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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 71: A SENTENÇA DO PAE
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

Depois, como se receiasse que esta tão extravagante como patriotica theoria geologica não tivesse sido comprehendida, acrescentou:

—Porque… reparem. Vejam este chapéo—e tomou para exemplo o chapéo de panno, que servia a Mr. Richard durante as suas operações horticolas.—Supponhamos esta copa o mundo; sendo as saliencias das dobras os continentes, e as cavidades os mares; aquella pequena saliencia do meio, que fica isolada das outras, seja a Inglaterra. Carregando eu nas saliencias exteriores, até as desfazer, as cavidades elevam-se e vão augmentar a saliencia do meio. Vêem?

E, como para não perder a feição pessimista ainda n'esta concepção, concluiu:

—Talvez fosse uma felicidade que todas as saliencias se desfizessem de vez!

Já vêem os leitores que, embora por processos differentes, os dois compatriotas de Peel aguardam com fé viva o mesmo phenomeno na historia do futuro:—O soberano predominio da nação ingleza sobre o mundo inteiro.

Esta é de facto a crença de todo o verdadeiro inglez, diversificando apenas, como os dois grandes exemplares que o leitor tem á vista, na maneira de concebel-a realisada.

Mr. Richard sorriu á theoria historico-geologica do amigo.

—Será bom que, por cautela, nos vamos passando para a ilha, Mr. Morlays. O fundo dos mares não é grande clima para viver, e o consul de sua magestade não nos isentará de sermos engulidos como simples portuguezes.

Mr. Brains applaudiu cordialmente a observação do amigo Richard.

Á medida que se adiantava a manhã e que os odoriferos vapores da cozinha, atravessando as salas, chegavam ás pituitarias, britannicamente apuradas, dos convivas, a conversa principiou a baixar das alturas, por onde pairara, para assumptos mais terrenos e comesinhos.

Ás tres horas, sentindo o instincto a impellil-os para a mesa do jantar, abandonaram os tres inglezes o gabinete de Mr. Richard e passaram para a sala de recepção, onde Jenny e Cecilia, sentadas uma junto da outra, conversavam intimamente.

XXXIII

EM HONRA DE JENNY

—Oh! fez bem em vir, Cecilia;—disse Mr. Richard, caminhando com a mão estendida para a filha de Manoel Quentino—fez bem em vir alegrar a festa de Jenny.

—Alegrar!—repetiu Cecilia, trocando com a sua amiga um olhar de melancolia e de intelligencia.

—Alegrar, sim—respondeu Jenny, apertando-lhe as mãos com affecto.—Então cuida que não é alegria sufficiente a que a sua presença nos dá?

Cecilia suspirou.

—Está doente, Cecilia?—perguntou Mr. Richard, reparando para o ar de abatimento que se lhe lia no semblante.

—Uma ligeira indisposição, de que me prometteu hoje mesmo curar-se, em attenção aos meus annos, não é verdade?—respondeu Jenny por ella e em ar de gracejo.

Mr. Morlays, o lugubre, aproximou-se n'este momento de Jenny.

—Miss Jenny—disse elle—eu costumo saudar com jubilo os anniversarios das pessoas que estimo, como mais um passo dado para o livramento da vida.

—Oh! Mr. Morlays—respondeu Jenny, sorrindo—tão pesado lhe parece o captiveiro, para assim suspirar pelo termo d'elle?

—Deixe-o fallar, miss Jenny;—acudiu Mr. Brains—o mau humor de Mr. Morlays explica-se até pela presença de algumas brancas entre os seus cabellos ruivos e pelas duas sinistras pégadas de pata que já se lhe divisam no canto das orbitas.

Mr. Morlays fez uma careta e encolheu os hombros; mas não respondeu.

—Nós outros—acrescentou Mr. Brains—nós outros, os feios e fortes da humanidade—eh! eh! eh!… temos razão para nos lamentar, á aproximação das horas do occaso; mas as que na vida nos servem de astros… essas são sempre brilhantes; porque, até no occidente, nos encantam as estrellas. Veja pois sem cuidado correr o tempo, miss Jenny.

Esta galanteria, de um requinte britannico, mereceu a desapprovação de
Mr. Morlays.

—É inexacta comparação—tornou sisudamente—essa dos astros á vida do homem. A quéda e o extinguir dos astros são ficticios. Occultam-se-nos, mas não se apagam. Melhor se compararia a vida a um foguete.

—Oh! A um foguete? Singular comparação!—exclamou Mr. Brains, rindo.

—Vamos lá a ver, vamos lá a ver—disse Mr. Richard Whitestone, sentando-se.

Mr. Morlays, medindo a sala a passos largos, desenvolveu a imagem, assim:

—O homem, como o foguete, principia a animar-se por uma faisca que se ateia; eleva-se então com chamma e estrondo, pára um momento… e depois… estoura, e cáe veloz, silencioso, extincto, deixando na terra sómente o esqueleto que o fogo já não anima.

Mr. Richard sorriu á original imagem do seu amigo e conviva.

Mr. Morlays tem razão.

—E quando daremos nós o estouro da metaphora?—perguntou o risonho Mr. Brains, mostrando uma fileira de bem ordenados dentes, e depois acrescentou:—Concordo com Mr. Morlays; mas peço-lhe que note que se ha foguetes que descem como elle diz, silenciosos e extinctos, a arte pyrotechnica tem inventado tambem alguns, cuja quéda é alumiada por lagrimas de côres, que os acompanham até á terra. Eu por mim imitarei ao caír o foguete de lagrimas… Eh! eh! eh!

A conversa continuou n'este teor e fórma, até á chegada de Carlos.

Cecilia, vendo-o entrar, aproximou-se da janella, onde Jenny se lhe foi em breve reunir.

Mr. Brains saudou Carlos, cantando:

I'm afloat! I'm afloat, etc., etc.

que são as primeiras palavras de uma popular canção ingleza.

Carlos correspondeu, sorrindo, ao cumprimento.

Mr. Morlays não foi menos caracteristico do que o companheiro.

—Ainda mais outro anno nos encontramos aqui, Mr. Charles. Quem sabe onde para o anno terá de ir quem nos quizer procurar?

Mr. Brains apressou-se a responder.

—Ao cemiterio do Campo Pequeno, de certo que não, Mr. Morlays; porque, quando para alli resolvesse ir, escusado seria procural-o lá, porque é de crer que não estivesse de humor para tratar de negocios. Eh! eh! eh!…

A hilaridade não se communicou a Mr. Morlays, que pelo contrario ficou mais sombrio.

Mr. Whitestone, desde que o filho entrára, occupava-se em uma singular tarefa. Foi sentar-se ao piano e principiou a correr os dedos pelas teclas com presteza e com uma desharmonia só supportavel ao seu ouvido inglez.

Esta especie de divertimento era d'aquelles, a que, por excentricidade, mui frequentemente se entregava.

Felizmente para os dois convivas, os ouvidos d'elles não eram mais pechosos em cousas de harmonia, do que os de Mr. Richard; porque se não fosse isso, nem eu sei calcular os resultados gravissimos que podia ter aquella barbara occupação.

Cecilia, Jenny e Carlos, esses estavam muito absorvidos por os proprios pensamentos, para que os incommodasse o selvagem prazer de Mr. Whitestone, sob cujos dedos gemia, como um suppliciado, o magnifico piano de Erhard, victima d'esses caprichos anti-musicaes.

Emquanto isto se passava, Cecilia dizia a Jenny:

—Por favor lh'o peço, Jenny! Deixe-me ficar aqui! Eu não sei se poderia por muito tempo suster esta tristeza que se me pôz no coração. Tenho mêdo de chorar.

—Creança!—respondia Jenny—Não estou eu ao pé de si? Não seja assim fraca. Esse seu coração deu-se agora a phantasiar desgraças impossiveis, que não se concebem.

—Impossiveis?!

—Impossiveis, sim. Olhe, Cecilia; eu andei primeiro do que a menina em imaginar futuros negros. Cecilia ria ainda e eu estava já séria. Este Carlos tem-me obrigado muitas vezes a isto e d'esta vez sobre tudo…

—Jenny!

—D'esta vez sobre tudo, porque eu sabia que era um coração que elle encontrára no caminho e… aquelle estouvado podia não reparar… e magoal-o. Avisei-o.

—Ó Jenny!

—Avisei-o; porque, bem vê, Cecilia, todos os sacrificios são dolorosos. Sacrificar orgulhos, sacrificar vaidades, sacrificar até caprichos, tudo é sacrificar; e eu não imagino que isso se faça sem esforço; mas os sacrificios do coração… oh! esses…

—Matam!—concluiu Cecilia, quasi insensivelmente.

—Pois não matam? Isso sabia… quero dizer—emendou a sorrir—isso suppunha eu. Por isso pedi a Carlos que se esquecesse… Sim, que se esquecesse; no tempo em que eu lhe pedia isto, talvez ainda não viesse d'ahi grande mal.

Cecilia não respondeu. Um suspiro respondeu por ella.

—E quem sabe—proseguiu Jenny, olhando-a—se seria eu que me enganava ao pensar assim? É certo porém que meu irmão não me obedeceu.

—Não?—interrogou Cecilia, com expressão de duvida.

—Não; longe de esquecer, avivou impressões, e em poucos dias eram já tão fundas, que me assustavam.

Cecilia meneou a cabeça ainda, como quem duvída.

—Vamos, Cecilia; não me olhe d'essa maneira. Quem lhe ensinou a desconfiar assim? Com quem aprendeu esses modos de sorrir, tão pouco da sua idade?

Cecilia baixou, silenciosa, a cabeça.

—Convencida de que se passavam cousas novas no coração de meu irmão…

—E convenceu-se d'isso?

—Convenci. Não eram os antigos caprichos, muito meus conhecidos. Não eram aquellas phantasias, que tão bem se davam com os seus habitos de vida, que nem o obrigavam a alteral-os.

—Não eram?

—Não. Com grande espanto meu, vi-o mudar. Fez voluntariamente o que nem os meus rogos…—pois eu creio que bem vontade teria de me satisfazer—o que nem os meus rogos haviam conseguido. Desde que o percebi, desde que assim o vi tão outro do que sempre fora, mudei tambem de pensar. O meu unico fim, Cecilia, creia, era a felicidade de Carlos e a sua. Emquanto julguei que ella estava no esquecimento a tempo, trabalhei por apressal-o; desde que me convenci de que este esquecimento era impossivel, desde que me convenci de que não era n'elle que estava a felicidade… então… voltei os esforços em direcção diversa.

Tocou a campainha, annunciando o jantar.

Os dois inglezes, tão insensiveis ao escandalo musical perpetrado por Mr. Richard, estremeceram agora á voz do instrumento, tocado pela desembaraçada mão do escudeiro na sala do jantar.

—Para a mesa!—exclamou Mr. Richard, deixando em paz o piano—Não temos a esperar por ninguem.

Em consequencia da recente morte de Kate, os convites não se tinham estendido além dos dois intimos da casa—Morlays e Brains.

Os dois inglezes e Carlos encaminharam-se para as duas senhoras.

Cecilia, vendo-os, disse segurando a mão de Jenny:

—Jenny, Jenny; se é minha amiga, deixe-me ficar aqui!

—Que diz, Cecilia?

—Não posso, sinto que não posso forçar-me a ponto de…

Calou-se, estremecendo.

Carlos estava junto d'ella, offerecendo-lhe o braço para a conduzir á sala do jantar.

Jenny tinha fitado attentamente a sua amiga, e parecera convencer-se de que lhe seria effectivamente custoso o constrangimento de algumas horas, a que se ia sujeitar.

—Não, Charles;—disse, em vista d'isso e sem desviar os olhos d'ella—Cecilia não póde fazer-nos companhia. Está incommodada e precisa de alguns minutos de repouso.

Mr. Richard aproximou-se, perguntando o que era.

—Nada;—respondeu Jenny—mas seria crueldade constrangel-a. É um incommodo passageiro, mas, em todo o caso, é um incommodo.

—Será bom retirar-se ao quarto de Jenny.

Cecilia escusou-se, dizendo que ficaria bem alli.

Jenny prometteu vir em breve fazer-lhe companhia.

Mr. Whitestone indicou uma poltrona propria para descanso, e foram jantar.

—Que quer isto dizer, Jenny?—perguntou Carlos, encontrando-se com a irmã á porta da sala.

—Que está a chegar o momento de dizeres adeus ás tuas leviandades,
Charles. Quero ver que fundo de sisudez ha n'este meu estouvado irmão.

—Mas…

—Repara que esperam por nós.

E entrando para a sala, tomaram logares á mesa.

O leitor não espera de mim a fiel enumeração de todos os pratos, com que se adornou n'este dia a mesa, sempre abundante e variada, de Mr. Richard.

Nada faltou de tudo quanto possue o cunho caracteristico da cozinha britannica, desde o roast-beef ao plum-pudding, desde a batata ao chester.

Os tres inglezes fizeram as devidas honras á maestria do cozinheiro. Mr. Morlays chegou a sorrir; Mr. Brains esgotou todas as interjeições do vocabulario patrio e assegurou que nem no Erectheum club, em St. James square, se jantava melhor; Mr. Richard Whitestone contou todas as suas historias e expôz theorias de culinaria.

Jenny e Carlos eram os unicos silenciosos e preoccupados. Jenny via com impaciencia a morosidade do jantar e escutava distrahida os cumprimentos dos convivas. Carlos tremeu, como nunca, perante o inesgotavel thesouro das reminiscencias paternas.

Com todos os vagares foi o jantar aproximando-se d'aquella phase critica dos jantares, especialmente inglezes, em que a gravidade e a etiqueta são postas de lado inteiramente, em que a parte feminina levanta arraiaes e foge amedrontada ante as bandeiras da orgia que, aos primeiros toasts, começam a desenrolar-se; e em que os convivas masculinos, livres do unico laço que os refreiava, preparam-se a reproduzir nas salas scenas vulgares em mais baixos tablados.

Nada falta: vinhos entornados, crystaes partidos, toasts interminaveis, discussões em que ninguem sabe o que discute, corpos estendidos por debaixo da mesa e, em alguns, um somno digno dos sete dormentes.

Tinha attingido o jantar de Mr. Whitestone este periodo de transição.

Jenny agradecera os primeiros brindes que lhe foram dirigidos.—O proprio Mr. Morlays fora diffusissimo na sua saudação, que parecia haver modelado por a de um personagem de Dickens, como se verá do seguinte excerpto:

—E sendo Mr. Richard Whitestone um dos raros caracteres honrados que se encontram na vida—terminára Mr. Morlays—e sendo miss Jenny Whitestone em tudo digna filha de Mr. Richard Whitestone, eu faço votos pela felicidade de Jenny Whitestone, para que possa assim recompensar Mr. Richard Whitestone pela sua honradez, probidade, cavalheirismo; recompensa que Mr. Richard Whitestone não póde nem deve esperar do mundo. Sendo demais miss Jenny Whitestone a terna irmã de Mr. Charles Whitestone, coração leal, generoso, sem fermento de maldade social, eu, bebendo á saude de miss Jenny Whitestone, brindo tambem Mr. Charles Whitestone, porque o sentimento fraterno faz uma só d'aquellas duas almas, da mesma sorte que miss Jenny Whitestone receberia, como dirigido a si, um toast a Mr. Charles Whitestone, seu affectuoso irmão. De maneira que este brinde individual a miss Jenny Whitestone transforma-o a sympathia cordial que liga esta familia exemplar em um brinde collectivo á familia Whitestone. Miss Jenny Whitestone!

E bebeu.

Hear! hear!—applaudiu Mr. Brains, batendo com os nós dos dedos na mesa, o que já fizera durante todo o speech, mais por força de habito, do que por se tornar necessario o recommendar attenção em tão limitada e attenta assembleia.

Jenny agradeceu modestamente o eloquente discurso.

Mr. Richard brindou os hospedes em termos não menos laconicos.

Carlos, em poucas palavras, desempenhou-se de identicos deveres.

E os toasts succediam-se e o nivel do liquido descia nas garrafas de crystal.

Jenny levantou-se. Era tempo de deixar sós os convivas. Ia soar para elles a hora de liberdade.

Carlos viu com inveja o movimento da irmã. Não a poder imitar! Ficou porém.

A desapparecer atraz do reposteiro da sala a ultima dobra do vestido branco de Jenny e uma transformação completa a operar-se na scena.

Mr. Brains passou a perna por cima do braço da cadeira e deixou-se escorregar até ficar com a cabeça á altura da mesa. Mr. Morlays estendeu os cotovêlos por esta adiante, metteu a cabeça entre as mãos, posição na qual as faces lhe tomaram um geito de caricatura, eminentemente comico; Mr. Richard, esse fez balançar a cadeira sobre os dois pés posteriores.

Àccenderam-se charutos, cobriu-se de fumo a atraosphera da sala, encheram-se e despejaram-se copos sobre copos.

Os criados retiraram-se discretamente.

—Uma canção, Mr. Brains—disse Mr. Richard Whitestone.

—Mr. Morlays que cante—respondeu aquelle.

—Ho! Mr. Morlays! Seria capaz de nos cantar um dies illa—notou Mr.
Richard, rindo.

Mr. Morlays fez uma careta, com pretensões a sorriso.

—As digestões costumam reconciliar Mr. Morlays com a humanidade—dizia
Mr. Brains.

—As feras saciadas são menos terriveis—acrescentou Mr. Richard jovialmente e batendo com familiaridade no hombro do seu amigo Morlays.

Este tornou a sorrir, a seu modo.

—Vamos á canção!—insistiu Richard, voltando-se para Mr. Brains—Vamos á canção.

—Mas a presença aqui do amigo Morlays faz receiar que succeda como no brinde de Lucrecia. Lembra-se? Se nos saía vinho de Syracusa?

Depois dos risos, concedidos á reflexão de Mr. Brains, este dispôz-se a cantar.

Nós, os portuguezes, que mais de que uma vez alcunhamos de sorumbaticos e melancolicos os nossos alliados bretões, somos talvez na Europa o povo mais sisudo e grave dos tempos modernos.

Eu creio que nem a philosophia e o landwehr da Allemanha; nem o knout e a sombria política da Russia; nem os fuzilamentos e o militarismo da Hespanha; nem os meetings e os fenians da Inglaterra; nem o suffragio universal e a febre napoleonica da França, teem conseguido tornar as respectivas nações mais avêssas ao canto, do que a nossa. Com o nosso céo, com a nossa vegetação, com os nossos vinhos e com a nossa lingua e com tão pouca disposição para nos occuparmos de cousas sérias—e n'esse particular nenhum povo nos leva a palma—esta quasi aversão que temos ao canto, denota uma indole essencialmente sisuda e pouco de gente do meio-dia.

Em qualquer jantar nacional, qual seria o conviva que teria coragem para imitar Mr. Brains, satisfazendo ao pedido do seu amphitryão e dispondo-se a cantar?

E, se algum houvesse, com que olhos de escandalisados o não encarariam os outros?

Ninguem ha mais pussillanime diante do ridiculo do que o portuguez; ninguem que mais corajosamente o encare de face, do que o cidadão britannico. Ora o ridiculo imita os costumes insidiosos de certos cães, que mordem as pessoas que lhes fogem, e recuam diante de quem os espera a pé firme.

O que é verdade é que Mr. Brains, vergando-se sobre as costas da cadeira, com as pernas estendidas, os olhos meios fechados, a mão pousada sobre o corpo, principiou a cantar com voz de impossivel classificação, em timbre nazal e em musica inglezamente monótona, uma canção de Sharpe feita para occasiões como esta.

O sentido era pouco mais ou menos este:

  Vá! sem mêdo enchei os copos
  De vinho, côr de rubim;
  Levem-o aos labios as damas;
  Consagral-o-hão assim.

  No peito o vinho alimenta
  Da amizade o almo calor,
  E o engenho d'elle regado,
  Ascende em vôo maior.

  Enchei os copos, fiae-vos
  N'esta bebida de reis
  Com tanto que…

Estava escripto que os dotes vocaes e os talentos artisticos de Mr. Brains não seriam devidamente apreciados. A lembrança da scena do banquete da Lucrecia fora até certo ponto fatidica!

De facto, quando o inglez chegava áquelle verso da canção, um forte e cada vez mais proximo rumor, como de passos precipitados, de vozes em confusão, de supplicas e de ameaças, partindo da sala immediata, veio emmudecer a larynge do cantor e enrugar a testa de Mr. Whitestone, a quem, á hora solemne do jantar, impacientavam interrupções.

Quando ia a elevar a voz para saber a causa d'aquelle desacato, abriu-se com violencia a porta da sala, e aos olhos espantados de todos os presentes desenhou-se a figura de Manoel Quentino, pallido, agitado, como nenhum d'elles o tinha ainda visto.

Ao mesmo tempo Jenny, attrahida pelo ruido, apparecia á outra porta da sala.

Mr. Richard Whitestone olhou pasmado para o guarda-livros.

XXXIV

MANOEL QUENTINO ALLUCINADO

Melhor do que qualquer dos personagens d'esta scena, prevê o leitor os motivos do apparecimento de Manoel Quentino na sala e do estado de perturbação em que se apresentou.

As revelações da criada tinham-o feito já, como vimos, sair desorientado. Chegando a casa de Mr. Richard, soube do criado de Carlos, que Cecilia havia entrado pela manhã no jardim; mas conjecturava este que ella provavelmente se retirara já, porque a não vira mais em casa.—Os criados, que serviam á mesa, confirmaram a conjectura, assegurando a Manoel Quentino que Cecilia não tinha assistido ao jantar.

Não é possivel dizer que ideias se succederam no espirito de Manoel Quentino ao ouvir tudo isto. Correu-lhe pela vista o véo das nevoas, que antecedem uma vertigem. Tomou-se-lhe o coração de dor e de cólera; esqueceu todas as considerações que poderia ainda sopeal-o, e rompendo, em vociferações incoherentes, por entre os criados que o rodeiavam, appareceu, como vimos, verdadeiramente allucinado diante de Mr. Richard e dos estupefactos convivas.

O olhar de Manoel Quentino, animado por expressão estranha, correu em um momento a sala.

A ausencia de Cecilia acabou de perturbar o velho.

Fitou Carlos, cheio de raiva prompta a fazer explosão, e atravessando, com andar mal seguro, o espaço que o separava d'elle, veio pousar-lhe a mão no hombro, dizendo em voz suffocada e tremula por o esforço que fazia a reprimir a violencia da paixão crescente:

—Snr. Carlos, eu venho aqui saber de minha filha.

A estas palavras, Jenny descórou. Os dois inglezes conservaram-se boquiabertos; Mr. Whitestone não desviou mais de Manoel Quentino e de Carlos o olhar penetrante.

—Snr. Carlos!—repetia Manoel Quentino, com uma expressão em que se revelava ao mesmo, tempo a angustia e a cólera—Sou eu!… eu … repare bem! É um pae, que lhe vem pedir contas de sua unica filha!

Carlos, a quem a surpreza parecia haver paralysado,—a surpreza e porventura ligeiros remorsos de consciencia tambem,—olhava para Manoel Quentino e, córando e empallidecendo, permanecia como subjugado pelo olhar de irritação d'aquelle velho, que o interrogava assim.

Manoel Quentino, ao ver esta perturbação, perdeu todo o poder que ainda conservava sobre si.

—Carlos—disse elle—o senhor abusou da confiança do homem que lhe abriu sem hesitar as portas de sua casa; o senhor zombou cruelmente d'estes cabellos brancos, que foram creados em serviço honrado e sem vergonha; o senhor esmagou o coração que se lhe abrira, como o de um pae… o senhor é… é um infame!

Quem visse a postura e o rosto de Carlos julgaria verdadeira a accusação. Surprendido inesperadamente por ella, faltou-lhe a reacção para repellil-a.

Mr. Whitestone, ao escutar as ultimas palavras de Manoel Quentino, empallidecera, phenomeno raro n'elle, e que se julgaria irrealisavel.—Cêdo porém o sangue reagiu contra a repressão que o expellira das faces, e affluiu com maxima intensidade a ellas. Os olhos, brilhando com fulgor extraordinario, não se desviavam do filho, como á espera de vel-o protestar contra aquella grave accusação.

Jenny, erguendo a cabeça, por um movimento cheio de dignidade, adiantou-se na sala. Subira-lhe tambem ás faces um rubor de impaciencia, vendo o irmão emmudecer perante uma accusação, que ella sabia ser injusta.

Com fogo no olhar e vivacidade na voz, que eram pouco do caracter d'ella, disse, dirigindo-se a Manoel Quentino:

—Manoel Quentino, acaba de fazer uma accusação, que o deshonra, porque é falsa.

O velho guarda-livros voltou-se para Jenny, e em lucta entre a duvida e a esperança, perguntou anciosamente:

-Falsa?

—Sim, falsa;—repetiu Jenny com firmeza—tão falsa, como cruel! Eu sei o que a motiva…. Mas se, em dezoito annos de convivencia com Cecilia,—que são todos os que ella tem de vida,—Manoel Quentino aprendesse a conhecel-a, se depositasse mais fé nos nobres sentimentos d'aquelle coração, que é obra sua, se tivesse mais confiança na sua propria filha, hesitaria sempre ao accusal-a, e não viria aqui soltar essas expressões que a poderiam perder, embora innocente…

A porta da sala, em que Cecilia ficára, abriu-se, e a filha de Manoel Quentino appareceu, pallida e sobresaltada, porque tinha reconhecido a voz do pae e suspeitado tudo.

Jenny, vendo-a, caminhou apressada para ella, e, apertando-a nos braços, disse para Manoel Quentino:

—A filha, de quem vinha saber, estava commigo. Receia ainda por ella?

Manoel Quentino correu para Cecilia e abraçou-a com phrenesi.

Mas as suspeitas, que as informações de Antonia lhe haviam feito nascer, não estavam de todo suffocadas n'aquelle espirito.

Reparando na pallidez e no ar de abatimento da filha, e lembrando-lhe a anterior confusão de Carlos, Manoel Quentino afastou-a brandamente de si, fitou-a por algum tempo em silencio e perturbado, e depois disse com tristeza e affecto:

—Por que estás assim pallida e commovida, filha? Por que perdeste aquella alegria de outros tempos? Por que choraste?

E, voltando-se para Carlos, acrescentou já sem a primeira vehemencia, mas ainda com amargura:

—A quem hei de eu pedir contas d'estas lagrimas, snr. Carlos? Das d'ella… e das minhas?

Cecilia, ouvindo-o dizer isto, encostou-se vacillando ao seio de Jenny.

—Basta, Manoel Quentino!—disse esta com voz severa—Respeite-se! Essa exaltação é indigna de si. Respeite-se e peça perdão a Deus do que está fazendo padecer a este anjo com essas palavras. Vamos, Cecilia, não podemos ficar mais tempo junto de quem, devendo ser o primeiro a fazer-lhe justiça, é o primeiro a offendel-a, duvidando de si. Vamos.

Manoel Quentino ergueu as mãos para Jenny.

—Espere! espere! E se tem poder para me tirar do coração isto, que m'o esmaga, faça-o, faca-o! Por muito que os outros soffram, quem soffre aqui mais sou eu!

Havia na voz do pobre pae a commoção mais sincera!

Jenny parou a escutal-o.

Manoel Quentino estendeu para ella a carta de Carlos, que trouxera comsigo.

—Quem escreveu esta carta a minha filha?

Jenny ficou enleiada á vista da carta; olhou para Carlos, cuja physionomia lhe disse tudo.

Cecilia ergueu tambem a cabeça com espanto.

Em Manoel Quentino, que notou a perturbação de Jenny, redobrou com isto a anciedade, e sem attender a que ia sacrificar Cecilia, insistiu imprudentemente:

—Quem escreveu esta carta a minha filha? Esta carta recebida ainda ha poucas horas? Ella ahi está ainda como me chegou ás mãos. Abram-a, leiam-a, e, se o que contiver não justificar as minhas suspeitas… se…

E Manoel Quentino, ao dizer isto, ia já abrir a carta, quando a voz de
Mr. Richard o deteve.

—Não é preciso. Essa carta é minha.

Eram as primeiras palavras ditas por o velho inglez, desde o principio da scena, á qual assistira até então immoyel e silencioso. Mr. Richard Whitestone era homem de rapida percepção e de resoluções não mais demoradas.

Entrando-lhe a intelligencia em uma corrente de pensamentos, em poucos instantes lhe attingia o fim e, acto contínuo, formulava a si mesmo um plano de procedimento, que logo punha em pratica. Tinha já comprehendido tudo; a confusão de Carlos e o seu grau de culpabilidade, os fundamentos da accusacão de Manoel Quentino e a generosa e nobre intervenção de Jenny. Previu a imminente derrota da filha, perante um documento, cuja existencia ella não suspeitava; previu as consequencias d'esta scena; o perigo que corria a reputação de Cecilia; o descredito que resultaria para o nome de Carlos, que era tambem o d'elle—Richard—e o de Jenny; e immediatamente talhou para si papel em uma situação na qual elle só poderia intervir com bom exito.

Manoel Quentino, ouvindo ao patrão aquellas palavras, ditas em tom firme e seguro, ficou a olhal-o embaraçado.

Jenny fitou as feições inalteradas do pae e comprehendeu-o.

A boa e generosa menina sentiu desejos de se lhe lançar ao collo, para lhe agradecer aquella prompta e feliz resolução.

Carlos conheceu que lhe córavam as faces, ao ver quanta magnanimidade havia no procedimento do pae.

Era a segunda lição, que, n'aquelle dia, recebia dos seus; lição de grandeza de alma, salvadora da reputação de uma pessoa, que elle sinceramente amava, mas que, com actos irreflectidos, segunda vez ia perdendo.

—Esta carta é de v. s.ª?—repetia Manoel Quentino, deixando insensivelmente cair a carta, que conservára na mão.

Jenny correu a apanhal-a e passou-a para as mãos de Mr. Richard, que trocou um olhar de intelligencia com a filha.

Travára-se n'aquelle momento tacita alliança entre os dois para salvar a reputação de uma rapariga, innocente e indefeza.

—É minha, sim—continuou Mr. Richard, tomando a carta e abrindo-lhe naturalmente o fecho.—É minha… ou melhor, é… de nós ambos—acrescentou, designando Carlos com a mão, mas sem o fitar.—Tinhamos resolvido preparar uma surpreza a Jenny hoje, que é dia de seus annos, convidando Cecilia, que ha muito tempo não viamos aqui. Mas gorou-se o plano, porque Jenny, já antes de nós, a tinha convidado; e fez muito bem. Ahi está o que é… Esta carta foi escripta por Carlos e dictada por mim… E se duvída?—concluiu, fazendo o gesto de entregar a carta a Manoel Quentino.

Era um d'estes expedientes heroicos, que tudo podem perder ou salvar.

Servem-se d'elles, em occasiões assim, os homens de coragem e de sufficiente confiança em si proprios, para não receiarem trahir no semblante a posição critica, em que ficam collocados, depois de os empregarem.

A esses taes é quasi sempre o meio efficaz e salvador.

Manoel Quentino não ousou aceitar a prova, que se lhe offerecia.—Os habitos de respeito, contrahidos em longos annos de serviço e que um momento de indignação, quasi de delirio, lhe tinha feito esquecer, dominaram-o de novo, restituindo-lhe a sua natural brandura e timidez de caracter.

—Perdão—disse elle, quasi com humildade e como arrependido já da excitação anterior.—Perdão; eu julguei…

—Está bom, está bom—atalhou Mr. Richard com modo de quem não desejava continuar no assumpto.—É preciso ser menos… prompto em obedecer a… certas exaltações… inconvenientes.

O epitheto foi dito depois de alguma hesitação em adoptal-o.

Manoel Quentino ia ainda a abrir a bôca para desculpar-se, porém Mr.
Richard o impediu.

—Não fallemos mais n'isto…. Não vale a pena. Sente-se e faça-nos companhia á mesa.

—Perdão, Mr. Richard, mas…

Mr. Richard fingiu que o não ouvia; chamou por um criado para preparar logar e talher para Manoel Quentino. Este sentou-se, quasi sem bem reparar no que fazia.

Jenny e Cecilia saíram outra vez da sala.

O jantar continuou.

Tinha porém perdido para sempre a feição jovial do principio.

O que se passára e a presença de Carlos e de Manoel Quentino, qual d'elles mais constrangido e sombrio, inutilisavam todos os esforços de Mr. Richard para restabelecer no dialogo a perdida animação.

As libações repetiram-se, mas sem longos toasts.

—A seu sobrinho, Mr. Brains!—dizia por exemplo Mr. Richard, bebendo.

Mr. Brains fazia uma mesura a agradecer. Os outros levavam os calices aos labios.

—A seu amigo Roxboy, Mr. Whitestone!—dizia em seguida Mr. Brains.

Mr. Whitestone agradecia; os outros repetiam a saudação como anteriormente.

—Mr. Morlays, a seu tio das Indias!

Mesura de Mr. Morlays. Os outros como antes.

Estes mesmos laconicos toasts terminaram. A feição da assembleia carregava-se cada vez mais.

Mr. Richard fez um ultimo esforço para a desanuviar.

—Outra canção, Mr. Brains!—disse elle, enchendo-lhe o copo.

O inglez fitou Mr. Richard com olhos de estremunhado.

—Eu cantar! Para a transição ser menos sensivel, que cante Mr. Morlays primeiro.

Mr. Morlays grunhiu um monosyllabo imperceptivel e esvasiou até á ultima gotta o calix, que tinha defronte de si.

—Então cante Mr. Morlays—insistiu Mr. Richard, sem grandes esperanças do convite ser aceito.

Contra a espectativa geral, o sorumbatico inglez levantou-se e enfiando as mãos nos bolsos do collete, pronunciou, era tom funebre, o nome da canção que se propunha a cantar.

The old saxton—o velho cóveiro—de Park Benjamin.

Mr. Brains fez um gesto de arripiado. Mr. Morlays, imperturbavel, principiou cantando.

Eis o sentido da canção que elle, com exquisito tacto da opportunidade, julgou dever escolher:

«Junto de uma sepultura, cavada de pouco, estava o velho cóveiro, encostado á enxada, já gasta pelo uso. Tinha terminado a tarefa e parára á espera do cortejo funeral que transpunha n'aquelle momento a porta aberta do cemiterio. Era uma relíquia do tempo passado este velho! Os cabellos estavam-lhe tão brancos, como a espuma do mar; e dos labios tremulos saíam-lhe, em voz submissa, estas palavras:—Venham venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Para homens e para creanças, anno após anno, uns de pezares, outros de alegrias, edifiquei essas casas que por ahi jazem em torno, em cada recanto d'este funereo terreno. Mãe e pae, filhos e filhas, um por um, vieram acolher-se á minha solidão. Mas, ou estranhos ou parentes, venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Muitos estão commigo, e comtudo estou só! Eu sou o rei dos mortos! Meu throno faço-o de um sepulcro de pedra ou de frio marmore, e o meu sceptro de commando é a enxada, que empunho. Todos os homens são meus vassallos, quer cheguem da choupana, quer cheguem das salas, todos, todos, todos! Agitem-se embora na ancia do prazer ou na ancia do trabalho! Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Seu leito final é aqui; aqui debaixo, no escuro seio da terra.»—«E o cóveiro calou-se, porque o cortejo funeral passava silenciosamente n'aquella planicie. E eu disse commigo: Ao findar dos seculos, uma voz, mais poderosa do que a d'este velho cóveiro, bradará mais alto do que o tremendo clangor da trombeta final: Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!»

Imagine-se o effeito que a voz do cantor, a musica e a lettra da canção produziriam depois de um jantar.

A musica obrigava a repetir por mais de uma vez o estribilho final de cada estancia no original.

I gather them in, gather, gather, gather, I gather them in—cantava Mr. Morlays, com entonação, que fazia lembrar um sino dobrando a finados.

Não se concebe estomago que ficasse imperturbado após uma sobremesa d'estas.

O cantor seguia com malignidade, verdadeiramente satanica, o effeito do canto sobre o acto visceral dos seus amigos.

Mr. Brains reprimia a custo a indignação que sentia.

Acabando de cantar, Morlays sentou-se e bebeu novo calix de vinho.

Apenas um monosyllabo sêcco de Mr. Richard Whitestone o congratulou.

A misanthropia de Mr. Morlays, azedada com o escandalo de Manoel Quentino, folgou com a vingança que tomára. D'ahi por diante todos somente suspiravam por se levantar da mesa.

Mr. Brains foi o primeiro, que ousou fazel-o. Á indole jovial do Democrito inglez repugnava a atmosphera pesada que estava respirando alli. Mr. Morlays imitou-o. O mau humor d'este crescera de ponto com as occorrencias do dia. As suas caprichosas digestões estavam em risco de serem perturbadas, e em consequencia d'isso teve a humanidade muito que soffrer no conceito de tão hypochondriaco personagem.

Carlos retirou-se tambem ao quarto.

XXXV

A SENTENÇA DO PAE

Manoel Quentino, ficando só na presença do patrão, não se sentia á sua vontade. Foi pois com verdadeira satisfação que recebeu um recado de Cecilia, a pedir-lhe que a acompanhasse a casa.

Despediu-se de Mr. Richard, a quem dirigiu pela segunda vez mal formuladas desculpas, que o inglez recebeu com affabilidade, e ao mesmo tempo com ares de quem preferiria não ouvir fallar mais em tal.

Manoel Quentino foi ter com Cecilia, que estava na outra sala com Jenny.

—Cecilia, perdôa-me se duvidei de ti;—disse elle com a voz suffocada—perdoa a minha imprudencia de ha pouco, filha; foi uma loucura. Bem o vejo agora. Perdôa-a ao muito amor de teu pae…

A commoção não o deixou continuar.

Cecilia lançou-se-lhe, chorando, nos braços.

—Manoel Quentino, que está a fazer?—disse Jenny—Não vê como a afflige?

—Menina—respondeu Manoel Quentino, voltando-se para ella—perdôe-me tambem se pude imaginar que a sua protecção de santa…—de verdadeira santa, miss Jenny—que essa abençoada protecção podia deixar-se vencer. E, por quem é, não se esqueça de velar por ella, por minha filha!

—Mais valiosa protecção encontra Cecilia era si mesma—respondeu
Jenny.—É um coração forte.

Manoel Quentino tinha a cabeça da filha encostada ao peito; ouvindo estas ultimas palavras, cingiu-a ainda mais a si, e murmurou para Jenny, procurando não ser percebido por Cecilia:

—Forte?… Era… emquanto lhe pertencia.

Jenny demorou o olhar nas feições do velho.

Aquella resposta dava a entender que algumas suspeitas lhe restavam ainda da verdade; que elle podia estar convencido já da innocencia da filha, que podia julgar com menos severidade e duvida as tenções e procedimento de Carlos, mas sem haver fechado de tal maneira os olhos á evidencia, que suppozesse que nada havia de commum entre os corações dos dois.

Jenny respondeu, percebendo isto:

—Forte ha de sel-o sempre; resta fazel-o feliz.

—Se miss Jenny o não conseguir, quem mais o conseguirá?

—Trabalharei—disse Jenny, sorrindo.

—Dê-lhe a serenidade do seu coração e tel-a-ha salvado.

Jenny, que abraçava n'este momento Cecilia, ouvindo estas palavras, meneou a cabeça, e, entre risonha e melancolica, disse ao ouvido da sua amiga:

—Não é assim que eu desejo salvar-te.

Pela primeira vez a tratava por tu.

Emquanto se passava esta scena, Carlos de volta ao quarto engolfava-se em pensamentos profundos. Tudo quanto succedera lh'o estava reproduzindo a memoria, e cópia de affectos e de paixões agitavam-lhe o coração em palpitar desordenado.

Que lhe competia fazer? Como devia sair da posição em que se achava? De que maneira compensar com uma resolução nobre, digna dos sentimentos que percebia no coração, a insuperavel timidez, que durante o jantar se apoderára d'elle.

N'isto pensava Carlos, quando o criado lhe entrou no quarto, annunciando que Mr. Richard Whitestone o mandára chamar ao gabinete.

Carlos esperava esta entrevista, que, depois do succedido, podia dizer-se inevitavel; elle proprio a procuraria talvez espontaneamente; mas, apesar d'isso, não se sentia preparado para ella; nem outra cousa lhe succederia, talvez, quando mais espaçada fosse.

Causou-lhe pois o effeito de imprevista.

Vacillavam-lhe os passos ao dirigir-se ao gabinete do pae, como se fora um réo, caminhando para o tribunal, em que vae ser julgado.

Quando Carlos entrou, Mr. Richard estava em pé, encostado ao marmore do fogão. Tinha a expressão tão severa, quanto era possivel á sua physionomia ingleza, e conservava na mão a carta de Carlos, como quem acabava de a ler n'aquelle momento.

Carlos parou no meio da sala, esperando que o pae lhe dirigisse a palavra.

Mr. Whitestone estendeu para o filho a carta aberta, perguntando com modo rapido e incisivo:

—Que ha de verdade n'isto que se diz aqui?

—Tudo—respondeu Carlos, procurando dar á voz a firmeza, que não sentia.

Mr. Whitestone enrugou a fronte ao ouvir a resposta; fez um leve movimento de hombros e de labios, e, passando a carta para o filho, apenas lhe disse:

—Ahi a tem. Rasgue-a, queime-a. Deve fazel-o… porque destruirá assim a prova de uma nova… infamia.

As faces de Carlos cobriram-se de intenso rubor.

—Meu pae!—balbuciou elle.

—Repito-o; de uma infamia—proseguiu Mr. Richard com redobrada acrimonia.—Não sou eu o primeiro que lh'o diz; e se já se calou vergonhosamente diante da primeira accusação, não é muito que escute a segunda com a mesma… humildade.

E acabando de dizer isto, pôz-se a passeiar no quarto, como costumava quando assim exaltado, e continuou:

—É falso orgulho esse que… todo se alvoroça ao ouvir uma palavra e com tanta facilidade se conforma, ao que é bem peior, á feia acção que ella exprime. É orgulho de theatro… Não comprehendo devéras.

Carlos respondeu:

—Eu posso estranhar que a accusação me venha de quem me devia conhecer melhor, e de quem não está dominado, como o primeiro que me accusou, por um excesso de paixão violenta, mas desculpavel. Estranho e lamento que, no curto periodo de alguns dias, tenha já ouvido duas vezes de meu pae a accusação de… infame.

Mr. Richard, que, emquanto o filho fallára, ia augmentando a velocidade dos passos, com que media a sala, parou repentinamente n'este ponto e fitou Carlos com um olhar cheio de fogo.

—Estranha, por quê? Faz favor de me dizer? Não me apontará algum nome mais exacto para dar ás suas acções?… Devéras que não sei… Julgo que não quererá arguir-me de demasiado severo?… Repito o que já lhe disse no outro dia. Tenho sido em excesso benevolente comsigo, tenho fechado de proposito os olhos a muitos desvarios seus, desculpando-lh'os com o verdor dos annos. Mas acções ha, que nem a creanças se desculpam… E, sempre que nos actos de um homem existe o caracter de… baixeza…

Carlos não pôde suspender um movimento instinctivo de reacção, ao ouvir esta palavra.

Mr. Richard, percebendo-o, repetiu com mais força, e olhando fixamente para o filho:

—De baixeza… e de villania!… Em taes casos, é criminosa a indulgencia; e nunca é demais toda a severidade de opinião contra esse homem. Escusa de protestar com esses movimentos e gestos. Mais severamente do que eu, o accusava ha pouco a sua propria consciencia, obrigando-o a calar-se e a abaixar a cabeça diante das arguições d'aquelle homem… que… que… que tentára deshonrar.

—Eu já lhe disse, senhor—acudiu Carlos, com vehemencia desusada para com o pae—que tudo quanto escrevi n'essa carta é verdadeiro. Seria imprudente, fui de certo; d'isso me accuso eu; mas diz-me a consciencia que estou sendo severamente julgado e por isso…

—Era bom que a sua consciencia tivesse acordado mais cêdo. Escusava de ter deixado que da bôca de um estranho, e diante de testimunhas, caisse sobre o nome de seu pae e de sua irmã uma accusação grave e que nós mentissemos para o salvar. Esses escrupulos veem bastante tarde. Deve confessar.

Carlos curvou a cabeça e ficou silencioso.

Mr. Richard ficou tambem algum tempo calado, depois proseguiu:

—É verdadeiro tudo quanto diz n'essa carta! Lembre-se de que ainda ha poucos dias marcava n'esta mesma casa, na casa em que habita sua irmã, entrevistas a…

Carlos não o deixou continuar:

—Peco-lhe que não renove essa insinuação, senhor; já dei a minha palavra em como ella era injusta. Não posso offerecer prova mais convincente, mas custa-me devéras ver que me recusam esta. No dia em que succedeu o facto, a que allude, n'esse dia em que pela primeira vez ouvi o epitheto de infame da bôca de meu proprio pae, já eu me sentia bem outro do que tinha sido até alli. Creia-me, senhor; não é uma vã inclinação, um ephemero capricho de rapaz, o que sinto por Cecilia. A unica importante mudança de caracter, que tenho experimentado na vida, operou-a ella sem uma palavra, sem uma tenção formada, sem denunciar um desejo. Adivinhei-a talvez, mas não que ella se me revelasse nunca. Cecilia só de per si conseguiu, e sera esforço, o que nem as reprehensões de meu pae, nem os conselhos e os pedidos de Jenny haviam conseguido nunca, por isso creio na sinceridade dos meus pensamentos para com ella, por isso…

Mr. Richard escutava o filho com manifesta impaciencia; parecia que lhe seria quasi tão desagradavel o ver Carlos conseguir justificar-se, da maneira por que o estava fazendo, como persistir sob a accusacão de menos leal, que lhe tinha sido feita.

O amor proprio de Mr. Richard—porque emfim é forçoso confessar que Mr. Richard tinha amor proprio tambem—não se sentia muito lisongeado com esta sincera paixão de Carlos por Cecilia, a filha do seu guarda-livros.

Um enxame de preconceitos se alvoroçava todo a esta ideia; preconceitos que a razão clara e forte de Mr. Richard se pejaria de reconhecer como legitimos, mas aos quaes, sem o saber, se sujeitava.

Eram de diversas ordens.

Preconceitos de inglez, primeiro que tudo; nunca é com absoluta indifferença que o filho da Gran-Bretanha vê uma mulher de outro paiz roubar-lhe o coração de algum dos seus parentes. Ha em toda a alma ingleza a profunda convicção mais ou menos declarada de uma superioridade de raça, que a não deixa encarar desapaixonada alliancas d'estas.

Depois sobrevinham os preconceitos de commerciante, o qual, por mais consideração e estima que tenha por um guarda-livros, não póde de todo em todo olhal-o como de natureza igual á sua, e não se lisongeia demasiado com obter nora ou genro em casa d'elle.

Ainda o preoccupavam preconceitos de capitalista; por mais philosophicas doutrinas que estes expendam sobre a vaidade das riquezas, na pratica da vida não abstrahem d'esse elemento quando combinam calculos para resolver o problema da felicidade. Finalmente até preconceitos de pae lhe offuscavam a luz da inlelligencia, pois não obstante a severidade das arguições que lhe ouvimos, é certo que poucas mulheres no mundo lhe pareciam dignas do seu Carlos. Tudo isto o fazia pois escutar de má vontade a declaração do filho, a quem interrompeu precipitadamente.

—Está bom. Eu não preciso saber a historia das transformações do seu caracter, o qual até me parece ser demasiadamente sujeito a ellas. E se é essa a garantia unica que tem da sinceridade dos seus sentimentos, ha de concordar que é bem fraca. Mas seja como for; depois do succedido, parece-me escusado indicar-lhe o melhor partido que tem a abraçar.

Carlos elevou para o pae o olhar interrogador.

Mr. Richard guardou, por instantes, silencio; depois acrescentou:

—Dentro em oito dias sae um vapor para Londres…

—Mas…

Mr. Richard fingiu não ouvir a interrupção, e continuou:

—Ha muito que se faz necessaria uma entrevista pessoal com Mr. Woodfall
Hope, porque…

—Não sei se me será possivel obedecer-lhe, senhor.

Mr. Whitestpne voltou-se com vivacidade para o filho, e, visivelmente irritado, disse:

—Espero que não commetta a baixeza de querer demorar-se aqui, depois do que se passou. Não me faça envergonhar de o ter por filho.

Carlos desacostumára-se a arrostar por muito tempo com a severidade do pae. Sentia-se incapaz de reagir diante d'aquelle olhar. Baixou a cabeça e calou-se.

Mr. Richard acrescentou instantes depois, em voz ainda severa, porém já menos rispida:

—Póde retirar-se e faça por ser homem de bem. Ha erros que deixam vestigios, que nunca se apagam mais. Respeite as familias, porque o contrario é deshonrar a sua. Se se lembrasse de que tinha uma irmã…

N'este ponto ouviu-se rumor á porta do quarto.

—Que temos?—perguntou Mr. Richard, impaciente.

Era um criado que vinha do mando de Jenny perguntar se Mr. Richard a podia receber.

Mr. Richard fez um signal affirmativo, e voltando-se para Carlos:

—Saia. Sua irmã precisa fallar-me.

Carlos curvou a cabeça e saiu sem dizer palavra. Era ainda o réo que deixava o juiz, não o filho que se despedia do pae.

Carlos encontrou-se com a irmã na sala contigua. Ella estendeu-lhe a mão, dizendo:

—Vês, Charles, vês o resultado das tuas loucuras?

—Loucuras, Jenny! Pois ainda lhes chamas assim?

—Principio a ter vontade de lhe dar outro nome, principio; e é por isso que venho aqui.

—Que vens fazer?

—Advogar a causa de uma má cabeça, em attenção a um pobre coração, que não tem culpa nenhuma em andar unido áquella estouvada.

—Ó Jenny!—exclamou Carlos, tomando, cheio de confiança, as mãos da irmã.

—Então! Deixa-me, que o pae espera-me.

E separando-se do irmão, disse a rir:

—Que difficil papel me fazem representar em toda esta historia!

XXXVI

A DEFEZA DA IRMÃ

Jenny abriu vagarosamente a porta do gabinete de Mr. Richard.

Este andava ainda de um para o outro lado, a passos largos, com a cabeça baixa e as mãos atraz das costas.

Ao ouvir abrir a porta, parou, aguardando quem chegava.

—És tu, Jenny?—disse, ao ver o rosto da filha, e usando de uma affabilidade, que formava completo contraste com a aspereza com que se dirigira a Carlos.

Jenny aproximou-se do pae e, apoderando-se-lhe da mão, beijou-a com affecto.

—Que quer dizer isso, Jenny?—disse Mr. Richard, procurando retiral-a.

—Deixe-me agradecer-lhe, senhor, uma acção generosa, nobre, digna de si, e que me fez sentir, mais do que nunca, o orgulho de ser sua filha.

—Ora essa, Jenny. E foi para isso que vieste?—perguntou Mr. Richard, sorrindo e já sem o menor vestigio de rugas na fronte, momentos antes contrahida.

—E para mais alguma cousa—respondeu Jenny, com a respeitosa familiaridade de filha, a quem diz a consciencia que nada lhe será recusado.

—Então falla.

—Sabe tudo, não é verdade?

—Sei; infelizmente sei.

—E que tenciona fazer? E perdôe-me o querer assim penetrar as suas resoluções; mas tantas vezes voluntariamente m'as confia, que me animo…

—Fazes bem, Jenny, fazes bem—atalhou Mr. Richard, affectuosamente—Eu não me esqueço de que és uma boa conselheira.

—Bem; então d'esta vez?…

—Já reflecti; e tomei algumas providencias. Carlos partirá para Londres no vapor que…

Jenny moveu a cabeça, em signal de desapprovação.

Mr. Whitestone, percebendo o gesto da filha, olhou para ella em silencio alguns momentos.

—Parece que não approvas, Jenny.

Jenny calou-se.

—Responde, falla. Com toda a franqueza dize-me o que pensas d'esta medida.

—Pois bem; direi. Não era isso que eu esperava de meu pae.

—Então?—perguntou Mr. Richard, com levissimo tom de despeito.

—O seu proceder de ha pouco deixou-me esperar outra resolução mais… mais… mais acertada—concluiu, depois de modesta hesitação e corrigindo a força da phrase com a brandura da expressão.

—Que podia eu fazer?

Jenny, em vez de responder directamente, continuou:

—Quer obrigar a partir Charles, quando elle levaria comsigo, no coração, alguma cousa que o não deixaria ser feliz no desterro—porque é um desterro a que o vae condemnar; quer obrigal-o a partir, quando, atraz de si, aqui, deixaria alguem, que sentiria essa ausencia como uma condemnação cruel…

Mr. Richard olhou admirado para a filha, ao ouvil-a fallar assim; depois, com ar mais grave do que até ahi, respondeu, parando defronte d'ella:

—Não, Jenny; quero obrigar a partir Charles para acabar a tempo com um capricho, que podia vir a fazer a infelicidade d'elle e…—depois de hesitar por algum tempo, o velho inglez concluiu:—e d'ella, d'esse alguem de quem tu fallas, supponho eu. Não vês que é uma inclinação de dois dias essa de Carlos?

—Não é, senhor, não é. Eu sinto que não é. D'esta vez bem vejo que é sincera.

Mr. Whitestone encolheu os hombros, sorrindo.

—A Jenny ainda não aprendeu a conhecer seu irmão.

—Tenho seguido passo a passo, desde o principio, esta paixão de
Charles. Já desconfiei d'ella tambem; já receei por Cecilia, e tentei
dissuadir meu irmão do que imaginei não passar n'elle de um capricho.
Depois reconheci que me enganára.

Mr. Richard abanou a cabeça, em signal de duvida.

—Ha quanto tempo te convenceste da sinceridade d'essa paixão em
Carlos?…

—Ha muitos dias; desde…

Mr. Richard sorriu…

—E se eu tiver provas de que, ainda ha bem poucos, teu irmão era ainda o mesmo irreflectido e estouvado rapaz de outros tempos?

—Provas?…

—Se eu te mostrasse que elle hoje, ainda como d'antes, não hesita, para satisfazer doudas e pouco delicadas phantasias, em cortar por certas contemplações, respeitaveis para quem possue intactos os sentimentos de familia, ridiculas talvez para elle?

—É injusto… demasiadamente severo para Charles, senhor.

—Pergunta-lhe se foi em homenagem a essa rapariga, por quem o imaginas apaixonado ha tanto tempo, que elle vendeu o relogio, de que no dia de seus annos eu lhe tinha feito presente. Affligiu-me este facto, não por o valor do objecto, mas porque me revelou uma fraqueza na alma de meu filho, uma tibieza nos sentimentos de dignidade, que não esperava encontrar n'elle.

—Charles affirmou-me que fora um motivo poderoso o que o obrigára…

—Mentiu!—disse Mr. Richard com azedume.

—Ó senhor!—exclamou Jenny, como exprobrando-lhe a dureza da expressão.

—O motivo sei eu qual foi…

—Terá provas certas de que o sabe?

Mr. Richard vacillou a esta pergunta, dizendo depois:

—Quasi evidentes.

Jenny sorriu ao repetir:

—Quasi.

Mr. Richard, como excitado por aquelle sorriso, insistiu:

—De certo não foi Cecilia a pessoa que n'esse dia procurou teu irmão e o acompanhou de carruagem até á loja do ourives, onde se effectuou a venda.

Jenny soube pela primeira vez estas particularidades, mas, animada pela confiança que o irmão lhe souhera inspirar, disse sem hesitação:

—E são esses os unicos fundamentos da accusação?

—E julgo que…—e mudando repentinamente de tom, acrescentou:—Mas, deixando isso, a não fazer o que fiz, que querias tu que eu fizesse?

Jenny, desviando os olhos para um periodico de gravuras que estava sobre a mesa, respondeu:

—Não sei que mal haveria em ceder ao impulso d'aquelles dois corações, visto que…

Mr. Richard bateu, algum tempo impacientemente, uma pancada com a mão na secretária, junto da qual tinha parado.

—Julguei que Jenny não conhecia o mundo por o ter visto nas paginas dos romances.

—Não, senhor; não o conheço d'ahi; mas tambem o não conheço por experiencia pessoal. Das lições de meu pae obtive o pouco que d'elle sei; por isso avalio o bom e o mau das nossas acções na vida, á luz do dever e da consciencia. Não foi o que me ensinou?

Mr. Richard aceitou com um sorriso a correcção filial.

—Pois foi á luz do dever e da consciencia que eu procedi.

—Julguei que, depois do acontecido, o dever lhe aconselharia outra cousa.

—Algum absurdo? Loucuras?… Phantasias? És mulher a final, Jenny!

Jenny aproximou-se do pae, que viera sentar-se em uma cadeira junto do fogão; apoiou-se-lhe ao hombro e, a meia voz, disse-lhe como a brincar:

—Desejava agora, por um momento só, deixar de ser sua filha, senhor.

—Para quê?

—Para me atrever a fazer-lhe uma pergunta.

—Auctoriso-te a fazel-a, Jenny—respondeu o inglez, completamente desarmado contra a diplomacia da filha.

—Auctorisa? Eu sei?!

—Exijo até que a faças.

—Sou mulher a final! disse o pae… Póde ser… E como mulher tenho talvez o meu fraco pelo sentimento—preconceitos do coração… Não é isto?… Mas… era a pergunta que eu, se não fosse sua filha, lhe quereria fazer: mas esse seu espirito, recto, esclarecido e forte… julgará sem preconceitos d'esta vez?

—Que preconceitos queres que sejam os meus?—perguntou Mr. Richard, desviando os olhos.

—Quem sabe lá? Cecilia é filha de Manoel Quentino, um homem honrado, mas… subalterno; fiel, mas pobre; um caracter generoso, mas… educado na escola da obediencia; capaz de se sacrificar por nós, mas… vivendo dos ordenados da nossa casa.

—Douda! Então não me fazes a justiça de acreditar que a força da minha razão seria bastante para vencer esses preconceitos de educação… quando os tivesse?—disse Mr. Richard, porém de modo, que estava justificando Jenny.

—Assim o espero; por isso é que…

—Não—interrompeu Mr. Ricnard—não é isso o que me faz hesitar. O motivo é diverso. É porque não creio na duração dos sentimentos de Carlos; é porque lhe conheço o caracter leviano, e hesito por essa razão em fazel-o chefe de uma familia, que elle não saberia guiar e que tornaria desgraçada.

—Não é justo para com seu filho, senhor. Elle herdou os dotes do seu coração. É leal e generoso. E será salval-o, fazel-o entrar pelo coração no caminho do dever.

—Dizes-te amiga de Cecilia, Jenny, e não hesitas em arriscar-lhe assim imprudentemente a felicidade?

Jenny demorou algum tempo sobre o pae um olhar quasi malicioso.

—Eu, pelo menos—disse ella por fim—tenho uma garantia: é o coração de Charles, que está do meu partido; mas ainda ha bem pouco tempo que o pae concebia outra alliança para meu irmão, á qual até este pequeno auspicio faltava. Que fez da confiança, que então depunha em seu filho, ao querer fazel-o chefe de uma familia? Por que não hesitava então, e hesita agora? Ser-lhe-hia indifferente a felicidade de Alice Smithfield, da filha do seu amigo? De certo que não; mas é que sabia que Charles, promettendo fazel-a feliz, havia de ser fiel a essa promessa. E agora…

Mr. Richard não atinou com a resposta que désse a este argumento da filha.

Ergueu-se e voltou a passeiar.

D'ahi a instantes parou, e dirigindo-se a Jenay, disse:

—E demais, se, depois do que succedeu diante de testimunhas, eu fosse seguir o teu conselho, não soffreria a reputação d'essa pequena com isso? O mundo não veria n'este acto, que póde ser… que creio mesmo que seja, muito justo, mas que é preciso confessar tambem que não é natural, não veria n'esse acto a reparação de offensa maior?