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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) cover

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Chapter 31: CARTA SETIMA. SUMARIO.
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About This Book

A series of erudite letters lays out a comprehensive pedagogical reform adapted to Portuguese needs, arguing for a practical, accelerated curriculum. It critiques prevailing Latin and orthographic instruction, recommends a simplified Latin grammar that can be grasped quickly, advocates revision of existing vocabularies, and proposes a standardized Portuguese orthography and grammar for early instruction. Addressed to religious educators and university figures, the correspondence emphasizes usefulness to the republic and church, privacy of correspondence, and practical measures to improve youth education.

CARTA SETIMA.
SUMARIO.

Fala-se da-Poezia. Os Portugueses sam meros versejadores. Prejuizos dos-mestres, de nam poetarem em Vulgar. Que coiza seja ingenho bom, e mao. Especies de obras de mao ingenho, em que caîram alguns Antigos, mas principalmente os Modernos. Necesidade do-Criterio, e Retorica, em toda a sorte de Poezia. Primeiro defeito de Poezia, a inverosimilidade: exemplos. Segundo defeito, os argumentos ridiculos. Reflexoens particulares, sobre as compozisoens pequenas Portuguesas; que nam podem dar nome, a um omem: defeitos da-Nasam, provados com exemplos. Reflexoens sobre o Epigrama Latino, Elogios, inferisoens Lapidares, Eglogas, Odes, Satiras, poemas Epicos. Que os Portugueses nam conhecèram as leis, do-poema Epico: prova-se com Camoens, Chagas, Botelho de Morais. Aponta-se o metodo, com que se-devem regular os rapazes, no-estudo da-Poezia. Nova ideia de uma Arte Poetica, util para a Mocidade.

A carta que V. P. me-mandou nesta semana, deu-me particular consolasam; porque vi nela a imagem, da-sua soberana prudencia, do-seu criterio exatisimo, e da-sua inimitável ingenuidade. Mas isto é pouco: vi nela executado, tudo o que este genero pode permetir, em materia de Retorica. V. P. quiz dar-me dois contra: e mostrar-me, que as minhas reflexoens eram superfluas: pois avia um omem neste mundo, que sabia executar primorozamente, tudo aquilo. Mas diso mesmo me-rezulta, grande gloria. Ou V. P. o-fez, porque eu lho-avizei; e neste cazo, que gloria nam será a minha, de ter um dicipulo desta qualidade? ou o-fez porque asim o intendia, sem que lhe-avizáse; e fico igualmente gloriozo, vendo que as minhas reflexoens se-conformam, com as de uma pesoa, que eu estimo tanto. Ponho de parte os outros comprimentos, que me-faz: porque nam quero uzurpar, o que nam mereso. O que eu escrevi, nam é meu, mas o que ensináram os omens mais insignes, nesta faculdade: de cuja lisam eu o-tirei. a estes é, que V. P. o-deve agradecer: e a mim, só a boa vontade que tenho, de o-servir.

No-fim da-sua carta, repete V. P. uma circunstancia, que ja me-pedio em outra sua: vem aser, que diga alguma coiza, da-Poezia. Eu me-lembro mui bem, da-sua petisam: a qual nam deixei por-esquecimento, mas com suma advertencia: vistoque só despois da-Retorica, se-deve tratar da-Poezia: a qual nada mais é, que uma Eloquencia mais ornada. Só me-resta uma dificuldade, quero dizer, se poderei eu dezempenhar, o que V. P. me-encomenda. Eu tenho pouca noticia de Poetas Portuguezes: ou nam tenho toda, a que é necesaria, para formar juizo exato deles. Desde que li alguns, os-desprezei quazi todos, porque me-nam-agradáram. Contudo lembrando-me, que a medida do-verso Portuguez, é a mesma do-Italiano; e que as regras em todo o mundo culto, sam as mesmas; direi alguma coiza que me-ocorre: se errar, deverá desculpar-me; lembrando-se que só o-faso, para lhe-obedecer.

Digo pois, que o estilo dos-Poetas deste seu Reino, e desta sua lingua, pouquisimo me agrada: porque é totalmente contrario, ao que fizeram os melhores modelos da-Antiguidade, e ao que ensina a boa razam. A razam disto é, porque os que se-metem a compor, nam sabem que coiza é compor: onde, quando muito sam Versificadores, mas nam Poetas. E disto nam queira V. P. melhor prova que ver, que nenhum até aqui se-rezolveo a escrever, uma boa arte Poetica Portugueza: todos se-remedeiam com esta Espanhola, que é muito má fazenda. Certo meu conhecido me-mostrou á tempos, uma manuscrita: mas nada mais era, que um compendio da-dita Espanhola; em que somente se-trata, das-medidas dos-versos, e combinasoens de consoantes: o que está mui longe de se-chamar, arte Poetica. Onde concluo, que ainda nam vi livro Portuguez, que ensináse um omem, a inventar, e julgar bem; e formar um poema como deve ser. De que nace, que os que querem poetar, o-fazem segundo a forsa da-sua imaginasam: e nam produzem coiza, digna de se-ver. Com efeito verá V. P. muitos, que quando escrevem dez versos, lhe-chamam Decima: e quando unem quatorze, chamam-lhe Soneto: e asim das-mais compozisoens. Desorteque compoem antes de saberem o que devem dizer, e como o-devem dizer: e quando tem formado uma caraminhola, em trajes de Poezia, ficam mui satisfeitos; e comesam a dizer mal, de tudo o que nam intendem. Destes se acham, nam duzias, mas centos.

De nam terem profundado a materia, nacem todos os defeitos da-Poezia: de que se-acham infinitos na Espanha, e tambem em Portugal. Geralmente intendem, que o-compor bem consiste, em dizer bem sutilezas; e inventar coizas, que a ninguem ocorresem: e com esta ideia produzem partos, verdadeiramente monstruozos; e que eles mesmos, quando os-examinam sem calor, dezaprovam. Os mestres de Retorica, em cujas escolas é que se-faz algum poema, e que deviam ensinar estas coizas; sam os primeiros que se-calam, e deixam fazer, o que cadaum quer. Envergonham-se, de poetar em Portuguez: e tem por-pecado mortal, ou coiza pouco decoroza, fazelo na dita lingua. Imaginasoens, e prejuizos ridiculos! A Poezia nam é pecadora: a aplicasam é a que a-pode fazer condenavel, se nam é reta: e como iso pode suceder tanto na proza, como no-verso; daî vem, que estes que julgam asim, nunca deviam escrever em Portuguez. Em todos os tempos os omens de virtude, se aplicáram a este exercicio. Os Santos Padres mais doutos, compuzeram muita coisa em verso. S. Bazilio, S. Gregorio Nazianzeno foram grandes Poetas. O primeiro, compoz expresamente um tratado, no-qual ensinava o modo, de ler os Poetas com utilidade. O segundo, vendo que Juliano Apostata Imperador Romano, proibîra aos Cristaons, ler os Poetas Etnicos; compoz algumas poezias, imitando Omero, Pindaro, Euripides, Menandro &c. para instrusam da-mocidade Cristan. E isto nam o-fizeram em Persiano, ou Arabio; mas na sua lingua materna, que era a Grega. O mesmo fez Apolinario Bispo de Laodicea, e alguns outros. S. Inacio de Loyola, e outros modernos tambem fizeram, versos vulgares. Se damos um paso atraz, acharemos, que muitos escritores Sagrados, escrevèram em verso. O que é tam claro, que ninguém pode menos que rir-se de ver, que um Portuguez se-envergonhe de poetar na-sua lingua, fazendo-o em Latim. Como se na lingua Latina, nam se-pudesem dizer todas as loucuras, que se-dizem na Portugueza! De que vem, que, segundo o estilo das-escolas, um Portuguez é obrigado a nam saber, que coiza é Poezia. Alem disto, aquilo que lhe-ensinam de Latim, nada mais é, que a medida de quatro versos; e fazer alguma breve compozisam. Desorteque em nenhuma lingua se-fazem, as reflexoens necesarias, para ser bom Poeta. Antes praticando-se na Latina, uma sorte de versos feitos à moderna, com muitas sutilezas, e conceitozinhos; este estilo se-difunde, nas compozisoens Portuguezas, com geral dano da-Poezia.

Duas sam as partes, que compoem o Poeta, Ingenho, e Juizo. Ingenho para saber inventar, e unir ideias semelhantes, e agradaveis: Juizo para as-saber aplicar, onde deve. E nestas duas partes pecam, nam só os modernos, e mediocres Poetas; mas pecáram ainda os antigos, e grandes omens; nos-quais nem tudo é igual: como mostram, aqueles, que criticáram com juizo, os Antigos. Achamos omens com muito ingenho, e com pouco juizo: porque estas duas coizas, podem-se unir muito bem: e para nam parecer falsa, a minha propozisam, permita-me V. P. que me-explique melhor. O Ingenho consiste, em saber unir ideias semelhantes, com promtidam, e grasa; para formar pinturas que agradem, e elevem a imaginasam: desorteque nam basta que sejam semelhantes; é necesario que divirtam, e arrebatem. v. g. Quando o Poeta diz, que a garganta da-sua amada, é branca como a neve: nisto nam aparece ingenho: se porem acrecenta, que é igualmente fria; nisto está o ingenho. Polo contrario o Juizo, é aquela faculdade da-alma, que peza exatamente todas as ideias: sepára umas das-outras: nam se-deixa inganar da-semelhansa: e atribûe a cada uma, o que é seu. Isto, pede uma exata meditasam, e prudencia fundada: aquilo, só pede uma memoria cheia de muitas, e diferentes ideias. E daqui vem, que vemos frequentemente, omens de imaginasam fecunda, e ingenho vivo; sem um escrupulo de juizo: antes comumente tem menos juizo, os que tem mais ingenho: motivo polo qual produzem obras, que merecem rizo. Os que nam distinguem isto, confundem Ingenho, e Juizo: e chamam omens de juizo, aos que dizem mil ridicularias, e produzem infinitas monstruozidades, e despropozitadas imaginasoens.

O verdadeiro ingenho pois, é uma semelhansa de ideias, que diverte, e eleva. Polo contrario o falso ingenho consiste, na semelhansa de algumas letras, como os Anagramas, Cronogramas &c. às vezes na semelhansa de algumas silabas, como os Ecos, e alguns consoantes insulsos: outras vezes na semelhanzas de algumas palavras, como os Equivocos &c. finalmente consiste tambem, em compozisoens inteiras, que aparecem com diferentes figuras ou pinturas, como abaixo diremos.

Destas duas especies de ingenho bom, e mao, se-compoem uma terceira, que participa de ambas, a que alguns doutos chamáram Ingenho mixto: que consiste, parte na semelhansa das-ideias, e parte das-palavras. v. g. Imagina o Poeta, que o Amor tem, semelhansas de fogo: e une estas duas ideias, na sua imaginasam. Serve-se das-palavras de fogo, e chama; para explicar esta paixam do-animo: e como elas tem significasam incerta, rezulta daqui um todo, que tem parte de ingenho, e parte de aparencia: o qual é mais ou menos estimado, segundo que domina mais ou menos, um que outro: quero dizer, segundo que a semelhansa caie mais, sobre as ideias, que sobre as palavras. Na idade de oiro da-Latinidade, apenas se-acha vestigio diso, tirando em Ovidio, que tem alguma coiza: na idade de prata, Marcial cuido que foi o inventor: e nestes ultimos seculos, nam se-ve outra coiza.

Mas a verdade é, que um conceito que nam é justo, nem fundado sobre a natureza das-coizas, nam pode ser belo: porque o fundamento de todo o conceito ingenhozo, é a verdade: nem se-deve estimar algum, quando nam se-reconhesa nele, vestigio de bom juizo. E como os Antigos observáram muito isto, por-iso neles se-observa, certa maneira natural de escrever, e certa simplicidade nobre, que tanto os-faz admiraveis. Polo contrario, os que nam tem ingenho para fazerem:, que um conceito brilhe, com a sua propria luz, sem a-pedir emprestada; vem-se obrigados, procurar toda a sorte de ornamentos, e apegar-se a quaisquer agudezas boas, ou más; para com elas fazerem figura, e parecerem ingenhozos. Nas obras dos-Antigos nam distinguem o bom, nem o mao: abrasam os mesmos erros, como se fosem maravilhas: sem advertirem, que aindaque fosem nosos mestres, nam os-devemos seguir, com os olhos fechados; mas abrasar neles, o que nam repugna à boa razam.

Deste principio naceram, aquelas ridiculas compozisoens, que tanto reináram, no-seculo da-ignorancia, digo no-fim do-seculo XVI. de Cristo, e metade do-XVII. e desterradas dos-paîzes mais cultos, ainda oje se-conservam em Portugal, e nas mais Espanhas. Os omens daqueles seculos ignorantes, nam observáram nos-Antigos o bom, mas o mao. Vîram, que neles se-achavam vestigios, de um mao ingenho; e ese foi o que abrasáram: de-sorteque ainda oje tem os doutos grande trabalho, em desterrar isto, da-mente dos-omens. Alguns Poetas Gregos ridiculos, autorizáram este uzo. Atribue-se a Theocrito, mas falsamente, uma especie destes poemas, a que nós podemos chamar pintados, ou figurados. Reprezenta um, o Ovo; outro, uma Machadinha; outro, um Altar &c. Isto é uma puerilidade, indigna de um Poeta tam grande, como Theocrito. Certamente para fazer semelhantes versos, deve o Poeta andar detraz, nam do-bom conceito, mas da-palavra longa, ou curta: vistoque os versos nam sam, de igual medida e grandeza. Este pesimo gosto se-restableceo, no-seculo pasado, nam só no-verso, mas tambem na Proza. Eu vi um Ecce Homo, feito de letrinhas miudas, que continham o testamento Novo. vi um retrato do-Imperador Jozé, cuja cabeleira, e vestido era feito de versos. finalmente acha-se muito disto, nos-Poetas tolos do-seculo XVI. e XVII.

O que me admira neste particular é, que o Padre Bluteau, que nacèra em um Reino, no-qual se-sabe, que coiza é Eloquencia, e bom gosto; quizese introduzir tambem isto, em Portugal. Li averá anos um papel avulso, que ele compuzera nas exequias, da-Rainha D. Maria de Saboia, molher d’El-Rei D. Pedro II. e o-intitulou Protheus doloris; em que se-continha bastante disto. Avia um epitafio piramidal, cujo artificio consistia, em ter algumas regras mais compridas que outras. Avia tambem variedade de disticos, em que se-aludia às letras todas do-A. B. C.: e muita desta ridicula fazenda. Tinha tambem uma enfiada daqueles titulos, que ele costuma pór nos-seus prologos, e que embrulham o estomago, aos leitores de perfeito juizo. Com efeito eu ja dise a V.P. que este era o estilo, do-tal Religiozo: metodo, criterio, bom gosto, nam sabia de que cor era. é o mais cansado escritor, que eu tenho visto. Na verdade era infatigavel, em algumas coizas: mas nam era autor para se-imitar: porque bebèra desorte, este estilo de Portugal; que até em Pariz quiz defender a um Cardial, que o estilo de pregar dos-Portuguezes, era excelente: o que cuido ter lido, em uma das-suas obras predicaveis. Emfim tudo isto é efeito, de mao gosto, e nenhum criterio.

Daqui tambem nacèram, as outras compozisoens mais ridiculas. Conta a Istoria, de um certo Tryphiodoro; que compoz uma Ode, sobre os trabalhos de Ulizes; e dividio este poema em 24. livros, a que deo o nome das-24. letras do-Alfabeto, pola razam contraria: vistoque no-primeiro livro, faltava o A. no-segundo, o B. &c. e em nenhum se-achava a palavra, que tivese a dita letra do-titulo. Eu vi uma compozisam moderna, que seguia o mesmo metodo. Certamente nam á coiza mais ridicula, que estes Lipogramas. Serîa um belo divertimento, observar este Poeta, empenhado a revolver todos os Dicionarios; só para deitar fóra, a letra escomungada. Serîa necesario, desprezar a voz mais propria, e mais elegante; somente por-ter a desgrasa, de se-achar nela, a dita letra. Mas que coiza serîa a tal compozisam! que palavras ridiculas! que fraze inaudita! que conceitos improprios! Foi fortuna, que o tal autor teve poucos sequazes, na Antiguidade.

Dos-Enigmas de palavras, entre os Povos do-Oriente achamos muito. Era entre eles, uma principal parte da-sabedoria; saber propor, e decifrar os Enigmas. Os mesmos Reis se-divertiam, em propor uns a outros, estas advinhasoens: e às vezes nos-convites, este era o ultimo prato. Mas destes omens nam falamos, porque ignoráram, o que era bom gosto. Mas ainda entre os Gregos ouve algum, que fez algum enigma: mas foram raros, como mostra o noso Lilio Gregorio Gyraldi, nos-seus Opusculos. Os Romanos mais advertidos, fugîram disto. Sobre a outra sorte de Enigmas pintados &c. algum vestigio vemos, nos-Antigos: mas eles tinham outro diferente motivo. Em Roma era proibido, que um particular puzese a sua efigie, que era o mesmo que a sua arma, no-dinheiro corrente. Caio Cezar, que era o Provedor da-Caza da-moeda, mandou esculpir nelas, a figura de um Elefante: porque a palavra Cezar em lingua Punica, significa Elefante. Tambem entre os Gregos, principalmente Ateniezes, era proibido severamente, que os estatuarios, e artifices puzesem o seu nome, nas estatuas &c. Mas dois Architetos, tendo feito um grande palacio, esculpiram em varias partes, uma Lagartixa, e uma Ran, que eram os seus nomes. Observei eu tambem muitas vezes, na famoza estatua equestre de bronze, do-Imperador Marco Aurelio, que se-acha em Roma na prasa do-Capitolio; que as crins do-cavalo entre as orelhas, reprezentavam uma coruja: que sem duvida era o nome do-autor: que verosimelmente era Ateniez, vistoque em Atenas avia grande abundancia delas. Mas isto que os Antigos fizeram, por-necesidade, alguns Modernos o-fazem, por-eleisam: e se-cansam em inventar um enigma, como em fazer alguma obra eloquente. Nam poso deixar de escrever aqui um epitafio, que cita um autor de bom juizo, que se-poz na lapide sepulcral. O morto chamava-se: Nicolao Antonio Simeoni: e querendo-lhe fazer um epitafio ingenhozo, escrevèram isto: Hic jacet Barium, Patavium, de Nunc dimittis. Barium aludia a S.Nicolao Arcebispo de Bari: Patavium a S.Antonio de Padua: e Nunc dimittis ao canto do-velho Simeam. Veja V.P. que tal era o enigma, e que tal serîa o autor! Disto ainda oje se-acha muito, entre os ignorantes: e eu tenho visto bastante, em Portugal. Intrei uma vez na caza, de certo cavalheiro Portuguez, que estava lendo um livro de Epigramas Latinos, in 4.ᵒ proguntei-lhe, que coiza lia: e respondeo-me, Que lia o melhor Epigramatista, e o melhor Enigmatico. Que o autor era um Portuguez moderno, o qual em cada Epigrama ocultára um enigma, com tanto estudo; que toda aquela menhan procurára decifrar um, sem o-conseguir. Que ja tinha alcansado, o segredo de outros: e que reconhecia, que neles avia muito ingenho. Ofereceo-se para me-emprestar o livro, e decifrar algum. Eu agradeci a atensam: e respondi-lhe, que tinha mais que fazer: e que nam queria priválo do-gosto, de se-ocupar em coizas tam ingenhozas. E a isto chama-se ingenho! e á quem publique tais livros, neste seculo!

Ponho na mesma clase os Ecos, Equivocos, Anagramas, Acrosticos, Cronogramas, Consoantes forsados, Laberintos &c. Tudo isto aindaque tivese seus vestigios, em alguns menos advertidos da-Antiguidade; resucitou, ou se-inventou, nos-seculos da-ignorancia. Eu sei que Ovidio, em uma parte das-suas Metamorfozes, quando fala da-Ninfa Eco, antes de ser mudada em puro eco, introduz algum. Mas alem de que o-pedia, a necesidade da-materia; visto ser ela o argumento, da-sua descrisam; os omens de juizo rim-se, da-sua puerilidade: sendo certo que Ovidio, caio em muitos defeitos, e escreveo com mais facilidade, que reflexam. Mas nam se-pode sofrer, que omens modernos, e que mostráram doutrina em muitas coizas, caisem nesta rapaziada, condenavel ainda em um rapaz: e que fizesem compozisoens, expresamente para mostrar, que sabiam fazer eco. Eu vi ecos, que respondiam em Latim, e outras linguas: e tive compaixam do-Poeta, que se-cansára com aquilo. Os Equivocos nam os acho na Antiguidade, separados dos-Enigmas, tirando rarisimo, que em outra parte direi: sam invensam moderna. V. P. sabe muito bem, que só reináram, no-tempo da-ignorancia; e que os Espanhoes, e Portuguezes mais advertidos, fogem oje deles. Com efeito nam á coiza mais ridicula, que chamar conceito, a um ingano: e procurar aquilo, que se-devia evitar. Quando eu li algumas das-Jornadas, de Jeronimo Baîa, tive compaixam do-dito Religiozo: e asentei, que a jornada que devia fazer, era de sua caza para o Ospital. Esta sorte de Poetas sam doidos, aindaque nam furiozos. Mas nam cuide V.P. que isto está totalmente reprovado: eu ainda conheso, quem o-pratica: e quando se-lhe-oferece ocaziam, de dizer um equivocozinho, banham-se em agua de Cordova. Nam falo dos-idiotas, porque estes nam cuidam niso: mas destes chamados doutos, Frades, Seculares, Sacerdotes, Estudantes &c. entre estes acha-se muito disto: porque nam se-incontra uma alma cristan, que dezinganadamente lhe diga, que aquilo é uma parvoice.

Mas o pior é, que ja o Equivoco pasou do-Portuguez, para o Latim: e muitos que deviam saber, que coiza era Latim, nam fazem escrupulo, de introduzirem nele equivocos; compondo um Latim novo, cheio de todas estas arengas. Um autor de credito, a quem eu estimei muito, pola sua doutrina, e piedade, tambem tropesou nesta materia; compondo uma descrisam do-Ceo, por-equivocos. Esta obra, que fora prometida anos antes, com diferente titulo; teve muita gente em grande esperansa; e eu fui um deles: mas despois que a-li, confirmei-me no-conceito em que estava, de que nam é obra para este seculo; mas cento cincoenta anos antes, serîa um prodigio. Todo o artificio consiste, em ter buscado nomes de Santos, que signifiquem varios oficios da-Republica, de que se-acham carros nos-martirologios &c. e descrever uma Cidade ideial, introduzindo em seus lugares, os ditos nomes. Contudoiso esta obra teve mil adoradores, e apologistas; que mostram abrasar, a mesma opiniam. Eu porem que dezejo cooperar, para o credito deste omem, quizera que se-nam-tivese publicado: porque me-parece, que nam é digna de estar ao pè, de outras obras do-mesmo autor: e que defender o contrario, é mostrar mais paixam, que dicernimento: e deste meu parecer foram, os Estrangeiros de juizo, a quem a-mostrei. Mas o que este fez em uma só materia, fazem outros em toda a ocaziam: e desculpam-se com um ou dois Estrangeiros, que sam os gavadinhos. Como se os Estrangeiros, nam fizesem tambem parvoices! ou como se naquelas Nasoens nam ouvese, quem abomináse tal metodo! Com efeito o Tezauro, mas principalmente o Juglar, de quem se-servem neste genero de equivocos, e agudezas; é insoportavel: e tem sido o que arruinou muita gente, que nam peza bem o que abrasa. Ele compoz uma certa coiza, a que chama Elogios: feitos em um Latim, que nam se-sabe de que seculo é; porque é todo cheio de sutilezas, e equivocos; e cada palavra se-deve tomar, em sentido diferente doque soa. O primeiro Elogio feito ao Verbo Eterno, comesa asim:

Amicus silentii Deus est.
Semel in tota æternitate locutus Deus,
Uno omnia dixit in Verbo.
Prima sui fecunditate facundus,
Ipsa sui conceptione fit parens;

Veja V. P. o que aqui vai! A palavra silentium é aqui tam impropria, que nam pode ser mais: porque silentium é um termo relativo, que significa estar calado, ou quieto; quem primeiro falou, ou fez rumor: e isto nam se-pode aplicar ao P. Eterno, o qual sempre fala a mesma palavra, que entam falou. Onde nam á coiza mais contraria ao silencio, que o falar do-Eterno Pai: e, seguindo a sutileza do-Juglar, deve-se dizer, que nam á quem seja, mais amigo de falar, porque nunca se-cala. A palavra semel tambem é impropria. Ela nam significa uma coiza, que sempre se-faz: mas que se-faz uma vez só: e no-noso cazo, que já é pasada: e isto nem menos se-pode aplicar, ao Padre. Tambem o nome locutus, rigorozamente falando, nam significa, quem pronuncîa uma palavra, como ele supoem; mas quem faz um discurso. Uno omnia dixit in Verbo, nam é fraze Latina, no-sentido em que ele a-toma: porque uno verbo, ou verbo dicere, de que uzam os Latinos; nam significa, pronunciar uma voz, como supoem o elogio; mas dizer poucas palavras, e explicar muito em pouco: a palavra Verbum, aqui é rigorozo equivoco. Prima sui fecunditate, nam sei o que quer dizer: porque eu nam acho, que o Padre Eterno geráse mais, que um filho: e a palavra prima é relativa. Alem diso a palavra fecunditas, nam significa, gerar uma só vez; mas muitas, e ser fertil: e nem menos isto se-aplica, ao P. Eterno. O mesmo digo da-palavra facundus, que nam significa, quem pronuncia uma só palavra; mas quem é eloquente, e sabe fazer muitos e bons discursos: e tudo isto está longe do-sentido, em que o-toma Juglar. A palavra conceptio, é outro equivoco. Ela nam significa, conhecer e intender alguma coiza; mas compreender, como um vazo compreende o licor, que lhe-deitam: e neste sentido se-transfere, para explicar o modo, com que o utero das-molheres, recebe a semente; de que rezulta a gerasam. Significa tambem, excogitar: e em nenhum destes sentidos se-pode aplicar, ao P. Eterno: pois nem o Pai excogita o Filho; nem se-concebe a si, mas ao Filho. Asimque toda esta arenga se-reduz, a um trocadilho e jogo de palavras: como V. P. poderá reconhecer, se quizer ler o dito autor.

E que diriam os nosos antigos Romanos, se visem abuzar da-magestade dos-Elogios: destruir a naturalidade, e simplicidade da-lingua Latina: perverter a propriedade das-suas expresoens: somente para dizer quatro sutilezas, que nam concluem nada? Contudo iso este autor, bandido de outros Reinos, achou muitos imitadores, e idolatras neste: aos quais será mais facil persuadir, que os antigos Romanos nam souberam, escrever com elegancia; doque que o P. Juglar nam seja, um milagre de doutrina, e facundia. Mas permita-me V. P. repetir o versinho, quisque suos patimur manes: o certo é, que este estilo, com mais razam se-deve evitar no-Latim, que no-Portuguez.

Os Anagramas sam invensam nova, e tambem agradam muito, nestes paizes. Que divertimento nam é, ver um perfeito anagramatista, dezentranhar daquela palavra, mil coizas diferentes! Eles convertem o branco em negro; o dia em noite; o omem em besta. Se o tempo que aplicam, a esta rapaziada, o-aplicasem a coiza seria; podiam fazer um poema Epico bem grande. Acham-se alem disto mestres, que fomentam isto; dando premios aos rapazes, que nas escolas, ouvindo alguma palavra, descobrem nela um anagrama puro. Serîa isto nada, se se-contivese dentro das-escolas: mas o mao é, que saie para fóra, e se-introduz nos-discursos graves. Asisti uma vez a um sermam da-Conceisam, pregado polo P. * * * o qual fora muitos anos mestre, e tinha fama de grande Teologo; que provou o que dise, com anagramas, tirados do-nome da-Senhora, e de algumas palavras do-Evangelho. Creio que é necesaria mui pouca reflexam, para conhecer o ridiculo, deste estilo. Os Acrosticos sam primoscomirmaons dos-Anagramas, e nacèram no-mesmo seculo. Acham-se ingenhos mariolas tam infatigaveis, que no-mesmo Soneto poem trez vezes, o mesmo nome: duas nas extremidades, e uma no-meio. Para fazer isto ja V. P. sabe, quantas palavras é necesario voltar, e revoltar. E como as palavras se-buscam, polo comprimento, &c. segue-se que se-ám-de desprezar as melhores; só para achar aquela, em que esteja aquela letra inicial, e aquele numero de silabas. E daqui fica claro, que coiza pode ser, a dita compozisam. Os Ebreos despois do-Talmud, sam os que se-aplicáram a estas ridicularias, de Anagramas &c. mas fomente para achar misterios, nas Escrituras. Porem estes modernos, procuram somente o divertimento.

Dos-Cronogramas vi algum em Portugal, mas raro. Os Tudescos sam insoportaveis nesta materia, e tambem os Ebreos modernos. Consiste pois o Cronograma, em pòr no-principio, ou fim de um livro, ou em alguma inscrisam, certas palavras; parte das-quais letras sejam maiusculas: as quais juntas declarem a era, em que foi feito o livro. Omens á, que perdem mezes, para buscar as ditas palavras. Onde, quando V. P. vir algumas destas inscrisoens, em medalhas, ou livros; nas quais entre letras miudas se-achem majusculas; nam se-canse em buscar o conceito, que nam á: busque o ano, do-milezimo corrente.

Mais vulgar é em Portugal, outra sorte de ingenho falso, a que chamam Consoantes forsados. Quando querem experimentar um omem, se tem ingenho; dam-lhe consoantes estramboticos, paraque complete os versos: e como isto seja o mesmo, que obrigar um omem, a que diga despropozitos; ja se-sabe que saiem compozisoens, indignas de se-verem. Se um omem quando quer fazer um Soneto, polos consoantes de outro, ao mesmo asumto, e sem se-incontrar no-mesmo conceito; lhe-custa: se despois que um Poeta faz, uma boa quadra de um Soneto; nam acha às vezes os consoantes proprios, para a segunda; e para explicar o que tem ideiado: considere V. P. que coiza poderá fazer, quando o-obrigam, a dizer despropozitos? O mesmo digo, quando dam os motes com finais dezuzados, e que nam tem outras vozes consoantes. Sempre me-pareceo ridiculo este estilo: e nunca pude sofrer, que vindo quatro amigos, elogiar outro em um oiteiro; lhe-ajam de dar motes, para os-tormentar. isto é recompensar uma fineza com uma injuria; e querer uma satira, em lugar de louvor. Deviam dar ao Poeta, somente o asumto; e deixar-lhe a liberdade, de fazer a Decima como quizese: porque o entuziasmo deve ter, liberdade na expresam: sem a qual nam é posivel, deixar de dizer parvoises. Ou, em cazo de lhe-darem o mote, devia ser com algum final, que tivese muitas vozes consoantes da-lingua: paraque pudese contrafazer-se menos, e produzir coizas dignas. Porem sempre direi, que é efeito de um ingenho mui mao, dar consoantes estramboticos: e que todo o omem de juizo deve fugir, desta rapaziada.

Em outros Reinos, sempre se-deixa a liberdade, a quem gloza: e na minha Italia, onde sabem que coiza é Poetar; a estes glozadores, a que la chamam Improvizadores, nunca dam motes, mas só o asumto. E por-iso á alguns, e vi tambem molheres, que discorriam prodigiozamente: e cujas obras escritas, mereceriam grande louvor. Especialmente incontrei um omem, de mente tam fecunda, que polo espacio de trez oras despois de jantar, fez continuamente versos; variando eu sempre os asumtos. Versejava em oitava rima, conforme o costume dos-versejadores de Italia: e com tanta promtidam; que cheguei a suspeitar, que as-trazia estudadas: desorteque me-vi obrigado, a variar infinitamente os argumentos: mas o omem sempre era o mesmo: e o profluvio de palavras nam tinha limite. Notei especialmente duas coizas singulares: nunca errou verso, ou na quantidade, ou no-consoante: e nam uzava de palavras sem significado, de que frequentemente uzam os Poetas; mas dizia coizas bem ditas, e de sustancia. Mas este grande omem, querendo-lhe eu dar um mote, nam se-quiz sugeitar a glozálo. Nele fiz algumas reflexoens, das-que a V. P. aponto.

Vemos ainda outra coiza pior, que é, introduzir os consoantes, ou rimas, no-verso Latino. Nos-seculos da-ignorancia, ouve um Poeta destes, que reduzio a metade da-Eneida, em verso Latino rimado. Acham-se ainda alguns Imnos ecleziasticos, feitos no-undecimo, duodecimo, e seguinte seculo, com consoantes e toantes. vi alguns Portuguezes, que gostavam disto. Mas tudo é efeito de suma ignorancia; e é nam conhecer, qual é a beleza, e armonia da-lingua Latina. Ingenhos ordinarios, que nam podem chegar à galantaria, dos-antigos e bons Poetas; querem-se singularizar, com tal estilo: e por-iso se-devem desprezar.

Tambem os Laberintos de letras, sam mui mimozos em Portugal: e Poeta conhece V.P., que estimou mais um laberinto que fez, doque se fizera alguma famoza compozisam. Outros tem por-coiza grande, fazer laberintos de quartetos, dispostos em certa figura, de-sorteque se-lem por-todas as partes; e sempre conservam, a mesma consonancia. Outros fazem versos, que se-lem para diante, e paratraz: de uma parte, fazem um sentido: da-outra, outro contrario: empregam nisto tempo consideravel, nam só em fazèlo, mas em decifrálo: e chamam a isto, emprego de sublime ingenho. Que omens! O simplez nome de laberinto basta, para desprezar esta sorte de compozisoens: olhar para eles, deve confirmar este propozito. Decifrado um laberinto de letras, comumente acha-se o nome de uma pesoa, e nada mais: e onde está aqui o ingenho? Custa às vezes ao Poeta, fazer um laberinto de um quarteto, um mez; e como nam pode chegar a encobrir a compozisam, de modo que outro em um abrir de olhos, a-nam-decifre; todo o ingenho do-Poeta, que lhe-custou um mez, excede outro, com um abrir de olhos. Os outros laberintos de quartetos &c. nenhum tem conceito: porque nam podem unir-se duas coizas, poetar bem, e poetar em laberinto. E asim com muito trabalho consegue o Poeta, que os outros conhesam; que ele nam sabe fazer, versos bons.

Igualmente é estimada neste paiz, uma especie de Sonetos, em que se-repete a mesma palavra, em todos os versos: que é o mesmo que a galantaria, dos-consoantes forsados. Porque obrigado o Poeta, a introduzir a dita palavra em cada verso, nam pode ideiar livremente; nem unir um verso com outro; nem sair com alguma compozisam, que seja digna. Podia citar mil exemplos: mas nam queira V. P. nenhum melhor; que o Soneto que se-atribue ao Chagas, e comesa:

O tempo ja de si me-pede conta.

Em todos os versos entra, a palavra tempo: que é uma embrulhada terrivel: e o conceito do-fim consiste nisto:

E que se-chega o tempo de dar conta.

que é em carne o mesmo primeiro verso. E onde acha V. P. a galantaria? o mesmo digo dos-outros. E tudo isto provèm, de que tais Poetas intendem, que o-fazer um Soneto segundo as leis comuas, é coiza ridicula: e asim querem, esquipasam particular.

Se os omens considerarem, que coiza era a Poezia: se tivesem bem intendido, os principios dela: se quizesem decifrar, em que consiste a beleza e armonia, que nos-eleva, quando ouvimos um bom poema: nam podiam menos, que desprezar todas estas compozisoens; que sam indignas, até dos-proprios rapazes. Só os que nam sabem, que coiza é ingenho, se-aplicam a estas ridicularias. Dezesperando de chegar, à magestade dos-antigos compozitores; nam acháram outro meio de serem atendidos, que fazendo ridicularias. Sucedeo-lhe o mesmo, que aos Godos, com a Architetura: nam tendo sido instruidos nas boas artes,como foram os Gregos, e Romanos; e nam podendo chegar, à nobre simplicidade da-antiga Architetura: ornáram as suas fabricas, de tudo o que lhe-ofereceo, a sua mal regulada imaginasam. Desorteque os omens, que no-seculo prezente observam, os monumentos que nos-ficáram, destes barbaros; nam cesam de admirar, a pouca proporsam que se-descobre, em todas as suas fabricas: e o mao gosto que aparece, em todos os seus ornamentos. Muitos deles viviam em Roma: tinham debaixo dos-olhos, as famozas fabricas dos-Romanos: e desprezando tudo isto, produziam monstruozidades. Asim sam os autores destas Poezias: tem os bons livros: podiam neles observar, o que devem: e desprezam tudo isto, para seguirem fantasticas imaginasoens. Onde dise com galantaria, um autor moderno; que se a gloria de belo ingenho, se-conseguîra somente, com o trabalho que empregam, naquelas ridicularias; ele nam queria ser belo ingenho: pois era melhor, ser forsado da-galè, que conseguilo com tanto custo. E eu acrecento, que se estivese na minha mam, condenaria estes tais Poetas, a pasarem a sua vida fazendo Acrosticos, Anagramas, Laberintos; retirados do-comercio dos-omens; e felicitar-se com os seus inventos.

Tenho ainda outra coiza que advertir, que tambem é efeito, de mao ingenho; e sam aqueles ditos, que chamam agudos, e jogos de palavras; que se-acham frequentemente nos-Prozadores, e frequentisimamente nos-Poetas. Verá V. P. pesoas, que cuidam dizer grasas, e coizas ingenhozas; e dizem insipidas ridicularias. Outros, servem-se de uma palavra com um c, que posta com um l, significa coiza diferente: e daqui formam uma caraminhola, a que chamam ingenho; e ficam mui satisfeitos, da-sua agudeza. O pior está, em que á omens que escrevèram, sobre a agudeza; e quizeram ensinar isto, aos leitores. Li á anos um livrinho pequeno, de um Espanhol, que cuido era Gracian; e se-intitulava Tratado de la Agudeςa: lembro-me que o autor no-prologo, dezejava ao livro a boa fortuna, de cair em maons, de quem o-intendèse. Polos meus pecados eu fui um, dos-que nam se-cansáram em intendèlo: porque logo intendi, que o livro nam merecia que se-lese. Querer ensinar a dizer grasas, e agudezas; é o mesmo que querer ensinar, a mudar a natureza: quem nam é proprio para estas coizas, nam as-pode aprender. As grasas, pola maior parte, tem beleza respetiva: em boca de uns, tem grasa; na dos-outros, nam: a agudeza quando nam é pura, é o mesmo. Pola maior parte, as que pasam com este nome, nam meresem este titulo: sam meros jogos de palavras, que agradam infinitamente aos ignorantes. Neste particular a verdadeira regra é esta: Se o conceito traduzido em outra lingua, conserva a mesma forsa; pode-se chamar pensamento ou agudo, ou ingenhozo, segundo as circunstancias: se a-perde, pronuncie V. P. livremente, que é uma ridicularia: e que só pode ter lugar, entre gente que gosta daquilo.

Acham-se, é verdade, nos-Antigos muitas, e mui insulsas. Aristoteles na sua Retorica aponta algumas, a que chama Paragramas. Cicero no livro 2.ᵒ de Oratore, tratando das-facecias do-Orador, indica outras muitas: e ele mesmo em varias partes das-suas obras, serve-se delas: porque este era o seu defeito, ser mui faceto: e com as suas facecias aquistava, perigozos inimigos. Mas devo dizer, em obzequio da-verdade, que as que ele aponta, quazi todas sam frioleiras, e ridicularias; que nam merecem nome, de pensamento ingenhozo: e se V. P. me-nam-cre, leia o dito livro, e achará que lhe-digo a verdade. Estas venialidades em que caîram estes grandes omens, sam recompensadas com infinitas boas qualidades, que neles vemos: e sam tambem desculpaveis, por-outro principio; que é a falta de Critica, que tiveram os Antigos. Aqueles ingenhos elevados dos-primeiros autores, nam faziam todas as reflexoens necesarias, para procederem com exasam: polo contrario, os que os-seguîram, aindaque inferiores na grandeza de ingenho, excedem no-metodo, e na critica: e souberam evitar, os defeitos dos-primeiros.

Omero é grande, é natural, tem pensamentos elevadisimos, e excede nisto a Virgilio: contudo este, que escreveo despois, aindaque tenha menos natureza, mostra mais arte que Omero: pois soube evitar um defeito, que frequentemente se-acha em Omero, que é, amontoar superfluos epitetos, e às vezes insulsos: como tambem as digresoens, e coloquios insipidos, sem necesidade alguma. Cicero no-seu livro de Claris Oratoribus, em que censura, tudo o que ouve de bom na Antiguidade; traz belisimas reflexoens, sobre os defeitos de alguns Oradores: e bem procurou nas suas obras, fugir dos-tais defeitos. Contudo Quintiliano, que floreceo um seculo e meio despois, aindaque muitos furos abaixo, do-merecimento de Cicero; advertio coizas, que a Cicero tinham fugido. A verdade é, que os escritores que escrevèram, despois dos-primeiros; refletindo sobre as primeiras obras, examináram melhor, que coiza era bom ingenho; e deram regras, que os primeiros ignoravam. Quintiliano é um destes: mas sobre todos Dionizio Longino, que floreceo no-meio do-3.ᵒ seculo cristam. Este omem, que alem de Filozofo, e Retorico, era um perfeitisimo Critico; ensinou no-tratado, que nos-deixou de Sublimi stilo, como se-devia julgar nestas materias: e que coiza se-devia chamar Ingenho: e todo o mundo douto, concordou com ele. A ignorancia, que pouco despois se-introduzio no-Imperio; fez com que se-esquecesem, deste metodo de julgar: o qual se restableceo nos-fins do-seculo XVI. mas principalmente no-pasado, e no-prezente; em que as coizas se-estimam, nam polo que parecem, mas polo que sam. Mas como nem todos tem juizo, para intenderem as coizas; daqui nace, que neste mesmo seculo XVII. e ainda prezente, se-acham pesoas, que confundem as ditas coizas: e que, se acazo chegam a ler os Antigos, nam sabem advertir, o que neles se-deve imitar, ou desprezar: e por-iso chamam pensamentos ingenhozos a coizas, que estam mui longe diso: o que frequentisimamente se-incontra, neste Reino.

Um destes Poetas, observando as desprezantes maneiras de olhar, da-sua Dama; e convencido no-mesmo tempo, da-eficacia que os seus olhos tinham, para inspirar-lhe amor; os-considera como espelhos ustorios, feitos de caramelo: mas podendo ele viver, nos-maiores ardores que o-abrazavam; conclue, que a zona torrida é abitavel. Quando a sua Dama tem lido a carta, que lhe-escreveo, com sumo de limam, posta ao calor do-fogo; lhe-pede, que a-torne a ler, à luz das-chamas de amor. Quando ela chora, dezeja que um suave calor, excitado polo amor, fasa destilar aquelas lagrimas, pasadas polo alambique do-seu corasam. Quando ela está auzente, acha-se alem do-oitentezimo grao de latitude; quero dizer, quarenta graos mais vizinho do-Polo, doque quando se-acha com ela. O seu amor ambiciozo é um fogo, que sobe naturalmente para sima: o seu amor afortunado, parece-se com os raios do-Sol: e o seu amor dezafortunado, asemelha-se às chamas do-inferno. Quando o amor lhe-tira o sono, é uma chama, de que nam saie fumo: e quando a prudencia o combate, é um fogo asoprado polo vento. O seu corasam é um Etna, que em vez da-oficina de Vulcano, oculta aquela de Cupido. Às vezes, o corasam do-Poeta acha-se nevado, no-peito de todas as belas: outras vezes asado, na vizinhansa dos-seus olhos. Umas vezes, afoga-se dentro das-lagrimas; e no-mesmo tempo arde, entre os brasos de amor: semelhante a estes foguetes de nova invensam, que ardem, e estoiram debaixo da-agua. Em todo este discurso vé V. P. que o Poeta supoem, que o amor é verdadeiro fogo de cozinha; e que une estas duas ideias, fogo, e amor; para delas deduzir, todos os seus conceitos; a que ele chama sutis, e ingenhozos. Isto agrada ao comum dos-omens, namobstanteque seja uma fantazia impropria, e estravagante. Porem ja eu lhe-perdoára este ingenho mixto; se uzasem dele com moderasam: o que nam poso sofrer é, que sem prudencia o-introduzam por-tudo: e nos-queiram persuadir, que é grande ingenho, chamar a uma coiza com diverso nome: e que a dita coiza é tal, como a-pintam.

Acho tambem mui radicado nestes paizes, (aindaque tambem em alguns estrangeiros) aquilo de servir-se sem reflexam, das-divindades dos-Pagaons, em toda a sorte de poemas, Sagrados, e Profanos: e cuidam muitos, que fazendo ao principio a solita protesta, de que os-nomeiam no-estilo poetico; tem feito a sua obrigasam. Pode-ser que a-tenham com a religiam: mas certamente nam a-tem, com os bons Poetas. Com grasa dise um omem douto, que toda a ciencia de muitos modernos Poetas, nam pasava, das-Metamorfozes de Ovidio. A verdade é, que os Poetas modernos, sam prodigos desta mitologia. Se louvam uma molher formoza, ocupam-se mais em descrever Elena, ou Venus; Leda, ou Europa; doque a dita beleza. Se elogiam um eroe, entra logo Mavorte, e Alcides; e pola maior parte nam saiem daquî. Mas isto é sem duvida ridicularia. Em um poema burlesco, tem grasa a dita mitologia, porque só se-trata de divertir, com a aplicasam: mas em um poema serio, é fantazia condenavel. Que o-fizesem os Etnicos, tinham desculpa na sua cegueira: mas que o-fasa um Catolico, em cuja religiam nada significam, tais nomes: que introduza D. Joam de Castro, como grande amigo de Marte; e establesa boa conrespondencia, entre Belona, e Diniz de Melo; é um erro que nam se-pode perdoar a um Poeta, que pasa de 15. anos. Os que nam sabem engrandecer, as verdadeiras virtudes; é que recorrem às fabulas, para ornamento do-seu poema.

Nunca pude sofrer um Poeta, no-principio de um poema moderno, invocar as Muzas, e Apolo; para lhe-inspirarem os pensamentos: mandar Mercurio, com algum despacho de importancia: obrigar Minerva, a que tome a figura, de algum conselheiro: chamar do-Inferno Plutam, para excitar discordias, entre algumas pesoas: nam permetir tempestades, semque Venus vá pedir a Eolo, que fasa das-suas: nam consentir perda de batalha, semque o Destino atire alguma, das-suas solitas pedradas. Isto é uma afetasam, digna de compaixam. Nós temos na nosa religiam coizas, que podem suprir, a todas as ideias dos-Antigos. Temos Deus, temos Anjos, temos Santos, que nos-podem inspirar o bem: e temos Diabos, para inspirar o mal. O Poeta mostraria mais ingenho, se ele fizese os seus versos; doque pedindo a Apolo, que lhos-inspire. Um furiozo vento excitado polo Diabo, pode fazer o mesmo espalhafato, em uma armada; que Eolo, com todas as suas Furias. Para dar razam de uma batalha perdida, é mais natural e verdadeiro, recorrer à polvora, balas, e prudencia do-General; doque ao Destino, ou Fado, que sam palavras sem significado. O Diabo nam é menos prejudicial, à paz e quietasam dos-Omens, que pode ser Plutam, com Cloto, e as suas companheiras. Quem dece ao Inferno, para tirar de lá Lachesis, e outras destas Furias; nam lhe-era mais barato, tirar um diabrete, para concluir tudo aquilo? Os Gregos nam se-servîram das-divindades dos-Ebreos, ou Sirios, para explicarem as suas coizas; mas daquelas que estavam establecidas, no-seu paîz: E porque avemos nós servir-nos das-Gregas, tendo outras melhores? O que suposto, merecem rizo os Poetas, que se-ocupam com estas ridicularias: porque ou querem significar com aqueles nomes, alguma coiza; e isto é sacrificar o seu catechismo, à mitologia dos-Antigos: ou nam significam coiza alguma; e novamente merecem rizo, por-falarem em coizas, que nam pode aver: e é perder a verosimilidade do-poema, servindo-se de coizas, e vozes, que ninguem pode intender. Que o Poeta em uma metafora, em uma semelhansa, ou em alguma breve aluzam, tocáse algum destes pontos; poderseîa alguma vez perdoar: mas introduzilos em todo o corpo do-poema, como faz o Camoens na Luziada, que introduz Venus, e Baco por-toda a parte, sem descrisam alguma; ou tambem o Chagas, e o comum deste Reino; isto é mostrar; que nam tem juizo ou dicernimento, na aplicasam dos-ornamentos poeticos. E é muito de admirar, que os que sabem tambem descrever Venus, e Baco; nam saibam descrever, um omem seu contemporaneo, sem recorrer à Antiguidade. Pode-se porem sofrer, que o Poeta fale com as coizas inanimadas, como com pesoas: v. g. com os Ceos, Terra, Elementos, Morte &c. e fasa outras destas figuras de Retorica: isto nam ofende nem a religiam, nem a boa razam: aquilo, ofende ambas as coizas.

Estes defeitos nos-Poetas sucedem, porque lhe-faltam os dois principais requizitos, Criterio, e Retorica. Chamo Criterio, a uma boa Logica natural, exercitada na lisam de bons autores: Retorica ja se-sabe, que é a arte de persuadir, sem a qual nam se-pode ser bom Poeta: a qual supoem Juizo, e Criterio. A simplez propozisam destes dois requizitos basta, para atarantar estes Poetas ordinarios: os quais se-rim de todo o corasam, quando ouvem dizer, que sem ter singular Retorica, nam se-pode ser bom Poeta; ou ao menos intender, o artificio da-Poezia. Estes ingenhos das-duzias, páram na superficie das-coizas. Julgam que Retorica, é falar em proza; Poezia, falar em verso. Mas os omens que intendem a arte, rim-se ainda mais, da-sua ignorancia. Cuido que facilmente persuadirei a V.P. o que digo, se lhe-puzer diante dos-olhos, que coiza é Poezia; e isto a que chamamos, arte Poetica.

A Poezia é uma viva descrisam das-coizas, que nela se-tratam: outros lhe-chamam pintura que fala, e imita o mesmo que faria a natureza, e com que agrada aos omens. O artificio da-Poezia tem por-fim, agradar: e por-iso só se-emprega em dar regras, com que posa ocupar gostozamente um ingenho. A isto consagram os Poetas, todo o seu ingenho, e juizo. Se buscam argumento elevado, é para agradar, com a ideia de grandeza: se procuram imitar a verdade, é para agradar, com a galantaria da-imitasam: se nam dizem coizas contrarias às nosas inclinasoens, isto mesmo é para agradar: se propoem movimentos apaixonados, com que pintam ao vivo, diferentes afetos da-alma; tambem iso é para agradar: desorteque este é o idolo, do-artificio poetico. E como isto nam se-pode conseguir, sem saber procurar pensamentos, ou argumentos proprios, para mover as nosas paixoens: saber servir-se de palavras proprias, para pintar aquela coiza que se-quer; o que encerra as Figuras da-voz, e do-animo: Fica bem claro, que para fazer tudo, o que pede a arte, se-requer boa Retorica. Mas esta razam se-intenderá melhor, se-observarmos as diferentes especies, de Poezia.

Todo o Poema se-divide em Dramatico, e Narrativo. Compreende o Dramatico, a Comedia, Tragedia, e tudo o mais em que os que entram no-poema; reprezentam com a viva asám, tudo o que se-diz: o Narrativo compreende, todas as mais especies de poemas, em que se-faz discurso, sem asám viva. Estas sam infinitas; mas ainda se-reduzem, a duas principais especies: uma, compreende as poezias, que se-cantam: outra, aquelas que se-lem. Na primeira, entram as Odes, Imnos, e todas as especies de cantigas: na segunda, entram todas as outras compozisoens: que ainda se-dividem em trez, Doutrinais, Istoricas, e Oratorias. Nestes trez generos se-tem composto, famozisimos poemas. v.g. O poema de Lucrecio, é um tratado em que expoem, a Fizica de Epicuro: os Fenomenos de Arato, que Cicero traduzio em Latim, sam um tratado de Astronomia; o mesmo digo do-Poeta Manilio: as Georgicas de Virgilio, sam um tratado de Re rustica: os Fastos de Ovidio, sam a istoria das-antiguidades Romanas: e o poema de Lucano, é uma istoria das-guerras civis. O que suposto, quem pode negar, que um tratado de Doutrina, ou de Istoria, pede uma exata noticia de Retorica? E com efeito para escrever semelhantes tratados em verso, nam dezejam os mestres outra erudisam; senam a que é necesaria, para escrever em proza; tirando alguma expresam metrica.

Pasando ao 3.o genero, tudo o que os Oradores fazem, no-genero demonstrativo; que compreende os louvores, e vituperios, de uma determinada pesoa, ou asám; fazem tambem os Poetas. Os Epitalamios sam louvores, que se-dam a uma pesoa, no-dia do-matrimonio: os Epicedios sam louvores, despois de morto: as Apoteoses sam quando se-louvam desorte, que se-finge colocárem-se, entre os Deuzes: e tudo isto é em carne, um panegirico. As Satiras sam repreensam do-vicio; e tambem pertencem ao genero demonstrativo. as mesmas cartas se-escrevèram antigamente, em verso: de que nos-deixou bons exemplos, Ovidio &c. Nam ignora V. P. que a estes trez generos se-reduzem, todas as compozisoens, nam só Latinas, mas Vulgares. Fazem-se Sonetos, Silvas, Quintilhas, Elegias &c. em louvor, e vituperio: escrevem-se Cartas em Silvas, Decimas, Tercetos, Quartetos, Romances &c. finalmente todos os discursos de proza, se-podem reduzir em verso. E asim a mesma Retorica que é necesaria, para regular os nosos discursos, na proza; o-é tambem, no-poema. Onde vem, que a Poezia, é uma Retorica mais florida: e a quem falta esta, nam pode ser bom Poeta. Como é posivel, que o Poeta exprima na Elegia, a sua paixam, desorteque mova; se ele nam sabe, a arte de mover? como pode nos-dialogos expremir, o que cadaum quer, e deve dizer; se ele nam sabe o que deve, e como o-deve dizer? Torno às Comedias, e Tragedias, e delas progunto o mesmo: Como pode o Poeta fazer, que cadaum dos-reprezentantes exprima, a paixam de que está posuido; se ele nam sabe, que coiza é paixam, nem como se-move? nam pode ser que um omem, que ignore isto, fasa uma Comedia boa. Tambem a Tragedia nam consiste somente, em inventar um argumento nobre: em saber embrulhar uma quantidade de sucesos, que cauzem maravilha, quando se dezintrigam: mas sobre tudo é necesaria a propriedade, e carater, em cada parte; para mover o animo: o que pede, particular Retorica.

Quanto ao poema Epico, é certo que compreende, todas as outras especies de poemas narrativos: e nele se-pode empregar, tudo o que á de fino na Retorica. O principal asumto dele é, um panegirico. Nele se-acham arengas famozas: algumas sam deliberativas, outras judiciais. acham-se acuzasoens &c. acha-se a istoria do-eroe. acham-se muitos conceitos de doutrina, e outra erudisam. entram nele cartas, epigramas, dialogos: e finalmente tudo o que á melhor, na Poezia. Motivo porque se-dise, que era a coiza mais dificultoza, da-arte Poetica. Onde, compreendendo todas as outras especies de Poezia, se cada uma delas pede Retorica, que fará o poema Épico?

Daqui fica claro, que conceito se-deve formar, destes vulgares Poetas, que V. P. incontrará todos os dias. Eles nam sabem, que coiza é Retorica, e bom gosto em materia nenhuma; como lhe-mostrei na minha ultima carta: e asim que coiza boa podem fazer, na Poezia? Se fazem alguma coiza menos má, é porque cazualmente sucedeo; ou asim o-lèram em em algum livro, d’ onde o-roubáram: mas ignoram a razam, porque asim se-faz. E isto nam é ser Poeta, nem para la vai. E nam cuide V. P. que falo por-conjetura: mas com experiencias mui certas: e ja me-sucedeo pedir a um mestre, que explicava um paso de Virgilio a um dicipulo; que me-explicáse a mim, porque se servîra o Poeta daquelas expresoens: e nam só nam mo-explicou, mas nem menos me-intendeo. Desorteque incontrando-se todos os dias, tantos Poetas; nam á coiza mais rara, que um Poeta.

E com efeito o segredo particular da-Poezia, principalmente Eroica, nam o-pode conhecer, senam quem é bom Retorico. Consiste ele, segundo dizem os mestres da-arte, em saber propor desorte, o argumento que se-escolheo; que só aparesa, o que tem de extraordinario, e nenhum defeito: e em saber inspirar ao leitor, curiozidade de ler todo o poema: nam declarando tudo logo, mas confuzamente: fazendo nacer uma dificuldade da-outra, paraque se-esporeie o dezejo: dilatando a leitura, e enchendo a istoria, por-meio dos-Epizodios; paraque o leitor nam perca de mira, o seu principal argumento: e finalmente nam dezatando o nó da-dificuldade, senam quando tem conduzido o leitor, ao fim do-poema. Tudo isto pode V. P. observar, na Eneida de Virgilio, ou na Jeruzalem do-Tasso. Eles propoem ao principio em breve, o argumento da-sua obra; e prometem coizas grandes. Nam comesam polo principio da-vida do-eroe; mas por-uma asám famoza, que empreendeo no-meio da-sua vida: da-qual com artificio particular, fazem recuar o leitor, até os primeiros trabalhos do-seu eroe. Uma dificuldade excita outra: demaneiraque o leitor nunca se-cansa, na leitura. E que outra coiza fazem os Retoricos, quando querem excitar, a atensam dos-seus ouvintes? Ja eu dise a V. P. que ese era o principal artificio, das-Orasoens de Cicero, e ainda de muitos Oradores da-Antiguidade. donde concluo, que só um bom Retorico o-pode fazer. Alem diso os Retoricos encomendam muito, que o Orador nam diga, senam coizas verosimeis: porque com falsidades manifestas, ninguem se-eleva. E isto mesmo dizem, todos os bons Poetas: antes nada mais cuidam, que representar verosimel, tudo o que propoem. Desorteque quanto mais se examina a Poezia, tanto mais claramente se-reconhece, a Retorica.

E esta é a razam; porque vemos todos os dias, que muitos, querendo ser Poetas, sam uns ridiculos: porque lhe-falta o principal fundamento; que é, saber pezar as coizas, e dar a cada uma o seu preso. observando aquilo, a que os Latinos chamam, decorum: que consiste no-introduzir cada um, a falar segundo o seu carater. Todos os defeitos apontados, sam esenciais, e frequentes: mas este ultimo da-inverosimilidade, é mais geral, doque se-nam-intende. Acham-se poucos Poetas, que nam pequem contra isto: pecam no-Drama, e pecam no-Epico: aindaque neste menos; porque sam rarisimos os que compoem, poemas Epicos. Mas em toda a outra sorte de poema Narrativo, sam mui frequentes em Portugal. Nas Comedias pouco caiem os Portuguezes, porque nam se-aplicam a elas: raras vi, fóra das-de Camoens: mas os Espanhoes caiem muito nisto. Verá V. P. um pastor, que fala com mais filozofia e prudencia, que um Cipiam Nasica, ou Catam Uticense. Acham-se relasoens, com encarecimentos tam despropozitados, que nam merecem outro nome, que uma enfiada de manifestas mentiras. Algumas vezes, um omem vulgar faz uma Decima, ou Oitava derepente: outras vezes, dá melhores conselhos, que um consumado Jurisconsulto. Finalmente em tudo se-ve pintada, a inverosimilidade. Nam digo eu só Calderon, mas o mesmo D. Antonio de Solis; que em outras coizas mostrou mais juizo, que Calderon; nesta o-perde. E finalmente todos os Espanhoes sam o mesmo: porque tropesam a cada paso na sutileza, que é impropria na boca, de semelhantes pesoas: e tambem impropria da-Comedia: que nada mais é, que uma imagem da-vida, proposta aos olhos dos-omens, para repreender as asoens ridiculas dos-mesmos.

Dos-Espanhoes o-aprendèram os Portuguezes: e comumente se-persuadem, que quem sutiliza melhor, e diz coizas menos verosimeis, é melhor Poeta. Metaforas mui fóra de propozito, encarecimentos inauditos, sam os seus mimozos. Ouvi gavar muito um Soneto do-Chagas, feito a um cavalo do-Conde de Sabugal, pola metafora da-Muzica, e comesa asim: