
—As filhas ficaram sós em casa com uma tia d'ellas, muito boa senhora, mas que não sabe recusar-lhes nada. Que mais queriam?
—Foram?
—Foram; hontem mesmo. Se parece que tudo se lhes preparou como ellas desejavam!
—E a menina?—interrogou Jenny, cada vez mais preoccupada com o que ouvia.
—Tinham-me convidado para ir de tarde a casa d'ellas. Depois de lá estar, mandaram, sem que eu o soubesse, recado a meu pae de que eu voltaria tarde, pois tinha de ir com ellas a uma reunião em casa de umas senhoras suas amigas.
—Visto isso…
—Era noite, quando me apresentaram um dominó e me communicaram o seu projecto. Eu ainda lhes puz algumas duvidas, mas…
—Foi?
—Fui. Ah! como está já tão séria! Não o dizia eu?
Effectivamente Jenny não teve poder de disfarçar a impressão, que lhe estava fazendo a confidencia de Cecilia, já pela natureza d'ella, já pela similhança, com a que do irmão ouvira poucas horas antes.
—Prometti dizer-lhe a verdade, Cecilia—principiou Jenny, tomando com affecto as mãos da sua amiga, que interrompera o trabalho já—e seria faltar á minha promessa occultar-lhe que me parece ter sido algum tanto aventurada essa resolução. Umas poucas de senhoras, sós, n'um logar como aquelle, onde dizem que concorre tanta e tão diversa qualidade de gente!… Emfim eu não sei bem, e pelos resultados e que melhor se póde julgar d'estes meus receios, que talvez sejam exagerados… e são de certo.
—Não são, não, Jenny. Olhe; eu, ao principio, para lhe fallar verdade, ia com certa curiosidade. Só me custava que tivesse sido necessario enganar meu pae, mas, como não fazia a menor ideia do que fosse um baile de mascaras, estava com desejos de ver; e, demais a mais, a irmã do major ia comnosco…
—E depois?
—Entramos no theatro, seriam dez horas, íamos todas mascaradas. Por signal que me ri muito com a mascara que levava a irmã do major. É notavel! foi a primeira que appareceu, e tinha alguma similhança com a cara d'ella. Assim como estas caricaturas, que logo á primeira vista se conhece de quem são.
E Cecilia quasi se distrahia com a incidente reflexão ácerca da mascara;
Jenny chamou-a porém ao assumpto.
—Mas vamos ao que lhe succedeu.
—Ah! é verdade. Andamos primeiro por alguns camarotes, em que estavam senhoras do conhecimento das minhas companheiras e a quem ellas fallaram, sem serem conhecidas. Diverti-me com isto. Que graça achei a uma senhora idosa, a quem se metteu na cabeça que nós eramos umas suas parentes de Braga, terminando em chamar-me a sua Joanninha! Coitada! ficou tão desconsolada, quando, espreitando-me os cabellos, conheceu que se havia enganado, que deveras fazia pena!—«E não é! veem, que tristeza a minha?!»—dizia ella tanto do coração, que eu não tive mão em mim, que a não abraçasse e beijasse; arrisquei-me assim a ser vista e a dar a conhecer as outras, que depois muito me ralharam por causa d'isto. Mas se eu não pude!