XXX
A Guerra dos ladrões, como chamavam em Roma á lucta heroica de um povo defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia, prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da civilisação. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a espalhar que Viriatho se rendera, que fôra agarrado; que seria trazido para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade cruenta irrompeu quando se viu que fôra encarregado Caio Lellio, que era por todos cognominado o prudente, de partir rapidamente para a Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se desmoralisára. E tal era a importancia da missão, que Lellio partira revestido da auctoridade de Proconsul. A situação era extremamente grave; porque um dos generaes romanos, não se sabia se Unimano ou Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira. Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiança pela clareza de intelligencia que possuia; não iria imprimir um impulso decisivo ao Bellum latronum, mas ninguem como elle saberia informar o Senado da situação da Lusitania e das condições que cedo ou tarde conduziriam á victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas qualidades não eram incompativeis com o espirito militar de um chefe tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a chegada de Gaio Lellio á Lusitania não produziu ruido; a sua obra capital foi sustar promptamente o revês que se precipitava, reunindo os dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o provocava, com constantes escaramuças. Depois d'isto preparou as cousas para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informações para o Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber, tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes, escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul:
«Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania é habitada pela mais poderosa das nações hispanicas; e que achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.
«Não provêm a sua força do numero dos seus habitantes, mas da sua resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravidão.
«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes eleitos apresentam-se na entrada de Maio promptos para a campanha, seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados, soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição, ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.
«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros, adoptando para o seu exercito a Espada hispanica, que lhe tem proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio; muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico, e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde. O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em um Cavallo branco, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando ou a Viria, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que, não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico. Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual. Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a alcançar a gloria d'essa traição.»
Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.
O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os acontecimentos atropellavam-se exigindo uma acção immediata. Para os espiritos ambiciosos a missão de Lellio tambem fôra frustrada; era uma derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu á corrente da opinião: n'aquelle anno de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da Guerra dos Ladrões, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmãos de afamadissimos generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na victoria de Pydna, e na destruição de Carthago. Fervia-lhes o sangue; Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.
XXXI
A Guerra viriathina, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza que lhe competia, preparando uma solução pratica. Usando de um direito de negociar e concluir allianças com os povos estrangeiros, entendeu o Senado que era tempo de propôr a Viriatho um tratado de mutuas garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigações, e designados sob o titulo de Foedus aequum. A lucta desesperada das populações da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de independencia local e pessoal, que Roma não podia apagar pela força das suas legiões; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e os individuos adquiriam o Jus peregrinum, gosando de uma protecção legal em Roma sem dependencia de patronos.
Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a difficuldade de poder submetter esta região hispanica ao regimen do Foedus iniquum, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos submettidos ao seu protectorado. A Lusitania não era um inimigo vencido, nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na Hispania Ulterior indicando a opportunidade do Foedus aequum. Approveitava-se a occasião da partida de Quinto Fabio para a Lusitania: elle seria o portador do tratado de alliança, ficando-lhe reservado o arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A convenção diplomatica não comprehendia sómente a segurança das pessoas e das transacções entre os dois paizes; continha-se ahi um facto capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execução do tratado como soberano.
Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados no governo sorriu-se com superioridade:
—Todas essas garantias estão apenas na letra; por que vós todos sabeis, que embora pertença ao Senado a direcção das negociações com os estrangeiros, nenhuma alliança poderá concluir-se sem que os Comicios lhe prestem o seu assentimento ou ratificação.
A ideia diplomatica foi promptamente comprehendida. Na partida de Quinto Fabio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteudo ignorava, e impondo-lhe a clausula, que só o abrisse e cumprisse, quando e até aonde a marcha dos acontecimentos o determinasse. Era ainda um habil modo do Senado eximir-se a responsabilidades.
As forças que Lellio commandava em Hespanha estavam cansadas e apavoradas; o Consul Quinto Fabio comprehendeu que era condição impreterivel partir com algumas novas Legiões, para com ellas metter em disciplina as que se consideravam exhaustas. Os exercitos romanos estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grecia, da Macedonia, de Carthago, achavam-se diminuidos e tambem debilitados por esforços ininterruptos; os veteranos que regressavam á patria vinham semi-mortos, e para nada se poderia contar com elles. De Pydna haviam chegado a Roma as Legiões triumphantes; da destruição de Carthago regressava Scipião com os seus bravos; mas nenhum legionario se quiz inscrever para acompanhar Quinto Fabio para a guerra da Lusitania, justificando-se com desdem que não desciam das altas façanhas contra nações grandes e civilisadas, contra umas obscuras tribus miseraveis dos confins do occidente e demais commandadas por um chefe de ladrões, (Dux latronum). Por estes imprevistos embaraços, e pela situação apathica em que se via Caio Lellio, a guerra lusitana afroixára; Viriatho, para não cansar as suas Companhias e Terços aproveitou-se d'esta tregua forçada, contando que nova epoca de lucta seria iniciada, cada vez mais desesperada e cruenta da parte dos Romanos.
XXXII
Para que a inactividade passageira em que se via não prejudicasse o perstigio que exercia sobre os seus homens de armas, resolveu Viriatho ir consultar o velho Idevor á ilha sagrada de Achale, junto do promontorio Cepressico, aonde se conservavam as tradições cultuaes trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus Mil Soldurios, e transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetobriga, aonde o Sado desemboca no Oceano, deu ordem aos companheiros que alli o esperassem durante tres dias.
D'alli, d'aquella bahia do Sado, partiu Viriatho em uma barca de couro, com os trez Cavalleiros que sempre o custodiavam, em direcção ao promontorio Cepressico de traz do qual parecia occultar-se a ilha de Achale. Um d'esses companheiros, Ditálcon, dizia:
—Foi n'essa ilha que se refugiaram as familias lusitanas assombradas pelo morticinio de Galba; junto do templo do Deus innominato, encontraram alento para resistirem á calamidade que os aniquilava.
Minouro, ancioso por pisar aquella ilha mysteriosa de Achale, avivava tambem as suas reminiscencias:
—Conta-se que outr'ora um Collegio sacerdotal de Druidas estava na ilha Pelagia, situada ao norte, fronteira á costa de Ophiusa, chamada d'antes Oestrymnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os Bardos, que doutrinaram as tribus de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar Tenebroso indo buscar o estanho ás ilhas Cassitérides, e voltavam confiados no afamado pharol da torre de Brigantia. Mas, quem sabe onde está hoje essa ilha Pelagia?
Andaca observou:
—Desappareceu, ou por mysterio ou força da natureza. O mar desfez essa ilha, e aonde ella existiu é hoje um vastuo estuario coberto de moliço e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prevêr que a Lusonia tem tambem de desapparecer como a sua Ilha encantada. Aqui a nossa raça foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os Phenicios e Jonios, destruindo a nossa navegação no Oceano, mettendo a pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu commercio os Carthaginezes, que attrahiram sobre nós a pilhagem dos Romanos, que hoje temos vencido, mas que não largam a prêza.
Emquanto a barca de couro seguia para a ilha de Achale, ia Viriatho reconcentrado e silencioso, como absorto na alta missão da sua vida; ao ouvir aquellas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso intimo da sua intuição quasi prophetica, exclamou para os trez companheiros:
—Não serão sómente os Romanos que hão de pensar em submetter ao jugo as tribus da Lusonia; outros povos ou outras raças virão do norte e do sul, e se espalharão sobre este territorio julgando possuil-o pela força da conquista. A Lusonia póde ser temporariamente vencida, mas nunca d'outrem subjugada; não se extingue, porque a sua liberdade subsistirá nas almas, e cedo ou tarde manifesta-se em espirito e renasce em restauração gloriosa.
As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o promontorio Cepressico, e appareceu repentinamente á vista a Ilha sagrada de Achale.
—É alli, é alli que se guardam os thesouros salvos ás devastações e rapinas dos Romanos; outros povos lançam os seus thezouros aos lagos escuros, como melhor meio de defeza. Mas quem saberá da existencia d'esta ilha mysteriosa? Ninguem; ninguem.
Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preoccupação que desde aquella hora sabia aonde se guardava o chamado Thesouro do Luso. A mesma ideia tornou-se uma obsessão para Ditálcon. A barca chegava já ás rochas escarpadas da ilha de Achale, sobre a qual se erguia uma Torre redonda de trez andares, como sentinella do Oceano tenebroso.
Erecta sobre o pequeno promontorio, a Torre redonda de uma surprehendente elegancia, era construida de fortes blocos apparelhados de pedra sêcca, tendo no cocuruto um tecto tambem de pedra em fórma conica. Dos seus tres andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol formadas em pequenas torres lateraes que terminam em ameias.
O interior é alumiado por seteiras geminadas, e a porta unica da entrada está a uma altura do chão para a qual se sobe por uma escada movel que se faz baixar quando é necessario. Como logar de refugio alli estão depositadas as folhas plumbeas que têm impressos os titulos das familias, e relações dos successos memoraveis, Crescentes e Virias de ouro, Fibulas mamilares, Tiaras e Bastões de prata, insignias do commando dos patriarchas. Alli na Torre redonda se conserva o Fogo perpetuo consagrado a Samham, o Julgador dos mortos, cujos ritos se celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos Antepassados ahi residem as Gemmades (de Genmaidh, puro e casto) mulheres formando uma como classe de Vestalato ou Lucae dominicae; e alli comparecem os tocadores das Harpas triplices ou de tres cordas, chamadas Telyne, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente acompanhando os canticos de uma inspiração divina expressa pela palavra Awen.
E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca:
—Não tem porto Achale?
N'isto roçou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de communicação do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos, que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.
Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava á cabeceira da meza, como se fosse um Brenn ou Hegmon das tribus.
E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raça, cingidos os cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e cantando em unisono um côro que repetiam, foi o seu canto interrompido por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra. Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o penetrou com uma vibração seductora e dominativa, e viu lentamente descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graça e frescura sobrehumana.
Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da raça, e guarda das tradições mais augustas das tribus lusonias. Estava vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o alto da cabeça e vinha ás pontas das orelhas. Era uma Semnothêa, cercada por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo escadorio, e atravessando por entre o Côro das donzellas, que a foram seguindo, tomou de uma ára a taça de ouro destinada ás symposias, e chegando em frente de Viriatho, estendeu o braço desnudado, alvissimo e de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taça de ouro:
—Bem vindo! Viriatho. Só para ti, e com a minha felicidade.
Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela belleza extrema que alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taça da branca mão de Lisia e extactico, paralysado no seu movimento, não a levou logo aos labios. No rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria desattendida a sua escolha? não a amaria o guerreiro de que tanto lhe fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?
Tudo o amor adivinha; lê nas almas, e o silencio é a linguagem mais expressiva da emoção ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo á hesitação involuntaria de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos labios:
—Á tua saude! e para sempre.
Entrega em seguida a taça a Lisia, que com um rubor fascinante a levou aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia, murmurando com suavidade:
—Para sempre!
E emquanto se entreolhavam em um invencivel enlêvo, Idevor ergueu ambas as mãos abençoando-os, lembrando-se de que aquella criança bella perdera toda a sua familia na mortandade de Galba, e de que aquelle homem forte surgira como o vingador e o libertador da Lusitania. Essas duas almas fugiam uma para a outra. As nove donzellas que acompanhavam Lisia como uma fórma não organisada do Vestalato, mas que poderiam ser comparadas ás Senae ou Barrigenes gaulezas, cantaram um hymno de amor, ao som de tetracordes, sobre a phrase que Viriatho e Lisia tinham trocado:
Para sempre—no espaço
A estrella
Erma, bella,
Fulgor vivo derrama:
De paixão nunca lasso,
O que fará quem ama?
Para sempre—o sol flavo
Solta a flux
Vida, luz,
Que o seu calor inflamma;
Da attracção pura escravo
O que fará quem ama?
Para sempre—o Oceano
Tudo alaga
Com a vaga
Que plangente rebrama;
Da alma no doce engano,
O que fará quem ama?
Para sempre—sereno
O luar
Faz scismar,
E mil saudades chama;
No enlêvo mais ameno,
O que fará quem ama?
Para sempre,—e sem calma
A paixão
Na attracção
Do enlêvo augmenta a chamma;
E embala o engano da alma
Para sempre em quem ama!
O hymno de amor desdobrava-se em um coral unisono no retornello—O que fará quem ama?—deixando uma impressão mais que humana. Emquanto os eccos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre redonda, Lisia, de mãos dadas com Viriatho, foi percorrendo a sala á volta, cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com sympathia. D'alli subiram os dois para o terceiro e ultimo andar da Torre d'onde se alcançava a extensão immensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um céo sereno e sem nuvens.
—Como as nossas almas!—disse-lhe Lisia, apontando todo aquelle ambiente.
Alli, n'aquelle retiro ignorado do mundo e até aonde sómente Lisia tinha accesso pela sua qualidade de Semnothêa, alli, de pé, junto de Viriatho, e contemplando o Oceano profundamente placido n'aquelle dia, confessou-lhe a noiva ingenua:
—Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como és. Como Semnothêa e para que te entregue completamente a minha vontade, só me falta uma prova de ti. Tens de responder a um Enigma.
—O coração que ama tudo adivinha.
Então Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:
Vive sem ter corpo,
No valle ou em gruta;
Falla sem ter bocca,
Sem ouvido escuta?
—Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo Ecco.
—Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.
E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriatho, e atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:
—Para sempre!
E Viriatho, tomando-lhe as mãos ambas:
—Eu ouvia fallar de ti como uma apparição celeste, mas não tinha esperança de chegar a vêr-te. N'esta vida de combates que levo, para a independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como consequencia da lucta, e então... morreria sem vêr-te.
—Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e Virgem Semnothêa do Collegio sacerdotal, que através de todas as perseguições e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada de Achale, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida com a independencia da Lusitania.
—É para mim muito mais do que a corôa de rei a escolha que de mim fizeste para teu esposo.—Disse Viriatho, tomando as mãos de Lisia e beijando-as trémulo.
Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou com emoção e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo não um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo, fitando o mar como esquecido de si.
Lisia, com ternura e graça, perguntou-lhe:
—Quando te entreguei a taça de ouro, por que hesitaste em leval-a aos labios?
—Dominou-me o espasmo de uma impressão divina.
—Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro aos labios acceitando a minha escôlha; mas... só virei a ser a tua Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado quando um General romano te pedir a Paz.
—Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me á tua vontade,—para sempre. A condição que revelas é um impossivel, por ventura para não te destituires da hierarchia de Semnothêa? Virgem dos mysterios cultuaes, nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura, e tirando d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo eu? deixa-me delirar um instante, para forçar um Pretor, um Consul a pedir-me a Paz. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal não ter familia em quanto não expulsar os Romanos da Lusitania.
Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibração de confiança em si, para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a condição quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que trazia, metteu-o no dedo da mão esquerda de Viriatho, n'aquelle em que se diz passar a vena-percordial.
E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o não deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de Lisia, que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguivel raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no Terçado e no Annel os Talismans que pelo poder da tradição formariam o Thezouro do Luso.
XXXIII
No segundo dia em que Viriatho passou na ilha sagrada de Achale, o velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre redonda, e ahi ambos a sós, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento mysterioso; fallava Idevor:
—«Tens a força material, n'essa Espada Gaizus, que te torna invencivel: a força moral é a que não se extingue e mais se communica. Já que o teu braço serve com lealdade a causa da Lusitania, é preciso que o teu espirito seja apoiado pela Tradição da nossa raça; que a conheças, por que a tua memoria sobreviverá n'ella, e que com ella ligues em um vinculo affectivo todos os companheiros de armas que seguem o teu commando. A tradição do passado é dolorosa, mas sublime; nós os Lusos sômos um ramo d'essa grande raça navegadora que desceu do Norte pela borda occidental da Europa, occupou as ilhas Britanicas, a orla atlantica das Gallias, da Aquitania, e espalhando-se na Hispania, chegou ás ilhas Mediterraneas e á alta Italia.
«Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os amphibios, tirou d'esta qualidade os nomes de muitas das suas tribus, que fórmam Ligas hanseaticas para protegerem a sua actividade mercantil, vendendo os blocos de Ambar amarello que iam buscar aos mares do Norte. Esse grande Povo, d'onde proviemos, encetou as audaciosas navegações do Oceano atlantico, descobrindo ahi as Ilhas Afortunadas, tocando em um ignorado continente que fica lá para as bandas do Oéste ou a terra dos Aymaras, a quem communicou a sua civilisação e conhecimentos de astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo persico, e depois de estacionar na ilha de Dilmun, occupou a baixa Chaldêa, dirigido por Oannes ou Huan, que na velha lingua designava o Sol, que era o guia certo d'esses navegadores primeiros.
«Perdeu-se a noticia d'estas largas navegações; a raça foi atacada por outras raças fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas, armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que só conheciam espadas de bronze; e essa raça corpulenta e loura, irrequieta e inculta, bateu os Ligures, escravisou-os ou misturou-se com elles desnaturando-os da sua pureza primitiva. Por mar os Phenicios e os Jonios do Mediterraneo lançaram-se no esteiro das suas navegações e mettiam a pique todos os baixeis liguricos que encontravam. N'esta longa lucta é que os Ligures foram succumbindo; sobretudo na Hespanha, quando os Iberos, vindos do norte da Africa, aqui entraram e monopolisaram o commercio do estanho que iam buscar ás Ilhas Cassitérides.
«Outras raças vieram successivamente á occupação da Hespanha, e aqui foram comprimindo a raça de Lez, o generoso povo da Lusonia, empurrando-o para a faixa occidental, e como que procurando arrojal-o ao mar Oceano. É no conflicto d'estas raças invasoras que a Lusitania tem diminuido de territorio, e as suas tribus vão sendo desmembradas. Os Romanos acharam-os já enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na faixa que hoje occupâmos, á antiga invasão dos Celtas, e até agora nunca confundidos nem incorporados pelos Iberos. É com esta força de resistencia immanente na possa raça que deves contar; ella vale mais do que muitos exercitos disciplinados, estes morrem mas esse sentimento é inextinguivel. A Lusitania não é somente um territorio maior ou menor, que nos aggrega; é uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jonios roubaram-nos as nossas tradições poeticas, transportando para as cabotagens do mar Mediterraneo as nossas aventuras temerosas passadas no Atlantico, que se tornou para os seus geographos o Mar Tenebroso. Os Phenicios afundaram os nossos baixeis e apoderaram-se dos nossos Periplos e do nosso commercio. E depois de tanta devastação do estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa Roma votar-nos ao exterminio para assim firmar a sua posse pacifica da Hespanha, segura de que o Ibero se considera honrado com a expoliação do seu dominio. Hoje, Roma conta com a antipathia do Ibero para subjugar a Lusitania: com o odio do Ibero contará mais tarde qualquer outra potencia estrangeira para submetter a Lusitania, dando-se como protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o véo do futuro?...»
Idevor explicára longamente este quadro do passado da raça dos Ligures, e a situação sempre combatida das tribus da Lusonia, quando ella tocava quasi os Pyrenneos, e mesmo as margens do Mediterraneo. Mostrára a Viriatho as moedas autonomas das antigas cidades peninsulares, as armas dos seus heroes, os collares do commando, por onde o Chefe ficou conhecendo todos aquelles povos agora desmembrados entre os Celtiberos, que pertenciam á unidade da Patria lusitana. Por este conhecimento precioso Viriatho adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos elles na defeza contra o Romano.
No terceiro e ultimo dia em que Viriatho se conservou na Ilha sagrada de Achale, o velho endre subiu com elle ao terceiro andar da Torre redonda, para aventar rapidamente alguns traços do futuro:
—«Vês esse Mar immenso! esse Atlantico, que os baixeis liguricos sulcaram destemidos outr'ora, e hoje o Phenicio monopolisa? Quando o Luso se vir comprimido entre as raças que avançam de léste e o mar, que hoje lhe serve de barreira defensiva, elle terá consciencia da sua missão no mundo, sentirá em si renascer a antiga energia da raça, e restabelecendo as grandes Navegações antigas fundará novos Imperios em vastos continentes agora ignorados. É este o destino da Lusitania: será a primeira das Nações, emquanto ella servir esta tradição, emquanto um fiel alliado estrangeiro a não espoliar das suas descobertas...»
O endre não era bem comprehendido; o praso chegára, e a barca de couro já fluctuava junto da lingueta de areia no porto de Achale. Viriatho desceu da Torre redonda, acompanhado pelo endre e pelo côro das Virgens á frente das quaes vinha Lisia; embarcou, chegando em breve á costa de Cetobriga onde o esperavam com anciedade.
Lisia dissera-lhe á despedida:
—Agora tens o teu espirito iniciado para ires á Pedra Virgem, e lá tomares conhecimento do antigo Poema de seis mil versos, gravados nos Bastões dos Poetas. Não basta dar unidade ás tribus lusitanas pelo poder da Espada: a Tradição conservada na Arvore d'Ogham, de que o ramo inicial e mais caracteristico se denomina Luis, bem revela que os destinos da Lusonia se eternisarão pelo perstigio do seu Canto nacional. Eu pedirei a Idevor, que te guie á Caverna das Inscripções oghmicas, junto á margem do Durius, e lá te descubra o grande Poema da raça, esse Pregão eterno do genio luso.
XXXIV
Apenas Viriatho se reunira aos seus Mil Soldurios, que o aguardavam impacientes, correu a noticia de que o Consul Quinto Fabio Maximo Emiliano, que fôra eleito n'aquelle anno de DCIX da fundação de Roma, já pisava o solo da Hespanha, vindo commandar pessoalmente a guerra. Considerava-se em Roma esse expediente como decisivo para assegurar o dominio da peninsula embaraçado por umas miseraveis tribus que tinham a ousadia de quererem ser livres.
Quinto Fabio sahiu de Roma descontente, porque sómente conseguira completar duas Legiões novas para reforçar aquellas já cansadas de que dispunha Caio Lellio. Conscio d'esta impotencia, o Consul comprehendeu os conselhos prudentes de Lellio, não pensando em dar começo á campanha sem se informar do territorio e dos costumes do temeroso inimigo, e mesmo dos elementos hostis indigenas que poderiam coadjuval-o; de mais, era conveniente desfazer as prevenções pessimistas que apavoravam as tropas. Quinto Fabio não foi ao encontro de Viriatho; e como que fugindo a uma conflagração, que poderia ser um desdouro para as armas romanas, procurára ponto estrategico para collocar o seu exercito, a coberto de qualquer surpreza do Cabecilha lusitano. Procurou a grande planicie cortada pelo rio Betis, porque ahi existiam numerosas Colonias romanas, que eram outras tantas guardas avançadas que lhe asseguravam a defeza.
Desceu até á extremidade oriental da Turdetania, aonde predominavam povoações ibericas, para as quaes o jugo romano se tornava uma honra; e ahi, na cidade de Orson ou Urso, assentou os seus arraiaes com toda a segurança. A posição era de uma firmeza imperturbavel, porque se achava rodeada por muitas Colonias militares importantes, taes como a Italica, da parte continental ou interior, tendo apoio na cidade mais opulenta e populosa de toda a Betica, Hispalis, emporio commercial activo e rico, com um semi-circulo de fortalezas afamadas cheias de provisões, que eram Carmona, Astigi, Ucubi e Tucci. E como se isto ainda não bastasse para garantir a protecção ao exercito, ainda mais para o norte lá estava Corduba, a capital da Hispania ulterior, para impedir qualquer incursão do inimigo. Quinto Fabio podia estar seguro, porque com estes recursos era impossivel molestal-o do lado da terra; pelo litoral tambem não era presumivel o perigo, antes pelo contrario para uma eventualidade sinistra facilmente se refugiaria com o exercito nas fortes muralhas de Gades, de Carteia e de Málaca.
Por certo o exercito que Fabio veiu tomar do commando de Lellio estaria em situação desesperada, para que elle assim procedesse estabelecendo o seu arraial com uma exclusiva preoccupação defensiva. Dispostas todas as forças nos seus quarteis, cada dia que passavam na inactividade era um motivo de enfraquecimento e de indisciplina; para justificar essa necessaria apathia, Quinto Fabio simulou uma excursão ou theoria ao templo de Hercules Gaditano, para tornar propicio o Deus das povoações ibero-phenicias, e offerecer-lhe um apparatoso sacrificio, para assim lisonjear a credulidade d'esses povos e ligal-os aos interesses de Roma. A ausencia do Consul impunha a necessidade ao seu logar-tenente de manter a disciplina do exercito em operações continuas de adestração, acostumando-o ás emboscadas e surprezas de um inimigo incansavel e sempre empregando expedientes imprevistos. Nem por isso o animo da soldadesca se alevantava, por que o conhecimento das derrotas anteriores era um nefasto agouro; e além d'isso pobres mercenarios recrutados á força por todas as colonias e conquistas romanas não eram impellidos por um sentimento, como aquelles para quem morrer sobre o solo da Patria que defendiam era uma gloria e um delicioso sacrificio.
Emquanto Fabio se demorava na excursão ao Templo de Hercules Gaditano, evitava decentemente qualquer batalha com Viriatho, que se julgava muito longe; e o seu exercito ia cobrando alento para o momento opportuno. E não era o tempo perdido, por que o Consul conseguira, talvez pelas indicações de Caio Lellio, travar relações com chefes de algumas cidades dos Turdulos, dos Turdetanos, e principalmente das cidades Celticas, que já se mostravam cansadas d'estas guerras prolongadas que estavam embaraçando a entrada da civilisação romana na peninsula hispanica.
Viriatho não se temia do exercito de Fabio; conhecia que as duas Legiões recem-chegadas de Roma eram maltrapilhos apanhados nos enchurros da cidade, bisonhos despreziveis extranhos a todo o brio e espirito militar; os que cá estavam não podiam esquecer os revezes a que escaparam e as derrotas que lhes infligira com vontade. Mas, uma cousa preoccupava o Cabecilha: as conferencias de Quinto Fabio com chefes civis turdulos e turdetanos, as suas visitas apparatosas a cidades Celticas, revelavam-lhe que o Consul procurava uma nova força não no exercito, mas no descontentamento das povoações que naturalmente eram antinomicas com a liberdade da Lusitania. E reconhecendo que toda a demora na acção era um ensejo para Fabio se reforçar com este antagonismo de raça, Viriatho decidiu ir atacar o arraial em que se defendera o exercito romano, começando por se occultar pelas florestas circumvisinhas da cidade de Orson.
Fez-se essa operação com extrema pericia, porque os Terços lusitanos dirigiram-se de afastados pontos para a extremidade oriental da Turdetania, e insensivelmente se internaram por Companhias nas cerradas florestas d'essa vastissima planura.
Não se fez esperar o primeiro golpe; do exercito de Fabio saiu um destacamento de uns quinhentos homens para ir buscar lenha á floresta mais proxima da cidade de Orson; iam muitos carros puchados por bois e por cavallos. Quando estavam abatendo os troncos, de todos os lados surgiram os Companheiros de Viriatho, rapidamente, e tão certos no plano, que esses quinhentos foram totalmente trucidados, sem que a nova terrivel podesse ser levada a Orson.
A demora dos mateiros fez com que o logar-tenente de Fabio mandasse vêr que extraordinario caso se dera; trouxeram-lhe a noticia do morticinio, mas longe de suspeitar que um tal golpe só poderia ser dado pela audacia de Viriatho, o logar-tenente alardeando conhecimento dos costumes da Hespanha, exclamou:
—Foi uma partida de Salteadores, uma d'estas Quadrilhas que vivem do roubo e depredações, tão constantes na Hespanha. Irei castigal-os, eu mesmo.
E pondo-se á frente de uma Legião, dirigiu-se para a floresta proxima de Orson, na ideia de que apanharia os Salteadores. Assim que dividiu as forças para o cêrco e batida, sahiram-lhe das outras florestas os Terços de Viriatho, que subitamente cáem sobre os manipulos romanos e os destroçam completamente.
Os que conseguiram fugir levaram o terror ao exercito aquartelado em Orson; e sob a tremenda impressão foram emissarios levar a Fabio, que estava ainda em Gades, a nova espantosa, que o forçou a partir a toda a pressa, e a vir tomar o commando do exercito para proceder conforme o exigia a presença do inimigo.
O Consul estava bem industriado, e guardou-se de dar batalha campal a Viriatho; fez como o Caudilho, respondia ás escaramuças com outras escaramuças; não perdia gente, e tendo o seu exercito bem aprovisionado, considerava estes pequenos assaltos em que ficavam no campo trinta, cincoenta homens, como uma eschola em que adestrava os seus soldados á indole especialissima d'esta guerra sem egual.
XXXV
Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indecisão da campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiára o Senado. Era momento azado para negociar a alliança, por que não tinha sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o Cabecilha, para impôr condições vergonhosas. Mandou um emissario a Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz e alliança com Roma nas bases do Foedum aequus era uma solução honrosa em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da Lusitania.
Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade, reconhecendo-o como Principe da Lusitania. E na sua linguagem franca e rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o diploma que lhe fôra confiado:
—Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania é o empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliança com Roma, n'essa base de egualdade politica, será effectivamente uma garantia para a autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe ha uma phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rómulo, que foi chefe de ladrões e que teve habilidade para dar á sua quadrilha a cohesão de um Estado entre as Cidades italicas.
«A Lusitania é constituida por cidades livres e trabalhadoras, subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fóros; e muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de Salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de fallar, e sem mais valor do que banaes comparações; mas o que eu repillo com todas as véras de alma é o titulo de Principe da Lusitania. Não é a simpleza dura do meu caracter ou isempção que me leva a recusar esse titulo; é o conhecimento da tradição d'esta terra livre por que combato.»
«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano, começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes, para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania, desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o entregue ao assalto dos invasores.
«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra, vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado visa a outros fins, tem outros intuitos.»
O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem audaz, mas não com a grandeza do caracter.