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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 40: XX
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

Excita-se a impaciencia com uma palavra; vencem-se antigas aversões com um só olhar; um nada basta para destruir longos projectos; novas resoluções vigoram rapidas; acredita-se cegamente nas inspirações do momento; desconfia-se de resoluções meditadas; em uma palavra, tudo então é mobilidade no caracter da mulher. Nunca ha menos logica nos sentimentos, do que em situações assim. O coração pulsa sem rithmo regular, o rubor e a pallidez disputam incessantemente as faces virginaes, trahindo mysteriosas luctas interiores.

Manoel Quentino, pouco versado n'estes phenomenos do coração, via-lhes só as manifestações, que eram bastantes para o inquietarem. Ninguem lhe tirava da ideia que a filha estava para caír doente, que a doença da mãe se transmittiria a ella tambem. E com esta apprehensão o pobre homem era quem adoecia devéras.

XX

MANOEL QUENTINO PROCURA DISTRACÇÕES

O dia 1.º de abril de 1855 caíu ao domingo.

Mencionamos esta circumstancia, cuja exactidão o leitor póde, se quizer, verificar; porque não foi ella insignificante para os destinos das differentes pessoas, entre as quaes vae travada a acção da historia que escrevemos.

São estas cousas justamente as que tão falliveis tornam as previsões humanas; do facto ligeiro e pêco rebentam ás vezes taes e tantos successos estupendos, que não só revolucionam a sorte de um homem, mas até a dos imperios.

Como a referida circumstancia não se realisaria, se não fossem os annos bissextos, segue-se que, por tal facto, a sorte dos que figuram n'esta narração ficou ligada a não menos graúdas; personagens do que Julio Cesar e Gregorio XIII, que foram os que, em épocas successivas, regularam n'este ponto o kalendario, tal como hoje está.

Feita esta reflexão de philosophia da historia, prosigamos.

Sendo domingo, jantou Manoel Quentino mais cêdo, e, como visse de tarde que a tristeza da filha se não dissipava, insistiu com esta para que não ficasse em casa. Lembrou-lhe uma visita a Jenny. Cecilia acolheu o alvitre com repugnancia visivel.

Um sentimento de delicadeza obstava-lhe a que procurasse a sua amiga mais intima. Na mesma casa, em que ella vivia, vivia Carlos tambem, e eu julgo que o leitor terá percebido, sem que eu lh'o tenha dito, que não era já o filho de Mr. Whitestone uma pessoa indifferente para Cecilia.

Manoel Quentino instou porém com a filha para que saísse «a tomar ar e distrahir»—dizia elle—e pediu isto de maneira, que Cecilia resolveu fazer-lhe a vontade, indo visitar as filhas do major Mattos, que moravam algumas casas acima da sua.

—Vae, vae;—disse Manoel Quentino—sempre te distrahirás mais com ellas, do que ficando toda esta santa tarde commigo.

—E então o pae ha de ficar só?

—Eu… eu estou bem assim…

—Isso é que não—replicou Cecilia—irei, se me promette que vae dar um passeio tambem.

—Pois sim, sim. Tudo se ha de arranjar. Lá por isso não seja a duvida.

—Mas então vista-se.

—Deixa-me descansar.

—Eu não saio, sem o ver saír.

Manoel Quentino foi obrigado a condescender. Estava intimamente persuadido de que era vantajoso para a filha passar aquella tarde com alguem, que a distrahisse; porque elle, nas tristes disposições de espirito em que se sentia, não via bem como o fizesse.

Saíu pois, para obrigar Cecilia a saír, e, ao mesmo tempo, ia em busca de distracções tambem.

Era um excellente homem Manoel Quentino, mas dotado de pouca penetração para investigar o enigma da tristeza de uma rapariga de dezoito annos. O seu excessivo amor de pae não o deixava ver claro n'isto. Tudo se lhe figurava presagio de doença, e essa ideia fixa privava-o da necessaria frieza, para ver claro n'estas cousas.

Cada manhã, ao acordar, era um pensamento negro o primeiro que se lhe apossava do espirito—«Irei encontrar Cecilia com doença declarada?»—pensava elle.

Todas as tardes, ao voltar a casa, em vez de tremer com o anticipado prazer de encontrar e abraçar a filha, tremia com o susto de a vir achar enferma.

Por mais que fizesse para tirar aquillo da ideia, não o podia conseguir. Dormindo, inquietava-lhe os sonhos; comendo, vertia-lhe fel na comida; trabalhando, distrahia-lhe a attenção do trabalho.

Os amigos do guarda-livros viam-o com olhos inquietos e murmuravam, uns com os outros, na ausencia d'elle:

—Este pobre Manoel Quentino tem cousa que o rala.

—Está acabado, está.

—Se assim continúa, bem póde o snr. Richard ir lançando, as vistas sobre outro caixeiro, porque este…

N'esta tarde fez Manoel Quentino um esforço desesperado para saír d'aquelle sobresalto, em que andava.

Mas o pensamento humano, quando devéras tomado por uma ideia fixa, em vão se esforça por arrancal-a de si; em vão se desvia para direcções diversas; um como pendor natural o faz voltar de novo a ella. Póde-se, de alguma sorte, comparal-o a estes dados falsificados que, qualquer que seja a maneira por que se arrojem á mesa, mostram sempre aos olhos a mesma face, em virtude da desigual distribuição de massa na sua espessura.—Os phenomenos de equilibrio moral parece obedecerem a leis, comparaveis ás do equilibrio physico.—A estabilidade do pensamento está intimamente dependente da proporcional intensidade das ideias que sobre elle actuam. Agitem um pensamento e deixem-o depois entregue a si, sem novas causas a solicital-o; a ideia mais grave lhe determinará a posição de equilibrio; para que esta se possa indifferentemente verificar em qualquer sentido, é necessario que todas as ideias o solicitem com força igual—phenomeno só proprio dos espiritos fatuos.

Como vimos, Manoel Quentino não pensava por aquelle tempo senão na tristeza da filha, tristeza por elle supposta preludio de doença, que cêdo a viria disputar ao seu amor. Durante toda a tarde não houve corrente de pensamentos, suscitados pelos objectos que via, que a final de contas não terminasse n'aquelle.

Sempre que Manoel Quentino emprehendia um passeio, com o fim de se distrahir, não hesitava na escolha do itinerario. Desde tempos immemoriaes adoptára um e nem lhe passava por o sentido modifical-o. Deixava-se conduzir por o habito n'isto, como em tudo o mais. Atravessava a cidade até á Ribeira; seguia depois, pela margem direita do rio, até Campanhã; chegando ao Esteiro, tomava pela estrada de cima, que o levava ao jardim de S. Lazaro, e emfim recolhia-se a casa.

Foi o que fez n'aquella tarde. A cidade atravessou-a lidando ainda com o pensamento de tristeza, com que saíra de casa.

A primeira diversão operou-a só a vista do mercado de peixe, na Ribeira.

As lanchas valboeiras tinham, n'aquelle instante, chegado ao caes. As regateiras, os compradores particulares e os pescadores que vendiam, animavam o mercado com movimento e vozeria.

Este espectaculo, cheio de vida commercial, não achou indifferente Manoel Quentino. Agradava-lhe aquelle trafego; examinava com olhos conhecedores a excellencia do peixe, e informava-se curioso dos preços que regulavam o mercado. Ao saír d'alli, ia pensando:

—Não ha nada para arranjo domestico, como a pescada. É o peixe mais innocente que ha. Com razão lhe chamam a gallínha do mar. Ahi está a sardinha, que é gostosa; mas é mais doentia tambem. Que a sardinha de Espinho ainda não tanto, mas esta da barra!… D'onde virá a differença?… Pois não será toda ella o mesmo peixe?… Só se é da praia aqui ser mais pedregosa e o peixe saír mais batido… Que esta costa da Foz sempre é muito cheia de pedras!… Só o perigo que correm as embarcações aqui!… Ainda no outro dia, aquella grande desgraça dos oito pescadores que naufragaram!… Muita pena teve Cecilia, quando as folhas contaram de um que deixou uma creancinha orphã! Pobre Cecilia!… tem um coração!… Coitada!… É um anjo… Assim que me lembro d'aquella tristeza em que anda…

E ahi estava a ideia fixa com elle! Parece que ella propria fora a que dispozera esta fileira de ideias associadas, para conduzir a si o pensamento.

A impressão produzida pelo mercado desvanecera-se de todo; Manoel
Quentino proseguiu no passeio, já outra vez melancolico.

Mais adiante, tendo passado a ultima casa, que lhe tolhia a vista do rio e a da margem opposta, volveu naturalmente os olhos para o vulto escalvado e sombrio da Serra do Pilar, coroada pelo seu convento em ruinas e a sua igreja circular. Os tristes vestigios das guerras civis estão ainda n'aquelle logar muito evidentes, para que a lembrança d'ellas não acuda subita ao espirito de quem quer que o contemple por momentos.

Manoel Quentino, como quasi todos os portuenses da sua idade, havia sido mais do que simples espectador das scenas tragicas d'essas memoraveis épocas.

—Ha vinte e tantos annos—pensava elle—não havia, a estas horas, tanto socego, por aquelles sitios, não. Nem tambem estes passeios pela beira do rio eram tanto de appetecer como agora. Havia mais perigos, do que o dos nevoeiros do Douro. A fallar a verdade sempre era um tempo aquelle!… O que eu passei!… Parece-me que ainda foi o outro dia, e já lá vão vinte e tantos annos!… Oh! mas que alegria tambem, quando se abriram as linhas!… N'esse tempo era ainda a mãe de Cecilia uma creança. Só quatro annos depois é que eu principiei a pensar n'ella… Pobre rapariga!… Parece-me que ainda a estou a ver!… delgadinha, desmaiada, boa para todos, mas trabalhadeira ao mesmo tempo… É por isso que receio… Valha-me Deus! assim que me lembro da tristeza da pequena!…

E da Serra do Pilar e do tempo do Cerco conseguira aquella ideia dominante achar caminho para se lhe insinuar de novo no pensamento. E, o que mais é, parece que cada vez trazia comsigo maior cortejo de sinistros presagios.

Ao chegar á fonte do Carvalhinho, subiu uns degraus de pedra que alli ha, e beheu, mesmo do caneiro, alguns goles de agua; cousa que nunca se esquecia de fazer, porque tinha fé particular nas virtudes medicinaes d'aquella excellente agua.

—Ah!—dizia elle outra vez distrahido—Consola beber uma agua assim! Para aguas o Porto! Dizem que em Lisboa são más as aguas! Pois é das cousas mais precisas para a saude. É verdade que eu vejo por aqui tambem muitas doenças, apesar das aguas boas. E sobretudo a gente nova está saíndo tão franzina e tão fraca, que é uma cousa por maior! E o medo, que eu tenho, quando reparo em Cecilia! É tão delicada, tão…

E ahi estava outra vez assombrado para grande espaço de tempo.

Chegou á quinta chamada da China,—um dos passeios favoritos das classes populares portuenses.

Desciam a rampa, que antecede o portão, alguns bandos de gente do povo, rindo, cantando, em plena festa; iam em direcção ao rio. As barqueiras de Avintes aproximavam os barcos da margem para os receber; outras, ainda a grande distancia, chamavam, com toda a força d'aquelles pulmões robustos, as pessoas que vinham por terra. Cruzavam-se os barcos, movidos pelos vigorosos braços d'estas engraçadas e joviaes remeiras, e carregados com os frequentadores das diversões campestres do Areinho e da pesca do savel. Tudo era riso e cantigas no rio.

Manoel Quentino via tudo isto, e escutava entretido o canto de uma barqueira, que dizia:

  As riquezas d'este mundo
  Para mim não tem valor:
  Eu sou rica nos tens braços,
  Sou rica do teu amor.

E elle pôz-se a pensar:

—Como esta pobre gente vive satisfeita n'esta vida trabalhosa do rio!… Ao vento, á chuva, e sabe Deus o que tem em casa para comer! E é um gosto como ellas cantam e riem!… Raparigas de quinze e dezeseis annos consola vel-as já mover aquelles remos, que esfalfariam um homem, como eu. Não ha como estes ares e esta vida do campo, para fazer as pessoas robustas. Se eu adivinhasse que Cecilia aproveitaria com elles!…

E retomava o pensamento a posição de equilibrio estavel, de que por instantes se desviára.

Chegou ao ponto da margem, chamado Rego Lameiro. Ahi opéra o Douro uma das suas subitas e surprendentes transformações. Expiram as collinas fronteiras de uma e outra margem, interrompidas por um valle deliciosissimo, onde a vegetação é mais abundante, mais povoadas as verduras, e onde se encorporam em riachos as aguas escoadas dos proximos declives. Apreciam-se tão raros intervallos, em que o Douro, o severo Douro, sorri, como se aprecia um raio de alegria em rosto habitualmente carregado.

N'este sitio alarga-se o leito das aguas, diminue portanto a força da corrente d'ellas, chegando, nas marés baixas, a permittir a formação de pequenos ilhotes de areia, para onde vão brincar as creanças dos pescadores. A tortuosidade das margens, furtando á vista o seguimento do rio, dá a este a completa apparencia de um pequeno, mas pittoresco lago. Os olhos descobrem, de um lado, o extenso areal de Quebrantões, ao qual succedem prados e leziras sempre verdes, veigas fertilissimas, arvoredos espessos e, escondidas por o meio, as risonhas casas de algumas pequenas povoações campestres; adiante as quintas da Pedra Salgada, e através do véo azulado da distancia, a aprazivel aldeia de Avintes; do outro lado o palácio do Freixo com seus torreões e balaustradas e as quintas e ribeiras de Valbom e Campanhã. E se é ao fim do dia, quando o sol doura todo o quadro, reflectindo-se afogueado nas vidraças voltadas ao occidente, e a viração da tarde enfua as velas brancas das pequenas embarcações do logar, e o céo é azul e as aguas limpidas, a paizagem compensa bem os privados de gosar as bellezas mais celebradas por viajantes e poetas, as analogas das quaes só a nossa cegueira nos não deixa ás vezes ver a dois passos da porta.

Era aqui que Manoel Quentino se sentava sempre durante alguns minutos, sobre uma pedra solta da margem.

—Como isto é bonito!—pensava elle—É que nem ha outro passeio assim, nos arredores do Porto. E a tarde então está tão serena e socegada, que até se percebe d'aqui tudo o que se diz no Areinho. Se eu tivesse dinheiro, era onde comprava uma quinta. Chegando aos sabbados, saía do escriptorio e mettia-me n'um barco… ou a pé mesmo… A final é um passeio… É verdade que se viesse Cecilia, sempre era longe. Ainda que ella não se cansa… Não se cansa?… não se cansava… agora…

E a ideia negra, aquella pertinaz ideia negra, a tomar outra vez posse de Manoel Quentino! e, com o ir adiantando-se a tarde, parecia cada vez mais negra, como se as sombras crescessem para ella tambem!

D'ahi em diante, não se modificou o processo das cogitações do velho.
Uma fabrica de cortumes, umas creanças, a quem deu esmola, uns armazens,
tudo quanto viu, após varias oscillações do pensamento, faziam caír
Manoel Quentino na preoccupacão anterior.

De maneira que o passeio, aquelle passeio que o devia distrahir, antes lhe exacerbou o mal, que o atribulava.

Subia elle já a íngreme costeira, que leva do Esteiro de Campanhã até o sitio do Padrão. A tarde arrefecera subitamente. Ou fosse o resultado d'aquelle contínuo pensar em cousas tristes ou influencias de outras causas, é certo que Manoel Quentino principiou a não se sentir bom. Pesava-lhe a cabeça, como ourada; dobravam-se-lhe os joelhos de fraqueza; sentia um geral quebrantamento no corpo, que lhe dificultava já o regresso a casa; e depois a melancolia a condensar-se-lhe no coração, que parecia que lh'o estava a apertar com mão de ferro.

Quasi se arrastava por aquella custosa estrada acima desalentado e melancolico.

Chegando a uma das vendas, onde, aos domingos de primavera e estio, costumam celebrar festivas merendas alguns joviaes habitantes da cidade, chegaram-lhe aos ouvidos cantos e risadas, que, no atordoamento em que ia, o incommodavam; pareceu-lhe ouvir pronunciar o seu nome, no meio d'aquella vozeria; mas já não podia dispor da attenção para escutar o que diziam. Continuou caminhando.

De repente, appareceu á porta um dos da companhia a chamal-o.

Manoel Quentino voltou-se lentamente para elle, sem dizer palavra.

—Então d'onde vem, snr. Manoel Quentino?

—D'ahi de baixo—respondeu, com voz fraca.

—E não encontrou ninguem conhecido pelo caminho?

—Eu, não.

—Pois ainda agora o procuraram aqui.

—A mim?!

—Sim; então não sabe o que ha?—disse o sujeito, que lhe fallava com certos modos de importancia e cuidado.

O coração de Manoel Quentino principiou a bater desordenado.

—Eu não…

—Pois vieram, ha poucos minutos, procural-o aqui, para que fosse, já, já, a casa, porque…

—Porque?…—interrogou Manoel Quentino, passando-lhe um calefrio por todo o corpo e seccando-se-lhe subitamente a bôca, como em accesso de febre.

—Porque… pelos modos… sua filha… estava bastante doente…
Disseram que o tinham antes ido procurar ao escriptorio… mas…

Manoel Quentino já não escutava; encontrando forças no seu amor, sobresaltado assim, quasi deitou a correr por o mesmo caminho, pelo qual com dificuldade se arrastára até alli.

O que lhe dera o aviso pôz-se a rir, ao vel-o partir com tal pressa.

—Venham ver, venham cá ver!—dizia elle para os companheiros.

Um d'elles chegou á porta.

—Pobre homem! Chama-o. Olha que isso póde fazer-lhe mal.

—Ó Manoel Quentino! Psiu! Olhe que é hoje o l.°de abril, homem! Manoel
Quentino!

Mas o pobre velho nem o ouviu; cada vez corria mais.

Estes homens tinham celebrado o 1.° de abril—este dia que, não sei por quê, o uso popular consagra a reciprocas mystificações—ferindo no mais doloroso o coração de um pae! E ainda poderam rir!

Louvado seja Deus! Ha gente assim graciosa no mundo!

—Vão lá agora segural-o,—disse o mystificador—deixa-o, maior alegria o espera ao chegar a casa.

E voltou a divertir-se.

No entretanto Manoel Quentino proseguia n'aquella marcha rapida, desordenada, como se desejasse fazer desapparecer de subito a distancia, que inda o separava da filha, e ia murmurando:

—Cecilia… pobre filha!… Ó nossa Senhora!… que desgraça! que desgraça! para que saí eu?… Não póde ser… Mas para me virem assim chamar… Quem sabe se… Grande perigo! grande perigo, por certo! Virgem Santa! E este caminho é tão longo!… E ella morta talvez por me ver chegar… Ó filha, filha…

E as lagrimas caíam-lhe em fio pelas faces.

O atordoamento de cabeça augmentava; a energia muscular, que a nova recebida momentaneamente lhe dera, cedia de novo logar ao mesmo desfallecer, que, antes, lhe vergava os membros. O pobre velho aterrava-se ao perceber isto.

—Oh! dae-me forcas, Senhor, dae-me forças para chegar depressa! Por misericordia!—dizia elle, tremendo—A minha pobre filha!…

E os ouvidos zuniam-lhe cada vez mais; diante dos olhos, passavam-lhe, de quando em quando, faiscas, manchas avermelhadas, nuvens de sangue; ouvia o bater das fontes e das carotidas; furtava-se-lhe o chão debaixo dos pés; andava e não se sentia andar; já não tinha poder de regular os movimentos, que se succediam sem a coordenação regular.

Uns homens, que passaram por elle, pararam a examinal-o, e Manoel
Quentino ouviu-lhes ainda dizer:

—Olha como vae aquella alminha! ha de custar-lhe a dar com a porta de casa.

Estas palavras affligiram ainda mais este pobre pae, já tão afflicto.
Tinha chegado á capellinha do Padrão.

—Que angustias, meu Deus! Valei-me, nossa Senhora!—murmurou elle.

Encostou-se algum tempo ás grades da porta, porque já não podia andar.

Fez uma oração fervente, d'estas orações que, se não abrirem de prompto caminho até o throno de Deus, é porque para sempre se fecharam já as portas do céo a todas as preces da humanidade. Mais sentida, mais do coração, do que aquella, é que se não fazem no mundo.

Pareceu ganhar vigor por um pouco. Proseguiu, mas com o andar mais tardo e vacillante. Cêdo porém voltaram as ameaças do mal. Um entranhado terror apoderou-se-lhe do coração, uma como mysteriosa consciencia de proximo perigo.

As luzes da illuminação publica appareciam-lhe coloridas de vermelho. A perturbação de vista augmentou; tudo girava em volta d'elle; os objectos tornavam-se-lhe indistinctos, afigurava-se-lhe que o terreno descia de repente, e em uma descida tão rapida, que elle teve de parar para não caír. Encostou-se á ombreira de uma porta.

Ouviu a voz de alguem, que já nem viu, dizer-lhe:

—O senhor não está bom? Entre para descansar.

—Não—disse elle com certo desabrimento, como se aquelle conselho lhe desvanecesse cruelmente a illusão, que fazia por conservar ainda.

E de novo tentou caminhar.

Estava proximo do cemiterio publico, chamado do Repouso; deu mais alguns passos.

Os mesmos symptomas atacaram-o de novo e com maior violencia; a vertigem foi completa; o chão pareceu faltar-lhe.

O bom do homem ainda pôde murmurar:

—Senhor!… Senhor!… por piedade!… pois hei de morrer aqui, sem ver minha filha?!…

E caíu sobre um dos bancos de pedra da alameda que está em frente do cemiterio.

XXI

O QUE VALE UMA RESOLUÇÃO

Cecilia, pensando que o pae não prolongaria demasiado o passeio, voltou a casa ainda com dia.

Anoiteceu, porém, sem que Manoel Quentino apparecesse.

Tudo era sombras na rua: para o lado do mar coloria-se o céo do rubor inflammado do crepusculo… e ninguem!

O coração de Cecilia principiou a ennevoar-se de vagos receios, que ella até fugia de definir.

Mas estas nevoas foram-se condensando em cerração, á medida que descia a noite, e Manoel Quentino sem apparecer! A imaginação de Cecilia começava já a lembrar-lhe mil escuras explicações d'aquella extraordinaria demora.

A boa rapariga não podia socegar.

Vinha á janella com esperanças de avistar o pae no principio da rua, e retirava-se para dentro outra vez, pezarosa e assustada porque o não via.

Fallava a Antonia, desejando ouvir d'ella alguma supposicão, que a tranquillisasse; mas a criada, tambem assustada com a demora do amo, longe de a animar, aterrava-a com as suggestões da sua fertil imaginativa.

—Olhem agora!—dizia ella—Não que uma demora assim! Eu nunca vi!…
Quem sabe lá? Não lhe fosse por ahi acontecer alguma!…

—O que lhe havia de acontecer, mulher? Você tambem!—disse Cecilia, tranzida de susto com esta vaga insinuação da criada.

—O que lhe havia de acontecer?—proseguiu esta—Ellas em qualquer parte se armam. Até na cama se quebra uma perna. Veja aquelle velho, que passava d'antes todos os dias por aqui para a alfandega. Então não escorregou um dia no degrausito da porta, que não tinha mais do que isto—e indicava uma mão travessa;—caíu, e de tal maneira, que no fim de oito dias estava enterrado.

Cecilia empallidecia só de ouvir estas palavras.

—Mas, se tivesse succedido alguma cousa, tinha já mandado dizer.

—Conforme, menina… Ás vezes acontecem os males em sitios, onde ninguem conhece uma pessoa, e se se não póde fallar… Ahi está que…

—Havia logo de succeder tudo mal. Nem que o pae fosse para algum sertão de selvagens. Você tem cousas!

—Pois sim, mas o que é certo é que se a demora fosse natural, elle é que já tinha mandado aviso. Pois então não havia de saber a canceira e susto que causava á menina?

Cecilia afastou-se, impaciente, d'esta Cassandra de cozinha, e voltou á janella.

Estavam já accesos os lampeões da rua. As sombras da noite parecia estenderem-se ao coração de Cecilia.

—A menina quer que traga luz?—perguntou a criada, entrando na sala.

Esta pergunta, obrigando-a a notar o adiantado da hora, soou funebremente aos ouvidos de Cecilia.

—Não—disse ella, com voz alterada.—Luz, tão cêdo!

—Cêdo?! Onde vão as sete, menina! Está de ver que não vem.

—Que não vem! Que não vem! Você está douda, mulher? Pois não ha de vir?—exclamou, com dobrada impaciencia e quasi com raiva, Cecilia, debruçando-se mais na janella.

—A menina não faz nada em o esperar assim. Lá por estar ahi não é que elle vem mais depressa—ponderou tolamente a snr.ª Antonia.

—Não lhe importe; deixe-me—disse-lhe sêccamente Cecilia.

—Uma cousa assim!—proseguiu a criada—Não que quando a gente mal se precata! Sáe uma pessoa muito socegada de sua casa e só Deus sabe para quê! Para onde iria tambem aquella creaturinha do Senhor? Quem póde lá dizer o que lhe succedeu? Sume-te! Eu lembro-me de que um dia meu pae…

—Vá buscar luz, vá—ordenou Cecilia, para escapar ao caso, que Antonia apparelhava, com o piedoso intento de tirar d'elle talvez uma inducção pouco de tranquillisar.

Antonia saíu.

Cecilia, de assustada que estava, já não sabia o que fizesse.

Qualquer vulto, que assomava ao principio da rua, lhe parecia o pae; seguia-o com anciosa curiosidade, cêdo transformava-se em desalento esta curiosidade, porque o via passar indifferente para além da porta da casa.

Andavam já bem perto dos olhos as lagrimas em Cecilia, quando Anlonia voltou com a luz.

—Então, ainda nada?—perguntou a criada.

Cecilia não lhe respondeu.

—Quer que feche as janellas?

—Não.

—Não tem que ver; a cousa não é natural. O pae é amigo de recolher-se cêdo e não era homem que não mandasse recado, no caso de, de todo em todo, não poder vir. Ninguem me tira d'isto. Aquillo foi cousa que lhe succedeu por lá.

O relogio deu meia hora depois das sete.

—Já sete e meia! Sempre é demais! Ó menina, eu vou extrahir o chá, não acha?

—Não; cale-se para ahi. Quero lá saber de chá. Bem me importa a mim o chá. Você perdeu o juizo?

—É que o snr. José Forrunato não tarda por ahi…

—Pois se vier, veio. Não tenho mais em que pensar, senão no snr. José
Fortunato! Deixe-me, deixe-me.

Antonia era d'estas pessoas, a quem as maiores inquietações não fazem perder a ideia das suas obrigações habituaes. Emquanto o espirito se perturba e a bôca lhe traduz os pensamentos, as mãos, independentes da imaginação, proseguem na tarefa do costume.

Cecilia não; caracter apaixonado, era toda da ideia que a possuia. A irresolução, que devia áquelle estado de anciosa duvida, para tudo a inhabilitava.

Em nada consentia que lhe fallassem n'aquelle momento, nada queria escutar, de nada queria saber.

Anciada, nervosa, impaciente, febril, passava de uma para outra janella, voltava ao interior da sala, chegava ao patamar, e corria á janella outra vez.

Em uma d'estas occasiões ouviu duas mulheres, que passavam na rua, dizerem:

—Uma desgraça assim! Foram todos; uns morreram, outros ficaram aleijados para toda a vida.

O coração de Cecilia bateu com violencia ao ouvir aquillo. Não pôde reprimir-se, que não perguntasse ás mulheres de que desgraça fallavam.

E tremia de ouvir a resposta. Disseram-lhe que era de uma saibreira, que desabára na vespera sobre uns trabalhadores. Respirou!

De outra vez, era um homem que viera a correr desde o principio da rua e parára defronte da casa, irresoluto, como quem procurava reconhecer uma de entre aquellas diversas moradas. Cecilia queria perguntar-lhe quem elle procurava, mas quasi não tinha voz para o fazer, tal era o intenso terror, que se apossou d'ella, ao ver este homem.

Parecia-lhe impossivel que não fosse algum mensageiro de desgraças.

A final conseguiu fallar-lhe. O homem procurava um vizinho.

Cecilia guiou-o, ainda mal restabelecida do susto que sentira.

Tendo voltado á sala ouviu tocar a campainha do portal.

Estremeceu alvoroçada de esperanças e de temores.

—Será elle?

N'este tempo já Antonia vinha no corredor e com fleugma inalteravel atalhou:

—É o snr. José Fortunato; são as horas.

Cecilia voltou as costas despeitada e triste. Sentiu no coração uma quasi má vontade contra o nocturno visitador.

Era de facto o snr. José Fortunato que chegava.

—Muito boa noite, menina; passou bem?—disse José Fortunato, ao entrar para a sala.

—Muito afflicta, snr. José Fortunato, muito afflicta, não faz ideia!—respondeu Cecilia.

—Sim?!—tornou o outro, pousando os varios artigos do seu complicado vestuario, guarda-chuva, capote, cache-nez, luvas, chapéo, a caixa do tabaco, e tomando assento no logar do costume.

—Pois não quer saber?—continuou Cecilia—meu pae saíu esta tarde, a dar um passeio, e são as horas que vê, e não voltou ainda a casa!

—Na verdade, é… é celebre! Succeder-lhe-hia alguma cousa?

Pergunta suficientemente tola.

José Fortunato rivalisava com Antonia, na maneira de intervir na presente crise; as suas palavras, longe de serem tranquillisadoras, tinham por effeito exacerbar a inquietação e o susto.

Cecilia sentiu esse effeito, porque chegou logo á janella, com maior anciedade ainda, dizendo a tremer:

—Que lhe havia de succeder?…

—O snr. Manoel Quentino—continuava José Fortunato, placidamente sentado á mesa—havia já alguns dias que andava assim não sei como. Eu disse-lhe ainda antes de hontem:—«Homem, é preciso olhar por isso, antes que vá a mais; consulte alguem.»—Mas elle, não, senhor; tinha lá aquelle genio.

A escolha do tempo para o verbo era para fazer redobrar os terrores de Cecilia. Tinha! Este bom homem de José Fortunato era d'estas cousas; dir-se-hia que, para elle, Manoel Quentino já não podia merecer as honras do presente de um verbo! Não contente com isto principiou:

—Estas mudanças de tempo não são nada boas, sobre tudo em certas idades. Tem havido por ahi muitas molestias repentinas. Ahi está que aquelle Gambôa, que era empregado na camara, teve hontem um ataque de apoplexia e foi-se, enquanto o diabo esfrega um olho.

—Jesus! snr. Fortunato; por quem é, não falle n'essas cousas!—exclamou Cecilia angustiada—Se tivesse succedido alguma desgraça a meu pae, não havia já de ter vindo alguem dizel-o aqui? Aquillo é que se demorou…

—Pois eu não digo, menina, que… mas ás vezes; olhe que a gente para adoecer basta estar vivo e depois um desastre… Ahi está que tambem o pae tinha um outro mau costume, de que eu tambem o avisei muitas vezes; ia sempre áquelles vapores inglezes, quando elles entravam, e, apesar de ser homem pesado, porque já não é creança, usava n'ísso de muito pouca cautela, e, ás vezes, na atracação… Olhe que é uma cousa perigosa! Para quem não sabe nadar…

As palavras de José Fortunato soavam aos ouvidos de Cecilia, como um dobre a finados.

—Snr. José Fortunato!—disse ella, quasi erguendo as mãos—Não vê que com essas palavras me mata? Demais, meu pae não tinha hoje de ir a bordo de vapor algum. Hoje ao domingo! Estou a dizer-lhe que foi passeiar.

—Socegue, menina. Eu espero tambem que não tenha succedido nenhuma desgraça. Isto era um modo de fallar. Deus é bom e sabe a falta que o snr. Manoel Quentino cá fazia ainda. Nem quero que me lembre similhante desgraça! Credo! Santissima Trindade! Ainda se elle fosse homem, que tivesse regulado os seus negocios; mas parece-me que não fez ainda disposições. Eu bem sei que tudo quanto elle tem é da menina, mas ainda assim, havia ahi uns dinheiros mal parados… e… e… sempre é bom olhar por essas cousas…

Cecilia não pôde reter o pranto, que lhe acudiu aos olhos a estas lugubres considerações do seu interlocutor.

—Então não se afflija—dizia este, no mesmo tom de voz.—Que fazemos nós em nos estarmos a affligir? não fazemos nada; por isso… E demais, se fosse vontade de Deus que alguma desgraça acontecesse, a menina não ficaria desamparada; tem amigos e protectores… Perdia um bom pae, isso perdia; mas.

—Ó snr. José Fortunato, pelas almas, não me falle assim! Isso é crueldade.

—Eu não digo isto para a affligir. Socegue. Mas n'estas cousas é bom suppôr o peior.

E, ainda que nas melhores intenções, continuou o snr. José Fortunato n'este homoeopathico systema de conforto.

A agitação de Cecilia augmentava.

—Antonia!—bradou ella, vendo passar a criada no corredor—Tenha paciencia; eu não posso socegar. Esta incerteza mata-me, vá, vá você ao escriptorio, vá por ahi, vá saber… vá procurar… O snr. José Fortunato está agora aqui e… Vá. vá.

—Ó menina! não vê que é noite fechada?! Uma mulher só por essa cidade abaixo, feita uma Maria tola!

—Ó creatura, então que tem?

—Ora essa? Então que tem?!

—Não é bonito, não—concordou José Fortunato, tomando posição mais commoda.

Cecilia não lhe deu resposta, correu de novo á janella.

A rua estava deserta.

—Olhe se lhe faz mal esse ar—dizia José Fortunato.—A menina parece que está já um pouco tomada da garganta. É preciso cautela; estas constipações despresadas… Seria bom beber alguma bebida quente.

Ah! snr. José Fortunato, snr. José Fortunato! ahi anda já um pouco de egoismo; a hora do chá vae passando. Ó barro humano!

—Não sei bem o que tem mão em mim, que não vou eu mesma!—exclamou Cecilia ao voltar da janella—E se isto continúa assim, não respondo por o que farei. Oh! Não ser eu rapaz!

José Fortunato não comprehendeu qual era o seu dever n'esta occasião.
Foi defeito de percepção e não de vontade.

A intelligencia era-lhe ronceira e as boas lembranças acudiam-lhe, mas tarde; quando já não era tempo de realisal-as. Foi por isso que só teve a dizer:

—Pois olhem o milagre! Se a menina fosse rapaz!… Mas desengane-se, snr.ª D. Cecilia, se tiver succedido alguma desgraça ao pae, mais minuto, menos minuto, ella ha de saber-se.

—Agradecida, pela consolação!—não pôde deixar de dizer Cecilia, com manifesto mau humor.

—De uma vez tinha eu ido a um magusto, ahi para os lados da Cruz da
Regateira, e ao voltar…

Lá parecia ao snr. José Fortunato aquella occasião apropriadissima para contar um caso.

Antonia dispunha-se para ouvil-o.

Cecilia fez um movimento de impaciencia e voltou para a janella.

No momento, em que chegou alli, avizinhava-se vindo da extremidade da rua, opposta aquella d'onde ella esperava o pae, um homem a cavallo.

Era Carlos; voltava do costumado passeio extra-urbano.

Cecilia reconheceu-o, e acudiu-lhe uma lembrança.

Emquanto o cavalleiro vencia a distancia que o separava ainda de casa,
Cecilia voltou-se para dentro, dizendo:

—Então não querem ir saber de meu pae, não?

O emprego do verbo no plural foi um empuxão dado á pêrra intelligencia do snr. José Fortunato, o qual, pela primeira vez, se lembrou de que podiam ser de algum prestimo os seus serviços.

—Ó menina! mas não vê que é noite fechada?—disse Antonia, como, havia pouco tempo, dissera já.

O snr. Fortunato estava ainda elaborando mentalmente a descoberta que fizera. Cecilia não esperou pelo resultado de tal elaboração.

Carlos Whitestone estava por baixo das janellas d'ella, e cortejava-a.

Cecilia não hesitou.

—Snr. Carlos—disse com a voz tremula de sobresalto.

Carlos, surprendido por se ouvir chamar assim, aproximou logo o cavallo da janella.

—Minha senhora?

—Perdôe-me, por quem é, isto que faço;—continuou Cecilia—mas desde o principio da tarde que meu pae saiu e ainda não voltou a casa, nem d'elle tenho noticia! Imagine o meu susto! Sabe por acaso, se…

—E para onde foi elle, quando saiu?

—Disse-me que ia passeiar… mas…

—E não voltou!—atalhou Carlos, estranhando tambem aquella excepcional demora.

—Que lhe terá succedido, meu Deus?!—exclamou Cecilia, recebendo a communicação da surpreza de Carlos e transformando-a logo no mais apprehensivo terror.

As resoluções em Carlos eram tão promptas, como morosas em José
Fortunato.

—Socegue, minha senhora. Eu vou já saber d'isso e conte que, dentro em pouco, lhe trarei aqui seu pae.

—Oh! muito agradecida, snr. Carlos, muito agradecida!—disse Cecilia, com a voz repassada de gratidão.

Carlos cortejou-a de novo e partiu a galope.

Ao vel-o partir, a consolação de uma esperança entrou pela primeira vez no coração de Cecilia.

Carlos era para ella um d'estes homens, que, se um dia tentam o impossivel, conseguem-o.

Ao voltar-se, achou Cecilia, a dois passos de si, Antonia e o snr. José
Fortunato, que olhavam com physionomias estupidamente pasmadas.

—Que foi fazer, menina?!—disseram elles quasi ao mesmo tempo.

—Aquillo a que me obrigaram. Se podesse, ia eu. Ha muito que não estaria aqui já, cansando inutilmente o espirito a procurar explicações e só a encontral-as assustadoras; se tivesse mais alguem a quem recorrer, não iria incommodar uma pessoa, a quem…

—Mas, n'esse caso, porque me não disse? então não estava eu aqui?—-perguntou José Fortunato, com a maior candura d'este mundo.

Cecilia fitou-o com olhar de raiva e nem lhe pôde responder.

—A fallar a verdade—disse Antonia—não sei o que parece! Pois a menina vae assim, sem mais nem menos, fallar da janella para baixo, com aquelle senhor?…

—Se a vizinhança por ahi visse…—acrescentava o outro, espreitando para verificar se a sobredita vizinhança teria de facto visto—E então quem? Um cabeça no ar… o filho…

—Basta!—exclamou Cecilia, não podendo já reprimir-se mais tempo—Era escusado isto, era, se outras pessoas tivessem tido já a lembrança e a caridade de o fazer. Ha uma hora que me vêem n'esta afflicção e só sabem dar-me consolações, que fariam rir a quem não tivesse no coração esta agonia que eu tenho. Agora então veem com os reparos da vizinhança; a vizinhança não me tira uma só das canceiras com que estou, para que eu me deva importar com ella.

José Fortunato estava deveras condoído por se não ter lembrado a tempo dos seus deveres. Era sestro do homem.

—Ó snr.ª Antonia, faz favor de me vir alumiar—dizia elle, procurando já munir-se dos seus numerosos petrechos de campanha.

—Onde vae? onde é que vae?—perguntou Cecilia—Já agora o que está feito, está feito. Quando o snr. Fortunato fosse ao fim da rua, já o snr. Whitestone teria corrido a cidade toda. É melhor ficar.

José Fortunato ficou.

Tambem era qualidade sua esta pouca tenacidade, com que pugnava pelas resoluções tomadas.

No entretanto Carlos voava por toda a cidade, que, em pouco tempo, atravessou de norte a sul.

Por milagre não atropellou ninguem. Muitos dos que escaparam áquella carreira impetuosa, áquella velocidade, comparavel á do acrolitho, ficavam a murmurar phrases, mais ou menos impacientes, contra o imprudente cavalleiro.

Chegou, no fim de alguns minutos, ao escriptorio da rua dos Inglezes.

O silencio d'aquelle logar, a essas horas, formava perfeito contraste com a animação que alli reinava nas manhãs dos dias de semana.

Carlos fez estremecer a casa com as rijas pancadas que descarregou na porta.

Alguns vizinhos chegaram á janella.

O criado do escriptorio correu a receber as ordens do seu patrão mais novo.

Carlos, mesmo a cavallo, perguntou-lhe se tinha visto Manoel Quentino n'aquella tarde.

Disse-lhe o criado que o vira atravessar o mercado do peixe, em direcção a Campanhã; que, sendo esse o seu passeio predilecto, era provavel que…

Carlos não ouviu o resto, partiu a galope outra vez, na direcção indicada.

—Sume-te!—disse o criado comsigo—Parece que leva diabo no corpo.

Com igual rapidez seguiu Carlos toda a margem direita do rio, horas antes trilhada por Manoel Quentino. Era preciso ser excedente cavalleiro, para se não esbarrar por um caminho d'aquelles, a taes horas da noite e com tal impetuosidade de carreira.

Carlos dirigiu-se ao armazem de vinhos, que a casa Whitestone possuía em Campanhã. Nas vizinhanças morava o mestre tanoeiro, que acudiu a saber quem era e o que pretendia o nocturno cavalleiro, que ameaçava rebentar as dobradiças das grossas portas de castanho do armazem.

Vendo Carlos, ficou espantado. Carlos perguntou-lhe por Manoel Quentino.

O homem respondeu que, ao cerrar da tarde, o vira subir a estrada do
Padrão, e que devia ter já voltado a casa havia muito tempo.

Carlos proseguiu a sua corrida, deixando tão estupefacto este, como deixára o criado do escriptorio.

Na estrada passou por um grupo de sujeitos, que regressavam, cantando, do «bom retiro» campestre, onde, á mesa e á sombra da ramada, haviam passado a tarde inteira.

Carlos conheceu-os. Eram alguns dos mais folgazãos membros da classe commercial, pela maior parte conhecidos de Manoel Quentino.

Ia a passar-lhes adiante, quando se lembrou de informar-se com elles tambem a respeito do velho.

Responderam-lhe rindo e contaram-lhe da mystificacão, que o leitor sabe já, porque eram estes os mesmos que nós já encontramos. Os homens riam ainda, ao lembrarem-se da pressa com que Manoel Quentino galgára a costeira de Campanhã.

—Que estupida graça!—disse Carlos, preparando-se para seguir o caminho.

—Ora essa!—respondeu um do bando—Até será uma alegria para o velho, quando chegar a casa e vir que…

—Se não tiver morrido antes pelo caminho—atalhou Carlos; e, picando o cavallo, partiu a galope.

—O homem vae doudo—disse um.

—Esbarra-se!—acrescentou outro.

—É um inglez de menos. Que o leve o diabo.

E continuaram a cantar e a rir.

Carlos chegou em um momento á capella do Padrão.

D'ahi seguiu, a trote mais moderado, pela estrada, informando-se aqui e além a respeito de Manoel Quentino. Poucos indicios colheu, até que por acaso interrogou a mulher, á ombreira de cuja porta o velho guarda-livros se encostára.

Esta deu-lhe assustadoras informações do estado em que o viu, e agourou mal do destino do homem.

Verdadeiramente inquieto, proseguiu Carlos nas suas pesquizas, até chegar á alameda do Repouso.

Em um dos bancos de pedra pareceu-lhe distinguir o vulto escuro de um homem. Aproximou-se.

Com sentimento de verdadeira alegria, reconheceu Manoel Quentino.

Cêdo porém succedeu o susto a esta primeira impressão.

O velho estava immovel e com as feições transtornadas, como se fora cadaver já.

Carlos segurou-lhe o braço, que sacudiu com violencia.

—Manoel Quentino! Manoel Quentino—bradava elle.

Respondeu-lhe um som rouco e inarticulado.

Carlos chamou-o mais alto outra vez.

Áquella voz conhecida, Manoel Quentino abriu lentamente os olhos e fixou em Carlos a vista esgazeada.

—Que é isto, Manoel Quentino? Que faz aqui? Que tem? Diga: que lhe succedeu?

Depois de alguns esforços, o velho conseguiu exprimir uma resposta desordenada.

—Eu… eu vinha… não sei o que senti em mim… Quando me disseram da… doença de Cecilia… quiz correr… e… e faltou-me a vista… e… Eu já não estava bom… O frio… julgo que foi o frio… Por mais que quiz ver se me movia… Agora mesmo.

—Socegue. Sua filha está boa e só com muito cuidado pela sua demora.
Veja se póde erguer-se.

—Mas… alli… em baixo… disseram-me…

—Foi uma estupida graça de uns senhores, que, avaliando a delicadeza dos sentimentos dos outros por a dos seus, julgaram dever solemnisar o 1º de abril d'aquella maneira cruel.

—Deus lhes perdôe, se assim foi…

—Foi; disseram-m'o elles mesmos. Ande, venha. Não faça maiores inquietações em casa, do que as que já vão por lá.

—Pobre filha!… Eu vou… mas não sei se…

Manoel Quentino tentou levantar-se, porém vacillaram-lhe os passos e caíu sentado outra vez.

Carlos estava irresoluto; não sabia o partido que tomasse.

—Então, Manoel Quentino, veja se ganha forças. Experimente se póde montar a cavallo.

Novo esforço do velho, succedido de igual resultado.

O embaraço de Carlos augmentava.

Pensava já em o levar na garupa, quando passou na estrada uma sege de aluguer, que voltava para a cidade. O boleeiro deixava ir os cavallos a passo e assobiava; uma especie de jockei dormia ao lado d'elle; Carlos conheceu o boleeiro.

—Ó Gonçalo.

—Quem me chama?

—Vae vasio o carro?

O boleeiro reconheceu Carlos.

—Ah! é v. s.ª? Vae vasio, vae, sim senhor, meu patrão.

—Então ajuda-me a transportar para lá este sujeito, que está doente, e leva-nos a toda a brida para a rua de…

O boleeiro correu a prestar o auxilio pedido.

—E tu—acrescentou Carlos, para o improvisado jockei—monta n'esse cavallo, e leva-m'o a casa. Avia-te!

Carlos era obedecido como um dos freguezes de mais prompto e generoso pagamento que havia na cidade.

—E olha—disse elle ainda para o jockey—de passagem vae ainda a casa do doutor F. e pede-lhe que venha sem demora ver o snr. Manoel Quentino, a sua casa. Dize-lhe que vaes do meu mando. Anda.

O rapaz partiu como um foguete.

Carlos e o boleeiro ajudaram Manoel Quentino a entrar na sege; dentro em pouco faiscavam as pedras das calçadas sob as patas dos cavallos, fustigados com toda a alma por o boleeiro, cujo ardor o estimulo de uma gorgeta excepcional instigava.

Carlos tinha cumprido a promessa feita a Cecilia.

Foi com um grito de jubilo, que Cecilia, cujos terrores haviam recrudescido com a demora, viu parar a carruagem á porta de casa e saír d'ella o pae, amparado cuidadosamente pelo braço de Carlos Whitestone.

Os primeiros momentos absorveram-os inteiramente as expansões de alegria.

Correu ao portal e ahi recebeu nos braços o pae, chorando commovida. Desentranhava-se aquelle piedoso sobresalto em phrases soltas, sem nexo, em exclamações, em perguntas, em beijos, em lagrimas e em sorrisos.

Manoel Quentino subiu as escadas apoiado de um lado em Cecilia, do outro em Carlos. Foi assim que entrou para a sala, onde Antonia e José Fortunato, no meio de felicitações, de perguntas, e até de conselhos, lançavam olhares de desconfiança a Carlos, que nem attenção lhes dera ainda.

Passada a primeira explosão de alegria, incoherente e irreflectida, houve logar no coração de Cecíiia para duas ordens de sentimentos oppostos.

O primeiro foi de gratidão para Carlos.

Estendendo-lhe amigavelmente a mão, disse-lhe, com um olhar, uma inflexão de voz, e um rubor de faces, que multiplicavam o pouco valor da palavra:

—Muito obrigada.

Phrase insignificante, que n'esta occasião teve mais eloquencia, do que um discurso.

Depois inquietou-a outra vez o estado em que via o pae. A decomposição do rosto, a pallidez, a tristeza não habitual, reproduziram vivos os receios, que a chegada d'elle serenára.

Interrogou-o então sobre os promenores do succedido. Carlos deu uma rapida explicação. Cecilia escutava-o com o sobresalto do susto e lagrimas de reconhecimento. Antonia e José Fortunato acharam nos factos pretextos para formularem conselhos de prudencia, a que elles só deram attenção.

Cecilia redobrou de cuidados para com o pae: que os aceitava com certa frieza morbida, que a assustava.

Carlos associou-se por vezes á joven e carinhosa enfermeira e, com tão intelligente solicitude, que obteve d'ella frequentes sorrisos de approvação e de agradecimento.

Quando o medico chegou, ainda Carlos não deixára a casa.

O facultativo informou que tinha sido aquillo uma das oito fórmas de congestão cerebral, admittidas por o professor Andral, e das mais benignas. Descreveu os symptomas, apreciou as causas, formulou o tratamento, sangrou e saiu.

Manoel Quentino achava-se melhor.

Carlos despediu-se mais tranquillo e prometteu voltar.

Á saída, Cecilia apertou-lhe a mão com affecto.

Antonia resmungou.

José Fortunato recolheu-se a casa perto da meia noite e pouco satisfeito com a sua pessoa.

XXII

EDUCAÇÃO COMMERCIAL

Manoel Quentino foi constrangido pela força das circumstancias a conservar-se de cama, nos dias seguintes a este.

Impozera-lh'o o facultativo, que lhe assistira; pedira-lh'o Cecilia, e exigira-lh'o Carlos e o proprio Mr. Richard Whitestone, que viera, pela manhã, visitar o guarda-livros.

Esta necessidade de abstenção de exercício era o que mais affligia Manoel Quentino. Figurava-se-lhe que os negocios commerciaes caminhariam desordenados sem a sua cooperação; mortificava-o a ideia do cháos em que o escriptorio cairia, se por muito tempo a doença se prolongasse.

—Valha-me Deus! Como ha de ser isto agora?—dizia elle, devéras aterrado com a ideia, quando na presença de Cecilia e de Carlos, que demorára a sua visita, mais do que Mr. Richard, tomava a custo um caldo adietado, unico alimento que lhe permittia a arte medica.

—Que canceira lhe está a dar essa ninharia!—disse Carlos, procurando desvanecer aquelles cuidados—Socegue; a sua doença será de pouco tempo; a casa Whitestone não se perde com essa pressa. Lá estão os outros caixeiros.

-Ora os outros, sim!… Os outros!… É bom de dizer…

—Mas então, meu pae, que se lhe ha de fazer? Quando Deus lhe der saude, trabalhará dobrado. Agora veja, mas é se toma esse resto de caldo…

—Nem quero que me lembre! Em que desordem não irei encontrar tudo por lá! E depois, a escripturação atrazada!… Ó filha, bastará de caldo por agora.

—Só duas colhéres mais.

—E por que não ha de o Paulo fazer a escripturação?—insistiu Carlos.

Manoel Quentino fitou n'elle um olhar de espanto.

A sciencia da escripturação era para o velho guarda-livros da tal difficuldade e transcendencia, que a pergunta de Carlos soára-lhe aos ouvidos e irritára-lhe os nervos, como uma imperdoavel heresia.

—O Paulo?! O senhor tem cousas!… Cuida que escrever nos livros commerciaes é o mesmo que fazer um rol de roupa suja?!

—Ao principio não duvido que se lucte com alguma difficuldade, mas no fim de tres dias…

—Tres horas, tres horas… é melhor tres horas… Valha-o Deus! Ó
Cecilia, eu não posso levar ao fim este caldo… Tira para lá, filha…

—Era uma colhér só—disse Cecilia, fingindo que lhe obedecia, mas com um modo, que quebrou a Manoel Quentino a coragem de resistir-lhe.

—Então dá cá.—E, fechando os olhos, esgotou até ás fézes aquella especie de taça de amargura, fez uma careta, e respirou no fim, como se alliviasse de enorme encargo.

D'ahi a pouco, a ideia de faltar ao escriptorio incommodava-o outra vez. Antevia mil complicações sérias nos negocios pendentes, e tão longe ia, n'este caminho, a sua fertil imaginação, que não parava senão em imminente fallencia.

Homem habituado a não passar um só dia ocioso, exagerava as consequências da sua falta; guarda-livros, que adquirira, por trabalhosa experiencia, o saber commercial, suppunha indispensaveis annos para habilitar qualquer intelligencia a adquirir igual saber e a ordenar a escripturacão dos livros de commercio.

Por isso ouviu com espanto acompanhado de zombaria a proposta que, como extremo e efficaz recurso, Carlos acabou por lhe fazer, depois de em longa discussão sobre o assumpto ter, com o auxilio de Cecilia, combatido aquellas apprehensões.

—Está bom; socegue—disse Carlos.—Deixe-se ficar na cama o tempo que quizer e que lhe for preciso, porque, emquanto á escripturacão, eu encarrego-me d'ella.

Manoel Quentino conservou por algum tempo os olhos, muito abertos, voltados para o filho de Mr. Richard; lá lhe parecia tão extravagante aquella promessa em um homem, de cuia experiencia commercial sabia o que pensar, que nem com resposta atinou que lhe désse.

Á própria Cecília surprendeu o offerecimento. Ambos julgaram isto um gracejo da parte de Carlos. Comtudo era tão séria a expressão que tomou, n'aquelle momento, a physionomia d'elle, que Cecilia principiou logo a acreditar que não era zombaria a proposta.

Manoel Quentino não se convenceu tão depressa.

—Então com que… encarrega-se da escripturacão?—perguntou o velho, não podendo reter um sorriso, o primeiro que se lhe desenhou nos labios esta manhã.

—Encarrego, sim.

—Olhem que fortuna para a casa! Agora é que ella prospéra… Eh! eh! eh! Valha-o Santo Antonio.

—Então faz-me a injustiça de me suppôr incapaz de applicar as minhas forças a uma empreza qualquer, quando d'ahi possa provir algum bem para um amigo?

Desde que Carlos fez esta pergunta, Cecilia esposou logo mentalmente a causa d'elle: não só acreditou na sinceridade do offerecimento, mas até—vejam que confiança!—até na possibilidade, ou mais ainda, na probabilidade da sua realisação.

Manoel Quentino não era tão facil de mover dos seus juizos. Comtudo tambem o abalaram as palavras de Carlos, ainda que em outro sentido.

—Não, homem;—disse o guarda-livros, meio commovido—eu não duvido da sua boa vontade, nem do seu animo decidido para sacrificios. Bem recentes tenho provas que me não deixam duvidar. Sei que lhe devo talvez a vida. Não pense que sou ingrato. Mas, venha cá, ouça: como quer encarregar-se de um serviço, ao qual tem sempre andado estranho? Era como se eu me mettesse a ir salvar a nado alguem, que estivesse a afogar-se no meio do rio. De que me valeriam os bons desejos, se iria ao fundo, como um prégo, antes de lá chegar?

—Mas tão difficeis lhe parecem essas cousas de commercio, que, dentro em dois ou tres dias, com alguns conselhos e explicações suas, eu não me habilite a comprehendel-as?

Manoel Quentino encolheu os hombros.

—Homem, que conceito faz da minha intelligencia?!—insistiu Carlos—Demais, eu alguma cousa aprendi no collegio, que talvez me sirva. Póde ser que não ande de todo já perdida uma sciencia que, devo confessar, tenho deixado fóra do serviço desde… desde que a adquiri.

—Ora adeus! Onde vão as chuvas do anno passado? Olhem com o que elle vem! O que aprendeu no collegio!…

—Emfim tentemos. Não se perde nada em tentar. O Manoel Quentino não vae esta semana, nem talvez estes quinze dias ao escriptorio…

—Longe o agouro!

—Não vae, que não deve ir. Eu estou resolvido a experimentar a minha aptidão commercial. Quem sabe? Póde ser que adquira até gosto pelo negocio.

—Quem dera!

—Pois póde ser. Encarrega-se de me dar lições? Tres bastam-me.

—Havia de fazer boas cousas com tres lições!

—Apostemos?

—Vá, vá á sua vida. Divirta-se. Isto não é uma brincadeira como…

Carlos revestiu-se de toda a sua gravidade.

—Então, Manoel Quentino! tão leviano me julga, que não admitte que eu falle serio alguma vez?

—Não, mas…

Cecilia tomou, a mêdo, a defeza de Carlos.

—Uma vez que o snr. Carlos se offerece para o ajudar, por que não aceita?

—Ahi vem a outra! Ora para o que lhe deram hoje! Este rapaz engana-se a si proprio. Eu já disse que não duvido dos seus bons sentimentos, mas…

—Mas—atalhou Carlos—uma palavra só! Quer dar-me algumas lições de escripturação commercial? Bem vê que não perde nada com isso.

—Hão de ser curiosas!

—Sejam ou não sejam. Quer ou não.

—Não seja essa a duvida.

—Até á noite, meu mestre—disse Carlos, pegando no chapéo para sair.

—Até á noite—respondeu Manoel Quentino, divertido com a resolução de Carlos, em cujo exito não depunha fé, mas divertido a ponto de se rir com vontade e de quasi se lhe desvanecerem as apprehensões a respeito do escriptorio.

Ao saír, Carlos despediu-se de Cecilia, dizendo-lhe:

—Estão empenhados os meus brios, minha senhora. Dentro em tres dias prometto ser um caixeiro consciencioso e expedito.

Cecilia sorriu, estendendo-lhe a mão.

—Agradecida por tanta generosidade, snr. Carlos.

—E acredita que seja só generosidade?

—Então?

Carlos não replicou. Correspondeu, sorrindo, ao cumprimento de Cecilia, e saiu, sentindo um intimo contentamento ao dizer a phrase trivial:

—Até logo.

Cecilia ficou a pensar no que poderia haver, além de generosidade, no procedimento de Carlos.

Em todo aquelle dia andou tão satisfeita a filha de Manoel Quentino, que os cuidados, que a saude d'ella tinham causado ao pae, diminuiram consideravelmente; o que não foi para elle pequena garantia de melhora na saude propria.

Carlos d'alli foi para o escriptorio.

Não causou pequena surpreza a Mr. Richard ver Carlos estabelecido na banca de Manoel Quentino, examinando, com solicita attenção, os livros commerciaes, as correspondencias do dia, e algumas atrazadas; os outros caixeiros não estavam menos admirados do insolito phenomeno; e muito mais o ficaram, quando Carlos lhes dirigiu algumas perguntas sobre o andamento de certos negocios, e quando inclusivamente o viram attender alguns freguezes, que vinham pedir informações ao guarda-livros, e responder a muitos já com verdadeiro conhecimento de causa.

Em toda a Praça se fallou n'aquillo; foi um verdadeiro acontecimento no mundo commercial. Houve curioso que phantasiou negocios, só para se informar, por seus olhos, do que lhe constára.

A prompta intelligencia de Carlos, auxiliada pela educação que era creança tivera, permittiu-lhe ver claro nos processos de escripturacão, onde espiritos, menos cultos e atilados, só conseguem achar caminho, depois de muitos esforços e tentativas.

Os pontos capitaes recordou-os ou comprehendeu-os á força de reflexão; restavam-lhe pequenas duvidas, difficuldades de segunda ordem, que a experiencia de Manoel Quentino, em poucos momentos, deveria elucidar.

Estas duvidas e dificuldades, é preciso dizer-se, eram principalmente sobre a utilidade dos complicados processos de escripturação, que Manoel Quentino, fiel aos velhos systemas, escrupulosamente seguia. Carlos previa methodos mais simples e expeditos para executar certos lançamentos e operações, e, vendo adoptados os mais extensos e tortuosos, sentia-se embaraçado, suppondo haver alguma razão para a preferencia e não a podendo descobrir.

Ao sair do escriptorio levava Carlos muito adiantada a sua instruccão commercial. Havia muito tempo que não tivera tão laboriosa manhã!

Á noite, quando se preparava para ir a casa do mestre, encontrou Jenny no corredor, a qual, como gracejando, lhe disse:

—Será verdade, Charles, o que acabo agora de saber?