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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 38: XIX
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

A julgar pela apparencia de ligeira mortificação, que tomava n'esses instantes o rosto de Cecilia, devia suppôr-se que existia n'ella uma forte antipathia para com o predilecto do pae.—Mas será prudente não confiar demasiado no rigor logico d'estas deducções physionomicas, e muito mais em mulheres.

No dia seguinte pela manhã, ao partir para o escriptorio, Manoel Quentino não deixou a filha menos melancolica do que nos anteriores; até lhe pareceu mais falta de côr. Falta de côr! Deus sabe os intimos e dolorosos estremecimentos, que estas palavras desafiam no coração de um pae! São para elle as faces rosadas de uma filha, como o firmamento para estas organisações impressiveis em excesso, onde, ao toldar-se de nuvens o céo, se projectam as sombras da tristeza; onde, quando elle ostenta um azul sem mácula, se reflecte a luz das alegrias.

Imagine-se o cuidado, com que devia partir o bom homem.

Que tratos não dava á memoria! Que concepções mais ou menos extravagantes! que minuciosas investigações sobre todos os seus proprios actos e palavras não vinha fazendo pelo caminho, só para descobrir a causa d'aquella mal disfarçada melancolia! E tudo em vão!

No escriptorio não o deixou este cuidado; mais de uma vez, se surprendeu com a penna, a incansavel companheira, parada no meio de uma palavra, com os olhos fitos no papel, e sem verem cousa alguma; em completa abstracção, elle, tão pouco propenso a isso!

Depois da morte da mulher—havia quinze annos—, e da doença de
Cecilia—havia seis—nunca tal lhe acontecera; estranhava-se.

Alguma razão tinha Manoel Quentino para estes cuidados.

Não que se podesse dizer Cecilia verdadeiramente triste; a imaginação do pae, excitada pelo seu muito amor, exagerava o mal, á força de o temer; mas perdera a despreoccupação, quasi infantil, que era natural n'ella; desgostára-se de repente de alguns passatempos, que, no meio das canceiras domesticas, ainda conservava de creança; tomára-se inesperadamente do gosto de passeiar só pelos corredores e pelas ruas do quintal, que não era proprio do seu caracter pouco meditativo, até então pelo menos. Manoel Quentino estranhava, por exemplo, não a ver fazendo saltar o agil e engraçado gato maltez, que não andava pouco sentido com a mudança; não a ouvir já cantar a meia voz, quando trabalhava á janella do quintal; ou formular observações, innocentemente satyricas, a respeito de alguns vizinhos, e as impertinentes perguntas com que, muito de proposito, costumava impacientar a criada; nem o mais ligeiro indicio denunciava agora n'ella uma indole propensa ao jovial.

Na manhã, em que Manoel Quentino luctava com as apprehensões que estas mudanças em Cecilia lhe despertavam, trabalhava ella no quarto com as janellas fechadas, contra o seu costume, e tão distrahida, que não era raro parar-lhe a agulha a meio caminho da costura.

Por mais de uma vez, Antonia, vindo consultal-a sobre negocios domesticos, foi constrangida a repetir a pergunta, porque Cecilia não a tinha comprehendido—o que, seja dito em abono da snr.ª Antonia da Natividade, não procedia de falta de clareza na redacção da phrase.

De uma d'estas fundas abstracções, tão repetidas n'aquella manhã em
Cecilia, veio arrancal-a o toque impetuoso da campainha do portal.

A este som Cecilia estremeceu e dirigiu os olhos para o relogio da sala, com um gesto de surpreza. Pouco passava da uma hora; não podia ainda ser o pae que voltasse, e raras vezes outra mão que não a d'elle fazia assim soar a campainha—muito menos áquellas horas do dia.

A estranheza augmentou e quasi degenerou em inquietação e susto com a entrada da criada, cuja physionomia não era de facto, n'aquelle momento, para tranquillisar ninguem.

A veneravel matrona trazia estampado no rosto, vigoroso de expressão, o mais completo espanto.

Cecilia, vendo-a, ergueu-se de subito e fez-se pallida, como se já aguardasse uma má noticia.

—Menina!… menina!…—dizia, a custo, a criada, fóra de respiração.

—Jesus! Que é, Antonia? que é?—perguntou Cecilia, batendo-lhe o coração com tal violencia, que parecia despedaçar-lhe o peito.

—Ai que ainda não estou em mim! continuava a outra.

—Diga, mulher! diga o que é.

—Ora que ha de ser! Ai!… Não se assuste… Safa!… Eu sempre fiquei!…

—E não diz!

—Digo, digo, menina. Pois porque não havia de dizer? Para isso vim.

—Pois não parece. Não vê o susto em que estou?

—Susto?! Não é caso d'isso, socegue… É que… aí, deixe-me, por amor de Deus, respirar…

Cecilia ajuntou as mãos com impaciencia.

—É um senhor—disse por fim Antonia—um senhor todo asseiado e bonito, que quer… Ai! sempre se me pregaram umas dores de cabeça!

—Que quer o quê, Antonia?

—Que quer fallar á menina.

—A mim! Você que diz, mulher? Isso póde lá ser!

—Tanto póde, que elle lá está.

—Lá! Aonde?

—Na sala das visitas.

—Pois mandou-o entrar?! Valha-me Deus!

—Então que havia eu de fazer? Se elle procurava a menina… Não, a delicadeza não fica mal a ninguem; sobre tudo com pessoas delicadas tambem. Havia de ver que modos aquelles tão bonitos! Obsequio vae, obsequio vem; senhora para aqui, senhora para alli; não é lá como estes cabouqueiros, que ás vezes veem por ahi, que julgam que todos foram creados a borôa e a caldo verde, como elles. Não, senhora; bem se vê que este é pessoa fina…

—Mas… é impossivel. Ha engano; não póde ser a mim que elle procura…
Você ouviu bem?

—Ouvi, menina, ouvi. Ora que scisma! Graças a Deus não estou tonta de todo. Ia agora deixar entrar assim, sem mais nem menos, um homem pela casa dentro, sem ouvir, sem perguntar… Credo, menina! melhor conceito faça de mim. Olhem agora! Ora essa não está má! Não, se eu não entendia aquillo, estava bem servida com a minha vida! Por as palavras se entende a gente e nosso Senhor nos dê sempre ouvidos para ouvir, olhos para ver e juizo para entender. Amen.

—Está bom, está bom. Já agora não ha remedio senão ir ver quem é. E o pae não estar em casa!…

—Ora não temos nenhum ataque de ladrões. Nem que fosse alguma cousa do outro mundo… Se a menina estivesse só, não digo … mas na companhia de uma pessoa de … de representação…

Cecilia parecia ainda irresoluta.

Antonia insistiu:

—Então, menina! Olhe que isso até parece mal tambem. Fazer esperar assim aquelle senhor! A final não sei de que tem receio. Então se a gente vae a…

—Ora cale-se, mulher, cale-se. Se eu sei o que você tem estado para ahi a prégar…—interrompeu-a Cecilia, já impaciente—Que hei de ir, sei eu. Já que o mal está feito…

—O mal! Ó menina, não me diga isso, por quem é. Então queria que eu…

Cecilia, depois de rapidamente se ageitar ao espelho, voltou as costas á snr.ª Antonia, e dirigiu-se para a sala onde a criada introduzira a estranha visita, que tanto a estava inquietando.

Antonia seguiu-a, resmoneando o resto das suas reflexões.

Ao entrar, não viram ninguem. A pessoa, que alli esperava, saíra para a varanda de pedra, que deitava sobre o quintal. Voltou porém, logo que percebeu que as duas haviam entrado na sala, mas, como ficasse com as costas voltadas á luz, não foi logo possivel a Cecilia reconhecer quem fosse.

Cecilia deu alguns passos, com hesitação, dizendo:

—Ao que parece, v. s.ª deve ter vindo enganado.

—Não, minha senhora, não vim. É v. exc.ª mesma que eu procuro.

Cecilia parou estupefacta. A voz, que assim lhe respondia, era-lhe conhecida; a pessoa não o era menos.

Ella reconheceu Carlos Whitestone.

O sobresalto e a confusão, que se apoderaram da filha de Manoel Quentino, n'esse momento, são indescriptiveis, mas faceis de conceber por quem tenha escutado, com Jenny, a dupla confidencia, de que atraz fizemos menção.

Cecilia teve de apoiar-se ao encosto da cadeira proxima, para disfarçar a sua turbação, as faces córaram intensamente e a custo pôde dizer, em voz tremula e sumida:

—Ó snr. Carlos!… V. s.ª aqui!…

—Venho cumprir um dever, minha senhora.

—Queira sentar-se—disse Cecilia, quasi constrangida ella propria a fazel-o para não cair.

—Tem duvida, minha senhora, em me escutar a sós?—perguntou Carlos, designando Antonia, com o olhar.

Cecilia, ainda mal senhora sua, fez signal á criada, que, collocada no limiar da porta, mostrava poucas disposições de abandonar o posto, e por isso fingiu não perceber a ordem, apesar de ter entendido bem até as palavras de Carlos.

O genio de Cecilia precisava de reagir contra o enleio, que a tomára; encontrou auxiliar na impaciencia com que repetiu a ordem, acrescentando com certo desabrimento:

—Saia.

Antonia não resistiu. Subiu as escadas, de mau humor, resmungando:

—Olhem agora o peralvilho! Ora já viram! Louvado seja Deus! Sempre ha gente n'este mundo! Que não vá eu descobrir o grande segredo! Melhores barbas do que as d'elle teem confiado na filha de meu pae. O snr. doutor Raposo, um lettrado de mão cheia… pois não punha nenhuma aquella em fallar diante de mim dos seus autos e demandas. Servi tres annos o doutor Dionysio, e, depois de jantar, contava-me tudo o que via e ouvia por casa das familias, onde tratava de medico. E, graças a Deus! nunca tiveram de se arrepender d'isso. Está para nascer o primeiro que tenha razão de queixa da minha lingua… Olha agora .. O lerma, o magricellas, o dois de paus…

E procurando parodiar burlescamente os modos de Carlos:

—Tem duvida, minha senhora, em me escutar a sós?!… Tem duvida, tem, sim, senhor; e então que acha?… Ou, se não tem, devia ter… Então escuta-se assim um creancelho, um homem, que nem põe navalha na cara, sem estar presente uma pessoa de juizo? Hein?—E ella então: «Saia!» Gósto d'isto! «Saia»; não que elle não ha mais «Saia». Não sáe, não, senhora, não sáe assim com essa pressa. Ora ahi está… Ou se sáe é porque… é porque… é por a gente querer viver bem com todos; é o que é… não é por mais nada!

A palinodia prolongou-se n'esta afinação; e a reputação de Carlos ficou de rastos no conceito da snr.ª Antonia.

Logo depois de se perder nas escadas o som dos passos de Antonia,
Cecilia, tremula e confusa, continuou:

—Não posso ainda imaginar a que deva a honra…

Carlos não a deixou proseguir.

—Perdão, minha senhora, v. exc.ª deve suppôr qual o fim, que me levou a solicitar este favor…

—Eu?!—perguntou Cecilia, a tremer.

—Sim, minha senhora—continuou Carlos—se v. exc.ª me conhecesse, se tivesse aprendido a fazer-me justiça, devia prever, ao ver-me entrar hoje aqui, em sua casa, que só um motivo me podia trazer.

—E era?—murmurou Cecilia, quasi receiando-se da resposta.

—Pedir-lhe perdão, minha senhora.

—Perdão!…

Cecilia sentiu o atordoamento precursor da vertigem, ao ouvir aquellas palavras.

—Sei tudo, minha senhora—proseguiu Carlos—e acredite que tenho sinceros remorsos de não haver adivinhado logo; nunca senti assim o effeito das minhas leviandades.

—Mas… sabe… o quê, senhor?—balbuciou Cecilia, como se tentasse ainda duvidar do que era já certeza para ella.

—Não me quer poupar ao desgosto de recordar uma scena, em que eu fui tão culpado?

—Pois Jenny disse-lhe?—exclamou, quasi involuntariamente, Cecilia, como fallando comsigo mesma.

E os olhos brilharam-lhe de lagrimas, prestes a desprenderem-se-lhe pelas faces.

Carlos atalhou-a:

—Não, minha senhora; Jenny não foi indiscreta. O acaso revelou-me tudo o que eu, desde aquella noite, tanto desejava saber. Minha irmã apenas me fez comprehender bem toda a pouca delicadeza do meu procedimento e a necessidade de uma justificação; é essa que eu venho aqui offerecer-lhe. V. exc.ª tem direito a ella, como o teria Jenny e como eu o exigiria de quem tratasse minha irmã… tão grosseiramente, como eu tratei v. exc.ª

—Mas, snr. Carlos, toda a culpa tive-a eu…

—Não diga isso! Insistir em não me reconhecer culpado é apenas uma maneira delicada de recusar-me o perdão que, de proposito, vim aqui implorar-lhe.

Cecilia não respondeu; Carlos proseguiu:

—V. exc.ª é a melhor amiga de Jenny; ella mesma, hontem, m'o disse. Peço-lhe que me não julgue indigno da sua amizade tambem, minha senhora. Eu supponho-me igualmente o melhor amigo de minha irmã. Duas pessoas, que teem assim a estima de um anjo, como aquelle, devem estimar-se uma á outra; não lhe parece?

—Mas eu, snr. Carlos, nunca tive motivos para… não tenho direito para deixar de… estimal-o.

—Perdôa-me portanto?

Cecilia guardou por algum tempo silencio, depois, fazendo esforço sobre si mesma, disse com vivacidade:

—Snr. Carlos, não fallemos mais n'isto, peço-lhe… Esqueçamos tudo, como se tivesse sido um sonho… mau.

E terminando assim o pensamento, baixou os olhos, como desfallecida pela violencia da lucta, que sustentára.

Carlos não replicou immediatamente. Houve um silencio de alguns segundos, incommodo para ambos; emfim, olhando para Cecilia:

—Esquecer!—disse Carlos, de uma maneira, que parecia mostrar não lhe ser demasiado grata a proposta, e depois acrescentou:—Pois sim… Esqueçamos, visto que assim o quer. Mas eu tenho a esquecer, arrependendo-me; já o fiz; v. exc.ª, perdoando; por que recusa fazel-o? Perdôa?

Cecilia ia de novo negar-se a admittir-lhe a culpa, mas, erguendo os olhos, viu Carlos que lhe estendia a mão e, sem bem attentar o que fazia, estendeu também a sua, murmurando:

—Perdôo.

Quando, reflectindo, a quiz retirar, e juntamente a palavra, já não era tempo.

Logo que ouviu de Cecilia o perdão, que viera de proposito solicitar alli, Carlos levantou-se.

—Obrigado, minha senhora—disse elle.—Cumpri o meu dever; agora parto satisfeito.

A pobre rapariga não podia responder mais nada; se ainda lhe estava parecendo um sonho tudo aquillo!

—Mais duas palavras só;—disse ainda Carlos, pegando no chapéo—quando v. exc.ª chegou, não estava eu aqui dentro; reparou? N'esse momento, minha senhora, acabava de fazer uma singular decoberta.

—Uma descoberta?!

—Muito singular. Ha poucos dias—continuou Carlos, aproximando-se da janella, junto da qual estava já Cecilia—passeiava eu n'aquelles pinheiraes… acolá. Meditava… nem posso bem dizer em quê. Não sei de que maneira me attrahiu a vista, e depois me occupou a imaginação, uma casa, que avistei d'alli. Tinha a varanda revestida de trepadeiras, uma roseira no intervallo das duas janellas e, no andar de cima, apparecia frequentemente uma senhora, toda occupada em trabalhos domesticos, n'esse lidar modesto, que rodeia, a meus olhos, de suave perfume de poesia as mais bellas figuras de mulher.

Cecilia baixou os olhos, córando, e pareceu entretida a examinar a andarella do castiçal de vidro, que lhe ficava á mão.

—Imagine agora a minha surpreza, quando, ha pouco, chegando aqui, reconheci esta varanda, esta janella, esta roseira, por as mesmas que de tão longe me haviam chamado a attencão. D'ahi—acrescentou, sorrindo—facil me foi concluir quem era a senhora. Não haverá mysterio n'isto? Não parece que esta roseira queria aconselhar-me de longe o passo que hoje dei? Eu, por mim, estou tentado a crêl-o, e tanto que, por gratidão, peço-lhe licença, minha senhora, para levar commigo uma memoria d'ella. Permitte-me que córte uma d'aquellas flores?

Cecilia só pôde sorrir em resposta, baixando a cabeça.

Carlos aproximou-se da japoneira e cortou um botão, ainda mal desabrochado; voltando á sala, curvou-se respeitosamente diante de Cecilia, e, depois de mais outra phrase de cumprimento, saíu.

Ella viu-o saír, sem que fizesse o menor movimento, e por muito tempo permaneceu no mesmo logar e na mesma posiçao em que havia ficado.

Dominava-lhe o espírito um turbilhão de ideias, que ora o mortificavam, ora, não sei de que maneira, o embalavam agradavelmente.

Foi ainda Antonia quem fez cessar mais esta abstracção.

—Então quem era a final este senhor de tantos recatos e cautelas?—perguntou a criada, a quem a curiosidade mordia com verdadeira sofreguidão.

—Pois não conheceu? Era o filho do snr. Ricardo, do patrão do pae…

—Ai sim?! Como está um homem! A ultima vez que o vi, era elle uma creança… Pois olhe que… a respeito de educação… póde com a que tem… Sempre é herege!

—Por que diz isso?

—Então não viu o descôco, com que lhe pediu, e na minhã cara, para me mandar embora? E a menina então… foi logo! E que queria por fim este chincharabelho?

—Nada… E sabe?… Escusa de fallar a meu pae… n'esta visita…

—É porque… Jenny… e o irmão querem causar uma surpreza a meu pae… para o dia dos annos d'elle e… avisam-me… por isso…

Decididamente Cecilia não tinha geito para mentir; hesitava, córava, a dizer isto, que não era possivel illudir-se ninguem.

A criada que, segundo ella mesma dizia, tinha olhos para ver, notou este rubor e confusão, e commentou-os a seu modo:

—Aqui anda cousa. Ora queira Deus, queira!… Nem sei se diga ao snr. Manoel Quentino… Mas nada, nada; ella lá sabe voltar o pae para onde quer e a final quem fica mal sou eu. Lá se arranjem… Humh! Uma surpreza para o dia dos annos. Pois não foste! Para mim é que elles veem com isto!

Cecilia, procurou encerrar-se no quarto; pegou de novo na costura; mas posso afiançar que não adiantou o trabalho.

Manoel Quentino tinha razão; alguma cousa affligia a filha.

XVIII

CONTAS DE JENNY COM A CONSCIENCIA DE CARLOS

Saíndo de casa de Manoel Quentino, Carlos não ia menos agitado, do que deixára a filha do guarda-livros.

Aquella visita de Carlos, visita que, a seus proprios olhos, elle procurava fazer passar como a mais natural reparação de uma das suas muitas leviandades, talvez perante a analyse imparcial tenha de receber outra qualificação, que não a de um cumprimento de dever.

Se se tratasse de outra mulher, que não fosse Cecilia, de outra com menos graças attractivas, embora com mais direitos ainda á reparação, talvez Carlos não chegasse a convencer-se tão profundamente e tão depressa, como parecia ter-se convencido, da instante e imperiosa necessidade d'aquelle passo que dera; talvez o pensamento de tal visita o não tivesse possuido toda a noite e, pelo menos, não se resolveria por certo a realisal-o, sem haver consultado Jenny, a sua boa conselheira em todos os actos da vida; mas, longe de a consultar, antes lhe andou occultando com cuidado o projecto emquanto o meditava, como com receio de ser dissuadido d'elle.

Ha certos homens, escrupulosos respeitadores da lettra das leis, que praticarão desafogados qualquer acção, averiguadamente illicita, sempre que possam sophismar os artigos do Codigo de maneira que se resalvem da pronuncia judicial; dando-se-lhes pouco que o espirito, que os dictára ao legislador, fique muito maltratado pelo sophisma.

Isto, que se pratíca com as leis civis, poucos são os que, todos os dias e a cada momento, o não fazem tambem em relação ao codigo intimo da consciencia. Raros ousam, se alguns, arrostar contra as prescripções d'este juiz inflexivel e perscrutador, e confessar o delicio desassombrados; quasi todos as discutem, as torcem, as commentam, alteram e sophismam, até as pôrem em accôrdo apparente com os actos que praticaram.

O orgulho leva muitas vezes o criminoso a recusar defender-se nos tribunaes humanos; nem o despreso geral, nem as severidades da lei são bastantes para o obrigarem a vergar a cabeça; tem coragem para adoptar o crime, deixando-lhe o nome de crime; mas esse mesmo, a sós, no tribunal da consciencia, procurará com ardor pleitear a causa, que abandonou perante juizes, de cujas mãos pôde saír a sentença de morte.

Longe de nós o querer estabelecer analogias, muito intimas, entre estes perpetradores de grandes maldades e Carlos, que, para com a consciencia, só tinha a justificar-se de um d'esses peccaditos que, mais ou menos, ha de forçosamente commetter quem tenha nas veias um sangue de vinte annos.

Mas é um tal jury o da consciencia, que, sempre que taes pleitos são necessarios no seu tribunal, a causa é já por isso má. Para as justas dispensa advogados.

Não procuremos illudir-nos nós, como Carlos; sem querer duvidar dos bons sentimentos d'elle, póde-se ir buscar outras razões para a visita, cujos promenores no ultimo capitulo relatamos.

O que é fóra de duvida é que depois d'aquella vigilia, em que o leitor o viu, não teve Carlos pensamento e imaginação, senão para descobrir um meio de tornar a encontrar-se com Cecília, e de fallar-lhe.

O resultado foi o que sabemos.

Se havia sido tão profunda a impressão produzida por a casual revelação do theatro n'aquelle espirito affectado já de vagos preludios do mal, mais a fundo se gravou ainda depois da visita feita a Cecilia.

Parecia que nas poucas palavras que n'essa entrevista Cecilia pronunciára, Carlos tinha decifrado sentidos occultos; pensava n'ellas.

Depois a coincidência de ter sido quasi evocado por aquella mal distincta figura de mulher, quando dias antes fitára de longe distrahidaraente os olhos em uma janella, avultava-lhe agora como uma cousa acima do simples acaso; por pouco estava a acreditar que a secreto influxo lhe haviam n'esse dia obedecido os olhos.

Vejam se não é serio o estado do coração de Carlos, que assim está quasi a tornal-o supersticioso.

Eram duas horas da tarde, quando Carlos chegou a casa. Tomando logo por a rua do jardim, para onde se abriam as janellas do quarto da irmã, parou por baixo d'ellas, e bateu nos vidros uma leve pancada.

Pouco depois agitaram-se, afastando-se, as cortinas, e o vulto de Jenny acudiu áquelle signal.

—És tu, Charles?! A estas horas!

—Pódes fallar-me, Jenny?

—Entra.

Carlos tornou outra vez por a rua, por onde viera; entrou no portal; atravessou alguns corredores e dentro em pouco achava-se no quarto de Jenny.

Jenny estava occupada na feitura do enxoval de uma creança recem-nascida, cuja pobre familia era soccorrida por a bondosa menina.

Carlos sentou-se ao lado da irmã.

Jenny continuou a trabalhar.

—Então que milagre é este? As magnolias do jardim haviam de fazer um espanto ao verem-te entre si a estas horas do dia!

—Sabes d'onde eu venho?—perguntou Carlos, em vez de responder, e brincando machinalmente com um colar de coraes, que tirára de cima do toucador.

—Eu, não—disse Jenny sem olhar para o irmão.

—Venho de casa de Manoel Quentino.

—De casa de Manoel Quentino? E a que foste lá?

—Pedir perdão a Cecilia.

Houve um intervallo de silencio.

Jenny voltára-se subitamente para Carlos, fixando n'elle o olhar serio e penetrante; Carlos com a cabeça baixa parecia todo absorvido na tarefa de contar o numero de coraes, de que se compunha a enfiadura.

—Dizes a verdade, Charles?—perguntou Jenny, ainda immovel, e continuando a fital-o.

—Então por que não ha de ser isto verdade?—replicou Carlos, tambem na mesma posição.

-E fallaste-lhe?

—Fallei.

—Que lhe disseste?

—Confessei-me culpado de quanto tivera logar n'aquella noite do baile e… pedi-lhe perdão…

—E ella?…

—E ella…—proseguiu Carlos, pousando emfim o colar—depois de algumas modestas hesitações… perdoou-me.

—Ah! Charles, Charles! Essa tua cabeça!…—disse Jenny a meia voz, e com inflexão benignamente reprehensiva.

—Então—tornou-lhe Carlos com modos de ligeiro enfado—Não fiz bem? Não era esse o meu dever? Eu esperava até que me applaudisses a acção e tu…

A estas palavras Jenny não pôde reprimir um movivento de impaciencia; arredou a costura em que trabalhava, tomou as mãos de Carlos, e fitando nos d'elle os olhos limpidos e serenos, como o céo de primavera, perguntou-lhe com um meio sorriso:

—Falla-me a verdade, Charles. A verdade só, entendes? Para que procuraste tu Cecilia?

—Que pergunta! Pois não te disse já? Não era do meu dever?…

—Não, não era. Melhor seria fingires sempre que ignoravas tudo, do que dares áquella pobre menina motivo para córar na tua presença. Esse acto, que dizes eu devia applaudir, não partiu do teu coração, que é muito bom e muito generoso, partiu mas foi d'esta cabeça—e pousava-lhe a mão na fronte;—d'esta cabeça, que é uma estouvada.

—És injusta d'esta vez, Jenny.

—Não sou. Quero acreditar que te illudisses a ti proprio; mas, se pensares melhor, verás que tenho razão. Hontem, ao saíres do theatro, estavas triste. Bem o senti. E por que estavas triste? Eram remorsos pela má opinião, que tinhas formado de quem te merecia sómente respeitos, que não tiveste?

—Eram.

—Não eram, Charles, não eram. Para que procuras tu enganar-me? Não eram. Tu sómente lamentavas o fim de uma aventura, á qual tinhas imaginado mais longa duração. O caracter da pessoa, de que se tratava, mostrava-te, depois que a conheceste, que eram sem fundamento as tuas esperanças, e tu então…

—Jenny!

—Para que o queres negar? Olha que eu tenho a vaidade, e o orgulho tambem, de saber ler nos teus pensamentos. Ha muito o aprendi e tu mesmo me auxiliaste.

Carlos baixou os olhos e principiou a torcer machinalmente a corrente do relogio.

Desde este momento a victoria era de Jenny. Ella comprehendeu-o e proseguiu:

—Depois a imaginação, essa travêssa imaginação, que nós ambos conhecemos, pôz-se a trabalhar. Ella não podia resignar-se a ver terminar tão depressa o romance, que phantasiára tão longo, e lidou, e lidou, e apesar de te recolheres hontem mais cêdo, não durou a tua vigilia menos do que a d'aquella celebre noite do carnaval; não é verdade? Confessa. E o coração a dizer-te, muito baixo, que devias… que era mais generoso deixar acabar tudo alli, e a imaginação a crear difficuldades, a inventar deveres, a entreter-te de não sei que pontos de honra muito exigentes; e então o coração, o pobre coração, que cada vez ia perdendo mais terreno, a lembrar-te que pelo menos consultasses tua irmã, Charles, e a outra, a má, nem isso te concedeu; provou-te a vantagem de me occultares tudo! Tinha mêdo de que eu podesse dissuadir-te! E tu a obedeceres á imaginação, e a levantares-te, a partires, a procurares Cecilia, e a pedir-lhe um perdão de creança, que em outras circumstancias te faria rir, e a pobre menina a conceder-t'o, sem bem saber o que fazia. Confessa, Charles, confessa, a verdade d'isto.

Carlos não pôde disfarçar um sorriso, e, levando aos labios a mão que a irmã pousára na sua, murmurou:

—Feiticeira!

Jenny sorriu tambem.

—Na verdade!—proseguiu ella, d'ahi a pouco—é uma forte imaginação essa tua, que tanta cousa consegue de ti! e comtudo…—acrescentou, cobrindo-se de repente de mais seriedade—e comtudo eu prefiro ainda dirigir-me ao teu coração, que tambem é forte, porque é muito sensivel e muito generoso e que a ha de poder vencer; não é verdade? É a elle que eu vou fallar, Charles, e espero que serei escutada.

—Falla, Jenny, falla. Aconselha-me. Bem sabes que ha muito te tenho por meu bom anjo. Falla—disse Carlos, affectuosamente.

—Ora dize-me, Charles—continuou Jenny, cada vez mais commovida:—não imaginas o que póde resultar d'essa tua phantasia, a deixares-te assim arrastar por ella? Cecilia até hoje tem sido feliz. No passado não tinha nada que a envergonhasse ou que lhe désse pena; no futuro não antevia nuvem, que de longe a ameaçasse. Era uma vida aquella tranquilla e serena, como não imaginas. Mas Cecilia tem dezoito annos, Charles, e um coração cheio de confiança e uma imaginação… um pouco á similhança da tua… Conheço-a, a ella tambem. Se alguma vez se apoderar d'aquelle bom espirito qualquer ideia, se passar uma hora a acalentar qualquer illusão, acredita que já não será sem esforço, e sem dor, que a arrancará de si. E dize-me, Charles: a tua consciencia, que é justa, não havia de querer mal, e muito, á tua phantasia, que é uma enganadora, se ella fizesse, com seus conselhos, nascer essa illusão, obrigando-te a sacrificar ao capricho de uma manhã o futuro inteiro de uma existencia?

—Mas de que maneira imaginas tu esse sacrificio?—interrogou Carlos, levantando os olhos para a irmã.

—De que maneira? Pois dize-me: se Cecilia, que podia esquecer aquella scena do baile e todas as suas consequencias, principiasse, depois da tua visita, a pensar mais n'ella? se, sabendo-te senhor de um segredo seu, principiasse a… a pensar mais em ti? se, córando na tua presença de acanhamento ao principio, pouco a pouco… quem sabe lá?… viesse a córar… de commoção… de… amor?…

E, ao pronunciar esta palavra, as faces de Jenny tingiam-se de desmaiado carmim.

Carlos sorriu, vendo-o.

—Tu ris, Charles? É porque estranhas em mim estas palavras ou por suppôres infundados os meus receios? Em qualquer dos casos não tens razão. O que não conheço por mim, ha muito aprendi a conhecer por os outros, e por ti, Charles, principalmente por ti. Eu sei como essas cousas se passam; como o capricho se transforma em ideia fixa, como a ideia arrasta após de si a paixão. Eu sei, Charles; que o tenho visto em ti e sei que Cecilia tem imaginação, como a tua, que a póde conduzir a esses extremos; com a differença de que em ti a paixão transforma-se ainda em esquecimento, e n'ella… Se te viesse a amar…

—Que grande mal! Amal-a-hia eu tambem, Jenny.

Jenny desviou a cabeça, procurando exprimir enfado, e tornou-lhe:

—Eu a fallar-te ao coração, Charles, e tu a responderes-me com a phantasia! Creança de vinte annos! quando se te poderá fallar serio? Pois bem; ás creanças permitte-se-lhes brincar, menos com os objectos, com que não sabem lidar ainda. Tu ainda não aprendeste a lidar com os affectos e com o coração dos outros, sem perigo para elles. Por isso eu te peço que não continues. Não imaginas o que poderia resultar d'ahi, em que luctas te verias envolvido, se um dia…

—Eu tenho coragem para luctar—disse Carlos, um pouco estouvadamente.

—Guarda-a para quando a lucta for inevitavel; mas não provoques tu mesmo a experiencia, que é sempre dolorosa.

—Não te comprehendo.

—Eu só te peço, Charles, que deixes de uma vez esse capricho, que te senhoreia ainda, bem o vejo. Pára, Charles, pára, se queres evitar no futuro o arrependimento tardío; pára, se te queres poupar a remorsos. É a tua irmã, que te pede isto, e tu… dizias estimar-me…

—Não faltava senão que o duvidasses agora, Jenny—disse Carlos, meio agastado.

—Não duvido, Charles, e tanto que tenho fé em que has de saber vencer esse capricho.

Carlos baixou a cabeça e ficou silencioso por algum tempo.

—Não sei, Jenny—disse d'ahi a pouco, levantando-se e passeiando no quarto—não sei até se é só capricho isto.

—Então é já paixão?—disse Jenny com olhar malicioso, e pegando outra vez na costura, em que trabalhava—Uma paixão de dois dias! Como cresceu depressa! Vamos, Charles; não sejas creança. Contento-me com que interrogues desapaixonado a tua consciencia, e o que ella te disser…

—Ai, não te fies muito na minha consciencia, Jenny. Não vês como ella me aconselha?

Jenny fez um gesto de incredulidade, olhando para o irmão.

—Ella? Então foi devéras a consciencia que te aconselhou a visita a
Cecilia? Falla com franqueza.

Carlos não pôde insistir.

Continuou passeiando com os olhos fitos no chão.

A final parou, e olhando para a imagem da irmã, que do espelho o fitava, disse, com modo sacudido:

—Vou tentar obedecer-te, Jenny; mas receio…

—Não me falles em receios. Sem fé nada se alcança, incredulo. Coragem! ainda ha pouco te gabavas de a possuir para as luctas.

—Adeus, Jenny. O que te posso dizer é que se podér desvanecer em mim esta impressão que me causou Cecilia…—Bem vês que te estou fallando agora com franqueza—não receiarei nunca mais pelo meu coração.

—Recordo-me de já me teres dito uma cousa assim… de outra vez.

Carlos ia a responder, mas, como se procurasse fugir a uma conversa que o mortificava, saíu com precipitação do quarto.

Jenny viu-o saír e ficou pensativa.

Momentos depois entrou Elisa com uma carta.

—De quem vem isso?—perguntou Jenny.

—De casa do snr. Manoel Quentino.

Jenny conheceu a lettra de Cecilia. Abriu a carta e leu:

«Minha boa Jenny.

Contra o que lhe tinha promettido, não me é possivel hoje visital-a. Não me sinto boa, e receio ter de me conservar em casa por alguns dias. Meu pae mostra-se inquieto pela minha saude e ainda que não seja senão para o tranquillisar, preciso de privar-me do prazer de a ver. Jenny, lembre-se de mim e peça a Deus que me conceda a bondade de coração e a serenidade de espirito da menina, pois com este meu genio e cabeça, duvido da felicidade na vida. Adeus.

Sua amiga,

Cecilia».

—Ah! tambem ella!—murmurou Jenny, ao terminar a leitura, e ficou mais pensativa do que antes, e uma pequena ruga desenhou-se-lhe na fronte.

O desalento, que parecia descobrir-se através das expressões d'aquella pequena carta, que em vão Cecilia tentára tornar jovial, justificava a ligeira nuvem que viera assombrar a fronte, habitualmente serena, da bondosa Jenny; habituada como estava ás alegrias sem motivo, á despreoccupação da sua amiga, tantas vezes reveladas em cartas e em conversas anteriores, estranhava com razão estes indicios de tristeza.

Além d'isso, o que na vespera ouvira a Manoel Quentino sobre as mudanças subitas da filha, não lhe tinha ainda esquecido.

Era no que pensava, quando Carlos a procurou no quarto; e foi essa a causa principal da apprehensão, exagerada talvez, com que soube da visita feita pelo irmão a Cecilia, e da anticipacão com que previa o futuro d'esta, tão estreitamente ligado ao procedimento de Carlos.

O estado de Carlos tambem não satisfazia. A segurança que, diante d'elle, affectára, ella propria a não sentia. Inquietava-a o acontecido, sem saber bem porquê. A seu pezar, já nenhum outro pensamento a distrahia d'aquelle.

Para tranquillisar-se, tratava de convencer-se de que eram infundados os receios. Recordava todas as passageiras inclinações que conhecera no irmão e que tão depressa, e sem consequencias más para ninguem, vira desvanecer; esforçava-se em explicar de mil maneiras a inquietação de Cecilia com exclusão d'aquella, que, não obstante, uma voz interior teimava em repetir-lhe.

De pensamento em pensamento, foi levada áquellas disposições de espirito, nas quaes se aprazia em contemplar as feições amadas da mãe, a sua conselheira de além tumulo.

E assim, a piedosa filha, com a fronte pendida sobre aquelle retrato, caíu em um meditar profundo, que por muito tempo se prolongou.

A final ergueu os olhos ao céo e pareceu dirigir-lhe uma oração mental. O olhar do Senhor baixaria sobre este anjo, que o implorava para serenar-lhe o espirito? É certo que, passados alguns instantes, diffundia-se-lhe no semblante a costumada placidez.

XIX

AGGRAVAM-SE OS SYMPTOMAS

Com toda a sua natural bondade, e superior penetração de espirito, commettera Jenny uma imprudencia.

Não hesitando em confessar ao irmão as apprehensões que sentia, ao pensar nos resultados da visita feita por elle a Cecilia, deixando-lhe entrever a possibilidade de que se originasse d'ahi, para a pobre rapariga, um d'esses sentimentos, a que imprudentemente se abrem os corações juvenis e que tão depressa adquirem ás vezes a força de paixão, Jenny, a previdente Jenny, apressára o mal, que julgára conjurar assim.

Escutando-a, Carlos, longe de reflectir nas sérias consequencias que podia arrastar comsigo tal paixão, se porventura nascesse, estava sentindo um agradavel prazer em a ouvir fallar na possibilidade d'ella; sorria-lhe já seductoramente esse amor, nas mal delineadas fórmas, sob que lhe apparecia como cousa de futuro e contingente ainda, que era.

Toda a cautela é pouca com estas imaginações, sempre promptas a voar para a região dos sonhos dourados.

É preciso usar para com ellas da prudencia que se deve ter com as creancas, surprendidas á borda de um abysmo; o brado, que se solta instinctivamente com o fim de as salvar, é que muitas vezes as precipita; mais vale encommendal-as á Providencia e não lhes mostrar o perigo, senão depois d'elle passado. Ha situações na vida em que tambem o coração se aproxima, brincando, de um despenhadeiro; todo o conselho n'este caso é igualmente arriscado; o sobresalto, que produz, póde effectuar a quéda.

Aconteceu isto com Carlos Whitestone.

É notavel a importancia que, n'estas cousas de coração, damos á opinião alheia! Andamos muito tempo a hesitar sobre o nome de certos sentimentos, que nos inspira uma mulher, e apesar de contínuo reflectir, não ousamos chamar-lhe amor; um dia, porém, encontramos o primeiro estouvado, que se lembra impensadamente de o classificar como tal, e logo a nossa opinião a curvar-se perante tão ponderosa auctoridade. Ha exemplos até de alguem quasi se chegar a convencer de que ama uma mulher, só á força de lh'o repetirem.

Mais desculpa tinha comtudo Carlos; porque não era Jenny sujeita a formar juizos levianos, nem a exprimir suspeitas e receios, que não tivessem fundamento.

Por isso tudo, saíu elle do quarto da irmã, muito peior do que viera.—E perdoem-me as leitoras, se chamo peiorar ao progredir no caminho do amor; não lhe chamaria por certo assim, se não fosse o cortejo de contrariedades, que de ordinario acompanha esta paixão.

O resto do dia passou-o Carlos no quarto, em completa ociosidade.

Ociosidade! E poderá dar-se tal nome a esses longos intervallos de repouso apparente, em que descansam os musculos, mas em que o cerebro executa porventura os seus mais violentos e fadigosos exercicios?—Se o leitor tem a infelicidade de não possuir um d'estes espiritos frios, que sem cessar absorvidos pelo cumprimento dos deveres da vida positiva, não sentem a necessidade de sacudir, de quando em quando, o jugo, para correrem por dominios mais propriamente seus, dirá se era ociosidade aquillo.

Desde esse dia, a vida de Carlos ia entrar em uma d'aquellas phases, que ao romancista, não resolvido a illuminar os seus quadros de outra luz, que não seja a da realidade, levantam serios embaraços.

Quando uma paixão sincera domina o coração do homem, exalta-se, sublima-se n'elle o que é a vida subjectiva; mas a vida exterior, a apparente, a que só avulta para quem não possue olhos que vejam, e coração que entenda o coração d'este homem, essa, baixa ao nivel das puerilidades.

Quando a dignidade varonil, o empertigamento masculino se conservam irreprehensiveis e intactos no auge de uma paixão, é de receiar sempre pela sinceridade d'ella.

Tudo quanto é convencional esquece então.

Ora, no homem mais grave e sisudo, ha sempre escondida a crença de outros tempos. O elemento pueril não morre nunca de todo em ninguem. A arte social applica-se com afan a occultar das vistas alheias esse legado da infancia; os mais sisudos são os que melhor o conseguem; mas basta um descuido de momento, uma distracção, e elle ahi vem á superfície.

Assim se explicam as proverbiaes canduras dos mathematicos e dos amantes.

Os jogos foram tambem inventados por esse motivo. Fingiu-se acreditar que era uma cousa grave o wist, o voltarete, o boston, etc., etc., para qualquer pessoa poder, em publico, entregar-se a elles, sem offensa da sisudez convencional; porque, se se não fizessem estas concessões á creança humana, que ás vezes tem impertinencias, corria-se o risco de mais escandalosas rebelliões da parte d'ella.

Mas, como dissemos, uma paixão verdadeira, uma d'essas, cada vez mais raras, paixões, nas quaes o prazer de amar lucta, em intensidade, com o de ser amado, absorve muito o espirito, para que elle possa exercer a vigilancia precisa sobre a travêssa creança, de que fallamos.

E, a não haver indulgengia da parte de quem espia estas quebras de seriedade, a victima da paixão corre o perigo de ser menos bem olhada.

Por isso temo fazer chronica do que se passou em Carlos, nos dias successivos á conferencia que teve com a irmã; porque, em tudo, pouco se nos deparará digno de um heroe de romance.

Appéllo porém para as reminiscencias dos leitores, para depois, sendo necessario, parodiar a defeza de Christo á peccadora.

Um dos primeiros phenomenos manifestados em Carlos foi uma subita timidez, n'elle verdadeiramente excepcional; uma perfeita timidez de creança; completo contraste com os seus passados arrojos, que ainda o haviam acompanhado na primeira visita feita a Cecilia.

Agora pela primeira vez se sentia acanhado.

Impellia-o o coração a tornar a ver Cecilia; saíu no meio da tarde com esse intento, dirigiu-se para a rua, onde ella morava; de longe, ao dobrar a esquina, pareceu-lhe descobril-a á janella. Que fortuna! Não é verdade? Assim parece que deveria reputar o facto. Pois não teve coragem de lhe passar pela porta e, sem ser visto, seguiu caminho differente. Mas com que má vontade ia contra si proprio!

D'ahi a pouco assomava de novo á mesma esquina; não estava ninguem á janella; pareceu animar-se com esta observação e caminhou para diante d'esta vez.

Ia ao mesmo tempo contente e mortificado, por não ver ninguem. Não sei se admittem que uma só causa tenha assim effeitos oppostos; fica-lhes livre darem ao facto a interpretação que quizerem: eu limito-me a registal-o.

Quando ia já proximo da casa, appareceu subitamente alguem á janella. Era Cecilia; adivinhou Carlos que era ella, antes de reconhecer. Com a apparição ficou mortificado e contente; outra vez o mesmo phenomeno paradoxal.

Apressou logo os passos e tomou uns ares de homem atarefado, como se quizesse dar a entender que a sua passagem por alli era puramente casual ou motivada por negocio urgente.

«Incoherencia!» dirá um galanteador de profissão. Incoherencia, é verdade; e pobre da paixão, que não dá para incoherencias. Se o rigor syllogistico resiste a uma d'estas commoções do coração, não vale a pena tomal-a a serio.

Ao passar por defronte da janella, Carlos cumprimentou Cecilia, timidamente, quasi canhestramente, sem lhe sobrar coragem para a fitar e não ousando voltar de novo a cabeça, em todo o resto da rua, que seguiu até o fim.

Interiormente redobrava a impaciencia e má vontade contra si proprio. Elle, que sempre se reconheceu arrojado, agora com acanhamentos de namorado noviço!

Parou na alameda, que ficava ao fim da rua. Não lhe saíu aquillo da ideia.—Que quer isto dizer?—pensava elle—Então não estou eu transformado em estudante de quinze annos, que nem frieza de animo tem para cumprimentar a prima, por quem julga morrer de amores? Acho-lhe graça!

E enchendo-se de brios, preparou-se, passados momentos, com maior denodo, para voltar.

Mas, apesar de todas as prevenções, a coragem ia-lhe faltando, á medida que se aproximava do logar do perigo.

Justamente na occasião, em que o attingia, chegava Manoel Quentino á porta de casa.

Era uma d'estas coincidencias felizes, de que, em outra occasião, Carlos saberia tirar partido.

D'esta vez quasi sentiu que ella se désse.

Foi obrigado a parar, depois de ter, sem a menor apparencia de audacia, cumprimentado de novo Cecilia, que estava á janella.

—Então por estes sitios!—disse-lhe Manoel Quentino admirado—O que o trouxe por aqui hoje?

Carlos balbuciou algumas palavras, que não formularam resposta alguma.

Manoel Quentino sorriu maliciosamente.

—Ora ande lá, ande lá com Deus.

Carlos córou.—Córou!

—Acredite que vim… por acaso—insistia elle.

—Sim, sim; pois eu bem sei—continuava Manoel Quentino no mesmo tom.

Carlos estava sobre brazas.

—Serio…

—Serio, sim, serio… pois é lá homem que falle de outra fórma?… Ora vá com nossa Senhora, vá… eh! eh! eh!…

Carlos não teve arte de demorar a conversa, durante a qual não aventurou um só olhar para Cecilia e nem animo lhe assistiu para aceitar o offerecimento que lhe fez Manoel Quentino de subir e descansar algum tempo.

Partiu, cada vez mais desgostoso comsigo, parecendo ter sido o seu principal empenho occultar, e não revelar, a Cecilia o que principiava a sentir por ella.

E agora uma pergunta: não o comprehenderia Cecilia? Parece racional dizer que não; mas quem póde lá adivinhar como o coração da mulher adquire certa ordem de conhecimentos, sobre tudo se…

Mas ponhamos de parte ses menos discretos; que os sentimentos de
Cecilia não são para se devassarem assim de passagem.

O resto do dia Carlos passou-o só no quarto, a ler.

Ha alguma cousa tambem de particular na maneira de ler, quando se está em taes disposições de espirito.

Preferem-se os romances; mas não é pelo lado litterario, que mais se apreciam; porém exactamente como os apreciam as creanças e a maioria das mulheres—pelas peripecias do enredo;—e, permitta-se-me dizer, que imagino ser esta a classe dos leitores, que mais deve lisongear o romancista.

Seguem-se então com ardor as phases successivas de uma paixão descripta alli; deixa-se tomar o coração de amor pela heroina; assume-se o caracter do heroe; e não se perdoa ao auctor quando termina por alguma catastrophe a historia, que escreve.

Isto aconteceu com Carlos. Symptoma terrivel! Leu em uma especie de embriaguez um romance inteiro de Walter-Scott, e muito tempo depois ficou a pensar no que lera; não tanto nas bellezas, que, em todos os generos, abundam nas ainda menos afamadas obras do grande romancista, como na felicidade dos noivos; porque, nos ultimos capitulos dos seus romances, raras vezes Walter-Scott deixa de os unir sacramentalmente.

Á noite voltou Carlos a passar por casa de Cecilia. Havia luz na sala da frente, luz que só se percebia por uma entreaberta das portas interiores. Eram as horas do serão e do chá de José Fortunato.

Carlos saboreou um prazer indefinivel em observar aquella luz. Vão vendo os leitores experientes se não é de inspirar receios o estado do Carlos.

Em casa evitava Jenny; receiava-se d'ella; Jenny, pela sua parte, julgava prudente não provocar novas conferencias sobre o assumpto.

Se ella soubesse que já não era com estes meios brandos, que havia de vencer!

No primeiro domingo, depois d'estas scenas, Carlos que, com toda a diplomacia, soubera de Manoel Quentino ser a Cedofeita que elle e a filha costumavam ir á missa, rompeu com os deveres de protestante e aproximou-se da porta d'aquelle vetusto templo catholico, ás horas a que sabia dever terminar alli o officio divino.

Passeiava na alameda lateral com toda a resolução de se fazer d'esta vez notado.

Mas, ao saír a primeira gente da igreja, apoderou-se d'elle a costumada timidez, e, já com receio de ser percebido, foi encostar-se ao portão de ferro do cemiterio contiguo, por não ter tempo de ir mais longe.

Serviu o mal a inspiração;—mal e bem ao mesmo tempo; porque, ainda n'aquelle momento, havia no espirito de Carlos o mesmo antagonismo de aspirações, que era, havia dias, o seu estado habitual.

Coincidia com o receio de ser visto a vontade de ser descoberto. Não póde haver logica na expressão, quando falta ao objecto que se exprime.

É certo porém que Manoel Quentino, saíndo da igreja com a filha, encaminhou-se para o cemiterio.

N'aquelle cemiterio repousava a mãe de Cecilia, e raro era o domingo em que Manoel Quentino, depois da missa, não ia orar alli, junto da sepultura da esposa.

Quando Carlos percebeu a direcção, que elles seguiam, era tarde para retirar-se. Manoel Quentino já o tinha visto; Cecilia tambem.

O pae sorriu-lhe com familiaridade; Cecília córou, ao corresponder ao acanhado cumprimento de Carlos.

—Então veio orar pelos mortos?—disse Manoel Quentino, com malicia.

Carlos encetou vagas explicações da sua presença alli.

—Pois se veio orar pelos mortos, achou companhia—continuou o velho;—que eu, infelizmente, tenho aqui por quem o faça. Ora deixe-me ver se encontro o cóveiro, para que nos abra a porta do cemiterio.

E, com este intento, dirigiu-se para a sacristia, deixando sem ceremonia
Carlos só na presença de Cecilia.

Precisarei de dizer que este inesperado e involuntario encontro enleiou sobremaneira os dois? Falla-se muito dos embaraços de uma primeira entrevista. Não serei eu quem os negue; quer-me porém parecer que a segunda é ainda mais difficil de sustentar, quando a primeira não foi de todo insignificante.

O que é verdade é que a imaginação de Carlos não lhe suggeriu uma só palavra que dissesse.

Nem sequer fallou no tempo! Cecilia não foi mais eloquente, fixou os olhos na porta da igreja, por onde desapparecera o pae, e emmudeceu.

N'isto uma velha mendiga, d'estas que nunca faltam á porta das igrejas ao findar a missa, aproximou-se d'elles, coxeando e gemendo.

—Meu rico senhor,—disse ella dolentemente a Carlos—tenha compaixão d'esta velhinha, que já não o póde ganhar.

Carlos não lhe dava attencão.

A velha insistiu:

—Ora dê, dê, meu fidalgo; e que nosso Senhor o veja dar.

—Não póde ser—disse distrahidamente Carlos.

A velha recorreu a Cecilia.

—Minha linda menina, peça-lhe que me dê uma esmolinha, peça; e que nosso Senhor os faça a ambos felizes, já que tão bem os talhou um para o outro.

Cecilia tentou sorrir, mas a confusão obrigou-a a baixar os olhos; Carlos não menos confuso tambem com o equivoco da mendiga, tirou do bolso uma moeda de prata e deu-lh'a, dizendo:

—Ahi tem; e vá com Deus, mulher.

Mas a mendiga entendeu que não devia supprimir assim as competentes e diffusas formulas da sua gratidão.

—Ora nosso Senhor os faça muito felizes e os deixe viver muito tempo na companhia um do outro, já que tão bem os juntou! Coitadinhos! Eu hei de rezar muito ao Senhor para que os abençoe e os tenha a ambos na sua divina guarda. Adeus, meu senhor, adeus; adeus, minha senhora. Nosso Senhor Jesus Christo os ha de sempre ver do céo e dar-lhes a felicidade que desejam. Ora coitadinhos!… Padre nosso, que estaes no céo…

Carlos e Cecilia viram-a afastar-se e sorriram, sem olhar um para o outro, e sem saber bem o que dissessem. Voltou Manoel Quentino e nenhum lhe referiu o caso, que com certeza o faria rir.

Este silencio é, no meu entender, de maxima significação.

Carlos acompanhou Manoel Quentino e Cecilia até á modesta campa, sobre a qual um nome, uma data e muitas flores marcavam o logar, onde jazia a que os dois ainda então choravam com saudade. Ao chegarem alli, Cecilia ajoelhou e recolheu-se por algum tempo em oração piedosa; Manoel Quentino, de pé, encostado á grade, orava tambem.

O contagio d'aquella commoção apoderava-se da alma de Carlos. Não sabia elle igualmente o que era ser orphão de mãe?

Duas almas, que receberam, ainda em plena infancia, a precoce provação d'esta dolorosa experiencia, devem entrar mais rapidas em intelligencia de affectos. Ha um laço invisivel a prendel-as já.

Quando no templo, ou junto de uma campa, uma se enleva na oração, a piedade filial da outra adivinha todas as palavras d'aquella prece, resente todas as angustias d'aquella dor.

Calado, triste, fitou Carlos os olhos na sympathica figura de mulher que orava assim, e quasi se sentiu impellido a ajoelhar-se-lhe ao lado e a orar tambem.

Ao erguer-se, encontrou Cecilia os olhos de Carlos, ainda fitos n'ella. Havia tanta sincera compaixão, impressa n'aquelle olhar, tanta d'essa sympathia, que desvanece hesitações e inspira confiança, que, pela primeira vez, Cecilia ousou olhal-o de face, dizendo-lhe com gesto de gratidão e commovida:

—Trouxemol-o a um triste logar, snr. Carlos. Perdoe-me se não poupei o espectaculo, pouco de alegrar, das orações de uma filha junto do tumulo de sua mãe.

—Ha muitas especies de alegria, minha senhora—respondeu Carlos.—Ás vezes os sentimentos melancolicos trazem comsigo algum prazer tambem, um prazer suave, intimo, consolador. Agradeço-lhe ter-me proporcionado um d'esses prazeres.

E calaram-se.

Manoel Quentino, findas as suas orações, deu-se pressa em saír d'aquelle logar, ao qual não era affeiçoado.

A dupla qualidade, doce e amarga, da saudade faz com que uns, para quem a primeira predomina, gostem de renoval-a; e que outros, que pelo contrario lhe sentem mais o travor do que a doçura, se apressem a fugir-lhe. Manoel Quentino era dos ultimos.

Carlos saíu com elles do cemiterio. Cecilia caminhava adiante. Carlos, com os olhos n'ella, entretinha com Manoel Quentino aturada conversa sobre os mais diversos assumptos. O velho guarda-livros fallava da agricultura, de emprezas de commercio, de politica patria, de melhoramentos municipaes, parando muitas vezes, no meio da rua, para dar mais forca ás suas reflexões. Carlos escutava-o com paciencia e docilidade, até então sem exemplo, e pelas quaes o proprio Manoel Quentino estava maravilhado.

Ás vezes, ao chegarem a uma travessa, que podia conduzir Carlos mais directamente a casa, o guarda-livros dizia-lhe:

—Agora então vae por aqui?

—Não; eu acompanho-o mais algum tempo—respondia Carlos.

—Não, mas veja lá…

—Não tem duvida; sigamos.

Só muito próximo já da casa de Manoel Quentino é que este insistiu de tal maneira com Carlos para que não fosse mais adiante, «a não querer fazer-me companhia ao jantar»—acrescentava elle—que, a seu pezar, Carlos condescendeu.

Despediu-se affectuosamente de Manoel Quentino e de Cecilia, com olhar um pouco menos timido já do que os antecedentes, mas do qual ainda se envergonharia qualquer galanteador dos menos arrojados. Ao dobrar a esquina, que lhe devia roubar á vista o pae e a filha, ousou voltar-se para olhar ainda.

Manoel Quentino desapparecia já do portal; Cecilia, que ficára um pouco atraz, voltára-se… occasionalmente—julgo eu que occasionalmente—de maneira que os seus olhares trocaram-se com os de Carlos.

Este facto, bem simples, foi durante todo o dia alimento para a imaginação do rapaz.

Não ha imaginações que de menos se sustentem, do que a dos namorados. Dê-se-lhe um facto insignificante, um sorriso, uma palavra, um olhar, e ella saberá extrahir de tão pouco infinitas riquezas de alimentação… espiritual. D'ahi em diante, o acaso…—não sei que fosse outra cousa—fazia com que, todas as tardes, Cecilia estivesse á janella, quando Carlos passava a cavallo, em direcção aos arrabaldes; e de noite, quando o snr. Fortunato principiava a notar que ia já tardando o chá, havia sempre um momento, em que Cecilia resolvia ir ver como estava o tempo, ficando alguns minutos por dentro dos vidros a contemplar o céo.

Ora queria ainda o acaso…—continuando a suppôr que era elle o motor de tudo isto—que fosse exactamente n'essa occasião, que voltasse Carlos dos arrabaldes, para onde de tarde passára. Não lhe era possivel desconhecer o perfil de Cecilia, assim apparente no fundo illuminado da janella; por isso naturalmente a cortejava, e, como a luz de um lampeão se reflectia n'aquelle momento sobre o cavalleiro, tambem Cecilia não podia deixar de reconhecel-o, e por isso naturalmente lhe correspondia ao cumprimento.

Successos d'esta importancia preencheram muitos dias mais. Não terminaria este capitulo, se fosse a registral-os todos. Amplie-o a memoria dos leitores. Póde fazel-o, porque este capitulo é commum aos romances de toda a gente.

No entretanto estranhava Jenny cada vez mais o irmão, e Manoel Quentino, de seu lado, cada vez mais se preoccupava com as mudanças no genio de Cecilia.

Carlos rompera completamente com os antigos habitos de vida. Notava-se-lhe a falta nos cafés, no theatro, nas assembleias, nos grupos dos amigos.

Passava horas e horas no quarto; ás vezes, com a cabeça pousada nas mãos, sem ler, sem escrever, sem fazer cousa alguma; outras, ouviam-o os criados passeiar por muito tempo, fumando charuto após charuto, e enchendo de fumo a atmosphera em que respirava.

Saía, ora a pé, ora a cavallo, mas quasi sempre os passeios eram para fóra da cidade. Affeiçoára-se subitamente á companhia de um velho inglez, o typo mais massador d'esta colonia portuense, a ponto de ir ás vezes esperal-o ao escriptorio e acompanhal-o com paciencia admiravel até casa—a qual ficava na direcção da de Manoel Quentino.

Se alguma vez succedia ficar ao pé de Jenny, esta admirava-se da mudança de ideias, que se operára n'elle; se procurava mostrar-se jovial, percebia-se-lhe o esforço para conseguil-o. Tudo isto dava muito que pensar á irmã.

Um dia, Jenny viu-o arremessar de si, com manifesto enfado, um livro que estava lendo.

Olhou e reconheceu um volume das obras de Byron.

—Que é isso?!—perguntou Jenny, sorrindo—Que má vontade é essa hoje contra o auctor que tanto aprecias?

—Impacienta-me ás vezes este poeta lord, para te fallar sinceramente. Ha tanta amargura e tanto sarcasmo em algumas d'estas paginas, que, pouco a pouco, nos fazemos maus, depois de uma aturada leitura d'esses admiraveis poemas. É sublime, mas é desconsolador. Leio-o com a cabeça atordoada, mas com o coração confrangido. Os instinctos da aguia são mais altos e heroicos do que os das pombas; mas nós todos queremos as pombas mais perto de casa e não nos consolaria tanto a vizinhança da aguia, embora nos excite mais a curiosidade quando, uma ou outra vez, a fitamos.

Jenny, em vez de sorrir a estas reflexões do irmão, tão alheias ao seu modo ordinario de pensar, fitou-o com maior seriedade e, depois de um instante de silencio, disse-lhe:

—Olha para mim, Charles.—Carlos levantou os olhos para ella.—Dizes isso do coração?

—Digo; por que m'o perguntas?

—Por desejar sabel-o.

E calou-se, abaixando de novo a cabeça para a costura, em que trabalhava.

De outra vez, aproximando-se da irmã, que tambem estava trabalhando, Carlos tirou-lhe da caixa da costura a Biblia, e, abrindo-a ao acaso, leu algum tempo em silencio. Depois, pousando-a sobre a mesa, disse em tom de gracejo:

—Sempre que recordo estes singelos costumes patriarchaes, descriptos no Genesis, não posso deixar de pensar nos muitos esforços que o homem parece ter feito para embaraçar, cada vez mais, o caminho da sua felicidade. Vê tu, Jenny, a simplicidade com que se fez todo este casamento de Isaac e de Rebecca, e compara-a ás mil impertinentes difficuldades, que, sob o nome de conveniencias, hoje é preciso vencer, para se realisar um intento similhante…

Jenny respondeu-lhe no mesmo tom:

—Que estás a dizer, Charles? Quererias tu devéras ver renovados esses costumes? Se, imitando Abrahão, o pae mandasse um servo, á terra dos seus avós, procurar mulher para o filho, aceital-a-hia este rebelde Isaac, embora o servo tivesse, como o da Escriptura, pedido e recebido antes de Deus a inspiração que lhe assistiu á escolha?

Carlos pôz-se a rir. Passados momentos, respondeu:

—Mas pelo menos, n'esses tempos, os que já se mettiam a talhar o futuro dos outros, inspiravam-se de boa origem; hoje… a affabilidade da mulher que abaixasse o cantaro para matar a sêde ao viandante e aos seus camêlos, não bastaria por certo para mostrar n'ella a escolhida por Deus. O servo de hoje, antes de lhe pendurar os pendentes nas orelhas, e de lhe enfiar os braceletes nos pulsos, quereria saber das posses e da posição social da rapariga…

Este dialogo, não menos do que o primeiro, deu que entender a Jenny.

Pela sua parte, Cecilia não fornecia menos motivos á estranheza do pae.

Todos aquelles symptomas, que Manoel Quentino já antes descobrira n'ella, haviam recrudescido agora.

Exagerára-se em Cecilia a especie de exaltação, frequente nas mulheres nervosas, que faz tão promptos n'ellas os risos como as lagrimas, sob a influencia de motivos igualmente pueris. Um amanhecer chuvoso e sombrio, uma flor desfolhada pelo vento, uma borboleta tolhida pela geada, avultam como desgraças grandes; o dispersar das nuvens, os primeiros rebentos de uma planta, a primeira andorinha que se vê passar, a primeira manhã que o cantar das aves sauda, desafiam expansões, proprias dos grandes jubilos.