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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 50: XXV
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

—Então que soubeste tu?

—Que foste hoje um canceiroso guarda-livros e que a todos maravilhaste no escriptorio com a tua applicação ao negocio.

—É verdade; tive esta manhã esse capricho.

—Capricho? Será somente capricho essa febre subita de trabalhar, que te acommetteu?

—Então que mais ha de ser?

Jenny esteve algum tempo calada, sem desviar os olhos do irmão.

—Tens razão. Será capricho. É de certo; mas talvez não tão innocente e sem importancia como o queres fazer.

—Ahi está que tambem tu és inconsequente, Jenny.

—Porquê?

—Ralhavas-me, ha dias, por o meu desapêgo aos negocios do escriptorio; agora vejo-te com vontade de me ralhares pela minha applicação.

—Se não houvesse n'ella uma intenção, de que eu desconfio!

—Uma intenção?…

Jenny mudou de tom.

—Deixas-me fazer-te uma pergunta?

—Dize.

—Aonde vaes tu agora?

Carlos perturbou-se ao responder:

—A casa de Manoel Quentino.

—Ah!…

—Bem vês que o pobre homem está doente…

—Soube agora que passou bem a tarde. Mandamos lá perguntar. Por isso, se te custa a visita…

—Mas… prometti…

—Ah!… prometteste!…

—Olha, Jenny. Digo-te a verdade. Para tranquillisar o bom homem, que não podia resignar-se a deixar o escriptorio ao desamparo, prometti-lhe encarregar-me do serviço, Mas bem sabes, ou deves suppôr, até onde chegam os meus conhecimentos commerciaes. Para tornar effectiva a promessa, careço de informações, que só Manoel Quentino me póde dar, por isso…

—E não receias que, doente como está, lhe faça mal a applicação de espirito, a que o vaes obrigar?

—São certas duvidas apenas.

—E se as expozesses antes ao pae?

Na fronte de Carlos desenhou-se uma ligeira ruga de impaciencia.

Jenny, com ar de tristeza, acrescentou, suspirando:

—Bem vejo, Charles, que esqueceste a palavra que me tinhas dado.

—Não te entendo.

—Entendes, entendes. Dize-me, se eu te pedisse que não fosses hoje a casa de Manoel Quentino?…

—Tinha que ver Jenny com caprichos, exactamente como outra qualquer mulher! Não nasceste para essas fraquezas femininas, minha boa, minha sisuda irmã.

E pegando, a rir, nas mãos de Jenny, levou-as aos labios e partiu apressado para não a escutar de novo.

Jenny viu-o sair, e uma dolorosa expressão gravou-se-lhe no semblante.

—Já não está na minha mão valer-lhe!—disse ella com amargura—Como findará isto, meu Deus!

Foi muito desagradavelmente surprendido n'essa noite o snr. José
Fortunato, ao encontrar Carlos Whitestone em casa de Manoel Quentino.
Descobriu elle n'isto indicios de grandes transtornos nos seus uniformes
habitos de vida.

A primeira noticia do facto recebeu-a de Antonia, que não via tambem com olhos favoraveis aquella intrusão.

Antonia e José Fortunato eram duas potencias alliadas e ciosas das suas prerogativas e influencias para com Manoel Quentino.

—Temos cá o homem!—dissera Antonia a meia voz, ao snr. José Fortunato quando lhe abriu a porta.

—Quem?—perguntou este, parando nos primeiros degraus da escada.

—O de hontem… O inglez…

—E a que vem elle cá?

—Eu sei. A modo que me não vae agradando isto. Pelos bonitos olhos do pae não é que…

Um negrume toldou o horizonte do coração do snr. José Fortunato.

Entrou para a sala do serão, o qual se fazia agora no quarto de dormir de Manoel Quentino, visto recommendar-lhe a medicina a prudencia de não abandonar o leito.

Á habitual saudação do recem-chegado responderam Manoel Quentino e a filha, e, no parecer do homem, alguma cousa mais distrahidamente do que do costume.

Não lhe agradou aquella distracção. Carlos fez-lhe um ligeiro signal de cumprimento e voltou á tarefa, em que parecia occupado.

Procedia-se, n'aquelle momento, á primeira lição commercial.

José Fortunato não podia comprehender o que via.

Manoel Quentino, sentado no leito, tinha no rosto a gravidade do professorado, temperada por certo sorriso de duvida nas boas intenções e na efficacia do estudo do discipulo.

De um lado do leito, sentava-se Carlos Whitestone, partilhando a attencão entre as prelecções de Manoel Quentino e as festas ao gordo gato maltez, que se lhe viera roçar pelas mãos—prova de confiança, que nunca dera a José Fortunato, apesar de mais longa convivencia.

Havia ainda outro objecto a attrahir as attenções de Carlos e porventura a maior ou mais preciosa porção d'ellas,—era Cecilia.

Em pé, do outro lado da cama, tendo na mão a costura, de que frequentemente se descuidava, seguia com curiosidade as prelecções paternas e as objecções, com que as interrompia Carlos, e não podia disfarçar de todo o riso, que a singular lição lhe desafiava.

A chegada de José Fortunato não alterou esta disposição de cousas e de pessoas; não era elle homem para constranger ninguem.

—Ora vamos a isto;—começou Manoel Quentino—para lhe fallar a verdade, não sei bem por onde principie.

—Eu lhe digo…—ia Carlos a responder, quando Manoel Quentino o interrompeu.

—Então, então! Não principie já a atrapalhar, senão não temos nada feito. Ora espere lá… Deixe-me cá ver…

E, depois de pensar algum tempo, continuou:

—Usam-se no commercio tres livros principaes…

Este começar ab ovo não agradou ao discipulo, que o atalhou dizendo:

—Já sei.

—Já sabe! Como já sabe?

—Pois nem isso havia de saber?! Creia que esta manhã, no escriptorio, levei a minha instrucção commercial ainda muito mais longe.

—Ora adeus!

—Verá.

—Então, se já sabe, escuso eu de…

—Sei que ha tres livros principaes em commercio, que se chamam: Diario,
Razão e Caixa, e que ha tambem os auxiliares.

Manoel Quentino estava devéras admirado de Carlos saber tanta cousa!

—O pae de que se admira? Eu mesma, parece-me que sabia isso tambem—disse Cecilia.

Manoel Quentino olhou para ella, e encolheu os hombros.

—Com que gente eu estou mettido! Bem;—acrescentou pouco depois para Carlos—então faça favor de me dizer o que é que não sabe, para eu lh'o ensinar.

—Olhe: eu o que desejo é obter esclarecimentos, em relação a certos pontos, sobre o que tenho duvidas. O processo da escripta a final não é cousa tão complicada, que não se possa comprehender, examinando-a com attenção; muito mais se, conseguindo despertar a memoria, alguma cousa ella nos vem tambem auxiliar. Só me parece que esse processo ainda podia ser mais simples do que o fazem.

—Não podia, não, senhor. Não venha agora para cá com modernices. Tudo é preciso.

—Não é tal. E senão vejamos: A escripturação póde fazer-se por partidas chamadas simples e dobradas; não é verdade?

—É, sim, senhor.

—E differem ellas…

—Eu lhe digo—atalhou Manoel Quentino.—Supponha o senhor que alli o snr. José Fortunato compra dez pipas de vinho á casa. Percebe?

—Que havia eu de fazer a tanto vinho?—resmoneou o snr. José Fortunato, para dizer alguma cousa.

—As quaes pipas importam—continuou Manoel Quentino—em dois contos de réis. Percebe?… O senhor escreve no Diario, em lettras grandes—sempre em lettras grandes—percebe? José Fortunato deve, por dez pipas de vinho a duzentos mil réis—dois contos de réis. Percebe?

—Sim; isso já eu sei… mas…

—Espere lá. Ou homem! Já sabe, já sabe! O senhor sabe tudo! Então se já sabe!… Este é o methodo de partidas simples.

—Perdão. Entendo que o methodo de partidas simples não se resume a tão pouco, pois que…

—Se é assim, pouco mais difficil é do que aquelle, pelo qual faço a escripturação da nossa casa—disse Cecilia, rindo, e emquanto ageitava a dobra do lençol, que Manoel Quentino desordenára.

—E creia, minha senhora—acudiu logo Carlos, no mesmo tom—que, a final de contas, muitos dos nossos caixeiros deviam tomar por modelo a simplicidade dos methodos de v. exc,ª, pois valem mais do que as baralhadas e mysteriosas escripturações de certos livros, nos quaes a melhor vista não consegue penetrar. Parece-me.

—Pois parece-lhe uma tolice—disse Manoel Quentino, a quem impacientavam estes levianos juízos criticos sobre uma arte, para elle tão transcendente como perfeita.

José Fortunato bocejava.

—Mas vamos cá—proseguiu Manoel Quentino.—Quer ver agora como fazia aquelle lançamento por partidas dobradas? Se o snr. José Fortunato, comprando o vinho, aceitasse uma lettra ou lhe endossasse alguma, pagavel á ordem d'elle; percebe? O senhor escrevia no Diario: Lettras a receber a vinho…—Note que os nomes do crédor e do devedor se escrevem sempre em lettra grande.—Percebe? Depois explicava a transacção por baixo d'estes titulos…

Não pretendendo os leitores provavelmente instruir-se em sciencia commercial, dispensar-me-hão de transcrever na integra a prelecção de Manoel Quentino.

Durante ella, manteve-se sempre em conflicto o espirito prático, o respeito ás velhas formulas, a experiencia intransigente do mestre, com o arrojo innovador, as tendencias simplificadoras e a aversão a inuteis complicações do discipulo.

Mais uma vez se verificou a eterna lucta entre a theoria e a prática; uma, com seus instinctos de joven, com seus habitos de actividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma indole, essencialmente prosaica e conservadora; fiel ao passado, que foi sem mestre, desconfiada do futuro, que não conhece, severa para com as ideias novas, cujos humores travêssos a impacientam. Uma, brincando e esperando no dia de ámanhã, como creança; outra, ralhando e suspirando pelo dia de hontem, como avó; uma, apaixonada do ideal e reparadora de tuertos, como D. Quixote; outra, odiando utupias, e contente com a ordem estabelecida de cousas, como Sancho. Em todos os campos da sciencia humana se encontram, frente a frente, estas duas filas de contendores. Emquanto o medico novo baseia raciocinios e assenta diagnosticos sobre recentes descobertas physiologicas, o prático velho encolhe os hombros, sorri, formúla ou opéra; emquanto o joven lettrado desenvolve theorias de sciencia social, vistas transcendentes de philosophia de direito; o jurista, encanecido no fôro, examina os artigos do codigo, esmiuça a lettra da lei, aconselha as partes e despacha os autos.

No exemplo que temos á vista, Manoel Quentino era o representante das ideias conservadoras; Carlos, o apostolo do progresso.

Por vezes o inabalavel rochedo da experiencia do guarda-livros foi rudemente açoutado pelas objecções, que a lucida intelligencia de Carlos contra elle despedia. Manoel Quentino fazia porém como o rochedo; não as repellia, deixava-as passar por si e ficava firme.

Manoel Quentino explicára, por exemplo, a Carlos a maneira de fazer os lançamentos, no caso de uma supposta remessa de lã para Liverpool.

Carlos combateu a longura e complicação dos processos seguidos, expondo a maneira como, no seu entender, se podia e devia simplificar a escripturação; parecia-lhe que muitas indicações feitas nos livros escusavam de ser registradas, e n'este caso estavam todas aquellas contas que, pelo processo de Manoel Quentino, eram creditadas e debitadas simultaneamente; desnecessario julgava fazer menção d'ellas, visto que ficavam logo por esse facto saldadas.

Os methodos indicados por Carlos eram tão simples, tão racionaes, tão despidos de minuciosidades defeituosas, despojavam os livros de tantas indicações superfluas, ronceiramente consagradas pelo habito, que Manoel Quentino não soube como combatel-os.

Imagine-se a contrariedade que experimentou com isto!

Não era elle homem porém que rompesse com habitos velhos e renegasse, perante as primeiras objecções de um rapaz inexperiente, o classico systema, a que fora fiel durante os muitos annos do seu tirocinio commercial; por isso retorquiu com acrimonia:

—Não sei de contos; assim é que se faz.

—Será; mas não se podia fazer tambem da maneira que eu digo?

—Podia… não podia… isto é… podia… não podia, não, senhor.

—Porquê?

—Porque não.

—Mas é, sem comparação, mais simples.

—E é com o que lhe dá! É mais simples, é mais simples… e acabou-se! Deixal-o ser!… Não se trata aqui de ser mais simples, nem menos simples… É como é e como deve ser… Estava-se mesmo á espera do senhor para vir fazer descobertas!… Até agora temos andado todos ás aranhas… Faltava cá o snr. Carlos com as suas simplicidades! Ora não está má!… É mais simples!… Pois peior; nós não queremos cousas simples… Será mau o processo, mas olhe que se tem feito e guiado muito boas casas com elle. Fie-se lá nas suas escripturações simples, e verá o que vae! Theorias!… Estou de pé atraz com ellas! Não provam bem. Negociante de theorias, fallencia no caso. É mais simples!… Olhem a grande cousa!… Mais simples era não fazer lançamento nenhum, se vamos a isso.

Carlos pôz-se a rir. Comprehendeu a repugnancia que devia encontrar Manoel Quentino em ceder n'aquella discussão e respeitou-lh'a. Recuando generosamente n'este campo, avançou n'outro; porque Cecilia soube ser grata áquella delicadeza de proceder para com o pae.

Manoel Quentino anciava por uma desforra; encontrou-a.

Duante a passada discussão, tendo-se fallado muitas vezes em facturas, o velho voltou-se agora de subito para Carlos, perguntando-lhe ex-abrupto se sabia fazer uma factura. Carlos não respondeu logo.

O homem prático presentiu n'esse campo completo triumpho. Não admittiu, por cautela, explicações verbaes; mandou vir papel, penna e tinta, e disse para o discipulo:

—Risque e encha.

Carlos hesitou. Manoel Quentino saboreou as doçuras de uma victoria.

—Ora ahi está,!—exclamou elle—Ahi está do que servem as theorias! É isto sempre… Fallam que nem um bacharel… e vae-se a trabalhar e… passe por la muito bem! não atam nem desatam!… Então? Veja se se lembra de algum methodo mais simples de sair do aperto… Qual!… Aqui é que eu os quero ver… No fogo é que se conhecem os soldados… Isto de queimar polvora em fogos presos não presta para nada… Ora escreva, escreva lá, faça o que eu lhe disser e deixe-se de theorias. Não tenha vergonha de aprender. Todos aprendem até á morte.

E principiou a indicar-lhe a maneira de riscar o papel, as inscripções que tinha a fazer, as verbas que devia registrar, e isto tudo sem lhe deixar passar por alto a minima particularidade.

Carlos obedecia-lhe com tal docilidade de discípulo, que fazia rir
Cecilia.

—Vá; escreva ahi, no alto da folha—disse Manoel Quentino—Factura de… agora um genero qualquer que queira carregar.

—De paciencia então, que é genero de que o Manoel Quentino bem precisa agora para aturar a molestia.

—Então! está a brincar ou que faz? paciencia preciso, mas é para o aturar a si.

—Paciencia confiada ao cuidado de meu pae!—dizia Cecilia—Valha-nos
Deus! que não é homem que tenha cautela com a mercadoria.

—E adeus! Estão as duas creanças a brincar. E eu que as ature!

Se Manoel Quentino tivesse mais algum conhecimento dos pequenos mysterios do coração, não fallaria assim collectivamente de Carlos e Cecilia, isto de os confundir debaixo da denominação generica de creanças era imprudente, no estado actual dos sentimentos de ambos.

Proseguiu a indicação da maneira de encher a factura e com isto terminou a lição.

Em seguida, serviu-se o chá, que n'aquella noite não soube a José
Fortunato, como de costume.

Manoel Quentino, apesar das suas impaciencias, estava, de si para si, espantado de tanto que sabia Carlos.

—Que esperteza de rapaz!—dizia elle para Cecilia, quando esta, depois de todos se haverem retirado, fazia engulir ao pae a ultima chavena de caldo d'aquelle dia e lhe arranjava os travesseiros para o somno da noite—Tem diabo! Como entende tão bem estas cousas de commercio, a que andou sempre estranho! Era capaz de enrodilhar outro, que não tivesse a experiencia, que eu tenho! Uma cousa assim! Parece até que adivinha! É até um peccado andar fóra da vida do negocio… Deem-lhe alguns annos de pratica, e verão o que d'alli sáe.

Cecília calava-se.

XXIII

DIPLOMACIA DO CORAÇÃO

A educação commercial de Carlos continuou e com os mais rapidos e auspiciosos progressos. Á segunda noite espantava elle Manoel Quentino, apresentando-lhe os lançamentos, que pela manhã fizera e nos quaes o experimentado guarda-livros nada teve que notar.

A custo pôde convencer o fogoso discipulo de que não convinha que elle proprio escrevesse nos livros geraes, onde era contra as praxes apparecer lettra de mais do que um individuo. Bastava, dizia o velho, e já não era pequeno serviço, que Carlos o auxiliasse no expediente e deixasse tudo preparado para que, ao terminar o seu impedimento, elle, Manoel Quentino, só tivesse a transcrever no Diario e no Razão as transacções operadas durante essa época.

No fim de tres ou quatro serões, Manoel Quentino já não tinha que ensinar mais ao discipulo.

Elle sabia tudo!

Terminaram pois as lições, mas não terminaram com ellas as visitas de Carlos, como seria natural que acontecesse. Mudaram apenas de caracter aquelles serões.

Carlos era agora o que se encarregava da leitura das folhas, com grande mágoa de José Fortunato, que não podia encontrar na diversão metade do prazer que n'ella recebia, quando a leitura era feita por Cecilia.

De mais a mais, Carlos divertia-se muitas vezes á custa do velho. Sabendo de Manoel Quentino que elle era possuidor de varios papeis de credito, raro era o dia em que, no decurso da leitura, não improvisava noticias e insinuações, que faziam entrever uma imminente baixa de fundos e porventura uma banca-rota.

José Fortunato declamava então contra os governos presentes, passados e futuros, com toda a acrimonia que lhe era possivel.

Quando os dois velhos tratavam ás vezes alguma discussão acalorada, Carlos aproveitava a occasião de entrar com Cecilia em um dialogo, cuja indole era cada vez mais perigosa para o coração de ambos. E senão, ouçamos.

Cecilia trabalhava, certa noite, em uma camisa de panninho para o pae.

—Que nome se dá a isso que está a fazer?—perguntou Carlos, curvando-se sobre a costura.

—É uma camisa—respondeu Cecilia, sorrindo. Pois nem conhece!?

—Que é uma camisa sei eu; não perguntava isso; mas… essa costura em que está agora a trabalhar, como se chama?

—Isto? É um posponto.

—Ah! um posponto!… Um posponto é a mesma cousa que um sobre-cosido; pois não é?

Cecilia desatou a rir a esta pergunta.

—Não, senhor, não é. Nem tem nada uma cousa com outra.

—Não?! Pois olhe… parece, porque… posponto é… como quem diz: depois do ponto; sobre-cosido, sobre ou depois do cosido, e portanto… depois do ponto tambem.

—Será; mas… em todo o caso, são cousas diversas.

—Então que differença fazem?

—Ora que curiosidade! Ha de interessar-lhe muito agora conhecer essa differença.

—E porque não? Não vê que ando com vontade de ampliar os meus conhecimentos? Não tem reparado na minha docilidade a ouvir as lições de escripturação?

—Mas essas podem servir-lhe.

—Mas vamos; um posponto é isso; muito bem. E agora um sobre-cosido?

Cecilia, rindo, procurou na obra, que estava a fazer, o exemplo já realisado de um sobre-cosido e mostrou-o a Carlos, dizendo:

—Ahi está um sobre-cosido. Agora estude a differença, a ver se a sabe explicar.

Carlos examinou-o com apparente attenção e a mais composta seriedade.

E Cecilia interrompia o trabalho, só por causa d'isto.

—Então?—perguntou ella maliciosamente, quando Carlos deu mostras de haver terminado o exame.

—Reconheço que de facto são cousas diversas, mas não posso bem dizer em que consiste a differença.

—O que o deve affligir muito.

—Mas diga—insistia Carlos, que parecia devéras empenhado em elucidar este negocio dos pospontos—todas as costuras se fazem a posponto?…

Cecilia não podia escutar com seriedade este inquerito inesperado.

—Não, senhor;—respondeu a rir—conforme a qualidade da obra, assim se prefere a qualidade do ponto.

—Ah! visto isso, o posponto… é um ponto tambem?

—Pois está claro. É um ponto que se dá assim. Ora repare.

E Cecilia, acompanhando a palavra com a acção, principiou a trabalhar com todo o vagar, ao passo que Carlos assistia á demonstração com a attenta seriedade de um discipulo. Ainda que me parece que menos vezes lhe seguiam os olhos os movimentos da agulha, do que se fixavam a admirar a perfeita modelação e delicado colorido da mão que a movia.

—Repare—dizia Cecilia—dá-se, supponhamos, o primeiro ponto; maior ou menor, conforme a delicadeza da obra, já se sabe. Assim. Ora agora, a agulha entra aqui mesmo pelo meio d'este primeiro ponto… Vê?… E vae saír adiante, de maneira que este segundo ponto tenha o mesmo comprimento do primeiro. Entende? A terceira vez entra por onde saíu a primeira, a quarta por onde saíu a segunda… e assim por diante… Entende agora?

—Muito bem. E o sobre-cosido?

—Mas como lhe deu para querer saber doestas cousas?

—É uma esquisitice. Concordo. Mas… então que quer? Mau é que eu tenha um d'estes desejos. Incommodo-me deveras, se os não satisfaço.

—Ah! Não sabia que era assim caprichoso!

—E não concebe esta maneira de sentir?

—Eu, não.

—Não diga que não. É impossivel. A imaginação feminina, sem duvida mais delicadamente sensivel do que a nossa, não póde ignorar estes pequenos caprichos. O capricho é, a meu ver, uma prova de superioridade moral em que o tem. Vamos; termine a minha lição.

—Então que quer saber agora?

—Que é um sobre-cosido?

Cecilia condescendeu ainda em lhe explicar o que era o sobre-cosido, como já lhe explicára o que era o posponto. Carlos deu-se no fim por satisfeito.

Agitou-se ainda algum tempo a discussão a respeito de assumptos d'esta natureza.

Carlos foi durante ella sempre serio; Cecilia, a cada momento, a interrompia com o riso, que lhe desafiava a estranha lição, que nunca esperára ter de dar a um discipulo d'este genero.

Em quasi todos os serões, passados em casa de Manoel Quentino, os colloquios entre Carlos e Cecilia versaram sobre objectos de igual transcendencia e sustentaram-se em um tom da mesma gravidade que este, que registamos.

Ahi estão uns colloquios inoffensivos e inconsequentes, pensará talvez o leitor. Pois engana-se, se pensa assim. Recorde-se da sentença de quem, n'estas cousas de amor, escreveu ex-professo:

Parva leves capiunt animos.

De facto, nada ha de tanta influencia para o coração como um colloquio assim, bem futil, bem insignificante, no estado a que haviam chegado os sentimentos de Carlos e de Cecilia.

Quanto mais ligeiro, quanto mais pueril é o assumpto de um dialogo d'estes, tanto mais se empenham os corações dos que o sustentam.

Os dialogos amorosos, que estamos costumados a escutar entre o galan e a primeira dama, no tablado dos theatros, ou a ler nos capitulos dos romances, dialogos cortados de interjeições e cheios de subtis theorias do mais acrisolado sentimento, são excepções na vida real; e, quando se dão, sáe-se d'elles mais livre, mais disposto a esquecer, menos propenso a sonhar; servem como de expansão aos affectos accumulados—expansão em que estes ás vezes completamente se dissipam. Mas os constrangimentos, os silencios, dos quaes a imaginação em vão procura livrar-se, e sobre tudo o conversar aturado sobre mil cousas futeis e indifferentes, isso sim, que é bem mais para temer; porque, emquanto dura a troca reciproca de formulas insignificantes, o coração põe em campo outros emissarios secretos e invisiveis, que adiantam consideravelmente as negociações pendentes e conseguem realisar a entrega da praça, sem o minimo combate manifesto.

Digam-o os numerosos pares, para quem voam as horas e desapparece o mundo, de enlevados que se entregam a esses interminaveis dialogos, motivo de zombarias apparentes e de occultas invejas dos que os não podem gosar; digam se, quando mais sinceros sentiam em si os affectos, eram metaphysicas e transcendentes especulações sobre o amor o que assim lhes absorvia as attenções e os cuidados; digam se, quando, ao terminar um d'esses felizes dias, tentavam reproduzir as impressões recebidas no decurso d'elle, recordando as palavras ditas e escutadas n'aquellas longas entrevistas, outra cousa lhes conseguia avivar a memoria que não fosse dialogos pouco dramaticos, banalidades sobre assumptos indifferentes, mas sob cujo disfarce o coração achára meio de dizer muito, e até mais eloquentemente, do que ainda poeta algum o pôde exprimir—nem o proprio Petrarca nos seus trezentos e dezoito sonetos.

Isto aconteceu a Carlos Whitestone. Poucas vezes voltára a casa mais possuido d'essa intima e indefinida alegria de quem assiste em si ao ateiar de uma paixão, do que na noite, em que se verificou o dialogo, que o leitor provavelmente julgou sem consequencias.

Prolongou-se este estado de cousas. O medico, a quem fora confiado o tratamento de Manoel Quentino, prudente em demasia, apenas lhe promettia esperanças de o deixar saír passada uma semana mais.

Carlos não pensava com frieza de animo no termo d'aquelle praso. Poderia, sem causar estranheza, continuar, ainda depois d'elle, as visitas que lhe eram já tão necessárias? Até alli servia-lhe o pretexto de vir dar contas a Manoel Quentino do serviço da manhã; mas depois?

Carlos continuou a ser diligente nos negocios do escriptorio. Mr. Richard ainda não acabára de conformar o espirito áquella mudança do filho.

Em casa de Manoel Quentino, só este era quem talvez não suspeitava um segundo motivo na assiduidade de Carlos. Antonia e José Fortunato já a commentavam havia muito.

E Cecilia? Respondam por mim as leitoras.

Uma noite ia o snr. José Fortunato a retirar-se, e entre elle e Antonia travou-se, já no portal, o seguinte dialogo:

—Então, snr.ª Antonia, que lhe parece este inglez aqui sempre mettido?

—Que quer que lhe faça? O que me admira é o snr. Manoel Quentino não reparar…

—Mas diga-lhe que…

—Eu?! Deus me livre! O snr. José Fortunato é quem…

—Eu?! Nada; n'essa me não metto; mas a snr.ª Antonia tem quasi obrigação de…

—Eu lhe digo… Eu, como o outro que diz, não quero fallar, sem primeiro me encher de razão… Hei de tirar umas informações a respeito do inglez, e depois…

—Informações de quem?

—Mesmo defronte da casa d'elle vive uma cunhada do homem da sobrinha de uma comadre minha, de quem eu sou muito conhecida e amiga; ámanhã, se tiver tempo, sempre hei de lá chegar. Porque a mim consta-me que este rapaz é um estoira-vergas dos meus peccados…

—Elle lá se vê!

—Ora o que nos havia de apparecer!

E os dois despediram-se; José Fortunato para ir curtir em casa as cruas mágoas do coração; Antonia para assentar, no repouso do travesseiro, sobre a maneira de obter da cunhada do homem da sobrinha da sua comadre as informações de que precisava, para se encher de razão.

XXIV

EM QUE A SENHORA ANTONIA PROCURA ENCHER-SE DE RAZÃO

A cunhada do homem da sobrinha da comadre da senhora Antonia habitava, como da bôca da dita senhora soubemos, defronte de Mr. Richard Whitestone. Era a morada uma pequena casa terrea, a cuja meia porta passava a inquilina metade do tempo, observando ou transmittindo aos outros o resultado das suas observações.

Se o amor de saber define etymologicamente o philosopho, difficil será encontrar algures individualidade tão bem acondicionada para se lhe encabeçar o disputado titulo, como a snr.ª Joséfinha da Agua-benta; que por este nome era sua graça conhecida em todo o bairro.

Era mais que amor de saber o que a possuia; era ancia, era febre, era delirio!

Ás nove horas da manhã do dia seguinte áquelle, em que entre José Fortunato e Antonia se tramára, in limine, aquella conspiração, de que lavramos acta, achava-se a diligente criada de Manoel Quentino, inflammada no santo ardor domestico, á porta da sua, conhecida e amiga, no louvavel intuito de colher informações a respeito de Carlos Whitestone.

—Snr.ª Joséfinha!—chamou a snr.ª Antonia para dentro de casa, elevando, em desentoado falsete, a voz inclassificavel.

—Hui!—respondeu de dentro outra voz, digna de emparelhar com esta.

—Passou bem?

—Mas quem é?

E uma figura de mulher de meia idade, perfeito typo de mulher de soalheiro, foi pouco e pouco tomando vulto e relevo no vão escuro da porta, e assomou emfim á cancella.

—Ai, pois é vocemecê, snr.ª Antonia? entre.

—Ai, nada, não entro, que não me posso demorar.

—Então que pressas são essas hoje?

—Bem vê que são nove horas, e preciso de olhar pelo jantar.

—Isso tem muito tempo—disse a snr.ª Joséfinha da Agua-benta, encostando-se á cancella, e proseguiu:—Então quem a trouxe por estes sitios?

—Fui alli adiante a um recado do patrão, e sempre quiz bater para saber de si.

—Muito obrigada. Então ainda se dá bem na casa?

—Vamos andando. Da maneira por que hoje as cousas estão, ainda não é das peiores.

—Diz bem. A soldada, a fallar a verdade… acho que não é lá das de tentar, mas…

—Está feito, está feito; ha-as melhores e ha-as peiores—disse a snr.ª Antonia, que não gostava de entrar em particularidades da sua vida, nem para isso vinha.

—Elle tambem…—insistia a outra—não póde alargar-se muito. Um caixeiro…

—Deixe lá. Ha por ahi patrões, que vivem em maiores apertos.

—Diga-m'o a mim, snr.ª Antoninha. Olhe a minha Luiza… Conhece? A filha do nosso Antonio. Pois esteve alli abaixo a servir seis mezes em casa do commendador Collaço e saíu de lá porque aquillo chega a pouca vergonha. Os criados passavam fome de rato. Olhe que chegavam a dar-lhe pão de uma semana e a comprar sardinha da caravella para a ceia d'elles. Pois quem via aquillo na rua, parecia que tinham as rendas do bispo.

—Pschi! E quando ao menos são promptos na soldada!

—Promptos?! Isso sim! A uma criada, que lá esteve tres annos, ainda hoje estão a dever um anno inteiro. Ora isso é mesmo uma dor de consciencia, não acha?

—Mas então que quer? O luxo é muito.

—É assim, é. Diz bem. É uma cousa por maior! Vocemecê ha de conhecer aquelle Maltez, que é não sei o quê na administração, um homem bem afigurado, que anda sempre com um cão preto…

—Ai, bem sei. O cunhado d'aquelle militar de quem dizem as más linguas…

—Tal e qual. Pois não sei se tem reparado no luxo com que se apresentam as filhas e a mulher. Ó santo Deus! Emfim uma cousa é ver, outra é dizer. Aqui ha dias passaram ahi todas e eu benzi-me e tornei-me a benzer! Não que nem a rainha póde luxar assim. Qual! Ora, veja a snr.ª Antoninha, o pae dizem que não ganha mais de trezentos mil réis por anno. Milagres não se fazem… O dinheiro não nasce no quintal…

—Deus sabe d'onde elle vem.

—Eu tambem sei alguma cousa, vamos lá. Sei a quem magoam muitas d'aqúellas grandezas. Olhe que a senhora d'elle tem chegado a pedir emprestado a uma rapariga, filha de uma amiga minha, que esteve lá a servir muitos annos. A rapariga, coitadinha, que se mata a trabalhar… porque ella hoje é engommadeira, teve vergonha de dizer que não, e adeus, minha vida.

—Tola foi; cá para mim é que elles vinham bem guiados.

—Por isso eu digo: a snr.ª Antoninha não é das que tem razão de queixa.

—Ai, não sou, não, senhora; isso não sou; graças a Deus.

—O passadio é bom?

—É bom, é, sim, senhora; lá n'isso não ha que dizer…

—O peior que alli tem é a prisão; pelos modos sáe poucas vezes. Tirante lá, aos domingos, o ir visitar o Senhor ao Carmo.

—Bem vê que o patrão quasi nunca está em casa… e é uma menina só…

—E a pequena não tem por ahi já a sua inclinação? Ha de ter…

—Não… Que eu saiba…

—Ha de ter, ha de ter. Hoje em dia! Olhe a snr.ª Antoninha aquella rapariga do Cosme Villas-boas, uma creança se póde dizer… pois o que ahi vae já com ella por causa do filho do escrivão!

—Sim. Então?…

—Ora! nem quero que me lembre! É um desafôro! O pae d'ella, no outro dia, pescou-o a fallar com a pequena, e correu para o rapaz com uma navalha. O rapaz fugiu, e a mãe d'elle veio então á janella e pôz-se a berrar com o velho. Sempre disseram cousas uma á outra aquellas duas creaturas! Um passo assim!

—Não que ha gente n'este mundo!

—O pae pelos modos queria-a casar com o brazileiro, que anda a fazer aquellas casas em Santa Catharina.

—Isso era uma mina para a rapariga!

—Mas então que quer? Virou-se lá para o filho do escrivão.

—Forte tola!

—E elle então que é uma figura! Não o conhece?

—Eu não.

—É mesmo cinco réis de gente. Um desconjuntado, um lorpinha…

—São gostos.

—É assim; diz bem. Mas então a sua ama…

—Essa… por emquanto… É aqui como a sua vizinha.

—Qual?

—A do inglez, a filha do patrão lá do meu amo.

—Ah! Essa então! É aquillo que alli está. É uma boa menina, isso é; muito amiga da pobreza… Exquisita como todas as inglezas, mas no mais… Olhe que, desde que somos vizinhas, ainda não teve uma palavra que me dissesse! Á janella ninguém a vê, e quando passa por aqui, faz-me uma cortezia muito séria e mais nada.

—Ella é muito da menina lá de casa.

—É. Eu tenho visto a sua ama vir ahi muitas vezes.

—É uma boa familia esta.

—É, isso é. Não ha que se lhe diga.

—O velho julgo que é pessoa capaz.

—É, é assim meio maniaco, mas a final não é mau sujeito, não. Tem suas venetas, como quasi todos os inglezes… mas…

—E o rapaz mesmo…

—O snr. Carlos? Ai, por amor de Deus, não me falle n'isso.

A snr.ª Antonia chegára emfim ao topico desejado.

—Então?

—Isso é uma peça de fazenda!

—Que me diz!

—Faz lá ideia do que alli está! Um estroina assim não ha! Recolhe-se a casa lá porque altas horas da noite. Dorme até ao meio dia. Ora veja a snr.ª Antoninha que vida póde ser a d'elle.

—Então joga?

—Elle joga, elle fuma, elle passa a vida nos botequins e nos theatros, elle bebe, elle anda sempre com más companhias.

—Que tal! Hein!

—Isso não faz ideia! Em casa anda tudo a ferver por causa d'aquelle menino. Não falla com o pae, a irmã passa um martyrio com elle. Disse-me a Susana, que é ainda minha prima, e que esteve lá a servir oito dias, que aquillo é uma pouca vergonha. Ás vezes está a mortificar aquella pobre irmã, e ralha, e ralha, e torna a ralhar, e ella então, coitadinha, chora que é uma dor do coração. Ha dias em que não faz outra cousa.

—Arrenego eu o Judas Iscariote!

—E então, snr.ª Antoninha, é um menino a quem tudo faz conta. Não sei se me entende? Seda e chita é tudo panno para elle fazer obra. Dizia o Luiz, que foi muito tempo criado d'elle, que eram tantas as cartas que recebia de differentes, que era uma cousa por maior!

—Tratante! O que elle precisava…

—Diz que ahi com uma comediante do theatro gastou elle contos de réis ao pae. Até o velho quiz mandal-o para Inglaterra.

—Fosse e nunca voltasse! Arrenego-o eu!

—É da pelle do mafarrico. Depois então diz que bebe!

—Faltava mais essa!

—Pois se elle é inglez! Às vezes, quando vem para casa, já de dia claro, chega a ser preciso deital-o na cama, porque não da accôrdo de si.

—Olhem que vergonha! Uma pessoa fina, e… A gente sempre vê cousas!…

—Aqui ha tempos… Vá vendo a snr.ª Antoninha; ia eu já a abrir a porta da rua, pela madrugada, e entrava aquella creaturinha para casa. Vinha amarello, esgadelhado; bem se conhecia o estado d'aquella cabeça.

—Não, tambem com uma vida assim não póde ir muito longe.

—Pois não, não… E é até uma felicidade para elle, se morrer.

—Aposto que a estas horas ainda dorme?

—Abriu agora mesmo as janellas. Hoje madrugou.

—Então é alli o quarto d'elle?

—É, é alli mesmo á entrada. O pae e a irmã saíram logo pela manhã cêdo. Pelos modos diz que chegou da Inglaterra um inglez muito rico com uma filha, a quem elles foram visitar. Disse-me a Dorotheia, que é a despenseira, que o velho quer ver se casa o filho com a tal ingleza.

—E o rapaz?

—O rapaz?… bem pensa elle n'isso!… Olhe lá se elle os foi visitar.

Haviam chegado as duas mulheres a este ponto do dialogo, quando entrou na rua uma sege da praça, puxada com toda a força por dois vigorosos cavallos, e veio parar á porta da casa de Mr. Richard Whitestone.

O boleeiro saltou immediatamente da taboa para receber as ordens da pessoa que vinha dentro e que as gelosias corridas das portinholas furtavam á curiosidade das duas mulheres.

Em seguida tocou á campainha; appareceu-lhe, passado algum tempo, o criado particular de Carlos; trocadas poucas palavras entre ambos, este retirou-se, voltando cêdo depois com a resposta.

Tendo-a ouvido, o boleeiro veio abrir a porta da carruagem, da qual saiu então uma senhora de elegante apparencia, toda vestida de preto e cujas feições se occultavam em um longo véo, impenetravel aos olhos ávidos de Antonia e da sua amiga.

Esta senhora desappareceu pelo portão do jardim em companhia do criado de Carlos.

A snr.ª Antonia e a snr.ª Joséfinha trocavam entre si olhares eloquentes.

—Mas…—murmurou Antonia.

—Que é?… Diga.

—Não me tinha dito que o pae e a filha haviam saído?

—Ha mais de uma hora.

—Então…

—Então o quê?

Os olhos proseguiram algum tempo o dialogo.

—Ora sempre é desafôro!—disse a snr.ª Antonia, após o dialogo, dos olhos.

—É isto que vê.

—Conheceu-a?

—Eu não.

—Mas com este descaro?!

—É para que veja.

—Não, pois não saio d'aqui, sem descobrir quem ella é, ou pelo menos…

—Ora diga a snr.^a Antoninha se isto não é fazer pouco caso da vizinhança.

E as duas continuaram n'estes santos commentarios. A snr.ª Joséfinha chegou a adiantar algumas perguntas ao boleeiro, que lhe viera pedir lume para accender um cigarro. Este, porém, só lhe pôde dizer que era uma senhora ainda nova e bonita, que morava em Santa Catharina.

Antonia tomou conta na rua.

As conjecturas continuaram até que de novo appareceu no portal a pessoa que era objecto d'ellas. Agora acompanhava-a Carlos, que, com toda a galanteria, a ajudou a entrar no carro, entrando tambem atraz d'ella, depois de haver dado algumas ordens ao boleeiro.

E o carro partiu outra vez, com toda a velocidade, pelo caminho por onde viera.

Estavam estupefactas as duas espectadoras da scena.

—Reparou?—disse a snr.ª Joséfinha.

—É que já me não escapa mais.

—Pareceu-me nova.

—E bonita.

—Então que me diz a isto?

—Que estou atordoada!

—Já viu um descaramento assim?

—Eu não.

A snr.ª Antonia retirou-se d'alli, devéras indignada e decidida a intervir em casa do amo, para desmascarar o libertino, que se introduzira sorrateiramente n'ella a pretexto de serviços desinteressados e de falsa amizade.

Antonia conseguira o seu intento, enchera-se tanto de razão, que já ameaçava trasbordar por ella fóra.

XXV

TEMPESTADE DOMESTICA

Ás quatro horas da tarde d'este mesmo dia voltava Mr. Richard Whitestone a casa, com aquelle ar de satisfação ingleza, que já lhe conhecemos, e em passo vagaroso, como de homem que terminou as tarefas sérias e principiou a gosar as doçuras do não fazer nada. Parte da manhã passára-a com um compatriota, pae de uma nevada e loura lady, a quem de facto Mr. Richard estimaria ver matrimonialmente ligado o filho.

Como n'estas intenções do discreto inglez conseguira entrar a despenseira, não sabemos nós; mas é certo que, ou por força de logica ou por occulta inspiração, havia ella acertado, ao informar a snr.ª Joséfinha da Agua-benta. Comquanto o não ter sido acompanhado pelo filho n'aquella visita matinal houvesse algum tanto desagradado ao inglez, consolava-se, esperando que elle condescenderia em o acompanhar á noite, na segunda visita que tencionava fazer.

Ia pensando n'isto o velho commerciante, precedido da ligeira Butterfly, impaciente com a morosidade do dono, que tão a miudo a obrigava a retroceder.

Trauteando por entre dentes o predilecto: cheer, boys, cheer, caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia a vista nas bem providas exposições de ouro, que adornam um dos lados da rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se impressionado por algum objecto que vira n'ella.

Por muito tempo durou este exame.

Havia alli o que quer que fosse que o inglez tomava a peito investigar.
E não o conseguindo de fóra do mostrador, entrou na loja.

—Faz favor de deixar-me ver um relogio, que está ahi exposto?—disse elle para o ourives.

O ourives, com sorriso amavel e maneiras delicadas, satisfez-lhe promptamente ao pedido.

Mr. Richard examinou o relogio com minuciosa attenção.

—É um bello relogio!—dizia o ourives—Valioso por todos os respeitos.

Mr. Richard fez um signal afirmativo com a cabeça, e proseguiu calado no exame.

—É inglez, não é verdade?—perguntou d'ahi a instantes.

—É, sim, senhor. De fabricantes muito acreditados.

—E então… mandou-o vir directamente da Inglaterra?

—Não, senhor…

O ourives principiou a olhar para Mr. Richard com mais cuidado. O que estava pensando, ao olhal-o assim, não sei; mas uma sombra de desconfiança parecia anuviar-lhe o semblante. Passados alguns instantes continuou:

—Para fallar com franqueza a v. s.ª, ainda não ha muitas horas que o comprei.

—Ah! E… póde saber-se a quem?…

—Comprei-o a um rapaz, que eu conheço de vista, mas cujo nome ignoro…
Supponho que é tambem inglez… Vinha em carro com uma senhora…

Mr. Richard abriu muito os olhos, fitando o ourives e repetiu:

—Com uma senhora?…

—Sim, uma senhora ainda nova, vestida de preto, que ficou á espera d'elle. O rapaz entrou aqui, disse que estava para ir para fóra da terra, e propôz-me a compra do relogio e da corrente… Entramos em ajuste…

—Bem, bem; pouco me importa isso—disse Mr. Richard, com ligeiras e convulsivas contracções de labios, que eram n'elle indicio de cólera reprimida.—Vamos a saber: Por quanto m'o vende agora?

O ourives fez valer os seus direitos a algum modico lucro, direitos que Mr. Richard não lhe contestou, vindo a final a comprar, pela segunda vez, o relogio e a corrente, com que havia já presenteado o filho.

Porque não havia para elle duvida, e escusa de a haver para o leitor, de que eram exactamente aquelles mesmos os objectos que tinha agora presentes.

Ao sair da loja, Mr. Richard ia com a physionomia outra vez serena, mas lá por dentro, quem o podesse perscrutar, encontraria um grau de irritação, a que raras vezes lhe subia o genio fleugmatico.

O criado, que estava á porta quando Mr. Richard chegou a casa, era o mesmo que recebera pela manhã a visita, que tanto indignára a snr.ª Antonia.

—A que horas saíu hoje o snr. Carlos?—perguntou Mr. Richard, em tom de voz sêcco e aspero.

—Ás… ás dez horas—respondeu, já sobresaltado, o criado.

—Só?

O rapaz teve vontade de dizer que sim, mas Mr. Richard fitava-o com um olhar, que lhe desvaneceu toda a impassibilidade precisa para isso.

—Só?—repetiu o inglez, com mais força.

—Não… não senhor…—respondeu o criado.

—Então?

—Com… com…

—Com quem?—perguntou Mr. Richard, cada vez mais imperioso.

—Com uma senhora, que… que veio procural-o… mas… era já de idade—acrescentou o homem, como correctivo.

Porém Mr. Richard já lhe havia voltado as costas, entrando para casa. Jenny estranhou-o. Habil na leitura d' aquella physionomia, nem uma só ruga, que accidentalmente a carregasse, podia passar-lhe despercebida e sem lhe excitar desejos de decifral-a.

Mr. Richard respondeu benignamente, mas em poucas palavras, ás perguntas de Jenny, e quiz saber se Carlos já tinha vindo para casa.

Recebendo resposta affirmativa, acrescentou que, antes de jantar, desejava ir ao quarto d'elle.

Era esta resolução tão extraordinaria, que Jenny, ao ouvil-a, olhou fixamente para o pae.

Conheceu que alguma cousa tinha occorrido, capaz de trazer após si uma d'essas scenas violentas, que ella tanto fazia por afastar.

Pretendeu conjural-a.

—Pois vamos—disse a sorrir, e dispondo-se a acompanhar o pae.

—Não, não—respondeu Mr. Richard, afastando-a com doce violencia.—Eu pretendo… preciso de fallar-lhe a sós.

Jenny soltou-lhe o braço, a que já se apoiára desanimada com a frieza, mal occulta, d'aquellas palavras.

Mr. Richard tentou abrandar a impressão do primeiro movimento, dizendo:

—É de negocios que se trata… Até já!… No entretanto, pódes mandar servir o jantar.

Jenny viu-o partir sobresaltada e procurando em vão adivinhar a razão d'aquella entrevista.

Mr. Richard n'este tempo appareceu no quarto do filho.

Muito longe de esperar aquella visita, Carlos, recostado no canapé, pensava… em Cecilia provavelmente.

Ao ver o pae, que tão raro o procurava no quarto, levantou-se com alvoroço e mal occulto espanto.

Mr. Richard caminhou para elle, e tirando do bolso o relogio e a corrente disse, quasi gaguejando, como sempre lhe acontecia quando sob o dominio de violenta commoção:

—Ahi tem. Quando vender as… as dadivas das… das… pessoas que… que o estimam… seja para… fins que… que o não envergonhem, nem… deponham tristemente contra… o seu caracter…

Á vista do relogio foi tal a commoção que se apoderou de Carlos, que nada pôde responder; baixou os olhos, confuso, corou intensamente, como se a consciencia lhe estivesse dizendo que a severidade das arguições do pae era merecida.

Estes signaes foram por Mr. Richard interpretados como tacita confirmação das suas suspeitas.

Cresceu n'elle com isto a irritação.

—Seja extravagante muito embora… mas… mas… nunca seja… nunca seja vil…

Carlos estremeceu ao ouvir aquella palavra, e levantou com vivacidade a cabeça.

—Senhor!—exclamou, mal conseguindo o respeito filial suffocar-lhe a indignação que sentira.

—Vil, sim—repetiu Mr. Richard com mais força, como se excitado por aquella apparencia de reacção.—Quero que não faça d'esta casa theatro das suas… aventuras… escandalosas.

—Mas…

—Lembre-se de que é aqui—proseguiu, sem o attender, o pae—aqui, debaixo d'estes tectos, que não tem a delicadeza de respeitar, que é aqui que embranqueceram os cabellos de seu pae… que foi aqui que sua mãe morreu… que é aqui que vive sua irmã.

—Creio que ainda não dei motivos para…

—Quem o procurou esta manhã? Com quem saiu de carruagem? Com que fim vendeu esse relogio?

Carlos calou-se. Parecia resolvido a guardar silencio, em relação áquellas perguntas; nem era de animo tão docil, que ouvisse, sem se irritar tambem, estas severas recriminações, feitas antes de julgamento minucioso.

O seu orgulho revoltou-se.

—Não posso explicar nada d'isso, mas dou-lhe a minha palavra que…

Mr. Richard atalhou-o:

—Nem eu quero tambem averiguar dos actos da sua vida. Teem-me chegado aos ouvidos rumores de muita extravagancia sua, de que não tenho feito caso. Mas quero, mas exijo… E inda tenho força bastante para o conseguir, póde crêl-o… Quero e exijo que se respeite o meu nome e… e a minha casa. Fique entendendo.

—Mas eu já lhe dei a minha palavra de honra de que todos os meus actos d'esta manhã não podiam deshonrar nem o seu nome, que é o meu tambem, nem esta casa, que eu respeito como…

—A sua palavra de honra! Não basta. Bem vê que tenho motivos para duvidar d'ella… e porisso…

—N'esse caso, como não tenho outra garantia a offerecer, calo-me. Depois de uma resposta como essa, quando é de um pae que a recebemos, não nos resta outro partido, além do silencio—disse Carlos, com decidida resolução de não continuar este dialogo, receiando com razão que a impetuosidade do genio o levasse a esquecer a qualidade da pessoa, que altercava com elle.

Mr. Richard calou-se tambem e deu em passeiar no quarto. Depois disse, ainda com severidade, mas em tom menos elevado:

—Parece-me que concordará commigo em que me assiste o direito de pugnar pelo decôro da minha casa?

Carlos não respondeu.

—É um dever imperioso de todo o chefe de familia. A excessiva benevolencia é também immoralidade—disse ainda o pae.

O mesmo silencio da parte de Carlos.

—Espero que não tenha deixado adormecer em si tão profundamente os sentimentos de honra, que não comprehenda já este dever da minha parte.

Nenhuma resposta ainda.

Mr. Richard, que conhecia o filho, percebeu que em vão esperaria d'elle defeza ou desculpa.

Saiu portanto do quarto.

Quando fechou atraz de si a porta, Carlos atirou ao chão, com movimento de raiva, que havia muito a custo reprimia, uma preciosa jarra da China, que se fez pedaços; em seguida pôz-se a percorrer o quarto a passos largos, e ai do objecto que encontrava na passagem!

A campainha soou emfim, chamando para o jantar.

Carlos tentou dar á physionomia um aspecto de serenidade, no que foi mal succedido. Lá estava o olhar de Jenny a espial-o, e não era ella a que se illudiria com estes fingimentos pueris.

Imagine-se como correu o jantar, principiado sob taes auspicios.

O tinir dos talheres e dos crystaes era o unico ruido que interrompia o solemne silencio da sala. Até os criados andavam em bicos de pés, dominados por aquella como atmosphera pesada, que se respirava alli dentro.

Jenny ainda tentava sorrir ás vezes, mas, coitada, gelava-se-lhe o sorriso nos labios, á vista das frontes ligeiramente contrahidas do pae e do irmão. E sem poder descobrir o motivo d'aquella animadversão entre elles! Como tão de repente se condensára esta tempestade, que ella nem tempo tivera para tentar desvanecer?

O jantar terminou como começára, silencioso e triste. Carlos foi o primeiro a levantar-se da mesa. Mr. Richard não teria d'esta vez companhia para o seu tão apreciado pospasto.

O inglez começava a sentir mentalmente os effeitos de uma mudança de pensar. Estava-lhe já parecendo que havia sido muito severo para com o delicto do filho.

Podia muito bem ser que tivesse peccado por inexacta a interpretação que dera ao facto, e ainda quando não fosse, era a final uma leviandade de rapaz, que talvez não merecesse tão asperas censuras.

O tolerante inglez só esperava por o primeiro ensejo para naturalmente, airosamente, realisar a reconciliação com o filho. Onde ia já o seu resentimento?

Ficou pois devéras mortificado, assim que viu Carlos levantar-se para saír, levando comsigo as esperanças do almejado ensejo.

Olhou para Jenny, a ver se d'ella partiria alguma tentativa para reter o irmão.

Jenny, absorvida a estudar a physionomia de Carlos, não deu pelo gesto do pae.

Já Carlos ia no meio da sala, quando Mr. Richard disse, em voz alta, as primeiras palavras que, desde que se sentára dissera:

—Chegou hontem á noite… Mr. Smithfield, de Londres…

Carlos parou, ficando por alguns instantes a olhar para o pae, como se esperasse ouvir d'elle mais alguma cousa; depois continuou a caminhar para a porta.

—Chegou Mr. Smithfield e a filha, Alice Smithfield—disse ainda Mr.
Richard.

Carlos tornou a parar, e vendo que o pae não acrescentava mais nada, deu ainda alguns passos.

—É um homem, a quem a nossa casa deve muitos favores, tanto commerciaes como… pessoaes—disse Mr. Richard.

Estas palavras suspenderam outra vez Carlos, que ia já proximo da porta.

E como Mr. Richard se calasse, o filho estendeu a mão para o reposteiro.

—Estivemos lá, esta manhã, eu e Jenny.

Carlos não disse nada; esperou ainda.

Mr. Richard acrescentou:

—E ficamos de voltar esta noite… Elles partem ámanhã para o Minho e… Perguntaram por… por ti.

Mr. Richard realisára um grande esforço: pozera de parte o tom ceremoniatico com que até ahi tratára o filho.

Carlos, que já desviava o reposteiro, vendo que o pae não proseguia, curvou-se respeitosamente e saíu, como se não tivesse comprehendido o sentido d'aquellas insinuações.

Mr. Richard viu-o saír, e de novo se lhe carregaram as feições, que haviam já desanuviado de todo; ao mesmo tempo estalava-lhe entre os dedos uma avelã, com que estivera brincando, tal foi a força, de que a contrariedade lhe animou n'aquelle momento os musculos.

Jenny vira tudo isto, afflicta e irresoluta. Para sanar o mal, era necessario conhecer-lhe a causa, e ella ainda a não sabia. Levantou-se e foi encostar-se ao hombro do pae.

—Que tem?—disse-lhe com voz affectuosa.

—Faço quanto posso para viver em paz, mas já vejo que não é possivel.

—Então por quê?

—Pois não viste?

E levantou-se, dando alguns passos agitados na sala.

—Carlos tem vinte annos—acrescentou, passeiando ainda.—Aos vinte annos, ha já deveres para todo o homem… E se elle se esquece de que os tem e de que os deve e ha de cumprir… eu que sou pae…

À entrada de um criado interrompeu-o.

Mr. Richard sentou-se, pôz-se a ler o Times e recaiu no silencio, de que nada mais o tirou. Seria o Times que o absorvia assim? O que é certo é que em toda a tarde não desviou os olhos da primeira columna do jornal.

Muito enigmatica devia vir esta primeira columna, que tanto custava a ler!

Jenny dirigiu-se ao quarto do irmão.