XXVI
INEFFICAZ MEDIAÇÃO DE JENNY
Jenny foi encontrar o irmão apparentemente entretido a torcer as longas orelhas do terra nova; mas não era necessario ser muito versado em physiognomia, para perceber que lhe não estavam n'aquillo as attenções.
—Que foi isto, Charles?—disse Jenny, com a voz ainda turvada de commoção—Por amor de Deus, isto que é?
Carlos levantou a cabeça, e respondeu, fingindo sorrir:
—Não te assustes, Jenny. Eu e o pae representamos hoje uma peça do antigo repertorio, do repertorio da infancia. Elle lembrou-se de me ralhar, como a uma creança; eu fiz como as creanças costumam, amuei. Ora, aos dez e doze annos, scenas d'estas tinham para mim uma feição de tragedia; aos vinte, predomina n'ellas o caracter de perfeita comedia…
—Mas… o que se passou entre vós, que désse logar a isto?
—Nada ou quasi nada. Interpretaram mal uma acção minha. Eu podia, mas não devia, explical-a; afiancei porém, sob minha palavra de honra, que não era exacta a interpretação que lhe davam; e meu pae, que acabava de se apregoar respeitador e mantenedor da boa fama do nome Whitestone, foi o primeiro a manchal-o, duvidando de uma palavra de honra firmada com elle.
—Jesus, Charles!… Que has de sempre ter d'essas susceptibilidades com uma pessoa de quem não deves suspeitar que possa nunca fazer do teu caracter conceito algum desfavoravel!
—Mas se m'o assegurou!
—Pobre pae! E imaginas que era friamente que elle te reprehendia? Eu não sei ainda o motivo que deu origem a essa scena, que disseste, mas…
—Um motivo insignificante. Esta manhã precisei de dinheiro; era urgente a necessidade e a somma avultada. Não gósto de recorrer a outra pessoa, quando posso recorrer a mim. Demais, estava só em casa. Commigo só tinha um objecto, que promptamente me podia valer a quantia de que precisava. Era o relogio e a corrente, que recebi do pae quando…
—E foste?… Ó Charles!—disse Jenny, olhando com desapprovação para o irmão.
—Tirei da corrente este pequeno sinete de agatha, a parte menos valiosa do presente, para conservar uma memoria d'elle. Sabes que não é pelo preço dos objectos, que me offerecem, que eu os aprecio. Vendi o mais; confesso que vendi. Passadas horas o acaso fez-me o favor de conduzir meu pae pela mão justamente até á loja do ourives, onde relogio e corrente estavam já expostos á venda. Reconheceu-os, comprou-os de novo, e trouxe-m'os, dizendo-me por essa occasião algumas palavras que… que só a elle poderia, e deveria, ter a paciencia de ouvir.
—Mas… que má cabeça a tua! Para que foste vender aquelle relogio, que elle, coitado, com tanto gosto mandára vir para ti?
—Porque se tratava de alguma cousa mais importante e mais grave do que os arrufos de um pae, por mais respeitaveis que elles possam ser.
Jenny fez involuntariamente um gesto de duvida.
—Acredita-me, Jenny. Não duvides tu, como elle duvidou. Affirmo-te, tomando os mais sagrados testimunhos, que, se ainda se désse o motivo que se deu, não hesitaria, apesar do que houve, em vender outra vez este mesmo relogio e esta mesma corrente.
—Então que forte motivo foi esse?
—Não posso dizer-t'o.
—Já me não contas, como d'antes, os teus segredos, Charles?
—Este não é meu.
Jenny calou-se.
Carlos olhou por algum tempo para a irmã; depois veio pegar-lhe nas mãos, dizendo:
—Olha bem para mim, Jenny. Tu estás a duvidar tambem da minha palavra.
—Não… Charles… não duvido.
—Dize: pódes acreditar que teu irmão, com todos os seus estouvamentos, commetta uma vileza?
—Ó Charles! Que pergunta!
—Pódes acreditar que elle se esqueça por um momento do muito respeito e amor que te deve, Jenny? e da veneração que sempre teve pela memoria da mãe, que mal chegou a conhecer?
—Não, Charles, não. Para que me perguntas isso? Ninguem, melhor do que eu, te conhece o coração e te avalia os sentimentos; bem o sabes. Ninguem te faz mais justiça—respondeu Jenny, sensibilisada com a manifesta commoção, que se conhecia na voz de Carlos, quando lhe fallára assim.
—Pois de tudo isto me accusaram ha pouco… E foi meu pae!
—E julgas que o pensava, ainda quando t'o dizìa… se o disse?
—Se o não pensasse, calar-se-hia ao ver o mal que me causavam aquellas accusações e a maneira por que eu as repelli… mas insistiu.
—Perdôa-lhe tu tambem isso. Vamos; comquanto eu não faca a injustiça de te suppôr capaz de acções, tão carregadamente más, como essas que dizias, acredito tambem que não seja de tudo um justo este incorrigivel irmão que tenho, e creio que precisará um pouco da indulgencia, que recusa ter para com os outros. Tudo isso passou já. Olha, meu Charles, tu deves fazer como os lagos e como os prados, que não conservam vestigios das nuvens que os assombraram, ao passarem por diante do sol. Se visses como o pae ficou, assim que te retiraste da mesa! Coitado! Se foi injusto comtigo, está pagando bem cara a injustiça! Acredita que a sente mais do que tu. Eu estava a reconhecer n'elle o desejo de te pedir desculpa por alguma cousa, de que se arrependia já. Mas, que queres? estas passagens não se podem fazer assim depressa, ainda que haja a melhor vontade. E tu não lhe déste tempo. Serias um anjo, Charles, se fosses bom e generoso a ponto de…—E olha que era uma vingança tambem.—Se fosses bom e generoso a ponto de voltares para a sala e vires fazer companhia ao pae esta tarde…
—Tu, que me conheces, Jenny, como pódes lembrar-te d'essa proposta? Não sabes como eu sou? Percebeste alguma vez em mim a aptidão para dissimular, de que precisaria, se quizesse fazer o que me indicas? Os meus resentimentos são curtos, é verdade; mas, emquanto duram, não sei disfarçal-os. Ámanhã já nada terei na memoria talvez de tudo isto; mas hoje, mas agora, aggravaria o mal, se me apresentasse tão cêdo diante do pae.
Jenny não insistiu, porque reconheceu a verdade d'esta reflexão do irmão. D'ahi a pouco, disse-lhe:
—Dou duas horas de vida ao teu resentimento, e já é suppôl-o muito vividouro. Ao anoitecer, nem sombras haverá d'elle. Acompanhar-nos-has então a casa de Mr. Smithfield, o que será o maior prazer que pódes causar ao pae; e o dia de ámanhã virá sem nuvens.
—Não, Jenny, não vos posso acompanhar esta noite.
—Não digas que não, Charles. Então és assim reservado?
—Não; mas… tenho destino para esta noite já.
—E de tanta urgencia, que não possas…
—Não posso faltar, não.
—Ó Charles, não ouviste o que o pae disse?—«Mr. Smithfield é um homem que tem feito serviços á casa…»
—Hoje não posso; amanhã visitarei esse senhor.
—Ámanhã partem elles para o Minho.
—Tanto peior. Vêl-o-hei na volta.
—Vaes desafiar uma tempestade, recusando-te a tão pequeno sacrificio.
—Que querem? Digam a esse homem, que eu tenho mau caracter, que sou desagradecido, intratavel, grosseiro, egoista; e que por isso não deve estranhar a minha pouca pressa em ir dar-lhe os emboras pela sua feliz viagem.
Carlos disse tudo isto com impaciencia, que sobresaltou a irmã.
Foi com ligeiro tremor de voz, que ella lhe respondeu:
—Tu bem sabes que não é isso que eu posso dizer de ti, Charles, nem deixar que os outros, na minha presença, digam.
Carlos abrandou inimediatamente, ao ouvir estas palavras.
—Pobre Jenny! És a unica pessoa que me conhece devéras.
—E tu a que te conheces menos—respondeu a irmã, com doçura, e depois acrescentou:—Vens?
—Não posso.
-Charles!
—Mas se eu prometti!… Olha, Jenny, se és minha amiga, não insistas mais a este respeito; que não seja o dia de hoje tão aziago para mim, que esteja destinado a receber durante elle desgostos das pessoas a quem mais estimo.
As lagrimas assomaram d'esta vez aos olhos de Jenny.
—Era para t'os evitar, que eu insistia, Charles… Perdôa-me se…
E a commoção não a deixou continuar.
Carlos apoderou-se-lhe das mãos, que cobriu de beijos.
—Minha boa Jenny! minha generosa irmã! perdôa-me tu, perdôa a este estouvado, que nem sabe o que diz. De joelhos te devia implorar, filha, eu, que te pago em lagrimas os sorrisos que me dás. Tu a pedir-me perdão! Eu a perdoar-te, Jenny! O quê?… O conforto que me tens dado sempre?… Esta serenidade, que me fazes durar na vida, anjo? As caricias e cuidados de mãe que me ensinaste a conhecer? pobre mãe, só dois annos mais velha do que este mau filho, que não sabe senão affligil-a! É isto que tenho a perdoar-te? Dize. Não repares para as loucuras d'esta minha cabeça. E agora escuta-me. Eu desejava fazer-te a vontade, mas… hontem… o… Manoel Quentino mostrou-me desejos de celebrar na minha companhia o ultimo dia de reclusão, a que a doença o tem obrigado. Ámanhã já elle sáe. É uma pequena e suave festa de familia, e na qual sómente servem de galas os affectos e as flores. Esta manhã não pude ir visital-o, como elle me pediu… Era agora, á noite, que eu tencionava ir… Queres que eu deixe de satisfazer o desejo do pobre homem?
Jenny, depois de fitar por algum tempo o irmão, suspirou, baixando os olhos.
—Responde, Jenny—repetiu Carlos—e se julgares que, no meu logar, poderias fazel-o, sem que um pequeno remorso t'o estorvasse, eu obedeço-te e… não irei.
Jenny permanecia calada.
—Então?—repetiu Carlos.
—Que queres que te responda, Charles? Seria sem hesitação que eu te diria «vae», se estivesse convencida de que é esse sentimento de generosidade o que te chama lá.
—Então duvidas do que eu disse?
—Não. Mas duvido, e ha muito, do conhecimento que tens de ti proprio. Ensinaste-me a ler em ti, Charles, n'aquelles tempos, em que me communicavas todos os teus pensamentos; habituei-me então, e leio ainda agora, que evitas essas longas conferencias de outras épocas…
—Que evito! Pois imaginas?…
—Não imagino, sei. Cuidas tu, Charles, que tenho perdido de vista o irmão, que tão longe d'ella tem procurado andar? Ai, não tenho, não.
—E que tens visto a essa distancia?—perguntou Carlos, gracejando.
—O bastante para me affligir; o bastante para pedir a Deus que me inspire um dia, em que talvez seja mais carregada do que nunca a nuvem que venha ameaçar-nos.
—Visionaria!
—Oh! se o fosse!
—Não me dirás tu, Jenny, como te deu para seres tão apprehensiva d'esta vez! Logo d'esta, em que não é um capricho o que se apoderou do coração de teu irmão!
—Não é?
—Não, digo-t'o afoutamente, não é. É um sentimento novo para mim aquelle, a que ando sujeito… Ahi volto eu ás velhas confidencias de outros tempos; não reparas?
—D'esta vez, Charles, ha duas pessoas, que ambas me são caras, empenhadas n'isto; eis uma causa da minha inquietação. D'esta vez, se de um dos lados sómente houver sinceridade…—e será do teu lado, a havel-a sómente de um?—recaírá sobre o outro todo o peso de irremediavel infortunio; outra causa que me faz estremecer. E quando sejam sinceros ambos, não haverá tantas luctas a travar? tantos obstaculos a vencer? É de tudo isto que vem as minhas apprehensões.
—Socega, Jenny; eu tenho mais confiança no futuro do que tu.
N'este ponto, entrou um criado com recado de Mr. Richard a Jenny, de que eram horas de preparar-se para a visita a Mr. Smithfield.
—Então, Charles… Vens?—disse ella ainda uma vez para o irmão.
—Por quem és, Jenny, não insistas mais. Basta que te diga que não sei de motivo tão forte que me podesse obrigar hoje a faltar á minha promessa. O mais que fazes é perturbar-me o socego de espirito para toda a noite, com o remorso de não ter condescendido comtigo.
Jenny curvou a cabeça e saíu do quarto.
Carlos correu a retel-a á porta, para dizer-lhe ainda uma vez:
—Perdôa-me, Jenny.
Ella só pôde responder-lhe, commovida:
—Vae.
Passados minutos, vieram da parte de Mr. Richard perguntar a Carlos, se elle o acompanharia á visita ao compatriota Smithfield. Carlos respondeu que lhe era impossivel fazel-o aquella noite.
Recebendo esta resposta do filho, Mr. Richard pôz-se a esfolhar com impaciencia uma rosa que tinha na mão.
XXVII
O MOTIVO MAIS FORTE
Meia hora depois, ouviu Carlos o rodar da carruagem, que levava Mr.
Richard e Jenny á hospedaria, em que estava alojado Mr. Smithfield.
Julgára que respirarìa satisfeito, quando tivesse emfim conseguido ficar toda aquella noite á sua propria disposição; mas cêdo reconheceu que o esperára em vão.
Ha situações na vida era que, para qualquer lado que a resolução nos encaminhe, gera-se-nos sempre no animo um remorso, mais ou menos intenso, por haver abandonado os outros.
Em uma d'estas dilemmaticas contingencias se tinha achado o espírito de
Carlos.
Na vespera havia de facto promettido, não a Manoel Quentino, como á irmã dissera, mas a Cecilia, o que maior força dava ainda á promessa, que não faltaria á festa, disfarçadamente planeada por ella, para celebrar o restabelecimento do velho.
Era uma especie de innocente conspiração entre os dois; e é provavel que o leitor ou leitora não ignorem o ardor com que, de ordinario, o coração se vota a este genero de emprezas, com este genero de allianças.
Carlos não tinha coragem de faltar, nem que fosse para suspender aquellas lagrimas que vira imminentes nos olhos da irmã. Resistiu pois, como vímos.
Mas a resistencia deixou de si vestigios dolorosos; aquelle pezar, causado a Jenny, sentia-o ainda o coração de Carlos; ficára-lhe a dor intima, que até os alvoroços de prazer, excitados pela lembrança da proxima entrevista com Cecilia, pareciam exacerbar.
Porque ha d'estas contradicções nos sentimentos humanos; é por a mesma razão que, ás vezes, a negrura dos presagios mais se condensa entre os maiores fulgores da felicidade, e que se aviventa a luz de vagas esperanças nas mais tenebrosas situações da vida.
As horas porém adiantavam-se, e Carlos preparou-se para o serão festivo, que o esperava.
N'esta noite empregou na tarefa de se vestir um esmero, para que raras vezes lhe sobrava paciencia.
Parecia estar-se apromptando para um baile.
—Que importuna occasião escolheu este Mr. Smithfield para a sua visita!—pensava Carlos, emquanto ajustava ao espelho o laço da gravata de seda—Por causa d'elle é que Jenny me deixou assim pezaroso… Mas d'onde virá a exagerada apprehensão, que ella mostra d'esta vez?—E vestia o collete branco.—Não a devia tranquillisar o conhecimento que tem de Cecilia? Não devia até desejar que o meu coração se fixasse aqui, que não fosse mais longe? Só se receia de mim… Verdade é que o meu passado… Oh! mas d'esta vez…
No meio de uma turba de agradaveis pensamentos desvaneceu-se a impressão penosa, que lhe deixára a despedida da irmã.
Afagando-os a todos, terminou Carlos a sua acurada toilette e dispôz-se a partir, acompanhado por um cortejo de esperanças, tão vivas e palpitantes, que nem lhe deixavam sentir já o ligeiro remorso que, de mistura com ellas, lhe havia entrado o coração.
Ia já a transpôr o limiar da porta, quando um subito rumor de vozes, de passos apressados e gritos agudos, como arrancados por a mais dolorosa tortura, o fizeram parar.
Informou-se, cheio de inquietação, do motivo d'aquelle ruido.
—É a snr.ª Catharina, que está com um dos seus ataques—respondeu o criado, a quem elle se dirigiu.
Eram tão frequentes estes accessos na velha Kate, que, desde que Carlos soube ser essa a causa do rumor que ouvira, não lhe deu mais importancia e caminhou outra vez para a porta.
Redobrou porém a violencia dos gritos, e tanta e tão crescente angustia exprimiam, que o génio de Carlos não lhe permittiu mais tempo ouvil-os impassivel; obedecendo a generoso impulso, subiu apressado as escadas e entrou n'aquelle mesmo quarto, onde já acompanhamos Jenny.
Illuminava o aposento apenas a froixa claridade de uma lamparina, quando
Carlos entrou alli.
Em volta do leito da velha ingleza agrupavam-se todas as criadas da casa.
A pobre louca estrebuxava tão violentamente com os braços, que ellas mal conseguiam segural-os.
Gesticulando com movimentos desordenados, soltando, entre gritos agudos, palavras sem nexo, reunindo syllabas sem significação, descomposta e com os cabellos em desordem, aquella desgraçada inspirava ao mesmo tempo compaixão e terror.
Carlos aproximou-se do leito.
A velha Kate, vendo chegar uma nova figura junto de si, fitou n'elle um olhar de expressão quasi selvagem e, depois de algum tempo, pôz-se a rir e a bater as palmas, com os modos infantis proprios d'aquelles estados de embecilidade.
—Olhem!… É elle!… é elle!… —dizia ao mesmo tempo, reparando cada vez mais em Carlos—Como veio para aqui?… Inda bem que vieste!… Agora sim!… Quero ver agora quem me fará mal?… Vem cá, Dick, vem cá!… Agora sim!…
E acenava-lhe para que se aproximasse do leito.
Carlos condescendeu.
—Vejam! vejam!—dizia a velha, passando as mãos pelos cabellos de Carlos—É outra vez o Dick, que eu conheci… Este sim!… Já não tem nenhuns cabellos brancos… Este sim… Eu bem dizia que havia de voltar. O outro não era verdadeiro… Agora já não receio esses malditos, que me teem aqui presa ha tanto tempo!… Que venham!… Tu não me has de deixar só com elles outra vez, Dick, não? Olha que me matam!
—Socega, Kate, socega—disse Carlos carinhosamente—Ninguem te quer fazer mal.
—É porque tu não sabes ainda o que elles me teem feito!… Olha; repara… Não vês o cadeiado que me pozeram aos pés?… Nem os posso mover… nem os sinto!… E agora… metteram-me aqui no peito um ferro… aqui… cá o sinto dentro…. Arde, como se estivesse em braza… E este laço?… não vês este laço, que me deitaram ao pescoço?… não vês como está apertado?… suffoca-me!… Ai!… ai!…
E respirando a custo, apertava com ancia, o braço de Carlos, que a segurava.
—Então, Kate, vê se descansas;—dizia elle—eu vou já mandar tirar-te tudo isso, que te afflige assim…
—Então… manda… manda! Por compaixão, Dick, manda; não deixes martyrisar assim a velha Kate!… Por amor de teus filhos, Dick! Eu não tenho forças para soffrer tanto! Estou muito velha, Dick, muito velha!… tem compaixão de mim!…
E rompia em soluços tão expressivos de dor, que até as criadas não foram superiores á commoção.
Depois encostou a cabeça ao hombro de Carlos, dizendo-lhe ao ouvido, com expressão de susto e de mysterio:
—Foram ellas que me fizeram todo este mal, não foram?
—Não; socega…
—Foram! foram, sim!—bradou, elevando a cabeça com violencia e inflammando-se-lhe outra vez o olhar, que parecia despedir faiscas, como sempre que era contrariada.
—Pois foram, foram; mas…
—Então não fiquemos aqui. Vamos outra vez para a Inglaterra, Dick. Para que me trouxeste tu para esta casa? Para quê?
—Descansa, que havemos de ir; mas é preciso que estejas socegada.
—Estou… não vês que estou?… mas… não me deixes só, não?—acrescentava, com entonação de supplica, quasi infantil.
—Então não vês aqui tanta gente?
—Não a quero. Manda-a embora; a todos… manda-os a todos embora!… Eu quero estar só comtigo…
—Mas…
—Manda-os embora, por amor de Deus, manda-os embora!
Carlos não teve coração para resistir a este pedido da louca.
Á sua ordem saíram as criadas do quarto, deixando Carlos só com ella.
—Fecha, fecha essa porta, para que não entrem outra vez, fecha.
Carlos fechou a porta.
—E agora vem cá; senta-te aqui, ao pé de mim; eu não posso dormir, se tu aqui não estás… E eu queria dormir… Tenho somno.
E tomou entre as suas as mãos de Carlos.
Carlos sentiu que as d'ella começavam a arrefecer, d'essa frialdade de gêlo, que excita em nós uma repulsão instinctiva. Pela primeira vez lhe acudiu a ideia de que podia ser aquella a ultima noite da pobre mulher.
Este pensamento fel-o olhar para ella com mais attenção.
A escassa luz da lamparina ainda lhe permittiu conhecer a profunda alteração de feições, que a pobre demente apresentava.
Deram nove e dez horas, e Carlos não saíra de junto da velha criada, que, segura ás mãos d'elle, estremecia ao menor movimento que sentisse, como receiando ser abandonada outra vez. Era tal o terror que mostrava de ficar só, que tirou o animo a Carlos de tentar sequer deixal-a.
Assim as horas, que elle contava passar na companhia de Cecilia, iam-lhe correndo junto d'esta desgraçada octogenaria, que com discursos incoherentes, de mistura com risos e com prantos igualmente expressivos de desvario, o conservou alli.
Pouco a pouco, principiou a tornar-se-lhe mais tardia e inintelligivel a pronuncia, mais sumida a voz, mais ennevoado o olhar.
—Pozeram-me estes ferros…—murmurava ella, interrompendo-lhe a ancia, a cada instante, as palavras sem nexo que dizia—pensam que eu não sou… Kate?… sou Kate, sou!… Foi á viuva do fogueiro… que eu dei… o vestido verde… O fogueiro morreu… morreu no mar… É porque não são bons christãos… Não foi o gallo que cantou, foi a coruja… Dizia que eram esmeraldas e… assim é que a irmã se perdeu… O cedro chorava… era o pae d'ella…
Carlos, pousando-lhe a mão no pulso, mal o pôde já perceber… Tentou sair, para chamar alguem que ministrasse os soccorros precisos, mas a contracção, com que a velha o segurou, o estremecimento que lhe correu pelo corpo, ao sentir a tentativa de Carlos, obrigaram-o a desistir.
—E para quê?—pensava elle—ninguem já agora arrebatará esta presa á morte. Pelo menos que seja tranquillo o passamento. Deixal-a morrer em paz.
E ficou, ficou elle só, unico espectador d'aquella scena lugubre, d'aquelle espectaculo pouco talhado para a sua juventude, para a sua indole e para os vestidos de gala, com que, para bem outros fins, esmeradamente se preparára.
Era notavel o contraste. A velha caiu em silencio profundo, apenas cortado de surdos gemidos.
Dava meia noite, quando uma respiração mais ampla, após um profundo repouso, fechou o circulo d'aquella longa existencia.
Carlos conheceu que tinha diante de si um cadaver.
Depois de por algum tempo a encarar melancolicamente, desceu-lhe, com piedoso respeito, as palpebras sobre os olhos amortecidos.
Foi n'este piedoso mister que o vieram encontrar Jenny e Mr. Richard.
Voltando da visita a Mr. Smithfield e sua filha, souberam no portal que
Carlos não havia saído, em consequencia do violento accesso que
acommettera Kate.
Ahi mesmo se desvaneceu toda a irritação de animo em Mr. Richard.
—Então não saíu?
—Não, senhor,—disse o criado—havia-se vestido para saír, mas até agora tem estado só no quarto da snr.ª Catharina.
O velho inglez, que tinha ainda pela que fora sua ama uma verdadeira affeição, sentiu-se commovido ao ouvir isto.
Elle e Jenny correram então ao aposento de Kate.
—Expirou agora—disse Carlos, ao vel-os entrar.
O pae e a filha acercaram-se apiedados do leito.
Jenny não recusou lagrimas de saudade áquella velha mulher, que ella, tão longe, quanto lhe ia pelo passado a memoria, se recordava de ver sempre junto de si.
Mr. Richard curvou tambem a cabeça, perante aquelle tão solemne espectaculo.
Carlos ficava-lhe defronte e ao lado a irmã.
Jenny, enxugando os olhos, voltou-se para elle.
E, como se obedecesse a irresistivel impulso do coração, apertou-o nos braços, dizendo:
—É n'isto que te reconheço, Charles. Quem poderá duvidar ainda da generosidade da tua alma?
Carlos correspondeu ao abraço da irmã, beijando-a affectuosamente na fronte.
E ao descingir-se-lhe dos braços, encontrou a mão de Mr. Richard, que se estendia francamente para a sua.
—O seu proceder foi o de um homem de bem e… de coração, Charles.
Honra-o—disse, com voz tremula, o inglez.
Carlos apoderou-se d'aquella mão, que se lhe estendia, e curvou-se para beijal-a.
Perante aquelle leito mortuario desvanecera-se de todo a tempestade domestica.
Foi assim que Carlos faltou á promessa que tinha feito a Cecilia, falta que horas antes pensava e dizia não haver motivo tão forte que o levasse a commetter.
Resistiu de facto aos resentimentos do pae, resistiu,—e mais custoso lhe foi—ás lagrimas da irmã; mas não teve animo para resistir á compaixão por uma pobre mulher, velha, demente e moribunda.
Ficou, para lhe fechar os olhos.
Era assim o caracter de Carlos.
XXVIII
FORMA-SE A TEMPESTADE EM OUTRO PONTO
A snr.ª Antonia não perdera o seu precioso tempo, nem desaproveitára a sciencia adquirida por meio das observações da manhã.
Ao voltar a casa, encontrára na rua o snr. José Fortunato, e a elle, como fiel alliada, communicára logo alli o peculio de descobertas, com que enriquecera o thesouro dos seus já numerosos conhecimentos.
José Fortunato horrorisou-se com a serie de estupendas noticias, que ouviu de tão auctorisada bôca.
—Não ha que fiar nos homens de hoje!—foi a sentença que elle lavrou, depois de ponderar os famosos artigos d'aquelle libello diffamatorio.
—A mim não me enganou o melro—fez-lhe notar a snr.ª Antonia.
—Pois olhe que a mim…
—Agora o que é preciso é abrir os olhos fechados, que ha lá por casa.
—Abrir?!… Melhor seria fechar alguns, que já se abriram de mais para elle… Não sei se me entende?
—Entendo, entendo. Não ha de ter duvida. Socegue.
E a snrª Antonia, serenando assim as apprehensões do seu protegido, entrou para casa. José Fortunato ia pensando:
—Se eu avisasse o pae, mas de maneira que não soubesse que era eu…
Cecilia andava contente aquella manhã.
O seu bom coração deixára-se repassar todo de alegrias, d'essas alegrias travêssas, agitadoras, de quem não quer reflectir no que as faz nascer; alegrias que, vindo á luz, gosam da luz como as creanças, as quaes a festejam com risos e cantares, ainda sem saudades do passado, nem incertos temores do futuro, a amargurarem-lhes tão ingenuo prazer.
Pobre rapariga! Mal sabia ella, que bem de perto a seguia a nuvem, que havia de assombrar-lhe o fulgor d'aquelle contentamento!
Antonia machinava em silencio contra ella. Á similhança da aranha, em traiçoeira emboscada, aguardava paciente que aquella buliçosa borboleta, que voava em volta de si, viesse prender as azas na sua enredada teia.
Cecilia demorava-se porém pouco tempo junto d'ella, e pouco tempo em toda a parte. Lembrava uma avezita prisioneira, quando, ao amanhecer de um dia de sol desanuviado, após longos de nuvens e de chuva, bate as azas, salta de poleiro em poleiro, esvoaça de encontro ás grades da gaiola, e ensaia de novo o canto, havia muito interrompido.
Occupada com os preparativos do que ella chamava a festa do pae, Cecilia não parava um momento. Descia ao quintal, para colher flores; escondia-se no quarto, para formar ramos, e com elles enfeitar as jarras; passava á sala de Manoel Quentino, para que a ausencia não fosse estranhada, e com o fim de dizer ao pae algumas palavras de affecto; depois voltava ao quintal e sempre com a ligeireza e agilidade, proprias d'aquelle corpo flexivel e elegante e d'aquella nervosa compleição.
De quando em quando, chegava tambem á janella, esperançada em que um feliz acaso lhe satisfizesse não sei bem que secretas aspirações, as quaes talvez a leitora adivinhe.
Foi em uma d'estas occasiões, que Antonia, encontrando-se com ella no corredor, lhe disse á queima-roupa:
—Já esta manhã vi o snr. Carlos.
Cecilia perturbou-se; mas inquiriu, affectando indifferença:
—Aonde?
—Ia a saír de casa. Entrou com uma senhora nova para uma carruagem…
—Havia de ser Jenny, a irmã…
—Ai, não; não era, não, senhora. Essa tinha saído com o pae, logo pela manhã, que m'o disse a snr.ª Joséfinha. Esta tal, que eu digo, chegou de fóra. Pelos modos… é das taes comediantes do theatro… que elle conhece.
—Comediantes?!—disse Cecilia, não procurando já disfarçar a inquietação.
Após este preludio, a snr.ª Antonia entrou de alma e coração na materia, que esgotou completamente. Disse quanto ouviu, quanto viu e, mais ainda, quanto pensou e concluiu de tudo o que ouvira e vira, graças áquelle vigor de deducção logica, que era dos mais caracteristicos dotes d'esta senhora.
Cecilia, comquanto lhe parecessem exageradas as opiniões da criada, sentia que se lhe ia enlutando o coração ao ouvil-a; e que toda aquella disposição para rir e cantar, com que lhe principiára o dia, se lhe estava transformando em irresistivel desejo de chorar.
No estio dos nossos climas amanhece ás vezes o dia puro e formosissimo; o céo é azul; resplendentes os raios do sol; tepida e perfumada a viração, que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco, parece que o sol desmaia; que desbota o azul do céo; que nos abafa a atmosphera inflammada; accumulam-se no horizonte, e espalham-se depois por todo o firmamento, nuvens de um azulado de chumbo;—fórma-se a trovoada.
Esta manhã de Cecilia foi bem similhante a um d'estes dias de verão.
Quando Antonia acabou de expôr as conceituosas reflexões a respeito do caracter e vida de Carlos, e de provar á saciedade ser elle possuidor das peiores qualidades d'este mundo, Cecilia separou-se subitamente d'ella e correu a fechar-se no quarto.
Foi com as faces pallidas e com os olhos vermelhos que ella appareceu diante do pae ao jantar. Contrastava tanto com estes vestigios de tristeza o sorriso, a que pretendia obrigar os labios, que o effeito era mais triste ainda.
Todo se alvoroçou o coração de Manoel Quentino, ao vel-a; tão contente pela manhã, e agora assim! Olhava para a filha, mas não se atrevia a interrogal-a.
Cecilia bem fez por se mostrar jovial; fallou sempre durante o jantar, mas havia tanto de facticio n'aquella vivacidade, que ninguem se podia illudir, quanto mais o pae!
Reinou, durante todo o dia, entre Manoel Quentino e a filha aquella especie de mutua desconfiança, que se dá sempre com duas pessoas, quando ha entre ellas um segredo, guardado por uma e suspeitado por outra, e no qual ambas evitam fallar.
Aproximou-se a noite.
José Fortunato foi pontual.
Cecília estava cada vez mais agitada; o coração era-lhe disputado por esperanças, misturadas de receios, de ver chegar Carlos á hora promettida, e por o presentimento, que lhe segredava que elle não viria aquella noite.
A impaciencia, que d'aqui lhe nascia no espirito, revelava-se nas mais pequenas cousas. Quanto mais se fechava a noite, tanto mais era para notar em Cecilia aquella especie de excitação nervosa, em que as occorrencias do dia a haviam lançado.
Chegou a ser cruel para com José Fortunato.
Ás vezes, até as respostas, que dava ao pae, saíam-lhe com certo azedume, de que immediatamente se arrependia, empregando depois tanto ardor nas desculpas, que ainda mais afligiam e inquietavam o velho.
Segundo o costume, era ainda á doença, e só á doença, que elle attribuia aquillo tudo, e por vezes, chamando a filha a si, insistiu, depois de a beijar, em lhe tomar o pulso.
Manoel Quentino, que não entendia cousa alguma de organisações nervosas, julgava ver na frequencia das pulsações em Cecilia um symptoma evidente de febre e, por sua vontade, já teria rodeiado a filha de todo esse apparato medico, com que, sob pretexto de combater uma doença, tantas vezes se aggravam incommodos ligeiros.
Deram sete, oito, nove horas, e Carlos não apparecia.
A snr.ª Antonia andava com ares triumphantes. José Fortunato trocava olhares de intelligencia com ella.
—Estou muito admirado da demora de Carlos!—dizia Manoel
Quentino.—Está decidido que não vem.
—Será melhor trazer o chá—lembrou Antonia.
—Será melhor esperar que lh'o mandem trazer—acudiu Cecilia com frieza.
Manoel Quentino, ao ouvir o tom d'esta resposta, fixou tristemente os olhos na filha. Estranhava-a.
—O snr. Carlos teve pelos modos hoje outras distracções—observou José
Fortunato.
—E eu que o diga—acrescentou Antonia.
—Que diabo estão vocês a rosnar?—perguntou Manoel Quentino.
—É que…—ia Antonia a explicar-se, quando Cecilia a interrompeu.
—Ande, Antonia, ande; traga então o chá, ande; avie-se.
E disse isto com a impaciencia de quem não admittia demoras.
Antonia obedeceu. Cecilia deixou tambem por um pouco a sala.
O snr. José Fortunato aproveitou o ensejo para fazer o seu amigo sciente do que havia, em relação a Carlos.
Muito contra o que esperava, em vez de o ver indignado e horrorisado quasi, achou-o com umas disposições para levar o caso a rir, que o maravilharam.
—Aquella cabeça não toma rumo!—dizia Manoel Quentino—Nem eu sei como por tanto tempo aturou o serviço do escriptorio! E olhe que foi bom e real serviço o que elle fez! Inda estou para saber como aquelle diabo de rapaz pôde em tão pouco tempo fazer o que a muitos leva annos! Mas então com que… esta manhã… Hein? Fugiu o passaro da gaiola? E de carruagem! Fugirá a sobredita senhora com o rapaz para o deserto? Eh! eh! eh!… Bem; então… n'esse caso… vamos nós tomando o nosso chá, snr. Fortunato, vamos. Já o podiam ter dito; escusavamos de ter alterado as horas…
Quando Cecilia voltou á sala, inda Manoel Quentino ria, a bom rir.
—Cecilia—disse-lhe elle—vamos ao nosso chá; voltamos hoje aos nossos antigos habitos, filha. Isto de passaros novos fogem, pilhando a gaiola aberta… Os que ficam são estes, como o snr. José Fortunato, que já estão trôpegos de todo… Eh! eh! eh!…
O snr. José Fortunato não gostou demasiadamente da imagem. Manoel
Quentino proseguiu:
—Aqui o amigo contou-me agora a historia de uma certa carruagem e de um certo rapaz, que Antonia lhe disse… é muito engraçada… Eh! eh! eh!
—Eh! eh! eh!—fez o snr. José Fortunato tambem—mas ficou-lhe bastante caro o entrar no duetto, visto que Cecilia o castigou, dizendo:
—Engraçada? Então é por excepção. Não é essa a principal qualidade das historias do snr. Fortunato.
José Fortunato pôz-se logo muito serio; Manoel Quentino olhou espantado para a filha.
Episodios d'estes reproduziram-se durante todo o serão d'aquella noite. Que triste não era a alegria que Cecilia affectava, ao trazer para o quarto do pae as flores, que preparára de manhã, cheia de contentamento! Lidar com flores, assim, com tanta melancolia, só quando se enfeita com ellas um tumulo. Marejava-lhe nos olhos o pezar do coração; de pouco lhe valia o sorriso nos labios. O serão acabou cêdo. Cecilia precisava de estar só; queria-se livre de todo o constrangimento, queria poder chorar, sem receio de vistas curiosas, de perguntas indiscretas, de reflexões impertinentes.
Será necessario dizer que velou toda a noite?
Levantou-se na madrugada seguinte com resolução formada.
—Eu é que era louca—pensava ella—illudi-me sem fundamento… acreditei… e por que acreditei eu?… De que me queixo?… Nem direito tenho a resentir-me. Paciencia!—dizia a meia voz, suspirando—Hei de ter força bastante para tirar esta loucura d'aqui.—E levava a mão á cabeça, e, depois de reflectir, murmurava, mais baixo ainda, descendo-a para o logar do coração:—E d'aqui nada terei que arrancar?
Manoel Quentino foi n'essa manhã para o escriptorio. A convalescença era completa, mas para o ser tambem a sua alegria seria preciso que, ao despedir-se da filha, não tivesse notado no semblante d'ella outra vez a antiga expressão dolorosa.
Horas depois d'elle saír, passava Carlos, segundo o costume, por baixo das janellas, d'onde ordinariamente Cecilia o esperava.
D'esta vez, achou-as fechadas, e corridas as cortinas.
Carlos estranhou aquillo, e por muito tempo não desviou os olhos d'ellas.
Através d'essas desapiedadas cortinas alguém o observava porém. Era
Cecilia.
Vejam como ella tentava arrancar da cabeça, ou antes do coração, o que chamára «loucura»?
E desejaria devéras arrancal-a?
Sem ser vista, seguia todos os movimentos de Carlos; viu-o passar; olhar com attenção para as janellas; caminhar mais de vagar á medida que se afastava; parar, e, parecendo tomar uma subita resolução, retroceder, atravessar a rua e entrar para o portal da casa.
Cecilia recuou, como se podesse temer ser vista de fóra.
Cêdo ouviu tocar a campainha da cancella.
Cecilia estremeceu e dirigiu-se ao corredor.
Já ahi encontrou Antonia, que descia para ver quem tocava.
—Antonia—disse-lhe rapidamente Cecília—se for alguem a procurar-me… diga-lhe que… que não posso fallar, que… estou doente… Seja quem for… Entende?
—Entendo, sim, menina—respondeu Antonia, com um sorriso de quem entende de mais.
Foi com modos desabridos que recebeu Carlos…
Este perguntou-lhe se Manoel Quentino tinha ido de facto para o escriptorio, porque, vendo todas as janellas fechadas, lembrára-se de que tivesse talvez recaído.
Antonia respondeu:
—Pois fique descansado. Foi para o escriptorio, foi, sim, senhor. Elle agora está de todo. E a menina manda dizer que não póde fallar a ninguem, porque está doente.
—Doente?!—perguntou Carlos com uma inflexão de voz, que fez quasi arrepender Cecilia, que o escutava, da ordem que dera á criada.
—Não é cousa de cuidado, graças a Deus;—proseguiu esta—mas, em todo o caso, não a deixará tão cedo receber visitas… de ceremonia. E ha de dar-me licença, que tenho a minha vida.
E, acto contínuo, ouviu-se o bater da cancella, que se fechava.
—Antonia—disse Cecilia á criada, assim que esta chegou ao patamar, trazendo nos labios um sorriso de victoria—a fallar a verdade você foi de uma grosseria!
—Ora deixe lá, menina. Tudo é preciso com certa gente.
Carlos, ao sair do portal, pensava:
—Despeitos! Será por eu não ter vindo hontem? Deus o queira; tudo se explicará em meu abono e depois o direito a uma compensação será optimo advogado na minha causa. A indifferença era peior.
D'alli foi Carlos para o escriptorio, onde deu a Manoel Quentino os parabens, pelo seu restabelecimento.
—Sinto—acrescentou—não ter podido hontem festejar, como tencionava, o seu ultimo dia de doença, mas o que houve lá em casa… Já sabe?
—Já sei—respondeu Manoel Quentino, que se mostrava algum tanto embaraçado.
—Esta manhã ia com tenção de saber de si—continuou Carlos.—Vendo todas as janellas fechadas, receiei que se tivesse sentido peior. Soube porém que era sua filha que se achava incommodada.
—Cecilia?!—exclamou Manoel Quentino, já assustado.
—Socegue—respondeu Carlos, sorrindo, porque o espanto de Manoel Quentino acabava de confirmar as suspeitas, que tivera—pela maneira por que me fallou a criada, imagino que não é de gravidade o incommodo. Nem tempo tive de averiguar d'isso, tal foi a pressa com que ella me fechou a porta. A boa mulher parecia ter mêdo de mim. Fallou-me com um arreganho!
Manoel Quentino fez que sorria; mas era evidente que alguma cousa lhe pezava no coração.
Depois de curta hesitação, aproximou-se de Carlos, e ainda com modo constrangido, disse-lhe, chamando-o de parte:
—Snr. Carlos, eu tenho-o por um homem de bem; por isso prefiro fallar-lhe com franqueza a andar com jogo encoberto, que nem é para o meu genio, nem para o seu.
Carlos ficou surprendido com aquellas palavras, tão inesperadas como mysteriosas.
—Então que temos, Manoel Quentino? Falle. Parecem communicações graves as que tem para me fazer—dizia elle, olhando-o interrogadoramente.
—Escute. Eu sei os favores que lhe devo e sei a fé que se póde depositar no seu caracter, que será tudo quanto quizerem, menos capaz de uma infamia.
Carlos escutava-o cada vez mais admirado.
Manoel Quentino proseguiu, augmentando-se-lhe o embaraço com que principiou:
—Mas… no mundo, em que vivemos, ha a verdade e ha as apparencias, e… não basta sómente attender á primeira, é preciso tambem salvar as outras…
—Mas a que vem tudo isso?—perguntava Carlos.
—A propósito de uma… de uma loucura, mas que, apesar de saber que o é, eu tenho obrigação de attender. Esta manhã veio ter ao escriptorio pela porta interna uma carta anonyma. Queira lel-a, e depois dirá o que devo fazer.
A carta, cuja lettra era visivelmente disfarçada, dizia:
«Alguem, que toma a peito a reputação dos seus amigos, avisa-o de que as visitas do snr. Carlos a sua casa, estão já dando que fallar á vizinhança. Lembre-se de que, pela sua reputação, esse rapaz é uma visita pouco propria em qualquer casa, onde existe uma menina de dezoito annos.»
Assignado: «Um amigo desinteressado.»
Carlos, acabando de ler esta carta, passou-a para Manoel Quentino, dizendo-lhe com profundo despreso:
—Estas são ferroadas de insectos, que se esmagam com o pé.
—Não julgue que me deixo levar por esses protestos de amizade desinteressada;—disse Manoel Quentino—mas, tanto peior se, como suspeito, ha antes malevolencia n'isto. A bôca, d'onde saíram estes conselhos, espalhará a calumnia; e, se tenho coragem para me rir d'ella, quando se refira a mim só, estalar-me-hia o coração, se de minha filha se dissesse uma só palavra que a affligisse, que lhe causasse uma lagrima.
—Tem razão—respondeu Carlos, curvando a cabeça, pensativo.
—Agora diga; que me aconselha que faça? Confio no seu cavalheirismo, e por isso é a si e a mais ninguem que peço conselho.
—Obrigado, Manoel Quentino—respondeu Carlos, apertando-lhe a mão.—É preciso que se me fechem as portas da sua casa.
—-Carlos! O senhor bem vê que eu não lhe mereço essa ironia.
—Não é ironia. É effectivamente preciso que eu deixe de visital-o. Eu saberei comprehender a sua posição; acredite-me. É justo que pague a leviandade, com que me afiz a habitos, que, reconheço-o hoje, não eram talvez os que a minha indole me pedia. Paciencia.
Manoel Quentino abraçou-o commovido.
Á noite, Mr. Richard e Carlos e muitos dos seus amigos assistiram na capella ingleza do Campo Pequeno ás ceremonias funebres pela velha Kate, em cuja sepultura o proprio Mr. Richard lançou, segundo o costume inglez, os primeiros punhados de terra.
No fim do enterro, Carlos despediu-se de Manoel Quentino, que viera assistir ao acto.
O bom homem, já habituado á companhia de Carlos nos serões, não teve mão em si que lhe não dissesse:
—Venha commigo, Carlos; ao menos hoje ainda. Riremos um bocado; isto de ir para casa com as ideias de um enterro na cabeça, não é grande cousa… Venha. É dar muita importancia ao mundo, privarmo-nos, por causa d'elle, da…
—Não, Manoel Quentino; convem por agora interromper as minhas visitas.
Talvez um dia o procure, mas… Adeus, adeus.
E voltou a casa.
Jenny viu-o tão melancolico, que lhe disse:
—Charles, quando d'antes tinhas alguma cousa que te affligisse, confiavas-m'a. Por que já o não fazes agora?
—Jenny, concede-me algum tempo. Talvez, dentro em pouco, eu tenha muito que te dizer e muitos conselhos a pedir-te.
Foi a resposta que obteve.
Carlos não faltou á palavra que dera a Manoel Quentino.
Dois dias se seguiram a este sem que a vizinhança do guarda-livros tivesse que reparar nas assiduas passagens de Carlos por aquella rua, nem a snr.ª Antonia de soffrer a contrariedade das suas visitas.
Mas, se na sobredita vizinhança houvesse quem depois da meia noite estivesse acordado, poderia ás vezes ver passar um homem por diante das janellas fechadas d'aquella casa, e olhal-as como se esperando que ellas a final se cansassem de sua desesperadora discrição.
Taes eram já as proporções que havia tomado em Carlos o que Jenny chamára uma phantasia!
Porque esse homem era elle.
Chegára-se a maio. Era uma d'estas noites de luar, serenas, tepidas, perfumadas, em que um instincto irresistivel nos leva a procurar as arvores, a escutar de perto o murmurio das fontes. Abafa-se nas salas.
Demorára-se Carlos d'esta vez diante das janellas de Cecilia em uma d'aquellas contemplações, de que só os espiritos frios podem ter animo de zombar, quando certo rumor na pequena janella de grades, que se abria no muro do quintal de Manoel Quentino, lhe chamou a attenção.
Carlos retirou-se para a parte assombrada da rua e esperou. A janella abriu-se, e o luar, batendo em cheio do lado d'ella, illuminóu a suave figura de Cecilia.
Carlos permaneceu immovel.
Cecilia estava só; e quem, se não ella, tinha n'aquella casa imaginação bastante para se seduzir com os encantos de uma noite assim?
Recostando-se á janella, a filha de Manoel Quentino conservava-se tambem immovel. Havia tanta languidez no reclinar da cabeça sobre a mão, tanta belleza e poesia n'aquella figura pallida, que a phantastica luz do luar mais pallida fazia, que, ainda sem ter a imaginação de Carlos, era possivel quasi acreditar por momentos ser aquillo uma apparição de noite de estio, como, nas suas lendas, as concebe a phantasia popular.
Que lisongeira voz segredou ao ouvido de Carlos, que era n'elle que aquella mulher pensava? Vaidades de coração, e tantas vezes mentirosas illusões dos desejos, quem ha ahi que possa gabar-se de nunca vos ter experimentado?
Cecilia foi subitamente despertada d'aquelle quasi sonho, em que parecia arrebatal-a a claridade do luar, por a voz de alguem que lhe pronunciava o nome por baixo da janella.
Cecilia reconheceu, estremecendo, aquella voz. Era a de Carlos.
—Ó snr. Carlos!—exclamou ella, sobresaltada e fazendo um movimento instinctivo para retirar-se.
—Escute—disse Carlos—escute-me. São poucas palavras só as que tenho a dizer-lhe. Vim aqui sem esperança de lhe fallar. Contento-me ha muitos dias com menos. Ver as janellas da casa em que mora tem-me bastado. Mas, uma vez que o acaso a trouxe ahi, deixe-me não perder a unica occasião que tenho agora para lhe dizer o que desejava…
—Mas bem vê que…
—Ouça-me. Dei a minha palavra a seu pae de que não voltaria a esta casa. Houve alguem interessado em interromper as minhas visitas, e conseguiu-o, porque eu mesmo julguei necessario interrompel-as. Acreditará que o fiz sem custo, Cecilia?
Cecilia não respondeu, porque não podia.
—De hoje em diante só um motivo me póde trazer de novo aqui, a sua casa, á luz do dia, e aos olhos de todos; mas antes, preciso interrogar o seu coração, Cecilia. Elle só me póde auctorisar a adoptal-o, esse motivo que digo.
Cecilia ganhou coragem e conseguiu emfim responder:
—Snr. Carlos, a doença de meu pae acabou. O generoso procedimento que teve para com elle, durante os dias d'essa doença, creia que fez nascer em mim sentimentos de… gratidão, que nunca mais esquecerei. Recordo-me de que fui a primeira a implorar o seu auxilio, e sei de que importancia foi o que me concedeu. Por nós quiz o snr. Carlos abandonar, e por muito tempo, habitos de vida proprios da… sua idade, e… da sua posição… O ultimo dia da enfermidade de meu pae, pelo menos, devia para si, snr. Carlos, ser o primeiro dia de liberdade e… e foi. Se meu pae entendeu que devia exigir… ou pedir-lhe que terminasse o… sacrificio, não me compete a mim ir de encontro ás resoluções de meu pae. Não vejo a necessidade de adoptar qualquer motivo para renovar umas visitas, que hoje não teem razão para serem renovadas… por isso…
—Mas, Cecilia, e se essa razão, e forte, e irresistivel, e urgente, estiver em mim, no meu coração?…
—Snr. Carlos, espero que me faça a justiça de acreditar que…—e a voz de Cecilia tremia ao dizer isto—que eu sou ainda superior a esses galanteios. Se as circumstancias, que acompanharam o nosso primeiro encontro, lhe poderam deixar impressões que o levem a tratar-me assim, peço-lhe que se recorde de que Jenny, de que sua irmã, ainda me trata como amiga, depois de saber tudo quanto n'aquella noite se passou.
—Cecilia!
—Adeus, snr. Carlos. Sei que ha muita nobreza de sentimentos na sua alma e por isso espero d'ella que comprehenda a necessidade de acabar com isto. Adeus.
E retirou-se apressadamente da janella.
Carlos ficou por muito tempo immovel no logar em que Cecilia o havia deixado, e sem saber como explicasse tão rigorosa severidade.
Não tinham decorrido muitos minutos, assomou á mesma janella um vulto que, curvando-se para a rua, disse em tom de zombaria, para Carlos:
—Muito boa noite. Com licença.
E fechou as portas da janella.
Era a snr.ª Antonia, que tinha espiado de longe Cecilia, sem que conseguisse ouvir o dialogo d'ella com Carlos.
Logo que a sua jovem ama se retirou, correu a observar quem estava na rua, viu e reconheceu Carlos ainda junto do muro.
Carlos, achando-se surprendido, estremeceu e partiu d'alli inquieto.
—Saberia ella que a ouviam e por isso fallaria assim? Ou espial-a-hão sem que o desconfie? Alguma cousa deve ter-se passado, desfavoravel para mim, para ser assim tratado. A minha falta só não explica…
E chegou a casa, pensando n'isto tudo.
XXIX
OS AMIGOS DE CARLOS
A scena, que descrevemos no precedente capitulo, aggravou o estado moral de Carlos.
Cada vez mais concentrado, passava horas inteiras no quarto ou entranhava-se pelas ruas de verdura do jardim; cada vez mais triste, nem Jenny podia já inspirar-lhe aquellas promptas alegrias de outros tempos e tanto do caracter d'elle.
Jenny convenceu-se de que era mais do que um mero capricho o que assim se assenhoreára do coração do irmão.
E em Cecilia que seria?
A filha de Manoel Quentino havia desde muito evitado a presença de sua amiga. D'isto mesmo desconfiava Jenny.
—É preciso sondar aquelle coração tambem, e se o encontrar assim… então… então…
Esta reflexão terminou-a ella sentando-se á secretária e escrevendo:
«Cecilia.
É amanhã o dia dos meus annos. Não me reservará para então a surpreza de me assegurar que ainda vive? Repare que ha dois longos mezes que a não vejo. Fico esperando-a, desde o romper do dia de ámanhã.
Sua amiga
Jenny_.»
O dia seguinte era de facto o do anniversario de Jenny.
Cecilia recebeu a carta e hesitou sobre o que lhe convinha fazer. Tinha receio de ir, temia encontrar-se com Carlos; tinha remorsos de recusar, havia tanto que evitava a companhia d'aquella que sempre lhe dera provas de tanta estima! Além de que, terminára com a doença do pae o pretexto com que ella justificava a ausencia. Era demais um dia santo o dos annos de Jenny, e, como tal, mais livre para Cecilia. Em toda a noite não resolveu comtudo o que fizesse, nem fallou a alguem do convite recebido.
Começou o dia seguinte.
Carlos acordára com a resolução formada de abraçar algum partido decisivo. Era-lhe insoffrivel a incerteza, em que estava vivendo.
Com a cabeça apoiada entre as mãos, todo recolhido ao mundo interior e cortadas as relações com o externo, procurou assim descobrir o melhor caminho, por onde saísse d'aquella situação, insupportavel para o genio d'elle.
Não sei se deva aconselhar o meio como efficaz. Talvez seja mais prudente pensar com os olhos abertos para o mundo que nos rodeia, visto que n'elle vivemos e actuamos, e que, a não o incluirmos como elemento nos nossos calculos, corremos o risco de adoptar resoluções, que mais tarde nos valham choques incessantes e dolorosos conflictos.
O pensar com os olhos fechados é só bom quando se trata de cousas puramente metaphysicas; mas procurar assim regras de procedimento na vida, é imprudente.
O resultado que produziu em Carlos este systema de pensar, foi a seguinte carta, que elle escreveu com vivacidade quasi febril:
«Cecilia.
Ha dias recusou ouvir-me, quando o acaso me aproximou de si; não leve o rigor ou a desconfiança a ponto de desviar os olhos d'esta carta que escrevo, subjugado por uma necessidade irresistivel, por uma violencia do coração. Quando lhe fallei com toda a sinceridade, que inspira uma paixão vehemente, Cecilia tomou as minhas palavras por um simples galanteio e recusou escutal-as; e não haveria na minha voz alguma cousa a assegurar-lhe que eu não mentia? Como poderei esperar agora que seja mais efficaz esta carta, á qual não posso transmittir aquillo que se não traduz em palavras: o sentimento? Como a poderei convencer, Cecilia? Se imagina sequer o respeito, a veneração que tenho pelo nome de minha irmã, não acreditará que possa mentir, invocando-o, ao affirmar-lhe que a amo, Cecilia; se crê que a memoria de minha mãe é para mim de tanta adoração e saudades, como as que se apoderavam do coração de Cecilia e lhe transluziam no rosto, quando a vi ajoelhada no tumulo da sua, pela memoria de minha mãe lh'o juro tambem Que mais quer? que mais exige? Não me julgue pelo passado; entre elle e a minha vida de hoje elevou-se uma barreira, no dia em que principiei a trazer a sua imagem no pensamento e o seu nome, etc., etc…»
Eu pouparei ao leitor a transcripção na integra d'esta carta, que proseguia assim por mais algumas paginas e em estylo que, provavelmente, lhe deve ser familiar.
Carlos terminava por pedir a Cecilia, que lhe revelasse tambem o estado dos seus sentimentos. «Qualquer que seja a resposta, obrigar-me-ha a um passo decisivo para o meu futuro», terminava elle.
Acabava de assignar, fechar e sobrescriptar esta carta, e pensava na maneira de a enviar ao seu destino, quando ouviu um som de passos e de vozes, que cada vez parecia mais proximo, até que muitas, repetidas e violentas pancadas fizeram oscillar a porta do quarto, como se ameaçasse um arrombamento.
Carlos levantou-se em sobresalto, sem que lhe occorresse logo a explicação de todo aquelle ruido.
—Olá, santo ermitão—dizia uma voz pelo buraco da fechadura—abri a porta a uns pobres romeiros, que de longe vem, attrahidos pela fama da vossa piedosa vida.
—Monsieur Charles—continuava outra voz—lás des soins d'ici bas, se retira loin du tracàs, á maneira do rato da fabula, que se penitenciava em um queijo; queira Deus que este tambem…
—Por causa de uma mulher recolheu-se Achilles á tenda, abandonando os companheiros. Os invulneraveis teem destas fraquezas.
—Alto lá, a insinuação é grave ou, pelo menos, anticipada. Nada de condemnar antes de ouvir.
—Abre, abre, Carlos; por ordem superior!
Carlos teve ainda alguns momentos de hesitação.
A vozeria redobrava; repetiam-se, com mais violencia, as pancadas na porta.
Resolveu-se emfim a abril-a.
Entraram. Eram os principaes companheiros dos seus passados divertimentos, muitos dos quaes já encontramos n'aquelle jantar da Aguia d'Ouro. Fartos de o aguardarem todas as noites, sem que em nenhuma de tantas o vissem apparecer, tinham resolvido procurar esse transfuga dos seus arraiaes.
Operou-se completa mudança de scena, digna, pela celeridade, de um tablado inglez.—Em poucos momentos, um bando de rapazes invadiu o quarto; e cêdo, cadeiras, mesas, sofás e leito foram occupados por elles, como por um enxame de abelhas.—Tudo era desordem minutos depois.
—Então que é isto? que é isto? Que quer dizer esta mysteriosa reclusão?—perguntava um, estendendo-se no sofá, em postura digna do sultão.
—Como se ha de explicar este eclipse total de um dos mais luminosos astros da nossa brilhante pleiade? A Venus do proscenio de S. João chora por ti; o genio que preside á feitura das costelletas da Aguia esmorece; no Guichard a deusa do paradoxo lamenta um dos seus mais fervorosos servos; é uma serie de calamidades por ahi além. Como as explicas tu?—Isto dizia outro, vasando meio vidro de curious essence sobre o fino lenço de bretanha.
—Expliquem-as como quizerem—respondeu Carlos, sentando-se com enfado, que não procurava encobrir.
—Ora que tem isso que explicar? disse o do sofá—Não fallaram ahi em eclipses? As minhas recordações de lyceu dizem-me que o eclipse é em geral o resultado da interposição de um astro entre nós e o eclipsado. Procurem aquelle que nol-o tem occulto…
—Imaginem que estive doente—acudiu Carlos, tentando desviar a conversa da direcção que este seu amigo lhe dera.
—Rejeitada a explicação por maioria—bradou um rapaz louro e de modos feminis, typo de Apollo de cake, cartaz vivo de cabelleireiros e alfaiates, ageitando ao espelho as complicadas madeixas de um cabello monumental.
—Por unanimidade—bradaram mais dois.
—Adopto-a eu—contradictou um occupado a despejar quantas gavetas encontrava, á procura de lumes para accender o charuto.—Carlos está doente, mas… do coração… Pois que é o amor?
—Ah nhe d'amore La fiamma io sento
trauteou o do toucador, cantando a aria de Rosina.
—A tua alma está doente, Carlos—sentenciou um estudante de medicina, que era tido na conta de espirituoso.—E essa pathologia é a minha especialidade.
—Que falle a sciencia então; que falle a sciencia—exclamaram alguns.
O estudante sentou-se ao lado de Carlos, revestiu-se de um ar de gravidade doutoral, e tomando-lhe'o pulso, principiou:
—A alma padece de mui variadas fórmas. Temos os pruridos da duvida, doença chronica nos philosophos que procuram a certeza; hypertrophias de crenças, mal frequente aos vinte annos; aneurismas de aspirações, muito vulgares em bachareis formados; ictericias de desespêro, nos chefes de familia numerosa; fracturas de caracter, nos homens politicos; luxações de senso commum, nos poetas; paralysias de ociosidade, nos empregados publicos; dyspepsias de indignação, nos contribuintes; noli me tangere de susceptibilidades, nos deputados fluctuantes; convulsões de enthusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em pretendentes sem protecção; cancros de exigencias, em diplomatas indispensaveis; epilepsias de ciumes, nos maridos; e as cataractas do amor, em…
—É a doença de Carlos, é a doença de Carlos.
Carlos moveu-se com impaciencia.
—Pois é terrível doença!—continuou o orador—Vejamos. Causas:—É hoje inquestionavel que esta especie de cegueira procede de ordinario da exposição do doente ao fogo e esplendor de uns olhos e ao halito embalsamado de uns labios de mulher. Para evitar o contagio construíram-se em tempo varios estabelecimentos hygienicos a que chamaram conventos. A doença porém zombou d'elles, como costumam fazer as verdadeiras epidemias dos lazaretos e cordões sanitarios, e até no famoso hospicio de Thebaida se manifestaram casos d'ella. A mocidade é condição favoravel para se contrahir o mal; porém na velhice é elle mais para temer, por de mais tristes consequencias. De resto, traz de ordinario comsigo esta molestia sérias complicações.