The Project Gutenberg eBook of Viriatho: Narrativa epo-historica
Title: Viriatho: Narrativa epo-historica
Author: Teófilo Braga
Release date: October 9, 2008 [eBook #26850]
Most recently updated: January 4, 2021
Language: Portuguese
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OBRAS COMPLETAS
ALMA PORTUGUEZA
VIRIATHO
ALMA PORTUGUEZA
Rhapsodias da grande Epopéa de um pequeno Povo
| I. |
VIRIATHO—Narrativa epo-historica. | ||||||
| II. |
FREI GIL DE SANTAREM—Drama-lenda. | ||||||
| III. |
LINDA IGNEZ—Tragedia classica
|
||||||
| IV. |
OS DOZE DE INGLATERRA—Poema. | ||||||
| V. |
O PEITO LUSITANO—Rhapsodias cyclicas das Navegações. | ||||||
| VI. |
CAMÕES—Poema
epo-lyrico. |
||||||
| VII. |
GOMES FREIRE—Drama em cinco actos. |
ALMA PORTUGUEZA
VIRIATHO
Narrativa epo-historica
POR
THEOPHILO BRAGA
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
Lello & Irmão, editores
1904
Todos os direitos reservados.
Porto—Imprensa Moderna
A Alma portugueza caracterisa-se pelas manifestações seculares persistentes do typo anthropologico e ethnico, que se mantêm desde as incursões dos Celtas e luctas contra a conquista dos Romanos até á resistencia diante das invasões da orgia militar napoleonica. São as suas feições:
A tenacidade e indomavel coragem diante das maiores calamidades, com a facil adaptação a todos os meios cosmicos, pondo em evidencia o seu genio e acção colonisadora;
Uma profunda sentimentalidade, obedecendo aos impulsos que a levam ás aventuras heroicas, e á idealisação affectiva, em que o Amor é sempre um caso de vida ou de morte;
Capacidade especulativa prompta para a apercepção de todas as doutrinas scientificas e philosophicas, como o revelam Pedro Julião (Hispano), na Edade Media, Francisco Sanches, Garcia d'Orta, Pedro Nunes e os Gouvêas, na Renascença;
Um genio esthetico, synthetisando o ideal moderno da Civilisação occidental, como em Camões, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o Homero das linguas vivas.
O cantor das grandes Navegações foi quem teve a mais alta comprehensão do genio nacional; a ALMA PORTUGUEZA achou no seu Poema a incarnação completa. Quando Camões descreve nos Lusiadas, geographica e historicamente Portugal, referindo-se á tradição da antiga Lusitania, relembra o vulto que symbolisa a sua vitalidade resistente, diante da incorporação romana da peninsula hispanica:
Eis aqui, quasi cume da cabeça
Da Europa toda, o reino Lusitano,
Onde a terra se acaba, e o Mar começa,
E onde Phebo repousa no Oceano.
Esta é a ditosa Patria minha amada,
Esta foi Lusitania...................
D'esta o PASTOR nasceu, que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve;
Cuja fama ninguem virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
(Cant. III, st. XX a XXII.)
Deixo ... atraz a fama antiga
Que co'a Gente de Rómulo alcançaram,
Quando com VIRIATHO na inimiga
Guerra romana tanto se afamaram.
Tambem deixo a memoria, que os obriga
A grande nome, quando a levantaram
Um por seu Capitão, que, peregrino,
Fingiu na Cerva espirito divino.
(Cant. I, st. XXVI.)
No tempo do grande épico ainda se não tinha perdido o conhecimento da relação de continuidade historica entre Portugal e a antiga Lusitania, mais vasta e por isso mais violentamente retalhada pela administração imperial romana. Esse conhecimento, embora confundido com as lendas syncreticas dos falsos Chronicões, influiu na consciencia do nosso individualismo ethnico e nacional. O esforço de desnacionalisação de Portugal pela politica da unificação iberica, veiu até reflectir-se nos proprios historiadores patrios, levando-os a considerar Portugal uma formação recente, adventicia, sem individualidade, e a Lusitania quasi como uma ficção banal dos eruditos da Renascença! Mas o caracter persistente do typo portuguez, a resistencia tenaz contra todos os conflictos da natureza e pressões da vida, que tanto o distingue entre os povos modernos, é a prova manifesta da raça lusitana como a descreveram os geographos gregos e romanos. Nas luctas pela liberdade territorial a Lusitania deixou nos historiadores greco-latinos o ecco da sua resistencia indomavel, sobretudo no Cyclo das Guerras viriathinas, que se reaccenderam ainda sob o commando de Sertorio.
Pela sua genial intuição teve Garrett a comprehensão d'este caracter resistente e soffredor da nossa raça lusitana: «Os Portuguezes são naturalmente soffredores e pacientes: muito arrochada hade ser a corda com que de mãos e pés os atam seus oppressores, antes que rompam em um só gemido os desgraçados. Um murmurio, uma queixa... nem talvez no cadafalso a soltarão! Vendem-nos os desleaes pegureiros de quem nos deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a latido e mordedella de seus mastins; e nós vamos e nem gememos. Se um clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surde, aqui os clamores de rebeldes, os alcunhas de demagogos... e a nação (o rebanho, direi antes) que se resigna e soffre, e continua a caminhar para o exicio! Tal é, com as differenças de variados nomes e datas, a historia de Portugal quasi desde que a revolução ou restauração (restauração seria?) de 1640 fez da nação portugueza o patrimonio de meia duzia de familias privilegiadas e de seus satelites e parasitos.» (Carta de M. Scevola, 1830.)
Symbolisamos esta resistencia, vivificando o typo de VIRIATHO, reconstruindo poeticamente as situações laconicas referidas nos historiadores classicos; representamos artisticamente essa fibra que ainda hoje pulsa em nós, e pela qual, perante a marcha da Civilisação se affirma através dos cataclysmos politicos a ALMA PORTUGUEZA.
Assuetum malo Ligurem, disse Virgilio (Georg., II, 102) d'essa poderosa raça, de que o Lusitano foi um dos ramos mais activos; as terriveis desgraças que nos têm acompanhado desde a romanisação da peninsula até á subserviencia ingleza, como acostumados ao mal, não nos têm alquebrado: não apagaram a constituição da Nacionalidade, não embaraçaram as iniciativas dos Descobrimentos maritimos; não abafaram a expressão das altas capacidades estheticas. Pela expressão artistica se fixou a lingua portugueza, orgão reconhecido da nacionalidade, cujo sentimento se manteve pela idealisação poetica, em Camões. Seja ainda esse recurso poetico o meio de acordar a consciencia do passado de um Povo, no qual estão implicitos a sua rasão de ser presente, e o ideal do seu destino futuro.
Um dos fins da Arte moderna é a representação da vida dos povos e dos aspectos da natureza dos paizes longinquos, e tambem a evocação das edades passadas, vencendo por este exotismo o apagamento das impressões de tudo quanto nos cérca; assim se inicia a phase esthetica constructiva. Pela evocação da Raça penetra-se o sentir da fibra nacional, e por esta o drama das luctas das Instituições que se fundaram, o vinculo das Tradições, que foram germens e impulsos da missão historica e das creações artisticas que reflectiram a consciencia da collectividade.
VIRIATHO
I
No anno de DCIII da éra da fundação da Cidade de Roma, sendo Consules L. Licinio Lucullo e A. Postumio Albino, acontecimento inopinado suscitou nos espiritos um extraordinario alvorôço: O Senado fôra convocado repentinamente, com urgencia, sem ser pela fórmula usual de um Edito, mas pela peremptoria chamada nominal ordenada pelo velho e integerrimo Catão, denominado o Censor.
A gravidade do acontecimento forçára por certo o venerando presidente do Senado a simplificar essa fórmula da convocação? Algum grande crime perturbava ou ameaçava o governo da Republica! A curiosidade era immensa, e antecipadamente sabia-se que a voz austera de Marco Catão, o Censor, se ergueria no Senado contra o patricio o mais opulento dos romanos, que dispunha de riquezas bastantes para corromperem os juizes aos quaes se confiasse o seu julgamento.
Galba! era este o nome que soava de bocca em bocca, mais com inveja do que hostilidade, desde que o Tribuno do Povo Aulo Scribonio o citára para comparecer em justiça pelas depredações e carnificinas que praticára contra as Tribus e cidades tributarias da Lusitania, que como Provincia senatorial estava sob a égide da lealdade romana.
Era de um crime contra a magestade do Povo romano, que versava a accusação do Proconsul Servio Sulpicio Galba, ao qual fôra confiado o governo e administração da Hespanha Ulterior, essa parte occidental da peninsula em que se comprehendia a vasta Lusitania. Ninguem se atrevia a pôr em duvida a valentia do tribuno militar, que fôra á Hespanha com a missão especial de combater e submetter os Celtiberos; mas, sendo conhecida no mundo a gloria do Senado, que, vae para quatro seculos, dirige com um tino incomparavel as guerras de incorporação dos povos barbaros, como poderá consentir que no exercicio d'essa missão civilisadora lhe infamem a inviolavel auctoridade?
A voz de Catão ergueu-se no meio de um religioso silencio com a acuidade de um látego de fogo:
—Como velho octogenario, ninguem comprehende como eu o poder dos Costumes dos Antepassados representados hoje no Senado, como um tribunal permanente, de acção executiva, e com consciencia das necessidades publicas expostas pela palavra em discussão aberta. É d'esses Costumes dos Antepassados que deriva a Soberania com que nós todos aqui presentes, dando fórma á opinião publica, intervimos no organismo social de Roma. Diante de mim, e entre os trezentos membros aqui reunidos, vejo ainda os antigos chefes da Familia romana, os Patres, que pela edade fôram os Seniores, os quaes deram o nome a este Tribunal sacrosanto de Senado; tambem vejo os Conscripti, que a pouco e pouco fôram chamados a completarem o numero, que a morte ou a extincção das familias ia diminuindo. Emfim, aqui estamos constituidos tanto a Ordem senatorial como a Equestre, para deliberarmos sobre o que interessa á Republica. D'entre vós, uns exercem um poder temporario, e outros são inamoviveis desde que se reconheceram os seus serviços, e por sua vida incorruptivel são proclamados Censores. É pois no exercicio d'esta dignidade que eu fallo e conto ser ouvido, porque foi confiada á protecção da minha vigilancia essa uberrima provincia da Hespanha. Tendo eu, como Censor, cooperado sempre, todos os cinco annos, pela confecção do registo do Censo, na nomeação dos Senadores tirados dos antigos magistrados, raro será aqui o Senador que não deva á minha confiança a honra d'essa escolha confiada a Senadores consulares, a Senadores pretorianos, segundo as magistraturas, e cargos curues, em que se dignificaram. E tendo eu exercido este direito supremo dos Censores, compete-nos mais um, que é o da exclusão dos indignos do Senado...
Sentiu-se um vago rumor entre os trezentos membros da assembleia; Catão, quasi sem notar que o seu longo exordio já fatigava a attenção, proseguiu:
—É esse direito, que hoje me traz aqui, apoiado pela propria consciencia e pelo meu juramento. Eu bem sei que as attribuições dos Censores são constantemente diminuidas, e que virá tempo em que desapparecendo esta magistratura, irromperão as guerras civis. Deixemos o futuro, e perdoae as digressões proprias da provecta edade. Em gravissimas circumstancias, sabidas por nós todos, foi Servio Sulpicio Galba mandado á Hespanha como Pretor. E se a situação difficil reclamava todas as virtudes militares para a magestade de Roma se mantêr illeza, mais necessario era o espirito de uma intelligente politica, para perpetuar por bons tratados o que a espada nem sempre conseguiu. Galba deu primeiramente uma prova deploravel de militar incompleto, quando invadindo a Lusitania, perdeu sete mil e quinhentos legionarios, indo refugiar-se em uma situação ignobil em Carmona. Destemido, mas inconsiderado, é este homem por isso perigoso para a Republica. E ainda mais: é de um caracter falso, violando com descaro a palavra de um Tribuno, que vale tanto como um tratado escripto, rebaixando perante o mundo o poder romano sempre inquebrantavel, quando se trata de um dever moral. É certo que as trinta e seis cidades tributarias da Lusitania, sempre irrequietas e luctando pela sua autonomia e independencia local, tambem violaram o tratado concluido com Attilio, infestando as Colonias romanas, e as Cidades federadas e immunes, favorecidas com o regimen municipal. N'esta angustia, em que Roma tinha de impôr a sua auctoridade, bem comprehendera que já não devia empregar o systema da devastação; mas Galba, desgraçadamente não comprehendeu este pensamento governativo! Mandado á Hespanha, ahi chegou com um exercito cansado e exhausto; em vez de limitar-se á defeza immediata dos subditos romanos, encetou logo combates contra as tribus lusitanas, que nas suas emboscadas continuas, em assaltos repentinos o fôram estafando e enfraquecendo até encontrarem o momento azado em que se atreveram a dar-lhe uma batalha campal, em que ficaram trucidados sete mil legionarios. Os brios de Galba ficaram diminuidos perante a estupenda calamidade; Galba teve de collocar-se na defensiva, aproveitando a epoca das grandes invernias para se fechar cautelosamente nos quarteis de Conistorgis! As Aguias romanas, como bem diria ahi qualquer poeta satirico, estavam fechadas na capoeira.
O Senado permaneceu imperturbavel diante da ironia caustica do orador, que continuou no mesmo espirito:
—E de facto Galba, durante essa inacção, chocava uma tremenda infamia! Logo no principio da primavera do anno DCIII da fundação da Cidade eterna, que ficará affrontosamente assignalado nos Fastos Consulares, Galba poz-se em marcha para a Lusitania, devastando inconsideradamente Cidades immunes ou federadas, estipendiarias ou contributas d'aquella opulenta região, d'onde Roma tem haurido montanhas de prata. Esses povos da Lusitania, embora tenazes e inquebrantaveis, pelo natural bom senso reconheceram que era melhor gosarem os privilegios que Roma lhes concedia, do que envolverem-se em uma guerra interminavel, que com certeza visaria á sua destruição. Resolveram mandar a Galba enviados com a declaração, que se confessavam arrependidos da revolta a que tinham sido arrastados, e promptos a cumprirem integralmente o tratado firmado com Attilio. A uma tal proposta, Galba manifestando-se benevolente, elle mesmo respondeu aos enviados das tribus lusitanas: «Que era o primeiro a reconhecer a força das circumstancias, que os obrigára pela tremenda crise da fome e da miseria a quebrantarem a lei romana, e a entregarem-se por vezes a incursões e rapinas em logares que gosavam quasi os direitos da metropole. Mas, em vez de tomar directamente a responsabilidade d'esses actos, e sabendo a causa intima que os motiva, eu farei que finde a situação violenta das Cidades estipendiarias, acabando com os tributos pezadissimos que as oneram, eximindo-as dos pagamentos ás legiões romanas e ás provisões de viveres fornecidos ás tropas em passagem. Para se effectuar isto, passareis á cathegoria de Cidades municipaes, com o vosso territorio livre, sem pagamento de tributos, com magistrados eleitos livremente, e fóra da jurisdicção do governador da Provincia.» Diante d'esta perspectiva, Galba, traiçoeiramente apontou as terras que lhes reservava, e que dividia em tres cantões, e tratou de convocar para um determinado dia na margem direita do Tejo as tribus lusitanas, exigindo como prova da mutua confiança que se appresentassem desarmadas, para que em Roma se não dissesse, que a generosa concessão do Jus italicum era extorquida.
Catão, como que vencendo uma oppressão de momento, salientou o facto monstruoso:
—Á convocação feita por Galba concorreram os povos confiados na palavra que representava o poder romano; e logo que Galba apanhou as tribus desmembradas e desarmadas na planicie para onde as convocára, envolveu-as nas Legiões que subitamente se appresentaram fortificando a linha dos Hastatos e Triarios com toda a Cavalleria, que atropellando a multidão inerme, fez passar ao fio da espada para mais de trinta mil pessoas, entre homens validos, velhos e crianças, e até mulheres! Nada mais execrando, porque esta traição vilissima deslustra as victorias romanas! E se este instincto traiçoeiro é a base da sua tactica de guerra, é egualmente a feição do seu caracter no tempo de paz; e com taes recursos se defenderá da justiça implacavel, perante a qual seja chamado a responder, porque no meio de tantas carnificinas e depredações, Galba apoderou-se de assombrosas riquezas, com que de certo conta eximir-se de toda a pena. Mas a deshonra do individuo, ou o seu castigo, não ressarce os males da Patria! O poder de Roma está n'este momento abalado na Lusitania, que se debate em um levantamento geral contra uma tão inaudita monstruosidade. E se eu, como Censor, accuso o homem indigno, e defendo os meus clientes de Hespanha contra o sanguinario e iniquo prevaricador, perante o Senado tambem reclamo que um General intelligente com novas tropas vá promptamente restabelecer a paz e o direito ás povoações alvoroçadas da Lusitania.
A voz de Catão, o Censor, fôra escutada com assombro. Elle tinha alliada á veneração devida aos seus outenta e cinco annos de edade uma longa vida intemerata, que triumphára brilhantemente de todas as calumnias, com que por vezes procuraram minar o seu ascendente moral.
N'esta mesma sessão memoranda do Senado resolveu-se que immediatamente fôsse mandado a Hespanha o Pretor Caio Vetilio com novas Legiões e Cavalleria para reforçar o Exercito provincial. Determinou mais o Senado, que Servio Sulpicio Galba e o Consul Lucio Licinio Lucullo regressassem a Roma para prestarem contas estrictas pelos seus roubos, expoliações e crueldades affrontosas.
II
O Tribuno da plebe Aulo Scribonio, estimulado pela accusação de Galba no Senado, convocou o povo de Roma para o Forum, para pedir-lhe o julgamento do Proconsul pelo crime de infanda traição. O concurso foi enorme, tanto mais que desde muitos annos a competencia judiciaria dos Concilios estava cerceada pela delegação d'esses poderes a um jury ou Conselho perpetuo.
O Tribuno fallou á multidão, com nitidez e segurança:
—Sabeis que ao Senado, como corpo dirigente da Republica, pertencem os poderes sobre o Culto, sobre a administração das riquezas do Estado e principalmente a administração das Provincias. Competia-lhe por isto a iniciativa da accusação de Galba; mas é obrigação do Tribuno impulsionar a acção publica, sobretudo quando se trata do crime de alta traição, como agora, em que é réo Servio Galba! Eis o facto na sua espantosa crueza: numerosas cidades da Lusitania, que estavam na situação angustiosa de estipendiarias, vexadas pelos pezados impostos extorquidos pelos magistrados romanos, tinham requerido ao Senado para lhes ser concedida em premio de sua fidelidade a situação de confederadas ou immunes, podendo assim governar-se pelas suas leis consuetudinarias, pelas suas magistraturas locaes, sem comtudo aspirarem ao goso dos direitos politicos de cidadãos romanos. Era a base da pacificação da Lusitania! O Proconsul Galba servindo-se da magestade do povo romano garantindo esse pedido, convocou as povoações desarmadas para lhes communicar o Edito do Senado que o legislava, e envolvendo-as nas suas legiões trucidou traiçoeiramente para mais de trinta mil pessoas, em que a par dos homens validos estavam velhos, crianças e até mulheres!
O povo permaneceu mudo, sem mostrar commoção alguma pelo quadro da horrenda carnificina. O advogado Fulvio Nobilior, que fôra encarregado da defeza de Galba, notou esta circumstancia da insensibilidade moral da plebe. O Tribuno continuou:
—Para o julgamento d'este attentado contra a magestade do Povo romano, bem sei, é preciso um exame dos factos, e por felicidade das nossas instituições sempre perfectiveis, o processo de Galba será formado pelos Questores, que appresentarão ao Concilio da plebe os seus quesitos, sobre os quaes effectuareis a votação. O que outr'ora fôra um motivo de discordia entre o Povo e o Senado é hoje uma harmonia social, por que se reconhece, que assim como os negocios judiciaes carecem de sciencia juridica para serem tratados, os assumptos de jurisdicção criminal não pódem ser sentenciados senão mui reflectidamente. E se a lei tribunicia Calpurnia avocou estas questões a um jury perpetuo, o Povo sem perder a sua prerogotiva delegou este poder judiciario aos Questores. Que Servio Sulpicio Galba seja processado pelo Conselho dos Questores, sendo as suas conclusões appresentadas á vossa deliberação no mais breve lapso de tempo.
Depois de se ter calado o Tribuno, appresentou-se diante do povo, que enchia o Forum, o advogado Fulvio Nobilior, conhecido pela sua extrema argucia, por um espirito sarcastico, que chegava a tocar as raias do cynismo. O seu poder nos tribunaes consistia em fazer desvairar as opiniões, em actuar nas consciencias suscitando a dissolução moral, tornando ridiculos os sentimentos de piedade ou de humanidade. Era sempre ouvido com interesse; a multidão comprehendia-o. Quando veiu á barra, um rumor surdo foi o prenuncio de um grande silencio; o seu discurso ficou memoravel:
—É accusado o Proconsul Servio Galba de latrocinios na Hespanha Ulterior, n'essa região, que assenta sobre jazigos de ouro e prata, a Lusitania! O que tem a fazer um homem culto entre gente barbara, senão levantar do chão as joias que vê calcadas inconscientemente? Tambem da Hespanha Citerior, acabado o seu governo de dois annos, regressa a Roma o Consul Lucio Licinio Lucullo, carregado de assombrosas riquezas, e não foi accusado de latrocinio, nem de rapinas ou extorsões. E por que, tendo os dois magistrados seguido os mesmos processos administrativos? A rasão é evidente. É por que Lucullo soube captar as sympathias, compartilhando o seu ouro e prata, e gemmas preciosas com os patricios influentes, que ahi têm assento no Senado; e para desviar a ideia dos roubos, teve o pensamento de edificar um Templo á Deusa Felicidade, a quem attribuiu a posse de tantas riquezas! Servio Galba só commetteu um erro:—quiz tudo para si, dando apenas algumas migalhas aos legionarios, que o acompanharam nas depredações! D'ahi o odio dos Tribunos da Plebe. Mas, para que dispender aqui o tempo com uma moral especulativa, se esses pretendidos roubos ou concussões fazem que Roma regorgite em riquezas espantosas, trazidas d'essa Hespanha inesgotavel á avidez do estrangeiro? Só lembrarei, que quando Roma se viu assaltada pelos Gaulezes, difficil foi ajuntar mil libras de ouro para pagar a imposição de guerra! E desde que fômos a Hespanha, sete annos antes da terceira Guerra punica, 16:800 libras de ouro já se achavam no fundo do thezouro romano! E no começo da Guerra social, o Erario regorgitava com 1:620$829 libras de ouro! Quem não comprehende que a riqueza de Roma não lhe vinha do trabalho agricola e fabril, mas da guerra em paizes ricos? Foi esta sempre a nossa politica. Combater, vencer, para civilisar, pagando-nos por nossas mãos d'este beneficio. Desde que as Legiões romanas pisaram o sólo da Lusitania, conheceu-se que o ouro nativo ahi abundava em assombrosos filões, e em palhetas nas areias do Tejo! Nada mais claro para um Governo intelligente:—submetter esse povo, fazendo-o trabalhar ao serviço de Roma na exploração das minas de ouro e prata, e de convertermos esses metaes em ornatos pessoaes, baixelas, e sobretudo em moedas, que facilitam o commercio do mundo! Evidentemente Roma é a civilisadora do orbe! Quando Scipião Africano veiu receber em Roma a apotheose pelas suas victorias sobre os Carthaginezes e Iberos, entregou ao Erario de Roma trezentas e dez arrobas de prata lavrada, pilhada em outenta villas e cidades da Iberia! Mas não resam os Annaes romanos da que o general reservou para si. E o seu successor, Lucio Cornelio Lentulo? Tambem depositou no Erario mil e trezentas arrobas de prata lavrada. É incalculavel a quantidade de arrobas de prata que os Consules e Pretores, que administraram as duas Hespanhas, transferiram das suas prezas para Roma. E os celebrados dinheiros de Osca? Porém, essa riqueza só chegava ao Povo romano em alguma festa publica de apotheose; pelo processo moderno, o povo é mais favorecido, porque essas riquezas pilhadas na Iberia e na Lusitania são dispendidas em Roma pelos seus detentores na vida faustosa com que tornam a Cidade a capital da Civilisação do mundo. E depois, de quem tomou Galba as riquezas que está espalhando em Roma? De ladrões despreziveis e abjectos, que occupam o sólo da Lusitania, raça de escravos, impando de ignorancia e orgulho, indignos do bello céo que os cobre. Eis ahi o crime. Expoliar ladrões, do que possuem estólidamente, e enriquecer Roma, que mais será preciso para a apotheose? Galba bem merece do Povo. Fique ao Senado a gloria de condemnar o valente e magnanimo Proconsul pela affectada questão de humanidade, da qual nada consta nos sublimes Annaes das nossas glorias militares, que serão sempre o assombro do mundo! E, que justiça é esta, que accusa Galba, e deixa no doce olvido o Consul Lucio Licinio Lucullo, que passou tambem á Lusitania, trucidando os Vacceos a titulo de vingar os Carpetanos, e mandando a um signal dado passar a fio de espada todos os habitantes da cidade de Caucia? Se, como dizem os nossos jurisprudentes, a Justiça é só uma, os historiadores tambem proclamam, que ha uma só gloria militar:—Vencer! Se hesitarmos nos meios... Roma perderá o imperio do mundo.
O Povo comprehendeu as cynicas palavras de Fulvio Nobilior; e até o proprio Tribuno, cumprido o dever do seu cargo, concordava no fôro intimo com essa doutrina, reveladora de uma crise da consciencia nacional, em que se preparava para futuro não remoto a transformação das instituições sociaes e politicas de Roma.
III
O Consul Vetilio partira a toda a pressa para a Hespanha Ulterior, a reforçar o exercito provincial; temorosas noticias corriam pela Cidade, de um levantamento geral das cidades da Lusitania, que visava a sacudir o jugo de Roma, tornado odioso e incomportavel pela traição execranda de Galba. O Senado confiava na valentia e intelligencia estrategica de Caio Vetilio, sem desconhecer a resistente tenacidade inquebrantavel das tribus lusitanas, que apoiavam a sua independencia individual em um territorio livre, tendo por grito de guerra:
—Vencer ou morrer!
Presentimentos aziagos se espalhavam sobre o exito da expedição de Vetilio. E emquanto espantosos successos se estariam passando longe, muito longe, na parte occidental da Hespanha, no incendio da insurreição, o detestavel Servio Sulpicio Galba vinha compellido á barra do Senado appresentar a defeza dos crimes de que fôra accusado por Catão o Censor. Elle bem sabia que deslustrára pela má fé a dignidade do Povo romano, mas confiava no poder da sua eloquencia prestigiosa.
Galba receou por um momento a condemnação, e preparou a defeza espalhando pelos Senadores e funccionarios de Roma os blocos de prata e ouro em barra, que trouxera das minas da Peninsula, onde tinha para mais de quarenta mil homens entregues ao trabalho forçado da exploração d'esses jazigos, que rendiam vinte mil dracmas argenteas por dia. E como se não bastassem as riquezas que espalhou com profusão pelos juizes, dirigiu-se-lhes ao sentimento, appresentando-se no tribunal com os seus dois filhos. Lida a accusação, foi-lhe concedida a palavra, escutada attentamente. Era um dos casos mais emocionantes de Roma. Será condemnado? será absolvido? Faziam-se apóstas, aproveitando esse lance para um jogo descarado. A palavra eloquente de Galba era conhecida e admirada.
Perorando:
—Todos vós estaes bem lembrados, que sob o consulado de Licinio Lucullo e de Aulo Postumio, um terror excessivo se apoderou dos Romanos por causa das tremendas derrotas dos nossos legionarios na Hespanha, derrotas infligidas pelos Celtiberos, por fórma, que não havia togados, nem pretorianos que se inscrevessem para acudir á remota região em que fraquejava o Poder de Roma. Scípião Africano revoltou-se contra tanta covardia, offerecendo-se para ir combater e subjugar essas populações indomitas, que luctavam pela independencia da sua terra. Passada a apparente pacificação, fui mandado como Pretor á Hispania. Eu mesmo então vencido pelos Lusitanos em uma batalha campal, consegui salvar-me com um troço de cavalleiros entre penhascos! Ah, foi alli, n'essa extrema angustia que jurei, que prometti á gloria dos Quirites o exterminio dos Lusitanos, d'essas tribus irrequietas, que são hoje o unico embaraço para que a soberania de Roma se estenda imperturbavel sobre toda a riquissima peninsula da Hispania. Lucio Minutius veiu a toda a pressa acudir á minha situação desesperada. Bem sabeis com que altivez e soberbia os Lusitanos e Celtiberos fallam contra o poder de Roma; e a todos os Proconsules, que vão ás guerras da Hispania Citerior e Ulterior, tem sido recommendado que a tantas bravatas estolidas se deve responder com castigos tremendos e inolvidaveis; e sobretudo que os Lusitanos apprendam á sua custa, que as Aguias romanas não soffrem ameaças da vil preza. Não fiz mais do que seguir a politica traçada. Dirão que me excedi na acção repressiva? Respondo, e ouça-me a historia: Emquanto existir sobre o territorio da Hispania esse povo Lusitano, hade ahi manter-se sempre vigoroso o instincto e o sentimento da autonomia. Roma nunca ahi sustentará o seu imperio tranquillo, porque as tribus lusitanas sonham com uma Patria livre! Por mais que as nossas divisões administrativas retalhem o seu territorio, desmembrando-o, mais os Lusitanos comprehendem a necessidade da Confederação das raças peninsulares como condição para repellirem o jugo estrangeiro e affirmarem a sua independencia! E se essa Confederação se chega a organisar, Roma terá no extremo occidente um inimigo mais terrivel do que Carthago, e as guerras contra os Lusitanos serão mais sangrentas do que as Guerras punicas. Foi para destruir estes germens de Confederação, que eu convoquei á falsa fé os Lusitanos para tratar das liberdades que Roma lhes concedia, e passei á espada uns sete mil d'entre elles? Sim, parecerá cruento? Mas, do mal o menos; sabei, que a Lusitania tende a unificar em uma mesma patria os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos e os Callaicos. Do Anas ao Mar Cantabrico tudo é lusitano; e do Anas ao Cabo Sacrum, e tambem grande parte da Betica, ou Tartessida, são regiões occupadas pelos Lusitanos, o Povo mais poderoso da Hespanha, como notam os geographos. Ahi veriamos formada uma forte nação, cujo territorio terminava ao nascente dos Asturios e Celtiberos, e comprehendendo a Callaecia, com todos os territorios do Minio, do Durio até ao Tago, e mesmo a região transmontana. Do Cabo Sacrum até ao Mar Cantabrico, toda esta parte occidental da Hispania constituindo a Lusitania! comprehendeis agora o perigo que nos ameaça, e de que eu consegui salvar o poder de Roma. Nós erradamente damos o nome de Celtiberos a povos que são lusitanos de raça; julgamol-os desunidos, e apparentemente se mostram, até á hora do perigo. Se os Lusitanos chegarem um dia a estabelecer uma Confederação, serão invenciveis e derrotarão os invasores estrangeiros que tocarem o solo da amada Patria. É isto que importa ter sempre presente á consideração dos politicos, que tentarem dominar a Hispania, e governal-a enfraquecida para a exploração das suas incalculaveis riquezas. Que o dito de Catão, Delenda Carthago, se converta agora em Finis Lusitaniae! Mas, não quero acabar com uma phrase de effeito; a rhetorica não entra aqui para nada. Importa mantêr a Hispania dividida; não é em Citerior nem Ulterior, mas em LUSITANOS e IBEROS. Esses dois povos são incompativeis entre si; o Ibero admira a auctoridade, a força, e quer exercel-a impetuosamente, ao passo que o Luso ama a independencia sem ruido nem apparatos. O Ibero é incapaz de se unir para a defeza, e obedece passivamente a qualquer poder physico ou moral que se lhe imponha; o Lusitano liga-se facilmente para a defeza, em revolta contra todo o poder. Conheci pela experiencia estas differenças, e reconheci por que fórma poderia fundar na Hispania o Poder indestructivel de Roma: acabar com a Lusitania, e estender as populações ibericas. Chamado a Roma, por causa dos sete mil trucidados, que outros augmentam até trinta mil, ficou truncado o meu plano; mas estou convencido, que Roma, se não hoje, um dia me fará justiça.
No seu discurso Galba concluia por ser preciso incendiar as principaes cidades da Lusitania; passar á espada as povoações que se revoltaram; transplantar os povos lusos, substituindo-os por tribus propriamente ibericas; vender como escravos nos principaes mercados essas tribus inteiras, que pelo seu orgulho embaraçam a acção do Poder romano na Hespanha; arrasar os burgos e as citanias; estabelecer a pilhagem systematica dos campos; decapitar todos os cabeças de motim, logo que sejam agarrados ou pela força ou pela traição, e não bastando isto ainda, retalhar a Lusitania pelo menos em tres trôços: ao norte, constituindo em corpo á parte a CALLAECIA, ao centro a TARRACONIA, e a sudeste a BETICA: logo que fique a LUSITANIA reduzida ao limite do Durio ao Anas, em uma miseravel faixa de terreno, tapada pelo mar, nunca mais terá resistencia, e mesmo chegará até a esquecer-se da pretendida autonomia.
O discurso foi ouvido com assombro, não já como defeza, mas como um plano de futuro governo para a incorporação completa da Peninsula hispanica.
Quando estava para ser proferida a sentença sobre as responsabilidades de Servio Galba, eccoaram por toda Roma as desoladoras noticias vindas da Lusitania: a derrota formidanda de Vetilio! a morte ignominiosa do general romano! O exercito reduzido a seis mil homens, refugiado na cidade de Carpesso! E o poder de Roma ameaçado por um cabecilha, dizem que outr'ora Pastor, outros affirmam que Salteador de estradas, outros que é uma apparição maravilhosa d'esse Viriatho, que ha setenta e dois annos acompanhára Annibal á Italia, e que combatendo em Cannas fôra morto por Paulo Emilio!
Todas estas vozes corriam em Roma, e avolumavam-se, augmentando o terror, e o prestigio do Cabecilha. É de crêr que influiram na sentença, que absolveu a Servio Sulpicio Galba da inaudita carnificina dos trinta mil lusitanos desarmados. E tambem se conta, que a morte inesperada de Catão, o Censor, se explicava pelo desgosto de vêr a justiça avergada á iniquidade triumphante, e diminuida a gloria de Roma ultrajada nos annaes humanos.
IV
Em Roma não se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas por Galba. Diante d'estes planos de forte administração, e pelas doutrinas da politica de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil individuos desarmados, convocados juridicamente pela auctoridade do Pretor, e chacinados traiçoeiramente, pouca impressão fazia na alma do povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha decadente para a servidão. Mas o crime de Galba era d'aquelles que fazem levantar as pedras! D'entre os montões de cadaveres, meio incinerados e cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pôr termo á carnificina, levantaram-se cautelosamente algumas das raras victimas, que a casualidade resguardára dos golpes successivos que esmagavam aquella multidão inerme; e esses desgraçados, fugindo por entre as trevas cerradas, espalharam-se pelas montanhas e valles, e fôram, de povoação em povoação, de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a narrativa da tremenda catastrophe com que os romanos invasores queriam extinguir os Povos Lusitanos.
Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tábida, rôtos e estropeados, levados em um desvario de quem perdeu a rasão pela enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e fôram dar ás grandes cidades municipaes como Ollissipo, aos Conventos juridicos como Scalabis e Jerabriga, narrando o espantoso successo. Por pobras e aldeias, por casaes e villares, por citanias no alto dos montes, por toda a parte correu o rumor sinistro da mortandade atrocissima e iniqua, e não houve folego vivo que se não extorcesse em impetos de colera impotente, em revolta moral contra o maior attentado que á luz do sol se tinha praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam de terra em terra repetindo a tragica narração, tornava-se contagioso, e acordava um profundo instincto de revolta, que ia crescendo como uma onda até rebentar em uma convulsão irreprimivel. Os Arevacos, os Tittes e os Belli, povos que andavam sempre em mortaes conflictos, agora achavam-se unidos no mesmo protesto. Rugidos de colera irrefreavel irrompiam entre os Asturios, Callaecos, Vacceos e Carpetanos; estes olhavam com anciedade quem daria começo a uma lucta, para a qual nada estava preparado, a não ser um temperamento sempre resistente. Para o sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam em um rancor exacerbado pela inqualificavel traição de Galba, legitimo representante da fé romana. Já sôavam no ár Cantigas de guerra, que levantavam as almas; e até por essas povoações remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium, Elbocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os geographos romanos e naturalistas não queriam repetir por consideral-os barbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam casualmente da horrifica matança, já se formavam trôços de gente armada com hozes, ou fateixas de arrêmeço, catanas grossas, pelo instincto natural da defeza de seus lares.
Esses poucos foragidos levavam na palavra o incendio, que se espalhava de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o crime do governo de Roma. É certo que a população lusitana estava cansada das recentes e inefficazes luctas; as cidades confederadas e estipendiarias queriam o socego da sua vida laboriosa, supportando sacrificios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa, Salacia, Cetobriga eccoara imprevistamente o caso nefando da carnificina, e lamentavam não existirem chefes que organisassem a resistencia contra o brutal e monstruoso attentado. E se esta impotencia, ao menos, assegurasse alguns annos de tranquillidade para o sul da Peninsula! Outro Pretor que venha, diante da impunidade d'este, até onde levará as depredações e os morticinios!
Os povos que gosavam das garantias de Municipio romano não queriam mover-se para não decahirem dos privilegios que fruiam concedidos pelo conquistador; os povos que participavam dos direitos do antigo Lacio obedeciam á mesma tendencia egoista. Sómente entre os povos na situação de tributarios poderia surgir um impulsivo instincto, mas impotente de revolta. Nas cidades dos povos denominados Celticos e Iberos havia um certo ciume contra a aspiração hegemonica dos Lusitanos; mas nem por isso se ligou menos interesse ás narrativas dos foragidos da matança de Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucobriga, a Castraleuco, Arandis, Mirebriga, e os trabalhadores do campo interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo; as festas religiosas e as nupciaes suspendiam-se á chegada d'essas figuras sangrentas, que pareciam phantasmas resurgidos do campo da matança para virem reclamar a eterna vindicta.
Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quasi em delirio, alguns d'elles cahindo no chão esgotados de sangue que ainda vertiam das feridas, outros borbotando sangue pela bocca, aos gritos convulsivos com que narravam o caso da mortandade.
—«O Pretor Servio Sulpicio Galba convocou para uma assembléa nas campinas da margem direita do rio Tagus, os trez Conventos da Lusitania Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis Cidades estipendiarias, recommendando que viessem sem armas, porque se tratava da distribuição de terras, do estabelecimento de novas Colonias, e de elevar alguns Povos tributarios aos privilegios de Cidades Confederadas, de Municipio romano e do antigo Lacio.
«Confiados nas palavras do Edito do Pretor, concorreram ao local que lhes fôra aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras; e como se fôsse para uma festa de paz e congratulação levaram comsigo suas mulheres e filhos, e os anciãos mais venerandos das tribus, como arrefens do seu animo pacifico.
«O Pretor ordenou que se ajuntassem na campina em que tinha mandado plantar uma Arvore de Maio, junto da qual se devia assignar o pacto perpetuo da concordia com as Tribus lusitanas.
«Emquanto se esperava o Pretor cercado da sua Cohorte, começaram a apparecer quatro Legiões, que se formaram em orbis, estendendo em ordem de batalha as suas tres fileiras, e envolvendo como em uma grande muralha toda aquella multidão inerme! Ninguem suspeitava o intuito do subito envolvimento.
«Os manipulos da Legião, com as suas bandeirolas fôram marcando os logares, que á frente de todos occuparam os Hastarios; por traz d'estes ficaram os Principes dispostos de modo a por entre elles poderem recuar os que lhe estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os Triarios, como barreira de resistencia.
«Depois d'isto appareceu a Cavalleria, correspondendo quinhentos Cavalleiros a cada Legião, armados com o gladio hispanico de dois gumes. Foi então que um gelido terror se apoderou d'aquelle povo indefenso. As lanças e chuços dos Hastarios collocaram-se por um movimento repentino em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos.
«O Pretor Galba não apparecia! Um presentimento de morte se estampou na lividez de todos os rostos, quando viram por detraz dos triarios moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas.
«Com certeza Galba planeára uma infamissima traição! Como fugir-lhe? As mulheres, em lamentos atroadores, abraçavam os filhos, sem perceberem ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudencia, esperando serenos as ordens do Pretor.
«N'este momento de angustia pezados calháos fôram de longe arremessados por catapultas contra aquella multidão compacta, esmagando alli algumas centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade; os que tentavam fugir fôram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos Hastarios; os que se estreitavam uns aos outros n'um panico inconsiderado abafavam-se.
«E emquanto iam chovendo os grandes calháos arrojados pelas catapultas, cahiam sobre a multidão as Falaricas ou lanças incendiarias, que os Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos arremessavam panellas de pez e estôpa ardendo, que os Cestrophendones faziam cahir no meio da assembléa.
«E como se não bastasse tudo isto para destruir aquella gente desarmada, os Fundibularios baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre certeiras, coadjuvados pelos Arcubalistas.
«A multidão ainda se movia, embora não offerecesse resistencia alguma; mas Galba, querendo terminar a sua hediondissima traição e vendo que o sol já declinava, resolveu o final exterminio antes do descer da noite. Os Cavalleiros recusavam-se á fadiga de passar á espada tantissima gente inerme que ainda sobrevivia. Foi então que Galba se lembrou de como na guerra de Macedonia, Paulo Emilio deveu a victoria decisiva ao emprego da tactica dos Elephantes; e deu logo ordem a que os dez Elephantes offerecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os temerosos rebeldes Lusitanos.
«Os Elephantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas fôram conduzidos para aquelle montão de gente, cuja carne e sangue formava com a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez Elephantes sentiam-se fracassar os ossos das victimas, e o sangue respingava-lhes até aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas que eram casualmente arrancadas na sua passagem.
«A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espêsso se erguia dos valles fundos. Foi então, que ainda d'entre o montão dos cadaveres se ergueu um vulto surrateiramente, e saltando ao pescoço de um Elephante, o pezado animal cahiu redondamente morto em terra! As trévas iam-se engrossando, e o vulto agil e escorreito foi assim saltando sobre cada um dos Elephantes, que por seu turno iam cahindo mortos! Quem seria esse vulto extraordinario, que sabia o segredo de dar a morte instantanea a tão poderosos animaes, em cuja pelle não penetravam os mais pujantes dardos? Quem quer que fôsse, elle sabia o segredo apprendido nas Guerras punicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vertebra que toca no craneo do Elephante fazia-o cahir fulminado instantaneamente. Assim fôram mortos os dez Elephantes.
«A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandára lançar fogo ao montão dos cadaveres entre os quaes fôram encontrados os dez Elephantes de Massinissa, d'entre esses cadaveres escaparam-se alguns individuos que se tinham occultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram mortos: são esses os que andam de cidade em cidade da Lusitania e da Turdetania pedindo vingança! Vingança! Vingança!»
Por valles e serras, e resoando de monte a monte, entoava-se um Canto de guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espiritos ainda os mais acabrunhados. O Canto podia mais do que a reflexão, e cada povo accrescentava-lhe uma nova estrophe, como a aspiração do resgate. A palavra poetica é alada, o pelo prestigio da tradição transpõe as edades repercutindo-se na alma dos vindouros.
Baladro de guerra
Terra da Lusitania,
Ensopada de sangue
Por horrendo baldão!
Chamou-nos o Romano
Para a alliança de paz,
Mata-nos á traição!
Virus de iniquidade,
D'esse fermento de odio
Brote a destruição.
Que a lança dos Quirites
Se quebre, e em nossa frente
Não se erga Legião!
Quem sobrevive ao crime,
E escuta estes lamentos
Da atroz desolação;
Quem perdeu lá seus filhos,
Os paes, entes queridos,
O esposo, o irmão;
Que se revoltem todos,
Peitos sejam escudos,
Lanças raios na mão!
Soffrimento e opprobrio,
A morte e a vingança
Forçam á união!
Vós, Povos da Callaecia,
De Oretania, Beturia,
Cynesia região;
Robustos Carpetanos,
Tartessios, desmembrados
Da Lusonia nação!
Que o mesmo odio nos una,
Vingae mortos, e os vivos
Salvae da escravidão!
Reviva a Lusitania,
Ensopada no sangue
Da romana traição.