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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto cover

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Chapter 79: CORÔA-SE A OBRA
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About This Book

A narrativa descreve o convívio e os costumes de uma família inglesa estabelecida no Porto, centrando-se num negociante respeitado cuja prudência, sucesso comercial e reserva pessoal moldam encontros sociais e episódios domésticos. O autor apresenta uma série de cenas urbanas e retratos de carácter que destacam contrastes culturais, modos de vida e pequenas tensões sociais, articulando observações morais sobre perseverança, honra e fortuna através de episódios cotidianos, humor contido e descrição detalhada das relações entre estrangeiros e habitantes locais.

Jenny sentiu-se alentada ao ver a nova face, que o pae dava á discussão.

—E a partida repentina e inesperada de Charles, depois dos factos que succederam, não dará logar a vozes menos favoraveis ainda para ella, para elle e… para nós todos?

Mr. Whitestone não respondeu.

—Eu conheço pouco o mundo, é verdade;—proseguiu a filha—mas parece-me que, em todo o caso, elle fallará; o que se tem a fazer é dar ás nossas acções a feição mais natural, para que menos curiosidade lhe excitem. Conduzamol-as de modo a deixar-lhe entrever os motivos, que nos convier que elle supponha; mas sem mostrarmos o proposito de revelar-lh'os, para que não desconfie da intenção e procure então os verdadeiros.

Mr. Richard olhava para a filha com um sorriso, já muito desanuviado.

—Bravo! que machiavelismo! Não te sabia tão diplomata. Vamos á applicação ao caso presente.

Jenny sorria tambem, mas de intima satisfação, porque se presentia victoriosa.

—Trata-se de diminuir pouco a pouco a estranheza do acto, que o faz hesitar; preparar as opiniões para aceital-o como natural.

—E como? Que queres que eu faça?

—O que lhe dictar o coração. Não é a mim que compete aconselhal-o.

Mr. Whitestone baixou a cabeça, com ar de reflexão.

Jenny principiou a dizer, como se fallasse para si propria, mas de maneira que fosse escutada por o pae:

—O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos, raras vezes a acredita. Forja-se outra ás vezes menos natural e plausivel, quasi sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é generosa e nobre, e a falsa interesseira e mesquinha. A alliança de Charles com a filha de Manoel Quentino, tendo por explicação sómente o affecto dos dois, seria estranha e incomprehensivel; mas se Manoel Quentino, em vez de ser guarda-livros, fosse um socio da casa…

Mr. Richard, ouvindo estas palavras, desviou para a filha o olhar. Viu-a distrahida, examinando, com apparencias de attenção, um pesa-papeis de crystal.

Mr. Richard teve uma lembrança.

Aproximou-se da secretária, e, tomando uma folha de papel, escreveu n'ella algumas linhas.

Jenny sorria, como se estivesse de longe lendo tudo o que o pae se pozera a escrever.

No fim o inglez releu com attenção o que havia escripto; dobrou cuidadosamente o papel e entregando-o á filha, disse com rapidez, como se receiasse que a resolução, que abraçára, lhe fugisse ainda:

—Ahi tens. Entrega isso a Manoel Quentino. É uma memoria dos teus vinte e dois annos.

Jenny, que astuciosamente deixára ao pae o prazer e a gloria da boa ideia, cuja insinuação viera d'ella, suspeitou logo qual a natureza do escripto e disse com effusão:

—Agora sim! Torno a reconhecer o seu coração generoso.

—Então já sabes o que isso contém?

—Adivinho-o sem o ler. Attendendo aos antigos serviços prestados por Manoel Quentino á casa Whitestone, meu pae associa-o de hoje em diante ao negocio e á sua firma. Não é verdade?

—Quasi por formaes palavras—respondeu Mr. Richard, passando amigavelmente a mão por as faces da filha.

—Que mais ordena, miss Jenny?—perguntou jovialmente o inglez.

—Peço mais uma cousa.

—Dize.

—Peço para não fazer desde já uso d'este papel.

—Então?

—Este facto, que serve para preparar a opinião publica para o outro… não é verdade?

—Eu não prometti ainda…

—Este facto—continuou Jenny, fingindo que não ouvia a resposta—causaria ainda estranheza, se não fosse preparado tambem com antecedencias.

—Como?

—Recordo-me de que não ha muitos dias o pae me fallou de um negocio commercial, em que esteve para tomar parte a casa Whitestone, o que não fez por instancias de Manoel Quentino, instancias que a salvaram de um abalo, talvez fatal para ella. Não foi assim?

—Foi. O homem mostrou d'essa vez um tino commercial…

—A quantas pessoas fallou já d'esse serviço do seu guarda-livros?

—Que eu saiba a nenhuma. Certas tentativas, por felicidade frustradas, não é muito conveniente revelal-as, pois podem abalar a confiança na prudencia da casa…

—Pois, se me permitte dar-lhe um conselho, deixe que se faça d'esta vez excepção á regra. Durante esta semana, eu se estivesse no seu logar, fallaria a toda a gente n'aquillo. O nome de Manoel Quentino havia de andar, n'estes oito dias, nos ouvidos de todos. Toda a Praça havia de ficar sciente dos seus prestantes serviços… e depois que haveria que estranhar quando se enviasse ao pae de Cecilia este documento, em cujas dobras vae a felicidade de duas pessoas?

—E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo, do que a iniciativa no beneficio? Se subtrahires da explicação o elemento «interesse», o facto será incomprehensivel.

—N'esse caso é deixar ao mesmo tempo suspeitar que Manoel Quentino tem conseguido accumular riquezas, e que da nossa parte…

Mr. Richard sorriu.

—Mais aceitavel será o facto á opinião, ainda que… É uma trabalhosa semana a que me destinas! Não recuso porém a tarefa; veremos o que é possivel fazer. Mas o meu egoismo não me consente ver-te assim desoccupada, emquanto eu trabalho.

—Então em que tenho a occupar-me?

—Na justificação de teu irmão. O meu assentimento aos teus ultimos projectos, Jenny, fica dependente d'essa condição. Emquanto não me convenceres de que foi nobre o motivo que levou Carlos a vender aquelle relogio, não esperes de mim…

—Mas Charles insiste em occultar-m'o.

—Pois fosse a empreza facil, que não a confiaria de ti. Não julgues isto capricho da minha parte. Tu bem deves comprehender a importancia d'essa justificação. A fé não basta; é mister provas. Os teus planos baseiam-se na excessiva confiança em teu irmão; é fraca base para a felicidade da pessoa, de quem advogas a causa.

—Procurarei obter provas.

—Então dentro de oito dias.

—Dentro de oito dias.

E o pae e a filha separaram-se do melhor accôrdo.

Os preconceitos de Mr. Richard não haviam absolutamente serenado; mas Jenny tinha conseguido, por assim dizer, destacal-os do intimo, em que elles viviam dominando, e apresental-os á vista do pae que, envergonhando-se d'elles, os renegou.

Mr. Richard estimaria ainda encontrar outra solução á crise presente; mas por causa alguma consentiria já em se mostrar sob o imperio dos seus preconceitos clandestinos.

XXXVII

COMO SE EDUCA A OPINIÃO PUBLICA

No dia seguinte Manoel Quentino saíu cêdo para o escriptorio.

Andou toda a manhã pensativo o guarda-livros.

Quanto mais reflectia na scena da vespera e em outras antecedentes, tanto mais confirmada lhe parecia a vaga desconfiança de que não fora inteiramente verdadeira a explicação de Mr. Richard.

Mas não lhe queria mal por ella o velho guarda-livros; antes inteiramente lh'a agradecia. Assustava-o porém o estado do coração de Cecilia. Seria ainda tempo de arrancar de lá aquella affeição tão louca, que por imprevidencia deixára crescer.

Nisto pensava ainda Manoel Quentino, quando entrou no escriptorio um dos mais sisudos e abastados negociantes da Praça, e muito affavelmente o cumprimentou, dirigindo-lhe as mais lisongeiras expressões sobre os seus relevantes serviços á casa Whitestone e applaudindo a sagacidade com que antevira a suspensão de pagamentos de uma poderosa casa de Londres e evitára que a firma Whitestone soffresse na quebra. Manoel Quentino ficou surprendido com o inesperado cumprimento. Elle já nem pensava n'aquillo, nem imaginava que Mr. Richard, unico que o podia contar, o conservasse tão presente na memoria.

O grande conceito, em que tinha o negociante que lhe fallára, não deixava porém ser-lhe indifferente o louvor recebido d'elle.

A surpreza do velho augmentou, quando a este primeiro se succedeu outro e quando todos os que n'aquella manhã entravam no escriptorio pareciam apostados a reproduzir, com pequenas variantes, phrases iguaes de louvor.

A consideração que Mr. Whitestone gosava na Praça fizera com que por toda ella se espalhasse com rapidez a fama dos serviços prestados por Manoel Quentino, a quem o honrado inglez, fiel ás promessas que fizera a Jenny, exaltou com uma vehemencia de phrase e de expressão, pouco habitual á sua fleugma britannica, e que por isso mesmo leve dobrado effeito.

Como sempre acontece, á medida que a noticia se transmittia, ampliavam-se os serviços de Manoel Quentino. A opinião publica, que até então nem attentára n'elle, suppondo-o um ente inteiramente nullo, soffreu um d'estes reviramentos subitos, de que por certo os leitores hão de conhecer exemplos.

Em um grupo de negociantes, estacionados no passeio da rua dos Inglezes, discutiu-se toda a manhã Manoel Quentino. Um insistia em dar a entender aos collegas que havia muito adivinhára o homem; outro proclamava-o já o primeiro guarda-livros do Porto; outro fazia valer o seu profundo conhecimento da lingua ingleza; outro a sua perfeição calligraphica; outro a sua actividade, o seu desembaraço em operações e escripta commerciaes, e a sua longa pratica, etc., etc.

—Disse-me ha pouco Mr. Whitestone—acrescentou a isto tudo um barão—que o homem tem já o seu peculio bem bonito.

Mr. Whitestone não se esquecera d'esta parte do plano de Jenny.

—Que duvida!—disseram alguns.

—Sabem o que alli está?—fez notar um brazileiro—É um bom director de banco.

—E olhe que é verdade.

Esta opinião prova a que ponto subira, em poucas horas, o credito de Manoel Quentino. Julgal-o apto para director de um banco era o mais alto grau a que podia eleval-o o conceito publico. Tal foi o effeito do artificio de Jenny.

Mr. Richard via com prazer o bom exito do plano. O amor proprio de artista estava a suffocar o resto de preconceitos, que ainda sobreviviam n'elle. Por prudencia chamou de parte Mr. Brains, que viu na Praça, e deu-lhe a entender que convinha não fallar na scena do jantar da vespera.

—Porque, Mr. Brains—disse elle—bem vê que aquelle pateta de Carlos portou-se de maneira, que será pouco airoso para um inglez se se vier a saber…

Feita esta reflexão, o orgulho nacional terminava a obra, encadeiando a lingua de Mr. Brains; a de Morlays tambem a mesma causa foi, além da misanthropica incommunicabilidade, sufficiente para a refreiar.

N'esta mesma manhã, Cecilia, achando-se só em casa, julgou ouvir uma carruagem parar-lhe á porta.

Indo á janella, ficou agradavelmente surprendida vendo Jenny, que descia de um elegante carro descoberto, entrar para o portal.

Cecilia correu a recebel-a nos braços.

—Este sol não me deixou desde pela manhã ficar quieta, Cecilia—disse-lhe Jenny.—Appeteceu-me tomar ar e vim, para me fazeres companhia.

—Eu?

—Sim, tu; e desde já te declaro que não me sinto de animo para aceitar desculpas. Veste-te e vamos.

—Mas, Jenny… repare…

—Reparo que são dez horas e que não tenho paciencia para esperar mais.
Queres que te leve á força?

—Mas estou só…

—Emquanto te vestes alguém virá de certo, e se não vier… Emfim estou resolvida a cortar por todas as objecções, ainda que seja de uma maneira absurda. Vê lá se pódes luctar commigo.

Cecilia sorriu a este capricho de Jenny; era tão pouco sujeita a elles, que a filha de Manoel Quentino suspeitou que alguma ideia occulta andava n'isto.

Retirou-se porém para obedecer-lhe.

Jenny ficou só na sala.

Não esteve muito tempo sem que ouvisse passos na escada.

Era Antonia que voltava de fóra.

Antonia não suspeitava a presença de Jenny em casa. O jockey, para evitar o resfriamento da horsa, conduzira o carro até o fim da rua, de maneira que Antonia, ao chegar, nada viu á porta, que lhe denunciasse a visita.

Achando a sala aberta, suppôz que era Cecilia que estava alli e ainda do corredor principiou a clamar:

—Bem se diz: não ha nada que o tempo não descubra. Agora mesmo acabo de saber aonde mora a tal sujeita, com quem o snr. Carlos saiu de carruagem aquella manhã. Não que nem de proposito! Ia eu…

Aqui interrompeu-se de subito, porque reconheceu que estava fallando a
Jenny, em vez de Cecilia.

—Boa te vae—exclamou Antonia, mortificada. Mas já tinha dito bastante para que Jenny não a deixasse retirar.

—Espere, acabe. Aonde mora essa senhora? Diga.

Antonia estava visivelmente embaraçada.

O typo inglez de Jenny mostrou-lhe immediatamente que era na presença da propria irmã de Carlos, que ella tinha imprudentemente avançado aquellas palavras.

Jenny não lhe deu tempo de dominar esta primeira impressão e de tomar um partido.

—Não se constranja. Falle. Está diante da irmã de Carlos. Sei o facto a que se refere. Eu tambem tenho o maior interesse em conhecer a pessoa de quem fallava. Por isso acabe o que ia a dizer…

—Ora nem vale a pena. A minha ideia não era….

Jenny resolvera não abandonar aquelle ensejo de resolver o mysterio, que se promptificára a elucidar em oito dias. Um secreto presentimento lhe assegurava que d'esta pesquiza resultaria a justificação do irmão.

—Vamos—insistiu ella, dando ás palavras o tom de familiaridade propria a inspirar confiança.—Dizia que tinha descoberto a morada d'aquella senhora…

—Eu não disse…

—Não negue. Ouça-me. Eu sei tudo o que se tem passado entre meu irmão e
Cecilia.

—Sabe?!

O que Jenny não sabia era quaes as ideias da snr.ª Antonia sobre este assumpto, e por isso continuou com a maior precaução:

—Sei, e bem vê que, não só como irmã, mas como amiga, devo… preciso de…

—Mas quaes são as tenções da senhora?

—Concorrer para evitar o infortunio de ambos—respondeu Jenny, ambiguamente.

Antonia interpretou a seu modo a resposta.

—Pois bem; eu sei que a senhora tem muito juizo, e por isso digo-lhe, esta manhã…

N'isto ouviu-se Cecilia fechar a porta do quarto.

—Silencio;—disse Jenny—Cecilia vem ahi. Vamos sair juntas. Não lhe diga nada, emquanto não fallar commigo. É para bem d'ella. Ámanhã pela manhã procure-me. Sabe onde moro?

—Sei, sim, minha senhora.

—Então não falte. Vocemecê é uma mulher de juizo, e por isso quero fallar-lhe. E não diga a Cecilia!

—Esteja descansada—disse Antonia, a quem as ultimas palavras de Jenny tinham em extremo lisongeado e ganho de coração para a causa d'ella.

Cecilia chegou á sala.

Dentro em pouco, ambas aquellas duas mulheres de belleza incontestavel, ainda que de tão diversa indole, partiam no elegante carro, conversando e rindo, com a despreoccupação da juventude.

Jenny tinha com anticipacão dado as ordens para o passeio.

Seguiram pela estrada da Foz. Passaram quasi toda a manhã á beira-mar. Jenny parecia outra. A sua seriedade ingleza cedera o logar a uma vivacidade de conversação e a um contentamento, quasi de creança.

Tudo lhe era motivo para alegria, que pouco a pouco se communicou a
Cecilia tambem.

Ha poucas cousas tão fatalmente contagiosas como a alegria das pessoas sérias.

Foi uma deliciosa manhã a das duas raparigas. Cecilia estava muito longe de prever em que terminaria aquillo.

Á uma hora voltavam para o carro e ás duas entrava elle, com grande surpreza e sobresalto de Cecilia, pela rua dos Inglezes, então em plena actividade commercial.

A presença das duas amigas causou sensação na Praça. Todos conheciam
Jenny; raros, se alguns, podiam dizer quem fosse Cecilia.

Um inglez veio cumprimentar Jenny. Ella aproveitou a occasião para lhe apresentar Cecilia. Dentro em pouco corria voz na Praça de que era a filha de Manoel Quentino a senhora que acompanhava a ingleza.

Mr. Whitestone veio receber a filha ao portal. Ao ver Cecilia, trocou um sorriso de intelligencia com Jenny. Com toda a galanteria as ajudou a descer do carro.

Foi grande a surpresa de Manoel Quentino, vendo entrar a filha no escriptorio.

Jenny applaudiu o espanto do velho, rindo com vontade. Mr. Richard tambem não ficou sério.

Não menos surprendido foi Carlos com o encontro, que estava bem longe de esperar.

Entre Cecilia, Carlos e Manoel Quentino conservou-se invencivel constrangimento.

Perto das tres horas, os grupos que estavam ainda na Praça, viram sair do portal do escriptorio a familia Whitestone, Cecilia e Manoel Quentino, e todos tomarem logar no carro. Momentos depois este, guiado por Carlos, atravessava por entre esses grupos, e seguia toda a extensão da rua, deixando atraz de si uma esteira de commentarios.

Manoel Quentino ia enleiado; Cecilia, pensativa; Jenny, contente.

XXXVIII

JUSTIFICAÇÃO DE CARLOS

No dia seguinte pela manhã, era a snr.ª Antonia introduzida com muita deferencia no quarto de Jenny. A criada de Manoel Quentino estava penhorada com tantas attenções, e era já, de corpo e alma, creatura da inglezinha, como ella chamava a Jenny Whitestone.

Jenny fel-a sentar junto de si e pediu-lhe que lhe dissesse quanto sabia da tal senhora, a quem alludira na vespera.

Antonia com muitas digressões, a que era inclinada, contou como n'aquella manhã, passando por a rua de Santa Catharina, vira estar o snr. Paulo, segundo caixeiro do escriptorio de Mr. Richard, fallando, da rua para a janella, com uma senhora, que lhe sorria com affecto. Antonia, obedecendo a natural curiosidade, affirmou-se na tal senhora e reconheceu-a a mesma que procurára Carlos e saíra com elle n'aquella manhã, em que Antonia viera colher informações da snr.ª Josefinha da Agua-benta.

—Era ella sem tirar nem pôr. Emquanto a mim, alguma comediante do theatro, porque dizem… mas perdôe-me a senhora o eu estar com isto.

Jenny fingiu não attender á opinião de Antonia e perguntou:

—E diz então que mora?

—Na rua de Santa Catharina.

E entrou na minuciosa descripção da casa, com todas as particularidades, que a podessem fazer conhecida.

Jenny já não tinha nada mais a saber de Antonia.

Ao recompensar generosamente a boa vontade da informação, disse, como para acalmar os escrupulos ficticios de Antonia:

—Creia que lhe fico ainda obrigada por o que me contou. E agora tenho a pedir-lhe outra cousa.

—Diga, minha senhora, diga.

—A snr.ª Antonia não ha de dizer que veio aqui.

—Ora essa!

—Estou certa de que não diz; além d'isso, falle verdade, quer muito mal a meu irmão?

—Eu, minha senhora?—disse Antonia, visivelmente enleiada com a interpellação.

—É provável que sim. Quasi todos são injustos para Carlos, antes de o conhecerem. Depois, vendo como elle é bom, generoso e delicado, acabam por adoral-o.

A snr.ª Antonia ficou abalada nos seus juizos a respeito dos dotes criticos da cunhada da sobrinha do homem da sua comadre.

—Ora diga—continuou Jenny—não são prevenções sómente as que tem contra meu irmão?

—Sim… eu… quero dizer… a fallar a verdade…

—Pois bem; só lhe peço que, durante alguns dias, não pense bem nem mal de Carlos, até… até ter noticias minhas.

—Ó minha senhora, pois eu pensava lá…

—Vá, vá, snr.ª Antonia, para que Cecilia não desconfie. Não lhe diga cousa alguma, nem falle na tal senhora…

—Esteja descansada.

Logo que Antonia saiu, Jenny deu ordem para prepararem o carro.

E quando lhe annunciaram que esta ordem estava cumprida, desceu ao portal e entrando para o carro, disse ao criado, que a ajudou a subir:

—Ao alto de Santa Catharina.

Em pouco tempo, achou-se transportada lá. Jenny, pelos signaes que recebera de Antonia, e conservava de memoria, pôde reconhecer a casa da tal senhora e mandou parar defronte d'ella.

Só então hesitou pela primeira vez n'esta serie de actos, a que obedecera como subjugada por quasi instinctiva violencia.

—Em casa de quem vou eu entrar?—pensou ella—-Que mulher será esta?
Carlos afiançou-me… porém…

Á porta da casa contigua estava um criado, olhando com curiosidade para o carro era que viera Jenny.

Jenny mandou perguntar a este criado informações a respeito da senhora que vinha procurar.

Obteve a resposta de que morava na tal casa uma senhora viuva, na companhia do filho.

Jenny não hesitou mais; saltou para o passeio e tocou a campainha.

Passados minutos, era recebida em uma modesta, mas asseiada sala, por uma senhora ainda bella, apesar de haver já passado o verdor da juventude.

Jenny foi direita ao fim da visita.

—Minha senhora—disse ella—eu chamo-me Jenny Whitestone.

A senhora estremeceu de surpreza. Jenny proseguiu com uma concisão, verdadeiramente ingleza:

—Venho de proposito procural-a, e não sei ainda a quem tenho a honra de fallar. O fim da minha visita é este: Meu irmão, Carlos Whitestone, saíu ha dias de casa na companhia de uma senhora; entrou em uma loja de ourives, e vendeu um relogio, que, pouco tempo antes, recebera de meu pae.—Este facto foi sabido; meu pae experimentou com isto grande desgosto, e esta acção de Carlos tem sido interpretada de maneira desfavoravel para elle e trazido comsigo dissensões domesticas, que trabalho por aplacar. Meu irmão afiança não ter sido indigno o motivo do sacrificio que fez d'aquella dadiva do affecto paterno; insiste porém em não o explicar. Eu creio na palavra de Carlos, porque o conheço; mas nem todos depositam n'elle a mesma confiança. Soube por acaso que era v. exc.ª a senhora, que n'aquella manhã acompanhava meu irmão. Poderei obter de v. exc.ª provas para a justificação de Carlos?

Emquanto Jenny fallava, a senhora mostrava-se cada vez mais agitada, como se diversas sensações se combatessem n'ella. Ao ouvir-lhe esta pergunta, respondeu com as lagrimas nos olhos:

—Póde, sim, minha senhora; mas… depois de v. exc.ª as ver, dirá se me será possivel deixar de pedir-lhe que não use d'ellas.

—Como?—perguntou Jenny, admirada.

Em vez de responder, a senhora levantou-se e aproximou-se de uma secretária, que abriu. Voltou dentro em pouco, trazendo alguns papeis na mão.

—Eu sou a mãe de Paulo, o caixeiro do escriptorio do snr. Whitestone.

—Ah!

—Queira ler esta carta, minha senhora.

Era uma carta de Paulo á mãe.

Jenny leu; a meia leitura, saltavam-lhe já as lagrimas dos olhos e comprehendia tudo.

N'esta carta Paulo confessava-se criminoso e dizia-se perdido para sempre. O muito amor, que tinha á mãe, tornára-lhe insupportavel a ideia de que a menor privação fizesse sentir á pobre senhora as amarguras de unia existencia, para cujo amparo só elle ficára, depois da morte de seu pae.—Este sentimento piedoso perdeu-o. Não bastando para tratal-a, como desejava, os ordenados do escriptorio, contrahiu dividas primeiro; para as saldar, jogou nas loterias; acresceu o mal; e mais tarde, em um momento de desespêro, durante o mez da doença de Manoel Quentino, subtrahiu uma avultada somma da caixa, fechando os olhos ás consequencias.—A confiança de Carlos era facil de illudir; mas na vespera do regresso de Manoel Quentino ao escriptorio, Paulo previu que o desconfiado guarda-livros cêdo descobriria tudo. Após o susto, veio o remorso, e após o remorso, a resolução desesperada. Para evitar o suicidio, resolveu fugir da cidade. N'esta carta despedia-se portanto da mãe, e recommendava-lhe que pedisse protecção a Mr. Richard e sobretudo a Carlos, em cujo caracter generoso o pobre rapaz confiava cegamente.

—Ó meu bom Charles!—disse Jennv, ao acabar de ler—eu bem sentia que havia de ser digno de ti o motivo, que te levou áquillo. Comprehendo tudo, meu irmão…

—Seu irmão é uma alma sublime, a quem Deus pagará em venturas as lagrimas de gratidão, que elle me tem feito derramar.

Jenny apertou commovida as mãos da senhora, que chorava.

Contou a mãe de Paulo os promenores das scenas, que se passaram n'aquella manhã: como, ao acordar, dera pela ausencia do filho e encontrára esta carta a explical-a; o seu desespêro, a sua irresolucão; a ignorancia, em que ficou sobre o destino de Paulo.—Disse depois como o bilhete de um amigo desconhecido, indicando a Paulo a hora a que devia estar a bordo do navio, lhe dera indicios.

Depois contou toda a entrevista com Carlos, a quem ella recorrera desesperada. A prompta disposição d'este para valer-lhe, como, obtida com a venda do relogio a somma do alcance de Paulo, Carlos a acompanhára á Foz, até bordo do navio, e lhe restituira o filho, que ella já suppunha perdido.

—Horas depois—concluiu ella—recebia eu em casa este bilhete de Paulo.

Jenny leu-o. Dizia apenas:

«Tudo está salvo, minha boa mãe. A generosidade do snr. Carlos livrou-me da deshonra. Resta-me o dever da regeneração, que sinto agora mais vivo do que nunca.»

—E agora diga, minha senhora, devo accusar meu proprio filho? Não era por mim que elle se perdia? E devo pagar-lhe assim? É de justiça, bem sei; mas… perdôe-me se me falta a coragem. Não desculpará esta fraqueza a uma mãe?

Jenny abraçou-a com ternura.

—Tranquillise-se, minha senhora. Não é a esse coração que eu pedirei tal sacrificio. Deus me inspirará algum meio de valer a todos. Sinto-me agora com força para tudo.

—Pobre Paulo! O muito amor que me tem foi que o levou áquillo. Ainda hoje sente remorsos tão vivos!… Elle bem faz por se alegrar, mas… conheço que lhe peza esta pena dentro da alma. «Se eu fosse só—disse-me elle ha dias—se a minha desgraça não podesse cair sobre a cabeça de mais ninguem, eu já teria confessado tudo! Envergonho-me de mim mesmo, quando penso no meu silencio.» E eu, senhora, que abençoaria a hora, em que espontaneamente elle o confessasse, não tenho coragem para dizer-lhe: Falla! Parece-me quasi uma ingratidão… Era como se eu propria, sabendo que elle se deshonrára por mim, o apontasse deshonrado aos olhos dos outros.

Jenny consolou a pobre mãe e prometteu-lhe não revelar a alguem o que d'ella acabára de saber.

Saíu d'alli com a alegria no coração a generosa irmã de Carlos.

De caminho ia pensando na maneira de proceder para patentear ao pae a innocencia de Carlos, sem trahir a confiança, que a mãe de Paulo depositára n'ella.

De subito acudiu-lhe uma ideia, que a fez sorrir. E, em vez de voltar para casa, como tencionava, deu ordem para que a conduzissem ao escriptorio da rua dos Inglezes.

Mr. Richard, que passeiava na Praça, vendo chegar a filha, aproximou-se d'ella sorrindo.

—Que madrugada é esta, Jenny?

—Admira-se? pois ha muito que ando por fóra.

—Então é dia de feira?

—Não, senhor; mas tenho hoje de lhe dar contas de um trabalho de que me encarreguei.

—Qual?

—Um problema que prometti resolver em oito dias.

—Ah! e então?…

—E então, nem tanto tempo me foi preciso; já possuo a solução; agora só me resta uma difficuldade.

—Qual é?

—Achar a maneira apropriada de lh'a fazer saber.

—Isso não custa a imaginar.

—Não é muito facil, porque prometti que não serei eu que a diga.

—E então quem ha de ser?

—É o que venho procurar.

—Aqui?

—Lá acima, ao escriptorio, onde me deixará subir e demorar algum tempo.

—Como quizeres. E póde saber-se se a solução é satisfactoria?

—A melhor possivel.

—Duvido.

—Verá.

—Verei.

—Duas palavras mais; os seus caixeiros sabem todos inglez?

—Manoel Quentino…

—Esse sei que sim; os outros?

—Paulo não o falla, mas entende-o; o outro nem o entende, nem o falla.

—Bem. Outra cousa. Ha de fazer-me uma promessa.

—Dize.

—Quando souber a solução do problema, se reconhecer que foi severo de mais para com seu filho, será, em compensação, indulgente para com o verdadeiro culpado.

—Pois ha culpados?

—Promette?

—Mas…

—Prometterei, porém…

—Até logo. Ou eu me engano muito, ou, d'aqui a meia hora, póde vir saber o resultado.

—De ti?

—De mim não. Até logo.

E desappareceu, subindo com ligeireza as escadas carunchentas do escriptorio.

Ao entrar alli dentro, Jenny revestiu-se de um d'aquelles ares graves e pensativos, que tão bem lhe iam á physionomia sympathica.

Estavam na sala Manoel Quentino, Paulo e o outro caixeiro, e todos se levantaram, ao verem entrar a joven ingleza.

—Por favor, deixem-se estar como estão—disse ella, sentando-se ao pé de Manoel Quentino.—Quero descansar algum tempo aqui; mas não interrompam os trabalhos.

—Estava bem longe de a esperar hoje por estes sitios, miss Jenny—disse
Manoel Quentino, continuando a trabalhar.

—Precisei de fallar com o pae… Mas que tem, Manoel Quentino?
Parece-me triste; Cecilia como está?

—Graças a Deus, menina, Cecilia… não está mal.

—Então não esteja triste. Para tristezas basto eu.

—Então miss Jenny está triste?

—E não pouco, Manoel Quentino.

Manoel Quentino sorriu, como quem duvidava.

—De que se ri? Julga-me incapaz de sentir a tristeza?

—Não, mas não vejo o que possa causar-lh'a.

—Então ouça e diga se o motivo não é para estes e peiores effeitos.

Jenny, passando de repente a fallar inglez, como se desejasse ser sómente comprehendida por Manoel Quentino, a quem se dirigia em tom confidencial, proseguiu:

—Charles tem excellente coração, como sabe; mas uma cabeça!… Sem o querer, é o motivo de continuados desgostos em casa. Ahi está que se dá agora com elle um facto, bem singular, que é a causa da minha tristeza.

E Jenny principiou a contar a Manoel Quentino a historia do relogio, o desgosto de Mr. Richard, a insistencia de Carlos em occultar as razões que o moveram áquella venda, razões que elle se limitava a affirmar não serem vis.

—Mas que quer?—proseguia Jenny—quem o acreditará? Eu e mais ninguem. O conceito que geralmente fazem de meu irmão, não lhe serve de fiança valiosa. Isto tem feito existir entre Charles e o pae, ha já muitos dias, uma frieza… mais do que frieza, uma quasi hostilidade, que me afflige. Se soubesse, Manoel Quentino, o que tenho chorado por causa d'elles!…

Jenny que, como dissemos, fallava agora em inglez e como quem não receiava que alguem mais a comprehendesse na sala, lançava de quando em quando olhares furtivos para Paulo e via-o mudar de cor, passar de pallido a córado, empallidecer de novo, córar outra vez, emquanto mal segurava na mão tremula a penna, com que escrevia.

Jenny seguia com prazer todos estes signaes, e por elles conjecturava que estava sendo entendida.

—Verduras!—disse Manoel Quentino, procurando desculpar Carlos.

—Que importa que o sejam? São motivo bastante para nos fazer soffrer a todos.

Jenny insistiu muito n'isto, exagerou as côres sombrias com que pintou o horizonte domestico. N'isto fallava ainda, quando Mr. Richard entrou no escriptorio. Jenny receiou que qualquer pergunta d'elle inutilisasse todo o artificio, e por isso correu ao encontro do pae e, fingindo abraçal-o, disse-lhe ao ouvido:

—Não se refira a nada do que ha pouco lhe disse e demore-se aqui no escriptorio.

Mr. Richard fez, sorrindo, um signal de assentimento.

Jenny sustentou uma conversa insignificante, sem nunca perder de vista Paulo, cuja turbação indicava uma violenta lucta interior. Jenny agourava bem do que ia observando n'elle.

Emfim deixou afrouxar a conversa e fez ao pae signal para que entrasse no gabinete. Mr. Whitestone assim o fez.

A agitação de Paulo cresceu. Jenny espiava-lhe todos os movimentos e expressões. Viu-o pousar a penna e erguer-se, como movido por forte resolução. Jenny tremeu de sobresalto! Depois fez-se pallido, passou a mão pela fronte e sentou-se outra vez. Jenny desanimou. Ergueu-se emfim resoluto, e sem parar um momento mais, dirigiu-se ao gabinete de Mr. Richard e pediu licença para entrar.

—Entre—disse de dentro a voz do negociante.

Paulo entrou, fechando a porta atraz de si.

Jenny não pôde conter-se; saíram-lhe involuntariamente dos labios estas palavras:

—Está ganha a causa!

Manoel Quentino olhou para ella admirado.

Jenny pôz-se a rir.

—Se soubesse, Manoel Quentino, que se está agora mesmo desmoronando o ultimo e pequeno estorvo, que se oppunha á sua felicidade!…

Manoel Quentino cada vez a comprehendia menos.

Jenny nada mais disse.

A conferencia de Paulo e de Mr. Richard durou muito tempo. De fóra só se percebia um indistincto rumor de vozes, sem se distinguir uma só palavra.

A final abriu-se a porta outra vez.

Passou por Jenny o tremor de incerteza.

O primeiro que saiu foi Paulo; trazia as faces afogueadas, os olhos vermelhos; mas, por entre estes vestigios de tristeza, transluzia certo ar de contentamento de alma, que tranquillisou Jenny.

Momentos depois saiu Mr. Richard. Através da impassibilidade e frieza apparente da physionomia do velho, o olhar de Jenny percebeu que lhe ia muita alegria no coração.

Mr. Richard deu algumas ordens, fez algumas recommendações, e depois, voltando-se para a filha, disse-lhe que estava á disposição d'ella. Retirava-se do escriptorio a uma hora excepcional.

Jenny acompanhou-o.

—Saíste-te perfeitamente da tua incumbencia, Jenny—disse-lhe o pae, quando a sós com ella no carro.

—Então não saí?

—E como o conseguiste?

—Mais de vagar!… Esse é o meu segredo. Diga, não estará Carlos ainda justificado?

Um sorriso foi a resposta que obteve esta pergunta; sorriso de orgulho, de affecto, de commoção, que tudo estava então experimentando aquelle coração de pae.

—Carlos tem uma alma generosa, leal; eu tenho sido devéras injusto com elle.

Jenny exultou ao ouvir esta confissão.

—Escuso de perguntar—disse ella—se foi indulgente com o culpado: tenho até a pedir-lhe perdão de ter antes exigido a promessa d'aquillo, que por certo espontaneamente faria.

—Enganas-te; eu castigo.

Jenny olhou-o inquieta.

—O castigo é um dever moral—proseguiu o pae.—É o meio de regeneração. As almas fracas e vis castigam-se com rigores; só o mêdo póde refreial-as. Mas Paulo, apesar da sua fraqueza, tem vigorosos ainda os instinctos da honra; para estes o castigo, que regenera, é o pagar a culpa com o beneficio. No mesmo dia, em que Manoel Quentino for meu socio, Paulo será nosso guarda-livros, ser-lhe-hão augmentados os salarios e confiada a caixa.

Jenny beijou as mãos do pae.

—Deus não castigaria por outra fórma.

—Não digas heresias, Jenny.

Haviam chegado a casa.

—Agora pódes fazer a Manoel Quentino o teu presente—disse Mr. Richard.

—E depois…

—Depois examinaremos de vagar o resto das tuas loucuras.

XXXIX

CORÔA-SE A OBRA

Manoel Quentino estava ainda em casa, na manhã do dia seguinte, quando Antonia lhe veio annunciar que a «inglezinha» chegára em uma carruagem e perguntava por elle.

Cecilia e Manoel Quentino correram ao encontro de Jenny.

—Estranham-me a madrugada? Que querem? Não pude dormir toda a noite com a lembrança d'esta visita. Desejava encontrar ainda em casa o snr. Manoel Quentino e como sei dos seus habitos matinaes…

—Ainda tenho meia hora—disse o guarda-livros, consultando o relogio.

—O fim da minha visita é simplesmente entregar-lhe em mão propria uma mensagem de meu pae. Quer ver?

E passou para as mãos do velho a carta, que o leitor conhece já.

Emquanto Manoel Quentino se dispunha a lel-a, Jenny dizia a Cecilia:

—Então como vae esse coração?

—O coração?

—Sim; eu não quero que elle se deixe curar senão por mim. Entendes?

—E acha-o doente?—perguntou Cecilia.

—E acha-o são?—perguntou Jenny, imitando-a.

Cecilia ia a responder, mas suspendeu-se, olhando para o pae.

—Jesus! Que tem meu pae? Olhe!

Manoel Quentino, que acabára de ler a carta de Mr. Richard, estava efectivamente perturbado; fizera-se pallido, e tremia olhando para o escripto, que conservava na mão.

Jenny sorriu.

Cecilia correu para o pae.

—Que é isso? que é o que tem?

Manoel Quentino mostrou-lhe em silencio a carta do inglez.

Cecilia leu-a em um relance de olhos. No fim, banhada de lagrimas, abraçou o pae com transporte.

—Oh que felicidade, meu pae!

O velho parecia hesitar ainda entre a alegria da nova e não sei que amargo pensamento, que teimava em enlutal-a.

—É de certo á influencia d'este anjo—disse Cecilia, designando
Jenny—que devemos esta ventura.

O guarda-livros olhou tambem para Jenny, e, com certa perturbação de voz mal disfarçada, perguntou-lhe:

—Miss Jenny, a que serviços devo eu uma tão generosa recompensa?

—Serão poucos os de dezoito annos de fidelidade, Manoel Quentino? Vamos—continuou sorrindo—querem ver que nos sáe um desconfiado? Asseguro-lhe eu, Jenny—continuou com voz firme e grave, porque julgou divisar um raio de desconfiança no olhar de Manoel Quentino—-asseguro-lhe eu, que vi escrever essa carta e que beijei, reconhecida, a mão que a escreveu, asseguro-lhe que póde e que deve aceitar a mercê—se mercê se póde chamar—com a certeza de que a obteve por nobres e reaes serviços.

Estas palavras desarmaram Manoel Quentino. Todas as sombras suscitadas pela leitura se desfizeram.

Havia-lhe de facto occorrido, que lhe queriam compensar d'aquella maneira as tenções, menos leaes, de Carlos para com a filha, e, com esta ideia, o orgulho e o despeito, mal sopeados ainda, revoltaram-se-lhe no coração outra vez.

Mas o conceito, em que tinha Jenny, não lhe deixava supportar estes escrupulos, desde que por ella os via condemnados.

Agora porém era Cecilia a que ficava pensativa.

Passada a primeira expansão de alegria, que a felicidade do pae lhe despertára, acudiu a reflexão a fazel-a meditar sobre as tenções de Jenny.

Esta, que observava a amiga, chamou-a de parte.

—Que ares graves são esses, Cecilia?

—Jenny, deixa-me fazer-lhe uma pergunta?

—Não; se for feita de maneira tão ceremoniosa. Vê que não é assim que eu te trato.

—Mas…

—É condição para que te escute. Falla.

—Diga-me…

A um gesto de Jenny, corrigiu, sorrindo:

—Dizes-me toda a significação d'isto?

—De quê?

—D'esta generosa acção, que eu sinto vir da… tua inspiração?

—Então não te basta a explicação que dei? Tão impossivel te parece já a gratidão, que…

—Não, mas as circumstancias, que occorreram… o que se passou…

—Que tem tudo isso?

—Jenny, perdôa-me; mas a minha consciencia obriga-me a pôr de parte todas as reservas e a fallar-te com franqueza…

—E inda agora o fazes?

—Responde-me… Quaes são as tuas tenções?

—Que tenções?

—As tuas tenções… a meu respeito?

—Ah!… As melhores tenções d'este mundo… Fazer-te feliz.

—Mas repara, Jenny, que eu não o posso nunca ser, á custa de sacrificios alheios.

—E quem é que se vae sacrificar?

—Não sei, mas… acudiu-me um pensamento… louco por certo… mas inquieta-me… A tua generosidade é capaz de tudo…

—Vamos lá a ver esse pensamento louco, que te occorreu.

—N'aquella manhã, no dia dos teus annos, quando me appareceste, como o anjo de misericordia, em um momento de afflicção… lembras-te?

—Vamos adiante… O anjo de misericordia é que veio de mais ahi…

—N'esse momento, ouvi-te dizer algumas palavras, que tremi de comprehender, depois quando disseste a… teu irmão que eu tinha direitos a exigir d'elle a affeição que…

—E não tinhas?

—Ouve-me, Jenny. D'aquella vez a tua angelica presença bastou para me salvar; mas se não bastasse, quando eu tivesse sido surprendida, como o acaso me arriscou a ser, alli, só, n'aquelle logar, e ficasse perdida na opinião de todos, coberta de vergonha e de despreso, ainda assim preferiria retirar-me só com a minha consciencia, que me não accusava, a usar dos direitos a essa reparação, que dizias. Exigir affeições! Repara bem, Jenny:—Exigir!—E podem lá exigir-se affeicões? Receber as apparencias d'ellas, em vez da realidade! E a quem dá isso venturas?

—Tens razão, Cecilia. Vê; eu também sou do teu pensar, e comtudo teimo em fazer-te feliz. E sinceramente confesso que isto hoje é um passo dado no caminho, em que entrei e que estou disposta a seguir até o fim.

—Mas…

—Com franqueza, Cecilia. Falta-nos o tempo para rodeios. Acreditas ou não na affeição de Carlos?

—Não.

—Que não tão desenganado!—tornou Jenny, sorrindo—Ha de custar-me a perdoar-t'o. Não sei se sabes que tomei sobre mim o justificar meu irmão. Já tenho alcançado muitas victorias. Meu pae confessou-se já hontem injusto para com elle. A tua criada Antonia está meia abalada tambem.

—Antonia?!

—É verdade. Eu suspeitei que meu irmão tinha n'ella um inimigo, e parece-me ha ver acertado. E senão dize-me: não foi Antonia quem te contou a historia de certa visita, que Carlos recebeu?

Cecilia desviou os olhos, ao ouvir a referencia ao delicto, que com tão amargas censuras lhe fora de facto contado pela criada.

—Bem vejo que me não enganei—continuou Jenny.—Pois até Antonia se dará por vencida a final. Emquanto á tal visita… dir-te-hei de passagem que tudo está satisfactoriamente explicado.

—Como?—perguntou Cecilia com vivacidade.

—É segredo que meu irmão te poderá revelar, quando… entre ti e elle não devam existir segredos.

—Tarde viria então, para me aproveitar, o esclarecimento.

—Até lá contenta-te com a minha palavra; ou tambem duvídas d'ella?

A volta de Manoel Quentino á sala interrompeu o dialogo.

Cecilia ficou no fim d'elle com mais confiança no futuro, e mais frequentes lhe assomaram os risos aos labios no resto da manhã.

Espalhou-se rapidamente na Praça, durante aquella manhã, a nova da promoção de Manoel Quentino.

Choveram-lhe parabens de todos os lados, cresceu na opinião publica a reputação do guarda-livros.

Conceituando altamente a classe commercial, não podia Manoel Quentino ficar indifferente, ao sentir-se guindado por ella na escada da consideração. Deixava-se possuir de legitimo orgulho, que, não obstante, o não fazia soberbo.

Paulo foi no mesmo dia nomeado guarda-livros, com augmento de ordenado.

O pobre rapaz recebeu com lagrimas a nomeação. Estas lagrimas estavam vingando Mr. Richard.

As manifestações publicas de intimidade entre as duas familias repetiram-se, graças aos artificios de Jenny.

Uma noite, Cecilia, obrigada por ella, appareceu no theatro.

Os amigos de Carlos reconheceram-a, e os boatos do proximo casamento de Mr. Richard com a filha do seu novo socio principiaram, desde então, a transpirar na cidade com certa insistencia.

A phantasia de alguns novelleiros explicava o facto por motivos occultos, dando a entender que os serviços, que devia a casa Whitestone a Manoel Quentino, eram maiores do que os reconhecidos por ella e que as economias do velho guarda-livros tinham valido para atalhar os males causados pelos arrojos do patrão. Desde que se achára assim meio de fazer intervir na explicação o elemento interesse, os animos aceitavam-a de mais boa mente.

Tinha Mr. Richard razão.

Partira porém um vapor para Londres e, após o primeiro, outro e outro, sem que o velho commerciante inglez fizesse lembrar ao filho o cumprimento da sua sentença.

Uma manhã, estava Mr. Richard no gabinete, enthusiasmado na contemplação da chamada «Águia dourada», ou technicamente: Aquila Chrysaetos, raro visitador dos suburbios de Londres, que elle recebera nas vesperas de um seu amigo de Boxhill, onde fora caçada e morta, quando d'este quasi extase de colleccionador o arrancou o rumor da porta do gabinete que se abria; Mr. Richard voltou-se e viu o rosto da filha, que espreitava para dentro.

—Entra, Jenny, entra—disse elle, com a affabilidade com que sempre lhe fallava.

Jenny entrou.

—Que te traz por aqui, tão de madrugada?

—Encarreguei-me de uma apresentação, que peço licença para fazer-lhe.

—De uma apresentação?! De quem?

—De uma pessoa—respondeu Jenny maliciosamente—que lhe quer pedir as suas ordens para Londres. Ha muitos dias já que tinha de partir para lá.

Mr. Whitestone olhou, sorrindo, para a filha, cujas palavras, com o seu sahor epigrammatico, o deliciavam.

—Que entre, que entre o teu recommendado.

Jenny abriu a porta e introduziu Carlos na sala.

Apesar da timidez, que sentia sempre na presença do pae, Carlos recebia agora coragem da consciencia de ter ganho de antemão a causa, que vinha por formalidade advogar alli.

—Meu pae—disse elle, adiantando-se para Mr. Whitestone—não ha muitos dias, que pela sua bôca ouvi qualificada como infamia uma acção minha; venho pedir-lhe agora que me deixe usar do unico meio, que tenho, para evitar que a arguição seja, até certo ponto, merecida.

—Qual é?—perguntou concisamente Mr. Richard.

—Procurar Manoel Quentino e pedir-lhe para offerecer o meu nome, honrado por meu pae com uma vida inteira de probidade, a essa menina, que as minhas imprudencias, e nunca as minhas intenções, iam sacrificando. Salvou-a uma vez a generosidade de minha irmã; outra, a sua, senhor. Deixe-me pois seguir o exemplo tão nobre que me apontaram e com elle o que, ao mesmo tempo, me aconselha o coração.

—E já pensaste bem, Carlos;—disse Mr. Richard, que tinha já perdido toda a sua rispidez—já pensaste bem no que vaes fazer? Não temes que venhas ainda a arrepender-te d'esse passo pouco reflectido? Não receias tornar-te o instrumento da infelicidade d'essa menina? Estás preparado para as obrigações, que, como chefe de familia, vaes chamar sobre ti?

—Eu sei que o passado poucas garantias me póde conceder; mais tenho fé em que o futuro me justificará…

—Fé?—disse Mr. Richard, rindo—É o unico fiador que tens por ti?

Jenny pousou a mão no hombro do pae, dizendo com suavidade:

—E eu.

Mr. Richard voltou-se.

—Tu? Tu afianças Carlos?

—Afianço.

—É arrojo!

—Não é a primeira vez. E o pae sabe qual de nós tem tido razão de se arrepender. Se eu, da minha confiança; se o pae, das suas suspeitas.

—Á falta de melhor, aceito a garantia.

E voltando-se para o filho:

—Parta então, Carlos; e lembre-se de que, depois do passo que vae dar, é… deve ser outro homem.

E Mr. Richard Whitestone estendeu a mão para o filho, que a beijou, antes de partir.

—Não sei se fizeste bem, Jenny—dizia o pae, vendo-o saír do quarto.

—Consultei a memoria de minha mãe, tendo os olhos no retrato d'ella.
Tenho fé nas resoluções que me veem assim.

Mr. Richard olhou algum tempo para a filha com amor, e depois, apertando-a ao peito, disse:

—Deus te ouça!… E ha de ouvir, que bem lh'o mereces.

—E nós, senhor, ficamos aqui?—perguntou Jenny.

—Pois que mais queres tu ainda?

—É natural que seja Charles o primeiro a tratar este negocio em casa de
Manoel Quentino; mas será delicado que seja o unico?

Mr. Richard tocou a campainha.

—Que apromptem o carro para já—disse ao criado que acudiu ao signal.

—E agora que mais queres?

—Agradecer-lhe.

E depois de abraçar o pae, saiu a correr da sala.

Esta scena teve em casa de Manoel Quentino os seguintes resultados:

Estava o pae de Cecilia preparando-se para sair, quando viu entrar
Antonia no quarto com inquietação e sobresalto.

—Que é, Antonia? Que temos nós?—disse Manoel Quentino, surprendido com o aspecto da criada.

—Está alli alguem a procural-o, snr. Manoel Quentino.

—Ainda algum importuno a dar-me parabens. Emquanto eu fui guarda-livros, ninguem me procurava… agora…

E preparou-se para ir ver quem era.

Cecilia, ao ouvir a criada, córada de maneira particular e sob não sei que pretexto, recolheu-se ao quarto.

É que se lembrou, n'aquelle momento, de um bilhete, que na vespera recebera de Jenny, com estas sós palavras:

«Desejo-te e agouro-te muito risonhas madrugadas.»

Assignada—«Tua irmã, Jenny

Logo que Cecilia saiu, Antonia chegou-se ao pé de Manoel Quentino e disse-lhe em ar de mysterio:

—É elle outra vez!

—Elle quem?

—O filho do inglez.

—Carlos?!

Foi com alvoroço que Manoel Quentino desceu as escadas e chegou á presença do irmão de Jenny.

Carlos não estava menos agitado. Nos seus gestos e palavras havia uma gravidade, que Manoel Quenlino lhe estranhou.

Não se sentiam á vontade um na presença do outro, o que não é para admirar depois das scenas occorridas entre ambos.

Carlos rompeu primeiro o silencio.

—Manoel Quentino, eu venho aqui para um fim muito serio e de maxima importancia para nós ambos.

Depois de curto intervallo de pausa, acrescentou:

—Venho aqui pedir-lhe a mão de sua filha.

Manoel Quentino deu um salto na cadeira, em que estava sentado.

—Pedir a…?

—A mão de Cecilia—repetiu Carlos, com firmeza.

Uma nuvem toldou por momentos o espirito de Manoel Quentino. As suspeitas, mal acalmadas, agitaram-se de novo áquellas palavras.

Carlos, notando-o, acrescentou:

—Não lhe occulto agora que ha muito sinto por sua filha uma affeicão, que em vão procurei combater. Curvei a cabeça ante as suas accusações, Manoel Quentino, não porque me exprobrasse a consciencia alguma tenção infame, mas porque pelas minhas imprudencias podia de facto ter arriscado a boa fama da pessoa, que eu quereria defender por todo o preço, á custa de todos os sacrificios, e tinha remorsos d'isso. Não é reparação, que venho aqui oferecer; Cecilia não carece d'ella; venho pedir-lhe a minha felicidade.

Manoel Quentino permanecia como estupefacto.

—De meu pae tenho já o consentimento; tenho tambem a approvacão de
Jenny; falta-me apenas…

—E Cecilia?…

—Interrogue-a.

Manoel Quentino, quasi sem saber o que fazia, dirigiu-se á porta para chamar a filha. Esta não estava longe, como é de prever.

Ao entrar na sala, o rosto tinha-lhe dito mais, do que se podia esperar das palavras.

Manoel Quentino não era para mais hesitações e reservas. Atirou-se ao pescoço de Carlos; abraçou-o, beijou-o, chamando-lhe seu querido filho.

—Cecilia—dizia Carlos d'ahi a pouco, aproximando-se d'ella—se, para avaliar os seus sentimentos, esperasse que m'os revelasse, duvidaria ainda, sabe?

—Mas não duvída?

—Não, porque… os adivinho; julgo eu que os adivinho.

—E que mais quer? Infelizes dos que não sabem adivinhar assim. Esses… não amam devéras. Não lhe parece?

—E adivinha tambem?

—Espero que sim.

—Mas ainda ha tão pouco tempo que duvidava!

—Ou queria obrigar-me a duvidar.

—E não o conseguiu?

—Bem vê que creio, antes de ouvir a justificação.

—Prometto-lhe que não abusarei d'essa generosa confiança—respondeu
Carlos, beijando-lhe a mão, que ella lhe estendia.

Ora succedeu que a snr.ª Antonia surprendesse esta scena. Rica de tal descoberta, correu a dar parte d'ella ao amo, que cantarolava na sala contigua.

Mas qual não foi o seu espanto, ao ver Manoel Quentino receber ás risadas a communicacão do delicto!

Um raio de luz atravessou o entendimento d'aquella prudente senhora.

Tinha ella bastante tino politico para deixar de imitar os deputados que, aos primeiros indicios de mudança ministerial, teem a cautela de se passarem, com armas e bagagem, para a opposicão, com o fim de no dia seguinte amanhecerem do lado do poder.

Teve cêdo a snr.ª Antonia occasião de manifestar este tacto politico. Ouviu-se tocar a campainha do portal, e Antonia, que veio abrir a cancella, achou-se na presença do snr. José Fortunato, o qual a vinha prevenir de que vira passar Carlos na rua.

—Olhem o milagre! Se elle está cá em cima!—disse Antonia, encolhendo os hombros.

—Lá em cima!—exclamou o outro.

—Temos grande novidade. A cousa agora é a valer.

—O quê? o que é a valer, snr.ª Antonia, o que é a valer?

—Desconfio que ha casamento tratado.

O snr. José Fortunato fez uma careta.

—Que me diz?!

—Sim; então que ha ahi de maior? Talhados são elles um para o outro. Da mesma idade e…

Não pôde continuar; o carro de Mr. Richard parava junto do portal, e o velho inglez saltou lepidamente d'elle e ajudou Jenny a saír.

—Santa Virgem, que ahi vem tudo!—exclamou Antonia, correndo pelas escadas acima a annunciar os recem-chegados.

A curiosidade do snr. José Fortunato venceu o despeito e fel-o entrar tambem para ver.

Viu um singular espectaculo!

Jenny abraçava Cecilia com effusão; Manoel Quentino era gravemente abraçado por Mr. Richard; depois era Carlos, que apresentava Cecilia a Mr. Richard, dizendo:

—Trago-lhe mais uma filha, senhor.

E Mr. Richard, que respondia, abraçando-a:

—Agradecido, Carlos. É um verdadeiro thesouro, que me dás.

Cecilia beijava commovida a mão do inglez. Manoel Quentino, soltando phrases desordenadas, abraçava toda a gente. Antonia dava parabens a todos e de ninguem era attendida.

O snr. José Fortunato viu e voltou as costas ao que vira. Desceu as escadas, despercebido de todos, sacudiu na soleira da porta o pó dos seus sapatos, e, resmoneando palavras inintelligiveis, saiu para não voltar.