XV
VIDA INGLEZA
O jantar correu, ao principio, silencioso, como de costume.
Mr. Richarde, apesar de tudo quanto promettia aquelle seu ar de satisfação, fazia as honras da mesa, usando de monosyllabos, e não se dava ao trabalho de formular uma oração inteira, sempre que com qualquer palavra solta lhe era possivel exprimir o pensamento.
—Roast beef?… Salame?… Fiambre?… Ostras?—Era a maneira, pela qual elle perguntava a Carlos ou a Jenny quaes os pratos, de que preferiam servir-se.
—Mostarda… Queijo… Aquillo… Isto… Traz… Tira… Leva…—Eram as ordens, que recebiam os criados, os quaes manobravam com uma promptidão, seriedade e silencio, essencialmente britannicos.
Carlos não se mostrava mais expansivo. Além da pouca disposição para fallar, que em regra sentia diante do pae, estava n'aquella tarde muito fóra das habituaes condições de espirito, e em outra qualquer companhia de certo lhe estranhariam igualmente a taciturnidade.
Jenny dava algumas ordens, em voz baixa, aos criados, que se inclinavam diligentes para escutal-a; fazia, no mesmo tom, uma ou outra observação a Carlos, e aventurava até algumas perguntas ao pae, sem que lhe fosse possivel comtudo generalisar conversa.
Tudo isto, a regularidade e perfeito methodo de serviço, a gravidade e asseio dos criados, e a meia claridade da sala, dava não sei que aspecto solemne ao acto, como se fosse uma ceremonia funebre.
Á medida, porém, que se repetiam as libações e que o effeito dos variados vinhos se combinava na cabeça de Mr. Richard, o velho inglez principiou a despir-se d'esta soturna gravidade e a lingua a desencadeiar-se-lhe, rompendo aquella especie de mutismo, que lhe impunham as regras da etiqueta britannica.
Verificava-se n'isto uma opinião de Fielding, escriptor que disputava a Sterne as predilecções litterarias de Mr. Richard; diz effectivamente o auctor do Tom Jones que o vinho tem a propriedade de trazer á luz o verdadeiro caracter dos homens, caracter que, nos periodos de sobriedade, o artificio consegue dissimular muitas vezes. Ora, como dissemos, Mr. Richard Whitestone era sorumbatico, por convenção; mas no fundo permanecia a jovialidade, que vinha á superficie, á medida que se adiantava o jantar.
Ainda na presença de Jenny, já elle começára a ensaiar alguns gracejos, a contar passagens da sua vida de Londres, travessuras da meninice, e algumas extravagancias do tempo de rapaz.
Carlos procurava então maliciosamente o olhar da irmã, a qual, pelo contrario, evitava com discrição o d'elle; porque estas historias ambos as sabiam já de cór, tão infalliveis ellas occorriam em determinadas circumstancias.
Sempre que, em taes alturas do jantar, Carlos via servir um perú recheado, esperava já a narração de como, na sua infancia, Mr. Richard, então chamado ainda o pequeno Dick, com mais outros companheiros do collegio, tinham conseguido roubar uma d'estas aves do pateo do reverendo Jackson, seu mestre, e do detestavel assado que depois, ás occultas, fizeram com ella.
O lombo de vacca inevitavelmente lembrava a anecdota apocripha d'aquelle rei de Inglaterra, que em um accesso de bom humor armou cavalleiro este saboroso artigo comestivel, ao qual, desde então, se concederam as honras de baronet, como parece indicar o nome de Sirloin ou Sir loin, com que os inglezes o designam.
Um prato de avelãs trazia quasi sempre comsigo a historia de uma celebre aveleira, que havia em certo parque das proximidades de Londres, pelo tronco da qual tantas vezes Mr. Richard, ainda creança, trepára com feliz exito, até um dia em que, escorregando, ficou suspenso de um galho por espaço de alguns minutos.
O pudding era pretexto para fallar no monstruoso pudding que se cozinhava na Inglaterra, em não sei que solemnidade popular, e d'ahi a enumeração de muitos outros usos, e costumes nacionaes e de varias festas notaveis. Entre essas, a mais detidamente descripta era a do Lord Mayor; n'esse dia, guardado por toda a City, como dia santo, o personagem eleito para aquelle alto cargo é processionalmente levado á presença do Lord Chanceller, com o fim de ser por elle confirmada a sua eleição. Mr. Richard sabia e descrevia todas as particularidades do ceremonial, bem como todas as attribuições dos multiplicados cargos de que se compõe a excepcional corporação de Londres, desde o alto Lord Mayor até o mais modesto bedel de parochia.
Como na procissão fluvial pelo Tamisa, celebrada n'aquelle dia, Mr. Richard estivera de uma vez em riscos de se afogar, a referencia minuciosa d'este caso pedia a de um outro analogo que lhe succedera por occasião dos tumultos populares occorridos durante o processo de divorcio de Jorge IV, e varias particularidades, pouco edificantes, a respeito da rainha Carolina e do seu favorito Bergamy.
Carlos ouvia tudo isto calado, com ar de resignação e deferencia filial; Jenny com uma physionomia mais attenta, ainda que nem sempre a attenção do rosto lhe estivesse no espirito tambem.
Jenny era a primeira a retirar-se da mesa, segundo o discreto costume, hoje mais seguido, mas originariamente britannico.
Então tomavam maior incremento ainda as libações de Mr. Richard
Whitestone.
Accendia um charuto e dava-se uns ares de familiaridade, que em nenhuma outra occasião se repetiam.
Carlos, de ordinario, perdia tambem então um pouco do habitual retrahimento para com o pae, e, fumando defronte d'elle, entrava com mais desafogo n'este dialogo.
N'aquella tarde, porém, conservou-se ainda pouco expansivo, e quasi distrahido, perante a crescente communicabilidade.
N'este dialogo inter pocula eram infalliveis as referencias do negociante ao seu livro favorito—O Tristram Shandy, de Sterne.
Mr. Richard apreciava tudo n'aquelle livro extravagante. Sabia-o quasi de cór e, apesar d'isso, lia-o ainda e de todas as vezes ria com a mesma vontade, não obstante não encontrar no decurso da leitura já alguma cousa imprevista.
Carlos, ainda quando não tivesse lido a obra, tinha já razão para a conhecer a fundo, graças ás quotidianas citações do pae; era porém obrigado a escutal-o, como se tudo fosse novo para elle.
As dissertações philosophicas do pae de Tristram, as ingenuidades e venetas guerreiras do tio Tobias, as argucias e façanhas do Corporal Trim, as interminaveis e extravagantes divagações de Tristram, o supposto auto-biographo, tudo Mr. Richard citava com enthusiasmo e com vivacidade.
Nem lhe passavam por alto os episodios e as dissertações, que respiram certas liberdades, verdadeiramente rabelesianas, capazes de alvoroçar os ouvidos menos pechosos. O episodio dos amores do tio Tobias e os do seu fiel camarada, de indole menos quixotesca, eram até das passagens favoritas e das que com mais cordiaes risadas commentava.
Vinham luzes e proseguia o dialogo, nem sempre demasiado ingenuo.
Ao levantar da mesa, tomavam-se posições ao fogão; a conversa continuava, mas o ponto culminante da loquacidade e da viveza de Mr. Richard Whitestone tinha passado já.
N'este primeiro periodo de declinação sobrevinham as citações do Tom
Jones.
Mr. Richard não se cansava tambem de exaltar aquelles soberbos perfis da penna de Fielding e as judiciosas reflexões que o auctor mistura á narrativa.
Depois, a proximidade do calor do fogão, as exhalações do carvão inglez, a preponderancia dos vapores do tabaco, e mais tarde o punch, deprimiam ainda mais os espiritos do commerciante.
Passava a fallar de politica, citava o Times; n'esta noite disse a Carlos que Lord Palmerston estava resolvido a dissolver o parlamento, no caso de não encontrar apoio na camara dos communs.
Isto já foi dito em tom soturno. Carlos era de todo indifferente aos destinos do parlamento inglez.
Depois fallou nos principaes movimentos e feitos de armas do exercito alliado na Crimeia e no provavel exito da campanha; e d'aqui entrou em considerações sobre o estado do commercio em Londres. Carlos luctava heroicamente para reprimir bocejos de fastio.
Era noite cerrada; a voz de Mr. Richard tinha já umas entonações surdas, que, combinadas ás pancadas do relogio da sala, produziam em Carlos um effeito soporifero irresistivel.
Jenny, quando pelo silencio que reinava, sentia que tinham chegado as cousas a este periodo critico, voltava outra vez á sala. Era então que o irmão aproveitava a occasião para saír.
N'esta noite ficou.
Jenny olhou-o admirada.
Carlos respondeu-lhe, encolhendo os hombros, como a exprimir a resolução de ser condescendente aquella vez, ficando.
A irmã agradeceu-lhe com um gesto; mas pensava comsigo:
—Bem sei. Ainda não te passou o desgosto pelo mau resultado da tua aventura. Paciencia!
Carlos voltára a casa, como dissemos, reconciliado com a vida domestica e convencido de que estava bem disposto para saborear os prazeres de um serão inglez.
Resolveu por isso ficar. Mas a suspeita de Jenny era tambem fundada.
Desalentado pela falta de indicações em relação ao mysterio da mascara, na qual a seu pezar pensava ainda, mingoava-lhe animo para saír, sem esperanças de o elucidar.
Mas a vida domestica, tal como se passava ao fogão, junto do qual Mr.
Richard quasi dormitava, não era a que o podia satisfazer.
O viver intimo, cujos encantos Carlos julgára ter concebido aquella tarde, era apenas o accessorio de alguma cousa mais essencial ao coração, de alguma cousa, cuja necessidade começava a sentir emfim. Sorria-lhe o conchego domestico, mas aquecido, mas illuminado por outras chammas, que não eram as que lambiam o fender do fogão; animado por mais ardentes sentimentos do que os de um affecto fraterno, ainda que dos mais estreitos, e do que os do respeito filial, ainda que dos mais arreigados e extremosos.
Estava por isso experimentando agora o desengano, e a comparar a monotonia d'aquella noite ingleza, com o prazer que imaginára poder saboreiar-se, sem abandonar os lares domesticos.
Isto fazia-o ainda mais silencioso e sombrio, do que estivera em outras noites que passára como aquella em casa.
Depois que veio Jenny succedeu o que quasi sempre succedia tambem. Mr.
Richard manifestou desejos de a ouvir tocar.
Em virtude d'isto, passaram a uma das salas proximas. Mr. Richard sentou-se ao lado do fogão, tambem accêso alli; Carlos, proximo d'elle; Jenny ao piano.
Jenny, conhecendo por experiencia as predilecções paternas, abriu a collecção dos Cantos populares de Russell e procurou uma poesia de Morris; a qual tanto o pae como o irmão ouviam sempre com piedoso recolhimento.
O motivo d'esta attenção estava sobre tudo na lettra, que parecia feita de proposito para avivar, em toda esta familia, saudades da vida passada. Foi a meia voz, mas com verdadeiro sentimento, que Jenny cantou essa poesia, intitulada a Biblia de minha mãe, cuja traducção é a seguinte:
«Este livro é tudo quanto me resta d'ella! Ao vel-o, sinto rebentarem-me irreprimiveis as lagrimas dos olhos; com os labios tremulos, com a fronte turvada, aperto-o ao coração. É esta a arvore de familia, á sombra da qual já muitas gerações se teem abrigado.—As mãos de minha mãe folhearam esta Biblia; foi ella mesma quem m'a legou ao expirar.
Ai, como me estão lembrando aquelles, cujos nomes me veem de envolta com estas memorias! Tantos que, em torno do lar, costumavam reunir-se após a oração da tarde, a conversar no que dizia este livro, em um tom que me calava no intimo do seio; ha muito que elles estão com os mortos silenciosos; mas sinto-os viver ainda aqui.
Meu pae lia este livro sagrado aos filhos, ás filhas, á familia toda! Como era sereno o olhar de minha mãe, ao curvar a cabeça para escutar a palavra de Deus! Aquella figura angelica! Ainda a estou a ver!—Que memorias me occorrem em tropel n'este momento!—De novo parece reviver, dentro das paredes d'este quarto, aquelle pequeno grupo.
Tu, ó Biblia! és o mais seguro amigo do homem! Eu tenho já experimentado a tua constancia! Quando todos me trahiam, achei-te fiel; vi em ti um conselheiro, um guia! As minas da terra não possuem o thesouro, que me compre este livro. Ensinando-me a maneira de viver, elle tambem me ensina como se deve morrer.»
O assumpto da canção ingleza, depois que Jenny a terminou, fez caír naturalmente a conversa sobre diversas passagens da Biblia; Mr. Richard citou um versiculo, outro e outro, até que uma duvida lhe impediu de proseguir: d'ahi o pedido feito por elle á filha, para verificar a exacta redacção do texto.
Jenny abriu pois o livro, que em todas as salas se encontrava sempre á mão, e leu.
Carlos gostava de ouvir ler a irmã aquellas singelas e sublimes paginas da Biblia.
Diz-se muito mal da lingua ingleza, e, de facto, ouvindo fallar certos filhos da Grã-Bretanha, lembra logo os conhecidos versos:
O mundo a porfiar que os bretões grunhem
E os bretões, etc., etc., etc.
porém uma voz, como a de Jenny, meiga, melodiosa, e modulada com intelligencia e graça, parece transformar essa lingua ingrata em não sei que cantar de aves, que tem attractivos, até para os que não a comprehendem.
O recolhimento religioso, com que Jenny lia os mais bellos episodios do
Velho ou do Novo Testamento, augmentava o effeito agradavel da sua voz.
Infelizmente, porém, a leitura descarnada e despida de commentos d'aquellas paginas não bastava ao fervoroso anglicanismo de Mr. Richard Whitestone, porisso, a cada passo, a interrompia para citar as interpretações de alguns dos reverendos doutores da sua episcopal igreja, ou os recentes desenvolvimentos, que ouvira ao ecclesiastico inglez na missa protestante, do Campo Pequeno.
Jenny olhava para o irmão e fazia-lhe signal para que se reprimisse, e pelo menos simulasse attenção ás divagações do pae. Serviu-se ás dez horas chá preto, e Mr. Richard readquiriu um pouco de animação para, a proposito do chá, fallar na importancia da companhia das Indias Orientaes, nos serviços feitos por ella ao commercio, na sua historia, nas difficuldades com que luctou, e nos meios de que dispunha. Em seguida expôz um projecto de lavra propria sobre o engrandecimento das colonias inglezas, formulou acerbas censuras ao systema colonial portuguez, e em seguida uma expressa condemnação da politica franceza em geral.
Mr. Richard odiava cordialmente a França. Ou elle não fosse inglez.
Emfim, ás onze horas cessou Mr. Richard de fallar; as palpebras começaram a pesar-lhe; a chamma do fogão a amortecer, sem que as tenazes fizessem o seu officio, avivando-a.
Meia hora depois, separava-se a familia, não tendo Carlos, em toda a noite, dito uma duzia de palavras.
Jenny acompanhou ainda algum tempo o irmão através dos corredores, que conduziam ao quarto de cada um.
—Então que tens tu a dizer da minha conversão? d'esta commovente e miraculosa regeneração do filho prodigo?—perguntou Carlos a Jenny, quando chegavam á porta da sala da livraria, onde deviam separar-se.
—Que não sei se será muito duradoura—respondeu a irmã.
—E como queres que o seja, Jenny? Não viste que narcoticas delicias as d'este conversar ao fogão? Dormir é um prazer; mas na minha idade!
—Então, Charles!—disse Jenny, olhando para elle, com ar de reprehensão.
—Olha, minha boa Jenny, acredita o que te digo; eu fui hoje sincero devéras nas minhas tentativas de reconciliação com a fada do lar domestico, com aquelle genio bom, que protegia a «gata borralhenta» na historia que nos contavam em creança. Vim para casa, sonhando umas delicias de viver intimo, as quaes, infelizmente, tive o desgosto de achar que eram illusorias. Tanto azul e dourado que via transformou-se em uma côr… pardacenta…
—Talvez tu sejas muito exigente.
—Ai, não o era, não. Mas que queres? Posso ter coragem para ouvir ámanhã e depois e sempre a historia do perú do reverendo Jackson? a das festas do Lord Mayor? a das assuadas á rainha Carolina? ou deve-se-me estranhar que deserte diante das subtilezas theologicas dos doutores da nossa igreja, ou…?
—Tens razão; é preciso principiar por educar o coração, antes de tentar regenerar-te.
—O coração?! Que queres dizer?
—Tu vens para casa, como vaes para o theatro; procuras distrahir-te. Ora é claro que este viver de familia não entretem uma imaginação como a tua, se é só para satisfazeres a imaginação que ficas; e concebo que tudo isto te deve ser insupportavel, se o coração se fechou já de todo aos unicos gôsos, que nós podemos prometter-te.
—Não me faças tão endurecido, que não saiba já apreciar os tocantes prazeres d'essa convivencia intima, Jenny. Julgas que não sei o que vale a tua affeição e até a do pae? Mas ouve, filha, e não sejas muito severa commigo. Emquanto o pae ha pouco fallava, muito á sua vontade, na portentosa companhia das Indias Orientaes, eu estava a pensar…
—Em quê?
—Estava a pensar em que eram inteiramente falsas certas ideias, muito bonitas, que, esta tarde, durante um passeio, que dei pelo campo…
—Pelo campo!… Tu?!
—É verdade, pelo campo, eu… mas… certas ideias, dizia, que me haviam occorrido por lá. Agora vejo melhor; e penso que se não deve até viver tão ligado, como era costume na antiga vida patriarchal. É justa, ou desculpavel pelo menos, esta tendencia moderna para afrouxar um pouco mais os laços de familia, sem amortecer de todo os sentimentos que a animam e unem, mas tornando mais independentes os habitos de viver de cada um. E é assim. Que se lucra em reunir em um feixe apertado dois ou tres homens de indoles e de gostos diversos, só porque são parentes, a ponto de impedir-lhes os movimentos, e a liberdade de acção? O mais que succede, é nenhum d'elles poder dispôr de toda a energia das suas faculdades; incommodam-se reciprocamente, de apertados que estão, e… odio não direi… mas… ás vezes… certa má vontade… pequenas dissensões, e… quando menos se espera, mais azedas discordias ainda, são as inevitaveis consequencias d'isso.
Jenny abanava a cabeça, fitando o irmão, emquanto elle fallava.
—Que doutrinas!—disse ella por fim—que triste philosophia a tua… de hoje. Cada vez te comprehendo menos, Charles.
Carlos pôz-se a rir.
—Então porquê, Jenny? Que achas tu em mim de tão incomprehensivel?
—Ha dias… na manhã que se seguiu a uma das muitas noites, que passas fóra de casa, e quando era mais natural que estivesses n'estas ideias de agora, fallaste-me com eloquencia e convencimento nas doçuras da vida de familia; persuadirias d'aquella vez o mais extraviado. Foi, ainda me lembro, a proposito de uns versos, escriptos por um amigo no teu album. Hoje então…
—Tudo se explica; é pela razão, que eu disse. Tentei apertar-me nos taes ambicionados laços, seduzido pelas promessas dos romancistas moralisadores; a final vi que me magoavam como laços que eram… Mas que versos foram esses, que me despertaram tão salutares ideias? Não me recordo.
—Se queres que t'os leia?…—perguntou Jenny, pousando a mão na chave da porta da bibliotheca, como preparando-se para abril-a.
—Se quero? peço-t'o.
Os dois irmãos entraram na sala quadrada, onde, até a meia altura da parede, corria uma estante de palissandro, abastecida de magnificas brochuras e encardernações inglezas. Havia no meio da sala uma solida mesa rectangular, em estylo antigo, com embutidos de metal nos fechos, lavores de primorosa talha nas faces, e apoiada em grossos pés, torcidos em espiral,—um perfeito modelo d'essa bella mobilia ultimamente resuscitada, graças sobre tudo ás predilecções dos inglezes, que a teem tornado já rara, de muito que a procuram. Cobriam esta mesa varias publicações recentes, periodicos estrangeiros e do paiz, e gravuras; e em volta d'ella, commodas poltronas, e escabellos com assentos estofados parecia convidarem á leitura.
Jenny pousou a luz, e, pegando em um album, que estava entre os outros livros e periodicos, principiou folheando-o, emquanto o irmão se sentava ao lado d'ella.
—Se me não engana a memoria—dizia Jenny—é a traducção de uma lenda popular da Bretanha que se intitula…—Tendo encontrado justamente a pagina que procurava, concluiu:—Amel e Pennor.
—Não tenho já a menor ideia do que seja.
—Ora ouve então.
E Jenny principiou a ler, com suavidade e graça inexprimivel, a seguinte lenda, verdadeira ou falsamente attribuida por um moderno escriptor francez á musa popular da Bretanha.[1]
—Longe, longe d'aqui, nas costas da Bretanha,
Poetico paiz, que um mar sinistro banha,
Vivia, ha muito tempo, um pobre pescador,
Que se chamava Amel, com a mulher Pennor.
Tinham elles um filho, uma creança loura,
Um anjo, que o porvir dos paes inflora e doura;
Ao voltarem a casa, alegres, todos tres,
Na praia os surprende a noite de uma vez.
Crescia o mar veloz, medonho, ingente, forte!
N'esse tempo as marés eram vivas. A morte
Sobre as ondas boiava, indomita, cruel!
Olhando para a esposa, assim lhe diz Amel:
—«Pennor, vamos morrer! A vaga se aproxima!
Viverás mais do que eu! Animo! Sobe acima
Dos hombros meus, mulher. Pousa-te bem. Assim.
E, ao veres-me sumir… ai, lembra-te de mim!»
Pennor obedeceu. Firmando-se na areia,
Desapparece Amel na vaga, que o rodeia.
—«Amel! bradava a esposa; ai, pobre amigo meu!
Qual de nós soffre mais?—tu, que morres, ou eu,
Que te vejo morrer?»—E as aguas, que subiam,
O corpo da infeliz no vortice envolviam.
Olhando para o filho, assim lhe diz a mãe:
—«Filho, vamos morrer! Olha a maré que vem!
Viverás mais do que eu! Vá! filho, vá! coragem!
«Sobe aos meus hombros, sobe! e ao tragar-me a voragem,
Ai, lembra-te de mim e de teu pobre pae!»
E o mar a submergiu. Chora a creança e vae
Pouco a pouco afundir-se. Á flor da agua revolta,
Apenas já fluctua a trança loura e solta…
…Uma fada passou sobre o affrontado mar;
Viu o cabello louro, em baixo, a fluctuar;
Estende a mão piedosa e, segurando a trança,
Com ella attrahe a si a pallida creança.
E, sorrindo, dizia:—«Ai, que pesada que és!»
Mas viu cêdo a razão; inda segura aos pés
Do filho estremecido, a pobre mãe começa
A erguer tambem da onda a humida cabeça.
Sorriu a boa fada, ao ver assim os dois,
E repetiu ainda:—«Ai, que pesados sois!»
É que, após a mulher, seguia-se o marido
Estreitamente aos pés da terna esposa unido.
Ao vel-o, inda outra vez a meiga fada riu,
E, leve, para a praia o vôo dirigiu
Com este cacho vivo, esta humana cadeia,
Cujos élos o amor piedosamente enleia.
Pousando o livro, Jenny continuou:
—Seguem-se mais quatro versos, consagrados á moralidade do conto, os quaes talvez me julgues dispensada de ler, por inuteis.
—De certo. A allegoria é transparente, até sem commentarios. Mas, dize-me tu uma cousa, Jenny: que faria ou que diria a boa fada se, pairando sobre a praia, um dia, em que as marés não fossem vivas, nem o mar ameaçasse devorar a piedosa familia… que faria ou diria ella, se encontrasse os tres formando o cacho vivo da imagem, tão ridiculo n'esse caso, como tocante nas condições, em que o considera a lenda? A fada por certo que sorria tambem, mas acrescentando d'essa vez: «Ai, que varridos sois!» Dize-me agora se queres que eu ajunte alguma cousa tambem, correspondente aos taes quatro versos de moralidade, que supprimiste?—terminou Carlos, tocando levemente as faces de Jenny, e com um sorriso triumphante, ao qual ella correspondeu com outro, mas replicando:
—Não, não é preciso. Mas repara, Charles, que as tempestades no mar formam-se ás vezes em um momento. E ninguem póde prever a época, em que é para receiar o perigo. Não viste como os pescadores voltavam a casa, «alegres todos tres», portanto confiados no mar? Se, tendo esta confiança, se houvessem separado e não caminhassem com as mãos unidas? Ao vir a maré, nem Amel procuraria que a esposa lhe sobrevivesse, nem Pennor tentaria salvar o filho, nem o cabello louro da creança, vindo á tona da agua, attrahiria as vistas da fada bemfazeja, dando-lhe occasião de salvar aquelle … cacho vivo… Entendes?
—E tão longe ando eu já, que vos não possa offerecer os hombros, se a maré vier um dia ameaçar-nos?
—Não, Charles; nem é a ti, tal como és, que eu ralho e quero mal; mas a um Charles, que ás vezes gostas de fingir. É singular! ha certas almas generosas que teem o vicio opposto ao da hypocrisia: esforçam-se por parecerem más! Para que has de estar a fazer mentir a tua bôca, dizendo o que não sentes?
—Não nego que houvesse algum mau humor nas minhas palavras de ha pouco, mas…
Jenny collocou-lhe a mão diante dos labios.
—Que esse «mas» fique para ámanhã. Por emquanto inda não confio muito n'elle.
—Então negas-me a justificação?
—Não vês que, melhor do que tu, te está a justificar a minha confiança?
É por isso que não quero ouvir-te. É tarde. Boa noite, Charles.
—Boa noite, Jenny.
E os dois irmãos separaram-se, apertando cordialmente as mãos.
Carlos ía mais reconciliado outra vez com as doçuras da vida domestica. Ficára-lhe muito agradavel impressão d'este dialogo com Jenny, para que podesse deixar de ser essa a sua opinião final.
XVI
NO THEATRO
Dias depois, affixavam-se cartazes nas esquinas, annunciando a Lucia de
Lammermoor.
Mr. Richard Whitestone não era assiduo frequentador do theatro lyrico.
Havia porém uma circumstancia, que, infallivelmente, o levava lá, uma vez pelo menos.
Tendo já desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a cada momento citava com enthusiasmo, resignára-se a afagar sómente o seu acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da litteratura ingleza.
O Othello, o Macbeth, os Capulletos, as Prisões de Edimburgo, os Foscaris, o Marino Faliero e outras n'este mesmo caso, luctavam vantajosamente com o seu muito amor pelo fogão e traziam ao publico aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude, que o leitor já conhece.
Preparava-se de antemão, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de assumpto á opera, e ia depois com vontade para o theatro.
Não era porém Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott, cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado outr'ora.—A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir áquelles seus famosos conterraneos.
No numero das taes operas contava-se Lucia de Lammermoor. Assumpto escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar typos sympathicos e immortaes, não era para Mr. Richard resistir-lhe. Havia de ir por força.
Foi; mandou tomar um camarote para aquella noite. A plateia nunca lhe agradou. Estava mais comsigo e com os seus no camarote; e isto de estar comsigo e com os seus tinha para elle a força de necessidade.
Era costume invariavel de Mr. Richard convidar Manoel Quentino, n'estas occasiões.
Grande mortificação causava a este tal convite, mas não se atrevia a recusar. Aceitava e agradecia até, porém, a occultas, suspirava por ter de privar-se uma noite dos suaves prazeres dos seus serões domesticos, das attenções e cuidados filiaes de Cecilia e até das monótonas reflexões do amigo José Fortunato; este não sentia menos pezar em modificar habitos já inveterados n'elle e prescindir do chá e dos bocejos do vizinho.
Mas não havia remedio. Manoel Quentino ía.
Depois de resolvido a isso, entendia então que tinha restricto dever de chegar a tempo. Era o guarda-livros a pontualidade em pessoa; em tudo observava o preceito de antes esperar do que ser esperado; e, comquanto não fosse provavel que esperassem por elle para começar o espectaculo, é certo que, pouco depois de anoitecer, viam-o já a passeiar no atrio do theatro, aguardando que lhe abrissem as portas dos corredores.
Assim fez n'esta noite.
Logo que as viu patentes, comprou o libretto da opera; porque nunca pôde tambem resignar-se a ouvir cantar, sem entender o que se cantava; subiu para o camarote e, á escassa luz que havia ainda na sala, pôz-se a ler.
Depois assistiu ao accender das serpentinas, á afinação dos instrumentos da orchestra, ao encher gradual da plateia, dos camarotes e das varandas, o que para elle constituia uma parte da divisão e não das menos curiosas. Aguava porém este inoffensivo prazer o cuidado que lhe estava dando a demora da familia Whitestone; temia já que ella não chegasse ao principio da opera. Isto não o deixava socegar.
Emfim ouviu abrir-se, atraz de si, a porta do camarote; voltou-se.
Eram Mr. Richard e Jenny, que chegavam.
Mr. Richard saudou, com familiaridade, o guarda-livros; Jenny apertou-lhe a mão com affecto.
—Não o esperava agora aqui!—disse Jenny, tirando a capa e reparando as leves desordens da sua toilette.
—O snr. Whitestone fez-me o favor de me dizer que viesse.
—E Cecilia?
—Cecilia!—disse Manoel Quentino, encolhendo os hombros—eu já lhe não digo nada. Para quê? Com'assim, não se resolve nunca a vir.
Mr. Richard, emquanto a filha se preparava, viera á frente do camarote passar um exame rapido á sala.
—E o Carlinhos?—perguntou Manoel Quentino a Jenny emquanto se encarregava, com soffrivel galanteria, de acommodar a capa, que ella acabava de tirar.
—É provavel que esteja cá—respondeu Jenny.
—Aonde? Na plateia?
—De certo.
—Tendo camarote! É vontade de gastar dinheiro!—pensou para si o economico Manoel Quentino.
Depois de tomarem todas as respectivas posições, Manoel Quentino, ficando junto da cadeira de Jenny, entendeu que não devia estar calado.
—Sempre me lembra—disse elle, portanto—quando venho ao theatro, de ver representar a celebre Josepha Thereza Soares! Aquillo é que era mulherzinha! Que tambem a Grata Nicolini… não sei se lhe diga… Se quer que lhe falle verdade, menina, agradavam-me mais as peças, que se representavam d'antes, do que as de hoje. Só os vestuarios e as vistas! Agora são salas e casacas, casacas e salas e acabou-se. É o pae que quer que a filha case com um velho rico; é a filha que quer casar com um rapaz pobre, que é poeta; é o rapaz a descompôr o velho; a rapariga a morrer… e passe por lá muito bem. Não lhe acho graça nenhuma. Eu queria que vissem: D. José II, visitando os carceres—Camilla ou os subterraneos—O Barba rôxa—Ha dezeseis annos ou os incendiarios—Os sete infantes de Lara—A Ignez de Castro…
E Manoel Quentino dispunha-se a continuar esta revista theatral, quando Jenny o interrompeu, perdendo assim a melhor occasião de se informar, entre outras cousas, dos merecimentos da celebre Josepha Thereza, de quem inda agora ouvimos fallar com saudades os frequentadores reformados, cujos legitimos successores são os dilletanti de hoje.
—Carlos tem ido ao escriptorio?—perguntou Jenny, a meia voz.
—Esteve lá … no outro dia, na terça-feira, por infelicidade minha—respondeu o guarda-livros, lembrando-se dos enganos a que dera occasião a tal visita.
—Porque diz por infelicidade?
Manoel Quentino ia a contar a Jenny a especie de auxilio, que lhe prestára Carlos no escriptorio; mas, parecendo-lhe ver em Mr. Richard, ainda que apparentemente distrahido, certos indicios de estar prestando attenção ao que elle dizia, julgou conveniente mudar de rumo e respondeu:
—É que eu, apesar dos meus cincoenta e cinco annos, não tenho mão em mim que não me distraia, vendo-o; e, com a minha palestra, nem trabalho eu… nem…
Aqui hesitou alguns instantes, porque lhe parecia demasiado lisongeiro o que ia dizer, mas a final sempre concluiu:
—Nem… nem… nem o deixo trabalhar a elle.
O proprio Mr. Richard mordeu os labios, para encobrir um sorriso.
Jenny, a mesma Jenny, não pôde conservar-se inteiramente séria; mas, sorrindo, agradeceu com gesto de bondade as generosas intenções do guarda-livros.
Pareceu-lhe, porém, conveniente desviar a direcção da conversa e porisso lembrou a Manoel Quentino:
—Mas ainda não me disse por que Cecilia não veio.
—E eu sei lá? Não vem, porque não quer. Já d'antes era uma santa historia para a resolver a aproveitar-se de qualquer convite, que a menina tinha a bondade de lhe fazer. É lá de um genio particular aquella pequena; e desde creança que assim a conheço! Que se lhe ha de fazer? Mas agora sobre tudo… A rapariga tem o quer que é a affligil-a. Isso é que tem. Ella bem faz por disfarçar; mas…
Manoel Quentino tomou n'este ponto ares de mysterio e proseguiu em tom mais baixo:
—Eu não sei, mas… acho-a outra ha dias para cá. Não lhe tenho querido dizer nada, porque… porque sei como ella é, e tenho mêdo de mortifical-a ainda mais, porém…
—Mas então—perguntou Jenny, sinceramente attenta ao que Manoel
Quentino lhe dizia—o que é que lhe faz julgar?…
—Acho triste a rapariga. Olhos de pae não se enganam com essa pressa. Os outros nada vêem, mas os meus… A Cecilia não era assim; quem a viu d'antes! Ella ri e graceja ainda, é verdade; mas ha alli certo modo, que eu lhe estranho. A menina, que bem a conhece, ha de ter visto…
—Não; não tenho notado mudança n'ella.
—Não que tambem… eu lhe digo… Ora deixe-me ver… Ella não voltou a sua casa desde… desde terça-feira, não? É isso mesmo. De então para cá é que eu mais tenho notado…
Jenny escutava com crescente curiosidade o que Manoel Quentino dizia.
—Ahi está que hoje…—continuou elle—depois de eu chegar a casa… mas peço-lhe, por amor de Deus, que lhe não vá dizer estas cousas; ella põe-se por lá depois a scismar…
—Fique descansado—disse Jenny, procurando não perder uma só das palavras que ouvia.
—Pois esta tarde… Eu já notára que ella ao jantar não tinha comido quasi nada… e eu, a fallar verdade, não gosto de ver aquillo. N'aquellas idades é que é o comer, e as cousas não correm bem, quando não ha appetite. Pois não lhe parece?
Jenny fez um movimento de affirmação, comquanto eu não dê por assentado que ella tivesse sobre o appetite absolutamente as mesmas ideias que Manoel Quentino.
—E depois?—perguntou ella.
—De tarde—continuou o velho—a pequena, contra o seu costume, metteu-se para o quarto, a ponto de me assustar; não tive mão em mim, que a não chamasse. Não me respondeu logo. Lembrou-me se lhe teria dado alguma cousa, e, já sobresaltado, ia a descer as escadas, para ver o que era, quando ella me appareceu, mas… ó menina, ou me engano muito, ou a rapariga tinha chorado; ella vinha a rir, vinha, mas eu…
—Foi de certo illusão sua; por que havia Cecilia de chorar?
—Pois ahi está o que me afflige. É o não saber! Ás vezes lembra-me… serei eu a causa? Ora é preciso que lhe diga que eu antes queria trabalhar como um negro toda a minha vida, e não ter um triste bocado de pão para comer, do que dar motivo a uma só lagrima d'ella.
E havia um tremor na voz de Manoel Quentino, ao dizer isto, que commoveu
Jenny.
—Socegue—disse-lhe ella, animando-o.—De certo não é a causa d'essa tristeza, que lhe parece notar em Cecilia. Que mais póde fazer por ella, do que o que faz?
—E tudo merece, menina, e mais! Assim eu podesse. É um anjo! Não imagina.
—Não imagino, sei; pois não é ella a minha mais querida amiga?
Manoel Quentino não pôde ter-se, que não tomasse as mãos de Jenny e as apertasse commovido.
N'isto rompeu a orchestra a symphonia da opera; fez-se silencio na sala.
As ideias de Manoel Quentino seguiram novo curso; esqueceu as confidencias que tinham deixado Jenny pensativa, e, prestando ouvidos á musica, fixou os olhos no panno, que esperava ver subir immediatamente.
—Pois a historia d'esta peca—dizia elle, emquanto o panno não subia—é bem bonita, mas muito triste. Pelos modos, era um fidalgo…, não me lembro agora d'onde…
E, depois de pensar um momento, acrescentou:
—De Hespanha, acho eu… Era, era de Hespanha…
Mr. Whitestone estava distrahido; mas não ha distracção possível que impeça um inglez de corrigir qualquer inexactidão, que, embora de leve, toque pela sua nacionalidade; por isso interrompeu immediatamente a narrativa de Manoel Quentino, emendando-a.
—Ho! não, não. De Hespanha! Ho! Da Escossia, da Escossia. In the Lothian county. The bride of Lammermoor, de sir Walter-Scott. É bem conhecido isso.
—Ai, é verdade, é da Escossia, é. Já me não lembrava. Pois este fidalgo, ao que parece, tinha lá umas birras com outro seu vizinho, tambem muito nobre, é verdade, mas sem nada de seu. Eram rixas velhas e até me parece que uma demanda dos meus peccados! Vae logo o… o S. Pedro e faz com que este tal se namore da irmã do outro. Que isto acontece muitas vezes.
N'este ponto foi o panno acima.
Manoel Quentino, depois de exame passado á scena, proseguiu:
—Esses homens de saias, que ahi estão, são os criados do tal fidalgo.
Andam á cata do amante, que vinha fallar com a rapariga ao jardim.
O argumento exposto por Manoel Quentino proseguiu por este teor e estylo, sem que Mr. Richard nem Jenny lhe dessem attenção.
Depois da chegada do barytono e durante o recitativo d'este, ia Manoel Quentino vertendo em vernaculo as phrases italianas que percebia, por conseguinte aquellas que menos precisavam de ser vertidas.
«Mortalnemico»—recitava no palco o barytono.—«Mortal inimigo»—traduzia o velho do camarote.—«Di mia prosapia»—dizia um.—«Elle mesmo confessa que tem prosapia»—interpretava, e d'esta vez desastradamente, o outro.—«Io fremo!»—acrescentava d'ahi a pouco tempo o cantor.—«Diz que treme»—traduzia Manoel Quentino.
E assim por diante, até que Mr. Richard, ao principiar no palco a aria:
Cruda… funesta smania.
pôz termo com ligeiro psiu aos luminosissimos esclarecimentos do guarda-livros.
Manoel Quentino calou-se logo, promettendo a continuação para o primeiro intervallo.
Antes do fim do acto, deu-se na plateia um incidente vulgar no nosso theatro, e cuja frequente repetição, em certos annos, mantem em perpetua tribulação o espirito dos emprezarios.
Á entrada da prima-donna, e antes d'ella soltar a primeira nota, romperam de um dos lados da sala alguns signaes de desagrado.
A maioria do publico, alheia ás altas questões de bastidor, elementos d'estas subitas tempestades, estranhou ver assim reprovar quem, dias antes, se applaudia com phrenesi, porventura exagerado.
Manifestou-se portanto reacção, extremaram-se os campos, desenvolvendo-se, de parte a parte, um ardor, que, durante alguns minutos, interrompeu o espectaculo.
Na plateia tudo era movimento e confusão; nos camarotes, os homens penduravam-se, para observarem, au vol d'oiseau, a borrasca humana que se lhes desencadeiava aos pés, e alguns, menos impacientes, formulavam, lá de cima, acerbas censuras, que se perdiam no espaço; as senhoras quasi desmaiavam de assustadas; outras, mais animosas, examinavam a binoculo as peripecias da contenda; a orchestra, deixando de tocar, e erguida em massa, passára a ser espectadora; os cantores cruzavam os braços e imitavam-a; os habitantes das varandas,—porventura os unicos espectadores de boa fé e de amor de arte sem mescla,—urravam de indignados; a auctoridade punha-se em pé no camarote e pedia para ser ouvida…
No meio d'este tumulto, Mr. Richard dava evidentes signaes de desagrado, traduzidos por muitos hos! por muitos estalidos de lingua, por muito sacudir de cabeça, e por pancadas de impaciencia com os nós dos dedos no encosto do camarote.
Manoel Quentino, igualmente escandalisado, era mais verboso na expressão de sua indignação.
Esse fartou-se de fallar, de ralhar, de gesticular, de censurar as auctoridades, de formular projectos absurdos de policia theatral, e isto tudo, quasi debruçado no camarote, e fitando a massa escura da plateia, cujo alvoroto ia crescendo.
Jenny olhava tambem na mesma direcção, mas o motivo era outro.
No camarote proximo ouvira fallar com severidade dos amotinadores da sala, e, entre os nomes mencionados, escutára o do irmão. Jenny estremeceu, e d'ahi vinha o cuidado com que examinava a plateia.
No entretanto, Manoel Quentino bradava:
—Eu, se fosse á auctoridade, mandava todos para o Carmo. Isto é um desaforo. Vem uma pessoa para se divertir, e vae… e vae… e vae…
A hesitação no terminar a phrase era devida a ter alguma cousa attrahido a attenção do velho para um ponto da sala.
—Oh! oh!—disse elle por fim—Ora, se elle lá não havia de estar!
Podera! A festa não se fazia sem elle. Estava de ver!
—Quem?—perguntou Jenny, receiando comprehendel-o.
—Lá está tambem o Carlinhos; pois não vê?
—Onde? Onde?—perguntou logo, com vivacidade, Mr. Richard.
Manoel Quentino sentiu ao mesmo tempo a mão de Jenny a apertar-lhe o braço, como para recommendar-lhe discrição. Antes porém de a sentir, já elle tinha percebido a necessidade de ser prudente.
—Acolá!—e apontou em direcção exactamente opposta ao logar, em que estava Carlos.
—Aonde, homem?… Não vejo.
—Pois não será elle? Alli, ao pé d'aquelle sujeito de chapéo branco. O snr. Richard ainda não vê… Admira!… Olhe, elle lá vae embora… Olhe agora… Adeus, lá foi…
—Não era elle.
—Era, era… Até me parece que elle me fez signal de lá, como quem… sim… como quem… estava zangado com este desaforo.
Principiava Manoel Quentino a prejudicar a causa que defendia, levando longe demais a defeza. Era sestro seu.
Carlos achára-se effectivamente envolvido na maior força do tumulto, ainda que com fim louvavel, qual era o de pacificar dois amigos, prestes a entrar em combate por causa d'esta questão theatral. Levantando porém occasionalmente os olhos para o camarote, percebeu um signal de supplica e inquietação em Jenny, e porisso, emquanto os olhos de Mr, Richard, guiados traiçoeiramente por Manoel Quentino, o procuravam em outro ponto, cedeu elle o logar a novos apaziguadores e saiu da plateia.
Manoel Quentino, que lhe seguia os movimentos, respirou então, dizendo:
—Elle ahi vem; verá v. s.ª que não tarda. E tem razão em vir; não se pôde estar lá em baixo com similhante gente.
Effectivamente Carlos não tardou a entrar. O primeiro olhar foi para a irmã, que soube tranquillisal-o com outro, e habilital-o a comprehender o papel, que lhe convinha representar diante do pae.
Carlos, entendendo-a, foi severo para com os desordeiros, o que evidentemente agradou a Mr. Richard.
No entretanto, havia-se restabelecido a serenidade na sala; o primeiro acto terminou sem outra novidade mais do que a de ser no fim a prima-donna applaudida com enthusiasmo pelos mesmos que a tinham pateado á entrada.
Mysterios de theatro, os quaes nunca pude penetrar.
Mr. Whitestone saíu no intervallo; Carlos ficou.
Manoel Quentino tomou então a palavra para prégar um sermão a Carlos, sobre os perigos das más companhias. Carlos escutou-o, rindo e commentando-lhe as sentenciosas palavras com ditos jocosos, que não permittiam ao velho a manutenção d'aquella seriedade, que reclamava tão substancioso assumpto.
Passado tempo, principiou Carlos a analysar as differentes toilettes e typos femininos, que adornavam os camarotes, critica em que nem sempre era em demasia benevolo. De uma das occasiões em que, para proseguir n'este exame, procurava limpar os vidros do binoculo, tirou do bolso um pequeno lenço de mulher, com cercadura de renda, para o qual se pôz a olhar admirado.
Depois, segurando-o por uma das pontas, e mostrando-o á irmã, disse, sorrindo:
—Ainda me tinha esquecido isto, Jenny.
—O quê?
—Outra apprehensão que fiz, com esperança de por ella obter esclarecimentos, e… que cabeça a minha!… nem já sabia que o tinha em meu poder…
—Mas a que te referes?
—Então esqueceste-te já da minha confidencia, no dia do carnaval?
—Ah!—disse Jenny, olhando immediatamente para Manoel Quentino.
As vistas d'este tinham-se tambem fixado no lenço, e parecia examinal-o cada vez com mais curiosidade.
—Dá-m'o—disse Jenny, estendendo a mão para recebel-o.
—Não posso—respondeu Carlos, retirando a sua, a rir.
—Dá-me licença?—disse Manoel Quentino, estendendo tambem a mão para elle.
—Para o entregar a Jenny depois?
—Não, não é; queria ver…
—Que tem você a ver com este lenço?—perguntou Carlos, dando-lh'o.
Jenny mostrava-se cada vez mais inquieta.
Manoel Quentino examinava o lenço com attenção.
—É celebre!—dizia elle—É exactamente um dos lenços que eu dei a minha filha no dia dos annos d'ella.
—Como?—perguntou Carlos, olhando para a irmã.
A inquietação de Jenny redobrava.
—Não que é exactamente!… as rendas… o bordado dos cantos… Só falta… Ah… mas a marca também!… um C.!… Este lenço é de Cecilia! Como é possível?!…
Jenny julgou que era tempo de intervir.
—Ora ahi temos o snr. Manoel Quentino embaraçado com uma cousa bem simples—disse ella, rindo.—Esse lenço, é de Cecilia, é; que duvida? Deixou-o ella, por esquecimento, ha dias… na terça-feira… em minha casa. Este buliçoso tem o costume de levar tudo do meu quarto, sem me consultar, e, julgando que era meu…
—Ah! bem me parecia que era o lenço que eu tinha dado a Cecilia. Estava admirado!
Carlos olhava para Jenny e para Manoel Quentino, como sem saber ainda bem o que pensar d'aquillo.
—Espero que m'o restituirás—disse Jenny—a mim é que compete entregal-o a Cecilia.
Carlos ia a responder, talvez imprudentemente, quando um gesto da irmã lhe impôz silencio e acabou de explicar tudo.
Emfim já não era mysterio para elle o nome da desconhecida do baile.
Tirando o lenço das mãos de Manoel Quentino e entregando-o á irmã, disse, com entonação de intelligencia, para esta:
—Tens razão, Jenny. És tu, a quem compete entregal-o. Acredita que foi por esquecimento que eu não te fallei n'este… roubo… O que reputo uma felicidade.
—Porquê?—perguntou Jenny, fazendo-se séria.
—Por… por causa da surpreza que veio agora causar ao nosso amigo
Manoel Quentino.
—Não, eu só estranhei…
Jenny mudou o assumpto da conversa.
Carlos ficou pensativo. Voltou á plateia, ao principiar o segundo acto. Todos lhe estranharam a distracção e a indifferença com que assistia á discussão, que ainda durava, sobre o facto da pateada.
Nem mais attenções lhe mereceram os cantores e a opera.
Jenny observava-o do camarote, e não deixou de reconhecer essa indiferença na posição invariavel, em que elle se conservou durante dois actos e um intervallo inteiro, como alheio a tudo o que em volta de si se passava.
—Que resultará agora de todo aquelle meditar?—pensava a irmã.
Ao principiar o ultimo acto, Carlos voltou ao camarote.
Manoel Quentino, não podendo luctar mais tempo contra a força do habito, adormecera. Mr. Richard estava absorvido em um dialogo, com um seu compatriota, de cabellos e suissas côr de neve, gravata da côr das suissas, e tez côr de rosa de Alexandria; fallavam nos triumphos lyricos da celebre Malibran, que ambos tinham, quando rapazes, escutado em Londres; no estylo de canto da phenix dos tenores—o famoso Rubini, o qual haviam admirado em 1831, no Queen's Theatre; no D. Giovanni, de Mozart, musica de que nunca se saciam os tympanos britannicos; e na Beggar's Opera de Gray—protesto do gosto nacional contra a escola italiana, que se riu do protesto.
Carlos, sentando-se junto da irmã, podia pois julgar-se a sós com ella.
—Então a minha bella incognita do dóminó de seda…—principiou elle.
Jenny olhou receiosa para Manoel Quentino.
—Não tenhas mêdo—disse Carlos.—Dorme e ameaça resonar.
—Estás agora convencido, Charles—disse Jenny ainda a meia voz—da verdade do que eu te dizia aquella manhã?
—A respeito?…
—A respeito da tua aventura da noite de carnaval. Cecilia é uma menina bem educada e de grande delicadeza de sentimentos. Deu imprudentemente aquelle passo, que Deus sabe quantos desgostos lhe poderia vir a causar, se a tua generosidade não prevalecesse a final sobre as tuas… loucuras; como ha de continuar a prevalecer ainda, assim o espero. Não estiveste tu mesmo para a perder no conceito dos que a não respeitam, porque a não conhecem? Não terias agora remorsos?
—Mas Cecilia…
—No mesmo dia, em que tu me fallaste n'isso, me veio ella contar tudo. Tambem tenho a sua confiança. E se soubesses com que receios o fez! se visses com que lagrimas não fingidas me interrompeu, quando eu lhe ia a confessar o que pensavas das mulheres, que se encontram sós e mascaradas n'aquelles logares!
—Pois tu disseste-lhe… Ó Jenny!…
—O bastante para a acautelar de passos, como aquelle; visto que nem sempre apparecem protectores que, no meio das suas velleidades, conservem ainda uns restos de sentimentos generosos…
—Valha-te Deus, Jenny! Mas… na verdade que me custa ainda a acreditar! Pois era Cecilia! Confesso-te, Jenny, que nunca suppuz que aquella rapariga tivesse tanta graça, tanta intelligencia, tanto…
—Não é d'essa injustiça que eu desejo ver-te arrependido, Charles, mas antes da do conceito que fizeste de Cecilia, do modo como a trataste, só por a veres onde nem quizeste suppôr que podesse estar tua irmã…
—E repito!—acudiu Carlos, com vivacidade.
—Pois bem, Charles—respondeu Jenny placidamente, mas em tom reprehensivo.—Digo-te eu então que as qualidades, que a vida inteira de Cecilia dão-lhe direito a exigir de ti tanta consideração e estima, como a que dizes ter-me. É ainda hoje a minha melhor amiga.
Carlos olhou para a irmã, admirado; tal era a gravidade, que lhe descobriu no olhar e na voz.
Devemos confessar que elle nunca viu em Cecilia outra cousa mais do que uma rapariga bonita, a qual muitas vezes lhe merecera olhares complacentes, mas de quem tão depressa se esquecia, como d'ella se afastava.
Recordo-me de haver dito, que esta qualidade, de não desafiar immediatamente impressões profundas, caracterisava a especie de belleza, que Cecilia possuia.
Nos seus dotes moraes nunca pensára Carlos; e para que havia elle de pensar n'isso? Por estes motivos a seriedade, de que se revestira subitamente o rosto de Jenny, impressionou-o.
—Bem, Jenny—respondeu elle, fazendo-se serio tambem.—As tuas palavras rehabilitariam até aquelles que precisassem de ser rehabilitados. E Cecilia, creio-o firmemente, não está n'esse caso. Censuras, em tudo isto, só as mereço eu. Hei de provar-te que assim o penso.
Jenny estendeu-lhe a mão.
—Agora reconheço-te pelo que és. Agradecida.
E depois, apontando para Manoel Quentino:
—Escuso de lembrar-te que elle ignora tudo.
—E ficará ignorando.
Manoel Quentino sonhava-se agora no escriptorio, a fazer uma baralhada conta de sommar.
Passados momentos, rodava pelas ruas da cidade a carruagem, que transportava a casa a familia Whitestone.
Das tres pessoas, que ella conduzia, nenhuma fallou durante todo o caminho.
XVII
CONTAS DE CARLOS COM A CONSCIENCIA
Impressionado pelas occorrencias d'aquella noite, que lhe afugentavam o somno, Carlos ao voltar a casa, encostou-se pensativo á mesa e abriu machinalmente um livro.
Quiz o acaso que fosse um volume das obras de Byron e nas Horas de
Ocio. Carlos leu:
Woman! experiance might have told me…
a attenção já o não acompanhou ao segundo verso. Fora fatal a primeira palavra:—Woman!—mulher!—Apoiada n'este magico substantivo, a imaginação ganhou esforço e, deixando os sentidos seguirem os versos restantes, divagou, á sua vontade, mais rapida e por mais longe do que elles.
O caminho, que estes continuaram seguindo, provavelmente poderá o leitor encontral-o, se quizer, na sua bibliotheca: deixaremos porisso Byron em paz, e iremos, como podermos, atraz da imaginação de Carlos.
Principiou por se recordar da revelação que a um acaso devera momentos antes. Recordar, disse eu? Para com rigor me poder servir do termo, era necessario que tal descoberta lhe tivesse já, por instantes sequer, deixado livre o campo do pensamento; e teria? É licito duvidar.
Entrou depois Carlos em tarefa mais activa, qual foi a de tentar avivar a imagem de Cecilia, que apenas lhe apparecia como vaga reminiscencia, e velada por uma nuvem, que elle em vão procurava dissipar.
Se o leitor já alguma vez pôz hombros a emprezas d'estas, deve saber que desesperadoras difficuldades ellas trazem quasi sempre comsigo. Quanto mais ardente é o desejo de recordar uma physionomia, que ainda não temos bem gravada na memoria, tanto mais parece comprazer-se um maligno espirito de impacientar-nos, alterando-lhe completamente o typo, combinando os elementos physionomicos mais disparatados, debuxando a capricho o perfil, colorindo mentirosamente os cabellos e a tez, assombrando com a mais grosseira infidelidade as inflexões e os relevos.
Em uma palavra, Carlos, que tinha visto frequentes vezes Cecilia, ainda que nunca muito attentamente, não pôde, por mais que o tentasse, tirar da memoria uma imagem distincta d'essa rapariga.
Em compensação recordava-se do metal de voz sonoro, com que ella lhe fallára no baile, da graciosa maneira de rir, de tudo quanto lhe dissera, de todas as pequenas circumstancias d'aquella aventura do carnaval, de todas, e tão profundamente se deixou embeber n'estas cogitações que, apoiada a cabeça entre as mãos, os cotovêlos sobre a mesa, e os olhos meio fechados, nem se lembrava de Byron, que sinceramente julgava continuar a ler, nem sequer tinha consciencia do logar onde estava.
A luz amortecida diffundia no aposento soturna claridade, e o silencio era tal, que Carlos ouvia-se respirar.
De repente, como que tentando sair d'aquelle estado, afastou de si o livro com vivacidade.
Vergou a cabeça para traz sobre as costas da cadeira, e passou a mão pelos olhos, á maneira de quem desperta de um sonho. Mas, depois de avivar a luz, caiu de novo na mesma abstracção de que saíra.
Foi porém só a mão esquerda que se encostou á cabeça d'esta vez, emquanto que a direita pegou em uma penna e pôz-se a desenhar e a escrever á tôa sobre uma folha de papel branco, que lhe estava ao alcance.
Escusado é dizer que a alma não tomava parte n'isto.
Segundo a theoria de Xavier de Maistre, la bête ou o outro, que, em nós, devemos distinguir do eu, cansára-se de ler e escrevia agora. A alma, essa continuava na tarefa anterior, meditava ainda.
Observo porém que são perigosas muitas vezes as occupações, a que o tal outro se entrega, quando sacode por momentos o jugo do companheiro. O mesmo Xavier de Maistre aponta-nos exemplos d'isso.
Uma das distracções mais arriscadas é esta de escrever, A mão é indiscreta; e a razão se se descuida, está sendo atraiçoada, quando menos o pensa, por estes automaticos movimentos, que parecem sem significação.
Olhae por cima do hombro do homem absorvido em graves pensamentos, cuja mão move ao acaso a penna sobre uma folha de papel; entre muita cousa insignificante, é raro que uma ou outra palavra, um ou outro signal não symbolise, não denuncie a ideia dominante, que o possue.
Esse outro motor ou principio, que nos domina as acções, quando a consciencia não as regula e dirige, parece ter, como a alma, uma memoria tambem. Exerce-a sobre as particularidades insignificantes, que acompanharam qualquer acontecimento de importancia para o nosso destino. Impressionou-nos uma revelação? quando o pensamento se estiver occupando d'ella, a memoria do outro reproduzirá a maneira de trajar da pessoa, de quem a ouvimos, a côr das paredes do aposento, onde a escutamos, uma phrase dita simultaneamente por um homem que passava. Ora, muitas vezes estes accessorios teem ainda bastante analogia com o facto principal, para que um espirito investigador, sabendo-os, possa ir por elles, de deducção em deducção, até o fundo dos nossos pensamentos.
D'ahi vem o perigo de confiar, em taes momentos, a penna da mão, que se move sob a vontade d'este guia, o qual não tem a discrição necessaria para não deixar no papel vestigios das suas curiosas memorias.
Era o que estava succedendo a Carlos.
Principiou por desenhar, distrahidamente, um elmo; isto parece nada ter que ver com as provaveis cogitações do seu espirito, n'aquelle momento. Cumpre-me, porém, declarar que, na occasião em que no theatro, pela primeira vez, Carlos reparou em Cecilia, passava por diante d'elle um individuo, embrulhado em um manto romano e com um elmo, exactamente similhante ao do desenho.
Depois do elmo, delineou a penna uma meia mascara; aqui já a analogia é mais evidente e dispensa commentarios; uma mão, depois; pensava talvez na de Cecilia, cuja belleza notára ao apertar-lh'a, á despedida. Adiante…—agora parece maior o desacerto—um lampeão de praça! É verdade que havia um a illuminar a mysteriosa incognita, no momento em que, na afflicção, invocára o nome de Jenny, e conseguira, graças a esse nome invocado, evitar a ulterior perseguição de Carlos. E é provavel que fosse esta a razão de similhante desenho, visto que, em seguida, a mão escreveu por muitas vezes, e em diversas fórmas de lettra:—irmã, por sua irmã, por Jenny! Depois chegou a vez de um orgão de igreja;—esboço, que só julgará incoherente quem se não recordar da santa do kalendario, da qual esse é o emblema. De facto, a ideia do sacro instrumento veio de Santa Cecilia, e a ideia da santa não era das que acudiriam á mente de um protestante, se, cá na terra, alguma homonyma, por canonisar, a não chamasse lá. Após isto, escreveu uma palavra absurda, singular, inqualificavel; foi esta:—Ailicec; mas inverta-a o leitor e cessará a estranheza, que ella lhe possa causar; seguiram-se-lhe outras, não menos exquisitas, e formadas de diversas combinações das mesmas sete lettras, que emfim appareceram dispostas por ordem natural na palavra: Cecilia. Mais abaixo,—singular transição!—escreveu Carlos em caracteres bem legiveis:—Papa;—depois:—Calvino; e, acto continuo, o nome de um compatriota e amigo seu, que, mezes antes, tinha casado com uma senhora catholica.—Veja o leitor se poderá interpretar estes signaes, e ao mesmo tempo diga se não estava sendo de grande indiscrição para a alma, o outro, companheiro inseparavel d'ella.
A final a mão traçou, muito de vagar, as duas seguintes palavras reunidas:—Cecilia Whitestone.
A razão pareceu então despertar, e, espantada com o que viu feito na sua ausencia, tentou pôr termo a similhantes imprudencias; e a mão subitamente passou um traço por as duas ultimas palavras, logo depois de escriptas.
Carlos levantou-se para passeiar no quarto.
Principiou então a convencer-se de que tinha de facto sido injusto em formar tão levianamente um conceito pouco favoravel da mascara, e menos cavalheiro do que devia, no seu procedimento para com ella. Jenny havia-o reprehendido por isso tudo—e Carlos julgou ouvir a propria consciencia applaudindo Jenny. Chegou a persuadir-se de que tinha remorsos, e pareceu-lhe necessario imaginar alguma maneira de remediar tão grandes culpas.
Ouviu duas horas, ainda a pensar n'isto.
Deitou-se vestido sobre o leito; e cada vez a parecer-lhe mais necessaria e urgente uma resolução n'aquelle sentido!
Eram tres horas, quando julgou ter somno. Deitou-se por baixo da roupa, e apagou a luz.
O socego, que o rodeiava, um d'estes socegos nocturnos, tão completos que até o roer da larva invisivel, occulta no seio da madeira, se ouve distinctamente, impacientava-o, longe de convidal-o ao repouso. Quando o espirito está agitado, quando uma ideia qualquer nos inquieta, o silencio, a tranquillidade exterior parecem-nos um escarneo e irritam-nos.
Em menos de um quarto de hora já a cama estava em desordem, e a travesseira no chão. Carlos accendeu de novo a vela, trouxe um livro para a cama e esteve meia hora com elle aberto nas mesmas paginas.
Sentou-se impaciente no leito, e imaginou que tinha febre.
E assim se conservou até ás cinco horas da manhã, que foi sómente quando adormeceu, ou antes se deixou caír exhausto por o cansaço, que produz a insomnia.
E que resultou de tanto pensar? Vêl-o-hemos brevemente.
Vamos agora a casa de Manoel Quentino, onde nos encontraremos com antigos conhecimentos.
Ao voltar do theatro, contára Manoel Quentino á filha, não só o enredo da Lucia, que não podéra concluir no camarote, mas todos os principaes successos da noite; esqueceu-lhe porém o episodio do lenço, ao qual não dera importancia.
Cecilia escutou-o calada.—Dir-se-hia que já a impacientava ouvir tantas vezes fallar em Carlos; porque, de facto, parecia proposito formado em Manoel Quentino o ter sempre que contar do rapaz, d'essé estouvado, a quem, apesar de todos os estouvamentos, o bom homem queria devéras.