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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 28: XIV
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

—Vamos—disse Jenny, sorrindo á sensibilidade da amiga.—E o resto da noite?

—Ai, Jenny, o resto da noite…—respondeu Cecilia, suspirando, como se lhe fosse custosa a confissão, e continuou:—Entramos na sala. Nunca foi a um baile d'esses? Pouco perdeu. Que calor! que confusão! Um quarto de hora depois de alli entrar, já suspirava por saír; mas ellas nem pensavam n'isso. Era meia noite talvez, vim sentar-me, cansada, enfastiada de todo aquelle tumulto.

N'este ponto Cecilia parou, como se o que tinha para dizer lhe causasse maior perturbação.

Jenny não pôde deixar de sorrir pela similhança que esta parte da confidencia tinha com a do irmão.

—Pouco tempo depois—proseguiu Cecilia—veio sentar-se junto de mim… uma pessoa…

Um alfinete fez sentir, não sei como, a necessidade de que as attenções se applicassem todas para elle, e Cecilia não recusava attender, em taes casos, ás reclamações dos seus alfinetes.

Occupada portanto a pregal-o, ou não sei se a despregal-o, continuou:

—Uma pessoa que eu conhecia; olhou para mim e… comquanto não suppozesse quem eu era, fallou-me; respondi-lhe, e por muito tempo ficamos a conversar.

—Em quê?—perguntou Jenny, com modo natural.

A esta pergunta, Cecilia hesitou.

Passados porém alguns instantes, respondeu:

—Eu sei? Em muitas cousas; e é certo que bem agradavelmente; mas cêdo depois vieram outros, menos delicados do que este…

—Do que este?! Ai, visto isto era um homem? não tinha entendido bem—notou Jenny, com ligeiro ar de malicia.

—Era; pois que tinha eu dito? Ah! sim… uma pessoa. Era um homem, era. Os que vieram fizeram-me ver mais claro a imprudencia do passo que tinhamos dado.

Jenny não perdia agora uma só palavra, uma só inflexão, uma só cambiante de côr, que observava em Cecilia. Esta não o percebia, porque os alfinetes estavam de uma impertinencia, que nem lhe deixavam attender a mais nada.

No entretanto dizia:

—O mesmo succedeu ás minhas amigas; preparamo-nos logo para deixar o baile. Vendo porém que nos seguiam, soccorri-me ao cavalheirismo do que primeiro me fallou, e isso nos valeu.

—Ah!

—Serviu-nos de guia e protector através das ruas ainda cheias de mascaras; mas insistia depois em nos conduzir a casa. Tremi ainda mais com esta insistencia, do que com a dos outros. Este conhecia meu pae e se soubesse… Oh meu Deus!… Por mais que lhe rogassemos, não queria deixar-nos; eu, perdida de susto, pedi a Deus uma inspiração. A inspiração veio, e foi poderosa. Elle deixou-nos a final, e nós entramos em casa… mas eram quatro horas da manhã.

O que faltára á confidencia podia Jenny bem suppril-o de per si; desviando porém os olhos disfarçadamente, ponderou como se pretendesse desenganar-se:

—Falta-lhe agora dizer, Cecilia, para ser completa a confidencia, quem era esse homem e qual foi a inspiração que Deus mandou á menina.

D'esta vez tambem os alfinetes de Jenny parecia exigirem certos cuidados, que ella lhe concedeu.

Cecilia balbuciava com manifesto enleio:

—Ah! quem era?… não sei; isto é… quero dizer… era…

Jenny pegou-lhe na mão.

—Seja franca até o fim—disse-lhe em tom de insinuante amizade.—Esse homem era meu irmão.

Cecilia estremeceu e olhou espantada para Jenny.

—Como o sabe?

—Sei tudo—replicou Jenny, apertando-lhe a mão com affecto.—E sei tambem a inspiração que teve, e agradeço-lh'a.

—Sabe? Mas então…

—Carlos tem o costume de me contar tudo, e ainda esta manhã… ha pouco… me tinha dito…

—Tudo?—perguntou Cecilia de uma maneira particular e córando.

—Tudo—respondeu Jenny, dando a esta palavra uma inflexão e animando-a de um sorriso, que augmentaram a intensidade d'este rubor.

Como o leitor viu, tinha havido importante omissão na confidencia de Cecilia, omissão que aquelle «tudo» de Jenny lhe mostrava agora ter sido inutil.

—E que opinião fazia elle… que opinião fazia o snr. Carlos de mim?—perguntou Cecilia com verdadeira inquietação.

Jenny revestiu-se de seriedade e reflectiu algum tempo, antes de responder.

Não se imagina como se faziam extraordinariamente bellas as feições de Jenny sob a influencia d'este ar de reflexão, que tão frequente lhe fixava o olhar e lhe desenhava uma ligeira ruga na fronte.

Cecilia consultava com apparente sobresalto aquella physionomia expressiva.

—Olhe, Cecilia,—disse Jenny por fim—como a menina ainda agora o reconheceu, não foi por certo prudente o passo que deram. A necessidade de o occultar de seu pae era bastante prova d'isso, quando nada tivesse acontecido que melhor o provasse ainda. Carlos procedeu bem e mal; bem, em as proteger; mal, depois. Elle devia ter sempre na ideia, como eu lhe disse, que alguma pessoa bem educada, e que de facto tinha desejos de occultar-se, podia ser essa mascara que elle, depois de proteger, perseguia. Disse-lh'o ha pouco ainda, mas… sabe o que elle me respondeu?

—Que foi?

—Se eu lh'o digo, Cecilia, é para que a menina faça sempre o que lhe aconselharem os presentimentos do seu bom coração, e creia que são excellentes as inspirações que lhe vierem d'ahi. Quando eu dizia a Carlos que imaginasse que era eu mesma a que estava debaixo d'aquelle dóminó, e a que me via perseguida, respondeu-me que não havia probabilidade d'isso, porque… pessoas que…

—Oh! não diga mais, Jenny, não diga mais—atalhou Cecilia, quasi fechando-lhe os labios com a mão; e os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas que, umas após outras, lhe rolaram pelas faces.

Era uma das irresistiveis expansões d'aquella impetuosa natureza.

—Bem vê, Cecilia—proseguiu Jenny com affecto—bem vê que não tinha razão Carlos, no que suppunha. A culpa toda era d'elle. E agora não se afflija, menina. Affligir, porquê? Foi uma brincadeira de raparigas e sem consequencias além d'aquellas—acrescentou, sorrindo—de que nem a inspiração, que Deus lhe mandou, a pôde livrar. E se isto a faz chorar assim, o que ha de deixar para os infortunios reaes?

—Jenny, prometta-me nunca dizer a… a ninguem que era eu…

—Socegue. Dentro em pouco nem eu mesma o sei já.

—Oh! meu Deus só o suppôr!…

Jenny conseguiu serenar a rapida tempestade, que turvára o espirito de
Cecilia, e distrahir-lhe a attenção para outros objectos.

Antes de saír de casa de Mr. Richard, já ella tinha rido, e quando entrou na sua, trazia o espirito tranquillo, e respirava com o desafôgo dos dezoito annos, e d'aquella indole sem preoccupações.

Feliz idade e feliz coração!

XIII

VIDA PORTUENSE

Manoel Quentino habitava em uma rua proxima do extremo occidental da cidade, afastada assim do maior bulicio d'ella—bulicio que, desde as tres horas da tarde até ás seis da manhã, era para o guarda-livros insupportavel.

Os gostos de Manoel Quentino tinham de facto variações diurnas tão regulares, como as de um instrumento meteorologico.

Nas horas de vida commercial impacientava-o o socego do bairro em que vivia; ao romper do sol por detraz dos outeiros, que elle avistava ao longe das janellas do seu quarto, tomava-o a febre do trabalho; o cantar matutino das aves por entre os arbustos do quintal, a não ser aos domingos e dias santos, não o tentava a ficar a ouvil-as; parecia que mais bellezas de harmonia achava nos gritos dos vendilhões, que enchem as ruas da cidade baixa. Pelo contrario, ao declinar da tarde, entrava-lhe no coração a nostalgia domestica; começava a odiar o escriptorio, a rua dos Inglezes, o borborinho das praças, e a suspirar, como o expatriado, pela alegria do regresso; extasiava-se em ver de casa descer o astro do dia, e sumir-se no oceano; espectaculo magnifico, ao qual da varanda da sala do jantar assistia com o prazer do espectador que de um camarote de frente presenceia fascinado a vista final de gloria de um drama sacro.

O arranjo interior da pequena casa de Manoel Quentino exprimia certo bem-estar, certo conforto, que principiava a querer transpôr os limites que o separavam do luxo.

Permittiam-o os ordenados que Manoel Quentino, como primeiro guarda-livros, recebia das mãos de Mr. Richard, mãos nunca tão apertadas, que não deixassem saír algumas mealhas mais do que o ajustado.

Preciso é porém confessar que o espirito economico e a intelligente administração de Cecilia concorriam em grande parte para este resultado. Pelas suas mãos, de bem pequenas afeitas ao tracto domestico, tão escrupulosamente regulados andavam os capitaes, que não só satisfaziam ao necessario, mas derivavam-se ainda para o que se póde já dizer superfluo.

Escusado é quasi acrescentar que Cecilia era o idolo de Manoel Quentino. N'ella se concentravam todas as affeições do velho. Tinha apenas seis annos a filha, quando lh'a deixára confiada a esposa, que elle chorava ainda; emquanto cercava a innocente de constante vigilancia e de cuidados assiduos que, por inspirações do coração, soubera amenisar de carinhos e de meiguices verdadeiramente maternaes, robusteceu-se-lhe aquelle amor a ponto de referir d'ahi por diante a elle todos os outros sentimentos, que o moviam.

Nunca lhe pareceu demasiada qualquer despeza feita com Cecilia.

Empenhou-se em dar-lhe uma educação esmerada, e conseguiu-o.

Exultava de prazer, vendo crescer em vida, em intelligencia, em bondade, aquella bonita creança, junto de cujo berço velára noites e noites, scismando no futuro d'ella.

Pouco a pouco deixára-se possuir de um respeito, de uma veneração pela filha, que tinham seus vislumbres de idolatria.

A primeira madeixa loura cortada aos cabellos de Cecilia, ainda menina, trazia-a o velho sempre comsigo, como talisman milagroso; o menor bilhete, dos que ella lhe escrevia para o escriptorio, a respeito de qualquer negocio domestico, archivava-o, como reliquia, que seria profanação deixar perder.

Tinha puerilidades Manoel Quentino!… puerilidades que só farão rir aos poucos, que não as tenham tido iguaes. Movia-o, quasi até ás lagrimas, qualquer phrase affectuosa d'aquellas insignificantes correspondencias.

Como elle era feliz lendo, no alto do bilhete, por exemplo: «Meu bom pae» ou «meu querido pae», e no fim d'elle—«sua extremosa filha» ou «sua filha obediente».

Por irresistivel impulso aproximava dos labios aquellas palavras e beijava-as com fervor.

Quando, no meio do trabalho quotidiano, que elle, como vimos, executava com uma fleugma e regularidade, que deviam fazer suppôl-o homem pouco sujeito a expansões, a ideia de Cecilia lhe passava pelo espirito, tinha movimentos de creança.

Pousava a penna, interrompia a conta, correspondencia, ou o que quer que fosse em que estivesse occupado, para esfregar as mãos de contente, como o rapaz de escola ao acudir-lhe de subito a lembrança de um feriado proximo.

Ás vezes não resistia a dar dois passeios no escriptorio, trauteando, e a vir á janella, com a penna na orelha, a espreitar, por entre os vidros, a altura do sol.

Ao voltar a casa, Manoel Quentino não se distrahia pelas ruas; procurava as travessas e atalhos mais solitarios, para evitar importunos; tardava-lhe a conversa da filha.

Quando na presença d'elle se fallava em alguma epidemia, que principiasse a ameaçar a cidade, já o bom homem não podia dominar um terror intenso; revelava-se-lhe no semblante em caracteres bem evidentes e havia-lhe conquistado a reputação de pusilanime, entre os seus collegas mais novos; já até se divertiam, mal suspeitavam com que crueldade, a despertar frequentes vezes estes receios pânicos.

A ideia do risco pessoal não era porém a que o fazia empallidecer; um só receio, uma só lembrança o torturava então, era a do perigo que podia correr a vida de Cecilia.

Não se concebe em que especie de loucura o lançou uma doença da filha. O serviço do escriptorio foi pela primeira vez perturbado na sua marcha regular, e a correspondencia, em cuja nitidez caprichava Manoel Quentino, não raro lhe saía das mãos toda manchada de lagrimas. No dia em que o medico lhe deu, sorrindo, a certeza de que Cecilia estava salva, Manoel Quentino não teve mão em si, que se não atirasse, a rir e a chorar, aos braços d'elle, chamando-lhe seu bemfeitor e beijando-o com paixão.

Esta crise exacerbou aquelle já extremoso amor de pae.

Não havia sabbado em que Manoel Quentino, parco em excesso talvez comsigo, e que por isso grangeára entre os amigos a immerecida reputação de avarento, entrasse em casa com as mãos vazias, sem um mimo, uma lembrança para Cecilia, arrostando com as meigas exprobrações d'esta e com seus mal simulados arrufos.

Quantas vezes elle fazia, como costuma dizer-se, vista grossa para o azulado ameaçador dos cotovêlos e das costuras do casaco, para as quebras lastimosas do seu chapéo de seda, só com o fim de poupar algumas libras e comprar um chaile, uma marqueza, um vestido novo a Cecilia!

Só depois de repetidas insinuações, pedidos, e até affectuosas ameaças da parte da filha, só depois d'ella haver esgotado os mil recursos da sua eloquencia, é que Manoel Quentino se decidia emfim a olhar por si e a attender ás necessidades proprias.

O meio mais poderoso a que, para isso, Cecilia recorria era pedir-lhe que a acompanhasse a um logar publico qualquer. Então o guarda-livros, que não aprendera a recusar-lhe nada, promettia, scismava, coçava a orelha, examinava o fato, torcia o nariz, resmungava e, no dia ajustado, elle ahi se apresentava de uniforme novo para servir de cavalheiro á filha.

A ideia de a fazer passar por uma vexação realisára o milagre e vencera a sua modesta repugnancia.

Cecilia sabia-se objecto d'este culto, e retribuia-lh'o com attenções e carinhos, que deixavam comprehender ao pae o que devia ser a felicidade suprema.

O leitor, costumado a passar a noite no theatro, nos bailes ou nas assembleias, mal póde fazer ideia do prazer intimo com que Manoel Quentino via escurecer a tarde e scintillarem, ainda pallidas, as primeiras estrellas no céo.

Preparava-se-lhe um d'esses gôsos placidos, que são mal concebidos por quem d'elles anda arredado em habitos de vida mais turbulenta; mas aos quaes não ha talvez caracter ou temperamento humano, que não corra o perigo de habituar-se, se por algum tempo lhes experimentar as doçuras.

É mais facil, e mais vezes se realisa, a transição da vida errante, tumultuosa e agitada para estes monótonos prazeres do viver domestico, do que a inversa; como se o pendor natural da indole do homem o chamasse mais para alli.

Os serões de Manoel Quentino, aquelles seus tão apreciados serões, passavam-se todos com uniformidade tal, que, por um, se ficava, com raras excepções, a conhecel-os todos.

O fim da tarde e a noite d'aquelle dia, em que se passou a parte das scenas, que havemos descripto até aqui, podem offerecer-nos uma perfeita amostra d'elles.

Manoel Quentino, depois de jantar, viera assistir, da varanda do occidente, ao espectaculo do crepusculo e regalar a vista por sobre as quintas, jardins, casas e alamedas do vasto panorama que o mar cingia de zona prateada.

A tarde estava de chuva, mas o vento de sudoeste conseguira romper o extenso manto, que cobria o firmamento, e mostrando um pouco do azul da abobada celeste, deixava que o sol no occaso dourasse as ultimas nuvens, que d'aquelle lado limitavam o horizonte.

As occupações domesticas de Cecilia só de quando em quando lhe permittiam assomar tambem á varanda, e recostando então o braço ao espaldar da cadeira do pae, fazia notar a este as particularidades de belleza d'aquelle vasto quadro, que o espirito pouco analytico do velho sómente apreciava em globo.

—Repare n'aquella nuvem côr de rosa. Não parece mesmo uma ave com as azas abertas?—perguntava Cecilia, designando uma das taes nuvens, que o sol tingia os reflexos afogueados.

—Uma ave!—dizia Manoel Quentino, fitando o objecto designado—Então como te parece uma ave aquillo, menina?

—Pois não acha? Olhe; vê alli a cabeça, depois uma aza, depois a outra?
Olhe, agora inda parece mais; até a cauda se conhece bem…

—Eu… se queres que te falle verdade…—continuava Manoel Quentino, sem perceber ainda a similhança.

—Olhem que pae este! Pois devéras não vê? Para onde é que está a olhar?

E Cecilia vinha collocar a sua bonita cabeça na posição da de Manoel Quentino, e tão perto, que o pae não perdia o ensejo de lh'a beijar na fronte.

—Ora diga, pois não lhe parece uma ave aquillo?—insistia Cecilia.

—Eu… Ah! agora sim!—exclamou o velho, tendo a final percebido a similhança—Agora, sim, senhora! Lá está, e que grande bico que ella tem! Eh! eh! eh!… Ora o diacho!

—A menina faz favor de chegar aqui.

Era a criada Antonia, que reclamava o conselho de Cecilia em alguma difficuldade de administração domestica.

Antonia era um tão genuino typo de criada de servir, que dispensa a descripção.

Cecilia retirou-se da varanda. Manoel Quentino permaneceu com os olhos fitos no sitio, para onde lh'os dirigira a filha, até que a nuvem côr de rosa de todo se descoloriu e desformou.

Então baixou-os para a terra e scismava… na sua felicidade.

Passados instantes, Cecilia aproximou-se pé ante pé, e, sem ser presentida, veio por detraz d'elle e tapou-lhe os olhos com as mãos, perguntando:

—Adivinha quem eu sou?

—Ora tem muito que adivinhar!—respondeu Manoel Quentino, gracejando—pelas mãos se conhece logo. É a aguadeira.

—Ora vamos!—exclamou Cecilia, rindo—Mas para onde é que estava a olhar assim entretido, que nem me viu?

—Estava a ver umas obras, que além se andam a fazer. Aquillo, se me não engano, é na casa do conselheiro Arantes.

—Ora se ha de olhar para acolá, para aquellas arvores, põe-se a reparar n'essas casarias! Não lhe appetecia estar alli, debaixo d'aquelles carvalhos?

—Não é nenhum impossivel; se quizeres…

—Então promette levar-me lá?

—Prometto tudo o que tu quizeres.

—Veja o que diz! Depois, se lhe pedir alguma cousa difficil!

—Eu já estou costumado ás tuas exigencias.

—Sim? pois eu tenho uma cousa a pedir-lhe.

—Ha de ser grande.

—E é, promette fazel-a?

—Dize lá.

—Mas promette?

—Mas dize primeiro.

—Não, senhor, prometta antes.

—Bem sabes que te não digo que não.

—Mas então que dúvida tem em prometter?

—Está bom, prometto.

—Dá-me a sua palavra?

—Dou a minha palavra—disse Manoel Quentino, rindo.

—Pois o que eu queria pedir-lhe—disse Cecilia, passando os dedos por entre os cabellos brancos do pae—era que comprasse outro guarda-chuva, que, a fallar verdade, aquelle sempre está!…

—Ora! cuidei que era outra cousa!

—Não importa; mas prometteu.

—Pois sim; mas escuta…

—Ágora escuto, que tenho mais que fazer.

E retirava-se apressada para não ouvir, dizendo:

—Não quero saber, prometteu!

D'ahi a pouco era o pae que a chamava.

—Cecilia, ó Cecilia! anda depressa ver um vapor no mar.

Cecilia correu á varanda.

—Vês?

—Agora estou como o pae ha pouco com a nuvem.

—Pois não vês?! Olha; aqui mesmo ao direito d'aquella chaminé; entre aquella entre-aberta de pinheiros.

—Bem vejo. Entra ou sáe?

—Quer entrar; mas com o rio assim! Aquillo é vapor inglez. Ora traze-me o oculo.

—Agora é quasi noite e não póde distinguir nada. E demais está frio, não será mau fechar a janella e vir cá para baixo. Eu tenho tambem de trabalhar e preciso de accender luz mais cêdo.

—Pois então vamos.

Principiava então ainda mais agradavel passa-tempo para o honesto guarda-livros.

Desciam para a sala contigua ao quarto de Manoel Quentino; sala modestamente mobilada, mas em cada particularidade da qual se revelava o bom gosto de Cecilia. Se alli dentro se não encontrava nenhum movel de alto preço, nenhum objecto de elegancia luxuosa, não havia tambem as ridiculas demonstrações de um gosto grosseiro, amontoadas sem ordem, adquiridas sem escolha.

Descobria-se em todo aquelle recinto um asseio e conchego, que fazia bem contemplar.

Manoel Quentino sentava-se junto da mesa do trabalho, em uma cadeira de braços, verdadeiramente patriarchal; Cecilia trazia luz, fechava as janellas, pousava a cesta da costura e vinha sentar-se ao lado do pae.

Manoel Quentino contava alguma cousa do occorrido no escriptorio;
Cecilia correspondia-lhe, referindo o que, na ausencia de Manoel
Quentino, succedera em casa.

N'aquella noite o pae fallou muito de Carlos, das suas travessuras, do seu estouvamento, dos enganos que n'aquella manhã lhe fizera ter na escripta, do episodio da agua-ardente, dos sentimentos de Mr. Richard para com o filho, e sobre tudo do bom coração do rapaz.

Cecilia escutava-o com attenção, sem nunca o interromper com perguntas, mas tambem sem nunca levantar os olhos da costura, para os fitar no pae.

N'isto retiniu a campainha do portal.

—Ahi está o homem—disse Manoel Quentino.

—Antonia, vá alumiar—bradou Cecilia.

Ouviu-se Antonia descer pesadamente as escadas, depois algumas palavras trocadas no portal, os passos de duas pessoas subindo, e o homem, que Manoel Quentino parecia esperar, entrava para a sala, tirando o chapéo e cumprimentando os circumstantes com a invariavel fórmula:

—Muito boas noites, snr. Manoel Quentino; muito boas noites, menina.

Este homem era um vizinho e amigo de Manoel Quentino, que, havia muito tempo, ganhára o habito de vir todas as noites alli ouvir ler os jornaes, tomar chá e sustentar com o guarda-livros o mais soporifero e descosido dialogo que se póde conceber, retirando-se emfim, ao bater das nove horas, depois de agasalhar o pescoço com uma manta de lã, a qual levava sempre de prevenção para toda a parte. Chamava-se José Fortunato; fora em tempo negociante de cereaes; n'esta época era proprietario de predios velhos, possuidor de papeis de credito, homem de habitos pacificos e ideias conservadoras, modesto no vestir, discreto no fallar, fazendo ao jantar o seu forte no cozido, e, entre as maiores extravagancias da sua vida actual, contando a de comprar, de quando em quando, uma lagosta para comer de salada.

Era d'estes sujeitos, fieis observadores das leis commerciaes, e rigorosos nas suas contas, a ponto de poderem parodiar uma das petições do Padre-nosso, dizendo:—Fazei que nos paguem, Senhor, as nossas dividas, assim como nós pagamos aos nossos credores.

Esta quotidiana visita a Manoel Quentino tornára-se já para o snr. Fortunato uma necessidade, e de igual fórma a presença e o conversar do ex-negociante de cereaes, com quanto pouco ferteis em distracções, não eram menos precisas ao pae de Cecilia, que estava n'aquella idade, em que os habitos imperam com mais força, e menos se amoldam os genios ás exigencias de habitos novos.

Passados os cumprimentos de tarifa, José Fortunato tomava assento ao lado de Manoel Quentino, e principiava entre elles um dialogo, que, com as variantes que o leitor prevê, era d'este teor a fórma:

—Muito frio, snr. Fortunato—dizia um.

—E muita chuva—respondia o outro, ageitando-se.—Esteve hoje lá em baixo?

Pergunta ociosa.

—Estive.

—Então que se diz de novo?

—Nada.

—O rio vae muito cheio?

—Parece que começa a abaixar um pouco.

—Sempre está um tempo, santo nome de Deus!

—E que desgraças tem já causado!

—Que eu dou-me melhor com o frio—acrescentava d'ahi a instantes Manoel
Quentino.

—Eu lhe digo, eu tambem, para que digamos, não passo mal no inverno; tenho mais appetite; mas esta catarrhal…

Tossia, para exemplo.

Todos os dias diziam isto um ao outro.

—Para as terras é que isto vae mal.

—Já tudo está por a manta de Judas.

Phrase da linguagem popular, que quer dizer, não sei por quê, que tudo está caro.

—Pois a carne?!

—Se deixam ir todo o gado para o estrangeiro! Devia fazer-se uma lei, que prohibisse esse desafôro.

Alvitre economico, que ainda não perdeu de moda.

—Isto está o diacho!

Este apophthegma fechava quasi sempre e com chave de ouro o dialogo.
Calaram-se os dois.

Cecilia, que esperava por este silencio e já por habito sabia o que significava, ia então buscar as folhas do dia e preparava-se para ler; os dois velhos dispunham-se a escutar.

Qualquer d'elles experimentava um prazer indefinivel em ouvir ler
Cecilia.

Lia com tanta intelligencia e graça, que o snr. José Fortunato confessava, que muitas vezes, ouvindo-a, entendia cousas, em que debalde tentára penetrar, a grandes esforços de leitura propria.

Era uma scena curiosa aquella.

A compaixão paternal só perdoava a Cecilia a secção dos annuncios; o mais tudo lhes lia a condescendente rapariga; o artigo de fundo, com resignação; com intrepidez, as noticias estrangeiras; com curiosidade, as locaes; o folhetim, com mais vontade; e tudo sem o menor constrangimento, que podesse aguar aquelle prazer dos seus ouvintes.

O genio de Cecilia nem sempre lhe permittia proceder, sem commentarios, áquella leitura toda. A apologia exaltada do governo interrompia-a ella ás vezes com um áparte, capaz de produzir crise ministerial, se fosse escutado nas camaras; uma catilinaria, acerbamente opposicionista, desafiava-lhe reflexões, que neutralisavam o contagio anti-governamental que principiava a fazer das suas nas profundas convicções de ordem do snr. José Fortunato.

O leitor deve estar certo de que, por aquelle tempo, monopolisavam a curiosidade publica as variadas peripecias da guerra da Crimeia.

Cecilia era obrigada a ler aquellas descripções de carnificina, que todos os dias enchiam as columnas dos periodicos; isto o fazia ella sempre com a fronte contrahida de desgosto.

Manoel Quentino era pelos alliados, José Fortunato esposava a causa dos russos—um e outro sem saberem bem porquê. Cecilia era só pelos mortos e feridos.

Um dia parou no meio da descripção de um dos mais sanguinolentos encontros dos dois exercitos, para interpellar o pae sobre a causa d'esta guerra implacavel.

A pergunta embaraçou consideravelmente Manoel Quentino, que olhou para o snr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxilio d'alli; o snr. Fortunato o mais que pôde dizer foi:—«Que a guerra era lá por causa de umas cousas».

Cecilia tambem não exigiu saber mais.

—«Os russos…—leu ella n'aquelle serão—fazem fogo durante a noite sobre o campo dos alliados; estes absteem-se de responder.»

—Teem mêdo—commentou logo o snr. José Fortunato com um sorriso.

—Isso é plano!—acudia Manoel Quentino, com ares de quem entrava no mysterio.

—«Os atiradores alliados respondem porém de dia com proveito»—continuava a ler Cecilia.

—Então? era ou não era plano? Eu logo vi—exclamou Manoel Quentino, exultando.

—Balas perdidas—replicava o outro, encolhendo os hombros com desdem.

—«Os soldados—proseguia Cecilia—pedem com enthusiasmo ao general em chefe, que dê a batalha»—e, acabando de ler isto, fez um gesto de aversão.

—Pois vão para lá!—respondia o snr. José Fortunato, como homem que conhecia a preceito os recursos de defeza da praça.

—«Em Sebastopol ha duas mil bôcas de fogo»—lia ainda Cecilia.

José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e triumphante; parecia que o convidava a atacar, propondo-se elle a defender com aquelles auxiliares.

Em seguida Cecilia leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o commando do exercito da Asia.

Foi a vez de Manoel Quentino pagar o gesto do outro, como se depositasse grande confiança no Vassif e nas operações campaes do exercito da Asia. Mas o gosto de triumpho foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de janeiro, partira para a Crimeia, Ulrich, que elle não sabia quem era, com a guarda imperial franceza; José Fortunato só teve, a compensar-lhe o receio d'esta acommettida, a noticia de que estavam seis mil russos em Pruth.

As noticias locaes eram o terreno neutro, onde caminhavam a par, e sem conflicto, as curiosidades do auditorio.

Uma cousa não podia Cecilia perdoar aos localistas, era que tratassem levianamente certos assumptos tristes: a prisão de um pobre, uma desordem domestica, uma tentativa de suicidio, por exemplo. Impacientava-se com isto, e formulava um voto de censura, que Manoel Quentino e José Fortunato apoiavam.

O noticiario vinha então abundante de descripções de desastres, causados pela cheia do Douro.

Era com consternação que Cecilia lia a narração de tantas miserias. Commoveu-a sobre tudo um facto verdadeiramente tragico, do qual ainda haverá talvez no Porto quem conserve memoria. O irmão de um piloto de um dos navios que a corrente arrebatára, depois de tentar em vão salvar o irmão em perigo, perdeu a razão, vendo-o succumbir; e esta dupla catastrophe feriu de morte o velho pae de ambos. Manoel Quentino, que tinha razões para saber o que era o amor de pae, limpou uma lagrima a occultas. José Fortunato, com ser boa creatura, tinha, em circumstancias assim, certas observações sêccas, de fazerem perder a paciencia a um santo.

Ouvindo ler aquillo, disse:

—Ora! Isso é historia! Os gazetilheiros ás vezes…

—Historia! Ó snr. Fortunato, por quem é!—exclamou Cecilia impaciente—Lembre-se de que é um irmão a querer salvar um irmão, e a vel-o morrer; de que é um pae que perde dois filhos; não acha ainda razão de mais para a morte ou para a loucura?

—Pois então o outro que não fosse metter-se ao perigo; devia lembrar-se…

—Ora devia lembrar-se!… quem se lembra de nada n'aquelles momentos? O snr. Fortunato tem cousas!

Fortunato já estava arrependido do que dissera.

—Com menos motivos—acudiu Manoel Quentino—se arriscou ha tempos na Foz o Carlitos, lá o filho do meu patrão. Virou-se no meio do rio um pequeno barco valboeiro, que ía governado por duas creanças, uma das quaes nem sabia nadar; e elle, que andava ás gaivotas com outros inglezes—que é o seu gosto—não esperou mais nada e zás… mergulhou como um peixe e salvou a creança. Depois continuou a caçar, com a roupa molhada no corpo, inda por muito tempo, em termos de ganhar qualquer doença.

Cecilia estava tão entretida a examinar não sei o quê, que vinha no periodico, tão perto tinha os olhos das lettras, que julgo nem dava attenção ao episodio, narrado por Manoel Quentino.

É verdade que, assim que o snr. José Fortunato, depois de ouvil-o, disse, com os seus modos sêccos:—«Estroinices», Cecilia levantou a cabeça com impeto e fitou-o córando e com uma expressão, pouco lisongeira para o velho.

Eu não sei bem explicar este movimento em uma pessoa distrahida, como ella estava, movimento, que aliás não teve consequencias, pois, voltando á posição anterior, passou a ler o folhetim.

Esta parte ouvia-a Manoel Quentino dormitando. Não lhe levem isto a mal os folhetinistas. José Fortunato, pelo contrario, ouvia-a com ardor; a maneira de ler de Cecilia inoculára-lhe o gosto dos romances. Tomava agora pelas peripecias um calor exagerado. Para elle era ponto de fé que tudo aquillo acontecera, e que tinham vivido, ou viviam ainda, os personagens, entre quem se travava a acção. Censurava por isso com a mesma violencia, e louvava com a mesma satisfação esses heroes phantasiados, como se fossem membros reaes da sociedade.

Lido o folhetim, Cecilia passava o jornal ao snr. Fortunato, e ia tratar do chá. Fortunato lia para si os annuncios.

Manoel Quentino passava então pelo somno.

Depois travava-se entre os dois um dialogo, todo cortado de bocejos contagiosos;—os assumptos eram para estes effeitos. Eis o programma d'esta noite:

Primeira parte:—Fortunato principia por dizer—«Pois é verdade.»—Replica-lhe Manoel Quentino—que a vida estava para elle.—«Queixe-se, que tem de quê»—diz o outro—«E não tenho pouco»—responde Manoel Quentino. Dois bocejos de ambos os lados, e pausa.

Segunda parte:—Manoel Quentino queixa-se de umas dores de cabeça.—Fortunato attribue-as ao tempo e esfrega os olhos. Manoel Quentino inclina-se a que seja antes do estomago. O outro aconselha-lhe que não use de café ao almoço. Bocejos reciprocos.

Terceira parte:—O snr. Fortunato, olhando para o tecto, nota que a sala tem diminuto pé direito. Manoel Quentino responde que, para a largura, é o bastante. O outro diz algumas palavras sobre as vantagens dos estuques. Manoel Quentino concorda e procura uma transição para fallar contra os senhorios; Fortunato responde-lhe com uma diatribe contra os caseiros. Reproduz-se um bocejo em Manoel Quentino, que se transmitte ao outro.

Quarta parte:—Fortunato diz que está a expirar o carnaval. Manoel Quentino replica que lhe não deixa saudades. Fortunato faz igual declaração. Manoel Quentino vê com maus olhos a chegada da quaresma, por causa das confissões. Discute-se quaes os confessores mais passa-culpas. Manoel Quentino lembra-se de perguntar quem inventaria isto de confissões. Fortunato fal-as remontar ao tempo dos romanos, supremo grau de vetustez, e d'elle conhecido.

D'esta vez os bocejos ficaram em meio, graças á entrada de Cecilia e de
Antonia com o taboleiro do chá.

Era notavel a transformação, operada em Fortunato. Alegrava-o o aspecto das tostas e do leite. Então que querem? Não era que o homem precisasse d'aquillo; mas emfim todo aquelle apparato bulia-lhe com a sensibilidade gustativa e, por os mysteriosos laços do physico e do moral, lá se lhe ia entender com a alma por fim.

Esta satisfação interior desentranhava-se em amabilidades para com a
Hebe domestica d'aquella ambrozia—a snr.ª Antonia.

—Ai, snr.ª Antonia—dizia elle—assim é que é; cada vez mais nova.

—Não me diga isso, snr. Fortunato; logo eu, que estou acabada.

—Acabada! Ainda mal principiou…

Eu não sei se era intenção do snr. Fortunato terminar aqui a oração, cujo sentido fica um tanto obscuro. E não o sei, porque n'este ponto Cecilia interrompeu-o, dizendo-lhe:

—Faz favor de ver se está bom do assucar, snr. Fortunato.

—Excellente, menina; mas faz-me favor de mais uma colherinha. Assim, muito bem; mais uma agora e mais nada… assim… agora mais não. Está muito bem.

Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o snr. Fortunato principiou a fallar, misturando na bôca as palavras com chá, com leite, e com tostas e bolos.

—Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da prisão.

—Pois quem foi preso?—perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na folha.

—Então não ouviu?—disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo—Ella foi bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse…—Aqui o snr. Fortunato engrossou a voz.—«Eu sou a ultima das tuas victimas!»—E o filho então é que veio a saber d'isto: sim, porque até alli não sabia nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do commendador é que tinha dado o dinheiro, que elles entregaram á tal viuva do cunhado do escrivão.

Manoel Quentino mexia machinalmente o chá, olhando boquiaberto para o amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do snr. Fortunato gesticular, voltado para elle.

—Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!

—Então não leu?—teimava o outro—Elles tinham combinado que, logo que partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador; e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas…

—Mas quem demonio é essa gente toda? Que mexerofada de cousas!—exclamou Manoel Quentino, devéras impaciente.

—Então não ouviu?—insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade de expressão se exacerbava ao expôr as enredadas aventuras de um romance francez.

Cecilia, que ao principio não attentára no dialogo comico, que se estava trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por elle.

—Mas onde aconteceu isso tudo, homem?—perguntava Manoel Quentino.

—Em Paris. Pois não…

—O pae não vê que o snr. Fortunato está a fallar do romance?

—Ah! isso sim.

—Pois que cuidava?

—Eu sei lá o que cuidava. Eu cá de romances não entendo. E agora por isso lembra-me que aquelle endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me havia de emprestar lá uns romances… Eh! eh! Tem diabo o rapaz.

—Tambem está um estroina!—disse o snr. Fortunato, que era dos que tinham Carlos na conta de homem perigoso.

—Mas deixe lá, que é uma boa alma!—respondeu Manoel Quentino—Ninguem lhe póde querer mal. É capaz de tirar a camisa do corpo para soccorrer um pobre. Ahi está que uma vez viram-o, era ainda dia claro, entrar na cidade, trazendo o cavallo á arreata e na sella vinha uma pobre velha, que elle encontrou na estrada com um pé desmanchado; outro que fosse… Ó Cecilia, então? onde tens tu o sentido, que nem reparas que alli o snr. Fortunato tem ha tanto tempo a chicara vazia?

—Ai, perdão—disse Cecilia, córando pela distracção em que caíra.

Não sei bem por que isto a fez córar assim; mas o facto deu-se.

O snr. Fortunato, que havia muito tossia e suspirava com o fim de chamar para si, e para a chicara, as attenções, disse por delicadeza:

—Não tinha pressa.

Manoel Quentino continuou tecendo louvores a Carlos.

—Mas emquanto á tal historia da mulher—dizia Fortunato, recebendo de
Cecilia a outra chavena—isso tambem foi parlapatice no rapaz, pois…

—Então; faz favor de ver se quer mais assucar—disse Cecilia, com um certo modo desabrido, que eu tambem não sei explicar, e que contrastava com a doçura que lhe era habitual.

O snr. Fortunato notou-o.

—Está muito bem, menina—disse elle.—Faz-me o favor de mais uma colherinha. Está muito bem.

—Menos isso, snr. Fortunato—continuou Manoel Quentino.—Bem se vê que não conhece o Carlitos. De imposturas é que elle nunca foi. Já em creança…

—Meu pae, sirva-se antes d'estes bolos—disse Cecilia de modo tão affectuoso, que alvoroçou a sensibilidade do velho.

—Deixa estar, filha, que eu cá me vou servindo.

—Pois sim—insistia o snr. Fortunato—mas que elle não é lá de muitos bons costumes, isso é que é verdade.

—Antonia, sirva aqui o snr. Fortunato—disse Cecilia sêccamente, ordem que, por excepcional, surprendeu a todos.

Tambem não sei bem explicar a razão d'esta ordem.

—Tudo isso não passa de rapaziada—proseguiu Manoel Quentino.—Mas o que se chama fundo, boa alma, isso tem.

—Olhe, snr. Manoel Quentino, homem que não toma rumo de vida…

—Tambem ha muitas más almas á testa de grandes estabelecimentos, snr. Fortunato. Se um modo de vida fosse garantia e probidade!—disse Cecilia com ironia.

—Pois bem sei que não, menina, mas…

—Mas, mas, meu caro—disse Manoel Quentino—o que ninguem póde negar é que está alli um homem de bem… é verdade isso… Muitos fazem peior com menos a desculpal-os.

O dialogo proseguiu, discutindo-se muito Carlos. Cecilia porém absteve-se de tomar parte n'elle.

Terminou o chá. O ardor da conversa baixou. Manoel Quentino presentia o somno. José Fortunato sentia-se a digerir. Cecilia trabalhava e ás vezes ficava parada com os olhos fitos na luz, como se ella lhe offerecesse qualidades novas a examinar. Davam emfim nove horas.

—Ora vamos até casa—disse José Fortunato erguendo-se.

—Olhe se se agasalha—recommendou-lhe Manoel Quentino.

—Antonia, venha alumiar—disse Cecilia.

E o snr. Fortunato, feitos os seus cumprimentos, descia as escadas, conversando com Antonia até á porta da rua a respeito de frieiras, e mettia-se em casa, onde a imaginação teimava em recordar-lhe a doce figura de Cecilia, e tudo quanto lhe dissera.

—Estranhei hoje os modos da rapariga—dizia elle ao deitar-se.

Uma perfida paixão começára, havia muito, a minar o coração do pobre homem.

Manoel Quentino, como tinha de se levantar cedo, ia-se deitar pouco tempo depois de Fortunato sair.

O dialogo entre o pae e a filha d'esta vez consistiu n'isto:

—Este snr. Fortunato ás vezes!…

—É caturra, é…

—E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.

—Muito boa noite, minha filha. Deus te abençoe.

Cecilia retirou-se.

Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia não sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de Jenny tinha sabido, e affligia-se então. Depois vinham as reflexões de Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transição. Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de sonhos, que nos deixa extenuados.

Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do rio, em direcção da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia cheio de mascaras que dançavam. Cecilia gritava, mas ella propria não escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular, ao mesmo tempo que remava, ia tomando chá. Depois vinha Carlos, com um cavallo pela rédea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar. Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o snr. Fortunato não deixavam. Porém o snr. Fortunato já não era o snr. Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o impressionára; e o mar tambem já não era bem mar, porque tinha camarotes em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em quê, e agora era ella a que fugia de Carlos.

Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.

Em consequencia d'este sonho, acordou de manhã, pallida e abatida—o que não pouco inquietou Manoel Quentino.

XIV

IMMINENCIAS DE CRISE

Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite, andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras, a sua desconhecida da vespera.

Jenny notára a impaciencia, com que o irmão tinha aguardado a noite e, ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:

—Adeus, Charles; quer-me parecer que te não recolherás d'esta vez pelas quatro horas da manhã.

—Quem sabe, Jenny?

—Adivinho-o.

Effectivamente não eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone, cansado de procurar em vão, em cada dóminó e sob cada mascara de seda, a incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposição do espirito.

Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:

—Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, já pensará em outra cousa.

Acabára de facto o carnaval. Expirára essa época votada á folia e á loucura sem rebuços e abria-se agora a da penitencia e dos sermões.

Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias, deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos véos, durante o qual a piedade e a moda levam ás sextas-feiras a multidão para a igreja de S. João Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes proximos, para assistir á procissão dos Passos e ao respectivo sermão do encontro.

Quasi toda a manhã de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.

Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a lembrança da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar, sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber quem ella fosse, concorria para o não deixar tranquillo agora. Estava dando tratos á imaginação, para se lembrar de qualquer meio conducente á solução d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia a imaginação atormentada.

Saíu emfim, sem saber para quê, nem para onde; em vez de procurar os centros de reunião mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo, caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda não edificada da rua da Boa Vista.

Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram tão raras as occasiões de se ver assim entre arvores e fóra do povoado, principalmente áquellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando uma impressão singular.

Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!

Internou-se por pinhaes e campos, até perder de vista a estrada. Parou emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manhã, não são necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o pensamento a uma d'essas divagações, a que anda tão sujeito o dos poetas.

A vastidão do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e obrigam a meditar até os menos propensos a contemplações abstractas.

Haja porém um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que é uma poesia tambem, e menores causas bastarão para se produzirem effeitos ainda maiores.

O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sêccas do chão, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas tojeiras, nas praias o movimento de expansão das actinias, ou rosas do mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos, sem importancia para quem os vê com animo distrahido, são já alimento bastante para phantasias mais apuradas.

Carlos tinha a imaginação predisposta para estas impressões subtis, e, como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada intensidade.

Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos póde conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de vida que, após longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O céo não tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o véo transparente de nebrinas. Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se já na primavera, se tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal podia agitar as folhas movediças das arvores que o inverno respeita. Era tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar lentamente, em columnas direitas, sem que uma viração as quebrasse, e só muito alto se dissipava na atmosphera.

Do logar onde parára, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do campo, chamando o gado, rindo ou cantando.

Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o silencio deixavam-as chegar até alli sonoras e perceptiveis.

Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.

—É uma singular loucura—pensou elle—julgar que se aproveitam os dias da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar d'ella em tempo. E como é que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante de um café; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das praças, ou em lojas á moda. Na verdade, que delicioso viver! E o espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em nós, quando assoma a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades creadas. E diz-se então que soube gosar da vida o que voluntariamente se privou das mais gratas impressões, que podem sentir-se n'ella!

Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.

—Nem eu sei—proseguia elle—como ainda experimento prazer, ao achar-me aqui só. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se até a faculdade de saber sentir assim, a sós; quando é talvez d'esta maneira que a imaginação mais subtil se mostra…

Vejam os leitores até onde iam já arrastando Carlos os attractivos d'aquella solidão suburbana!

Operou-se porém uma transformação nas suas ideias, que parecia vogarem, e á vela cheia, seduzidas pelas doçuras da vida de anachoreta. Um pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.

—Mas não—reconsiderou elle—não basta sentir; é necessario transmittir as expressões dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final de contas, não são os confidentes mais proprios. Tudo precisa de reflectir-se, para não perder na immensidade; a luz, n'um espaço vasto, dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se outra oração, reflectindo-o, o não reforça. É porisso que a presença de um amigo… Mas que amigos tenho eu?

Tremo devéras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a responder a esta pergunta, que fez a si proprio.

—F…,—continuou elle—cuja amizade não resistirá á primeira falta de senso que lhe notar n'um folhetim; C…, que romperá commigo, se eu tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitação; L…, que abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle corresse o perigo de enlamear as botas de polimento…, e todos os mais da mesma força. Vão lá escolher um d'esses homens para companheiro n'estas viagens sentimentaes.

Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultára, continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar. Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:

—Ahi está; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice… Ha certas vibrações de sensibilidade, que não se póde communicar… a não ser… a não ser a um coração de mulher… Ellas sim, teem certas puerilidades sublimes, que… Ora adeus! Temos outra como a dos amigos. Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S…, mulher nervosa, que teria um deliquio só ao ver aquella sardonisca—sensibilidade de toucador; a C…, essa então, mulher forte, que só um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E…, belleza de salão, que se levanta ao meio dia, admira a natureza… nos jardins, e lamenta que a solidão não tenha gente que veja como ella a sabe apreciar…; e as outras regulam por isto. Verdade é que eu tambem com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira…

N'este ponto tomaram as suas meditações outro caracter. Alguns passos mais adiante, já elle meditava:

—Á força de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos casamentos de paixão, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devéras… se aproveitar estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo…

O leitor sabe de certo até onde podem chegar as excursões do pensamento, quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como elle, se está em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, não estranhará que, momentos depois, já assim estivesse pensando Carlos:

—Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se queira como amante, que se estime como irmã, que se venere como mãe, que se proteja como filha…, é evidentemente o destino mais natural ao homem; o complemento da sua missão na terra…

Quando Carlos Whitestone chegára a formular, no pensamento, esta profissão de fé, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabeça de vinte annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do pinheiral opposta áquella, por onde havia entrado.

D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas; umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.

Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcação do pinhal. O horizonte que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o espirito não tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplação.

Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda, que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.

Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem n'esta vida.

Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto incendio.

O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.

Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma criada.

Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que lhe estavam a appetecer.

—Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios domesticos…—pensava elle—Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim inteiramente á nossa felicidade…

Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny. Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.

A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de todo no mar. Carlos reparou então que era tempo de voltar a casa.

Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da cidade não lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que pertencia a habitação.

A nossa costumada discrição impede-nos de compensar este defeito.

Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas a passos mais apressados.

Já proximo da porta, sentiu uma mão, que se lhe pousava no hombro.
Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.

—Que fazes tu, homem?

—Recolho-me.

—D'onde vens?

—Do campo.

—Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?

—Ás vezes.

—Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a respeito do volume do Serrão?

—Ainda não.

—Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na Berenice; outra de Victor Hugo, no Ruy Blas. São as palavras finaes de uma e de outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: Helas! Ruy Blas morre nos braços da rainha e murmura: Merci! Basta-me isto.—Helas!—é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado. Merci!—é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a confundir-se com o prazer… é pois a phrase digna de uma litteratura viva, inspirada do futuro…

A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que pôde.

—Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade a Jenny. Ficarei em casa—disse elle, logo que conseguiu despedir-se.

E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.

Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou comsigo:

—Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.