Tendes-vos lembrado de quaes seriam as consequencias politicas da bancarota?
Os vinculos sociaes e politicos, infelizmente já de si tão frouxos, desatar-se-hiam n'uma dissolução completa.
As paixões ruins, explorando a miseria publica, recrutariam n'ella perigosos batalhões.
A especulação tomaria a soldo a revolta.
E não tumultuariam unicamente na praça publica os pretorianos do motim; os que, sem o estimulo de uma idéa, passeiam nas ruas apenas a ambição de quem os paga, formulada em gritos indifferentes aos que recebem o estipendio, e que ámanhã gritarão com identico enthusiasmo a favor de quem na vespera cubriram de vituperios.
Tumultuaria tambem na rua a fome dos verdadeiros necessitados; dos que iriam esquecer na sedição as lagrimas da familia, ou que, movidos por um vislumbre de esperança, pediriam a uma transformação radical a cura de suas desgraças.
Não seria então um partido sério o que tomaria as redeas do poder. A logica das cousas, a mais inexoravel de todas, pol-as-hia nas mãos dos mais audaciosos, nos momentos em que a audacia é tudo, e arredaria para o lado os pacificos e illustrados cultivadores da idéa apparentamente victoriosa, mas que seria na realidade envilecida e conspurcada pela cooperação material de homens para quem servisse só de mentirosa bandeira.
E imagine-se o que seria se, livre das piozes de qualquer superioridade, que o contivesse, o açor podesse pairar á solta com a omnipotencia de sua vontade em toda a extensão do facto e da lei!
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A moral soffreria igualmente graves affrontas.
Não é quando falta o pão que mais se escutam os conselhos d'ella.
A probidade recuaria diante da astucia e da violencia.
A reserva, abandonando a prudencia, rebentaria em explosões de colera, que mais activariam as chammas do incendio.
Aonde houvera a espontaneidade ficaria a coacção.
Ao pudor da familia segredaria o demonio do ouro suas infernaes tentações.
O proprio archanjo da caridade tentaria debalde chegar-se ás camas dos enfermos nas misericordias e hospitaes, porque só alli acharia leitos nus, aonde, á força de miseria nas arcas vazias, não haveria misearias que proteger e consolar.
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A bancarota!
Já encarastes bem essa atroz eventualidade?
Não é a venda da herança por um prato de lentilhas; é a venda do patrimonio por um espectaculo de horrores.
A bancarota é o prejuizo material multiplicado pelo sobresalto do espirito; operação que, em virtude d'um phenonemo inevitavel, produz sempre um resultado superior á intervenção dos dois factores que n'ella collaboraram.
A bancarota ainda é mais do que tudo isso. Mais do que a pobreza; mais do que o perigo; mais do que o descredito; mais do que a barbaridade; mais do que a sedição.
É a deshonra do nome da patria!
E querereis, vós os que pensaes, que possuis e trabalhaes; vós todos os que andaes na vanguarda do movimento nacional, que o nome do vosso paiz fique deshonrado na historia do seculo?
Não é possivel.
E não basta que a bancarota não seja um facto inevitavel; é necessario que o não pareça.
Porque em pontos tão delicados parecer é quasi ser.
Intervinde, intervinde, pois, que ainda é tempo. Salvae o paiz pelo paiz. Saccudi o habitual torpor e trabalhae desde já n'esta empreza tão util para vós, como gloriosa para o nome portuguez.
Não se vos dá um grito de terror no meio da batalha.
É uma voz de—sentido!
XIII
Resumindo:
Fuja o paiz da ruina equilibrando, quanto possivel, o orçamento do estado.
Equilibre o orçamento augmentando as receitas.
Augmente as receitas desenvolvendo a riqueza.
Desenvolva a riqueza promovendo a confiança.
Promova a confiança tendo governos estaveis.
Tenha governos estaveis inaugurando boa politica.
Inaugure boa politica criando vontade propria.
Crie vontade propria adquirindo noções de seus direitos e de suas responsabilidades.
Adquira essas noções por meio do desenvolvimento do criterio moral, que anda tão descurado e empobrecido, devendo ser o motor de qualquer sociedade que não queira finar-se na impotencia, na ruina ou na desordem.
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Assim como a egreja nega o chão bento ao corpo dos suicidas, a posteridade atira para a valla commum da historia os nomes dos povos que morrem ás suas proprias mãos.
Haja fé na salvação do paiz e o paiz salvar-se-ha. Porém se Portugal, no correr dos annos, tiver algum dia de baixar á cova, que possa ao menos uma cruz negra dizer ás gerações futuras, no cemiterio das nações: Aqui jaz um povo que viveu como honesto e morreu como bravo.
FIM
POST-SCRIPTUM
Depois de estar na imprensa este pequeno trabalho deram-se dois factos importantes: a rendição de Metz aos Prussianos e uma crise ministerial no governo do nosso paiz.
N'esta approximação não vae a menor sombra de epigramma. É uma questão de datas. Nada mais e nada menos.
Á puridade se affirma que não se quer estabelecer relação alguma entre Moltke, ou Bismark, com os homens d'estado que estão gerindo os negocios de Portugal.
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Caiu Metz. A toupeira napoleonica parece ter minado o baluarte aonde cento e cincoenta mil soldados albergavam a honra militar, que, violentamente affrontada em Sedan, fôra depositar nas mãos de Bazaine as tradições gloriosas do exercito francez.
Pobre França! Se assim foi, não bastava que vinte annos de compressão e de immoralidade te houvessem debilitado o braço e o coração; faltava-te ainda que um marechal do imperio te arrancasse parte da armadura, a fim de que a lança inimiga te chegue melhor ao corpo nu, quando um clarão de patriotismo começava a tingir em côr de sangue as barricadas heroicas de Saint-Quintin e Chateaudun!
Pobre mãe abandonada! Não era pouco que os teus proprios filhos para ahi te deixassem rasgar o seio ás mãos da soldadesca de alem-Rheno; faltava-te ainda que um d'elles, arrancando a corôa virginal da cidade impolluta, te ferisse com ella no rosto, quando lhe sorrias de esperança, por entre as lagrimas de teu penoso martyrio!
Na presença das traições de que é victima a França, não cabe o coração no peito de quem tem alma para sentir, e uma parte d'elle vôa a consubstanciar-se no do povo cuja tunica parece estar sendo jogada por Napoleão sobre um tambor prussiano.
Para quem está escrevendo as presentes linhas, a causa da França, em guerra com a Prussia, foi sempre a do interesse liberal e portuguez.
Bonaparte era um accidente que o furacão podia varrer.
O rei Guilherme é um systema, que terá sempre por objectivo a cruz da espada no calvario da liberdade politica.
Hoje, porém, collabora o sentimento com a razão.
Se o prisioneiro de Wilhelmshohe viesse a Paris sobre um canhão de
Krupp, antes Rochefort na presidencia do que Bonaparte no throno.
Antes o incendio do que a podridão.
Antes o sangue do que o lodo.
A desordem pode passar. A deshonra fica.
Se a restauração consolidasse um precedente de tal ordem, a moralidade espavorida teria de arrancar o vôo do occidente da Europa, levando comsigo nas azas os ultimos lampejos da decencia e as ultimas vibrações do patriotismo.
Praza a Deos que a França possa guardar esse resto, sem subverter os alicerces da sociedade, no desculpavel delirio de uma nação que vê a morte de perto.
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Em Portugal correm as cousas menos tragicamente.
Organisou-se uma administração debaixo da presidencia do sr. marquez d'Avila e de Bolama, o mais attendido conselheiro da finada dictadura, e sob a immediata inspiração do sr. bispo de Vizeu, um dos mais intrataveis adversarios da situação creada pelo sr. duque de Saldanha.
Esta incompatibilidade, que já dera anteriormente em resultado a saída do sr. marquez d'Avila e de Bolama do gabinete presidido pelo sr. marquez de Sá da Bandeira, produziu novamente… a juncção d'esse cavalheiro e do sr. bispo nos bancos do poder.
Ha, pois, governo, mas segundo o verdadeiro espirito do systema representativo não ha ministerio, porque os actuaes conselheiros da corôa, pessoas individualmente dignas de todo o respeito pelos seus dotes de coração e de intelligencia, não representam mais do que uma colligação de homens, sem corpo de doutrinas que os possam graduar em representação de partido.
Que não ha um verdadeiro partido atraz do governo, prova-o tambem exuberantemente a necessidade, em que se julgaram ver os organisadores da situação, de irem buscar alguns ministros fóra do parlamento, o que constitue uma violação flagrante das praticas constitucionaes e seria um erro indisculpavel se houvesse um partido ministerial, forte e preponderante, que tivesse dentro de si os elementos para a gerencia de todas as pastas.
Este raciocinio deve forçosamente ser exacto porque é impossivel que os deputados verdadeiramente ministeriaes, se os houvesse, se deixassem preterir em publico, como pessoas, por outros cavalheiros de opiniões pouco definidas, e que não haviam recebido o sacramento da confirmação na urna popular.
Viverá, portanto, o novo governo o tempo que vivem as rosas; ou durará o que as rosas não duram, se lh'o consentirem as opposições que lhe estão defronte e que farão bom serviço ao paiz não precipitando nova crise, que teria de resolver-se por alguma nova colligação.
Impotencia diante de perplexidade. Governo sem força na presença de opposição sem norte certo.
E ainda não será chegada a opportunidade de regularisar a politica do paiz?
O que obsta a que se comecem a agrupar desde já os elementos progressistas que andam dispersos por historicos, regeneradores e reformistas, e reconstruam um verdadeiro partido, adoptando um programma, não de sonoras banalidades mas de pontos determinados, indicando desde logo a maneira pela qual os resolveriam no dia em que fossem poder?
O que impede que façam outro tanto os elementos conservadores, espalhados igualmente por historicos, regeneradores e reformistas, e que podem até achar dentro do governo actual um chefe, que trocaria assim uma posição falsissima por outra mais digna de um homem d'estado?
Resolvida esta natural e indispensavel delimitação, porque não auxiliariam ambos os partidos o gabinete, não a resolver a questão de fazenda, porque essa não se resolve só com impostos e córtes na despeza, mas a votar, desde já, os tributos e as economias que são urgentissimos para desaffogar o thesouro das necessidades mais ameaçadoras?
Feito este grande serviço; organisados os partidos durante as treguas, porque não se feriria depois uma grande batalha parlamentar entre progressistas e conservadores, indo o governo a quem saisse victorioso da lucta?
É possivel que reagissem contra estas indicações salvadoras os estados maiores de algumas das actuaes parcialidades, os quaes talvez desejem que subsistam as divisões existentes, para terem maior importancia dentro de seus pequeninos exercitos.
Se isto é verdade, prepare-se então o paiz, e com tempo, a fim de que, chegado o momento opportuno, possa dar a lei a quem se mostrar rebelde aos conselhos do interesse publico.
Se proceder com energia e concerto, poderá impor aos seus representantes condições de boa politica e ter governos estaveis, obviando igualmente a que dissoluções repetidas corrompam cada vez mais os costumes da nação.
Porém se continuar a permittir a anarchia politica em que está vivendo a responsabilidade será sua.
As consequencias d'ella já se estão sentido.
Até aonde chegará a debilidade do paiz?
Para o fundo, até á perda de nossa fortuna?
Para atraz, até á perda de nossa existencia?
Oxalá que elle tome o caminho dos astros, até á riqueza e á independencia, á ordem e á liberdade!
2 de novembro de 1870.