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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 62: XXXI
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

Carlos mordia os labios de impaciencia; o amigo continnuou, entre as gargalhadas dos outros:

—Os symptomas são variados. Em geral o doente tem physionomia de parvo caracteristica; no intervallo dos accessos cáe em uma especie de beatifica idiotia, da qual nem os causticos o arrancam. Nos paroxismos chega a arrepellar os cabellos, a amarrotar os collarinhos, a soltar gritos, que bolem com a vaidade dos tigres, e arrulhar de maneira que causa o desespêro dos pombos. Nos casos mais fortes, a doença toma um caracter de malignidade e o doente faz-se poeta. N'este estado o medico perde as esperanças e reclama os sacramentos… do matrimonio.

—E o tratamento? e o tratamento?—perguntaram alguns rindo.

—A hygiene é tudo, meus amigos; mal vae se a profilaxia não atalhou a molestia. Nas Confissões de João Jacques allude-se, como preservativo, ás mathematicas. Não approvo. Para mim é averiguado que as mathematicas tem só por effeito o imprimir á doença a feição perniciosa. O mathematico amoroso é a mais rebelde especie de doente, de que ha noticia. Entra nos incuraveis. Os meus preceitos são outros. Recommendo a gastronomia, porque as funcções do estomago e do coração são antagonistas. Aconselho a leitura do Feliz independente, e de todas as obras de bom senso—antidoto do amor.—Mas se a molestia, apesar de tudo, progride, então o especifico mais heroico para radicalmente a curar…

—Qual é?—perguntaram simultaneamente.

—O casamento.

De todos os circumstantes foi Carlos o único que não applaudiu a dissertação do amigo. Passeiava a passos largos com impaciencia crescente.

—Peço-lhes, por especial favor, que me deixem em paz—disse elle, acalmada a trovoada de gargalhadas.

—Deves-nos uma confidencia—tornou-lhe o do sofá, tomando uma posição ainda mais orientalmente commoda.

—É uma satisfação—acrescentou outro, empunhando um florete, e pondo-se em posição de esgrima.

Carlos nunca se sentira de tão má vontade para com os seus amigos.

—A cousa é facil de explicar—disse elle sêccamente.—Sabem que sou, que sempre fui homem de caprichos. A agradavel convivencia dos meus amigos principiara a enfastiar-me de morte. Resolvi pois furtar-me ao prazer—invejavel—de os ver. Ahi teem. Passando-me isto, encontrar-me-hão de novo talvez, e talvez que não.

—Nada, nada. A camara, ouvidas as explicações do ministro, não se dá por satisfeita, nem passa á ordem do dia—replicou o do florete.—Ha ainda cousas a esclarecer. Você deve-nos um relatorio. Aquella celebre mascara? aquelle mysterioso dominó, que prometteu seguir até o fim do mundo, nas vesperas da sua sequestração? Nunca mais se fallou em tal, e ha quem insista em ver ahi o principio de tão subita conversão.

Carlos recebeu uma desagradavel impressão com a importuna lembrança e sentiu vontade de tomar a serio a posição bellica, que o interpellante conservava, e fazel-o arrepender de possuir tão boa memoria.

Limitou-se porém a responder:

—Não me perguntem cousa alguma a esse respeito, porque nada lhes posso dizer.

—Ah! mysterios!… Ai, amor! amor!—exclamou o do espelho, e continuou, cantando:

  Dove non ride amore
  Giorno non v'ha sereno…

—Deixem Carlos; um juramento, feito a horas mortas, tendo por testimunhas as estrellas, e uns olhos, mais brilhantes ainda, é sagrado.

—Nada posso dizer, porque nada sei—acudiu Carlos, despeitado pela interpretação que deram ás suas primeiras palavras.

—E nada sabes, porque nada viste? Meu caro, a tua discrição vae sendo de mau gosto—disse o do sofá, executando um movimento, em virtude do qual lhe subiram as pernas cincoenta centimetros e lhe desceu outro tanto a cabeça.

Eureka! Eureka!—bradou um que se aproximára da mesa—uma prova irrecusavel do crime!… O instrumento do delicto! Uma carta!…

A estas palavras Carlos estremeceu. O da descoberta empunhava com gesto triumphante a carta escripta momentos antes a Cecilia.

—Uma carta! E de que especie?—perguntava o côro.

—Ora! papier rose e odeur enivrant—respondeu o outro, aproximando-a do nariz, com gesto expressivo.

Carlos teve vontade de atirar pela janella fóra aquelle seu amigo, que proseguiu:

—E o sobrescripto diz…

—O quê?… o quê?…—perguntaram todos, acercando-se d'elle com ardente curiosidade.

—É indiscrição de mais!—exclamou Carlos, levantando-se para lhe arrancar a carta das mãos.

Os outros detiveram-o.

—Que é isso? D'onde te surgiram, á ultima hora, esses escrupulos de donzella ingenua?

—Prohibo-lhes que… — dizia Carlos, esforçando-se por se lhes livrar dos braços.

—Ora deixa-te de pieguices—respondiam elles, rindo e continuando a segural-o.—Lê tu d'ahi depressa, antes que o leão se solte. Olha que está furioso! Não imaginas.

—«Excellentissima senhora»—lia vagarosamente o da carta, como para prolongar mais a scena que o divertia.

—Ah… Ex… cel… len… tis… si… ma!—repetiam os outros, accentuando cada syllaba.

—Cecilia de…—continuava o que lia.

—Ce… ci… lia! Oh nome musical!

—Phylarmonica invocação!

—Santa patrona da harmonia!

—Inspiradora da harpa!

Por um movimento mais energico e imprevisto, Carlos conseguiu afastar o grupo, que lhe estorvava a passagem, e correndo á mesa, tirou finalmente a carta das mãos do que a havia descoberto.

—Ha certas familiaridades, para que não auctoriso ninguem—disse elle, pallido e agitado de indignação e de raiva.

Depois tocou a campainha com violencia.

Acudiu ao chamamento o seu criado particular.

Carlos entregou-lhe a carta, dizendo:

—Leva ao seu destino.

Ia o criado a retirar-se, quando elle o reteve para lhe dizer ainda a meia voz:

—Se te perguntarem… dize que é do mando de… miss Jenny.

O criado, mostrando ter comprehendido, saíu.

Todos haviam guardado silencio até então, seguindo com pasmo os movimentos de Carlos.

Depois do criado se retirar, ainda este silencio se manteve por algum tempo; a final uma voz disse:

—Bonito final de acto! O criado sáe, Carlos senta-se sorumbatico, e os outros actores contemplam-o attonitos e… aparvalhados—Tableau.

A estas palavras, todos se entre-olharam e, como se se achassem uns aos outros ridiculos, soltaram unisona gargalhada.

Carlos julgou melhor sorrir tambem, ainda que interiormente se lhe estivesse redobrando a impaciencia.

—Palavra de honra!—continuou um—que nunca vi Carlos assim. Está romantico.

—Ultra!

—Furioso!

—Como um leão!

—Como um touro!

—Como um turco!—disse o de tendencias orientalistas.

—Vá, vá, Carlos; observa os bons principios. O amor fez te selvagem.
Civilisa-te.

—Conta-nos a historia d'essa Cecilia.

—É alta ou baixa?

—Morena ou loura?

—Typo grego ou oriental?

—Aposto que é a do dóminó.

—Com certeza.

—Vá, homem; conta-nos como isso principiou.

—Olha que uma paixão concentrada é um ninho de aneurismas; cautela!—disse o medico das doenças de alma.

—Cecilia! É euphonico na verdade!

—Peço-lhes que não continuem a fallar assim de um nome que eu… respeito.

Uma risada geral acolheu o pedido.

—Ah! ah! ah! Estás muito bom!

—Está delicioso!

—Nunca o vi apurado a este ponto!

—Ó Carlos!

Povero amico~!

O rubor de despeito e de cólera tingiu as faces de Carlos.

—Repito. Que eu respeito. Julgo que me darão licença para poder fallar serio alguma vez.

—Ah! de certo. Mas, sempre que isso acontecer, eu não me hei de poder ter com riso.

—Tu a fallares serio!

—Então de facto estás apaixonado? Pois conta-nos isso. Bem sabes que os amigos são para as occasiões.

Amicus certus…

—Canta a tua aria de confidencia, que o côro te secundará…

—Quando não, procuraremos, descobriremos, e depois então seremos implacaveis, crueis! Vê lá!

—Fatal dóminó!

—Pois acreditas?

—É elle com certeza.

—Ó Carlos, acautela-te. Colheste a flor em mau terreno; apanhaste a perola em agua bem envolta, um baile de mascaras!

Carlos tentou obrigal-os ao silencio pelo silencio.

—Estou resolvido a não lhes dar explicações. Por isso quando quizerem deixar de ser inutilmente importunos…

Ainda por muito tempo não adoptaram elles essa resolução. A assembleia manteve-se em ruidosa e desordenada discussão por mais de meia hora. Carlos fingiu ler.

Emfim viu-os sair e respirou, como se livre de um peso, que lhe comprimisse o peito.

—Adeus, Carlos, muchas venturas!—dizia um.

—Faço votos pela tua felicidade—secundava outro.

—Adeus, adeus.

Um cantava:

  Ai quem me dera em Sevilha,
  Onde a travêssa hespanhola
  Sob a elegante mantilha
  As negras tranças enrola.

E a alegre companhia abandonou tumultuariamente o quarto.

XXX

PESO QUE PÓDE TER UMA LEVIANDADE

Com a saída dos amigos, não se dissipou immediatamente em Carlos a má impressão que lhe deixára aquella visita.

Não sei que haja alguem tão indifferente e sobranceiro á opinião alheia, que possa ouvir, sem se commover e revoltar, o nome só que seja de qualquer pessoa estimada, pronunciado menos reverentemente por labios estranhos e de mistura com as phrases e palavras de uma conversa leviana.

Um delicado pudor de coração sobresalta-se, quando assim exposto a olhares profanos o idolo do seu mais puro e secreto culto.

Desgostoso com os outros, não estava Carlos mais satisfeito comsigo. Soltára inconsideradamente da mão a carta escripta a Cecilia, e só agora reflectia na pouca delicadeza com que o fizera, e na inconveniente escolha de emissario. Um outro motivo de inquietação o perturbava ainda. No momento de expedir o criado com a mensagem, esquecera-lhe que, sendo dia santo, Manoel Quentino estaria provavelmente em casa; e como poderia Cecilia occultar-lhe o conteúdo da carta, ainda quando lhe dissesse que era de Jenny?

Todas estas considerações foram, a pouco e pouco, levando Carlos a um d'esses estados de impaciencia e de agitação de espirito, inconciliaveis com o repouso do corpo, o qual provocam a acção, ao movimento.

As indefinidas aspirações que, em taes estados, sentimos, sendo superiores aos meios de que dispomos para satisfazel-as, accumulam em nós excessos de energia, que se revelam por uma actividade sem plano, sem fim, á qual cedemos como a necessidade organica, não tentando, nem conseguindo regulal-a ou conduzil-a.

Por isso, como se no limitado espaço do quarto abafasse, Carlos levantou-se para saír.

Transpunha já a porta, que abria do quarto para o jardim, quando o estalar da areia sob o pizo leve de alguem que caminhava na rua proxima, lhe fez desviar a cabeça.

Por pouco lhe escapava dos labios uma exclamação de prazer.

Era Cecilia.

Esta inesperada apparição vinha tão completamente realisar os secretos e vagos desejos, que o estavam agitando; parecia tanto ser o mysterioso effeito das evocações do proprio coração, que—illusões só concebidas por quem já assim as sentiu alguma vez—Carlos quasi acreditou ser verdadeiro milagre de amor a presença de Cecilia, alli, n'aquelle momento. E tanto se convenceu d'isso, que nem tentou dissimular o que estava sentindo. Viu-a e persuadiu-se de que viera ao appêllo, que elle lhe dirigira, de que a leitura da carta bastára para a determinar, de que, cheia de confiança, vinha para dizer-lhe que aceitava a homenagem do amor, que elle lhe offerecia, e o pagava com o seu.

Dominado por este pensamento, do qual rirá sómente o leitor, que tenha já passado os quarenta annos, Carlos estendeu a mão tremula para a pobre rapariga que, mais tremula ainda, o fitava, e murmurou:

—Oh! obrigado, Cecília; obrigado por ter vindo!

Cecilia olhava-o admirada; não comprehendia ou receiava comprehender demasiado o sentido d'aquellas palavras.

—Agora ouça-me, ouça-me por piedade, Cecilia; quero dizer-lhe tudo o que em mim se tem passado desde que pela primeira vez a encontrei; ouça…

E naturalmente Carlos conservava entre as suas a mão de Cecilia, e esta, como surprendida ainda pela subita scena que estava bem longe de esperar, parecia haver perdido a consciencia do que se passava, e nem tentava retirar-se.

Carlos proseguiu:

—Cecilia, se veio, foi porque acreditou que havia sinceridade nas palavras que eu lhe disse, não é verdade? Não é verdade que não suspeitará nunca mais que seja um simples galanteio, indigno de si, o que me leva a repetir-lhe uma, e mil vezes, que a amo?

Estas palavras restituiram a Cecilia a consciencia que perdera quasi. O sangue abandonou-lhe subitamente as faces, para cêdo affluir com mais violencia a ellas; saiu-lhe dos labios um grito que mal pôde reprimir, e tentou retirar a mão, que Carlos continuava a segurar nas suas.

—Snr. Carlos!—disse ella, com a voz agitada de sobresalto e confusão.

—Não se retire assim, Cecilia. Nada receie. Amo-a muito, mas respeito-a tanto, quanto a amo; e mais depressa…

Não pôde continuar; um rumor de passos e de vozes, que se ouviu na rua, e já proximo ao portão do jardim, fel-o estremecer.

Teve um presentimento; obedecendo-lhe attrahiu rapidamente Cecilia para dentro do quarto, em cujo limiar se passára esta curta scena, e fechou sobre si a porta com precipitação.

Cecilia olhava-o assustada.

Ia a bradar, quando Carlos lhe pôz a mão na bôca, dizendo:

—Silencio por piedade!

Foi prudente. O jardim era já de novo invadido por a mesma turba de estouvados que, momentos antes, abandonára o campo. Chegaram ainda a tempo de verem fechar a porta do quarto e saudaram a descoberta com gargalhadas.

Passados momentos, escutavam-se-lhes as vozes de fóra.

—Abre a porta, abre a porta; agora é inutil a dissimulação, Carlos.
Seguimol-a, tivemos um presentimento; vimol-a entrar. Ha de ser ella.
Não o negues. Abre!

Cecilia, ao escutar estas palavras, sentia-se desfallecer.

—Oh! meu Deus!—exclamou, erguendo assustada as mãos para o céo.

Carlos parecia fulminado.

—Então, Carlos, então? Abre, que maneiras novas são essas? Tu não eras assim.

—Isso fica-te mal.

—Só queremos vel-a e retiramo-nos.

—Vel-a e apresentar-lhe os nossos respeitos.

—Então, então?

Carlos teve um momento de desespêro. Sem bem attender no que fazia, sem calcular consequencias, deu um passo em direcção da porta, com o olhar inflammado e os labios tremulos de cólera.

Impediu-lhe porém a passagem Cecilia, que quasi lhe caiu de joelhos aos pés.

—Quer-me perder, snr. Carlos!—dizia ella com a voz tomada de afflicção—Quer-me perder?!

Carlos parou, e tentando erguel-a disse, não menos commovido:

—Cecilia; juro-lhe pelo que ha de mais sagrado que…

N'este momento uma das vozes dizia:

—Então, avarento, não nos queres mostrar essa tua Cecilia?…

Estas palavras fizeram estremecer a filha de Manoel Quentino.

Ao ouvir assim o seu nome pronunciado, e d'aquella maneira, por labios estranhos, ergueu-se com um movimento energico, cheio de orgulho e de dignidade revoltada, e, cobrindo-se-lhe as faces do rubor da indignação, disse, voltando para Carlos o olhar cheio de amargura:

—Em que lhe tinha merecido eu isto, senhor?

—Cecilia!…—balbuciou Carlos, empallidecendo.

Foi ella a que d'esta vez, afastando-o com soberana altivez, caminhou para a porta em passo firme e seguro.

Carlos collocou-se diante d'ella.

—Que vae fazer?—exclamou com voz supplicante.

—Deixe-me! Menos de receiar para mim é, alli fóra, a presença d'essa gente, do que aqui a sua protecção generosa.

Esta ultima palavra saiu-lhe dos labios quasi expressiva de despreso.

—Cecilia, pois julga?…

—Alli póde haver crueldade, que nem as minhas lagrimas commovam, mas aqui… ha peior… ha a infamia… que me feriu no coração.

E o tom commovido, com que disse isto, mostrava começar a dissipar-se já a energia, de que se inspirára ao principio.

Á palavra «infamia» Carlos deixou tambem o irresoluto embaraço, que o enleiára até então; tomando as mãos de Cecilia e olhando-a em face, disse-lhe, tendo na voz toda a eloquencia da sinceridade:

—Cecilia, não ha tempo agora para me justificar. Mas aceite-me um juramento. Pela memoria de minha mãe, pela vida de meu pae, pela felicidade de minha irmã lhe juro que não mereço essas suspeitas.

Um hypocrita poderia pronunciar este mesmo juramento, mas não com o tom de persuasão e de verdade que a voz de Carlos possuia n'aquelle instante.

Não se mente assim.

Cecilia acreditou-o; todas as suspeitas, que por momentos lhe haviam assombrado o espirito, se desvaneceram.

Extincta a indignação, com a força ficticia que emprestára áquella natureza feminina, readquiriu o imperio perdido á brandura propria do sexo, que com razão n'ella confia, como na mais irresistivel arma.

Assomaram-lhe por isso, e abundantes, as lagrimas aos olhos, e, cortada de soluços, só pôde murmurar, apertando convulsivamente a mão de Carlos:

—Salve-me! Salve-me então, snr. Carlos; que estou perdida!

O ruido que, durante esta rapida scena, mais rapida a passar-se do que a descrever-se, não havia cessado, redobrava agora de vehemencia.

Carlos só achou um meio para sair d'aquella situação. Correu á sala da bibliotheca, e abriu-a. Cecilia fugiu para ella e quasi instinctivamente fechou a porta atraz de si.

O expediente era arriscado ainda, porque os criados podiam ver apparecer Cecilia d'aquella parte da casa, o que não menos a comprometteria. Não occorreu outro porém á lembrança de Carlos.

Depois de procurar por alguns instantes desvanecer todos os vestigios da agitação, que a scena descripta lhe causára, foi abrir finalmente a porta aos seus importunos amigos.

—Então tomaram-me hoje para victima de motejos, meus senhores?

—Deixa-te de ares de tyranno de comedia, que te não vão bem. Vamos a saber que é d'ella?

—Quem?

—Ora, quem! A rapariga?

—Continuam as zombarias?

—Homem, não o negues. Encontramol-a alli acima, á esquina. Não sei qual foi de nós que teve um diabolico presentimento. Seguimol-a de longe. Vimol-a hesitar, ao chegar ao portão. Symptoma infallivel! A final entrou. Corremos. Ainda assistimos ao fechar da porta… e agora esta demora pouco delicada… a tua má vontade… Demais, a alguns pareceu ouvir rumor de vozes aqui dentro. Ora vamos; confessa.

—Não te faças piegas; que sentimentalismos são esses?

—Tu que n'estas cousas foste sempre dos mais exigentes; que sempre pugnaste por os direitos de boa camaradagem!…

—Eu que o diga. Lembras-te, d'aquella vez na Carriça?

—E em Leça commigo? Cheguei a desesperar com as exigentes curiosidades d'este senhor.

—Vê lá se preferes que a procuremos.

—Querem obrigar-me a ser incivil, mandando-os saír?

—Incivil estás tu sendo já.

—E tu a fazeres drama, Carlos! Desconheço-te.

—Está decidido—disse o louro adamado—o homem reage. O remedio é facil. Procuremol-a. Elle por certo que a não confiou á familia para guardar. Deve estar escondida aqui.

—Batamos a mata. A gazella ha de apparecer.

E n'um instante principiou desordenada pesquiza em todo o aposento. Não houve movel nem escondrijo, que não fosse revistado.

—E na bibliotheca?—disse por fim uma voz.

—É verdade! Na bibliotheca!—repetiram os outros. E todos caminharam para lá.

Carlos tremeu por Cecilia.

—Prohibo-lhes que abram essa porta!—exclamou, com voz perturbada.

—Bravo! Acertamos! Ouvem-o?

—Ah! diavolo! Está fechada por dentro.

Carlos respirou.

—É a primeira vez que me lembra achal-a assim. Mysterio! Deixa ver se pela fechadura…

—Carlos, abre ou manda abrir esta porta.

—Escutem. Ha rumor lá dentro.

—Deixa ouvir.

—É ella.

O que espreitava, continuou:

—Pareceu-me que vi agora o vestido de uma mulher.

—Ah!

—Foi ler Paulo e Virginia. Conselho de Carlos, que está dado a leituras brandas.

—Ah! ah! ah!

—Pschiu! Calae-vos.

Carlos levantou-se desesperado.

—E eu exijo silencio. Alguem se aproxima. É ella. Incessu patuit dea… É mais razoavel do que tu; veio ás boas.

Carlos lembrou-se da anterior tentativa de Cecília e receiou que se renovasse.

Agora já elle lhe não poderia impedir os passos. Perdeu com esta ideia toda a força moral; sentiu-se desalentado.

A chave girou na fechadura.

—Desbarretem-se, meus senhores. Eil-a emfim!—disse um dos do rancho.

Carlos fechou os olhos, como se na presença de perigo imminente; a mão apertava-se-lhe convulsamente sobre a caixa de revolvers que tinha perto de si.

Em vez porém do tumulto que esperava ouvir, e que Deus sabe a que excesso o arrastaria, seguiu-se tão profundo silencio, que o obrigou a erguer a cabeça surprendido.

Todos os rapazes, havia pouco ainda tão turbulentos, recuavam agora calados e descobertos e como procurando occultar-se uns com os outros.

No lìmiar da porta, que se abria, apparecia a figura candida e serena de Jenny, com o braço passado pela cinta de Cecilia, a cuja cabeça, suavemente animada por um sorriso de melancolia, sustentado a custo, servia o seu hombro de apoio.

Jenny conservou-se por algum tempo assim, olhando-os com gesto composto e admirado, que parecia subjugal-os.

Havia n'esta scena um quadro que impressionava.

As feições angelicas da irmã de Carlos revelavam tanta doçura e tanta nobreza ao mesmo tempo, e as de Cecilia tanta melancolia e tambem tanta confiança na amiga a que se amparava, que os mais levianos do bando curvaram respeitosamente a cabeça diante d'aquellas duas mulheres.

Só um olhar como o de Carlos, exercitado no estudo do rosto da irmã, podia notar-lhe nos labios um leve tremor, a denunciar que áquella apparente placidez não correspondia uma completa serenidade de coração.

Era comtudo affavel e segura a voz com que ella se dirigiu aos amigos de
Carlos.

—Peço desculpa de os ter feito esperar. Julgamos que meu irmão tinha já saído e viemos ambas procurar um livro.

E depois, mostrando-lhes Cecilia:

—É minha amiga… ou mais do que amiga… é quasi minha irmã.—E acrescentou, sorrindo para ella:—Cêdo o será, não é verdade?

Cecilia estremeceu e voltou para Jenny o olhar admirado. Ia talvez a fallar.

Jenny reprimiu-a, apertando-lhe occultamente a mão; e proseguiu, sorrindo:

—Perdôe-me a indiscrição, Cecilia; talvez até nem indiscrição fosse já, porque… estes senhores são… os amigos de meu irmão Carlos.

E estas palavras soube dizel-as Jenny com delicada inflexão de ironia na voz, que augmentou o embaraço dos que a escutavam.

Curvando-se ligeiramente para elles, Jenny saíu da sala com Cecilia.

Carlos não ousou erguer os olhos para a irmã.

Vendo-a saír, voltou-se para os seus antigos companheiros, que principiavam a formular desculpas, e disse-lhes com provocadora frieza:

—Espero que estará satisfeita a sua curiosidade. Ordenam mais alguma cousa?

—Desculpa, Carlos; nós julgamos…

—Tu bem vês que não sabiamos…

—Ó menino, acredita que…

—Palavra, que pensei que era a do dóminó.

—Tambem eu.

—Espero que não leves a mal.

—Aquillo era brincadeira.

—Adeus, Carlos; apparece. Faze-te visivel.

—Mil perdões e… e parabens.

E deixaram o quarto.

Na rua diziam:

—E esta!

—Carlos casar-se!

Requiescant in pace!

—Amen.

A porta a fechar-se sobre o ultimo, e Carlos a correr á bibliotheca para ajoelhar aos pés da irmã.

—Jenny! Jenny! O amor que eu te tinha é pouco para o que te devo. É preciso adorar-te, minha irmã.

Jenny ergueu-o, e, olhando-o com expressão triste e meiga, disse:

—Deixa esse excesso de affeição para alguem, que já agora tem mais direito a ella do que eu.

E apontou para Cecilia, que, chorando, escondia o rosto no seio da amiga.

Carlos dirigiu-se a ella commovido:

—Cecilia Cecilia, quererá perdoar-me?

Cecilia estendeu-lhe a mão, sem responder, nem levantar o rosto.

Carlos curvou-se para beijal-a.

Uma lagrima assomou aos olhos de Jenny.

Erguendo-os ao céo, murmurou, dirigindo-se talvez á imagem da mãe, presente á sua imaginação:

—Obrigada! obrigada!

Que lhe agradeceria Jenny? A inspiração que d'ella lhe viera, de certo.

XXXI

O QUE SE PASSAVA EM CASA DE MANOEL QUENTINO

Voltando ao principio da manhã d'este dia, vejamos o que se passára em casa de Manoel Quentino, que assim é indispensavel á intelligencia dos ulteriores successos que temos de narrar.

Ao acordar n'aquella manhã, Cecilia não tinha ainda resolvido se aceitaria o convite de Jenny. Prolongára-se até então a lucta de resoluções, entre as quaes vacillava.

Era dia santo, como já dissemos. Manoel Quentino não tivera portanto de saír cêdo para o escriptorio. Depois de proceder a uma toilette, mais escrupulosa do que a dos dias e trabalho, envolveu-se no classico capote de cabeção, traste rico em memorias da vida passada, e desceu ao quintal, a fazer horas para a missa. Ahi, passeiando por baixo das ramadas, que de todos os lados o orlavam, e que já n'aquella época do anno se revestiam de folhas viçosas, aproveitava Manoel Quentino os raios de um desanuviado sol de primavera, cedendo pouca attenção ás flores dos alegretes lateraes, e ao gorgeio dos passaros, que por sobre a cabeça lhe andavam festejando a manhã.

O pensamento de Manoel Quentino vagueava longe d'alli.

Efectivamente todo o sombrio cortejo de ideias tristes, que a melancolia de Cecilia, havia pouco tempo, lhe suscitára, voltava a assenhorear-se de novo d'elle, e com a passada persistencia.

—Tambem esta vida, que ella passa, é de tão poucas distracções! A fallar a verdade! Aos dezoito annos! Sim… É preciso espairecer. Em vez de estar aqui a perder tempo, o que eu devo é ir por ahi fóra com ella.

E pensando assim, foi caminhando para casa.

—Cecilia—disse, ao encontrar a filha—a manhã está tão bonita! Vamos nós por ahi fóra?

—Aonde?

—Por ahi. Damos uma volta, antes da missa. Nós que fazemos aqui mettidos?

Cecilia, julgando satisfazer os desejos do pae, condescendeu.

Meia hora depois saíram ambos. Cecilia pensava ainda se se resolveria a assistir á festa do anniversario de Jenny.

Poucas palavras se trocaram entre o pae e a filha, durante todo o passeio. Vieram terminal-o a Cedofeita, aonde assistiram á missa.

Á saída do cemiterio, que, segundo o costume, foram depois visitar, Cecilia pareceu pela primeira vez saír da hesitação, em que desde a vespera estava, e disse, parando á entrada da rua, que a devia conduzir pelo mais curto caminho a casa de Mr. Richard Whitestone:

—Nem sei o que faça. Jenny pediu-me para ir passar hoje o dia com ella.

-Hoje!

—Sim, escreveu-me para m'o pedir…

—Como quizeres, filha… Ainda que hoje é dia santo e eu…

Manoel Quentino ia exprimir a pena que lhe causava o prescindir n'aquelle dia da companhia da filha, mas calou-se, receiando com isso constrangel-a. Cecilia comprehendeu-o porém.

—Eu sei, pae, eu sei que não gosta de se ver só n'estes dias, que passa em casa—e bem poucos são! Mas olhe, ha tambem certas companhias, que mais nos entristecem do que ainda a mesma solidão; e a minha hoje não podia alegral-o muito.

—Que dizes, Cecília? Que lembrança!

—Acredite-me.

—E por quê?

—Porque me sinto triste, e não poderia, por mais que fizesse, constranger-me.

Manoel Quentino commoveu-se a ponto de lhe apontarem lagrimas aos olhos.

—Eu já tinha notado essa tristeza, Cecilia, já. Não m'a descobres tu, que ha muito ella me dá cuidado—Mas, já que me fallaste n'ella, dize-me a razão: o que te afflige, o que é que tens? Não te sentes boa?

—Não me pergunte nada, meu pae; que não lhe posso… que não lhe sei responder.

Manoel Quentino ficou por algum tempo com os olhos na filha, que desviava os seus, e não pôde soltar palavra.

—Pois então vae—disse por fim Manoel Quentino—vae. A menina Jenny é boa e estou que te saberá consolar melhor do que eu… Vae! não serei eu que te aparte da companhia d'aquelle anjo.

Cecilia beijou a mão do pae, que, ao separar-se d'ella, lhe viu lagrimas nos olhos.

Á entrada da rua, por onde Cecilia seguiu, permaneceu Manoel Quentino até a perder de vista.

—Aquellas lagrimas! aquellas lagrimas!—murmurava elle, de mal comsigo mesmo por não as saber explicar—E eu que a não posso ver assim sem me dar vontade de chorar tambem! É forte cousa!

E continuou, com a cabeça baixa, a caminhar para casa.

Manoel Quentino, de distrahido que ia, não cortejou a vizinhança, acto de polidez, a que raras vezes faltava; e por pouco não ia passando além da porta de casa sem a conhecer.

Antonia, ao vel-o entrar só, perguntou admirada:

—Então a menina?

—A menina não janta em casa.

—Ora essa! E não me disseram nada!

—Ella resolveu agora mesmo.

—Sempre fazem cousas! E aonde foi ella jantar?

—A casa de Jenny.

—De quem?!

—De Jenny, do snr. Whitestone…

—Que me diz!

—Sim; a casa do snr. Richard Whitestone.

—Está bom, está! Bem digo eu!

—Então que é que tem?

—Nada; não tem nada. Visto isso, quer que tire o jantar?

—Sim, tire.

Manoel Quentino jantou pouco. Jantar, a que não assistisse Cecilia, não era jantar que lhe prestasse.

—Então o senhor não come?—dizia-lhe, a cada passo, Antonia.

—Não tenho vontade.

—Boa te vae!

Manoel Quentino levantou-se da mesa e foi sentar-se á janella.

Antonia, depois de sacudir a toalha, tossiu como quem tinha alguma cousa a dizer.

Manoel Quentino não deu por isso.

Antonia resolveu-se a tomar a iniciativa.

—Ora agora que já jantou, sempre lhe quero dizer uma cousa, snr.
Manoel.

—Diga lá.

—Ainda que, a fallar a verdade, eu não devia talvez…

—Pois então, não diga.

—Mas, por outro lado, é tambem da minha obrigação…

—Pois então, diga.

Antonia percebeu a grande indifferenca de animo, em que estava o patrão, e sentiu vontade de instigal-o um pouco.

—Ora diga-me, snr. Manoel Quentino, o senhor é cego?

—Julgo que não.

—Pois olhe que o parece. Então não tem conhecido mudança de genio cá na menina?

A pergunta alterou de facto o tom das respostas do velho guarda-livros; foi já voltado pàra a criada e com vivacidade, que respondeu:

—Tenho, sim, por quê? Você tambem?…

—Pois podéra! Aquillo são lá os modos d'ella?

—Não são, Antonia, isso não são.

—Nem para lá caminham.

—E você não sabe o que aquillo será? ella não se lhe tem queixado de algum mal, de alguma doença?…

—Doença? ora adeus! Que eu saiba não. Elle ha muitas doenças…

—Isso sei eu.

—Pois sim, mas… algumas, em que não pensa, é que… Doença do coração.

—Do coração!—exclamou Manoel Quentino, fazendo-se pallido—Pois
Cecilia queixou-se do coração? Que diz, mulher.

—Adeus, que me não entende! Quero eu dizer… Olhe… a final as cousas são assim! A menina tem dezoito annos…

—Olhem que novidade! Isso sei eu; mas queixou-se?…

—Então se sabe, se sabe, snr. Manoel Quentino, e se se não lembra de mais nada, não sei que lhe faça.

Uma ideia surgiu pela primeira vez ao espirito de Manoel Quentino, e, força é confessar, que não veio muito cêdo.

—Pois será?…—voltando-se para a criada, acrescentou com modo grave:—Antonia, você diga o que sabe. Bem vê que preciso de olhar por isso. Falle, mulher.

—Pois n'esse caso… snr. Manoel Quentino—disse a criada, como se, sómente convencida d'estas razões, se resolvesse a fallar—eu não quero encargos de consciencia, e, para seu governo, sempre lhe digo que deve vigiar por este negocio.

—Que negocio? Por que negocio hei de eu vigiar? Eu não a entendo.

—Pois não tem visto devéras o que por ahi vae?

—Eu não; você bem sabe que eu fecho a casa com as costas e por isso…

—Então aquellas visitas do filho do inglez…

—Adeus, adeus! Cuidei que era outra cousa!—redarguiu Manoel Quentino, encolhendo os hombros—Ahi vem você tambem. Pobre rapaz! Lá por ter suas verduras, já não póde entrar em uma casa, que não digam logo… Que mundo este!…

—Ai, e julga que não é assim? Então está bom. Pois ande lá, ande…

—Mas na verdade você imaginou? Ó mulher, não viu como foi e porque foi que aquelle pobre moço veio aqui a primeira vez?

—Eu, não, senhor. Pois olhe que tenho pensado bem n'isso.

—Pois não se lembra d'aquella tarde em que eu tardei e que Cecilia…

—Se me faz favor, não foi essa a primeira vez.

—Foi, sim.

—Não foi, não, senhor.

—Ó mulher! que demonio de cabeça a sua! pois, na verdade, não se lembra?…

—Eu só me lembro de que, muito tempo antes d'esse dia, veio aqui uma tarde aquelle senhor; perguntou pela menina, disse que lhe queria fallar; eu mandei-o entrar para a sala; a menina foi ter com elle; ao vel-o fez-se vermelha, como uma romã, e mandou-me sair; e eu ouvi-os estar a conversar perto de meia hora…

—Você está douda, mulher?

—Não estou, não, senhor.

—Quando foi isso?

—Logo depois do entrudo. Lembra-me bem de que foi tres ou quatro dias depois d'aquelle em que deixou ir a menina com as do Mattos; cousa que eu, no seu logar, não fazia, mas…

—Mas Cecilia não me fallou nunca n'essa visita!

—Isso sei eu.

—E você?…

A menina recommendou-me que não lhe dissesse nada, porque era uma surpreza que lhe queriam fazer… Mas, por mais que eu lhe perguntasse o que era, nada de novo.

Manoel Quentino principiava a sentir-se inquieto. Comtudo a confiança que depositava em Cecilia era tal, que, não obstante conhecer o caracter leviano de Carlos, hesitava ainda em suppôr mal do que, pela primeira vez, ouvia.

—E depois voltou?

—Até o tal dia, em que o senhor adoeceu, não; mas quem o quizesse ver era chegar, ahi a certas horas da manhã, e ao cerrar da noite, á janella.

—Sim; eu lembro-me de que ás vezes…

—Alli, a estanqueira é quem me fez reparar.

—Mas isso lá…

—Pois não tem nada, bem sei; mas, quasi sempre a menina, ás mesmas horas, estava á janella…

—Cecilia?!

—É verdade. E d'esse tempo é que vem aquella mudança n'ella.

Manoel Quentino passou a mão pela testa, como para arredar de si uma ideia afflictiva.

—Depois então—continuou Antonia—veio o pé da sua doença e dos negocios do escriptorio, e ahi o tivemos mettido em casa. Então julga o snr. Manoel Quentino devéras que elle teria paciencia para assim aturar tanto tempo, se…

—Cale-se, mulher!—exclamou Manoel Quentino, com voz alterada—Carlos é generoso. Para servir um amigo, não hesita em sacrificios.

—Será; mas olhe que não fui eu só que desconfiei.

—Era preciso ser muito infame para abusar assim da confiança de um homem velho, honrado e doente… Não; nem Carlos nem Cecilia entrariam n'essa indigna combinação!…

—Eu não digo que fosse combinação de ambos; tanto não digo eu; mas emfim… além de mim, houve quem pensasse…

—Isso sei eu; e cá recebi o golpe. A carta anonyma não deixou de me chegar ás mãos. Mostrei-a a Carlos; e saiba então que foi elle, elle proprio, que resolveu não voltar cá mais.

—Ai, sim? pois essa não sabia eu! Agora é que vejo de que casta elle é. Então quer que lhe diga? Depois que elle deixou de cá vir, uma noite ouvi correr o fecho da porta do quintal.

Era noite de luar; ainda estava a pé e espreitei á janella. A menina descia a escada do pateo.

Manoel Quentino olhava para a criada com o gesto desfigurado, e a respiração quasi suspensa.

—E depois?

—Deu-me uma pancada no coração e fui, pé ante pé, pelas escadas abaixo. Cheguei ao quintal. A menina estava á janella de grades e fallava para a rua com alguem. Com mêdo de ser vista não pude chegar-me perto e não ouvi o que diziam. Fui dar a volta, pelo lado dos limoeiros, d'onde podia ouvir melhor, mas, quando cheguei, ia a menina embora. Fui á janella, e lá o vi a elle…

—Mente! mulher! você tem estado a mentir desalmadamente!

—Ora essa, snr. Manoel Quentino! Assim Deus salve a minha alma! Isto era lá cousa que eu dissesse, se não fosse verdade?!

Manoel Quentino levantou-se e pôz-se a passeiar no quarto, com agitação.

—Pois será possivel, meu Deus, que assim possa haver maldade no coração de um homem? Carlos! Carlos, a quem eu estimava como filho, a quem eu sempre defendia, quando o accusavam de estouvado! Carlos, que se dizia meu amigo! que parecia incapaz de uma acção infame!

—Por esse mesmo tempo andava elle de carro com as comediantes…

—Se tudo isto é verdade… então… Oh! mas Cecilia tambem… Cecilia!
Ella dissimular, fingir… enganar-me! Ella!…

E o pobre velho quasi se suffocava a chorar.

—Custa-me estar a affligil-o assim, snr. Manoel Quentino; as então? que se lhe ha de fazer?—continuava Antonia—Quando ha pouco me disse que a menina tinha ido jantar a casa do inglez… veja lá, sabendo eu o que sabia… veja como devia ficar.

—Jenny foi quem a chamou; junto d'aquella nada receio por Cecilia… De todos posso vir a duvidar—quem sabe o que terei ainda de aprender?—mas de Jenny, d'essa!…

—E seria de facto a snr.ª Jenny quem mandou chamar a menina?

Manoel Quentino fitou a criada com olhar fulgurante de indignação.

—Que damnada tenção tem você hoje de me inquietar, mulher? Que maldita suspeita é essa, lingua de vibora? Não vê que póde matar-me com essas palavras envenenadas, não vê, demonio?

—Deus me perdoe, snr, Manoel Quentino, que não faço isto por mal. Mas, sabe o amor que tenho á familia, e não queria que alguma desgraça acontecesse…

—Cale-se, mulher, cale-se! Eu sei que são boas as suas intenções; mas
Cecilia disse-me que Jenny fora quem a convidara.

—Pois eu não digo que não. Eu sei até que a menina hontem recebeu uma carta de mando da snr.ª Jenny; ella não me disse o que ella continha, nem eu lh'o perguntei. Mas, esta manhã, logo depois que saíram, veio ahi um criado de lá com outra carta; não era o mesmo, mas sim um que eu vi, no dia do passeio com a comediante, e que, pelos modos, é criado só do rapaz.—De quem vem essa carta? perguntei-lhe eu.—«Vem, disse o brejeiro, com modos avelhacados e sorrindo, vem de miss Jenny». Mas, eu não sei… a carta é tão differente das que…

—E essa carta?—perguntou Manoel Quentino, fóra de si.

—Essa carta está lá dentro.

—E Cecilia?…

—Esta não a leu ella, porque veio depois que saíram.

—Vá buscar-m'a.

—Mas talvez seja da filha, talvez; eu…

—Vá buscar-m'a—exclamou Manoel Quentino, elevando mais a voz.

Em poucos momentos foi executada a ordem.

Manoel Quentino passeiava, levava as mãos á cabeça, fechava os olhos, aspirava com ancia, parecia louco.

Antonia trouxe a carta. Manoel Quentino lançou os olhos para o sobrescripto e estremeceu.

Reconhecera o talhe da lettra de Carlos!

Deixou-se cair com desalento na cadeira que tinha proxima.

—Ó meus Deus! estarei destinado a este infortunio?…—murmurava elle, com a cabeça escondida entre as mãos, através das quaes passavam as lagrimas.

Depois, com movimento de raiva, tentou abrir a carta que conservava ainda nas mãos; mas suspendeu-se por um melindroso sentimento de delicadeza, que não conseguiu vencer.

—Não, não a abrirei! Não ha infamia que desculpe uma villeza.

Antonia, que promettera farto alimento á curiosidade, suspirou de despeito.

—Então não lê?

—Não—respondeu sèccamente Manoel Quentino, que principiou de novo a passeiar pela sala a passos largos. Depois, tomando uma subita resolução, parou e disse, erguendo a cabeça:—Antonia, o meu chapéo e o meu casaco.

Antonia abriu para elle os olhos espantados.

—Credo! que vae fazer, senhor?

—O meu chapéo e o meu casaco!

—Snr. Manoel Quentino! onde é que quer ir? O senhor não está em si!

—Não ouviu, mulher?! O meu chapéo e o meu casaco!

Havia na voz do pae de Cecília uma entonação especial, que, sendo nova para a snr.ª Antonia, não pôde a experiencia d'ella dizer-lhe de que seria presagio, e por isso prudentemente resolveu obedecer, sem mais commentarios.

Dentro em pouco, voltou com os objectos pedidos, dizendo apenas, como a mêdo:

—Mas, aonde vae, senhor?

—Saber a verdade—respondeu Manoel Quentino; e, sem ulterior explicação, desceu apressado as escadas.

Antonia parecia paralysada de espanto.

—Sume-te!—dizia ella—O homem vae varrido! Ora queira Deus! queira Deus que elle não vá para ahi fazer alguma! Nossa Senhora nos livre de tentações do demonio e dos mais inimigos da alma.

A snr.ª Antonia professava um odio, desenganadamente cordial, contra os taes inimigos que mencionou.

XXXII

OS CONVIVAS DE MR. RICHARD

Na mesma manhã, em que se realisaram os acontecimentos narrados nos ultimos capitulos, Mr. Whitestone, depois de muito lidar no jardim e na estufa, transplantando, mondando, alporcando, semeiando, regando as varias plantas da sua collecção, com não pequeno detrimento de muitas, recolhera-se emfim ao gabinete, e por curiosidade abrira o volume da Vida e Opiniões de Tristram Shandy, mina inesgotavel de prazer e de instrucção para o bem disposto gentleman. De cada vez que o lia—e raro era o periodo de vinte e quatro horas que passava sem o fazer—descobria no livro cousas novas, sérias, jocosas, philosophicas, de profundeza especulativa, de utilidade prática, tudo emfim. Mr. Richard mostrava-se intimamente convencido da opinião expressa por o proprio Sterne, a respeito d'esta obra singular e de difficil classificação: «O verdadeiro Shandeismo dilata os pulmões e o coração (diz elle algures), e á maneira de todas as affecções que participam d'esta propriedade, faz com que o sangue e os outros guias vitaes do corpo corram livremente em seus canaes e que gire livre e desimpedida a roda da vida.»

Ora effectivamente meia hora de leitura de uma pagina humoristica de Sterne era em Mr. Richard remedio efficaz contra melancolias e contrariedades na vida.

Abrira Mr. Richard o livro ao acaso, e lia agora a pagina, em que se diz como o pae de Tristram, ao saber da morte de um dos filhos, encontrára lenitivo, em lhe ser este acontecimento pretexto para considerações philosophicas a respeito da morte.—«Um bem que encadeiasse a lingua de meu pae (diz Tristram), e um infortunio que a soltasse, eram quasi iguaes para elle, e ás vezes era o infortunio o mais apreciado dos dois.»

Estas palavras deram que pensar a Mr. Richard; elle imitava estes apreciadores de vinho que conservam muito tempo no paladar cada gole que sorvem, e olham com indignação para os grosseiros bebedores, que despejam de um trago tão preciosa bebida.

—E é assim;—reflectia elle, pousando o livro e saboreando a consideração que lera—ou mais ou menos succede o mesmo com toda a gente. Se fosse possivel fazer correr o mundo tanto á vontade dos que d'elle murmuram constantemente, que se lhes tirasse todo o pretexto de murmurar, causar-se-lhes-hia não pequena mortificação.

Estes pensamentos foram interrompidos por o criado, que entrou para annunciar:

—Mr. Morlays.

Verbi gratia—disse para si Mr. Richard, depois de ter dado ordem de mandar entrar o annunciado.

Effectivamente o inglez, que chegava, era um d'estes pessimistas, para quem o universo inteiro se apresenta tingido das mais escuras côres; era uma victima, ao mesmo tempo lastimavel e insupportavel, do mau humor, que o douto Feuchtersleben chama—prosa vulgar da vida, irmão do tédio e da preguiça e envenenador que lentamente traz comsigo a morte.

Mr. Whitestone, homem laborioso e contente do mundo, estava em constante opposição ao seu compatriota e amigo, que era d'estes que teem feito adquirir aos nevoeiros de Londres a immerecida fama de fomentadores do splen—fama, contra a qual principiam, com muito criterio, a protestar os homens pensadores, descobrindo antes na ociosidade, favorecida por as fabulosas riquezas de alguns lords, a causa d'aquelle mal de suicidas.

O aspecto de Mr. Morlays denuncial-o-hia á medicina antiga como uma victima d'esse mysterioso humor negro, que ella chamou atrabilis. Era a variedade do inglez, que póde denominar-se escura; e a escuridade, que lhe estava no rosto, projectava-se-lhe tambem nas disposições moraes.

O gabinete, em que se reuniam os dois inglezes, era um compendio do quanto póde tornar o curso da vida facil e suave; tudo alli respirava conforto; tudo favorecia aquelle doce repousar de fadigas melhor do que por ninguem saboreado pelos Her magesty's subjects, residentes nos nossos climas meridionaes.

Cadeiras de varias fórmas e mecanismos, nas quaes se esmerára o genio inventivo em multiplicar e variar as molas, em distribuir as articulações, em combinar os movimentos, em contornar os angulos e saliencias até accommodal-as, o mais possivel, a todas as posturas, por mais caprichosas e extravagantes, que o instincto do repouso as podesse suggerir; tapetes, onde os pés se profundavam como na relva dos campos; cortinas a temperarem a intensidade da luz, e finalmente o fogo, companheiro inseparavel d'estas organisacões do norte, ainda n'aquelle mez quasi de estio, a crepitar e a lamber com a lingua inflammada as grades do fogão. Mr. Whitestone pensava como S. Francisco de Salles, a quem attribuem a opinião de que o fogo é bom durante doze mezes no anno.

Mr. Morlays encontrou em tudo isto motivos para observações de critica atrabiliaria.

—Maus habitos, Mr. Richard, maus habitos! Estes costumes elanguescedores são os que tem operado a visivel degeneração da raça humana. As escrofulas…

—Misericordia, Mr. Morlays! Que feia palavra para antes de jantar!—exclamou Mr. Richard, rindo.

—São os males da civilisação. Depois do assucar, o peior inimigo do nosso organismo é o fogão.

—Então o assucar tambem?

—O assucar! Eu tenho para mim que a mais lastimosa descoberta da industria do homem foi a d'esse pó insidioso, que traiçoeiramente nos tem envenenado o corpo todo, misturando-se ao sangue…

—É celebre! Eu tinha ideia de que Mr. Morlays era até apaixonado pelo doce!

—E que prova isso? A nossa natureza é feita assim. Adquirido o habito do mal, até o mal, até a dor, lhe é indispensavel.

Mr. Richard ficou algum tempo calado, como a meditar sobre a lei do habito enunciada pelo seu amigo.

Depois perguntou:

—Não haverá meia hora na vida, durante a qual Mr. Morlays veja este mundo com bons olhos?

—O defeito não está nos meus olhos, creia; mas no que a elles se apresenta de contínuo. Este é o peior dos mundos, acredite.

—Tristram Shandy—disse Mr. Richard, sorrindo—lamenta tambem não ter nascido na lua ou em outro qualquer planeta, excepto Jupiter e Saturno, por causa de serem muito frios; por isso que, diz elle, em outro qualquer não lhe podiam ter corrido as cousas peior do que n'este, o qual elle julga ter sido feito com os acrescimos e as aparas dos outros… Eh! eh! eh!… Mr. Morlays não hesitaria em dizer o mesmo; estou vendo.

—E por que havia de hesitar?

O criado, entrando outra vez, annunciou Mr. Brains.

—Oh! oh!—disse Mr. Richard—ahi vem o antidoto contra a sua influencia pessimista.

—Este vê tudo azul-celeste!—notou Mr. Morlays, com sorriso de commiseração.

Ouviu-se no corredor uma voz cantando jovialmente:

God save Victoria! Long live Victoria! God save the Queen!

E Mr. Brains, inglez que reagia pertinazmente contra a sisuda etiqueta nacional, entrou com grande exhibição de cumprimentos e mesuras para a direita e para a esquerda, simulando atravessar por entre filas de personagens, que o saudavam, e ia dizendo:

—Mylords! myladies! gentleman! sem incommodo! sem incommodo!—e chegando perto de Mr. Richard:—Bons dias, lord Whitestone, bons dias; folgo muito de vos ver tão bem disposto. Oh! nosso leal subdito, lord Morlays!—como vae o diabo preto, que vos acompanha para toda a parte?

—Não tão bem disposto como o diabo côr de rosa de Mr. Brains.

—Nem por isso, nem por isso. Descuidou-se hoje, deixando-me varrer todas as ostras do mercado, sem me reservar nenhuma! Cheguei a acreditar que Mr. Morlays tinha razão; o mundo tem provações! Eh! eh!…

—Ria, ria. Eu confesso que me seria difficil imaginar outro mundo peior.

—Oh! Para isso basta supprimir as ostras da creação. Perde logo cincoenta por cento do valor que tem. Eh! eh! eh! Uma comida leve, que não compromette o estomago! antes o predispõe a mais substancial refeição.

Não acompanharemos, através das diversas transições, o longo e substancioso dialogo mantido entre os tres inglezes.

As questões mais graves, que agitavam então as intelligencias e pejavam de papeis os gabinetes diplomaticos da Europa, o destino das nações, a futura sorte dos povos, tudo, n'aquella manhã, foi tratado por elles e decidido em termos categoricos e com tanta consciencia e infallibilidade, como só a dá e permitte o fôro de subdito inglez, cujos privilegios, debaixo d'este ponto de vista, parece não terem limites. Monarcas, generaes, ministros, diplomatas, publicistas, todos passaram em comprida procissão aos olhos d'este triumvirato, que os julgou e sentenciou com a impavidez e precisão proprias do espirito britannico.

A guerra da Crimeia historiaram-a elles a seu modo: com grande exaltação da Inglaterra, e acerba critica da França, a cujo exercito nada mais concediam senão uma fanfarronice, ás vezes feliz.

Escusado será dizer que tudo isto era condimentado com reflexões lugubres de Mr. Morlays e com ditos joviaes de Mr. Brains. O primeiro, para deprimir a França, inventava exemplos de crueldade, e quasi de canibalismo, commettidos pelo soldado francez: o segundo, com o mesmo patriotico fim, contava anecdotas comicas, nas quaes se demonstrava o quixotismo dos alliados da velha Inglaterra. Mr. Whitestone aceitava tudo de boa vontade.

A illacão, que dos seus arrazoados tirava Mr. Morlays, era quasi sempre esta:

—Este mundo é um covil de feras!

A de Mr. Brains formulava-se de ordinario assim:

—Este mundo é um grande theatro.

Pouco a pouco, ascendeu a conferencia a mais sublimados assumptos. A questão politica abriu campo a mais vasta questão social, onde os dois inglezes continuaram a conservar cada um a sua provada individualidade ao serviço da causa da patria commum.

Mr. Brains, o optimista, abraçava-se com entranhado affecto ás utopias. N'este momento, estendendo a vista através dos seculos futuros, estava percebendo ao longe a tão almejada unidade dos povos, realisada por uma só nação, por uma legislação unica, por uma lingua commum; a suppressão da palavra «guerra» d'esse vocabulario universal, em consequencia de não ter objecto a que se applicar; e depois a materia, subjugada pela intelligencia, obrigada a trabalhar, e o espirito, livre da attenção as impertinentes exigencias da vida positiva, a entrar em especulações de ordem superior, em concepções metaphysicas.

—Então é que se realisará o ultimo fim do homem na terra! Que não viva eu, Mr. Whitestone, para saudar esse grande dia! Que não possa dizer, na lingua universal de então, o meu «bom dia» ao sol que romper!

Mr. Richard, sorrindo com ares de quem não tinha fé muito ardente em tão dourado futuro, perguntou:

—E que lingua será essa, Mr. Brains? alguma das existentes hoje, que se generalisará; ou outra nova, que terá de se formar ainda?

—Quem o póde dizer, Mr. Richard? Isso é segredo do futuro. Mas não ha duvida que existem grandes plausibilidades a favor da ingleza.

—Ah! sim?

—Por certo. Primeiro que tudo, é a Inglaterra a primeira nação colonial. Em todas as cinco partes do mundo é já familiar o inglez. A joven America, nos seus elementos mais vigorosos, nos que hão de vencer os outros, é de origem ingleza tambem. E depois, meu caro Mr. Richard, a França tem em si inoculado o principio destruidor, que ha de sacrifical-a; a França é papista, o que vem a ser o mesmo que estar condemnada á morte. Demais, o caracter philosophico da lingua ingleza…

Não o seguiremos agora na dissertação philologica, cujo corollario foi que, com o andar dos seculos, toda a humanidade fallaria inglez—lei que, se se realisasse, talvez concorresse a produzir grave desafinação na celebrada harmonia dos orbes, pelo lado da humanidade.

Mr. Morlays tomou a palavra para ir á mão ao compatriota.

Como era de prever, não tinham tanto de lisongeiras as vistas de Mr. Morlays sobre os destinos sociaes. A humanidade, principalmente a que não era ingleza, não devia, pensava elle, bater as palmas ao futuro, que se lhe antolhava.

Sempre que meditava n'estas cousas, Mr. Morlays, em vez de sorrir a utopias, sonhava catastrophes. Foi por isso que ponderou em tom lugubre:

—Não creio, Mr. Brains, não creio que seja possivel realisar-se d'essa maneira e por o successivo progresso dos povos essa nacionalidade univesal. Segundo o que eu tenho lido, o mundo, em que pousamos os pés, é essencialmente sujeito a convulsões; encerra um nucleo inflammado, que, a cada momento, lhe está alterando a superficie. Grandes cataclismos tem já presenciado a humanidade, e quem sabe quantos presenciará ainda? Parte dos continentes que habitamos, segundo se lê nos livros dos naturalistas, foram outr'ora todos cobertos de aguas; sendo de crer que nações de outros tempos estejam sepultadas hoje nos abysmos do mar. Ora, se no futuro se operarem ainda d'essas revoluções, como é plausivel acreditar, a parte continental do globo será submergida e do seio das aguas surgirão superficies não povoadas. O que é possivel é que, em virtude das especiaes condições geographicas da Inglaterra e da sua natureza insular, ella não participe da sorte dos grandes continentes, dos quaes está desligada; que prevaleça e sobreviva á ruina e submersão d'elles, vendo até acrescerem ao seu territorio as novas terras, que o cataclismo arrancar do fundo dos mares. Então talvez, e só assim, se poderá realisar o futuro, que Mr. Brains imagina, sendo os inglezes os unicos possuidores do globo.