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Vamiré: Romance dos tempos primitivos

Chapter 12: X Combate
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About This Book

A narrativa situa-se em tempos pré-históricos e acompanha comunidades humanas que lutam pela sobrevivência entre caças, perigos animais e confrontos com hordas rivais. Alternando cenas de perseguição, rituais como funerais, um idílio nascente e estratégias de guerra, apresenta episódios na floresta e numa ilhota, caçadas a grandes mamíferos, alianças e reforços. Sequências de assalto, incêndio e derrota culminam num regresso que evidencia a cooperação, a adaptação tecnológica e a vida social emergente, oferecendo uma visão naturalista das relações entre humanos, animais e paisagens primitivas.

X
Combate

Depois da alvorada, voga a canoa, por entre a frescura das margens, sobre o rio que se alarga; alto dia, vai correndo pelo amplo intervalo que separa as ramarias. Ao longe, algumas ilhotas formam escalão e a imagem das árvores marginais, a sua cor escura, a vida que nelas palpita, têm uma beleza vertiginosa.

Em torno, a floresta é como um antro escuro de mil aberturas hiantes, toda povoada pelos rumores da vida, abrigo formidável da eterna luta, asilo de raças contrárias, propicia às ciladas do ataque e aos redutos da defesa, grande despensario de mantimentos, comum ao animal frugívoro e ao carnívoro, ao réptil e à ave.

Vamiré empunha o arpão, no intuito de ferir algum peixe. Está tranquilo. Depois das corridas dos últimos dias, a necessidade de descanso prende-o a quaisquer entretenimentos: a Reparação das armas ou do vestuário; a espera de caça apetitosa.{74}

Nesta manhã, entretém-se com a pesca. Já duas vezes errou a vitima, porque o animal das águas foge mais rapidamente na esteira do seu hélice, do que a mão do homem se move.

Abaixa-se o arpão pela terceira vez, e Vamiré, segurando a haste, crava a ponta aguda no flanco de um pequeno esturjão. O peixe ondula e ressalta; as empolgueiras opõem-se à saída da arma; mas, com os saltos eléctricos da presa, os liames estão em risco de se partir, e é mister que Vamiré manobre habilmente, para evitar os repelões muito fortes ou muito perpendiculares.

Vai pangaiando com a mão esquerda e impelindo a presa adiante de si, até à borda do rio; chegado ali, crava ainda mais o arpão, levanta enfim o esturjão ensanguentado e atira-o para a margem.

Vai preparar a refeição. Os ramos secos, as hastes herbáceas, devoradas pelo fogo, produzem um acervo de cinzas pardas, onde se embebem pedaços da presa, e de onde se retiram, transmudados em carne tenra e saborosa, que Vamiré e Élem comem com apetite.

Um pouco entorpecidos pela boa refeição, estiram vagamente os olhos pela diversidade das coisas; acham-se a bastante distância da margem, numa clareira, ladeada de faias giganteias. Abundam as sarças, que vão recosendo os rasgões, ali abertos por alguma catástrofe antiga, e refazendo a integridade da floresta. Desabrocham robustas compósitas com uma flor amarga; e crescem cardos colossais, hirsutos, farpados, soberbos e terríveis.{75}

Élem e Vamiré devaneiam suavemente em completa tranquilidade; mas eis que uma frecha passa a dois palmos do Pzann. Este levanta-se, e empunha as armas. O seu olhar adestrado descobre perfis humanos atrás dos troncos das faias.

Aqueles perfis emergem a súbitas, e uma nuvem de frechas dilata-se no espaço.

Naquela hora de perigo, o instinto encosta Élem ao peito de Vamiré, ao passo que a luta se anuncia, ao passo que os inimigos, em número de sete, se aproximam céleres. São atarracados, são os homens do Oriente, de olhos de Érebo. Conhecem a agilidade de Vamiré e, formando leque, caem sobre ele, por forma que lhes não possa escapar. Já os arcos estão tendidos, as frechas envenenadas vão descrever as suas terríveis parábolas, mas erguem-se vozes, indicando o perigo de Élem, e todas as mãos substituem a frecha pela lança.

Vamiré encara-os altivamente, e o seu grito de guerra perturba o coração dos mais valentes. Reconhece nos seus inimigos a raça de Élem, crânio largo, pele trigueira, olhos escuros. Trazem tatuados os braços e a testa, e comanda-os um velho robusto.

Vamiré empunhara a zagaia... os homens trigueiros resguardam-se com os troncos mais próximos... Então Vamiré sobraça Élem, e vai recuando para o rio, onde espera poder embarcar... A uma ordem do chefe, chovem as frechas, que o Pzann desvia lestamente, acelerando a retirada.

Táctica hábil, com que os orientais se irritam, e adiantam-se três deles. Mas a zagaia de Vamiré atravessa{76} o mais ágil, e o Pzann solta o riso triunfal da sua raça, entendendo que os dois sobreviventes não terão a coragem de lutar contra ele... A sua clava gira no espaço, a provocá-los; do seu peito hercúleo saem rugidos ferozes; o seu braço dispõe-se ao extermínio... O chefe antevê a perda dos seus, ordena-lhes que parem, e eles obedecem.

Um momento de tréguas. Os asiáticos coleiam por entre os espinhais, procurando cortar a retirada de Vamiré. No cinzento das faias que formavam polistilos obscuros, na eterna penumbra sotoposta às frágeis padieiras de ramaria, Vamiré entrevê-os, com um olhar de melancolia belicosa, e entretanto o sol ilumina a grande arena, o cerrado espinhoso, de onde os orientais espiam o inimigo. Na cabeça longa do Pzann, através da febre da luta, a impressão de um recontro impertinente, o receio de perder Élem, e de se ver, por muito tempo, rodeado apenas do mutismo petrificante das coisas.

Para arremessar, tem apenas o arpão. O chefe oriental quer um assalto em massa, em que, se algum perecer, possam os demais vingá-lo. Disseminados, para não constituírem alvo muito certo, correm sobre o raptador... O arpão, arremessado, não faz vitimas, separando-se da haste o chifre. Mas Vamiré descobre novo recurso num sílex ovóide, que ele traz consigo, e serve-se dele como projéctil, ferindo o velho chefe. Este verga-se, estóico, em luta silenciosa contra a dor. Vence-a, levanta-se, junta-se ao bando, e no seu semblante espelha-se o sofrimento e o ódio.{77}

Vamiré tenta ainda fugir. Sobraça Élem, mas fraqueja. Seguem-nos as frechas: uma ferida seria a morte... Demais, carregado com Élem, em pequeno espaço, quase sem dianteira, será apanhado à beira do rio, antes que a barca possa vogar ao largo. Depõe Élem, deixa-a livre. Ela porém não se retira, cheia de ansiedade pelo Pzann. Este compreende-a, e, levantando o pensamento a Zom, a Namir, às cavernas e às grandes planícies, aceita o combate...

Corpo a corpo, impossibilitado o êxito das frechas, a refrega começa mal para os orientais: uma lança é despedaçada pela clava de Vamiré; outra é tomada por ele; e, terrível, ambidextro, faz, ao mesmo tempo, uso das duas armas... Recuando, avançando, segundo a oportunidade, chega a manter em respeito os cinco braquicéfalos, e fere até um deles, ligeiramente, no peito...

Mas estas peripécias afastaram-no de Élem... vê-a em poder dos inimigos, e adianta-se para a reaver... Fere-o de lado uma lança; corre o sangue... Em desforra tremenda, parte o crânio de um oriental, e prostra outro no solo, com um ombro escalavrado, enquanto com uma lançada atravessa a coxa do chefe...

O Pzann todavia sente-se fraquejar, e todas as suas forças se congregam na defensiva.

Élem solta doloridos clamores; os da sua raça dispõem-se para o assalto final; e o ardor belicoso arrasta o próprio velho para junto do inimigo ferido...

Era o fim. Vamiré procura escapar-se. A sua clava é brandida ainda uma vez, e faz ainda uma vitima...;{78} depois, apanha apressadamente uma lança e um arpão, corre para o rio, salta para a canoa e três remadas confiam-no à corrente.

Os seus adversários medem o perigo de uma luta aquática. O chefe proíbe que tentem o perigo... Todos então empunham os arcos; mas o tiro é inútil, porque a barca desaparece por trás de uma ilhota.{79}

 

XI
Vamiré

Estendido no fundo da pequena barca, Vamiré cobria com a mão o seu ferimento, coberto de sangue coagulado.

Havia uma hora que ele esperava uma reacção favorável para abicar na margem, porque a perda de sangue o mantinha prostrado, num suave meio-deliquio, em que ia perdendo a nítida concepção do seu ser. As coisas figuravam-se-lhe pequeninas, quase imperceptíveis, ao passo que o coração lhe vogava nas delicias de uma onda morna, asfixiante, confrangente.

Passou afinal a crise. Com a febre, renasceu a força. O Pzann pôde impelir a barca até à margem, desembarcou, e apanhou folhas balsâmicas e resina para o penso da ferida. Depois, lavou a ferida na água corrente, refrescou os lábios, e estendeu na ferida uma compressa de folhas embebidas de resina, e, por cima, uma atadura de pele. Este penso, de uma solidez a toda prova, permitia evaporação suficiente, e dava até lugar à supuração.{80} Ao cabo de oito dias, seria mister renová-lo; mas, até lá, graças às folhas aromáticas e à resina, pouco havia que recear.

Vamiré sentiu grande alivio; a inquietação, que toda doença importa, desapareceu, e um grande orgulho despertou, uma alegria de vencedor: comeu e bebeu voluptuosamente, e pôs-se depois em cata da madeira necessária para o fabrico de novas armas. De pronto adquiriu as hastes: doze, pequenas, para zagaias, e uma, grande, para lança.

Quando trabalhava, sentiu a tentação de ter um arco e frechas, à maneira oriental, feitas de madeira endurecida ao fogo. A banda do arco era chata, mas larga, com um encalhe redondo, para dirigir a frecha. Vamiré arrancou um pequeno freixo, cujas extremidades queimava, e passou depois longas horas a desgastar o tronco, servindo-se alternadamente do fogo e do sílex.

Era sol posto. Vamiré não concluíra o seu trabalho, e calculou que precisava de dois dias, afora o tempo para aguçar as frechas. De forma que, ao passo que buscava abrigo nocturno, planeava acabar primeiro a lança, as zagaias, os arpões, para se precaver contra qualquer ataque, aliás improvável.

Os orientais, com os seus dois mortos, com os seus feridos, entre os quais o chefe, não pensariam logo em reabrir hostilidades; e, de facto, dirigiam-se apressadamente para as suas estepes, levando consigo Élem. Vamiré sorria, ao pensar que eles a não possuiriam definitivamente, e adormeceu tarde, excitado pelos estratagemas que ele estudava para a readquirir.{81}

No outro dia, ao despertar, uma grande fraqueza o prendia ao solo. Começava a cicatrização... Arrastou-se com dificuldade até à margem, onde adormeceu, depois de se ter dessedentado, em risco de ser devorado pelas feras.

Quando acordou, ia o sol a pino. Vamiré dessedentou-se de novo. A cabeça ardia-lhe, as veias latejavam, as ideias eram confusas.

Compreendeu que o dia estava perdido, resignou-se, e meteu-se na barca, junto à ribanceira. Com intervalos, em que ele ia matar a sede como sonâmbulo, as trevas envolveram-lhe a existência, até a alvorada próxima. Abeirou-se do Nada. Em toda noite, a sua robusta organização agonizou nas sombras. Os períodos da crise sucediam-se como ondas de maré. Mas, com a alvorada, chegara a calma, o sono fora vigorificante, e, no quarto dia, Vamiré acordou com fome.

Examinou o penso. As dores haviam desaparecido. As carnes, quase unidas, mostravam apenas um pequeno lanho. A vermelhidão desaparecia do peito. A cabeça desanuviava-se.

Vamiré foi à procura de alimento, armado apenas de um arpão e uma lança, as únicas armas que lhe restavam. Debaixo das árvores, naquela ocasião, poucos recursos havia, e, além de tudo, só a emboscada era possível, porque o ferido não teria forças para um assalto às feras.

Decorreram três horas, em que apenas se lhe depararam pequenos carnívoros, de carne repugnante; e já a fome começava a atormentar vivamente o estômago{82} do caçador, quando apareceu um bando de cervas, guiado por um belo alce, macho.

Era caça grossa e perigosa, mas tanto mais tentadora, quanto os cornos do alce proporcionariam quanto era preciso, para pontas de lança, de arpões e de zagaias.

Vamiré sentiu deveras, naquela hora, o não ter arco, que lhe permitisse o ataque de longe, porque o alce costumava vingar energicamente o morticínio das suas cervas.

O alce era um veado colossal, do tamanho dos maiores cavalos da actualidade, e as suas pontas espalmavam-se-lhe por cima da cabeça, como ramos de faia desfolhada; duas forquilhas primeiro, e depois um tabuleiro guarnecido de pontas recurvas.

O troglodita, encoberto pelas ramadas, com infinitas precauções, aproximou-se do bando; mas a distância era ainda bastante, para esperar que arremessaria proficuamente o seu único arpão. Esperou pois.

Os animais pasciam, e saltavam, por forma que uma das cervas foi pulando até o alcance da mão do homem. O arpão silvou, embebeu-se; um bramir de agonia, e o animal prostrou-se, enquanto o rebanho, espantado, desfilava pelo balsedo, deixando o alce imóvel, a devassar com os olhos a espessura da mata.

Um minuto depois, o grande veado aproximou-se da vitima, e escarvou nervosamente o solo, dominado, ao mesmo tempo, pelo desejo da vingança e o receio do desconhecido.

Entrementes, a soberba e comovida atitude da fera{83} impressionou Vamiré; por um movimento de irreflexão e fraqueza, o caçador saiu do esconso, de lança em riste.

O herbívoro hesitou, estirando a pupila oblonga pela melania do matagal. Mas o homem já recuava, e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. A súbitas, baixando a cabeça até o solo, atirou-se contra o bárbaro. Este viu-a aproximar-se, suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto; e, enquanto o cervo se desembaraçava do manto com um movimento formidável, o caçador cravou-lhe a lança entre as costelas, fazendo-a entrar até o coração.

O animal caiu, e Vamiré sentou-se, extenuado pelo esforço. A pouco trecho porém, levantou-se, acendeu lume, e assou uma posta de cerva.

Satisfeito o apetite, assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe Élem. E, ausente, parecia-lhe mais preciosa ainda, com os seus olhos pretos e o seu ar, altivo e terno a um tempo. Lembrou-se das peripécias daquela luta, em que ela o não abandonara. O olhar dele procurou-a por entre as sebes, e Vamiré sentiu confranger-se-lhe o coração, intoleravelmente. Chamou-a pelo seu nome, e meditou, amargamente, nos meios de a reaver.

Hora de calma, silêncio nos bosques. O sol espelhava-se no rio, e coava-se, por pequenas elipses, através da folhagem das balsas. As ramarias repoisavam como grandes nuvens, e o espaço, velado pelas mais altas frondes, entremeadas de clarões esparsos, tinha perspectivas confusas, profundezas de abismos.

Repassado de dor e de solidão, a contemplação{84} destas coisas abalava todo o ser do troglodita, até o sofrimento. Ora sentia o desejo de dormir, ora o de trabalhar; perpassava na memória o dia em que ele, nas cavernas, esculpiu um bastão de comando, e isto lhe trouxe à ideia o alce e as novas armas.

Provido de um sílex serreado, pôs-se a trabalhar. À noite, havia já cortado as pontas da cabeça do alce.

Sentiu alguma febre então, porque o vaivém do braço lhe irritava o ferimento.

Descansando, e não podendo dormir, espicaçava-o o desejo de uma expedição, em procura de Élem. Meteu-se na barca e acompanhou a corrente.

A noite abrigava-o em manto de trevas. O rio parecia uma voz de segredo, baixa, murmurosa, de que apenas ressaía o rouco e triste coaxar dos batráquios. Nas superfícies, em que se alternavam as sombras e os reflexos, o voo do morcego perdia-se e reaparecia, incessantemente. A faixa de céu estrelado, dilatada para cima das árvores, cavava um abismo nas águas.

Com algumas remadas, Vamiré aproximou-se da margem, onde combatera com os orientais; depois, deixou-se ir ao grado da corrente, abaixando-se de maneira, que o barco pudesse parecer de longe um tronco de árvore.

Primeiro, atravessou solidões conhecidas, em que a fauna permanecia tranquila; depois, vagos indícios que poderiam sugerir receios. Por fim, avistou montões de pedras, que designavam túmulos; e, decorrida uma hora, o clarão de uma fogueira denunciou-lhe a vigília dos inimigos.{85}

Vamiré quedou-se observando, por muito tempo. Élem deveria estar deitada defronte do brasido. Fazia sentinela um guerreiro, que, de quando em quando, para não adormecer, erguia para o céu uma das mãos. A fogueira projectava este movimento numa sombra enorme para além do rio.

O Pzann apertava o seu arpão, calculava a eventualidade de um ataque, impelindo-o para a temeridade a sua febre e a sua fraqueza.

O rumor dos bosques crescia com o roçar da viração. A água iluminava-se de uma fosforescência pálida, de um fundo de halo, em que viviam ramagens longínquas, calhetas povoadas de caniços. O trabalho das nuvens alterava a cada momento a superfície das águas, lançando sobre elas um véu plúmbeo, uma luzinha trémula, ou um arroio de constelações.

Um drama conturbou a alma de Vamiré. Atrás do brasido, com os olhos fixos na fogueira, deixou-se ver Élem.

Ah! tornar a possui-la, levá-la consigo, como noutro tempo! Mas, com o esforço interior, reconheceu mal fechada a sua ferida, impotente o seu braço!

Contudo, alguns dias mais, e ele teria readquirido todas as suas energias. No entretanto, seguiria a pista, e escolheria a sua hora.

Depôs vagarosamente o arpão, empunhou o remo, e, antes de voltar à sua última paragem, deixou-se levar pela corrente à margem oposta. Dali, remou com prudência, lentamente ao princípio, e depois com progressiva velocidade.{86}

Decorrida uma hora, a barca vogava com dificuldade, se bem que Vamiré seguisse a ribanceira. Afora o impulso da corrente, tinha de lutar com as algas, em que se embaraçava a proa e que lhe sobrecarregavam o remo.

Estava quase resolvido a saltar para terra, quando o animou uma espécie de canal entre os caniços.

Impeliu para ali a barca e, durante alguns minutos, navegou com facilidade; mas, em seguida, cerrou-se o canal com longas plantas aquáticas.

Com a esperança de achar águas livres a pouca distância, o Pzann desviou o obstáculo, e entrou.

Salvo curtos intervalos, os pântanos cobertos de lentilhas, os caniços, as algas, os juncos, continuaram a travar-lhe o andamento, a ponto de que um extremo cansaço se apoderou do homem, e este teve de estender-se por algum tempo no fundo da sua piroga.

Ia adiantada a noite. O zénite empalidecia aos prenuncios da alvorada; e erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. O ligeiro rumorejar da folhagem, o chapinhar de uma lontra, o eterno murmúrio do rio, entremeado de notas claras, eram os únicos ruídos daquela solidão. As coisas pareciam emergir em bruma pardacenta, meio-transparente; apenas, da outra banda do rio, se avistava a orla negra da floresta, entre as águas e o céu.

Vamiré ergueu-se. Sentia extraordinário entorpecimento, que o convidava ao sono. Teve pressa de achar o fundeadoiro, e calculou a distância da margem. Pareceu-lhe considerável, até porque a vegetação aquática se tornava cada vez mais espessa.{87}

Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa; mas, a qualquer movimento, poderia voltar-se a embarcação, e o ferimento ainda não permitia o gesto largo do nadador.

Resignado, prosseguiu, ajudando-se com o remo, ensanguentando as mãos nas folhas cortantes dos caniços, empurrando a frágil embarcação, parando de espaço a espaço, fatigado, nervoso.

Rompia a manhã, e tudo pareceu pálido ao homem extenuado: as águas, o céu, a floresta. O grande rio saía de um horizonte de cinza, e em cinza se alongava ainda.

A ribanceira enfim! Vamiré desembarcava. Desviando as hastes mais altas, avistou uma pantera em briga com um mamute, ainda novo. O pequeno herbívoro, coitado, debalde tentava desviar com a tromba o seu adversário. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fêmea, em socorro da sua progénie; e o grito do macho entre os caniçais anunciava que se dirigia a nado para a margem. Mas a pantera, de um salto, ficou sobre o dorso do pequeno elefante; já penetrava com as garras o espesso coiro, e dirigia os dentes para o ventre da presa, quando interveio o compassivo nómada. Soltou um grito de guerra, arremessou o arpão e caminhou para o felino.

O arpão fizera apenas sangue na pele mosqueada. A pantera recuou, rugindo, quando surgiu a cabeça enorme do mamute macho. Quase ao mesmo tempo, apareceu a fêmea.

Então a pantera refugiou-se na selva, e os enormes{88} proboscidios, pendulando as suas trombas, afastaram-se.

Vamiré viu-os desaparecer ao longe, radiante de alegria e ufano da sua coragem. Depois, tomou a piroga aos ombros, internou-se na mata, e empregou as suas últimas forças em apanhar alguns ramos, para consolidar o seu abrigo sob a piroga.

Cansado, trôpego, começava a cravar na terra, junto de uma árvore, os ramos mais apropriados àquele fim, mas teve de interromper essa tarefa: dominou-o um entorpecimento mais forte, e, quando procurava sentar-se, caiu prostrado pelo sono.{89}

 

XII
O mamute

Era uma clareira entre faias, carvalhos e olmos. Crescia ali a tabua e o joio, de mistura com ranúnculos, cardos frocosos e urtigas dióicas.

Sob os gladíolos da erva, nas folhas, nas flores, nas hastes, nas raízes, havia o mundo dos insectos, esboço material do futuro mundo do homem, praticando a física, a química, as industrias do utensílio e do ácido, criando a broca, a verruma, a serra, a espátula, a fieira, a escavação na pele, a perfuração com cáusticos, as galerias de mina, a habitação social, a sineta do escafandro, a espada, a armadura, a luz, a seda, o tecido, a cera, o açúcar, o mel.

A madrugada achava-os trabalhando. Nos primeiros alvores, voluteava a grande mosca madaleneana, traçando ângulos; a vespa explorava corolas; agitavam-se, com as suas asas aveludadas, enormes piérides; voltavam do rio nuvens de mosquitos, a abrigar-se nas folhas; as formigas, em legiões, transportavam pulgões,{90} estames, grãos, os despojos das minúsculas batalhas da vida; a cicindela, de emboscada, espreitava uma presa; o necróforo, com as suas extremidades palidamente orladas, procurava a carcaça, em que devia pôr os ovos; o fura-pau batia com a tromba na casca dos olmos; o grilo, fatigado das suas vibrações, adormecia; as forfículas embebiam as suas pinças no fundo das corolas; e, semelhante ao tigre, o grande cárabo sobre o escaravelho.

Amodorrado o homem, a floresta parecia inquieta. A zona limitada pela outiva, pela visão, pelos penetrantes perfumes dos exploradores de troncos e ramadas, tudo começou a decrescer, pouco a pouco, à volta do rei bípede: os narizes microscópicos, as sensíveis trompas auditivas, as pérolas negras de olhos salientes, as longas barbas-antenas, perscrutaram as essências, que emanavam do homem, e conheceram a sua própria fraqueza. Apareceram ratos, atraídos pelas correias untadas de tutano; depois, eram as cabeças curiosas dos arganazes e esquilos, espiados pelo grande lince quaternário, das pôlas das altas ramarias.

Decorreram horas. O sol banhou a clareira. A corrente da vida engrossou com os raios solares, com os turbilhões de moscas que traçavam o seu voo enigmático, com os zângões, com as abelhas, mais rápidas e mais sonoras, com o enxamear das aves à sombra do moitedo.

No entretanto, uma hiena, baldada a sua digressão nocturna, claudicava esfaimada entre os espinhais. A sua pituitária reconheceu o odor humano, entre o do coiro{91} e o do unto. Aproximou-se. Os ratos debandaram; e a necrófaga, sem sair do seu esconso, compreendeu que o homem não estava morto. A esperança fe-la alapardar-se na sombra, numa semi-sonolência.

A luz continuava a coar-se, em fios cetineos, através dos interstícios das ramagens; a sombra atingiu o seu mínimo, e depois foi aumentando.

Vamiré dormia ainda, espreitado pela hiena. As aves iam-se calando; as grandes árvores emudeciam; a formiga trepava aos gladíolos da erva; o besoiro segurava-se na haste franzina das flores, curvando-a; as moscas zumbiam doidamente, e bandos de cabritos monteses partiam as plantas, na sua carreira veloz.

Pelas duas horas depois do meio dia, o fétido da hiena deu no faro de chacais, que se abeiravam do mato, onde ela se agachara. Por seu turno, emboscaram-se também na espessura, e a sua comoção de glutões, os seus gritos sinistros, desvendaram aos corvos a perspectiva de um opulento repasto.

Os corvos chegaram crocitando; com as asas negras escureceram por um pouco a clareira, e depois empoleiraram-se numa faia. A quatro mil metros de altura, três abutres reconheceram a comoção dos corvos, e caíram vertiginosamente sobre uma árvore vizinha.

Enquanto Vamiré dormia, os carnívoros gizavam o seu plano, desejando os nocturnos que chegasse a noite, e temendo os diurnos que findasse o dia. A hesitação mantinha-os quietos e de atalaia; depois, os chacais afastaram-se mais da hiena; o pânico dispersou, por um momento, os abutres. Nada prevaleceu contra{92} os corvos, que se reuniam aos centos, e que, com a afiada tesoira do seu bico, se aprestavam para o ataque.

Abriram eles o espectáculo: graves e cómicos nos ramos da sua faia, começaram por uma espécie de dança, avançando para a extremidade dos poleiros, até que um deles caísse; este esvoaçava por um pouco, crocitava furiosamente e voltava a reunir-se à fila.

O jogo e os gritos espantaram os nocturnos; e quando, numa nuvem, com o ruído do granizo em floresta, os palreiros baixaram sobre o homem, a hiena escafedeu-se, e o medo invadiu os chacais.

Os corvos, entretanto, iam andando, como míopes, astutos e grotescos, de terríveis mandíbulas que simulavam um grande nariz, e de corpo ondeado de azul-escuro.

A dois metros de Vamiré, hesitaram. Deixaram de crocitar; e os mais velhos formaram conciliábulo, em vozes baixas, como gorgolejos, alternados de saltos.

Um movimento do Pzann determinou a debandada. Os corvos voltaram para os ramos.

Pausa. Ouve-se rir a hiena e chorarem os chacais. Restabelecido o silêncio, a asa dos abutres soou pesadamente e as três aves de rapina baixaram sobre o solo. Os pescoços nus emergiam firmes de um colar de guarnição branca, e a cabeça longa, de um cinzento pálido, parecia a cabeça de um mamífero inofensivo, camelo, canguru, antílope.

Quedaram por muito tempo, como sentinelas imóveis. Os ângulos do número apareciam nas espáduas altas e{93} pontiagudas; o colo parecia jorrar do peito, e as asas eram mantos, guarnecidos de uma bela franja clara de penas rudes. De raça forte, a envergadura do seu voo ia até oito pés; as suas garras potentes, ávidas em remexer carnes mortas, aferravam presas animadas, nas horas de fome...

Ponderariam eles a agonia do homem, o resto da energia dos seus músculos soberanos, o seu peito arquejante, a sua cabeça de uro?

Estavam silenciosos, mas os caninos famélicos, cansados de esperar, deslizaram pelo mato. Então, os corvos retomaram o seu lugar, com ruído; os chacais, assombrados, pararam; e o abutre mais velho caminhou para a cabeça loira de Vamiré.

A cabeleira, esparsa nas faces, velava um tanto os olhos; o grande bigode fulvo estremecia ao passar do hálito febril; uma espécie de riso provocante soerguia o lábio, entre a resignada tranquilidade dos vincos da boca.

O ombro seminu parecia de pedra polida; os cabos retorcidos do tríceps denunciavam o poema das fibras em milhares de feixes, subordinados às mesmas funções; e o pêlo do espeleu encobria o tronco, em que pulsava o coração agitado.

A floresta realizava, em silêncio, o seu trabalho de cidade colossal. A vida, repleta, dormitava nos fojos, nos ninhos, e até nas galerias dos insectos.

Os corvos, interessados no procedimento do abutre, portavam-se com discrição; os chacais, bocejando, fechavam os olhos deslumbrados; e a hiena escarvava o{94} solo com as patas dianteiras. Ouviam-se pequenos ruídos, indecisos cantos, o cair de frutos maduros,—como difuso tiquetaque do relógio das coisas.

Entrementes, o abutre olhava, através do interstício da cabeleira de Vamiré, a pálpebra semi-cerrada, que deixava entrever a esclerótica.

Arrancar os olhos é o instinto da ave de rapina: o abutre decidiu-se ao assalto. Aproximou-se lentamente. Então, os seus companheiros chegaram também, e um deles pôs a garra no ombro nu.

A mão de Vamiré, inconscientemente, acudiu ao ponto ameaçado, caindo sobre a asa da ave; esta ripostou com uma bicada no pulso.

O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho, os seus punhos de atleta acharam o pescoço de abutre... As garras aduncas fincaram-se, por dois minutos, na pele do espeleu; depois, veio a asfixia e a morte, antes que os dedos de Vamiré largassem a presa.

As asas dos sobreviventes feriram o ar; os seus vultos ergueram-se até as cimas das árvores. Ali, hesitaram por um momento, e, saindo por uma larga abertura, desapareceram.

O grande nómada, depois daquele incidente, recaiu na sua letargia. Tinha a aparência de um cadáver, e os corvos delegaram dez, de entre si, para se esclarecer. Os outros celebraram conferência, em que as vozes entre-cortadas respondiam a sons roucos, fundindo-se depois estes e aquelas.

Os dez verificaram que a grande presa era perigosa;{95} mas, como os tentasse o cadáver do abutre, trataram de o explorar.

O homem conservava esse cadáver na sua mão crispada. Com minuciosa circunspecção, deram volta ao animal, e atacaram-lhe o colo nu: abriram brecha, as tesoiras aprofundaram-na e, dentro em pouco, nas mãos de Vamiré estava apenas a cabeça do abutre. Depois, num esforço comum, os corvos levaram a presa para alguma distância.

Os chacais acharam favorável o ensejo. Ganindo e uivando, foram-se chegando, com um ruído semelhante ao de um aguaceiro na folhagem.

Os dez corvos ergueram voo, com um croaa furioso. Mas, reunidos aos outros, caíram aos centos sobre o espinhaço dos carnívoros, que prontamente fugiram, perante a imprevista agressão.

O bando negro ficou senhor do campo de batalha, e começou a devorar o abutre.

A hiena deixara de fugir. As exigências do estômago impeliam-na para a audácia. Embora altiva ainda, a sua raça ia decaindo, perdendo sucessivamente a índole ofensiva. Já estávamos longe do monstro daquele género, de maquerodo, que, com os seus caninos de dupla lâmina, do tamanho de um côvado, agredia os proboscídeos. Talvez que a grande hiena, nesse tempo, arrastasse ainda para as cavernas herbívoros palpitantes; mas esta, hiena mosqueada, não obstante possuir caninos e molares, os mais sólidos na animalidade daquela época, e capazes de partir o fémur de um auroco, limitava-se a preferir a carne morta, ou atacava,{96} em suas galerias os pequenos fossadores, a toupeira, o arganaz.

Adiantou-se lentamente, baixando-se como um animal que rasteja, e estendendo a cabeça a farejar o homem, cada vez mais inquieta.

A um salto de distância, calculou, e fixou o pescoço, planeando o assalto do cão e do lobo: a estrangulação...

Mas, toda nervosa, e raspando o colo, não se atreveu.

Enquanto ela hesitava, reacendia-se a luta, entre os chacais e os corvos. Os caninos fizeram uma sortida e, durante um desvio do adversário, puderam conquistar os restos do abutre. Magra refeição, sem duvida! De olhos vivos, pestanejando sob a acção da luz, trincavam os ossos do volátil, com ar de precaução.

Despertado o apetite, pensaram na grande presa. A hiena não se opôs, e até parecia que de ambos os lados se estimulava a audácia. Os risos e os uivos cruzavam-se com as corridas, os saltos de lado, e a exibição sugestiva das dentaduras.

As moitas entreabriram-se com fragor, o mato partiu-se com um rumor de tempestade, e apareceu um mamute, de fronte bojuda e de quinze pés de altura.

Gostou da clareira, parou, balanceou a sua enorme corpulência, arrancando com a tromba algumas ervas, num capricho de colosso pueril, e deitou-se: gozou a semi-sonolência dos grandes animais, perpassou-lhe na mente o devaneio, o inesgotável fluxo das formas e dos{97} movimentos que durante o dia lhe haviam impressionado a retina.

A hiena e os chacais, alapardados no esconso da vegetação próxima, recuaram de pronto. Um animal indolente, pesado, desajeitado, rompia vagarosamente do matagal e exibia-se em toda a luz: um urso.

O mamute, tranquilo, viu-o chegar. O plantígrado parou, consultando o proboscídeo. Despertado no seu fojo, à beira-rio, atraíra-o o barulho dos chacais; e, para o repasto do dia, contava agora com o homem estendido, esperando a neutralidade do grande elefante, porque sabia quanto este era pacifico, fora das épocas do amor.

Este cálculo pareceu acertado desde logo, pois que o elefante se ergueu e começou a andar, afastando-se; mas, a dez metros do homem, atentou nele, virou a tromba na direcção de Vamiré, aproximou-se, farejou, olhou. E, mugindo ameaçador, apresentou as suas defesas ao urso. Este sentiu a cólera funda, cega e obstinada da sua raça. Grunhiu, pôs-se de pé, atrás de um choupo, e a mímica das suas patas e o ricto do seu beiço exprimiram sede de represálias.

Com a tromba erguida em semicírculo, as defesas tocando no solo, com o seu corpo gigantesco potentemente especado, o elefante esperou...

Eram dois poderosos animais. O urso mostrava os braços peludos, armados de garras colossais, os seus caninos, a sua musculosa maxila. Podia, de pé, agarrar e sufocar. A sua pele espessa, oscilante, não o embaraçava na luta contra as feras, como o leopardo e até o{98} leão; o peso ajudava-o, e os seus gestos vagarosos eram de uma exactidão terrível.

Mas a força do mamute era incomparável. Os seus pequenos olhos, ao invés dos do urso, viam perfeitamente; a sua admirável tromba excedia, na agilidade e nos músculos, o braço do antropóide; as suas defesas recurvadas, do comprimento de dez côvados, jogavam e perfuravam como os cornos do auroco. Todo o seu corpo, em cima das quatro colunas das pernas, e sob o pêlo arruivascado e a abundante e negra crina mediana, mostrava-se a destreza e a facilidade de se voltar. Na floresta, na planície, nos desfiladeiros, em toda a parte, era ele o vitorioso senhor herbívoro, relíquia dos colossos de tromba, do período terciário, o dinotério, o elefante meridional, o elefante antigo.

O hipopótamo, o rinoceronte e ele representavam, todos três, o escol da era tapiriana, a monstruosa fauna alimentada do glúten da planta, o triunfo das grandes corporaturas e dos grossos músculos, o triunfo da paz armada, a coiraça, as pontas, as defesas, a tromba, contra a sanha dos carnívoros, a agilidade de locomotores, os caninos e garras de aço.

Perante o plantígrado míope, o proboscídeo foi o primeiro em deixar a expectativa. Naquele crânio, banhado de ondas de sangue, a embriaguez do furor toca, muitas vezes, as raias da loucura. O mamute soltou um mugido formidável e arrojou-se. A árvore salvou o urso, podendo este subir por ela até grande altura. O outro, com a espádua, fez agitar o tronco da grande árvore, e o urso, para não ser atirado ao solo, teve de{99} socorrer-se das suas garras de três polegadas, cravadas na casca do choupo.

Mas o elefante insistiu, e, de repente, o urso caiu-lhe sobre o dorso. Os dentes do urso fixaram-se em a nuca do elefante, e as garras junto às orelhas. Mas o paquiderme sacudiu-se, como um animal que sai da água, e, com um formidável impulso da tromba, fez cair o inimigo, que rebolou na erva. Depois, apanhou-o com a tromba, colocou-o sobre as defesas, ergueu-o, e atirou-o para cima de um silvado; e como o gigantesco animal se dirigisse ainda para o inimigo, este levantou-se, fugindo com dificuldade.

Misericordioso, o herbívoro aceitava este desenlace, e já se ia afastando, quando o urso reapareceu, atirando-se, às cegas, contra a tromba, arranhando-a e mordendo-a cruelmente.

O mamute, com um mugido de dor, dobrou o jarrete e abanou a cabeça. Com este movimento, o plantígrado perdeu o equilíbrio e caiu entre as defesas. A tromba segurou-o ali; depois o marfim enorme entrou-lhe no ventre, e, depois ainda, as grossas colunas do paquiderme esmagaram-lhe a caixa toráxica, e o urso exalou o seu derradeiro grunhido.

Por alguns segundos, o mamute encarniçou-se furioso nos despojos da vitima; e, em seguida, arremessou o cadáver para longe da clareira. E a hiena e os chacais tiveram que comer.

Satisfeita a sua vingança, o proboscídeo voltou para junto do homem. Farejou-o novamente e, colocando-se a alguns côvados de distância, mugiu longamente. A fêmea{100} apareceu com a cria; e ficaram todos três em volta de Vamiré.

Era quase noite agora. A grande mosca azul pré-histórica procurava o abrigo da folhagem; os nemóceros partiam em nuvens para as águas; o grilo recomeçava a sua vibrante arieta; as formigas transportavam a última colheita para os seus celeiros subterrâneos; a larva da cicindela dormia no fundo do seu poço; os necróforos lidavam no enterramento de um cadáver de arganaz; o chilrear da passarada esmorecia nas ramarias; e os corvos tinham levantado voo. Os raios difusos, mais rubros, mais escuros, fixavam-se nas extremidades da grama e da tabua; depois, escureciam mais, deixando apenas, aquém e além, algumas palhetas claras. Mas da erva ressaía ainda uma fosforescência, e os graves mamutes recebiam nas pupilas serenas estas últimas luminosidades, enquanto de entre o bosque saía o clamor sinistro dos chacais, e o rir da hiena, enfartada da carne do urso pardo.

Caíram enfim as trevas, estendendo o seu misterioso véu na floresta e no rio; no mato brilhavam pirilampos; perseguidas pelo morcego, esvoaçavam falenas, de asas lanuginosas; a coruja suspirou no côncavo dos carvalhos; e ouviu-se a voz das feras, proclamando as suas carnificinas triunfais.

Mais de um leopardo, mais de uma alcateia de lobos, aspirou os eflúvios do homem estendido; mas nenhum ousou perturbar a invencível família do grande mamute peludo, de cabeça bojuda.

Até às quatro horas depois do alvorecer, estiveram{101} de atalaia. Vamiré saiu então do seu longo entorpecimento, refrescado e fortificado, como de um banho fluvial em dias calmosos.

Pôs-se em pé. Distendeu os braços e o peito, e notou, de relance, a partida dos proboscídeos.

Esta partida relacionava-se, na sua mente, com a aventura da manhã anterior, e teve para os mamutes palavras de boas-vindas, embora não soubesse quanto lhes devia. Soube-o depois, quando descobriu o cadáver do urso, com os ossos partidos; e o seu coração comoveu-se vivamente.{102}{103}

 

XIII
Entre os orientais

Decorridos cinco dias de enfadonha marcha, com amiudadas paragens, notavam-se grandes melhoras nos feridos orientais. Na paragem do sexto dia, adquiriram a esperança de tornar a ver o acampamento da tribo, antes de finda a incipiente lunação.

Entre os primeiros que se punham a pé, o chefe não soltava uma queixa. Suportava o ferimento do ombro como velho robusto e estóico, cujos sofrimentos parciais não influíam no organismo geral. De manhã e à noite, passava em revista a sua gente, tratava o seu ferimento e os dos seus homens, aplicava drogas conhecidas para se evitar a inflamação, e pronunciava palavras mais benéficas que o bálsamo.

Durante o dia, silenciosa e torva, Élem acompanhava o bando; mas, de noite, acordava frequentemente, recordava-se e chorava. À sua alma de primitiva faltava{104} o grande nómada, de face clara, docemente enérgica, ombros largos e músculos de ferro. E os ímpetos dele, as expansões alegres, a superioridade intelectual, o olhar azul, a preocupação da arte e do trabalho, tudo agitava a sua carne viçosa, impelindo as afinidades de raça para propícios cruzamentos. Suspirava de amor, enquanto as horas decorriam, e pensava em evadir-se, pelo receio de ser sacrificada por seus irmãos.

Começavam já a carregar o semblante, com os louvores que ela tributava ao Pzann, quando a interrogavam. Apenas o chefe, observador reflexivo, adoptava um inquérito tranquilo; e ouvia com interesse os pormenores acerca da força, da agilidade e, mais ainda, da indústria e da arte do homem fulvo, e acerca dos costumes da região longínqua. Os seus ódios, que a idade acalmara, engolfaram-no no encantado enigma. Sentia que não tivesse sido aprisionado o grande homem loiro, porque talvez este soubesse até onde se estendia a floresta, de onde vinha o rio, e onde a terra tocava no céu.

De costumes mais selvagens, menos artistas que os grandes dolicocéfalos das planícies do Ocidente, os orientais haviam aceitado desde o principio as jerarquias sagradas. Nas férteis regiões do Levante, alimentavam o devanear monótono e imóvel do pastor. Era mais perfeita a sua organização social; mas aquelas raças não tinham o destino das raças plásticas, aventureiras, laboriosas e individualistas da Europa.{105}

Nómadas e caçadores, os orientais exploravam já o vegetal, preparavam massas farináceas com diversos grãos, aumentando assim a sua estabilidade. As colheitas de feno permitiam-lhes sustentar alguns rebanhos de cavalos e de bois asiáticos, contidos dentro de cerrados, porque o animal, pouco domesticado ainda, esquivava-se a aplicações metódicas, e apenas servia para alimentação do homem.

Tudo isto, e a fertilidade das suas terras, tornava as incursões dos braquicéfalos da Ásia menos extensas que as dos dolicocéfalos da Europa. Nas suas florestas, uma fauna de transição vivia onde já se encontravam espécies emigradas do Ocidente, raras variedades de bugios, chacais, gamos misturados com os animais das estepes frias,—mamute, urso, hiena, auroco, uro, boi almiscarado. Na época do regelo, começava o êxodo dos bugios, dos chacais, dos gamos, para os grandes bosques meridionais; atraía-os o verão.

Nas savanas de leste, os asiáticos haviam-se aliado com o cão, cujas vivendas se dilatavam, e que, menos vencido que o antropóide, dispunha de disciplina e de inteligência, lutava como o homem contra as grandes feras, e ajudava-o a caçar o uro ou o chacal, sob a condição de compartilhar os despojos.

À semelhança do homem, os cães haviam compreendido o benefício da sociabilidade, formavam assembleias deliberativas, organizavam exércitos masculinos, tinham chefes encanecidos pelo roçar dos tempos... Nas idades lendárias, foram o inimigo terrível da raça nascente. Já o pai do neandertal lacerava a face do leão e{106} domava o dinotério de defesas invertidas; já a terra estremecia sob os passos vagarosos de um entre-sonhador da génese civilizadora, esboçada nos mundos do insecto, e ainda o cão defendia o seu império. E quem poderia prever o desfecho, visto que o antropopiteco se restringia aos agrupamentos familiares, à primitiva horda, enquanto o outro confederava as suas tribos, ampliava a pátria, levantava exércitos, fortificava as suas cidades e educava seus filhos!

Os velhos encanecidos, sabedoria das tribos nómadas, sopeavam o instinto da ferocidade, cheios de emulação no ensino dos conhecimentos, cheios do mistério das coisas, aventurando explicações rudimentares sobre as fases da lua, sobre o curso das estrelas.

Devia-se-lhes a aliança com os cães, e estimulavam as tentativas de domesticação, com respeito aos insectos, às aves, ao uro, ao cavalo, ao urso, ao lobo. Ocupava isto capitulo extenso em seus anais.

Conheciam o capricho dos animais, e sabiam que, se alguns cedem à força, outros preferem a morte à violência.

Iam a consideráveis distâncias ver as tribos das chuvas, onde o feiticeiro Nadda criava abelhas; a tribo da lua, onde os guerreiros moços cavalgavam poldros; a tribo do trovão, onde três ursos viviam com os homens.

Em meio de tais recordações, o chefe oriental sentia crescer o despeito de não ter conhecido Vamiré. Quanto seria para desejar a paz com aqueles gigantes loiros, laboriosos e ousados! Os dois afastados povos,{107} postos em comunhão através da distância, teriam ampliado o património do homem. Explorar-se-iam paragens desconhecidas: seria descerrado o grande abismo, conhecer-se-ia a região dos elefantes cornígeros; ver-se-ia a serpente monstruosa, tudo que a lenda referia, havia séculos.

Protegeu Élem. Não só proibiu qualquer violência contra ela, mas até lhe dispensou inteira liberdade de acção. De dia e de noite, consentia que ela vagueasse a seu grado, adiantando-se ou atrasando-se na marcha, e reprimia de tal maneira o azedume dos seus homens, que não aventuravam uma observação.

Élem reconhecia a generosidade do velho chefe. Com o decorrer dos dias, a sua mágoa amadurecia, como um fruto ao sol do Estio. Solitária, erguia os braços para o Invisível, orava, suplicava. Os seus olhos exploravam atentos o rio, o rio amigo, em que a barca do Pzann a trouxe durante semanas. O aspecto das plantas aquáticas, dos nevoeiros errantes, inebriava-a, sufocava-a. Uma sede mortal, um profundo instinto de sobrevivência, sangue rubro e ardente, prestes a jorrar das veias, um sentimento de insubmissão e de capricho, tudo isto, que inda hoje é o perigo dos nossos amores, a perturbava e a tornava mortalmente amante e desesperada.

Ao sétimo dia porém, chegou um momento de calma. Através das brumas da alvorada, Élem julgou avistar entre os caniçais a barca de Vamiré. Estava longe, não distinguia bem, mas, com toda a sua energia de primitiva, convenceu-se da presença do Pzann.{108}

Muitas vezes, durante a marcha, teve tentações de se extraviar a bater mato, a quedar-se nas ribanceiras. Distraída e meditabunda, quando chegou a hora do sono, não pôde dormir, e os seus olhos semicerrados devassavam as trevas.{109}