XLVII
Estavam as festas do casamento no auge do fervor, quando se aproximou de Viriatho Tantalo, que chegára repentinamente, e lhe communicava:
—Emquanto Quinto Pompeu Rufo está dirigindo o ataque contra os Numantinos, Quinto Servilio Cepio destacou-se do exercito romano, e descendo com algumas Legiões para a região Occidental da Hespanha, rompendo hostilidades, quebranta assim o Tratado de Paz ratificado pelo Senado! Acompanha-o Decio Junio Bruto, o que quer dizer, que é uma campanha em fórma.
Viriatho encarou Tantalo com assombro, por vêr que a infamia de Cepio era tão clamorosa como a carnificina feita por Galba, e apenas proferiu a phrase:
—Ainda tenho a minha espada!
E aproximando-se de Lisia, tomou-lhe as mãos com anciedade:
—Vou partir. Sou informado n'este momento que o Consul Quinto Servilio Cepio opéra com um exercito entre a Oretania e a Carpetania! Tenho de ir sustar de prompto a este perigo, e impedir a deslealdade do Consul.
E aproveitando aquellas ultimas horas da festa do seu noivado, chamou os Mil Soldurios que o acompanharam sempre durante os dez annos de campanha contra os romanos, para que passassem palavra a todos os que alli estavam, representantes da Vettonia, da Carpetania, da Oretania, da Callaecia, da Beturia, da Cynesia, para que partissem para as suas terras, que referissem a infamissima deslealdade de Cepio, e que tivessem promptos para a primeira chamada os Terços e Companhias com que faria frente ao Consul indigno que assim rasgava um Tratado solemne.
E depois de ter beijado a face de Lisia, n'uma despedida muda mas melancholicamente expressiva, seguiu em marcha com os Mil Soldurios, avançando em direcção aos Vettões para formar o seu primeiro nucleo de resistencia.
Corriam a trote largo, quando ao passarem por um rio, em que os cavallos foram dessedentar-se, uma pobre lavadeira que estava ahi á beira d'agua, fitou Viriatho com um olhar compassivo:
—Como uma festa tão alegre do feliz casamento se interrompeu, sem ninguem tal cuidar!
Os Soldurios não fizeram reparo do que dizia a pobre mulher, que lavava á beira do rio; continuou murmurando:
—Elle não morrerá em batalha, isso é bem certo! Lisia ficará sempre noiva.
Em breve os cavalleiros se afastaram da margem e precipitaram a carreira, seguindo Viriatho na frente, com a impaciencia de ir defrontar-se com o perigo. E a obscura mulher, continuando a lavar á beira do rio, fallando comsigo, sem ser ouvida por ninguem, dizia na sua credulidade:
—Na minha choupanasinha eu tinha dependurada a Boliana, para me revelar a sorte de Viriatho. Emquanto Viriatho andou dez annos a fio nas guerras contra os Romanos, a Boliana estava sempre verde. Só de hontem para hoje é que reparei que a Boliana emmurchecia. Estou a vêr o seu destino; mas a Espada de Viriatho é invencivel! e Viriatho não morrerá em batalha! São a favor d'elle os agouros... só a Boliana é que está emmurchecendo.
Ia a perder de vista a cavalgada, e lançando-lhe um olhar demorado, murmurou a pobre mulher antes de continuar no seu trabalho:
—Estão-me a lembrar agora aquellas palavras da Canção do noivado! Fallavam de morte, no meio de tanta alegria; não fui eu só que o notei, quando cantaram:
Laço que a união celebra,
Nem mesmo a morte o quebra.
O povo tem a intuição das cousas; na sua inconsciencia apparece por vezes como vidente.
XLVIII
Cepio, por cumulo de sua perfidia, sabendo que o exercito de Viriatho fôra licenceado e que os Terços e Companhias tinham regressado ás suas terras e provincias, levou o descaro affrontoso a talar o solo da Lusitania para se encontrar com Viriatho desarmado.
No seu caminho, Viriatho topou com multidões de gente foragida das cidades invadidas, saqueadas e incendiadas por Quinto Servilio Cepio. Vendo-o passar, em grandes alaridos pediam soccorro, que acudisse a tamanha calamidade; por que o Consul Cepio já estava alli perto, e forçára, com medonhos suplicios, alguns aldeões a declararem o caminho que Viriatho seguira, contando agarrar o general lusitano.
Viriatho, encobrindo a surpreza da noticia, e diante do perigo, resolveu o plano a oppôr-lhe: retirar-se para o paiz dos Vettões, aonde tinha gente firme e da maxima confiança. Era-lhe facil ahi um levantamento em massa. E para não perder tempo, mandou emissarios aos Gallaicos, para acudirem ao attentado inqualificavel com a maior presteza, porque desde o crime de Servio Sulpicio Galba, não se vira perfidia mais clamorosa como esta agora de Quinto Servilio Cepio.
No emtanto, o Consul procurava com o seu exercito Viriatho, e sabendo que elle está próximo da Carpetania, com homens recrutados pelo caminho, mal armados, com foices roçadoiras, machados, chuços e mangoaes, entende que é essa a melhor occasião de atacar o caudilho lusitano e libertar o dominio de Roma na Hespanha d'esse libertador patriota. Diante de um exercito assim consideravel como o de Cepio, Viriatho, com um tino pratico imcomparavel, reconheceu que seria rematada loucura acceitar batalha em condições de tamanha desegualdade. E tirando da propria difficuldade do momento os recursos para uma inesperada defeza, descobriu no terreno aonde todo o exercito se perderia um ponto de que soube aproveitar-se para a salvação. Recuando para um valle profundo, para o qual dava entrada uma garganta estreita, por alli fez passar a pouca tropa de que dispunha, embaraçando com os seus Mil Soldurios, que o exercito romano se aproximasse e o envolvesse. Durante esta passagem para o valle amplo, os Cavalleiros simulavam movimentos como quem se preparava para uma batalha campal; e os Romanos suspeitando que Viriatho os attrahira para alli, porque teria no valle um consideravel exercito sobre que se apoiava, fizeram alta, temerosos da cilada, porque viam através da estreita garganta estendidos ao longo do valle negrejarem os vultos dos Terços lusitanos.
Viriatho prolongou esta situação espectante, para dar tempo a pôr fóra de perigo as pequenas forças do seu commando. Conseguido isso com a maior felicidade, Viriatho, a um signal dado, dispersou-se com os seus Soldurios com uma rapidez inacreditavel, desapparecendo por entre os anfractuosidades do terreno com surpreza dos romanos, que debalde tentaram irem no encalço d'elles em perseguição. Cepio, desesperado por aquelle acto heroico de Viriatho, que assim lhe patenteava a sua superioridade militar, avançou pelo territorio dos Vettões, queimando-lhes as ceáras, derrubando os casaes isolados e pondo a saque as povoações, passando á espada todos os que encontrava armados, dando caça ás guerrilhas que procuravam juntar-se a Viriatho.
XLIX
A malvadez com que o Consul Cepio procedia contra as povoações inermes, chegando a mandar expôr nas praças pregados em cruzes os lusitanos que lembravam o Tratado da Paz violada, fez reflectir Viriatho, forçando-o a um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros:
—Aos estragos que Cepio está praticando, não sendo possivel oppôr-lhe já uma força armada, que ainda leva seu tempo a reunir, cumpre oppôr-se-lhe n'este momento a força moral.
—A força moral? Objectou Minouro.—Em que consiste n'este transe a força moral?
—Quero lembrar a Quinto Servilio Cepio, que temos um Tratado de Paz assignado por seu irmão Serviliano, e ratificado pelo Senado e pelo Povo. Que pela nossa parte ainda o não infringimos, e que acreditamos na fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ella a si se decreta. Que tres dos meus mais leaes Companheiros vão d'aqui ao acampamento de Cepio mostrar-lhe o Tratado de Paz, e declarar-lhe que á magestade d'elle entregamos a nossa defeza.
E voltando-se para Ditálcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam silenciosos, disse-lhes com voz firme:
—A vós, como os meus maiores e mais leaes amigos, encarrego de irem ao arraial de Quinto Servilio Cepio appresentar-lhe a respeitosa homenagem dos Lusitanos; e em seguida ás declarações de confiança no Tratado de Paz ratificado pelo Senado, mostrae-lhe esse diploma authentico, trocado entre Roma e a Lusitania.
E entregou as laminas de cobre em que estava gravado o Tratado a Ditálcon, o mais velho dos tres Companheiros, que partiram rapidos para o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho, por servirem de parlamentarios que pediam paz, ou que iam com intenções pacificas. Os tres companheiros iam conversando:
—Viriatho, com certeza, não sabe quem é Cepio, um dos maiores devassos de Roma? E é com um sujeito d'estes que Viriatho se fia em força moral!
—O Consul não perde esta occasião; e bem tolo será se a não aproveitar para vingar seu irmão Serviliano, forçado por Viriatho a assignar esta Paz.
—São passadas perdidas, estas; por que Cepio sabe que não temos gente, e carrega sobre nós a valer. Oh, se carrega! Nem fôra elle tão estupido como general para cobrir a sua inepcia com este lance.
—Póde ser que as passadas não sejam perdidas! Porque Cepio é homem para entrar em negocio...
—Em negocio?
—Ha ás vezes combinações imprevistas, que dão novo rumo aos acontecimentos.
—E esta occasião é asada para isso.
—O ponto está em sabel-a approveitar habilmente.
O dialogo entrecruzava-se, quando Ditálcon, Andaca e Minouro chegaram ao acampamento romano. As vedetas e guardas avançadas avisaram de prompto; Cepio mandou alguns Cavalleiros para acompanharem até á sua barraca os parlamentarios enviados por Viriatho, imaginando que vinham annunciar-lhe a rendição do Caudilho lusitano, ou em peior hypothese, que Viriatho achando esta hostilidade incompativel com a dignidade militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em campo aberto. Porém Cepio afastando da mente esta conjectura que não lisongeava a sua covardia, reflectiu tacitamente:
—Se me apresentarem um tal doésto, recusarei dizendo: Que deixo esses combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para espectaculo do povo, sempre ávido de divertimentos.
E mandando entrar á sua presença os tres parlamentarios, divisou-lhes uma expressão de quem antes de fallar já se entendia.
L
Na ideia em que Cepio os achava, mostrou aos tres parlamentarios um sorriso de affabilidade, e um trato verdadeiramente urbano:
—Direis a que vindes.
—Envia-nos Viriatho.—Assim começou Ditálcon, o mais velho e auctorisado dos companheiros.
—Ouvirei attentamente.
—Envia-nos Viriatho a dizer-vos, que tendo recebido da grande e generosa Roma o titulo extremamente honorifico de Amigo, é-lhe moralmente impossivel, sem pécha de traição, o pegar em armas contra a poderosa Republica. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de estar dissolvido o Exercito lusitano, e ter deposto as armas confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vós, vendo como viestes talando a Lusitania, queimando cidades pacificas, e ainda agora atacaes violentamente os Vettões e Gallaicos, lembra que existe o Tratado assignado por vosso irmão e ratificado pelo Senado e pelo Povo romano, no qual está garantida a paz e tranquillidade da Lusitania. Pedia pois...
Cepio, mal podendo encobrir a colera:
—Não posso ouvir fallar n'esse Tratado assignado por meu irmão, sem que o sangue se me revolva. Perco a cabeça. Ha certas occasiões em que a honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingança. Esta é uma das taes.
—Mas, senhor, aqui trazemos o proprio Tratado authentico, para vêres...
Cepio tomou nas mãos o Tratado, olhando-o com desdem, e disse para os tres com um sorriso acanalhado:
—Quando eu acompanhei á Hespanha o Consul Quinto Pompeu Rufo, que está combatendo diante de Numancia, não foi para vir tomar os bellos áres da Lusitania! Esse Tratado nada vale para mim.
—Violaes então a auctoridade da grande e generosa Roma!?
—Quem vos auctorisa a tão monstruosa suspeita?—redarguiu Cepio.
—A letra...
—Qual letra, ou qual careta! volveu Cepio com o seu ár pulha, que combinava de vez em quando com a philaucia de Consul romano. E com ár insolente e confiado continuou, affectando segredo de importancia:
—Os Tratados só têm a força que lhes dão as Espadas. Bem vejo que Viriatho não está bem munido n'este momento, porque me manda lembrar o Tratado. Mas o Tratado... o Tratado já não existe. Quereis saber? Aqui á puridade, e só para nós...
Os tres parlamentarios aproximaram-se de Cepio, sentindo-se lisonjeados pela confidencia que iria fazer-lhes:
—O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmão, assignando esse Tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente a faculdade de hostilisar Viriatho, mas sómente hostilisal-o...
Minouro fitava o Consul com o maximo interesse; Ditálcon parecia abatido, e Andaca meditava. O Consul, olhando para elles, e pondo-lhes as mãos pelos hombros, continuava:
—Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me, que vem pelo caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitania. Quereis vêl-as?
—Basta-nos a vossa palavra! disseram os tres.
—Nem podia deixar de ser assim,—proseguiu Cepio com enfatuado desdem.—Accusarão os vindouros Roma de desleal nos seus Tratados, mas nunca de um governo estupido! Pois era lá possivel que sustentassemos uma guerra desesperada em Numancia, que pertence á primitiva unidade lusitana, e que estivessemos de mãos atadas na parte occidental da Hespanha pelo pacto imposto por um cabecilha, que para nós os romanos nunca deixou de ser o Dux latronum!
—Com que, Roma decreta que se continue a Guerra da Lusitania? inquiriu com assombro Ditálcon.
—Como acabaes de o ouvir.
—A nossa missão parece terminada,—disse Ditálcon, quebrantado o animo.
—Não a considereis terminada,—interrompeu Cepio, tornando a approximar de si os tres emissarios.—Alguma cousa bem combinada se poderá fazer ainda, e depende da vossa intelligencia. Quereis a paz da Lusitania?
—Queremos! accudiram os tres.
—A Paz da Lusitania, mas não a Paz de Viriatho! disse o Consul com orgulho. D'essa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriatho é o unico embaraço d'ella, e que emquanto elle viver nunca Roma considerará a Paz da Lusitania senão como uma affrontosa derrota.
—Mas Viriatho é querido do Povo, que o acompanha cegamente.
—É por isso que Viriatho é um perturbador. A sua obra é uma loucura! Quer fazer uma Lusitania restaurada pela unificação de elementos de raças ha tantos seculos extinctas, imaginando Lusonios, com quem nada têm as gerações actuaes.
Ditálcon acenou com a cabeça, em signal de adhesão áquella ideia. E o Consul, vendo que estava sendo comprehendido, voltou-se para Minouro:
—Nós não podemos andar aqui em balanços ao grado dos sonhos de Viriatho; quer fazer uma Patria Lusitana, com um individualismo e autonomia propria, quando entre Lusitanos e Iberos não existem fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios. É tempo de acabar com estas utopias, tornando a Hespanha uma Iberia unida para acceitar a civilisação de Roma e continuar no occidente a sua obra dominadora.
Minouro regosijava-se com aquellas vistas do Consul, que eram tambem as suas. E Cepio, voltando-se para Andaca, e já com ár determinado a quasi imperativo:
—Para attingir este grande ideal da civilisação romana, do direito, da administração, da ordem publica, é de força que renegueis a Patria lusitana.
E como Cepio notava que os tres estavam entre si de accordo, disse para elles:
—Roma carece das capacidades e energias dos homens de Hespanha. Eu vol-o garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o titulo de Cidadãos romanos, e as honras do Patriciado, com accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma correspondente de sestercios, se...
Os tres entreolharam-se, e querendo penetrar nas intenções de Cepio, comprehenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspensão silenciosa do Consul:
—Effectivamente, Viriatho está-se tornando um embaraço.
—Quando se chega a certo gráo de popularidade, em dados homens torna-se isso um perigo.
—Um acto decisivo vale por annos de lucta.
O Consul volveu então com frieza:
—Mantenho as propostas em nome da Republica romana: Impõe-se n'este momento a necessidade da morte de Viriatho. Roma dá-vos o titulo de Cidadãos romanos...
—Qual de nós ha-de...
—Dá-vos as honras do Patriciado.
—A morte de Viriatho impõe-se...
—Dá-vos o accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma de sestercios.
—Tiremos á sorte quem hade matar Viriatho.
O Consul estendeu o seu capacete, lançando dentro d'elle tres pequenos seixos, sobre um dos quaes escrevera==Morte==. Cada um dos tres tirou a sua pedra. A Minouro caiu aquella em que estava inscripto: ==Morte.==
LI
Era noite velha, quando Ditálcon, Andaca e Minouro regressaram ao acampamento de Viriatho. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha imaginára, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou rasões politicas se debatiam na barraca do general romano, para lá se deterem. De vez em quando occorria-lhe a conjectura de que Cepio, não reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentarios, os teria mandado passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como refens para lhe impôr condições de rendição. N'esta prolongada preoccupação de espirito, e sob a pressão dos inesperados acontecimentos, que só poderiam ser contrabalançados pela energia e pela astucia, Viriatho cahiu em um somno profundo, como aquelle em que se fica immerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o somno era agitado, como em homem costumado a estar álerta mesmo quando descansava; e n'essa agitação, debatia-se Viriatho com um pezadello, um sonho, que sem differença e por fatalidade coincidia com o que estava prestes a acontecer. Na agitação d'aquelle somno dormido sobre a terra recalcada poucas horas antes pelos cavallos, Viriatho sentia os passos dos seus tres Companheiros, que se aproximavam silenciosamente da barraca em que estava dormindo; um d'elles, Minouro, afastou o panno e entrou escondendo de traz das costas um punhal de dois gumes. N'aquella anciedade cataleptica, Viriatho quiz erguer-se, gritar, mas era impossivel qualquer movimento; em seguida entrou Ditálcon, e Andaca ficou quasi da parte de fóra, mas era ainda visto claramente. Sob o terror do sonho que o opprimia, Viriatho viu Minouro curvar-se sobre elle, e erguendo ao ár o braço com o punhal descarregar o golpe...
N'esse momento de extrema angustia acorda, e entre a illusão e a realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoço; antes que o sangue lhe embaraçasse a voz, Viriatho, abrindo os olhos attonitos, pôde proferir as palavras:
—O meu maior amigo? Minouro...
Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e respingaram pelos pannos da barraca, não deixaram que podesse mais exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, até ao ultimo alento, passando assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua lealdade, não ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa, que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.
A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurança; os tres Companheiros da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram á desfilada para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi acordal-o, e dizer-lhe:
—Morreu Viriatho!
Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o somno, deu ordem ao Cavalleiro:
—Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.
LII
Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua presença era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava luminoso e sereno, não apparecera; como faltavam tambem os seus tres Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer algum fôjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar se estaria cahido por doença; o que estava mais perto levantou resoluto o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da relva, sobre póstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:
—Está morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!
Aquelle brado sôou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o ár ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldurios e por entre os Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de Viriatho.
—Apunhalado Viriatho! Morto Viriatho!
Para a barraca do general correram todos aterrados. Não compareceram Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os unicos que faltavam. Sem esforço reconheceram que esses, a quem Viriatho considerava como os seus maiores amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente, emquanto elle dormia!
Corriam lagrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de Viriatho n'esta campanha de dez annos pela independencia da terra lusitana.
A barraca foi desmantelada, e ficou patente aos olhos de todos o corpo inanime de Viriatho estendido como se tivesse passado instantaneamente do somno da vida para o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço dado por mão certeira, a que teria succumbido rapidadamente e quasi sem agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazia, e a seu lado, estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencivel, á qual attribuiam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se atrevendo nenhum dos Soldurios a tomal-a na mão, diziam entre si:
—Agora comprehendemos as vozes que corriam: Viriatho não morreu em batalha; assim lhe estava vaticinado.
—Mas o oraculo, que lhe parecia favoravel, deixára no vago a hypothese atroz, de morrer apunhalado á traição pelos seus melhores amigos!
—Antes vencido e morto na refrega, no sacrificio voluntario da vida por uma ideia, do que esta sorte miseranda.
E por todo o exercito, em grupos, que se formavam em tamanha desolação, levantavam-se alaridos, prantos de terror e de magoa; bem reconheciam que aquelle desastre era a perdição de todos, e que sem o chefe prestigioso achavam-se á mercê do Consul romano, e para muitos annos abafada a resistencia da Lusitania. Na angustia em que todos se viam, a pouca distancia do exercito de Quinto Servilio Cepio, o desespero da situação causava uma apathia, uma obnubilação para planear a defeza urgente.
N'este momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriatho, chegou Tantalo, um dos bravos em que mais confiava o Caudilho, e collocando-lhe a espada entre as mãos, cruzada sobre o peito, exclamou:
—Morreu o teu corpo, mas permanece imperecivel o teu ideal. Esta Espada transmittirá o esforço, truncado pela traição, áquelle que cedo ou tarde servir a aspiração de uma Lusitania livre.
E voltando-se para o exercito, que parecia reanimado por estas palavras:
—O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriatho as honras do funeral.
Emquanto se davam as ordens para realizarem de prompto, com a maior solemnidade, a lugubre cerimonia, no arraial dos romanos levantavam-se cantos de acclamação triumphal, que eccoavam de quebrada em quebrada:
—Acabou a Guerra da Lusitania. Morreu Viriatho! Morreu Viriatho.
LIII
No arraial de Quinto Servilio Cepio a inesperada noticia da morte de Viriatho propagou-se com uma rapidez inaudita; perguntavam entre si os Legionarios:
—Quem seria o valentão que se atreveu a ir atacar pessoalmente aquelle colosso?
—Morreu em duello Viriatho!?
—Só por traição...
—Quem foi o romano astucioso?
—Quem teve essa gloria?
—Não ha gloria em matar á traição.
—Não foi nenhum romano; fôram lusitanos, e amigos de Viriatho.
—Custa a crêr.
—Elles estão ahi junto da barraca de Cepio para receberem o premio promettido.
—Então, foi Cepio que os comprou? que os aliciou para a traição?
—Sim! Nada podendo pelas armas, alcançou pela astucia o que nunca poderam conseguir Vetilio, Plancio, Nigidio, Fabio, Quinccio e Serviliano. É velho o ditado, mas sempre verdadeiro: Quem não póde, trapacêa.
E n'estas conversas entre os Legionarios, a curiosidade aguçava-se estimulando alguns d'elles para irem vêr como eram as caras dos tres miseraveis que tinham, ao serviço de Cepio, assassinado o general que Roma tanto temia. Os Legionarios que passavam e encaravam com Ditálcon, Andaca e Minouro, iam dizendo entre dentes:
—Ia jurar que aquelles homens não são lusitanos!
—Viste aquelle mais alto, e mais velho? Se não é um africano branco, berber, mesmo ao pintar!
—E o outro? o loiro, parece celta.
—O da cara redonda é que se assemelha mais ao typo luso; mas assim roliço, e puchando para a gordura... é com certeza ibero.
Afastaram-se á pressa, por que o Consul Quinto Servilio Cepio apparecera á porta da sua barraca de campanha; alguns ouviram o som confuso das palavras trocadas entre elle e os tres traidores, palavras atropeladas, e d'entre as phrases destacando-se as que Cepio proferiu com accentuado e esmagador desdem:
—Roma não tem por costume dar premio a soldados que estrangulam o seu general.
As trombetas abafaram o resto da phrase, tocando á formatura das Legiões e á parada geral do exercito. Emquanto esteve o exercito consular em fórma, Cepio conferenciou com os Centurios, estabelecendo o plano a seguir depois da morte de Viriatho:
«Primeiramente intimar ao exercito lusitano a rendição peremptoria e incondicional; agora privado de chefe, é de todo impossivel a resistencia.
«Depois d'isto, que Decio Junio Bruto avance com uma parte do exercito romano e penetre na região da Vettonia e vá ao encontro dos Callaicos, que tratam de prestar soccorro ao exercito, conforme o pedido que lhes fizera o Caudilho.
LIV
Os Cavalleiros romanos, que chegaram com a intimação affrontosa de Cepio ao arraial lusitano, podéram vêr e contaram as cerimonias grandiosas que se praticaram no Funeral de Viriatho. D'entre os Mil Soldurios que sempre o acompanharam, uns encarregaram-se de vestil-o magnificentissimamente com as mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava os jogos celebrando as derrotas romanas. Amarraram-lhe os cabellos na testa, como se fôsse para entrar em combate, pondo-lhe na cabeça a triplice cimeira e o capacete de couro; pendente do pescoço o pequeno escudo concavo, preso por corrêas, e em uma das mãos um punhal largo ou faca de matto, estendida a seu lado uma lança de ponta de bronze e gancho para não deixar fugir a prêza. Outros Soldurios acarretaram para cima de um alto penhasco que estava na corôa da montanha, grandes mólhos de rama de pinheiro, de faias e carvalhos, formando alli uma estupenda pyra, sobre a qual, com veneração, fôram processionalmente collocar o corpo rigido de Viriatho. Parecia um soberbo throno a pyra; e logo que cada um dos Mil Soldurios foi junto do cadaver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em grupos de duzentos, e póstos em frente uns dos outros, como quem vae entrar em combate, esperando que fôsse lançado fogo á enorme pyra. A chamma começou a atear-se, e assim que ella irrompeu intensa, principiaram as dansas guerreiras em volta da pyra, em fórma agonistica, batendo os escudos, floreando as lanças, brandindo as espadas e entrecruzando-se vertiginosamente, como se esse tripudio sanctificasse mais o acto lugubre, continuando ininterruptamente, incansavelmente, até que a ultima labarêda, tendo combusto o corpo de Viriatho, se apagasse por não ter mais que queimar.
E emquanto aquellas turmas de duzentos cavalleiros dansavam em volta da pyra, dois outros grupos conservavam-se balançando-se como a accentuar o rythmo de um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroismo de Viriatho. O que esse Côro generoso e heroico vociferava, chegou na voz dos tempos a penetrar na historia:
ENDECHA FUNERAL
PRIMEIRA TURMA:
De obscura estirpe nascido,
Fôra em criança pastor:
Certo prenuncio e augurio
Que um dia, por seu valor,
Intelligencia e denodo,
Guiaria o Povo todo.
SEGUNDA TURMA:
Nos transes mais arriscados,
A astucia e penetração
Dos seus planos de batalha,
Descobria a salvação!
Vimol-o em Tribula, quando
Teve a Viria do commando.
PRIMEIRA TURMA:
Por trazer o Collar de oiro
Não deixou de ser affavel!
Dava a todos egualdade,
Contra Roma era implacavel!
Nas Legiões consulares,
Mandava ao Orco aos milhares.
SEGUNDA TURMA:
Roma offereceu-lhe um dia
Da Lusitania a Realeza!
Simples, modesto no trato,
Sceptro e purpura despreza,
Fazer livre a Patria sonha;
Por ella a morte é risonha.
Este grupo de Soldurios unindo-se, começaram uma carreira vertiginosa em volta da pyra; e os que até áquelle momento andavam em volteio ballucinante pararam subito, cantando por sua vez, divididos em duas filas:
PRIMEIRA TURMA:
Dominou pelas victorias!
Mas nunca sua vontade
Altiva se exerceu fóra
Da Justiça e da Equidade.
Sempre as prêzas repartia;
Nada para si queria.
SEGUNDA TURMA:
Valente, audaz, destemido,
No seu viver era sóbrio!
Commodidades e luxo
Tinha-os por vil opprobrio.
Para a liberdade attreito,
Tinha o duro chão por leito.
PRIMEIRA TURMA:
Triumphava nos perigos
Pela astucia e pela audacia!
Cansou Roma, a Paz lhe impondo
Pela instante contumacia.
Manietou os tyrannos
Na campanha de dez annos.
SEGUNDA TURMA:
N'esses dez annos de lucta,
Á sua voz tudo corre;
Uniu-nos pela vontade
Que a Patria lusa soccorre,
A nossa Patria ditosa,
Que, firme, libertar ousa!
AS QUATRO TURMAS:
E Roma, sempre vencida,
Só achou o assassinato,
Pela perfidia affrontosa
Para vencer Viriatho!
Vergonha á Cidade eterna,
Que pela traição governa.
O Canto do soberbo Côro acabou pela estranha Vociferação, condemnando a traição execranda de Roma contra Viriatho emquanto dormia. Areytos e Tripudios funerarios acabaram simultaneamente; e emquanto se abriu uma vastissima cova para arrojar as cinzas de Viriatho, procedeu-se ao sacrificio das victimas consagradas aos manes do general insubstituivel. Cortaram as dextras dos prisioneiros romanos, que eram quasi todos iberos e levantinos, e foram mortos muitos cavallos. Dedicados amigos de Viriatho combinaram entre si o suicidio religioso, para o acompanharem além da morte, sendo alli enterrados sobre as cinzas d'aquelle com quem contavam encontrar-se em um melhor mundo. Subitamente apresentou-se á beira da cova Bovecio, e exclamou com voz firme:
—Ao bom conselho de Viriatho devi o voltar á vida, de uma doença mortal. É de meu dever acompanhal-o na morte.
E vibrando em si proprio uma punhalada, cahiu borbotando sangue na larga cova aberta. Muitos dos Soldurios de Viriatho, levados pela mesma vertigem, proclamaram o suicidio religioso. Então Andergus, o espadeiro de Toletum, propoz:
—Que se suicidem tantos amigos e companheiros de Viriatho, quantos os annos que duraram os seus combates contra Roma.
Avançaram para ao pé de Andergus os Maioraes da Mésta, Edovius, Togotes, Uvarna, Suttunus, Semesca, e alguns chefes de Contrebias, taes como Aernus e Candiedo; e começaram entre si um duello desvairado, jogando-se golpes de morte, cada qual procurando não ser o ultimo sobrevivente. Andergus foi o primeiro a cahir por terra. Mas a cerimonia inaudita teve de ser interrompida por um successo impressionante: dois Cavalleiros romanos, em nome do general Quinto Servilio Cepio, apresentaram-se intimando a rendição do exercito lusitano.
—Nunca!—bradaram os primeiros que ouviram a intimação affrontosa.
—Não se pactúa com um general que julga chegar á victoria pela traição.
E os que iam suicidar-se pela confraternidade heroica, decidiram:
—Morramos, sim, mas em lucta desesperada contra o infame Consul.
E n'aquelle momento, lançando a ultima pá de terra sobre a sepultura de Viriatho:
—Para a frente! Tantalo, Tantalo seja o nosso general, para continuar a campanha.
LV
Depois que Tantalo tomou o commando do pequeno exercito lusitano, alli mesmo em conselho armado assenta o plano a seguir para evitar o combate com Cepio:
—Temos dois recursos: ou debandar o exercito, indo cada um de nós recolher-se a Numancia, e coadjuvarmos Salóndico, que resiste com valentia a Quinto Pompeu Rufo; ou seguirmos em marcha sobre Sagunto, que está em poder dos Romanos, é verdade, mas cujas cercanias acham-se povoadas por Turdetanos.
—Para Sagunto! Para Sagunto.
A marcha fez-se com precipitação, de modo que Cepio, vendo que os Lusitanos não se rendiam, e dando ordem para o ataque immediato, encontrou o campo abandonado. Mandou circular em todas as direcções para descobrir o caminho que os lusitanos seguiam; e facilmente lhes seguiu o encalso, alcançando-os proximo das vertentes de Palancia e do Turia.
Tantalo não pôde evitar o combate; reconhecia que era impossivel a victoria, mas a derrota certa havia de custar muito sangue aos romanos. E voltando-se para os Soldurios, que no funeral de Viriatho se ajuntaram dois a dois para luctarem em duello até cahirem mortos para acompanharem ao outro mundo o seu chefe, exclamou:
—Agora é que vale a pena morrer. Continuamos ainda a glorificação de Viriatho.
O arranque com que os Lusitanos receberam o ataque do exercito de Cepio foi de molde, que o Consul, seguro da victoria, julgou melhor, ainda assim, não se aventurar ás contingencias do momento; e antes de dar o golpe decisivo, e dispostas todas as forças para o desfecho tremendo em que seriam passados á espada, mandou dizer a Tantalo:
—Posso offerecer-vos a Deditio. Quero ser generoso com os bravos que não temem a morte.
Tantalo explicou aos seus companheiros o que era a Deditio concedida pelo general romano:
—Se nos entregarmos como Dedititios, ficamos subditos de Roma, e como taes ninguem nos poderá reduzir á condição de escravos vendendo-nos nos mercados como bestas de carga. Como Dedititios tem de nos ser dado um territorio para habitarmos como Colonos.
A ideia de nunca serem escravos mais do que tudo sorriu áquelles cansados lusitanos; e então Tantalo mandou entregar a sua espada a Cepio como signal da rendição.
Cepio desejava apagar a mancha indelevel da deslealdade com que rasgou o tratado de Paz, e procurando attenuar o odio da perfidia com que fez assassinar Viriatho, deu aos trôços da gente que formava o exercito lusitano o territorio extenso e fertil do valle banhado pelo Turia, para o colonisarem pacificamente.
Passados dois annos, Decio Junio Bruto, denominado por antonomasia o Callaico, por ter derrotado os quarenta mil gallegos que vinham em auxilio de Viriatho, confirmou os privilegios d'aquelles dediticios, e á cidade que haviam fundado e já se tornava florescente deu o nome de Valencia, consagrando o heroismo dos destemidos lusitanos.
LVI
Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas não estava pacificada a Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salóndico resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptidão em inventar uma cilada. Roma não o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio Furio Philo, Quinto Calpurnio Pisão, até Cornelio Scipião Emiliano.
Pela indomavel bravura com que Salóndico sustentou Numancia, chegou a correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mãos que estava a Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde está occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso intuito, na rendição junto do Turia.
Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixarão inolvidavel o anno de DCXIV; Lisia, sómente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o ár de ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam, lançaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente lhe chamava:
—Sempre noiva! a Sempre noiva.
E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:
—O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!
O velho respondeu com firmeza:
—Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!
Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das Pedras baloiçantes, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.
Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia, para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:
—Viriatho está vivo? Viriatho estará morto?
E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como no somnambulismo da concentração de uma saudade inconsolavel.
LVII
Contam-se maravilhas d'essa região dos Cynetas, na qual se ouve, segundo dizem, o esturgir dos raios ardentes do Sol quando se afunda nas aguas do Oceano, ao fim do dia. E tambem relatam viajantes audaciosos, que esses blocos de ambar amarello, de impagavel belleza, que o mar arroja ás praias, são a solidificação d'esses raios solares bruscamente mergulhados nas aguas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais deslumbrava os espiritos é a dos Loghans, os penedos baloiçantes, que revelam o desconhecido a quem se aproxima d'elles e os interroga.
Logo que Lisia chegou ao paiz dos Cynetas, mandou que os seus ambactes esperassem no povoado, dirigindo-se ella sósinha para os dois grandes fraguedos sobrepóstos, que estavam no caminho do Promontorio Sacro, e se avistavam de longe, como dois nimbos opacos e caliginosos no horisonte. Aquelle aspecto infundiu-lhe um terror momentaneo; mas avançando sempre chegou ao pé dos dois gigantescos penhascos, para os quaes se subia por saliencias, como imperfeitos degráos formados pela erosão atmospherica. Um d'esses penhascos, e o maior, estava assente no solo, cercado de matagaes e dos pedregulhos que o tempo ia destacando d'elle, conforme o fendiam os raios, a agua gelada nas suas cavidades, e as raizes de mirrados arbustos. O outro penhasco apoiava-se sobre este, e apesar de ser um megalitho espantoso, podia-se notar que fôra separado por uma clivagem natural, e que tendo-se as juntas da estratificação corroido de fóra para dentro, ficou um ponto que escapando ao phenomeno da erosão, é aquelle em que oscilla levemente o Loghan ou calháo enorme.
Lisia, subira para o coruto do monolitho, que permanecia immovel; sentou-se cansada, n'aquella solidão e amplidão immensa, contemplando o már ao longe, e vendo o sol sumir-se no occaso. Depois enegreceu o ár, as sombras da noite cobriram tudo em volta, e Lisia, comprehendendo a situação da vida sem aquelle que tanto amava, ergueu-se resolutamente, procurou o vertice do penhasco baloiçante, e interrogou:
—Está vivo Viriatho?
A rocha ficou immovel. Lisia quiz ainda repetir a pergunta, mas entrando em um desespero de presentimento, inquiriu:
—Está morto Viriatho?
A rocha oscillou levemente para o lado esquerdo da posição em que se encontrava Lisia. Ella, como se vibrasse em si um ultimo golpe, renovou a pergunta, repetindo-se a mesma oscillação sinistra. Lisia ficou n'uma immobilidade attonita, n'um lethargo inconsciente, como se tivesse cahido d'aquella enorme altura, e alli jazeu a noite longa, insensivel ás rajadas frias, prostrada em terra, debruços, como esmagada pela impressão abrupta. A luz do sol é que a despertou; tinha voltado à vida, não a do seu dourado sonho, que alli acabára, mas a do soffrimento que não póde prolongar-se.