II.
Tudo o que se-compreende nestas duas Estancias, é propozisam: e tudo isto ele promete cantar. Mas aindaque na propozisam de um poema se-posam acrecentar, alem da-asám, algumas coizas; estas devem ficar fóra da-fabula, e nam deve o Poeta cantálas; e somente nos-epizodios do-dito poema, é que se-toca alguma delas. v. g. O novo Reino que se-fundou entre gente remota &c. é acrecentamento, que rezulta da-asám; e somente se-canta por-epizodio. O Camoens porem inclue tudo na propozisam, e asim o-executa: desorteque considerando os que inculca, na segunda Estancia; bem se-ve que entram, nam por-acrecentamento, mas direitamente. Contudo os Reis de Portugal, de que trata no-Canto III., e IV., nada tem que fazer, com a principal asám, e entram por-epizodio. Os que por-obras valorozas se-vam da-lei da-morte libertando, que sam todos os outros Portuguezes ilustres, tanto antigos, como modernos; tambem estam fóra da-principal asám, que é a navegasam do-Gama. Com efeito o Camoens lá os-introduz por-epizodio, no-principio do-Canto VIII. mas nam obstante iso, na propozisam do-poema mete-os direitamente, com os outros. Os que foram governar a India, tambem entram por-epizodio, no-principio do-Canto X. mas sem reparar niso, ele os-propoem com os outros, no-5. e 6. verso da-2. Estancia. Asim na primeira Oitava confunde, os que foram com o Gama conquistar a India, com os que ao despois foram governála: e de uns e outros diz, que edificáram novo Reino. Este defeito é de toda a considerasam, nesta materia. Garcez os-reconhece em Camoens: mas querendo desculpar nele, o ter proposto muitos varoens, com o exemplo de Caio Valerio Flaco; é mostrar que ignora, o pouco conceito que os eruditos tem, das-obras de Flaco; nas-quais acham mil defeitos contra a arte; e nenhuma grasa, ou beleza: desorteque os seus erros, nam podem servir de desculpa, aos de Camoens.
Errou alem diso o Camoens, em nam sustentar sempre o carater, e grandeza do-seu eroe: que abaixa sensivelmente no-Canto VIII. do-meio para diante. Errou, nas enfadonhas digresoens que introduz, por-toda a parte. Errou, em acabar quazi todos os Cantos, com esclamasoens mui fóra de propozito, e muito contra o estilo da-Epopeia. Tambem errou consideravelmente, introduzindo no-seu poema, as Divindades dos-Etnicos: nam alegorizando a coizas santas, como puerilmente pertende o Faria: nam aos Planetas personalizados, como benignamente interpreta o Garcez; o qual fingio uma nova constelasam para Baco, que nam se-intende o que é: mas em sentido proprio, damesma sorte que faláram os-idolatras Romanos; pois mete Venus, e Baco imprudentemente por-toda a parte. Isto é tam claro no-seu poema, que me-admiro muito, que aja quem o-queira desculpar, nesta materia. Se nam quizer-mos dizer, que se-servio de palavras sem significado; que serîa outro erro.
Mas deixando muitos outros erros, em materia do-Epico, que se-podiam apontar; tem outros nam menos censuraveis, em todo o genero de Poezia. Muitos versos errados, por-exceso de silabas: outros por-falsidade das-rimas, que nam sam consoantes &c. muitas palavras Latinas sem necesidade alguma; vistoque em Portugal á bastantes igualmente boas. Tem alem diso outros defeitos, comuns neste Reino: entre eles a prezunsam, de dizer sempre sentensas: o que nam nega o Garcez, nega porem, que Camoens seja oscuro; e afirma, que os seus versos sam canoros. E eu confeso a V. P. que acho estes dois defeitos expresamente no-Camoens: e que reconheso, que um douto Francez, que o-censura nisto, tem muita razam. Os versos de Camoens sam languidos, e pola maior parte sem grasa. Escreve comumente muitas vogais seguidas: e como os Portuguezes costumam na pronuncia, comer as ditas vogais, umas com outras; é necesario, para nam errar o verso, tomar frequentes respirasoens, e fazer muitas pauzas no-meio do-verso: o que faz perder a armonia. A prova disto é ler o Camoens: pois a cada paso se-incontram os exemplos: que se eu quizese citar, serîa necesario fazer um livro. Mas deixando outros muitos, observe V. P. estes, no-principio do-primeiro Canto.
Quem diser que estes versos, e outros que podia apontar, sam armoniozos, e enchem bem a orelha; é necesario que tenha orelhas mui compridas. Sam poucos os versos de Camoens, que nam tenham algum defeito de disonancia. A oscuridade ninguem lha-pode negar, quando queira examinar, as suas compozisoens. Nace em primeiro lugar, de uzar de palavras Latinas aportuguezadas, sem necesidade alguma: e isto nam uma ou outra vez, o que se-podia perdoar, e podia enriquecer a lingua, multiplicando os sinonimos da-mesma palavra: mas frequentisimamente, com afetasam manifesta. Nace em segundo lugar, de introduzir palavras, e frazes, que nada significam; o que é mais frequente na Luziada: porque no-Lirico explica-se naturalmente. v.g. Estas palavras: som sublimado: furia grande, e sonoroza: esperar jugo, e vituperio: tenro gesto: Mouro frio: suprema eternidade: e outras que se-acham na-invocasam que faz, a El-Rei D. Sebastiam; sam palavras que nada significam, e cauzam confuzam em quem le. Nace tambem, de certas aluzoens forsadas, e trazidas de longe, que frequentemente uza. A 6.a e 7.a Estancia, em que comesa o comprimento ao dito Rei, é tam oscura, que nam se-pode intender sem comentario: e o mesmo podia dizer, de quazi toda a invocasam. Isto acha-se frequentemente, em todo o poema: o que unido com a negligencia do-verso, faz, como dise um omem douto, que cada Estancia seja um misterio: o que é um consideravel defeito, em um poema Epico: cuja disam deve ser, aindaque nobre, natural, clara, inteligivel. Onde quando o Garcez quer defender, a clareza de Camoens; mostra que nam está despido, de toda a paixam: e vem a cair no-mesmo defeito, que ele condena no-Faria. Estes defeitos sam mui consideraveis, neste Poeta; e mostram o pouco dicernimento que tinha, das-coizas: e quem os-nam-distingue, nam intende que-coiza é Poezia. Contudo, tirando estes defeitos, nam deixa de ser um, dos-melhores Poetas Portuguezes.
Quanto ao poema de Filis, e Demofonte, obra do-Chagas, de que asima falei; é ele tal, que eu nam sei como lhe-chame. Pola figura, parece Epopeia: mas examinado dentro, nam é mais que uma istoria de amor, mui afetada. Reconheso, que o autor o-deixou imperfeito: como se-ve do-Canto VIII. que nam tem mais que 5. Estancias; e do-X. que tem 15. mas o corpo da-obra mostra mui bem, o que o Poeta queria. O titulo é este: Filis, ou Poema Tragico de Filis, e Demofonte. e nisto se-descobre, que o Chagas nam sabia, que coiza era poema Epico, nem como dele se-faziam os titulos. A asám do-poema é, a navegasam de Demofonte, que se-retirava do-sitio de Troia: e o Poeta perde logo de vista este ponto, e ocupa o poema com amores. No-primeiro e segundo Canto, em que descreve a guerra de Troia, e o seu naufragio; imita servilmente Virgilio, quazi palavra por-palavra. Somente o-nam-imita, nas comparasoens: pois sam tam frequentes e enfadonhas, as que introduz; que nam se-podem ler sem fastio. O III. Canto é uma disputa escolastica, sobre o amor; com mil conceitos improprios, e de rapaz. No-IV. em uma casada ajusta-se o cazamento: e copeia fielmente Virgilio, na cova onde se-retiráram os amantes &c. O V. Canto consiste na descrisam do-lago Averno, caza de Plutam, e outras arengas mais; em que entra um sacrificio, que nam se-sabe o que quer dizer: e finalmente Demofonte mata Ardenio. As duas descrisoens do-Palacio de Plutam, e da-jornada que este fez; sam as coizas mais ridiculas, que eu ainda vi. O Canto VI. é uma istoria tragica, dos-amores de uma pastora; que nada tem que fazer, com a asám do-poema. Mas a melhor istoria está no-Canto VII. em que o Poeta reprezenta o seu eroe mui descansado, polo espaso de dez mezes; sem que posamos saber, o que fez nese tempo. Despois, quando ele ja nam cuidava mais em Atenas, o-chama seu pai. custa-lhe a persuadir a Filis, que o deixe partir: mas finalmente parte. O VIII. Canto nam diz nada. O IX. é uma embrulhada terrível. Comesa com as saudades de Filis: esta vai consultar a Sibila Delfica, sobre os sucesos de Demofonte. Descreve a Sibila e a sua caza mui mal. Poem na boca da-Sibila um epizodio, da-Geografia de toda a terra; em que mistura umas coizas, com outras, e comete alguns erros. Mostra-lhe a Sibila o seu Demofonte, adorando a Florisbe. Filis raivoza rompe o espelho magico; e sucede um espalhafato orrendo. Filis fica esa noite no-campo, (nam se-falando mais no-que sucedeo à Delfia) exclamando contra as ingratidoens de Demofonte: e mata-se com a sua propria mam. E aqui descreve puerilmente, os efeitos da-sua morte. No-Canto X. torna Demofonte para Tracia, e sabendo a morte de Filis, que se-convertèra em arvore, quer abrasála: e sucede milagre, que no-mesmo instante produzio a dita, folhas, frutos, e aromas: os ramos tangèram, e balháram as flores.
Esta em duas palavras é a serie, e analize do-poema: na qual verá V. P. que este Poeta nem menos sabia, o que significava poema Epico. Esta sua compozisam, nam tem unidade de asám: porque toda a asám se-acaba em poucos dias, com o cazamento: a viagem ultima, foi um divertimento. Nam tem fabula: porque se-ve claramente, que é uma istoria, sem enredo, nem solusam. A descrisam da-Terra que faz a Delfia, nam tem parentesco algum, com a asám. isto é uma embrulhada, que eu nam vi tal. A transformasam de Filis em arvore, e o milagre das-flores; é outra parvoice, que ali nam tinha lugar. Só faltou ao Poeta dizer, que Demofonte se-enforcára na dita arvore: e acabava a tragedia. Tambem lhe-falta a unidade de tempo &c. Quanto ao modo de dizer; em quazi todas as partes se-serve de palavras, que nada significam: as frazes sam afetadas: os conceitos sam pueris: e quando diz alguma coiza mais estudada, ve-se uma afetasam condenavel em tudo. Ignora totalmente o decoro, e carater dos-sugeitos: o que se-ve, quando introduz no-Canto III. um guerreiro como Demofonte, disputando uma questam amatoria; como faria um academico, a quem encarregasem este asumto: ou tambem quando deixa uma Rainha como Filis, uma noite inteira, no-meio de um bosque medonho, sem companhia; o que mostra, a suma inverosimilidade: alem de muitas coizas, que podia notar. Onde torno a concluir, que de poema Epico, o Chagas nam sabia nada: e que pode V. P. aconselhar ao noso * * * que nam tenha dificuldade, de emprestar o tal poema; porque se o-perder, perde pouco.
Outro Portuguez chamado Francisco Botelho de Morais, e Vasconcelos, publicou dois poemas: um intitulado El Nuevo Mundo: cujo argumento é, o triumfo de Osiris, na corte de Atlantide: e este nam pude ver. O que porem vi averá anos, foi o outro poema intitulado, El Alfonso: em que com XII. Cantos descreve, a primeira conquista de Portugal, por-Afonso I. Polo que agora me-lembro, cuido que nam se-pode chamar Epopeia: mas uma simplez îstoria da-dita guerra, alterada com algumas fabulas: desorteque nam tem artificio algum, de Epopeia. Este Poeta quiz imitar em tudo, Lucano: e nam o-podendo imitar naquilo, que tem melhor; somente o-imitou, nas enfadonhas digresoens, e exclamasoens, que às vezes introduz: sendo uma destas tam grande, que ocupa um inteiro Canto. Tambem o-quiz imitar na afetasam, de mostrar-se Astronomo, e Fizico: pois nos-ultimos cantos, faz sem necesidade vários discursos escolasticos, nesta materia: a qual, polo que mostra, intendia mui pouco. As fabulas sam afetadas, e com bastantes inverosimilidades: entre estas ponho a da-Deuza que vinha polo ar, acavalo em um grande leam &c. os versos sam duros: e em todo o poema reina, uma oscuridade insofrivel: o que creio provèm tambem, de escrever em Espanhol. Nunca pude intender, por-que razam um Portuguez deixa a sua lingua, para escrever na Espanhola, que pola maior parte nam alcansa bem. Mas esta afetasam é mui vulgar, em muitos destes seus nacionais, que querem parecer eruditos. Isto é o que agora me-ocorre, sobre este Poema: o que digo, porque nam sei se V.P. tem noticia dele, por-ser impreso fóra de Portugal. Dos-outros Poetas nam digo nada: porque sendo uzuais, do-que tenho dito, pode V.P. formar conceito, das-suas obras.
Os Romances, a que os Portuguezes chamam Novelas, sam verdadeiras Epopeias em proza; e devem ser feitos damesma sorte. Contudo acham-se poucos, que meresam este titulo: pois os Portuguezes, e Espanhoes que se-acham, nada mais sam, que istorias de amor mui inverosimeis. O Telemaco de Monsieur de Salignac é uma Epopeia das-mais bem feitas, e escritas, que tem aparecido.
Do-poema Dramatico direi pouca coiza, vistoque os Portuguezes, nam se-aplicam a ele; por-se-persuadirem que o Drama, nam tem tanta grasa em Portuguez, como em Espanhol. Mas este prejuizo comum, nam tem sombra de verosimilidade. Reconheso, que toda a Poezia soa melhor, na lingua Italiana, que noutra alguma: o que confesam os eruditos das-outras Nasoens, que chegáram a posuir bem, a lingua Italiana: e ainda alguns Francezes doutos: nam obstanteque outros queiram, que a Franceza seja propria, para a Poezia. (no-que, com sua licensa, intendo que dizem muito mal: porque nam á coiza mais insulsa, que o verso duodecasilabo, de que uzam comumente os Francezes, e o modo de rimar deles. no-Lirico, e algumas cantigas, sam mais toleraveis. Mas geralmente falando, a lingua Franceza é pouco propria, para a Poezia: porque nam tem nervo, nem armonia) Mas o certo é que, despois da-Italiana, as duas melhores linguas sam, a Portugueza, e Espanhola. E eu acrecento mais, que a Portugueza parece-me mais propria, para alguns generos de Poezia, doque a Espanhola: porque é sezuda e grave, e nam tem aquele falso brilhante, que muitos loucamente admiram, na Espanhola. Se tiramos as terminasoens em aõ, ou am; e aons, e oens &c. nam sei que melhoria tenha a Espanhola, sobre a Portugueza; para dizerem, que aquela é propria para o Drama, e esta nam. Muito mais grave que a Espanhola, é a Latina; e contudo ninguem lhe-nega, o poder servir no-Drama. Onde, os que por-este principio deixam de compor Dramas, em Portuguez; vivem mui preocupados, e nunca consideráram bem a materia. Mas a razam ultima é, porque a estes modernos nam agrada, o modo de compor, a Comedia antiga: e só se deleitam, com esta moderna: (de que parece ter sido inventor, Lope de Vega) e como esta é composta de mil sutilezas, e coizas semelhantes; por-iso gostam das-Espanholas, que abundam disto. Mas como este estilo é muito mao, e se-deve praticar outra coiza diferente; daqui vem, que devem reconhecer, que a lingua Portugueza é tam capaz para o Drama, como a Espanhola.
O Drama, ou seja Tragedia, ou Comedia, nam é mais que uma instrusam, que se-dá ao Povo, em alguma materia. A Tragedia trata, de algum cazo extraordinario, sucedido a pesoa grande. Com isto se-modéra, a grande ambisam dos-Omens, ensinando-lhe a conhecer, que as condisoens desta vida estam sugeitas, a todas as infelicidades. Alguns defeitos se-tem introduzido, na-Tragedia moderna: pois devendo ela conter somente, coizas eroicas; introduzîram muitos, imitando aos Espanhoes, eroes amantes. E ainda os nosos Italianos, para agradarem ao Povo, que tem secreta inclinasam, para ouvir estes enredos amantes; o-praticam: aindaque os omens inteligentes desprezem este estilo, que só é proprio da-Comedia. Nam é crivel, que arte particular se-requer na Tragedia, para ser boa. Nela se-á-de ver, um enredo bem ideiado: um argumento digno e nobre: uma elevasam de pensamentos grande: uma particular arte de excitar as paixoens, com pinturas exatas, e discursos proprios das-pesoas que falam: finalmente tudo á-de ser animado, grande, singular, sem ser afetado: O que na verdade é mui dificultozo: e ainda muitos omens grandes, em algumas destas qualidades; nam conseguîram, unilas todas.
A Comedia é uma pintura, do-que sucede na vida civil e domestica. Ela ensina mil coizas aos ouvintes, mostrando de nam-querer ensinar, mas somente divertir: porem nese mesmo divertimento, está o ensino: porque ela pinta desorte, os defeitos dos-Omens; que quem os-ve, ou ouve, nam pode menos, que envergonhar-se deles, e condenálos. Este é o segredo da-Comedia, saber imitar bem a natureza; porem em modo que o-vejamos, sem advertir-mos o artificio. Convem pois com a Tragedia, em tudo: só diversifica no-argumento. E asimcomo na Tragedia nam basta, enredar bem um suceso; mas é necesario observar, a verosimilidade; desfazer naturalmente, o nó do-argumento, observando escrupulozamente, os carateres das-pesoas; asim tambem a Comedia: na qual deve reinar em tudo a naturalidade, mas judiciozamente disposta: porque daqui rezulta, aquela particular galantaria e sal, que os omens de juizo acham, nas boas Comedias. quando entra nelas afetasam, acabou-se a grasa.
Por-este principio digo a V. P. que nunca achei Comedia Espanhola, que se-pudese sofrer. Raras vezes o Espanhol imita a natureza: reina a afetasam, e as sutilezas em tudo. O mesmo bobo, que deveria reprezentar, a figura de um louco; fala com tanta descrisam, como o omem mais eloquente, e judiciozo: as molheres todas sam doutoras: todos dizem grasas, e agudezas: e asim nam se-observa, a verosimilidade dos-carateres. Querendo afetar tanta grasa, sam os omens mais insulsos, que ainda vi. Porque a grasa deixa de o-ser, todas as vezes que aparece o artificio, e nam nace das-entranhas da-materia. A nosa Comedia Italiana é mais natural: e aindaque alguns tenham introduzido, outro estilo florido, os omens mais doutos o-tem desprezado. A nosa lingua é propria para galantaria, e dosura da-Comedia. O ingenho do-Poeta prepára a materia, para fazer rir: e a galantaria da-expresam, ajuda esa mesma materia, para agradar mais: o que se-acha frequentemente, na nosa lingua. Na verdade é dom da-natureza, saber inventar materias agradaveis, e expolas em modo que agradem: mas alem deste ingenho requer-se juizo, para saber distribuir as galantarias, onde devem intrar. Parece facil, o argumento da-Comedia: contudo é dificultoza a execusam: e sendo tantos os que compoem, sam poucos os que o-fazem com felicidade. A maior parte daquelas Comedias, que em Cidades inteiras tem tido, grandes aplauzos; examinadas de perto, merecem compaixam. Os Poetas ajuntáram muitas ideias ridiculas, com que pudesem divertir os ignorantes, e adular as suas inclinasoens: e como estes sam os mais, daqui nace, que se-dam aplauzos a coizas, que os-nam-merecem. O omem de juizo vai à Comedia, com outros olhos, que nam o ignorante, e rude. Este pára na superficie do-que ouve: aquele penetra com a considerasam, a intensam do-Poeta: e quando nam acha o que deve, em vez de rir, vem-lhe vontade de chorar.
Alem do-que asima disemos, acha-se outro defeito, no-material das-obras de teatro, quero dizer, na sua reprezentasam: vem aser, quererem unir em tudo a reprezentasam, com o original. Alguns, para inspirarem orror, reprezentam nas Tragedias, a morte de um omem, e outras coizas improprias. Era melhor, que o-matasem detraz dos-bastidores, para poupar esta descortezia aos ouvintes: bastando que expuzesem, o corpo morto. Vi algumas vezes nas Comedias, intrar omens acavalo em verdadeiros cavalos: vi carros triunfais tirados por-quatro cavalos brancos; com perigo de darem quatro coices, e deitarem abaixo os bastidores; ou fazerem alguma porcaria no-teatro: vi arrebentarem bombas, e foguetes: vi dar fogo a uma Cidade, e uma Armada: e muitas coizas semelhantes. Mas isto é uma impropriedade, indigna de omens prudentes. A Comedia é imitasam do-natural, e todos sabem isto: e asim nam se-devem introduzir coizas, que desmintam o que é Comedia. Muitas vezes ve-se voar um omem, na Comedia: outras vezes um diabrete vivo dece do-teto, prezo por-uma corda: parecem-me os bonifrates do-Prezepio, que tem um arame na cabesa. Tambem aquilo de introduzir um Rei, e Rainha em uma camera, rodiados de soldados armados; ou aquilo de dar uma batalha sobre o teatro, nada tem de verosimel: Porque nem o Rei, quando está falando com a Rainha, tem as guardas de corpus na mesma sala: nem uma batalha se-pode dar, em quatro palmos de terra. Um bom Poeta dará melhor ideia de uma Armada, ou batalha, com uma famoza descrisam; e poderá com ela inspirar, sentimentos mais grandes, e nobres; doque com aqueles acidentes exteriores, e improprios daquele lugar. Mas o Povo vai à Comedia, para a-ver, e nam para ouvir: e só fica satisfeito, com estas coizas. Nam asim os omens que podem julgar, do-merecimento das-obras: estes nam podem deixar, de condenar isto; e sugerir ao Poeta, que disponha melhor as suas figuras. Isto é o que agora me-ocorre. Acrecento somente, que as Comedias de Camoens nam me-agradam; aindaque uma delas parece mais sofrivel. Outras que vi modernas em Portuguez, tinham mais artificio: e na verdade eram menos más.
Tendo pois apontado a V. P. os defeitos mais comuns dos-seus Poetas; segue-se examinar, se estas reflexoens podem ser utis, e como o-podem ser aos rapazes. E quanto à utilidade, é sem duvida, que a noticia das-regras é necesaria, para intender os autores: e a dos-versos, para intender a diferente armonia das-suas obras: especialmente na lingua Latina, porque a beleza dos-versos consiste, na sua cadencia. Alem diso, a leitura dos-bons Poetas, eleva o intendimento para perceber, e ajuizar nobremente; e ajuda muito a Eloquencia: e como nam se-posam intender os Poetas, sem saber as regras; é necesario ter, alguma noticia delas.
Quanto ao modo, ja dise em outra carta a V. P. que é loucura obrigar os rapazes, a fazerem versos: e misturar os versos, com as outras compozisoens; como se fose coiza necesaria, para intender o Latim: os que fazem isto, nam intendem a materia: parece-me que o modo mais natural é este. A Poezia deve-se ensinar, em uma escola separada, em que nam se-trate outra coiza. Examinando primeiro o rapaz, se tinha ou nam genio para a Poezia; lhe-proguntaria expresamente, se a-queria seguir: e quando ele me-disèse, que sim; e eu com a experiencia vise, que tinha propensam para iso; lhe-daria uma arte Poetica Portugueza, feita por-este modo. Na primeira parte devem-se conter, as regras gerais da-Poezia, e a diversa noticia de poemas: vistoque as regras sam as mesmas, em todas as linguas: e isto istoricamente, porem ornado com algum exemplo. Na segunda parte, deve-se primeiro tratar, das-diferentes compozisoens Portuguezas, e algumas particulares do-Reino: e aqui explicar, como se-fórma a Decima, Soneto &c. apontando um exemplo, em cada coiza: notando especialmente, a cadencia dos-versos, e estilo da-fraze poetica. Isto nam parece coiza de momento, aos que nam sam da-profisam: mas é de infinito preso, aos que entram em semelhante estudo, e o-profundam. Acham-se mil Poetas, que tem veia; mas porque lhe-falta a doutrina, pecam contra as leis da-arte, e nam brilham.
Neste tempo deve-se propor-lhe uma Decima, ou Soneto escrito &c. que ele nunca vise; e obrigálo a que em escrito, fasa a analize da-dita obra, se é boa, ou má; que defeitos, ou belezas encerra. Este estilo de mandar pór a lisam por-escrito, serve infinitamente, para a inteligencia das-coizas que estudam; e para a memoria: e repetido varias vezes, quando ja tem noticia das-regras, poupa infinitas explicasoens, e faz-se com toda a felicidade: e tem o rapaz tempo de considerar, e emendar.
Desta primeira parte, deve pasar à segunda, tambem em Portuguez; em que se-trate, das-particulares compozisoens Latinas, e sua versificasam. Aqui deve-se repetir o mesmo, que disemos da-lingua Portugueza. Notará especialmente, as diferentes fórmas de versos, de que se-formam as diferentes compozisoens Latinas, como a Elegia, Epigrama, Ode, Idilio &c. Despois a cadencia do-verso, tanto a simplez, que é comua a todo o poema, como as particulares: as suspensoens, elizoens &c. e as que sam proprias, de varias paixoens do-animo. Despois o estilo e fraze poetica; que é aquele particular idiotismo, de que se-servem os Poetas: que se-compoem de expresoens elevadas, com que se-vareia muito o discurso; expondo as coizas grandes, com muita nobreza; e as pequenas, com muita galantaria. Finalmente aqueles epitetos proprios, tam belos no-verso, como afetados na proza: e mil outras coizas, que sam particulares do-estilo poetico, e que constituem a sua beleza. Estas coizas a um rapaz, que lè um poema, somente para intender a Latinidade; nam sam necesarias: mas a um que quer compor, sam sumamente importantes: e sem elas fará versos, mas nam-será Poeta.
A Compozisam serîa a ultima coiza, que eu mandáse fazer aos rapazes: porque pede uma memoria, cheia de muitas especies: o que nam pode ter um rapaz. Deve-se comesar, polas compozisoens Portuguezas: dando asumtos facis, e nam mandando compor, senam obras breves; para terem ocaziam, de as-emendar. E nesta ocaziam pode o mestre explicar-lhe melhor, quais sam as expresoens proprias, para expremir o que quer: e dar-lhe por-este meio, uma boa noticia da-sua lingua. Com o tempo, e observando a capacidade do-estudante, pode ir aumentando, o numero das-compozisoens: sendo sempre melhor, mandar compor uma obra boa, a um certo asumto, doque muitas más, a diferentes. Feito isto, nam é crivel, quanto se-facilita a compozisam no-Latim. Será pois esta a ultima parte da-compozisam: tendo a mesma advertencia, de comesar por-Disticos, Epigramas &c. asumtos brevisimos: pois nam enfastiam os rapazes; antes com eles se-dezembarasam muito, para as outras obras. E aqui, quando o mestre lhe-ensina, a compozisam Latina; lhe-deve ensinar tambem, o modo de pronunciar o Latim. Certo é, que a Lingua Latina, despois da-Grega, excedeo muito as modernas todas, na armonia das-suas expresoens: a qual coiza como nós nam sabemos, por-iso nam achamos nela a beleza, que achavam os Antigos. Contudo devemos procurar de imitar, a boa pronuncia: o que principalmente é necesario, no-verso. Quanto aos exemplos, devem eles ser poucos, e bons: e deve o mestre fugir de Regia Parnasi, e outros livros destes, que estragam o bom gosto da-Eloquencia, e Poezia: porque na leitura dos-melhores autores, aprende-se melhor. Asimque, nam achando isto feito, pode o mestre nos-mesmos autores mostrar os lugares, que sam necesarios: e encomendar muito aos rapazes, que os-leiam, e decorem: pois só asim se-faz algum progreso, na Poezia. Desta sorte pode ser, que ouvesem mais Poetas bons, doque nam á; entre tantos mil versejadores, que V.P. está ouvindo todos os dias.
A Poezia nam é coiza necesaria, na Republica: é faculdade arbitraria, e de divertimento. E asim nam avendo necesidade de fazer versos, ou fazèlos bem, ou nam fazèlos: por-nam se-expor às rizadas, dos-inteligentes. Se eu vise que o estudante, nam tinha inclinasam à compozisam, explicaria brevemente, as leis poeticas; que é uma erudisam separada da-compozisam, e que todos podem aprender; ao menos para intenderem as obras: e o-deixaria empregar, no-que lhe-parecèse. Desta sorte, livres os estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em coizas utis, e dar outro lustre à Republica. Sei, que nem todos os mestres sam capazes, de escreverem semelhante arte: mas se alguem a-fizese, e se-imprimise; podia ajudar muito a todos. Certo amigo meu, omem mui douto, me-dise um dia destes, que um seu conhecido, avia pouco tempo tinha acabado um manuscrito, polo estilo que dizemos. Eu ainda o-nam-vi: mas formo tal conceito de quem mo-dise, que julgo nam será mao: se o-puder conseguir, nam deixarei de avizar a V. P.
Finalmente com isto acabo esta carta, que ja me-parece longa: aindaque se olho para o que devia dizer, é curta. Tenho dito nela a V.P. o que me-ocorreo sobre uma materia, que averá bastantes anos que deixei: e conseguentemente nam sei se terei satisfeito, a sua expetasam, sobre a Poezia Portugueza: da-qual, como ja protestei, tenho pouca noticia. Mas V.P. que me-obriga a falar, em todas as materias; deve estar preparado, para ouvir coizas boas, mediocres, e algumas mal ditas. E asim agradesa-me somente a boa vontade, e promtidam com que obedeso, ao que me-manda. Deus Guarde &c.