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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I) cover

Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Chapter 33: II.
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About This Book

A series of erudite letters lays out a comprehensive pedagogical reform adapted to Portuguese needs, arguing for a practical, accelerated curriculum. It critiques prevailing Latin and orthographic instruction, recommends a simplified Latin grammar that can be grasped quickly, advocates revision of existing vocabularies, and proposes a standardized Portuguese orthography and grammar for early instruction. Addressed to religious educators and university figures, the correspondence emphasizes usefulness to the republic and church, privacy of correspondence, and practical measures to improve youth education.

As armas, e os varoens asinalados,
Que da-Ocidental praia Lusitana;
Por-mares nunca de antes navegados
Pasáram ainda alem da-Taprobana:
Que em perigos e guerras esforsados,
Mais doque pode a natureza umana;
Entre gente remota edificáram
Novo Reino, que tanto sublimáram:

II.

E tambem as memorias gloriozas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, e o Imperio: e as terras viciozas
D’Africa, e d’Azia andáram devastando:
E aqueles que por-obras valorozas
Se-vam da-lei da-Morte libertando;
Cantando espalharei, por-toda a parte;
Se a tanto me-ajudar o ingenho, e arte.

Tudo o que se-compreende nestas duas Estancias, é propozisam: e tudo isto ele promete cantar. Mas aindaque na propozisam de um poema se-posam acrecentar, alem da-asám, algumas coizas; estas devem ficar fóra da-fabula, e nam deve o Poeta cantálas; e somente nos-epizodios do-dito poema, é que se-toca alguma delas. v. g. O novo Reino que se-fundou entre gente remota &c. é acrecentamento, que rezulta da-asám; e somente se-canta por-epizodio. O Camoens porem inclue tudo na propozisam, e asim o-executa: desorteque considerando os que inculca, na segunda Estancia; bem se-ve que entram, nam por-acrecentamento, mas direitamente. Contudo os Reis de Portugal, de que trata no-Canto III., e IV., nada tem que fazer, com a principal asám, e entram por-epizodio. Os que por-obras valorozas se-vam da-lei da-morte libertando, que sam todos os outros Portuguezes ilustres, tanto antigos, como modernos; tambem estam fóra da-principal asám, que é a navegasam do-Gama. Com efeito o Camoens lá os-introduz por-epizodio, no-principio do-Canto VIII. mas nam obstante iso, na propozisam do-poema mete-os direitamente, com os outros. Os que foram governar a India, tambem entram por-epizodio, no-principio do-Canto X. mas sem reparar niso, ele os-propoem com os outros, no-5. e 6. verso da-2. Estancia. Asim na primeira Oitava confunde, os que foram com o Gama conquistar a India, com os que ao despois foram governála: e de uns e outros diz, que edificáram novo Reino. Este defeito é de toda a considerasam, nesta materia. Garcez os-reconhece em Camoens: mas querendo desculpar nele, o ter proposto muitos varoens, com o exemplo de Caio Valerio Flaco; é mostrar que ignora, o pouco conceito que os eruditos tem, das-obras de Flaco; nas-quais acham mil defeitos contra a arte; e nenhuma grasa, ou beleza: desorteque os seus erros, nam podem servir de desculpa, aos de Camoens.

Errou alem diso o Camoens, em nam sustentar sempre o carater, e grandeza do-seu eroe: que abaixa sensivelmente no-Canto VIII. do-meio para diante. Errou, nas enfadonhas digresoens que introduz, por-toda a parte. Errou, em acabar quazi todos os Cantos, com esclamasoens mui fóra de propozito, e muito contra o estilo da-Epopeia. Tambem errou consideravelmente, introduzindo no-seu poema, as Divindades dos-Etnicos: nam alegorizando a coizas santas, como puerilmente pertende o Faria: nam aos Planetas personalizados, como benignamente interpreta o Garcez; o qual fingio uma nova constelasam para Baco, que nam se-intende o que é: mas em sentido proprio, damesma sorte que faláram os-idolatras Romanos; pois mete Venus, e Baco imprudentemente por-toda a parte. Isto é tam claro no-seu poema, que me-admiro muito, que aja quem o-queira desculpar, nesta materia. Se nam quizer-mos dizer, que se-servio de palavras sem significado; que serîa outro erro.

Mas deixando muitos outros erros, em materia do-Epico, que se-podiam apontar; tem outros nam menos censuraveis, em todo o genero de Poezia. Muitos versos errados, por-exceso de silabas: outros por-falsidade das-rimas, que nam sam consoantes &c. muitas palavras Latinas sem necesidade alguma; vistoque em Portugal á bastantes igualmente boas. Tem alem diso outros defeitos, comuns neste Reino: entre eles a prezunsam, de dizer sempre sentensas: o que nam nega o Garcez, nega porem, que Camoens seja oscuro; e afirma, que os seus versos sam canoros. E eu confeso a V. P. que acho estes dois defeitos expresamente no-Camoens: e que reconheso, que um douto Francez, que o-censura nisto, tem muita razam. Os versos de Camoens sam languidos, e pola maior parte sem grasa. Escreve comumente muitas vogais seguidas: e como os Portuguezes costumam na pronuncia, comer as ditas vogais, umas com outras; é necesario, para nam errar o verso, tomar frequentes respirasoens, e fazer muitas pauzas no-meio do-verso: o que faz perder a armonia. A prova disto é ler o Camoens: pois a cada paso se-incontram os exemplos: que se eu quizese citar, serîa necesario fazer um livro. Mas deixando outros muitos, observe V. P. estes, no-principio do-primeiro Canto.

O quarto, e quinto Afonso, e o terceiro.
Em vós os olhos tem o Mouro frio.
Dai-me agora um som alto, e sublimado.
E costumai-vos ja a ser invocado.
Com uma coroa e cetro rutilante.
Guerra Roma tanto se-afamáram.
Onde o dia é comprido, e onde é breve.
Da-antiga tam amada sua Romana.
E outro polas onras que pertende.
Deitando paratraz medonho, e irado.
Estrangeiros na terra, lei, e Nasam.
A Natura sem lei, e sem rasam.

Quem diser que estes versos, e outros que podia apontar, sam armoniozos, e enchem bem a orelha; é necesario que tenha orelhas mui compridas. Sam poucos os versos de Camoens, que nam tenham algum defeito de disonancia. A oscuridade ninguem lha-pode negar, quando queira examinar, as suas compozisoens. Nace em primeiro lugar, de uzar de palavras Latinas aportuguezadas, sem necesidade alguma: e isto nam uma ou outra vez, o que se-podia perdoar, e podia enriquecer a lingua, multiplicando os sinonimos da-mesma palavra: mas frequentisimamente, com afetasam manifesta. Nace em segundo lugar, de introduzir palavras, e frazes, que nada significam; o que é mais frequente na Luziada: porque no-Lirico explica-se naturalmente. v.g. Estas palavras: som sublimado: furia grande, e sonoroza: esperar jugo, e vituperio: tenro gesto: Mouro frio: suprema eternidade: e outras que se-acham na-invocasam que faz, a El-Rei D. Sebastiam; sam palavras que nada significam, e cauzam confuzam em quem le. Nace tambem, de certas aluzoens forsadas, e trazidas de longe, que frequentemente uza. A 6.a e 7.a Estancia, em que comesa o comprimento ao dito Rei, é tam oscura, que nam se-pode intender sem comentario: e o mesmo podia dizer, de quazi toda a invocasam. Isto acha-se frequentemente, em todo o poema: o que unido com a negligencia do-verso, faz, como dise um omem douto, que cada Estancia seja um misterio: o que é um consideravel defeito, em um poema Epico: cuja disam deve ser, aindaque nobre, natural, clara, inteligivel. Onde quando o Garcez quer defender, a clareza de Camoens; mostra que nam está despido, de toda a paixam: e vem a cair no-mesmo defeito, que ele condena no-Faria. Estes defeitos sam mui consideraveis, neste Poeta; e mostram o pouco dicernimento que tinha, das-coizas: e quem os-nam-distingue, nam intende que-coiza é Poezia. Contudo, tirando estes defeitos, nam deixa de ser um, dos-melhores Poetas Portuguezes.

Quanto ao poema de Filis, e Demofonte, obra do-Chagas, de que asima falei; é ele tal, que eu nam sei como lhe-chame. Pola figura, parece Epopeia: mas examinado dentro, nam é mais que uma istoria de amor, mui afetada. Reconheso, que o autor o-deixou imperfeito: como se-ve do-Canto VIII. que nam tem mais que 5. Estancias; e do-X. que tem 15. mas o corpo da-obra mostra mui bem, o que o Poeta queria. O titulo é este: Filis, ou Poema Tragico de Filis, e Demofonte. e nisto se-descobre, que o Chagas nam sabia, que coiza era poema Epico, nem como dele se-faziam os titulos. A asám do-poema é, a navegasam de Demofonte, que se-retirava do-sitio de Troia: e o Poeta perde logo de vista este ponto, e ocupa o poema com amores. No-primeiro e segundo Canto, em que descreve a guerra de Troia, e o seu naufragio; imita servilmente Virgilio, quazi palavra por-palavra. Somente o-nam-imita, nas comparasoens: pois sam tam frequentes e enfadonhas, as que introduz; que nam se-podem ler sem fastio. O III. Canto é uma disputa escolastica, sobre o amor; com mil conceitos improprios, e de rapaz. No-IV. em uma casada ajusta-se o cazamento: e copeia fielmente Virgilio, na cova onde se-retiráram os amantes &c. O V. Canto consiste na descrisam do-lago Averno, caza de Plutam, e outras arengas mais; em que entra um sacrificio, que nam se-sabe o que quer dizer: e finalmente Demofonte mata Ardenio. As duas descrisoens do-Palacio de Plutam, e da-jornada que este fez; sam as coizas mais ridiculas, que eu ainda vi. O Canto VI. é uma istoria tragica, dos-amores de uma pastora; que nada tem que fazer, com a asám do-poema. Mas a melhor istoria está no-Canto VII. em que o Poeta reprezenta o seu eroe mui descansado, polo espaso de dez mezes; sem que posamos saber, o que fez nese tempo. Despois, quando ele ja nam cuidava mais em Atenas, o-chama seu pai. custa-lhe a persuadir a Filis, que o deixe partir: mas finalmente parte. O VIII. Canto nam diz nada. O IX. é uma embrulhada terrível. Comesa com as saudades de Filis: esta vai consultar a Sibila Delfica, sobre os sucesos de Demofonte. Descreve a Sibila e a sua caza mui mal. Poem na boca da-Sibila um epizodio, da-Geografia de toda a terra; em que mistura umas coizas, com outras, e comete alguns erros. Mostra-lhe a Sibila o seu Demofonte, adorando a Florisbe. Filis raivoza rompe o espelho magico; e sucede um espalhafato orrendo. Filis fica esa noite no-campo, (nam se-falando mais no-que sucedeo à Delfia) exclamando contra as ingratidoens de Demofonte: e mata-se com a sua propria mam. E aqui descreve puerilmente, os efeitos da-sua morte. No-Canto X. torna Demofonte para Tracia, e sabendo a morte de Filis, que se-convertèra em arvore, quer abrasála: e sucede milagre, que no-mesmo instante produzio a dita, folhas, frutos, e aromas: os ramos tangèram, e balháram as flores.

Esta em duas palavras é a serie, e analize do-poema: na qual verá V. P. que este Poeta nem menos sabia, o que significava poema Epico. Esta sua compozisam, nam tem unidade de asám: porque toda a asám se-acaba em poucos dias, com o cazamento: a viagem ultima, foi um divertimento. Nam tem fabula: porque se-ve claramente, que é uma istoria, sem enredo, nem solusam. A descrisam da-Terra que faz a Delfia, nam tem parentesco algum, com a asám. isto é uma embrulhada, que eu nam vi tal. A transformasam de Filis em arvore, e o milagre das-flores; é outra parvoice, que ali nam tinha lugar. Só faltou ao Poeta dizer, que Demofonte se-enforcára na dita arvore: e acabava a tragedia. Tambem lhe-falta a unidade de tempo &c. Quanto ao modo de dizer; em quazi todas as partes se-serve de palavras, que nada significam: as frazes sam afetadas: os conceitos sam pueris: e quando diz alguma coiza mais estudada, ve-se uma afetasam condenavel em tudo. Ignora totalmente o decoro, e carater dos-sugeitos: o que se-ve, quando introduz no-Canto III. um guerreiro como Demofonte, disputando uma questam amatoria; como faria um academico, a quem encarregasem este asumto: ou tambem quando deixa uma Rainha como Filis, uma noite inteira, no-meio de um bosque medonho, sem companhia; o que mostra, a suma inverosimilidade: alem de muitas coizas, que podia notar. Onde torno a concluir, que de poema Epico, o Chagas nam sabia nada: e que pode V. P. aconselhar ao noso * * * que nam tenha dificuldade, de emprestar o tal poema; porque se o-perder, perde pouco.

Outro Portuguez chamado Francisco Botelho de Morais, e Vasconcelos, publicou dois poemas: um intitulado El Nuevo Mundo: cujo argumento é, o triumfo de Osiris, na corte de Atlantide: e este nam pude ver. O que porem vi averá anos, foi o outro poema intitulado, El Alfonso: em que com XII. Cantos descreve, a primeira conquista de Portugal, por-Afonso I. Polo que agora me-lembro, cuido que nam se-pode chamar Epopeia: mas uma simplez îstoria da-dita guerra, alterada com algumas fabulas: desorteque nam tem artificio algum, de Epopeia. Este Poeta quiz imitar em tudo, Lucano: e nam o-podendo imitar naquilo, que tem melhor; somente o-imitou, nas enfadonhas digresoens, e exclamasoens, que às vezes introduz: sendo uma destas tam grande, que ocupa um inteiro Canto. Tambem o-quiz imitar na afetasam, de mostrar-se Astronomo, e Fizico: pois nos-ultimos cantos, faz sem necesidade vários discursos escolasticos, nesta materia: a qual, polo que mostra, intendia mui pouco. As fabulas sam afetadas, e com bastantes inverosimilidades: entre estas ponho a da-Deuza que vinha polo ar, acavalo em um grande leam &c. os versos sam duros: e em todo o poema reina, uma oscuridade insofrivel: o que creio provèm tambem, de escrever em Espanhol. Nunca pude intender, por-que razam um Portuguez deixa a sua lingua, para escrever na Espanhola, que pola maior parte nam alcansa bem. Mas esta afetasam é mui vulgar, em muitos destes seus nacionais, que querem parecer eruditos. Isto é o que agora me-ocorre, sobre este Poema: o que digo, porque nam sei se V.P. tem noticia dele, por-ser impreso fóra de Portugal. Dos-outros Poetas nam digo nada: porque sendo uzuais, do-que tenho dito, pode V.P. formar conceito, das-suas obras.

Os Romances, a que os Portuguezes chamam Novelas, sam verdadeiras Epopeias em proza; e devem ser feitos damesma sorte. Contudo acham-se poucos, que meresam este titulo: pois os Portuguezes, e Espanhoes que se-acham, nada mais sam, que istorias de amor mui inverosimeis. O Telemaco de Monsieur de Salignac é uma Epopeia das-mais bem feitas, e escritas, que tem aparecido.

Do-poema Dramatico direi pouca coiza, vistoque os Portuguezes, nam se-aplicam a ele; por-se-persuadirem que o Drama, nam tem tanta grasa em Portuguez, como em Espanhol. Mas este prejuizo comum, nam tem sombra de verosimilidade. Reconheso, que toda a Poezia soa melhor, na lingua Italiana, que noutra alguma: o que confesam os eruditos das-outras Nasoens, que chegáram a posuir bem, a lingua Italiana: e ainda alguns Francezes doutos: nam obstanteque outros queiram, que a Franceza seja propria, para a Poezia. (no-que, com sua licensa, intendo que dizem muito mal: porque nam á coiza mais insulsa, que o verso duodecasilabo, de que uzam comumente os Francezes, e o modo de rimar deles. no-Lirico, e algumas cantigas, sam mais toleraveis. Mas geralmente falando, a lingua Franceza é pouco propria, para a Poezia: porque nam tem nervo, nem armonia) Mas o certo é que, despois da-Italiana, as duas melhores linguas sam, a Portugueza, e Espanhola. E eu acrecento mais, que a Portugueza parece-me mais propria, para alguns generos de Poezia, doque a Espanhola: porque é sezuda e grave, e nam tem aquele falso brilhante, que muitos loucamente admiram, na Espanhola. Se tiramos as terminasoens em , ou am; e aons, e oens &c. nam sei que melhoria tenha a Espanhola, sobre a Portugueza; para dizerem, que aquela é propria para o Drama, e esta nam. Muito mais grave que a Espanhola, é a Latina; e contudo ninguem lhe-nega, o poder servir no-Drama. Onde, os que por-este principio deixam de compor Dramas, em Portuguez; vivem mui preocupados, e nunca consideráram bem a materia. Mas a razam ultima é, porque a estes modernos nam agrada, o modo de compor, a Comedia antiga: e só se deleitam, com esta moderna: (de que parece ter sido inventor, Lope de Vega) e como esta é composta de mil sutilezas, e coizas semelhantes; por-iso gostam das-Espanholas, que abundam disto. Mas como este estilo é muito mao, e se-deve praticar outra coiza diferente; daqui vem, que devem reconhecer, que a lingua Portugueza é tam capaz para o Drama, como a Espanhola.

O Drama, ou seja Tragedia, ou Comedia, nam é mais que uma instrusam, que se-dá ao Povo, em alguma materia. A Tragedia trata, de algum cazo extraordinario, sucedido a pesoa grande. Com isto se-modéra, a grande ambisam dos-Omens, ensinando-lhe a conhecer, que as condisoens desta vida estam sugeitas, a todas as infelicidades. Alguns defeitos se-tem introduzido, na-Tragedia moderna: pois devendo ela conter somente, coizas eroicas; introduzîram muitos, imitando aos Espanhoes, eroes amantes. E ainda os nosos Italianos, para agradarem ao Povo, que tem secreta inclinasam, para ouvir estes enredos amantes; o-praticam: aindaque os omens inteligentes desprezem este estilo, que só é proprio da-Comedia. Nam é crivel, que arte particular se-requer na Tragedia, para ser boa. Nela se-á-de ver, um enredo bem ideiado: um argumento digno e nobre: uma elevasam de pensamentos grande: uma particular arte de excitar as paixoens, com pinturas exatas, e discursos proprios das-pesoas que falam: finalmente tudo á-de ser animado, grande, singular, sem ser afetado: O que na verdade é mui dificultozo: e ainda muitos omens grandes, em algumas destas qualidades; nam conseguîram, unilas todas.

A Comedia é uma pintura, do-que sucede na vida civil e domestica. Ela ensina mil coizas aos ouvintes, mostrando de nam-querer ensinar, mas somente divertir: porem nese mesmo divertimento, está o ensino: porque ela pinta desorte, os defeitos dos-Omens; que quem os-ve, ou ouve, nam pode menos, que envergonhar-se deles, e condenálos. Este é o segredo da-Comedia, saber imitar bem a natureza; porem em modo que o-vejamos, sem advertir-mos o artificio. Convem pois com a Tragedia, em tudo: só diversifica no-argumento. E asimcomo na Tragedia nam basta, enredar bem um suceso; mas é necesario observar, a verosimilidade; desfazer naturalmente, o nó do-argumento, observando escrupulozamente, os carateres das-pesoas; asim tambem a Comedia: na qual deve reinar em tudo a naturalidade, mas judiciozamente disposta: porque daqui rezulta, aquela particular galantaria e sal, que os omens de juizo acham, nas boas Comedias. quando entra nelas afetasam, acabou-se a grasa.

Por-este principio digo a V. P. que nunca achei Comedia Espanhola, que se-pudese sofrer. Raras vezes o Espanhol imita a natureza: reina a afetasam, e as sutilezas em tudo. O mesmo bobo, que deveria reprezentar, a figura de um louco; fala com tanta descrisam, como o omem mais eloquente, e judiciozo: as molheres todas sam doutoras: todos dizem grasas, e agudezas: e asim nam se-observa, a verosimilidade dos-carateres. Querendo afetar tanta grasa, sam os omens mais insulsos, que ainda vi. Porque a grasa deixa de o-ser, todas as vezes que aparece o artificio, e nam nace das-entranhas da-materia. A nosa Comedia Italiana é mais natural: e aindaque alguns tenham introduzido, outro estilo florido, os omens mais doutos o-tem desprezado. A nosa lingua é propria para galantaria, e dosura da-Comedia. O ingenho do-Poeta prepára a materia, para fazer rir: e a galantaria da-expresam, ajuda esa mesma materia, para agradar mais: o que se-acha frequentemente, na nosa lingua. Na verdade é dom da-natureza, saber inventar materias agradaveis, e expolas em modo que agradem: mas alem deste ingenho requer-se juizo, para saber distribuir as galantarias, onde devem intrar. Parece facil, o argumento da-Comedia: contudo é dificultoza a execusam: e sendo tantos os que compoem, sam poucos os que o-fazem com felicidade. A maior parte daquelas Comedias, que em Cidades inteiras tem tido, grandes aplauzos; examinadas de perto, merecem compaixam. Os Poetas ajuntáram muitas ideias ridiculas, com que pudesem divertir os ignorantes, e adular as suas inclinasoens: e como estes sam os mais, daqui nace, que se-dam aplauzos a coizas, que os-nam-merecem. O omem de juizo vai à Comedia, com outros olhos, que nam o ignorante, e rude. Este pára na superficie do-que ouve: aquele penetra com a considerasam, a intensam do-Poeta: e quando nam acha o que deve, em vez de rir, vem-lhe vontade de chorar.

Alem do-que asima disemos, acha-se outro defeito, no-material das-obras de teatro, quero dizer, na sua reprezentasam: vem aser, quererem unir em tudo a reprezentasam, com o original. Alguns, para inspirarem orror, reprezentam nas Tragedias, a morte de um omem, e outras coizas improprias. Era melhor, que o-matasem detraz dos-bastidores, para poupar esta descortezia aos ouvintes: bastando que expuzesem, o corpo morto. Vi algumas vezes nas Comedias, intrar omens acavalo em verdadeiros cavalos: vi carros triunfais tirados por-quatro cavalos brancos; com perigo de darem quatro coices, e deitarem abaixo os bastidores; ou fazerem alguma porcaria no-teatro: vi arrebentarem bombas, e foguetes: vi dar fogo a uma Cidade, e uma Armada: e muitas coizas semelhantes. Mas isto é uma impropriedade, indigna de omens prudentes. A Comedia é imitasam do-natural, e todos sabem isto: e asim nam se-devem introduzir coizas, que desmintam o que é Comedia. Muitas vezes ve-se voar um omem, na Comedia: outras vezes um diabrete vivo dece do-teto, prezo por-uma corda: parecem-me os bonifrates do-Prezepio, que tem um arame na cabesa. Tambem aquilo de introduzir um Rei, e Rainha em uma camera, rodiados de soldados armados; ou aquilo de dar uma batalha sobre o teatro, nada tem de verosimel: Porque nem o Rei, quando está falando com a Rainha, tem as guardas de corpus na mesma sala: nem uma batalha se-pode dar, em quatro palmos de terra. Um bom Poeta dará melhor ideia de uma Armada, ou batalha, com uma famoza descrisam; e poderá com ela inspirar, sentimentos mais grandes, e nobres; doque com aqueles acidentes exteriores, e improprios daquele lugar. Mas o Povo vai à Comedia, para a-ver, e nam para ouvir: e só fica satisfeito, com estas coizas. Nam asim os omens que podem julgar, do-merecimento das-obras: estes nam podem deixar, de condenar isto; e sugerir ao Poeta, que disponha melhor as suas figuras. Isto é o que agora me-ocorre. Acrecento somente, que as Comedias de Camoens nam me-agradam; aindaque uma delas parece mais sofrivel. Outras que vi modernas em Portuguez, tinham mais artificio: e na verdade eram menos más.

Tendo pois apontado a V. P. os defeitos mais comuns dos-seus Poetas; segue-se examinar, se estas reflexoens podem ser utis, e como o-podem ser aos rapazes. E quanto à utilidade, é sem duvida, que a noticia das-regras é necesaria, para intender os autores: e a dos-versos, para intender a diferente armonia das-suas obras: especialmente na lingua Latina, porque a beleza dos-versos consiste, na sua cadencia. Alem diso, a leitura dos-bons Poetas, eleva o intendimento para perceber, e ajuizar nobremente; e ajuda muito a Eloquencia: e como nam se-posam intender os Poetas, sem saber as regras; é necesario ter, alguma noticia delas.

Quanto ao modo, ja dise em outra carta a V. P. que é loucura obrigar os rapazes, a fazerem versos: e misturar os versos, com as outras compozisoens; como se fose coiza necesaria, para intender o Latim: os que fazem isto, nam intendem a materia: parece-me que o modo mais natural é este. A Poezia deve-se ensinar, em uma escola separada, em que nam se-trate outra coiza. Examinando primeiro o rapaz, se tinha ou nam genio para a Poezia; lhe-proguntaria expresamente, se a-queria seguir: e quando ele me-disèse, que sim; e eu com a experiencia vise, que tinha propensam para iso; lhe-daria uma arte Poetica Portugueza, feita por-este modo. Na primeira parte devem-se conter, as regras gerais da-Poezia, e a diversa noticia de poemas: vistoque as regras sam as mesmas, em todas as linguas: e isto istoricamente, porem ornado com algum exemplo. Na segunda parte, deve-se primeiro tratar, das-diferentes compozisoens Portuguezas, e algumas particulares do-Reino: e aqui explicar, como se-fórma a Decima, Soneto &c. apontando um exemplo, em cada coiza: notando especialmente, a cadencia dos-versos, e estilo da-fraze poetica. Isto nam parece coiza de momento, aos que nam sam da-profisam: mas é de infinito preso, aos que entram em semelhante estudo, e o-profundam. Acham-se mil Poetas, que tem veia; mas porque lhe-falta a doutrina, pecam contra as leis da-arte, e nam brilham.

Neste tempo deve-se propor-lhe uma Decima, ou Soneto escrito &c. que ele nunca vise; e obrigálo a que em escrito, fasa a analize da-dita obra, se é boa, ou má; que defeitos, ou belezas encerra. Este estilo de mandar pór a lisam por-escrito, serve infinitamente, para a inteligencia das-coizas que estudam; e para a memoria: e repetido varias vezes, quando ja tem noticia das-regras, poupa infinitas explicasoens, e faz-se com toda a felicidade: e tem o rapaz tempo de considerar, e emendar.

Desta primeira parte, deve pasar à segunda, tambem em Portuguez; em que se-trate, das-particulares compozisoens Latinas, e sua versificasam. Aqui deve-se repetir o mesmo, que disemos da-lingua Portugueza. Notará especialmente, as diferentes fórmas de versos, de que se-formam as diferentes compozisoens Latinas, como a Elegia, Epigrama, Ode, Idilio &c. Despois a cadencia do-verso, tanto a simplez, que é comua a todo o poema, como as particulares: as suspensoens, elizoens &c. e as que sam proprias, de varias paixoens do-animo. Despois o estilo e fraze poetica; que é aquele particular idiotismo, de que se-servem os Poetas: que se-compoem de expresoens elevadas, com que se-vareia muito o discurso; expondo as coizas grandes, com muita nobreza; e as pequenas, com muita galantaria. Finalmente aqueles epitetos proprios, tam belos no-verso, como afetados na proza: e mil outras coizas, que sam particulares do-estilo poetico, e que constituem a sua beleza. Estas coizas a um rapaz, que lè um poema, somente para intender a Latinidade; nam sam necesarias: mas a um que quer compor, sam sumamente importantes: e sem elas fará versos, mas nam-será Poeta.

A Compozisam serîa a ultima coiza, que eu mandáse fazer aos rapazes: porque pede uma memoria, cheia de muitas especies: o que nam pode ter um rapaz. Deve-se comesar, polas compozisoens Portuguezas: dando asumtos facis, e nam mandando compor, senam obras breves; para terem ocaziam, de as-emendar. E nesta ocaziam pode o mestre explicar-lhe melhor, quais sam as expresoens proprias, para expremir o que quer: e dar-lhe por-este meio, uma boa noticia da-sua lingua. Com o tempo, e observando a capacidade do-estudante, pode ir aumentando, o numero das-compozisoens: sendo sempre melhor, mandar compor uma obra boa, a um certo asumto, doque muitas más, a diferentes. Feito isto, nam é crivel, quanto se-facilita a compozisam no-Latim. Será pois esta a ultima parte da-compozisam: tendo a mesma advertencia, de comesar por-Disticos, Epigramas &c. asumtos brevisimos: pois nam enfastiam os rapazes; antes com eles se-dezembarasam muito, para as outras obras. E aqui, quando o mestre lhe-ensina, a compozisam Latina; lhe-deve ensinar tambem, o modo de pronunciar o Latim. Certo é, que a Lingua Latina, despois da-Grega, excedeo muito as modernas todas, na armonia das-suas expresoens: a qual coiza como nós nam sabemos, por-iso nam achamos nela a beleza, que achavam os Antigos. Contudo devemos procurar de imitar, a boa pronuncia: o que principalmente é necesario, no-verso. Quanto aos exemplos, devem eles ser poucos, e bons: e deve o mestre fugir de Regia Parnasi, e outros livros destes, que estragam o bom gosto da-Eloquencia, e Poezia: porque na leitura dos-melhores autores, aprende-se melhor. Asimque, nam achando isto feito, pode o mestre nos-mesmos autores mostrar os lugares, que sam necesarios: e encomendar muito aos rapazes, que os-leiam, e decorem: pois só asim se-faz algum progreso, na Poezia. Desta sorte pode ser, que ouvesem mais Poetas bons, doque nam á; entre tantos mil versejadores, que V.P. está ouvindo todos os dias.

A Poezia nam é coiza necesaria, na Republica: é faculdade arbitraria, e de divertimento. E asim nam avendo necesidade de fazer versos, ou fazèlos bem, ou nam fazèlos: por-nam se-expor às rizadas, dos-inteligentes. Se eu vise que o estudante, nam tinha inclinasam à compozisam, explicaria brevemente, as leis poeticas; que é uma erudisam separada da-compozisam, e que todos podem aprender; ao menos para intenderem as obras: e o-deixaria empregar, no-que lhe-parecèse. Desta sorte, livres os estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em coizas utis, e dar outro lustre à Republica. Sei, que nem todos os mestres sam capazes, de escreverem semelhante arte: mas se alguem a-fizese, e se-imprimise; podia ajudar muito a todos. Certo amigo meu, omem mui douto, me-dise um dia destes, que um seu conhecido, avia pouco tempo tinha acabado um manuscrito, polo estilo que dizemos. Eu ainda o-nam-vi: mas formo tal conceito de quem mo-dise, que julgo nam será mao: se o-puder conseguir, nam deixarei de avizar a V. P.

Finalmente com isto acabo esta carta, que ja me-parece longa: aindaque se olho para o que devia dizer, é curta. Tenho dito nela a V.P. o que me-ocorreo sobre uma materia, que averá bastantes anos que deixei: e conseguentemente nam sei se terei satisfeito, a sua expetasam, sobre a Poezia Portugueza: da-qual, como ja protestei, tenho pouca noticia. Mas V.P. que me-obriga a falar, em todas as materias; deve estar preparado, para ouvir coizas boas, mediocres, e algumas mal ditas. E asim agradesa-me somente a boa vontade, e promtidam com que obedeso, ao que me-manda. Deus Guarde &c.