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Viriatho: Narrativa epo-historica

Chapter 19: XIX
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About This Book

Uma narrativa épico-histórica reconstrói a figura de Viriato e as lutas da Lusitânia contra a expansão romana, alternando episódios de combate, traição e resistência com reflexões sobre a alma do povo: coragem tenaz, sentimentalidade, aptidão para o pensamento e criação estética. O texto evoca desembarques, campanhas militares, conspirações que comprometem líderes locais e a resposta popular, usando invocações poéticas e rapsódicas para ligar memórias antigas à consciência coletiva. Ao mesmo tempo traça uma leitura identitária que busca explicar continuidades culturais e morais, e propõe a evocação artística como meio de restaurar a lembrança e afirmar o destino comunitário.

XIV

Toletum estava em festa; pela presença d'esses homens ornados de collares de ouro e braceletes, e acompanhados de numerosos sequitos de soldurios e ambactes. O pequeno grupo dos Endres levando á sua frente o venerando Idevor saíu a saudal-os á entrada da cidade, e juntos todos fôram tomar a refeição ou consoada e libar grandes covilhetes de cerveja. Á meza um dos castellões, Leucon, chefe de tribus celtibericas, lançou a phrase:

—Dizem que Viriatho, o vencedor de Vetilio, é um simples pastor da Serra, que apascenta gado alheio lá no Herminio maior, que separa as duas Beiras?

Idevor percebeu uma vaga intenção de amesquinhar a capacidade militar do vingador dos morticinios de Galba, e com a clareza de uma consciencia pura, que de tudo se informára, respondeu:

—Eu conheço a vida d'esse valente pastor, desde o tempo em que o seu nome era simplesmente Ouriato. Quantos aqui possuem gados, sabem qual é o valor de um homem a cuja guarda se confiam para mais de vinte mil cabeças de variados rebanhos, que elle tem de defender através das marchas da deambulação, quando são levados das terras seccas, sem prados e abrazadas pelas calmas, para as pradarias de serras chêas de barrancos, de ursos e lobos e mesmo de salteadores. Este serviço dos gados na sua transhumação está organisado na instituição da Mésta, que dirige a juncção dos gados de todos os proprietarios; e n'este serviço só chegam a Maioraes aquelles moços que revelaram qualidades singulares de intelligencia, coragem, ardil, e que pela valentia ou astucia souberam salvar os rebanhos de perigos ou assaltos repentinos. Ouriato chegou a Maioral da Mésta em uma edade quasi de adolescente; foi n'esse serviço violento da deambulação dos gados, e responsabilidade de tantos valores, que elle provou além da valentia e disciplina, as qualidades mais intemeratas de caracter. É verdadeiramente um homem: e, pela resistencia ao soffrimento e ás contrariedades da sorte, é o typo dos lusitanos. O que insurreccionou a sua alma contra os Romanos foi o ter assistido á mortandade iniqua de trinta mil lusitanos ordenada por Galba, de que escapou maravilhosamente; e hoje o seu poder sobre o exercito provém-lhe de o ter salvado da rendição já combinada, e de no barrocal da patameira ter destruido quasi metade do exercito romano, desmoralisado pela morte do Consul Vetilio. Este homem é perante o povo uma reapparição d'esse Viriatho, que os romanos chamavam o Principe da Lusitania, e que indo combatel-os á Italia, soccumbiu na famosa batalha de Cannas. Esta auréola maravilhosa é tambem uma força, e com ella podemos contar, porque Viriatho será o libertador da Lusitania. Temos um general consumado; o povo accode ao seu chamamento, falta só o apoio dos chefes das Contrebias.

A ameaça das reprezalias romanas fez comprehender a todos esses presidentes das cidades federadas, que tinham de dar o seu apoio a Viriatho como recurso da propria segurança:

«Que seja entregue a Viriatho o Collar de ouro como insignia do poder, e para que lhe obedeçâmos como nosso egual.»

Foi geral o assentimento. Então Idevor, erguendo-se com um magestoso aspecto, disse:

—Eu sei onde pára occulta uma Viria, que attesta essa epoca em que todos os Estados da Lusitania estavam ainda unidos. É um Collar de ouro de tres Crescentes! Representa a mutua solidariedade de raça, costumes e Governo da Callaecia, da Betica em volta da Lusonia! Eu só guardava o segredo d'esse thesouro incomparavel, muitas vezes receiando que elle se extinguisse com a minha vida! Felizmente que se ergueu um homem, que pelos seus feitos os outros julgam digno de receber a Viria! O Collar dos tres Crescentes está occulto em uma caverna do Herminio maior, desde o tempo das invasões da Hespanha pelas hordas orientaes. Pouca gente terá pisado as veredas que conduzem ás Cavernas lindissimas do Cantaro Magro; mas no Covão do Boi, ao sul do Cantaro raso, existem umas ruinas ou Catacumba descoberta, com menhires e potentes monolithos sobrepóstos; do fundo da rocha d'onde se avista o bôjo do Covão Magro com o singular especto de uma enorme carranca, é ahi que está excavada na rocha uma Arca ou caixa em que se contém o Collar de ouro dos tres Crescentes. Eu me presto a ir buscal-o, e dentro em poucos dias aqui estarei de volta.

A revelação de Idevor foi recebida com acclamações de assombro; e os chefes das Contrebias, pedindo-lhe que fôsse buscar o thesouro da raça, bradaram:

—Seja dado a Viriatho o Collar de ouro dos tres Crescentes.

Carros com pipas de cerveja passavam pelas ruas, e taboleiros com fartes de farinha de bolota á cabeça de moças com arrecadas de ouro nas orelhas e grossas contas de ambar em volta de pescoço; formava-se o arraial para a entrada de Viriatho.

XV

A chegada de Idevor a Toletum com a Viria dos tres Crescentes de ouro, de que até então se fallára como fabula ou tradição confusa, coincidiu com o regresso de Viriatho seguido da numerosa cavalgada dos seus Soldurios, que o fôram esperar ao caminho, e dos tres companheiros que lhe formavam a trimarkisia, Ditálcon, Andaca e Minouro. Estes tres bravos eram do pequeno numero dos sobreviventes da mortandade de Galba, e pela tremenda desgraça se achavam ligados ao agil pastor que matára os dez elephantes africanos, e com elle andaram pelas cidades da Lusitania insurreccionando os povos contra a devastação de Roma; vinculava-os uma decidida dedicação áquelle em quem reconheciam espontaneamente o maximo ascendente moral. Ditálcon era o mais velho, intelligente e reflectido, capaz de desempenhar missões difficeis; Andaca, joven e phantasioso, mostrava-se repentinamente enthusiasta ou desalentado, segundo as pessoas com quem tratava; Minouro, tinha algumas qualidades d'estes dois companheiros; mas predominava n'elle a solercia, ou antes a falta de franqueza no caracter. A victoria e a acclamação de Viriatho ligou-os mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem não tinham inveja. Quando elles viram Idevor e o triplice Collar, disseram entre si:

—Para o Principe da Lusitania.

Viriatho fitou-os com seccura, e abaixou os olhos desdenhoso, com o desgosto de que alguem suspeitasse que combatia por outra ambição que não fôsse a liberdade da nossa Terra.

Os Chefes das Contrebias, avistando Viriatho, caminharam ao seu encontro, saudando-o com gritos de alegria, e erguendo ao ár as suas lanças de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e á entrega dos gados da sua região aos Chefes da Mésta, e mesmo aos tribunaes á sombra da carvalheira, onde davam as sentenças. E elles proprios, vendo o sabio Idevor junto de Viriatho com o Collar de ouro na mão, bradaram com enthuziasmo:

—Lançae-lhe ao pescoço a Viria do Commando, aqui, agora, antes de entrar na cidade.

Idevor obedeceu com jubilo, e lançou-lhe o Collar de ouro. Disse um dos chefes das Contrebias:

—Agora, dignificado com a Viria, é que Ouriato ficará para sempre sendo o nosso Viriatho.

Idevor, que conhecia as mais antigas tradições da raça, acudiu com ár mysterioso:

—Se procurarmos o sentido mystico que se contém no nome de Viriatho, vamos encontra na palavra scythica Vrindus, que designa o Touro, o totem da nossa antiga raça e civilisação dos Ligures, a relação com a valentia do heroe e a sua missão religiosa do combate libertador.

Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi ahi, que antes de destroçarem, pediram a Idevor, para que recitasse a Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou Collar de ouro dos tres Crescentes.

Idevor não se fez rogado, e começou em uma recitação quasi melodica o poema em que era celebrado este Symbolo da Confederação primitiva dos estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito separatista com que enfraquecera a raça. Como os Aédos de Hellade, diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava idealmente as tribus lusas recitando o poema de:

CHRYSAÔR
Do Herminio Maior na immensa altura
Vê-se o Corgo das Mós, que as nuvens fura,
Formado por tres grupos de rochedos,
Como irmãos que se apoiam firmes, quedos!
Sobre o do centro, como em pedestal,
Bloco estupendo, grandioso assenta;
De um Gigante a cabeça representa,
De longe contornando no horisonte
Negro perfil de mysteriosa fronte.
Das convulsões da Natureza activa,
No calor de uma lucta primitiva,
São taes blocos relêvos manifestos:
Mas ha quem reconheça n'esses restos,
No bloco e nos tres grupos de rochedos,
Da Lusonia antiquissimos segredos:
Governou esta terra um patriarcha,
Théron, desde o norte ao sul a abarca,
E aos extrangeiros a fronteira fecha.
A seus tres filhos este Estado deixa:
—Se a terra de Lusonia dividida
Fôr entre vós, por certo enfraquecida
Fica exposta ao assalto do estrangeiro,
D'Africa, ou levantino aventureiro.
Mas se a Lusonia unida se conserva,
Não entra aqui indomita caterva;
E grande, desde o Sacro Promontorio
Até ao mar Cantabrico, este emporio
Que vae dos Pyreneus té á vertente,
Será da Hespanha o estado mais potente.—
Do mundo era por toda a redondeza
Théron, por causa da sem egual riqueza,
De Chrysaôr por nome conhecido.
Pelo pezo da edade amortecido,
Chama os tres filhos; vieram reverentes,
E um aureo Collar de tres Crescentes
Lhes entregou, no seu momento extremo:
—Dou-vos a insignia do Poder supremo.
Os trez Crescentes d'este aureo Collar,
Pela crença da religião lunar,
As tres phases da Lua symbolisa.
São a Lusonia integra, indivisa,
Abrangendo a Tartéssida virente,
Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente!
Ah, se partirdes este Collar de ouro,
Cae a soberania... escuro agouro.
E receiando o temeroso evento
O velho Chrysaôr exhala o alento.
Deram os tres Irmãos ao pae amado
Nas Cavernas do Cantaro Delgado,
Sepultura em pyramides alpinas,
Que têm o aspecto de um castello em ruinas.
Ante o cadaver, na alta sepultura,
Entre si, cada um dos Irmãos jura
Não partir o Collar dos tres Crescentes,
Mantendo unidas as lusonias Gentes.
Em catacumba do Covão do Boi
O Collar de Ouro escondido foi,
Fixando, do local para lembrança,
Aquelle d'onde a vista longe alcança
Sobre o Cantaro Magro ingente bôjo
Que de bruta Carranca tem o antojo.
Resguardado na Arca de um fraguedo,
Os tres Irmãos em mutuo segredo
Conservam da Lusonia, ora indivisa,
Do Poder soberano essa divisa.
Ha entre os tres Irmãos tanta harmonia,
Que sentindo o que cada um sentia,
Ou unidos no mesmo pensamento,
Realisam o accordo em um momento,
Um longe, na Callaecia laboriosa,
Outro áquem na Tartéssida formosa,
Ou já na Tarraconia grande e forte.
Quanta prosperidade d'esta sorte
De Lusonia engrandece os tres Estados,
Rica de bens, dinheiros, e de gados!
Mas a faina do Mar fôra esquecida,
Trocada pelas da agricola vida!
Ah! d'aqui a catastrophe resulta,
Que a liberdade lusa atroz sepulta.
Quantos Povos invejam com insania
Os viçosos Jardins da Bastitania,
E vêm pelos cantares dos Homerides
Buscar o Elysio e os Jardins Hispérides,
Crendo encontrar aqui o Velocino,
Que reconhecem ser gado bovino!
Aventureiros lá do mundo Asiano,
Arribaram ao porto Gaditano,
Affrontando do pélago o terror,
Para roubar o gado a Chrysaôr!
Heracles forte, o tyrio, vinha á frente,
Doésta os tres Irmãos, soberbamente,
Para um combate a corpo, singular.
Terrivel o recontro, atroz o azar!
Caiu dos Tres Irmãos o irmão mais velho,
Heracles o esmaga sob um joelho!
E a mesma dôr, que a vida lhe arrebata
Aos outros dois Irmãos é a que os mata.
Desde então a Lusonia sem commando,
Viu-se roubada de estrangeiro bando,
Que a invade, a devasta e a governa,
Perdida a ideia da união fraterna!
A aspiração moral ficou intacta!
Do Collar de ouro nunca se desata
Nenhum dos Tres magnificos Crescentes;
E á espera de outra Éra e novas gentes,
Aguarda, ao fim do secular destrôço,
Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço.
...........................................................

O sabio Idevor, dominado por uma commoção profunda, interrompeu a recitação do Poema de Chrysaôr, que segundo a tradição contava milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos narravam as primeiras invasões no territorio hispanico, que antecederam todos os documentos ou monumentos da historia.

Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o Collar de ouro dos tres Crescentes, avançou para junto de Viriatho, e depois de fazer uma vénia solemne lançou-lhe ao pescoço a Viria da triplice soberania.

XVI

Emquanto os Cavalleiros decorados de Collares de ouro de um só Crescente rodeavam o novo Caudilho lusitano, começou a ajuntar-se muito povo pelo empenho de admirarem de perto o vingador, aquelle que soubera inflingir a formidanda derrota ao exercito consular. E naturalmente aos gritos com que se saudavam as varias regiões autonomas:—Viva a Callaecia! Viva a Tartéssida!—começavam-se a organisar dansas peculiares dos montanhões e dos ribeirinhos, vistosas e com caracter guerreiro, outras surprehendentes pela agilidade dos pés e dos saltos, com um sapateado rythmico, ululando phrases que tornavam mais delirante o enthusiasmo. A dansa mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda ou circulo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens de mãos dadas, mas tendo cada um a lança, da qual lhe provinha o nome de Palotêo ou Paulitos, ora avançando, e já recuando ao compasso do canto de um Côro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por um simulacro de batalha.

No fim do animado palotêo, appareceu um grupo de mocetonas gaditanas, formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braços e pernas, dansando á moda da Tartéssida, e com seus adufes, dando-lhe um aspecto religioso orgiastico, estonteante. Os Romanos, que vieram á Hespanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas dansas das soalhas ou castanholas metalicas, e memoraram em seus livros a Betica crusmata e a Tartessiaca aera, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da Cidade eterna. Proseguindo na sua dansa fôram as bailadeiras beticas approximando-se do grupo em que estava Viriatho, dirigindo-lhe em Côro em fórma de corranda:

A Canção da Viria
Onde ha fontes de agua pura,
   Vamos a sêde matar.
Onde ha graça e formosura,
   Vamos com paixão amar.
              *
Onde ha um bravo que vence,
   Vamos-lhe a gloria acclamar!
A Viriatho pertence
   De ouro o triplice Collar!
              *
Brilha n'esses tres Crescentes
   Do sol fulgor singular:
Sigam os homens valentes
   Esta nova luz polar.
              *
Onde ha odios e vingança,
   Vamos a sêde matar!
Da Patria livre a esperança
   Vamos com paixão amar.
              *
Siga o triplice Collar
   O que ser livre aspirar!

Terminadas as dansas e cantares do vistoso arraial, os Chefes das Contrebias no meio de tanta alegria começaram a atirar pequenas moedas de prata ás rebatinhas, que o povo em chusma corria a apanhar, atropellando-se, em cambalhotas, em que cada um no meio de estrondosas risadas mostrava a maior agilidade e presteza. Essas moedas eram quasi todas de valor de um drachma, e cunhadas nas cidades lusitanas como manifestação da sua autonomia. Viriatho notou n'aquelle espectaculo divertido, que as turmas do povo, ao agarrarem as moedas, miravam-as no verso e anverso, e em seguida guardavam umas com soffreguidão, e arrojavam para longe com desdem as outras. Inquiriu do caso inesperado; foi então, que Idevor lhe explicou essa manifestação espontanea e significativa da alma popular, mostrando-lhe dois d'esses differentes numismas de prata:

—Reparae n'esta moeda: De um lado está cunhada uma cabeça viril, em cabello; tem barba, e um collar ao pescoço. Do outro lado, vêdes, um cavalleiro a galope, com a lança em riste! Agora a outra moeda: em uma face está impressa uma corôa de carvalho, e no reverso figura um Colono conduzindo dois bois, como quem lavra a terra. O povo conhece esta differença, e o que ella significa. Todas essas moedas do Cavalleiro da lança, são por antigo costume cunhadas em Cidades livres e autonomas, inscrevendo n'ellas o seu nome, como vereis em tantas que para ahi se arrojam ás rebatinhas, como estas...

E Idevor foi mostrando ao acaso as moedas, e lendo os nomes de Toletum, Alva, Bilbilis, Segovia, Segobriga, Carissia-Celsa, Sactabis, Toriasum, Clunioo, Gili, Italica, Sacelli, Sagunto, Lastigi, Osca, Ilipla, Itvci. E interrompendo o exame continuou:

—Roma emprega todos os meios para substituir estas moedas pelas do Colono conduzindo os bois, com que representa o seu dominio, pela corôa de carvalho, e a servidão dos povos submettidos como os bois ao arado, as quaes faz circular nas suas cidades estipendiarias e municipaes.

—Comprehendo agora o sentimento do povo. Repelle o jugo do estrangeiro, e só acceita o Cavalleiro da lança. É esse sentimento que me fortifica.

XVII

Os chefes das Contrebias, ao terminar das festas, saudaram um por um a Viriatho, e lhe fôram contando na mão cinco pequenas moedas de prata, d'aquellas que pouco antes tinham arrojado á multidão. Era a expressão symbolica do direito individual, em uma sociedade que se regia pela communidade das terras lavradas, das pastagens, e dos celleiros do clan para as colheitas agricolas.

O territorio lusitano pertencia exclusivamente ás tribus ou gentes, sendo annualmente sorteadas pelas diversas familias as geiras que haviam de cultivar. Sobretudo nas margens fertilissimas do Douro, e no cantão dos Vacceos, é que este communismo tradicional se conservava na sua maior pureza. Com o tempo introduziu-se o costume de cada familia conservar como proprio o terreno de cinco acres, ou agra em que estava a casa, o poço e a horta. Era o que o rifão popular allude ainda, quando para significar a indigencia a exprime:—Sem eira, nem beira, nem ramo de figueira.

Este terreno, que tambem na primitiva familia romana tinha o nome de Haeredium, era o fundamento da estabilidade da familia, e, sempre inalteravel, era um vinculo ao qual se incorporava qualquer cercado em que se estabelecera um novo casal. Para que esse solar se mantivesse sempre indiviso, a herança dos irmãos da mesma familia fazia-se excluindo-os da propriedade da terra dando-lhes cinco moedas de prata.

Viriatho comprehendeu o sentido da offerta que lhe fizeram os chefes das Contrebias. Nos territorios da Lusitania elles possuiam como seus proprios e individuaes os solares dos Castros, Castrellos, Crôas e Môrros, Cabêços e Citanias, Penhas e Cidadelhes; e a entrega das cinco moedas de prata, significando a affirmação de independencia solarenga no meio dos territorios communaes, n'este momento representava o reconhecimento de uma suprema chefatura. Era o direito soberano de Chevage.

Na bandeira branca dos Mil de Viriatho, e no escudo do valente cabecilha, d'aquelle dia em diante ficaram representados os cinco dinheiros, chamando-se-lhes por isso o Pendão das Quinas, o Escudo das Quinas.

XVIII

Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram afamados no mundo pela tempéra rija que sabiam dar ao ferro com que fabricavam as armas hespanholas. O seu nome já era conhecido entre os Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:

—Bem esperava vêr-vos, e saudar-vos! As espadas que temperâmos carecem de braços firmes como os vossos.

Viriatho tocando-lhe com a mão no hombro, e avançando pela officina ao ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas já frias, volveu-lhe:

—Andergus! ás espadas que fabricaes póde-se-lhes chamar magicas, porque tornam invencível o homem que as brande.

O espadeiro sorriu-se com orgulho, e começou a explicar a Viriatho o valor das armas que se fabricavam n'aquelle fóco de uma antiga tradição metalurgica:

—Sabereis, que os Romanos quando vieram á Hespanha combater os Carthaginezes usavam ainda uma miseravel espada de cobre forjado a que chamavam Ligula, a qual vergava com a força do golpe e que elles durante o combate endireitavam com o pé. Quando os Romanos viram as nossas espadas de ferro, adoptaram esse typo para o seu armamento, que mandaram fabricar em Astorga, Valencia e a quantos armeiros encontraram espalhados por essas Hespanhas. Mas, o segredo da tempera do aço só nós os Espadeiros de Toletum o possuimos, e é esta a superioridade das espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos poderam apanhar esse segredo.

Viriatho escutava com encanto e assombro a observação de Andergus, e sentiu-se animado de uma intima confiança com aquella revelação: as espadas lusitanas eram de aço. E Andergus appresentou-lhe uma espada:

—Vêdes! aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta aguçada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se entorta e fica vergada.

E calcando a espada debaixo do pé esquerdo curvou-a:

—É romana; cá está a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. Não conheceis talvez o que querem dizer estas letras: Ab urbe condita, da fundação de Roma, no anno seiscentos e tres.

—Ah! do anno da matança. Acudiu Viriatho.

—Agora vêde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro como se fôsse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois palmos, e de folha mais estreita. É mais leve, e incute o golpe mais longe, porque a tempéra do aço dispensa a grossura, necessaria ao ferro doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os Romanos; elles não conhecem esta nossa vantagem.

No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraçando Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:

—Não temeis que um dia vos roubem o segredo da tempéra do aço?

—Esse segredo está n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas. É aqui n'esta região que sómente se póde dar ao ferro em brasa a dureza impenetravel.

Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte, exclamou com jubilo:

—Uma terra que tempéra com as suas forças occultas o ferro por essa fórma unica, essa terra só póde ser pisada por homens livres communicando ás suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mim alguma cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.

Andergus fallou-lhe mysteriosamente:

—Não é só a agua e as areias auriferas do Tagus que dão ao ferro essa força inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon; este céo tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este céo azul e profundo. Quando o metal está derretido, e á sua superficie a calda reflecte esse azul ferrete do céo, é quando álgum influxo da abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe tão assombrosa qualidade.

Andergus fallava com uma confiança absoluta em Viriatho, e n'aquelle momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba, confessou-lhe:

—Muito quizera forjar por minha mão uma Espada, que fôsse a vossa companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor romano. Não devo fazel-o; ha uma Espada heroica já consagrada por victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e é essa a que vos compete.

—Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.

—É a espada Gaizus! devolveu promptamente Andergus: Não sei aonde ella está occulta, mas ha por certo quem o saiba. É um talisman de liberdade. Dizem que está enterrada, e creio que em chão lusitano, ou com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada Gaizus apparecer, e vier á vossa mão, saberão os romanos o que é um raio...

Viriatho presentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas Andergus fallava de uma tradição vaga, e nada mais podia adiantar. E levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao pé das forjas, das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros, mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:

—Já podestes vêr a Spatha e o Gladius, comparando-os com a nossa Espada hispanica de aço puro, com uma nevrura ao meio ou especie de quina; agora reparae para esta Espada curta, é a Machoera, á maneira de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga. Verdadeiramente lusitana é a Rhanda, a faca ou naifa de quasi dois palmos, pendurada á cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram, porque de ha muito deram em usar a Rhanda pendurada ao lado direito. Se nós fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor pratico posso attestar, que a Lancea romana é imitada da nossa lança ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas como a Soliferrata são completamente de ferro. Mas, deixemos aos homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos seus roubos; aqui estão as Tragulas, com a sua ponta em fórma de anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules romanos.

—Tenho mais confiança na Falcata, uma gadanha que chega a dar os resultados de uma boa espada.—Acudiu Viriatho, terminando o seu pensamento:—Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos, forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo. Em Roma já se diz, que o mais destemido general não é capaz de fazer virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperança de que ainda hão de tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçôa.

Viriatho despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incude, quando viu apparecer o vulto de Idevor, que o procurava. Pouco fallaram; mas um movimento repentino de todos os terços e catervas lusitanas, postos em marcha instantaneamente, era revelador de que já pisava terras da Hispania Ulterior um general romano, um Pretor de confiança. Sobre os escudos feitos de couro crú e cordas de tripa entretecidas de arâme, os soldados lusitanos batiam pancadas rythmadas, a cujo som cantavam os seus hymnos triumphaes e os clamores do Tripudio antes de entrarem em combate. A marcha fazia-se a esta cadencia das Cetras, que resoavam com estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os impetos da acção.

XIX

A derrota de Vetilio era commentada em Roma por fórma que se ligava pouca importancia á resistencia dos Lusitanos; attribuia-se a um defeito da organisação do exercito. Dizia-se que o patriciado romano, temendo que nas guerras longinquas os generaes conseguissem um grande prestigio sobre as Legiões que commandavam, se tinha estabelecido, que em cada Legião houvesse mais do que um chefe, sendo commandada por seis Tribunos militares, que por turno se succediam. Lamentava-se que geralmente os tribunos militares fôssem eleitos pelo povo e pelo senado, muitas vezes entre a mocidade inexperiente e por favoritismo. Que, verdadeiramente, era com os Centuriões que o general podia contar, por que esses sahiam da fileira, chegavam ao commando dos manipulos pela sua bravura, e conduziam as cohortes, até se elevarem a primipulos da Legião.

Era no Consulado de Publio Cornelio e de Caio Livio, quando foi nomeado novo Pretor para governar e commandar o exercito que operava contra os Lusitanos, o destemido Caio Plancio. Fôram-lhe entregues dez mil Legionarios e mil e quinhentos Cavalleiros, para engrossar as tropas que estavam recolhidas em Carpesso. O Pretor queria proceder com rapidez, e mostrar a Roma desalentada, que elle submettia para sempre esse povo irrequieto, que não se conformava com o jugo da Patria das Leis. Soube que o exercito de Viriatho permanecia na Carpetania, e quiz ir ao seu encontro, logo.

O Caudilho lusitano exultou de alegria, vendo aquella resolução inconsiderada.

—Plancio obedece inconscientemente ao meu plano, vindo pisar um terreno desconhecido. A victoria é nossa.

E assim que as suas vedetas lhe vieram dizer, que o exercito de Plancio estava quasi á vista, Viriatho dispoz as suas tropas por fórma a acceitar a batalha campal. Era com isso que contava o Pretor, fiado na disciplina inflexivel dos seus Legionarios, sempre com vantagem sobre tropas mal adestradas. Viriatho tomou immediatamente a offensiva carregando com os seus hastarios sobre o exercito romano; mas esse movimento impetuoso e apparentemente desvairado era um embuste. Plancio acreditou na furia cega da gente lusitana, e quando travou o combate, seguro de que em breve a teria derrotado, a um signal combinado todos os guerrilheiros lusitanos viraram costas ao exercito pretoriano em uma debandada rapida, vertiginosa e inesperada.

Plancio hesitou um momento sem comprehender aquelle exodio repentino:

—Fogem! Isto não é exercito; é um bando vil de cobardes. Não deslustrarei o meu exercito perseguindo o bando fugitivo.

E deu ordem a que se destacasse promptamente um trôço de quatro mil homens para dar caça ao lusitano.

Quando Viriatho comprehendeu pelo movimento dos manípulos a intenção do Pretor, rejubilou, exclamando:

—Temol-o cahido na cilada.

E quando o trôço dos quatro mil, que ia em perseguição dos lusos, já estava distante do exercito romano uma boa legua, Viriatho cáe em pezo sobre elles, envolve-os e chacina-os com presteza, escapando apenas aquelles que conveiu, para que levassem a tremenda impressão da catastrophe a Plancio. Nunca as espadas temperadas com as aguas do Tagus, que lhes dava toda a rijeza do aço, trabalharam com mais nitidez. Caio Plancio sentiu-se ferido no seu prestigio, e a perda d'aquelles quatro mil homens revelava-lhe a importancia do inimigo com quem tinha de combater. Faltava-lhe já a frieza da rasão, e arrojava-se contra Viriatho como o boi contra o panno vermelho. Viriatho tinha prevenido a hypothese, de no caso de derrota, accolher-se aos fraguedos da Serra d'Ossa; mas não lhe foi preciso, antes aproveitando a exaltação em que Plancio se encontrava, seguiu avançando para o norte e transpoz o Tagus.

—Será Plancio tão inconsiderado que venha aqui á margem direita do rio? Se elle tal faz, saberá o que é uma derrota fundamental; hade ter que contar em Roma.

E Plancio, dementado pela furia que lhe produziu a mortandade dos quatro mil legionarios, atravessou o Tagus para a sua margem direita.

Viriatho estava acampado em uma collina coberta de oliveiras; quando ao sopé da montanha appareceu o exercito de Plancio, seis grandes matacães graniticos fôram rolados do alto, precipitando-se e esmagando tudo quanto encontraram diante. No meio do assombro e da desordem produzida pelo espantoso successo, Viriatho deu ordem para uma carga de lanças, proseguindo á espada a batalha campal, para mostrar ao general romano que os lusonios tambem sabiam bater-se com tropas disciplinadas em campo raso, em corpos de seis mil homens, em linhas symetricas tanto para o ataque como para a defeza, com a formatura em cunha, e protegendo-se mutuamente.

Plancio, vendo que prolongar o combate seria tornar mais completa a derrota, ordenou a retirada para a margem do Tagus, empregando todos os seus recursos estrategicos para conseguir passar o rio; uma vez na margem esquerda os que se salvaram, foram procurar refugio nas cidades fortificadas, em que o poder romano se firmára na peninsula.

Em um festim em que Viriatho reuniu os chefes da campanha, e quando entregava desinteressado aos seus guerrilheiros os despojos tomados ao exercito de Plancio, entre as conclamações ruidosas dos Peltastas e Cetrados exclamava sorrindo:

—O verão ainda agora vae em meio, mas já o exercito romano busca abrigo nos seus quarteis de inverno.

—Emquanto elles cosem os rasgões que lhes fizeram as nossas adagas, não deixemos que estas se enferrugem; vamos infligir o castigo a esses povos que contra nós os auxiliaram, desde o Tagus ao Ebro.

E se bem o disseram melhor o cumpriram.

A noticia da derrota vergonhosa de Plancio produziu em Roma uma commoção inconcebivel. Uns acreditavam que as minas de prata e as riquezas da Lusitania ficariam para sempre estancadas, e exclamavam com rancor: É preciso anniquillar esse povo barbaro, que assim se atreve a resistir contra a civilisação da grande e generosa Roma. Que o Pretor Caio Plancio seja chamado a Roma, para dar conta dos seus actos, d'esses miserandos feitos com que infamou as armas romanas, cujo prestigio é a base do poder da Cidade eterna.

E Plancio nem tempo teve para reorganisar o exercito com que se salvára depois da derrota nas faldas do Monte-Veneris; chamado a Roma, para apresentar-se diante do Senado, elle partiu menos seguro do que Galba; não levava barras de prata e ouro para corromper os seus juizes, não lhe deram tempo para isso. A narrativa da campanha na Lusitania era inacreditavel, e por isso a sentença estava prevista,—a deposição e o desterro, para que não se fallasse mais d'elle, e para que os futuros generaes apprendessem no temeroso exemplo.

XX

Emquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra, Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia, até ao Ebro; veiu depois a léste até á Edetania, Contestania; e passando por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretanía. Era um reconhecimento dos territorios e das povoações! sabia aonde teria facil refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando Viriatho pisava já o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens alemtejanos com uma mensagem; traziam a Crantara, a Lança ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que Viriatho sopezou a Lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a fôram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmo quatro homens com ella. Significava aquelle symbolo a convocação dos chefes militares e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado. Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios, quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem pelos latrocinos dos Romanos. No ádito sagrado das suas sepulturas é que os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resoluções irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão, tendo um palmo em quadrado de diametro; é o unico em toda a peninsula hispanica. É por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta corporação hieratica não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas; interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a esse buraco escutava os eccos mysteriosos que só elle em uma concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados ao Conselho armado.

Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, até á chapada de rochas schistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a Anta veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre quatro d'elles assentava uma vasta lage em fórma de mesa, como ára dos sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabêço em que a Anta se eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o. Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de todas as perseguições conservava a tradição das tribus lusonicas; era elle que nas commemorações dos finados, annualmente, alli vinha depôr, na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra que os cobria.

O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam alli representados os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos, os Callaicos, os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido á cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cóta de malha, e nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos heroicos, alguns offereciam á Divindade lançando sobre a mesa da Anta, mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a Pedra furada, ajoelhou e debruçou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou com intimativa:

—Viriatho? Viriatho! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás ás mãos dos Romanos!

Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraçal-o pela consagração, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto, como se, desde aquelle momento, se tornasse um sêr sobrehumano. Disse-lhe Minouro:

—Agora em vez de um Pretor, póde Roma enviar-nos dois, para aparar melhor o pezo da derrota.

Andaca, batendo-lhe no hombro:

—Mas, pelo seguro, a força do oráculo está em uma boa espada.

Viriatho apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a com garbo, como fiado na sua tempéra e flexibilidade; mas com espanto viu, que mão traiçoeira lh'a tinha destemperado, porque dobrava-se como se fôsse uma lamina de chumbo:

—Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos!

Então Ditálcon, vendo a confusão que tomára o Cabecilha:

—Mesmo sem espada serás vencedor; o oráculo não mente.

Idevor tomou a espada torcida das mãos de Viriatho, e disse-lhe com alegria:

—Esta acabou já o seu destino; serviu emquanto o teu impulso generoso levantou o espirito de resistencia nas abatidas tribus lusitanas. Inspiraste confiança! as populações seguem-te, porque vêem em ti o restaurador da independencia, da liberdade, e do futuro glorioso da Lusitania. A nossa Lusitania é imperecivel. Aqui na Anta da Candieira guardara-se a Espada maravilhosa e invencivel, o Gaizus, escondido para não ser tomado e empregado contra nós pelo invasor estrangeiro, e sempre ignorado, por que até hoje não apparecera um filho d'esta terra capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriatho! o testemunho dos Antepassados proclama:—Nunca serás vencido! E é da sua sepultura, d'este Cairn sacrosanto que eu tiro a Espada invencivel, o maravilhoso Terçado que ahi se guardou até ao momento em que appareceste e te patenteaste digno de servir o Peito lusitano.

Dizendo estas palavras, Idevor metteu o braço pela pedra furada, e como revolvendo com a mão um thesouro invisivel, sacou com geito pelo buraco da lage um montante de aço.

Abeirando-se de Viriatho:

—Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a brandir pela Lusitania têm certa a victoria. Que ella passe de mão em mão, e de edade em edade.

Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com desvanecimento, e brandindo-a no ár, gritou:

—Hade ser livre a Lusitania.

A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era uma lamina curva, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente, e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a curva por fórma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de gume. O fio era tão resistente e cortante, que se fôsse a Espada brandida com força decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo á Copide oriental, com que batalham os Argivos, ou á Sicca dos Persas e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade que a tornava inquebrantavel. Não era indifferente a comparação com a Sicca dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera á Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com uma Espada de Lamina curva matára o Touro, que symbolisava as Crenças e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada começou a apparecer com um caracter mysterioso! Pertenceria ella ás éras primitivas d'essas espantosas luctas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com uma cabeça de Dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fôra temperada no sangue de um Dragão! A sua tempéra não será esse segredo que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as incrustações de ouro, não serão a prova de que as areias auriferas do Tagus misturadas no ferro derretido é que lhe dão esse poder cortante o incomparavel do aço.

Idevor, correndo a mão ao longo da lamina, descobriu sem esforço a face lisa de uma vaga côr azulada, e que semelhava o cariz do céo; entregou-a a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a á cinta do lado direito, dizendo:

—Esta Espada encontrou o braço digno de brandil-a no ár. Ella tem um nome, como têm todas as Espadas dos Heroes; são como elles uma entidade, com quem se consorciam; chama-se Gaizus, segundo as tradições religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a insignia da Viria dos tres Crescentes, que hoje usas como supremo chefe, te dá a rasão do titulo de Viriatho, de agora em diante como portador da Espada maravilhosa serás conhecido entre os que te acompanharem até á morte pelo nome de Porto-Gaizus...

Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de Gaizus, e entre os kimricos Gaisus, de Hesus entre as hordas celticas, e Gaisos entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no chão, tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao ár livre e o tribunal do julgamento. A Espada era a representação divina e o emblema da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.

Viriatho espetou a Espada Gaizus na terra, reunindo-se todos os guerreiros em volta; e Idevor proferiu a

Benção da Espada
Fita de luz traça no ár o raio,
Quando encastella nuvens a rajada:
     É assim esta Espada!
Em botes de alto abaixo e de soslaio,
     Ou quando cáe a fundo
     Golpe seu iracundo!
              *
Contra os tyrannos firma a Liberdade,
E fortalece a Confraternidade.
     Quem amal-a não hade?
A Terra em que nascêmos ella cobre,
Tal como um galho secular frondente
     Abriga a livre Gente.
Como thesoiro que o valor redobre,
Lampejando no punho de um heróe,
     Sempre sagrada foi.
              *
Espada de Justiça e de Equidade,
De uma Patria o emblema, a magestade,
     Quem amal-a não hade?
              *
Se ella cahir do valoroso pulso
     Por traição ou por morte,
Ao sumir-se no derradeiro corte,
Da independencia guardará o impulso.
              *
Quem descobrir a lamina fulgente
     No revolvido chão,
     Cumprirá—a missão
De tornar livre a soffredora Gente,
Dando-lhe a consciencia de Nação.

E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pães de glande de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os picheis de céria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um

Coral de Tripudio
Terra da Patria!
Querida terra,
Liberta e altiva!
Na paz, na guerra
A alma idolatre-a,
Para ella viva.
Nosso chão patrio,
Terra querida,
Sempre liberta!
De um mundo és átrio,
Nunca vencida,
Por ti—álerta!
Terra sagrada
Da Patria amada,
Sê triumphante!
Pequena e forte,
Até á morte
Avante! ávante!