XXI
Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que não tinha chegado a devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao pescoço, descalças de pé e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a sementeira do linho. Ellas não se apavoraram com a passagem da cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fôram-se approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas, que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. É certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas alternadamente uma Cantilena dos Trabalhos do Linho, que na sua emoção fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava uma d'ellas, como deitando o pé da cantiga:
Quem anda a semear o linho,
Bem sabe que hade viçar
Para trabalhos passar.
Tambem quem semêa amores
Aqui, além, á ventura,
Sem se arrecear de dôres
Doce esperança procura;
E nascem-lhe em vez de flôres
Trabalhos para passar.
Antes o linho semear
Pelos vallados e encosta,
Do que um olhar sem resposta,
Desdens que são de matar;
O amor que se não desgosta
Não póde raíz deitar.
E emquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a que cantava:
—Caenia! não descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.
E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um timbre de arrancar a alma:
Pelos trabalhos do linho
Está-se a gente a entender:
Nasce o amor para soffrer.
D'entre abrolhos do caminho
Quantas flôres a nascer!
Foi quando vim a entender
Que me davas com carinho
Tua vontade e querer,
Pondo fim ao meu soffrer.
A mesma voz que interrompeu a que levantára a cantiga:
—Aponia! não fiques para traz; ou tu já não és cantadeira de fama?
Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e de paixão commovente:
Bota uma flôr azulada
O linho, estando a florir:
Tem essa côr teu sorrir!
Sabendo que eras amada,
Segredaste de mansinho:
—Para sempre!—Sonho lindo.
Ainda te estou ouvindo...
Foi pelo semear do linho,
Ou mesmo na espadellada.
Antes que o fio mais fino
Chegue a fiar-se na roca,
O que ouvi de tua bocca
Fiou o nosso destino,
Teceu o casto cendal
Para o cortêjo nupcial.
Os cavalleiros, que se tinham atrazado da comitiva, atiraram com o dinheiro que levavam para o grupo das raparigas; e mettendo-se a caminho, a trote largo, iam dizendo:
—As mulheres fazem por nós o trabalho dos campos, em quanto por aqui andamos empenhados n'esta guerra sem treguas.
—E eu que jurei não tornar mais a entrar em casa, a abraçar a mulher e os filhos, em quanto não vir estes romanos escorraçados. Heide cumprir o juramento, ainda que me arrebentem as saudades.
—Dá vontade de morrer por esta terra, quando bebemos estes áres, quando nos banha esta luz de um céo tão azul! A cantiga das raparigas fez-me vêr isto tudo, como até hoje eu nunca tinha visto.
E no trote largo em que iam, incorporaram-se na cavalgada, que foi diminuindo á medida que cada um dos cavalleiros tomava a direcção do solar em que residia.
XXII
Recebendo a Espada Gaizus, lembrou-se Viriatho das palavras do armeiro de Toletum, lamentando que os indefessos mantenedores da liberdade da Lusitania não a tivessem brandido. Esses grandes chefes da resistencia da Hispania Ulterior estão mortos, e porque até agora não appareceram homens com conhecimento da arte da guerra, é que Roma conseguiu dominar em muitas cidades da Lusitania. Viriatho reconhecia a continuidade da sua missão libertadora, e possuido d'essa solidariedade do sentimento, disse para Idevor:
—Jazem nas suas sepulturas os dois irmãos e valentes cabecilhas Indibilis e Mandonio; e tambem o não menos denodado Salondico.
—Em logar d'elles,—atalhou o velho endre,—apparece um homem, sim, um homem, que vale por todos tres; possue de um o genio da estrategia e a energia do commando; de outro a lhaneza familiar e o trato superior com os homens; do terceiro tem a integridade da sua palavra, que faz fé como se fosse uma sentença. Por isso veiu ás suas mãos o Gaizus.
Por sua vez Viriatho, interrompendo os louvores de Idevor, accentuou em poucas palavras o seu pensamento:
—Eu quero que esses tres nomes fiquem sempre memorados entre a gente lusitana; e darei todos os passos para que lhe sejam consagradas sobre as suas sepulturas tres estatuas funerarias.
Viriatho queria ligar ao sentimento da defeza da independencia da Lusitania uma expressão visivel, que lhe servisse de apoio e mesmo de estimulo; eram já mortos esses tres caudilhos, que tanto tinham luctado contra os Romanos, e que agora jaziam obscuramente sepultados, Indibilis e seu irmão Mandonio, e o destemido Salondico. Repetia-se na tradição os seus nomes, por que os feitos heroicos que praticaram eram recentes, mas tudo passa; Viriatho reconhecia que a recordação d'esses vultos extraordinarios era uma força com que podia actuar nas almas. Ordenou que viessem da região septemtrional da Lusitania tres blocos de granito, para serem esculpidas tres estatuas sepulchraes, representando os heroes lusitanos, e para serem erectas sobre os seus jazigos. Essa pedra rija e difficil de lavrar era a que melhor symbolisava a resistencia dos tres Cabecilhas destemidos, e como privativa de todas as construcções e monumentos da Vettonia, a que melhor representava aquella parte da Lusitania mais ciosa da sua liberdade. Realisou-se em breve a sua vontade.
A estatua de Indibilis, como o estylo d'essas esculpturas funerarias, estava perfilada, de cabeça altiva, erecta e sem capacete ou gálea. Todos aquelles que o conheceram dizem que é a sua imagem verdadeira, barba espêssa e cabello curto, nariz aquilino com uma depressão a partir da testa. Tem em volta do pescôço o collar ou torques simulando um grosso crescente. O corpo reveste-o um saio ou gibão justo á cinta por uma faixa ou balteus acolchetado pelas costas; a manga é curta, deixando os braços nús pouco abaixo dos hombros, e acima da bucha do braço uma armilha formada de tres braceletes. Os braços descem sustendo um sobre o ventre o escudo redondo ou cetra, ornamentado com cordões delineando contornos caprichosos; na mão direita tem segura a espada de lamina curva, parecida com a Sicca dos Thracios, de cabo curto terminando em bola, e com a ponta tocando nas nádegas. Assenta sobre um cippo lavrado, em que está inscripto o nome de Indibilis.
A estatua de Mandonio, trabalhada no mesmo estylo rude, mas primitivo, semelhando as esculpturas do Egypto e da Chaldèa, mostra leves differenças; o rosto oval tem uma expressão de audacia, de quem affronta todas as difficuldades; o escudo que assenta sobre o ventre está pendente do pescoço por correias sem abraçadeiras, tal como o clypeus dos gregos; na mão tem uma arma curta de empunhadura simples, como faca de ponta, que se alarga até ás guardas, como o pugio dos romanos. Tambem as pernas núas emergem do pedestal ou cippo votivo, em que se lê o nome de Mandonio.
A estatua de Salondico tem as armilhas nos pulsos ou propriamente manilhas; e na cabeça uma cervilheira de couro, que está cingida até meio da face; a cetra não é redonda, appresenta a face concava, e representa o enlaçamento de fitas de couro crú.
Antes de chegar á Lusitania um outro Pretor para substituir Plancio na campanha, já estava consagrada esta piedosa homenagem aos tres luctadores que tanto se sacrificaram pela liberdade da patria. Isso acordou novas energias.
XXIII
Não podia ser indifferente a Viriatho aquella extraordinaria fortificação defensiva do Castro da Colla, do Alemtejo, com suas torres e muralhas do mais inaccessivel alcance. Examinou-a detidamente, medindo-a a passos; e ahi na base do monte, para a parte do sul, em que estavam seis sepulturas de generaes lusitanos, é que mandou erguer as tres estatuas funerarias, por que já andavam esquecidos os nomes dos guerreiros que guardavam.
As estatuas dos dois irmãos Indibilis e Mandonio ficaram a par uma da outra, e diante d'ellas como formando um triangulo, a estatua de Salondico. Na linha d'esta sepultura seguiam-se mais tres moimentos, ignorando-se a quem pertenciam. Disse então Viriatho:
—Cubro-me de vergonha, quando noto que já ninguem se lembra do nome d'esses bravos que ahi jazem, tendo combatido pela nossa terra.
—Temos um pouco esse defeito da ingratidão para os homens que nos engrandecem.—Assim fallára um da trimarkisia; ao que um outro accrescentou:
—Tu mesmo serás um dia esquecido, ou reduzido a personagem de conto de velhas.
—Fica certo, que se alguma cousa se souber de ti, será pelo que memorarem os Annaes romanos.
—Não lucto para ganhar fama! É só por uma ideia.—E Viriatho voltou á sua preoccupação: Mas de quem serão essas tres sepulturas restantes?
—Talvez o saiba Idevor...
E consultado o velho endre, que era um verdadeiro poder moral que pela tradição lusa unificava as almas, elle respondeu com simplicidade promptamente:
—São tres caudilhos lusitanos que sempre combateram pela liberdade da terra; aqui descansa Edescon; esta jazida é de Alucio; a do tôpo cobre a Istolacio.
—Dá-me força o lembrar-me que eu continuo a sua missão.
Viriatho foi em seguida á exploração do Castro Verde, cuja posição estrategica era defendida por sete fortes, um dos quaes era o inconquistavel forte das Juntas, assim chamado pelo povo, por se achar erecto na parte em que as ribeiras confluentes, Odemira e Mariscão se encontram e confundem. Quando Viriatho, para subir a violenta escarpa do forte das Juntas, chegou á margem da ribeira de Odemira, estava alli um magote de lavadeiras com as pernas mettidas na agua esfregando a roupa e cantando.
—É esta a feição da gente lusitana; do trabalho faz uma festa; allivia-se da fadiga com os seus cantares.
E parou um instante a ouvir a
Canção das Lavadeiras
Já os linhos florescem,
Já os dias crescem,
E ainda não apparecem
Os meus amores!
Já as neves descem,
Sem que as guerras cessem;
Mas nunca me esquecem
Os meus amores!
Já os linhos se tecem,
Mesmo as têas alvecem;
Ah, se bem cedo viessem
Os meus amores!
Aquella toada sentida communicava uma emoção saudosa, não tanto pela lembrança da paz, agora perdida, como pelo genio do povo, que se revelava n'essa dolencia. Viriatho, bebendo largos tragos da agua da ribeira em uma quarta alemtejana, que lhe encheu uma das lavadeiras, galgou a encosta asperrima, sem parar até ao cocuruto do forte das Juntas.
—Valentes pernas!
—Aquillo é que é homem! Disseram duas das lavadeiras que estavam torcendo o bragal, e que o olhavam cá debaixo, emquanto a agua escorria.
XXIV
Ainda Viriatho se achava proximo da Anta da Candieira, voltando a examinar a fortaleza da torre da Colla, nas campinas de Ourique, quando lhe trouxeram a nova da chegada á Hespanha dos dois Pretores romanos Claudio Unimano e Caio Nigidio, aos quaes o Senado confiára a missão urgente de reprimir de vez os Lusitanos, apagando as manchas das derrotas anteriores. Os dois Pretores combinaram o seu plano de ataque; Unimano iria atacar o Cabecilha nas montanhas de Ourique, aonde sabia que se encontrava por noticias dos espiões ibericos; repellindo-o diante de si, levava-o de encontro contra Nigidio, que operava ao norte confiado na antiga alliança dos Vacceos. Assim colhido entre os dois exercitos romanos, destinados depois da victoria a occuparem a Hespanha Citerior e Ulterior, a derrota de Viriatho parecia-lhes mais do que certa, inevitavel.
Parece que o destino favorecia o Cabecilha, ferindo-se a batalha n'aquella região sua conhecida e cheia de extraordinarios recursos defensivos. Aquelle vasto terreno coberto de rochas schistosas ostentava uma planura ou chapada, todo cercado de escombros e pequenos valles com montados de azinheiras e carvalhos, espessos e escuros. Excellente para repentinas emboscadas; mas o Pretor Unimano só pensára no seu apoio em Evora, cidade do direito do antigo Latio.
Subindo aquelle terreno accidentado cheio de cêrros com espinhaços inaccessiveis, avistava-se de longe a fortaleza a que o povo das cercanias chamava—a cidade da Colla. Negrejava com a sua cantaria secca sobre o ingreme cêrro, correndo-lhe em baixo ao sopé a ribeira de Mariscão. Foi alli que Viriatho reuniu os troços da sua confiança, dentro das muralhas que rodeavam a crista do cêrro. D'alli, do alto, avistava-se o rio de Odemira, que recebe a poente as aguas do Mariscão, junto do pégo do Sino. O Castello ergue-se abrupto, com as suas muralhas construidas por fiadas de cantaria não lavrada, mas todas de um tamanho egual; uma parte dos muros é a pique, outros inclinados para dentro, formando um quadrilongo de mais de duzentas braças, com uma espessura de vinte palmos. A fortaleza é dividida em outras duas internas, tendo ao centro uma cisterna profunda com paredes rebocadas e de abobada; a um lado está um rebaixamento que dá para uma extensa escadaria que leva á margem da ribeira por onde se póde fazer uma rapida sortida. Em quatro outros cabeços circumvisinhos, a meia legua de distancia, alevantam-se outras quatro fortalezas, e mais adiante, coroando um comprido monte o Castello velho, formado por uma gigantesca trincheira que abrange uma área de mais de seiscentas braças. A batalha dada nas visinhanças da Serra d'Ossa, tendo alli ao pé a Anta veneranda da Candieira, augurava para os Lusitanos um resultado feliz.
Quando Claudio Unimano avançava sobre Viriatho, que simulára uma retirada para a fortaleza da Colla, e lhe punha cêrco, contando tel-o seguro, por alta noite o Cabecilha desceu com os seus pela escadaria secreta da fortaleza que vem ter á ribeira de Mariscão; e sendo ao mesmo tempo avisado por lumieiras, os guerreiros lusitanos, que estavam recolhidos nas outras quatro fortalezas, cahiram quasi ao mesmo tempo sobre o exercito romano de surpreza, e fizeram uma incalculavel mortandade. Os estandartes da Republica e as insignias pretoriaes foram tomados por Viriatho, que mandou espetar pelos cabeços dos montes em redor as varas que formavam os feixes dos lictores, como fizera anteriormente apoz a derrota de Vetilio. As bandeiras romanas foram arrastadas diante do balsão das Quinas, produzindo um delirio de bravura nas catervas lusitanas.
Quando a batalha estava já decidida, ainda mil Legionarios sustentavam uma lucta isolada contra tresentos infantes lusos, desesperados e seguros de os esmagar pelo seu numero bruto. A resistencia d'esses poucos era tenaz, contando serem soccorridos; os romanos queriam n'essa ultima refrega vender caro a victoria. De subito, apparece á frente dos tresentos infantes o Cavalleiro que se destacava no tropel das batalhas pelo seu cavallo branco, no qual se arrojava á frente de todos os perigos. Os tresentos peões sentiram multiplicar-se-lhes a força e gritaram:
—Olha como elle brande a Colada!
—A Colada ao sol faisca; parece um raio.
O nome da espada Gaizus era desconhecido entre os companheiros de armas de Viriatho; chamavam á espada maravilhosa a Colada, por ter sido guardada em uma sepultura do castro da Colla. Com esse nome brilhará no futuro, quando um Campeador repellir com ella do solo da Hespanha as hordas africanas. D'ahi veiu o vulgar proverbio: «Todo saldrá a la COLADA.»
Diante da espada Gaizus alguns cavalleiros romanos que escaparam dos mil destroçados fugiam a toda a brida pelas encostas e chapadas de Ourique: um peão lusitano rapidamente atravessou um d'elles desmontando-o, cortou-lhe a cabeça de prompto e seguiu ligeiro no mesmo cavallo levando-a ao alto espetada na ponta da lança. Tamanho pavor se apoderou dos outros cavalleiros, que não se atreveram a atacar o peão, que seguiu seu caminho cantando. Ao tempo constava que o cavalleiro morto se chamava Caio Minicio, da Legião decima-gemina.
XXV
Aproveitando o enthusiasmo e confiança das suas tropas pela derrota estrondosa de Unimano, avançou Viriatho para o norte, transpondo a margem direita do Tagus. Não havia tempo a perder; era urgente ir ao encontro do Pretor Caio Nigidio. As esculcas trouxeram a Viriatho a aterradora noticia de que esse segundo corpo do exercito romano vagava pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casaes, roubando gados e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a população trabalhadora e pacifica. Era preciso sustar o passo a Nigidio, agora enfraquecido pela impotencia de Unimano. Viriatho avançou a marchas forçadas, contando a cada momento encontrar o exercito pretorial.
Proximo já das faldas dos grandes Herminios, vieram as esculcas trazer ao cabecilha a noticia, de que Nigidio acampára o seu exercito dentro da Cava, que já então começava a ser conhecida entre os povos das cercanias pelo nome de Cava de Viriatho, gloriosos por saberem que alli o Maioral da Mésta abrigava os gados, quando desciam da serra.
A alegria de Viriatho foi vivissima com a noticia do acampamento de Nigidio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o aquartelamento durante a noite, despreoccupado de toda a surpreza. Um plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota inesperada, impossivel de ser prevista pelo Pretor, que considerava a Cava como uma Castra aestiva, para segurança do seu exercito. Qual fosse esse plano, a ninguem o communicava, resolvendo logo partir para o grande Herminio, acompanhado dos cavalleiros da trimarkisia, em marcha forçada. Por ventura iria combinar qualquer feito com os maioraes que constituem a Cabana da Mésta, seus antigos companheiros?
Viriatho chegára ao fim da tarde á povoação de Sedarça, logarejo na encosta da Serra, em que passára a infancia. Tudo eram recordações, que o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu resoar um canto, e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em uma larga certã de barro sobre brazas. Viriatho, que seguia sempre mais adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto rythmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma historia triste, talvez com realidade; era a canção narrativa,
A Dobadoira
Estava á porta assentada,
Dobando a sua meada
A velhinha;
Lenço branco na cabeça
A madeixa lhe sustinha,
E envolve-a como toalha:
Com que pressa
Sentada á porta trabalha!
O sol doira
Seu cabello,
Que tem a côr da geada:
Para passar o novello,
A velhinha
De vez em quando sustinha
A gemente dobadoira,
Em que anda branca meada.
Na dobadoira que gira,
Como a mente que delira,
Nem já toda a attenção pondo;
Nem no novello redondo,
Augmentando
Ao passo que o fio tira,
Todo o seu cuidado emprega!
Pobre e cega,
Anciada, de quando em quando
Com que tristeza suspira!
Por vezes, o movimento
Claro exprime
Tumultuar do pensamento,
Que no imo da alma a opprime
E quasi oura!
Muda angustia e paciencia
Reflecte-as a intermittencia
Do andamento
Ao voltear da dobadoira.
Fica-lhe na mão suspensa
O novello,
Concentrada não o enleia:
Na orfã netinha pensa!...
Vem-lhe á ideia
Por sua morte:
«Só, no mundo! entregue á sorte!
Pobre neta...»
Pezadello,
Que tanto a velhinha inquieta.
*
Não ouvindo a dobadoira,
Que gemia intermittente,
Cahindo da mão dormente
O novello...
Com disvello,
A neta, cabeça loira,
Vem á porta
Vêr o que foi; com susto olha:
Uma lagrima inda molha
A face á velhinha morta.
No fim da canção uma das raparigas limpou as lagrimas; disse uma d'ellas:
—Tu, Nilliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares.
—É que eu conheci a velhinha cega, e tantas tardes a vi sentada á porta a dobar.
Viriatho approximou-se da porta da choupana, e saudou as raparigas:
—É bem triste essa historia. O que é feito da pobre orfã?
—Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os seus parentes tinham morrido nas guerras ou na escravidão dos romanos, e Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale são as boas almas. E se não fosse agora Viriatho, o que os romanos não fariam por essa nossa terra...
—E nunca vistes Viriatho? Perguntou o cabecilha com bondade.
As tres raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de terminado o cantar ou aravenga da Dobadoira, encetando uma conversa intima, trocaram sorrisos maliciosos:
—Muito gostava de vêr esse homem de quem tanto se falla.
—E eu? E dizem que é um homem ás direitas; não é alto nem baixo, de côr morena e olhos castanhos, cabellos fartos e tambem castanhos lisos; barba espêssa e corredia; o rosto é oval, o nariz fino, e a bocca mediana deixa vêr uns dentes alvos e eguaes, que é um encanto! Se o visse conhecia-o.
—Parece que estás enamorada de Viriatho. Disse com malicia Nilliata.
—Eu nunca o vi, nem espero vêl-o. O que me faz gostar d'elle é a sua coragem. Quem hade dizer, que um homem costumado aos duros trabalhos da Mésta, delgado de perna, e pés pequenos, cá como os homens da nossa terra, tem uma alma generosa, e audaz para sacudir os inimigos da patria!
Caenia fallava convencida.
Viriatho, que entrára na povoação adiante dos tres companheiros, ouvindo as risadas das raparigas estacára para escutar o que diziam; em breve conheceu de quem se fallava, e com um sorriso cheio de benevolente carinho, disse para ellas:
—Fallar no máo, apparelhar o páo.
As raparigas olharam-o com surpreza e viram o homem como o tinham representado: aquelle rosto oval e trigueiro, aquelles olhos castanhos de um relance vivo e scintillante; o mesmo pé pequeno mas agil.
Disse a mais reservada das moças para a que era falladeira:
—Ahi tens o moço em quem pensavas. Dize-lhe que gostas d'elle.
—Todas nós devemos amar Viriatho, por que elle sabe defender a nossa terra. (Volveu a Caenia a rapariga falladeira com decisão). Pois para vencer o inimigo, Viriatho precisa do amor e da confiança de nós todos. Mas para amal-o, como a mulher póde amar o homem, isso fia mais fino! Na Lusitania, que mulher poderá merecel-o?
—Então não ha mulheres lusitanas que me queiram?—Interrompeu Viriatho com malicia.
—Ai, meu senhor. Das mulheres da Lusitania só tenho ouvido exaltar uma que é digna de vós, ou vós digno d'ella.
—E eu, que até hoje nunca tinha pensado em amar uma mulher! Queria saber quem é essa, que tanto exaltas.
—Falla! dize quem é. Insistiram Nilliata e Aponia.
—Não é segredo. Todos sabem qual a belleza e ingenuidade de Lisia, a filha de Idevor.
—Lisia? ainda tão nova; com pouco mais de dezeseis annos?
—Mas com um tino e juizo, que espanta; com uma graça invencivel; com uma memoria vivissima dos Cantos e tradições da velha Lusitania. Dizem até, que ella, pelos dons que possue, não é d'este mundo.
Outra das tres moçoilas, não menos linguareira, proseguiu na revelação começada:
—É Lisia quem na Torre redonda de Achale, no começo do Anno estival accende o Fogo novo.
—Ella tem o cuidado do Fogo consagrado a Samham ou São Homem, o Julgador dos Mortos, que os não deixa esquecer.
—E como dedilha na Harpa de triplices cordas...
—E lê todas as letras gravadas no Bastão dos Poetas...
Viriatho ficou ferido de curiosidade; e pensando n'essa revelação casual, disse para as tres moças:
—Eu conheço o pae de Lisia, e sei bem que elle é meu amigo a valer.
E dizendo-lhes um adeus com simplicidade, continuou a sua marcha á chegada dos tres companheiros, subindo a encosta do grande Herminio.
XXVI
Apesar de declinar o sol, que se reflectia brilhante nas Penhas Douradas, que estão voltadas na sua immensa altura para o Occidente, Viriatho, calçado com as abarcas espartenhas, e de bornal ás costas, caminhou para a Serra através dos precipicios seus bem conhecidos. Dirigiu-se para o planalto da Torre, onde costumam reunir-se os Maioraes da Mésta, quando fórmam Conselho entre si, para resolverem sobre a transhumancia dos gados, sobre o abastecimento da Arca do pão, ou sobre castigos dos cachopos. Viriatho ia tocando em certos pontos, como Barros Vermelhos, Covão grande, Lagoa escura, n'uma buzina de corno um signal, que era conhecido de todos os Maioraes; quando chegou, já noite alta, ao planalto da Torre em fórma de estrella, pouco ou quasi nenhum tempo esperou pelos Maioraes, que se appresentaram no local destinado á comparencia da Cabana. Eram cinco os Maioraes que governavam os gados lanar, cavallar, cabrum, porcum e vaccum; e quando se reuniam tinham a Mixta Jurisdictio. Tal era o Conselho da Mésta, denominado entre elles a Cabana. O primeiro que appareceu ao toque da buzina foi Edovius, que governava a boiada; accudiu presuroso Togotes, que mandava nos cavalhariços; não se fizeram esperar Uvarna, o maioral dos porqueiros, Suttunus e Semesca. Todos elles se lembravam do toque da buzina de Viriatho, e occorreu-lhes que era caso extraordinario. O Cabecilha fallou-lhes sem preambulos:
—Convem-me que sejam apartados trezentos touros bravos, barrosos, corpulentos, das manadas da Betica! Esses touros bravos hão de ser guiados por vinte vaccas mandarinas, d'aquellas mais luzidias e brincalhonas, e dentro em dois dias devem estar mettidos nos Furados...
—Nos dois extensos algares abaixo da povoação de Sarzedo?
—Ahi mesmo. E tambem se torna necessario, que vão mais atraz dos touros bastantes cães de fila, d'esses que pela sua firmeza em impellir os touros tem o nome de Maioraes.
Os cinco Maioraes da Mésta sorriram-se, comprehendendo o plano; esfregavam as mãos, antevendo a audaciosa empreza, tentada por Viriatho; e dirigindo-se ao antigo companheiro:
—Cá pela nossa parte não é que o plano hade falhar.
E descendo do planalto da Torre para as casas de suchão, em que se abrigavam, passaram por um grupo de cachôpos, que estavam de vigia, e para não terem somno trocavam suas Adivinhas. Dizia um:
—Redondo é o curral,
Vaccas pelo bostal,
Lindo é o azagal,
Cão peor que chacal?
Nenhum dos cachôpos dava com o sentido da adivinha. Viriatho ao passar pelo rancho sorriu-se, dizendo para os Maioraes que o acompanhavam:
—Nos meus tempos de azagal tambem ouvi esta adivinha.
E fallando para os mancebos, explicou-lhes:
—Redondo curral, é o céo; Vaccas pelo bostal, são as nuvens espalhadas; Lindo azagal, o sol; Cão peor que chacal, é o vento frio, que arrebata as nuvens.
Uma franca risada dos moços foi o signal de assentimento. Viriatho veiu descendo, tomando pelas veredas, passos e descansadoiros, canadas e quinchorros, dirigindo-se para a povoação mais proxima do grande Herminio, onde o esperavam os companheiros da Trimarkisia.
Os Maioraes da Mésta trataram logo de ir escolher as vaccas mandarinas para em seguida ajuntarem os touros bravos que hão de entrar na mysteriosa lide. Essas vaccas folionas, de côr branca da pellagem, são dotadas de uma macieza de pelle e de uma corpulencia meã, chifres pequenos, abertos e delgados, olhos pequenos, accesos, bem afflorados, com pestanas brancas. Exercem sobre os touros um poder invencivel de seducção, que os subjuga; com ellas é que os Maioraes os governam. Têm o pescoço grosso e de farta barbella, que se recorta em curva e se prolonga até ao peitoral; lombos largos e cauda curta, membros finos e aprumados, ventre pequeno e ubere farto. Pelas suas fórmas graciosas parecem-se com o typo do gado alvação. São brincalhonas tanto na docilidade do curral como na vida aspera dos montes.
Os Maioraes da Mésta estavam seguros de conduzirem e entregarem a Viriatho os trezentos touros bravos.
XXVII
A aldeia de Loriga foi para onde se dirigiu Viriatho, na falda da serra. Diziam que era d'alli natural; mas outras povoações, como Folgosinho, Ceia, Covilhã e Vizeu, tambem disputavam a gloria de terem sido seu berço. Antes d'essas pequenas terras o adoptarem como filho, já elle estava possuido do sentimento que o levou a dizer de toda a Lusitania:—Esta é a ditosa patria minha amada. Viriatho sentia um prazer intenso ao vêr os trabalhos da povoação pacifica; um grande circulo de raparigas, com suas arrecadas e collares de ouro, e axorcas nos braços e pernas, estavam occupadas em uma espadellada de linho. Ao rithmo das pancadas iam cantando, porque na Lusitania o trabalho foi sempre uma festa, e ao som de cantigas. Approximou-se para escutar a
Chacoula da Espadellada
Separa-se o linho
Das suas aréstas,
Nas espadelladas.
Que alegres pancadas!
E com gosto dadas.
Trabalhos são festas:
Quem olha a fadigas!
Já pelo caminho
Vem as raparigas,
Soltando cantigas
Das mais namoradas.
Quem quizer saber
Quantas conversadas
Andam cá na villa,
Sem maior quesila
Póde conhecer,
Vendo nas mãos d'ellas
Como as espadellas
São bem trabalhadas.
Eu, por mim, sei de uma
Que na espadella
Tem um coração
Feito pela mão
De quem é só d'ella.
Para conhecel-a,
Bastará ahi vêl-a
Sempre olhos no chão...
Mais adiante, em outro casal descendo a encosta por onde se estendia Loriga, havia ruidosos signaes de alegria; era um Fiandão, uma festa em que das povoações visinhas concorriam muitas raparigas para fiarem em festivo ajuntamento todo o linho de uma casa. Era de uso concorrerem tambem os moços namorados, que tocavam seus machêtes, cantando á porfia as
Endechas do Fiandão
Que vezes te vêjo
No limiar da porta
De pé a fiar!
Eu, indo a passar,
Cá de longe um beijo,
Que mal me conforta,
Enviava-te então;
N'essa occasião,
(D'isso não te accuso)
Bem notei que o fuso
Te cahiu da mão.
Se te cáe o fuso
Quando estás á porta,
Será por cuidado,
Imaginação,
Que haja eu causado
Com tanta paixão?
Mas, isso que importa!
Ou será ou não.
Seja como fôr,
Certos signaes são
De ânimo confuso;
Talvez falta de uso
De occultar o amor,
Pois te cáe o fuso
Tanta vez da mão.
Com que alegria,
Ou satisfação,
Levantára o fuso
Que te cáe ao chão;
Eu t'o entregaria
Com a cortezia
Que no amor é uso,
Declarando então:
—Eil-o, em homenagem
D'esta vassalagem
De leal coração;
Para sempre agora
Não cahirá, senhora,
Mais da vossa mão.
Emquanto o moço cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirára. Por casualidade cahiu o fuso da mão a uma d'ellas, e logo as risadas animaram o Fiandão extraordinariamente.
Um outro cantador dedilhou no machête que trazia umas Coplilhas
Ao morder do fio
Que inveja me faz
E tanto me toca,
No fio do linho
Que puchas da roca,
Os beijos que dás!
Presinto, adivinho,
Se esse linho eu fosse,
Como me era doce
Sentir tua bocca!
Tu segues fiando,
De mim descuidada,
Á bocca levando
A linha delgada
Que torces nos dedos!
Do linho os segredos
Tivera eu a posse,
Que os sonhos provoca:
Como me era doce,
Se esse linho eu fosse,
Sentir tua bocca!
E emquanto na roca
Tu passas fiando,
No immenso desejo
Que acorda o que vêjo
E a mente traz louca,
Ficarei sonhando:
Se esse linho eu fosse,
Como me era doce
Morder-me tua bocca!
Estas coplilhas ainda provocaram mais ruido, procurando-se algum rubor traiçoeiro. Ditálcon, que estava junto de Viriatho, enlevado na contemplação d'aquelles costumes da serra, por que tinha ouvido fallar muito na finura do fio lusitano, disse para o cabecilha:
—Isto é uma terra de poetas.
—E de apaixonados...
A phrase de Viriatho foi interrompida por um facto extraordinario; n'aquelle momento chegava á sua presença um rancho de homens, que o procuravam com anciedade:
—Nós somos gente da povoação de Gouvêa, que vimos...
O seu aranzel confundiu-se com este outro, mais atrapalhado:
—Nós somos gente da povoação de Manteigas, que tambem aqui vimos...
Viriatho impoz silencio a esse grupo de homens valentes, que vinham armados de varapáos e mangoaes, e com lucidez apurou em poucas perguntas, que eram povoações rivaes, que por causa das aguas de rega se hostilisavam de longos tempos, havendo todos os annos grossa pancadaria e até mortes. Os de Gouvêa não queriam que as suas aguas vertentes fossem para os de Manteigas; estes não lh'as queriam pedir. Então Viriatho sentenciou:
—Agora, que a nossa terra está invadida pelo inimigo estrangeiro, os odios internos enfraquecem-nos. É de força unirmo-nos: Entre Manteigas e Gouvêa haja paz para sempre. Em todos os comêços do Anno estival a communa de Manteigas irá levar á de Gouvêa uma bilha de agua, em signal da compra por que adquiriu a posse das suas regas.
—Bem julgado! gritaram todos.
E depois de terem bebido tigellas de zitho, e acclamado Viriatho, voltaram alegres para as suas povoações, em que o symbolo da concordia mutua se guardou no costume immemorial.
XXVIII
A noticia das devastações de Nigidio forçou Viriatho a reunir-se ás suas catervas, e a attrahil-o para as campinas em volta da Cava; com solercia foi evitando combates importantes, até ao momento em que os esculcas vieram dizer-lhe que Edovius e os outros maioraes tinham encurralado tresentos touros bravos dentro de um dos Furados, para onde os trouxeram pelo engodo das vaccas mandarinas.
—Vieram tambem os cães de fila?
—Estão prezos no outro Furado.
Depois d'isto Viriatho esperava com anciedade o cahir da noite, certo de que Nigidio recolheria o seu exercito dentro da Cava; Nigidio tambem contava como estrategia, o conservar-se n'aquelle territorio em que podia dar uma batalha campal pondo em acção toda a maravilhosa tactica das Legiões. E não era mal pensado, desde que elle conhecia que o exercito lusitano era incoherente, de guerrilheiros de disciplina irregular.
A noite cahia, e como Viriatho se afastára com os seus têrços para longe, o Pretor Nigidio deu ordem para que as Legiões se recolhessem para dentro da Cava, certo de que no seguinte dia conseguiria envolver Viriatho. Na escuridão da noite as sentinellas que vigiavam o acampamento romano viam de vez em quando luzir umas lumieiras pelos montes. Não suspeitavam o que seria. Era o signal combinado entre Viriatho e os maioraes da Mésta; por essas lumieiras sabiam elles a situação, e que era tempo para executar a estrategia.
Os touros bravos, em numero de tresentos, sahiram de um dos Furados, attrahidos pelas vaccas mandarinas, sempre em marcha accelerada na direcção da Cava. Os Maioraes, com extrema pericia guiavam aquella immensa força bruta. Semesca encarregára-se de trazer uns vinte cães furiosos da serra; e acompanhava a boiada mais atraz. Quando chegaram a pouca distancia da Cava já se via a estrella boieira; foi esse o momento escolhido. Viriatho fez açular os cães contra os touros, que os Maioraes montados e com varas compridas dirigiram para dentro da Cava, tendo-lhes na carreira cega retirado as vaccas mandarinas da dianteira. A furia dos touros excedia quanto se imaginára; vendo luz no acampamento dos romanos, para ahi se atiraram em um impeto irresistivel. Tudo cahiu deante d'esse assalto de uma força de ariete. Os gritos de horror, a confusão de vozes revelavam a enormidade da catastrophe. O que fizera Galba com os dez elephantes africanos contra os trinta mil lusitanos indefezos, agora Viriatho o repetia contra as Legiões romanas arrojando-lhes na escuridão da noite tresentos touros dos mais bravos da Betica, e impellidos pelos indomaveis cães dos Herminios. Os touros destroçaram todo o acampamento; e quando Edovius e os outros Maioraes entenderam ajuntar os touros e leval-os caminho da Serra, Viriatho entrou na Cava com as suas catervas e foi passando á espada quantos sobreviviam do exercito de Nigidio. Eram estes recursos extraordinarios, que tornavam temivel Viriatho manobrando com um exercito sem disciplina, e que em uma batalha campal não resistiria diante de uma bem organisada Legião. Não era a primeira vez que os touros se empregavam como uma arma de combate; mas em tamanho numero, e tão calculadamente, com o concurso de boieiros experimentados, e produzindo um effeito tão completo só a Viriatho compete uma tal gloria.
A insignia da Legião, que era uma Aguia poisada sobre uma rodela sem ornatos no tope de uma comprida vara, appareceu calcada e recalcada; e entre os corpos mortos viam-se esfrangalhados os balsões ou Vexillos das Cohortes bordados a ouro com os numeros de cada uma e o nome da Legião. Pelo chão revolvido e ensanguentado notavam-se as Signas ou bandeiras dos Centurios; algumas ainda conservavam no alto da vara uma mão direita como symbolo da fidelidade, ou uma corôa allusiva a alguma victoria. Ainda agarrados aos seus pendões, jaziam Porta-Estandartes com as cimeiras de cabeças de leões cujas pelles lhes pendiam das costas. Cascos de ferro e de cobre, escudos de páo chapeados de ferro, cotas de malha revestidas de couro ou guarnecidas de escamas de metal, couraças de bronze, espadas de dois gumes, parazonios ou espadas curtas, dardos, flexas, fundas juncavam todo o ambito da Cava, como se um torvellinho de morte tivesse dispersado o acampamento de Nigidio.
Os despojos do exercito romano foram em grande parte dados aos Maioraes da Mésta, em paga do seu trabalho e acerto. D'ahi veiu o apparecerem ainda passados muitos annos, collares fixos ou torques, cistes de bronze, dracmas de prata e armas romanas, por muitos logares inaccessiveis dos Herminios.
XXIX
Entre os poucos legionarios do exercito de Nigidio que escaparam não appareceu o general; fôra uma victima da tremenda catastrophe. Os chefes do exercito de Viriatho resolveram prestar uma homenagem á Deusa-Mãe, do culto chtoniano, I-Ana, ou Anah, levando em um carro puchado por vaccas brancas, até as lesirias da margem do rio Pavia, a Pedra focal, com que ella era representada na religião lunar da Lusitania. D'esse culto primitivo, ficou a superstição de revolver penedos, junto dos lameiros ou charcos, e a crença nas Jans ou fadas, e nos juncaes chamados Omomi, de que o povo fez a entidade do Bom Homem. A Pedra focal foi conduzida com o respeito de quem via n'ella o symbolo da fundação da familia, e no pleni-lunio dansava-se diante d'ella ao som de sistros e adufes, tal como usavam as familias religiosas dos Cabiras, Telchines e Dactylos. A Pedra focal era entre as tribus dos Germanos tambem levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago.
No meio da festa apparatosa da Deusa-Mãe, todos os guerreiros do exercito de Viriatho se approximaram da Pedra focal e collocando a mão sobre ella fôram proferindo um juramento inquebrantavel:
—Nós combatemos pela liberdade da Lusitania, fonte da paz e da segurança das nossas familias. E emquanto a Lusitania fôr pisada pelo invasor romano, nós juramos combatel-o sempre, sem regressarmos a nossos lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos filhos até ao final triumpho, em que todos estamos empenhados.
A confiança na audacia e intelligencia de Viriatho é que motivava estas resoluções extremas, que, se fosse necessario, seriam levadas até ao suicidio. Viriatho começava a apparecer como um vulto maravilhoso, e corriam vozes de que o toque das suas mãos dava saude. E quando o carro era levado para a beira do rio com a Pedra focal, trouxeram ao encontro de Viriatho um pobre homem hydropico, em extrema deformação, para que o soccorresse com o seu poder e o livrasse de tanto soffrimento. Viriatho attendeu o desgraçado doente:
—Para o teu mal ha um remedio infalivel nas aguas da Fonte de Ouguella. Segue para lá quanto antes, e fica certo de que te curas.
—Senhor! disse o hydropico: Eu sou Bovecio; e prometto, quando voltar curado, ser teu soldurio, acompanhar-te nos perigos e ainda além da morte.
Viriatho, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou:
—Não tem essas aguas sómente virtudes medicinaes; o pão amassado com agua da Fonte velha de Ouguella fica mais leve e saboroso do que o melhor pão de Avintes.
Um dos soldurios interveiu:
—Conheceis bem todas as riquezas d'esta nossa terra, porque a tendes percorrido de norte a sul.
—Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas fadigas da Mésta, quantas vezes fui eu ás aguas afamadas de Aljustrel, lá no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por lá encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes, de sarna e até da lepra. O que sei dizer, é que de lá voltavam sempre curados.
—São aguas santas!
—Santas, sim, mas é preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais... Os banhos, esses são milagrosos.
—Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional do Monte do Castello?
—Se conheço! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que até se diz que não ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas Thermas.
—Toda esta nossa Lusitania é rica de aguas milagrosas.
E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho completou o seu pensamento:
—Como as aguas do Tagus não ha outras no mundo mais acerosas; nem as de Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora na Cava.