—Amanhã.
Estella recebeu-o como das outras vezes, sem embargo do pae, que parecia apostado em lhe tornar amargos esses ultimos instantes. A tristeza do Sr. Antunes era mortal. Elle pertencia á phalange daquelles espiritos que, atravez dos annos e ainda nos regelos do inverno, conservam as calcinhas da primeira edade, e para quem a vida tem sempre o aspecto dos castellos de cartas que construiram na infancia. Uma vez penetrado da ideia de casar a filha com o bacharel, viveu della, como se a vira praticada. O incidente da guerra não lhe desvendou a realidade da situação, mas pareceu-lhe que adiava o seu desejo, e bastava a consternal-o. Agora que via fardado o filho de Valeria, prestes a embarcar no dia seguinte, creu devéras na separação. Após meia hora de conversa, o Sr. Antunes retirou-se alguns minutos da sala; ia ver charutos.
—Tome um dos meus, disse Jorge.
—Nada; os seus são muito fortes.
Nunca os charutos de Jorge padeceram semelhante accusação da parte do Sr. Antunes, que fumava regularmente os do filho como havia fumado os do pae. Estella ficou humilhada com a resposta e a acção. Jorge que estava de pé, junto a uma mesa, viu sair o pae de Estella, e ficou a olhar para o chão. A moça cravou os olhos no trabalho, que estava fazendo.
Jorge ergueu emfim os olhos e pousou-os na moça, cuja belleza lhe pareceu naquella noite ainda mais limpida e espiritual, justamente porque elle começava a vel-a atravez do nimbo da saudade. Ella attendia ao trabalho com uma quietação laboriosa. As mãos, que podiam emparelhar com as mais puras, moviam as agulhas sem apparente commoção nem tremor. Ao mancebo já não humilhava esse aspecto indifferente e digno; podia medir, em si mesmo, a differença das situações, o caminho vencido, desde as primeiras ideias a respeito de Estella. Mas os minutos corriam e o silencio acanhava-o cada vez mais; emfim, resolveu rompel-o, e rompel-o de modo que tirasse daquelle minuto ou a salvação ou o naufragio da vida que ia emprehender. Deu dous passos para Estella.
—Talvez não nos vejamos mais, disse elle.
—Porque? disse Estella sem levantar os olhos.
—Posso ficar enterrado no Paraguay.
—Sua mãe não gostaria de ouvir isso...
Seguiram-se ainda dous minutos. Jorge poz toda a alma nestas palavras, ditas em voz baixa e triste:
—Embarco amanhã para o sul. Não é o patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, amor grande e sincero, que ninguem poderá arrancar-me do coração. Se morrer, a senhora será o meu ultimo pensamento; se viver, não quero outra gloria que não seja a de me sentir amado. Uma e outra cousa dependem só da senhora. Diga-me; devo morrer ou viver?
Estella tinha erguido a cabeça; quando elle acabou achava-se de pé. Fitou-o alguns instantes com uma expressão muda e fria. A vaidade da mulher podia contentar-se daquella solemne reparação, e perdoar; mas o orgulho de Estella venceu, e não deu logar a nenhum outro sentimento de justiça ou de humanidade. Um geito ironico torceu-lhe o labio, donde saiu esta palavra má e desdenhosa:
—O senhor é um tonto.
Quando o pae voltou á sala, instantes depois, Jorge estava com uma das mãos no encosto de uma cadeira, pallido como um defunto. Estella fora até á porta da alcova da sala, resolvida a fechar-se por dentro.
O Sr. Antunes não tinha observação; mas, ao ver o rosto dos dous, não era muito difficil adivinhar que alguma cousa se passara entre elles. Adivinhou-o; comtudo, não atinara bem o que seria, se uma scena de dolorosa despedida, se outra cousa menos propicia a seus calculos. Foi ao joven capitão e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estella, estendeu-lhe a mão, que ella apertou com o ar mais tranquillo do mundo. O pae espreitava uma lagrima furtiva, um gesto disfarçado, qualquer cousa que falasse em favor de suas esperanças. Nada; Estella não baixou o rosto nem escondeu os olhos. Jorge, sim; não obstante o esforço que fazia, tremia-lhe a mão ao apertar a do escrevente.
O Sr. Antunes acompanhou-o até a porta. Alli, antes de a abrir, quiz abraçar o moço official.
—Dê-me essa triste honra, disse elle; creia que estes braços são de amigo.
Jorge deixou-se ir, sem enthusiasmo; mas quando sentiu o corpo do pae de Estella, pareceu-lhe que abraçava uma parte da moça, e apertou-o fortemente ao peito. Esta manifestação lisonjeou extremamente o outro; chegou a commovel-o.
—Conte commigo, murmurou elle; fico para ajudal-o.
Jorge ouviu-o, apertou-lhe machinalmente as mãos, recebeu um abraço ultimo e atirou-se á rua.
Intoleravel é a dor que não deixa sequer e direito de arguir a fortuna. O mais duro dos sacrificios é o que não tem as consolações da consciencia. Essa dor padecia-a Jorge; esse sacrificio ia consumal-o.
Não foi dalli para casa; não ousaria encarar sua mãe. Durante a primeira hora que se seguiu á saída da casa de Estella, não pode reger os pensamentos; elles cruzavam-lhe o cerebro sem ordem nem deducção. O coração batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em quando o corpo era tomado de calefrios. Ia despeitado, humilhado, com um dente de remorso no coração. Quizera de um só gesto eliminar a scena daquella noite, quando menos apagal-a da lembrança. As palavras de Estella retiniam-lhe ao ouvido como um silvo de vento colerico; elle trazia no espirito a figura desdenhosa da moça, o gesto sem ternura, os olhos sem misericordia. Ao mesmo tempo, lembrava-lhe a scena da Tijuca, e alguma cousa lhe dizia que essa noite era a desforra daquella manhã. Ora sentia-se odioso, ora ridiculo.
—Tua mãe é quem tem razão, bradava uma voz interior; ias descer a uma alliança indigna de ti; e se não soubeste respeitar nem a tua pessoa nem o nome de teus paes, justo é que pagues o erro indo correr a sorte da guerra. A vida não é uma egloga virgiliana, é uma convenção natural, que se não acceita com restricções, nem se infringe sem penalidade. Ha duas naturezas, e a natureza social é tão legitima e tão imperiosa como a outra. Não se contrariam, completam-se; são as duas metades do homem, e tu ias ceder á primeira, desrespeitando as leis necessarias da segunda.
—Quem tem razão és tu, dizia-lhe outra voz contrária, porque essa mulher vale mais que seu destino, e a lei do coração é anterior e superior ás outras leis. Não ias descer; ias fazel-a subir; ias emendar o equivoco da fortuna; escuta a voz de Deus e deixa aos homens o que vem dos homens.
Jorge caminhava assim, levado de sensações contrarias, até que ouviu bater meia-noite e caminhou para casa, cançado e oppresso. Valeria esperava-o sem haver dormido. Essa dedicação silenciosa, occulta, vulgar nas mães, natural naquella vespera de uma separação acerba e longa, foi como um balsamo ao coração dolorido do rapaz. Foi tambem um remorso. Pungiu-lhe a consciencia ao ver que esperdiçara algumas horas longe da creatura, a quem verdadeiramente ia deixar saudades, unica pessoa que pediria a Deus por elle. Valeria adivinhara onde estaria o filho, e tremia de medo á proporção que as horas passavam, receiosa de que, amando-o Estella, um e outro houvessem subtrahido a sua ventura ao jugo das leis sociaes, indo refugiar-se em algum ignorado recanto. Pensou isso, e fraqueou, e arrependeu-se, duvidando de si e da rectidão de seus actos. Não duvidava da natureza do mal; mas não excedia a elle o remedio escolhido? Suppondo que esse pensamento era a sua primeira punição, reagiu fortemente, colligindo as energias abatidas e dispersas e voltou a ser a mulher que era, com todas as suas fortes qualidades naturaes ou contrahidas. De mais, a que viria o arrependimento, se era tarde?
O filho entrou com as feições recompostas, mas tristes. Valeria recebeu-o sem nenhuma expressão de censura ou magua. Nada lhe disse; elle pouco falou e despediram-se sem expansão, aquella ultima noite que ia o moço dormir sob o tecto de seus paes.
A noite foi para elle afflicta e melancholica. Quasi inteira gastou-a em inventariar a vida que ia acabar, em dar busca aos papeis, queimar as cartas dos amigos, repartir algumas prendas, e finalmente em escrever disposições testamentarias e cartas a pessoas intimas. Perto das quatro horas deitou-se; ás sete estava de pé. Valeria havia-se-lhe antecipado. Algumas pessoas foram despedir-se delle e acompanhar a mãe no solemne momento da despedida. Entre essas figurava o pae de Estella, cuja tristeza, que era sincera, trazia uma mascara ainda mais triste.
Veiu emfim o momento da despedida. Valeria dominara-se até onde pode; mas o ultimo instante concentrava tantas dores, que era impossivel resistir-lhe. A organização moral da viuva era forte, mas a resistencia fora prolongada, e a vontade gastou-se nesse esforço de todos os dias. Quando soou o instante definitivo da separação rebentaram dos olhos as lagrimas, não tumultuosas, cortadas de vozes e gemidos, mas dessas outras que retalham silenciosamente as faces, resto de uma dignidade que cede a custo á lei da natureza. Ella estendeu os braços, ainda formosos, sobre os hombros do filho; nessa postura contemplou-o algum tempo; depois beijou-o e apertou-o estreitamente ao coração.
—Vae, meu filho, disse com voz firme. Eu fico rogando a Deus por ti; Deus é bom e te restituirá a meus braços. Serve a tua patria, e lembra-te de tua mãe!
Foram as ultimas palavras. Jorge não as ouviu; tinha o espirito prostrado e surdo. Chorou tambem, menos silenciosamente que Valeria, mas as mesmas lagrimas afflictas.
—Adeus, querida mamãe! disse elle arracando-se emfim de seus braços.
Saiu; Valeria não o viu sair; dera costas a todos e foi lastimar na alcova seu voluntario infortunio.
Pouco tempo depois, perdendo de vista a cidade natal, sentiu Jorge que dobrara a primeira lauda de seu destino, e ia encetar outra, escripta com sangue. O espectaculo do mar abateu-o ainda mais: alargava-se-lhe a solidão até o infinito. Os poucos dias da viagem desfiou-os nessa atonia moral que succede ás catastrophes. Emfim, aportou a Montevidéu,—seguindo dalli ao Paraguay.
A segunda viagem, as gentes extranhas, as novas cousas, o movimento do theatro da guerra, produziram nelle saudavel transformação. O espirito elastico e mobil sacudiu as sombras de pezar que o ennoiteciam, e, uma vez voltado o rosto para o lado do perigo, começou de enxergar, não a morte obscura ou ainda gloriosa, mas o triumpho e o laureado regresso. Bebido o primeiro hausto da campanha, Jorge sentiu-se homem. A hora das frivolidades acabara; a que começava era a do sacrificio austero e diuturno. Ia encarar trabalhos não sabidos, expôr-se a perigos inopinaveis; mas ia resoluto e firme, com a fronte serena e clara e o lume da confiança acceso no coração.
V
As primeiras cartas de Jorge foram todas á mãe. Eram longas e derramadas, enthusiasticas, descuidosas e até pueris. Descontada a escassa porção de realidade que podia haver nellas, ficava um calculo, que o coração de Valeria comprehendeu; era adoçar-lhe a ausencia e dissipar-lhe as apprehensões.
Cedo se familiarisou Jorge com a vida militar. O exercito, acampado em Tuyuty, não iniciava operações novas; tratava-se de reunir os elementos necessarios para proseguir a campanha de modo seguro e decisivo. Não havendo nenhuma acção grande, em que pudesse provar as forças e amestrar-se, Jorge buscava as occasiões de algum perigo, as commissões arriscadas, cujo exito dependesse de espirito atrevido, sagacidade e paciencia. Esse desejo captou-lhe a sympathia dos chefes immediatos.
O coronel que o commandava attentou nelle; sentiu-lhe a alma juvenil atravez do olhar brando e repousado. Ao mesmo tempo observou que, no meio dos gozos faceis e multiplos do acampamento, convertido pela inacção em povoado de recreio, Jorge conservava um retrahimento monachal, um casto horror de tudo o que pudesse divertil-o de curar das armas, ou sómente de pensar nellas. O coronel era homem de seu officio; amava a guerra pela guerra; morreu talvez de nostalgia no regaço da paz. Era bravo e rispido. O que lhe destoou a principio na pessoa de Jorge, foi o alinho e um resto de seus ademanes de sala. Jorge, entretanto, sem perder desde logo o geito da vida civil, foi creando com o tempo a crosta de campanha. O desejo de trabalhar, de arriscar-se, de temperar a alma ao fogo do perigo, trocou os sentimentos do coronel, que entreviu nelle um bom companheiro de armas, e ao fim de pouco tempo procurou distinguil-o.
Posto que Jorge falasse do coronel nas cartas que escrevia á mãe, não o dava como amigo seu, nem tinha amigos no acampamento, ou se os tinha não os considerava taes. Ouvia confidencias de muitos, animava as esperanças de uns, consolava as penas de outros, nunca abria porém a porta do coração á curiosidade transeunte. Devia ser entretanto interessante uma pagina sómente da vida daquelle militar, joven, bonito, abastado, que não ia ao theatro nem aos saraus do acampamento, que ria poucas vezes e mal, que só falava da guerra, quando falava de alguma cousa.
Um dia, um major do Ceará foi achal-o sentado em um resto de carreta inutil, lançado em sitio escuso, ora a olhar para o horizonte, ora a traçar com a ponta da espada uma estrella no chão.
—Capitão, disse o major, parece que você está vendo estrellas ao meio dia?
Jorge sorriu do gracejo, mas não deixou de continuar, nos demais dias, a traçar estrellas no chão ou a procural-as nas campinas do ceu. Os officiaes, arrastados pela sympathia, não lhe ficavam presos pela convivencia; Jorge era, não só taciturno, mas desegual, ora docil, ora rispido, muitas vezes distrahido e absorto. Era distrahido, sobretudo, quando recebia cartas do Rio de Janeiro, entre as quaes rara vez acontecia que não viesse alguma do Sr. Antunes. O pae de Estella regava com a agua salobra de seu estylo a esperança que não perdera. As suas cartas eram epithalamios disfarçados. Falava muito de si, e muito mais da filha, cuja alma, dizia elle, andava singularmente triste e acabrunhada. Jorge resistia ao desejo de falar tambem de Estella; mais de uma vez o nome da moça lhe caía dos bicos da penna; elle o riscava logo, assim como riscava qualquer phrase que pudesse parecer allusiva aos seus sentimentos; as que escrevia ao pae da moça eram seccas, sem especial interesse, polidas e frias.
Um dia, porém, antes de meado o anno de 1867, não pode resistir á necessidade de segredar o amor a alguem ou proclamal-o aos quatro ventos do ceu. Ninguem havia ao pé delle que merecesse a confidencia; Jorge alargou os olhos e lembrou-se de Luiz Garcia, unica pessoa extranha a quem confiara metade do segredo que havia levado para a guerra. Os corações discretos são raros; a maioria não é de gaviões brancos que, ainda feridos, voam calados, como diz a trova; a maioria é das pêgas, que contam tudo ou quasi tudo.
Já nesse tempo o coração de Jorge padecera grande transformação. O amor, sem minguar de intensidade, mudara de natureza, convertendo-se em uma especie de adoração mystica, sentimento profundo e forte, que parecia respirar atmosphera mais alta que a do resto da creação. Elle mesmo o disse na carta a Luiz Garcia, sem lhe denunciar o nome da pessoa, nem nenhuma circumstancia que podesse pol-o na pista da realidade; exigiu-lhe absoluto silencio e contou-lhe o que sentia:
«Não importa saber quem é, disse elle;—o essencial é saber que amo a mais nobre creatura do mundo, e o triste é que não sómente não sou amado, mas até estou certo de que sou aborrecido.
«Minha mãe illudiu-se quando suppoz que meu amor achara echo em outro coração. Talvez desistisse de me mandar ao Paraguay, se soubesse que esta paixão solitaria era o meu proprio castigo. Era; já o não é. A paixão veiu commigo, apezar do que lhe ouvi na vespera de embarcar; e se não cresceu, é por que não podia crescer. Mas transformou-se. De creança tonta, que era, fez-se homem de juizo. Uma crise, algumas legoas de permeio, poucos mezes de intervallo, foram bastantes a operar o milagre.
«Não sei se a verei mais, porque uma bala pode pôr termo a meus dias, quando eu menos o esperar. Se a vir, ignoro os sentimentos com que ella me receberá. Mas de um ou de outro modo, este amor morrerá commigo, e o seu nome será a ultima palavra que ha de sair de meus labios.
«Meu amor não sabe já o que seja impaciencia ou ciume ou exclusivismo: é uma fé religiosa, que pode viver inteira em muitos corações. Talvez o senhor me não comprehenda. Os homens graves ficam surdos a estas subtilezas do coração. Os frivolos não as entendem. Eu mesmo não sei explicar o que sinto, mas sinto alguma cousa nova, uma saudade sem esperança, mas tambem sem desespero: é o que me basta.»
Jorge releu o escripto, e ora o achava claro de mais, ora obscuro. Hesitou ainda algum tempo; emfim, dobrou a carta, fechou-a e remetteu-a para o Rio de Janeiro.
Quando a resposta lhe chegou ás mãos, preparava-se o exercito para deixar Tuyuty. Jorge estava todo entregue aos cuidados da guerra, a sonhar batalhas, a acutilar mentalmente os soldados de Lopez. A resposta de Luiz Garcia dizia pouco ou nada do objecto da carta de Jorge; compunha-se quasi toda de conselhos e reflexões, dadas em linguagem sobria e medida, reflexões e conselhos relativos quasi exclusivamente aos deveres de homem e de soldado.
Jorge esperava aquillo mesmo; conhecia, ainda que pouco, o genio sêcco e gelido de Luiz Garcia. Comtudo, ficou momentaneamente desapontado e triste. Seria certo que nenhum coração sympathisava com seus secretos infortunios ou suas venturas solitarias? Ao cabo de largos mezes de separação, nem Estella pensaria nelle, nem elle achava pessoa com quem partisse o pão das saudades, ultimo alimento de um amor sem conjuge. A consciencia da solidão moral abateu-o um instante; esvaiu-se-lhe toda a força accumulada durante aquelles mezes, e a alma caiu de bruços.
Poucos dias depois operou-se a marcha de Tuyuty a Tuyu-Cué, a que se seguiu uma serie de acções e movimentos, em que houve muita pagina de Plutarcho. Só então pode Jorge encarar o verdadeiro rosto á guerra, a cujo principio não assistira; figurou em mais de uma jornada heroica, correu perigos, mostrou-se valoroso e paciente. O coronel adorava-o; sentia-se tomado de admiração deante daquelle mancebo, que combatia durante a batalha e calava depois da victoria, que communicava o ardor aos soldados, não recuava de nenhuma empreza, ainda a mais arriscada, e a quem uma estrella parecia proteger com suas azas de luz.
Notou elle uma vez, em um dos combates mortiferos de Dezembro de 1868, anno e meio depois da carta de Luiz Garcia, que a temeridade do mancebo parecia ir além dos limites do costume, e que em vez de um homem que combatia, era elle um homem que queria morrer. A fortuna salvou-o. Findo o combate, recolhidos os feridos, repousados os corpos, o coronel foi ter com elle na barraca, e achou-o tristemente quieto, com os olhos inchados e parados. O coronel não reparou nisso; entrou a felicital-o pelo comportamento que tivera, ainda que um pouco excessivo. Jorge tinha-se respeitosamente erguido e olhava para o coronel sem dizer palavra. Este encarou-o e viu-lhe signaes de abatimento.
—Que diabo tem você, capitão?
—Nada, respondeu o moço.
—Recebeu hontem cartas do Rio de Janeiro?
—Uma: de minha mãe.
—Está boa?
—De perfeita saude.
—Nesse caso...
O coronel parou e reflectiu; depois continuou:
—Já sei o que é.
—O que é! exclamou Jorge procurando sorrir.
—Ha-de fazer-se, continuou o coronel; a cousa está a caminho, ha-de fazer-se, não lhe digo mais nada.
E bateu-lhe no hombro, com um gesto que tanto podia dizer: «socegue, capitão», como: «parabens, senhor major.» Jorge entendeu esse trocadilho gesticular, e apertou as mãos do coronel, agradecendo-lhe, não o posto que lhe annunciava, mas a affeição que lhe tinha. O coronel encarou-o paternalmente alguns minutos.
—Subir! Não sonham com outra cousa, rosnava elle comsigo.
E saiu.
Jorge ficou só, accendeu um cigarro, que não pode fumar até o fim. Depois sentou-se desabotoou a farda, tirou uma carta, abriu-a e releu algumas linhas do fim. A carta era de Luiz Garcia. Dava-lhe noticias de sua mãe, que, por motivos de doença, fora tomar aguas a Minas, e rematava com estas palavras assombrosas:
«... Resta-me dizer-lhe, se em alguma cousa lhe pode interessar minha vida, que sabbado passado contrahí segundas nupcias. Minha mulher é a filha do Sr. Antunes. Sua mãe serviu-nos de madrinha.»
Com os olhos fitos nessas poucas linhas, Jorge parecia alheio a tudo mais. O papel, recebido na vespera, estava amarrotado, como se lhe passara pelas mãos durante um anno. Olhava, relia e não podia entender; quando chegava a entender, não podia acreditar. O casamento de Estella era a seu ver um absurdo; mas após os intervallos de duvida, a realidade apossava-se delle. A razão mostrava-lhe que semelhante noticia devia ser certa. No fim de dous dias, tinha elle comprehendido alguma cousa do silencio de sua mãe: o motivo era, sem duvida, o mesmo que a impellira a mandal-o ao Paraguay. Nunca lhe falara de Estella, nem do casamento de Luiz Garcia, silencio calculado para de todo extinguir em seu coração os derradeiros murmurios de um amor sem echo.
Jorge sentiu então um phenomeno proprio de taes crises—um movimento de odio a todo o genero humano, desde sua mãe até o seu inimigo. Tornou-se descortez, violento, deliberadamente mau: effeito transitorio, ao qual succedeu um abatimento profundo. Ferido dahi a dias em Lomas Valentinas, retirou-se por alguns mezes do exercito, cujas operações só continuaram depois de meado o anno seguinte. Jorge teve parte nas jornadas de Pirebebuy e Campo Grande, não já na qualidade de capitão, mas na de major, cuja patente lhe foi concedida depois de Lomas Valentinas. No fim do anno estava tenente-coronel, commandava um batalhão, e recebia os abraços de seu antigo commandante, contente de o ver sagrado heroe.
Um acontecimento inesperado e desastroso veiu ainda golpeal-o cruelmente, logo depois de Março de 1870, quando, acabada a guerra, estava elle em Assumpção. Valeria fallecera. Luiz Garcia lhe deu essa triste noticia, que elle antes adivinhou do que leu, porque as ultimas cartas já lhe faziam presentir o lugubre desenlace. Jorge adorava a mãe.
Se só a contra-gosto viera para a guerra, não é menos certo que esta o cobrira de louros, e que elle os quizera depositar no regaço de Valeria. O destino decidiu por outro modo, como se quizesse contrastar cada um de seus favores fazendo-lhe sangrar o coração.
No fim de Outubro volveu ao Rio de Janeiro, Tinham passado quatro annos justos. Penetrando a barra e descortinando a cidade natal, Jorge comparava os tempos, as angustias e as esperanças da partida com a gloria e o abatimento do regresso. Não se sentia feliz nem infeliz, mas nesse estado medio, que é a condição vulgar da vida humana. Comparava-se ao mar daquella manhã, nem borrascoso nem quieto, mas levemente empolado e crespo, tão prestes a adormecer de todo, como a crescer e arremeçar-se á praia. Que aragem somnolenta ou que tufão destruidor, viria roçar por elle a aza invisivel? Jorge não o prescrutou. Trazia os olhos no passado e no presente; deixou ao tempo os casos do futuro.
VI
Antes de irmos direito ao centro da acção, vejamos por que evolução do destino se operou o casamento de Estella.
Poucos poderiam suppôr, nos fins de 1866, que a campanha se protrahiria ainda cêrca de quatro annos. O calculo do general Mitre, relativo aos tres mezes de Buenos-Ayres a Assumpção, tinha já cahido, é certo, no abysmo das illusões historicas. Proclamações são loterias; a fortuna as faz sublimes ou vans. A do general argentino, que era já uma affirmação errada, exprimiu comtudo, no seu tempo, a convicção dos tres povos. Do primeiro embate com o inimigo, viu-se que a campanha seria rija e longa; a illusão desfez-se; ficou a realidade, que nem por isso encarámos com rosto afflicto. Não obstante, era difficil presumir, em Outubro de 1866, que a guerra chegasse até Março de 1870. Suppunha-se que um esforço ingente bastaria a reparar Curupaity, a derrubar Humaitá, a vencer o dictador, não nos tres mezes do general Mitre, mas em muito menos tempo do que viria a ser na realidade.
Isto posto, não admira que Valeria receiasse cada instante a terminação da guerra e a prompta volta do filho. Se tal cousa acontecesse, ella teria dado um golpe inutil, e o fogo podia renascer das cinzas mal apagadas. Valeria preferia as soluções radicaes. Uma vez arredado o filho, viu a necessidade de anniquillar as ultimas esperanças, e o mais seguro meio era casar Estella. Assim procedendo, satisfaria tambem a affeição que tinha á moça, affeição que nunca lhe diminuíra. Sabia que entre Estella e o pae havia contrastes moraes de difficil conciliação. Cada um delles falava lingua differente, não podiam entender-se nunca, sobretudo (dizia ella comsigo), na escolha de um consorte.
Dous mezes depois do embarque de Jorge, Valeria mandou chamar o Sr. Antunes a Santa Thereza, onde tinha uma casa de verão. O recado foi escripto, circumstancia que lhe deu certa solemnidade. Nunca até então a viuva lhe escrevera. O Sr. Antunes leu e releu o bilhete, mostrou-o duas ou tres vezes á filha, esteve tentado de mostral-o ao vizinho fronteiro. Em quanto se vestia, pol-o sobre a mesa, lançando-lhe a furto os olhos, pesando-lhe de cór as expressões cortezes, espremendo-as, dissecando-as. Vestido, guardou-o cuidadosamente na algibeira. Na rua, separou-se de um importuno dizendo emphaticamente aonde ia. Quanto ao motivo do recado, não atinava qual fosse, nem teve muito tempo para isso. Cogitou, entretanto, e suppoz que se tratava de algum obsequio que ella lhe ia encommendar.
Era obsequio, e não lh'o pedia a viuva; prestava-o, e não se demorou muito em dizel-o. Ao cabo de dez palavras, pediu-lhe licença para dotar Estella.
—Não quizera fazel-o, sem o seu consentimento, concluiu ella; por isso o mandei chamar.
Do mais infimo a que um homem haja baixado, a natureza pode fazel-o grave, ainda que por um só minuto. Esse minuto teve-o o pae de Estella. Immovel e sem fala a principio; depois, ainda sem fala, mas não já immovel, o Sr. Antunes revellou em seu rosto, aliás vulgar, uma commoção digna. A dignidade, porém, expirou com o silencio. Quando elle abriu a boca para agradecer a prova de affeição que a viuva lhe dava á filha, a alma readquiriu o tregeito habitual. Valeria cortou-lhe o discurso com uma arte tão superior, que o pae de Estella antes sentiu do que comprehendeu. A viuva tinha a verdadeira generosidade, que consiste menos em prestar o obsequio do que em dissimulal-o; disse-lhe que, dotando Estella, cumpria um desejo do desembargador, e sem esperar pelo necrologio que o Sr. Antunes provavelmente ia recitar, fez um longo e affectuoso inventario das qualidades da moça.
—É muito boa filha, concluiu a viuva; tem qualidades dignas de todo o apreço, e, além do mais, sou amiga della.
—Isso, minha senhora, é a maior fortuna que lhe podia caber. Quanto a ser boa filha não é por vaidade que o digo, mas creio que a senhora tem razão. Saiu á mãe, que era uma santa alma.
—Estella não o é menos. É bonita! Emfim pode vir amar alguem, não lhe parece?
—Pode, pode, assentiu o Sr. Antunes. Que eu, verdadeiramente, não sei se ella já não amará. É tão calada! Ultimamente parece andar triste...
—Triste?
—Distrahida... assim, como pessoa que não tem o pensamento socegado. Não sei se aquillo é paixão, ou doença. Doença não creio que seja, por que ella é forte e tem boa apparencia. Coitadinha! Mas sempre alegre... isto é, alegre não... quero dizer, não anda sempre triste... ou por outra...
Valeria sorriu mentalmente daquella confusão que o Sr. Antunes fazia, e que attribuiu ao alvoroço que naturalmente a noticia do dote lhe causára; interrompeu-o dizendo que fosse lá com a filha.
Estella ouviu dahi a meia hora a noticia da generosidade da viuva, que o pae se apressou a ir dar-lhe, e, contra a expectação deste, ouviu-a calada e severa. Não achando a explosão de alegria que esperava, o Sr. Antunes abanou desanimado a cabeça.
—Não te entendo, filha! replicou elle. Has de dizer o que é que queres ser neste mundo. Não és rica, nem menos que rica; não tens a menor esperança no futuro. Eu não te posso deixar nada, por que nada tenho. Ha uma senhora, que te estima, que te faz um beneficio, e tu recebes isto como se fosse uma injuria.
A observação do pae chamou a filha á realidade da situação.
—Papae sabe que não sou de muito riso, disse ella; pode ficar certo de que me alegrou muito a noticia que me deu.
Não alegrou nada. Nunca lhe pesara tanto a fatalidade da posição. Depois do episodio da Tijuca, parecia-lhe aquelle favor uma especie de perdas e damnos que a mãe de Jorge liberalmente lhe pagava, uma agua virtuosa que lhe lavaria os labios dos beijos que ella forcejava por extinguir, como lady Macbeth a sua mancha de sangue Out, damnet spot! Este era o seu conceito; esta era tambem a sua magua. A altivez com que procedera desde aquella manhã de algum modo lhe levantara o orgulho, que o acto inconsiderado de Jorge havia por um instante humilhado. Mas a acção da viuva, por mais espontanea que fosse, tinha aos olhos da moça a consequencia de fazer decorrer o beneficio da mesma origem da affronta. Estella não distinguia entre os bens da mãe e do filho. Era tudo a mesma bolsa; e dalli é que lhe vinha o dote.
Com essa ideia oppressiva entrou ella em casa da viuva, cuja recepção lhe desabafou o espirito do mais espesso de suas preoccupações. Valeria beijou-a, com um gesto mais maternal que protector. Nem lhe deixou concluir a phrase de agradecimento; cortou-a com uma caricia; depois falou-lhe da belleza, das occupações, de cem cousas alheias ao objecto que as reunia, dissimulação generosa, que Estella comprehendeu, porque tambem possuia o segredo dessas delicadezas moraes.
Quinze ou vinte dias depois, Valeria interrogou directamente Estella, e a resposta que obteve foi contraria a suas esperanças.
—Não amo ninguem, disse a moça; e provavelmente não amarei nunca.
—Porque? replicou vivamente a viuva.
Estella sorriu.
—Podia dizer-lhe, respondeu ella, que não tenho coração...
—Seria mentir. Mas vás talvez dizer que um bom marido não é cousa facil de achar.
—Isso.
—Tens razão até certo ponto. De todas as aves raras a mais rara é um bom marido; mas o que é raro não é impossivel. Metteu-se-me em cabeça que heide descobrir uma joia. Se eu a encontrar, que farás-tu?
—Acceito, disse a moça depois de um instante.
—Assim, não; não quero que a acceites sem vontade; has-de acceital-a com amor... porque eu não creio que não tenhas coração; é faceirice de moça bonita. Deixa ver,—continuou a viuva collocando-lhe a mão no peito;—tens, oh! tens um coração que parece querer despedaçar-te o peito. Estella, tu estás doente!
—Que ideia! exclamou a moça rindo. Se eu vendo saude! Não estou doente, estou commovida. Tratemos do noivo. Não me peça que o ame apaixonadamente, porque eu não nasci para isso. Minha natureza é fria. Mas um pouco de estima, certo interesse...
—Justo: a semente do amor. O tempo se encarregará de fazer a arvore.
Durante tres mezes não falaram do assumpto. No fim desse tempo,—tendo Valeria descido de Santa Thereza, Estella foi passar algumas semanas na rua dos Invalidos.—Ainda nada? perguntou a viuva logo que a viu.—Cousa nenhuma, foi a resposta. Dada a situação de uma e outra, não era facil a Valeria encontrar-lhe o noivo desejado a menos de o designar a propria noiva, e essa era a mais improvavel de todas as hypotheses.
Entretanto, a convivencia fez renascer entre ambas alguns dos habitos antigos. Valeria tornou a sentir a necessidade de a ter comsigo, de a conversar, de depositar nella suas ideias e enxaquecas. Estella offerecia todas as vantagens de uma velha amiga, com a circumstancia de ser moça, e ainda mais, a de ser bonita, qualidade sympathica á viuva, que fora uma das bellas mulheres de seu tempo. Nada lhes impedia restaurar inteiramente a situação anterior, a não ser a memoria do passado recente. Era isso que ainda estabelecia entre ambas tal ou qual cautella, tal ou qual separação, que o Sr. Antunes chegava a suspeitar ás vezes, sem poder comprehender nunca. Não falavam de Jorge, nem da guerra, nem de cousa que podesse reviver a lembrança do passado.
Começado o verão de 1867, Valeria transportou-se a Santa Thereza, onde Estella foi algumas vezes. N'uma dessas vezes encontrou alli a filha de Luiz Garcia, que caminhava para os treze annos, e concluia os estudos de collegio. Houve um instante de hesitação entre as duas; Yayá, que era ainda a mesma creatura travessa e lepida, sentiu-se acanhada deante da gravidade de Estella, mas esse instante foi curto e a affeição immediata. Acabado o verão, a viuva resolveu não descer á rua dos Invalidos; e, com o pretexto ou o motivo de que em Santa Thereza ficava mais só, alcançou que Estella fosse lá estar algum tempo. Estella subiu em Março.
Já então Yayá entrara na intimidade da casa, menos ainda pelo que podia haver, e—havia,—sympathico e attrahente em sua pessoa, do que pelo esforço proprio. A sagacidade da menina era a sua qualidade mestra: assim viu depressa o que era menos agradavel, para evital-o, e o que o era mais, para cumpril-o. Essa qualidade ensinava-lhe a syntaxe da vida, quando outras ainda não passam do abecedario, onde morrem muita vez. Obtida a chave do caracter de Valeria, Yayá abriu a porta sem grande esforço.
Ia lá quasi todos os domingos, ás tardes, e algumas vezes de manhã, com tal ou qual repugnancia do pae, para quem os domingos eram os dias de ouro, e só o eram com a condição de exclusivismo. Luiz Garcia cedeu, não por causa da viuva, mas para satisfazer a filha, que parecia ter prazer em frequentar a casa.—É ainda creança pensou elle; convem dar-lhe festas. Quando Yayá jantava em casa de Valeria, Luiz Garcia, ou tambem jantava, ou ia buscal-a á noite, e trazia-a depois de uma hora de conversa. A presença de Estella tornou ainda mais apraziveis á mocinha aquellas visitas, e dentro de pouco tempo, era a affeição de Estella que mais lhe occupava o coração.
A lei dos contrastes tinha ligado essas duas creaturas, porque tão petulante e juvenil era a filha de Luiz Garcia, como reflectida e placida a filha do Sr. Antunes. Uma ia para o futuro, em quanto a outra vinha já do Passado; e se Estella tinha necessidade de temperar a sua atmosphera moral com um raio da adolescência da outra, Yayá sentia instinctivamente que havia em Estella alguma cousa que sarar ou consolar.
Um dia, Yayá foi encontrar Estella ao pé de uma mesa, com um album de retratos aberto deante de si. A moça estava tão embebida, que só deu pela presença de Yayá, quando esta parou do outro lado da mesa, e inclinou os olhos para o album. Estella teve um pequeno sobresalto, mas dominou-se logo.
—Seu pae tem uma physionomia de bom coração, disse ella.
—Não é verdade? retorquiu a menina com enthusiasmo.
Effectivamente, uma das paginas do album continha o retrato de Luiz Garcia; mas na outra pagina estava o retrato de Jorge, um dos tres ou quatro que a viuva possuia na collecção. Yayá, que adorava o pae, achou que a observação de Estella era a mais natural do mundo, e não olhou sequer para a outra photographia. Estella fechou depressa o album com a mão tremula, e mal pode sorrir á insistencia com que Yayá voltou áquelle assumpto. Tinha o seio offegante e o olhar vago, remoto, esvaido nas campanhas do sul. O coração batia-lhe violentamente. Mas essa commoção não durou mais de tres a quatro minutos.
—A senhora podia casar-se com papae, disse a menina depois de olhar algum tempo para a outra.
Estella teve novo sobresalto, mas dessa vez era só espanto. Como Yayá a abraçasse pela cintura, ella inclinou o rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:
—Tinhas muita vontade de ser minha enteada?
—Tinha.
Estella abanou a cabeça, com um gesto, não de negativa, mas de incredulidade. Já conhecia alguma cousa do caracter de Luiz Garcia; rigorosamente era um esposo acceitavel. Via nelle um homem de affeições placidas, mediocres, mas sinceras. Via-o respeitoso sem abatimento, polido sem affectação, falando pouco, mas com alguma ideia, em todo o caso com muita opportunidade, vivendo emfim para si e para a filha. De tudo o que observara concluia que a sobriedade era a lei moral desse homem, e que á taça da vida não pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é tão sómente uma chronica; basta-lhe fidelidade e algum estylo. Com quanto houvesse algumas semelhanças entre ambos, havia tambem differenças, mas Estella podia fiar do tempo, que ajusta os contrastes. E, não obstante, se o marido era acceitavel, não lhe parecia que fosse possivel. A gravidade exterior como que o rodeava de uma atmosphera impenetravel.
Yayá não insistiu; mas dous ou tres domingos depois, estando todos na chacara, interrompeu a conversa geral para perguntar a Estella se deveras lhe tinha affeição.
—Ja disse que sim, acudiu Estella.
—Mas gosta muito de mim?
—Muito, repetiu Estella prolongando a primeira syllaba.
—Porque não vem morar commigo?
Riram-se os outros; Estella beijou-a na testa. Ficando sós, a viuva e Estella jogaram uma partida de cartas, mas jogaram sem attenção; depois tomaram chá, mas sem appetite; finalmente dormiram, mas sem somno. Talvez a mesma ideia as preoccupava. No dia seguinte, Estella perguntou sorrindo á viuva:
—Se eu lhe disser que já achei um projecto de marido?
—Quem?
—O Luiz Garcia.
Valeria apertou-lhe as mãos.
—Excellente homem, disse ella; marido digno e capaz. Conheço-o ha muitos annos; nunca desmereceu da nossa estima. E... amam-se?
—Isso agora é mais complicado, replicou Estella; não posso dizer que o amo; com tudo, desejaria ser sua mulher. Talvez elle não deseje ser meu marido, mas é por isso mesmo que a consulto e lhe peço que me diga, uma vez que approva a escolha, se posso esperar reciprocidade e se devo...
—Não deves fazer nada; imcumbo-me de tudo.
Valeria não occultou o contentamento. Não lhe tinha occorido nunca a ideia de os casar; Yayá fel-a nascer, Estella abriu-a em flôr; só faltava o fructo, e era justamente a parte difficil, porque a indole de Luiz Garcia affigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo de contrahir segundas nupcias. Mas Valeria não desanimou. Não se pode dizer que elle seja o ideial de todas as noivas, pensava ella; não tem a expansão nem o verdor da primeira edade; mas deve ser um excellente marido. Luiz Garcia tinha agora melhor posição. Obtivera uma promoção de emprego, e mediante isso, e alguns trabalhos extraordinarios que lhe eram confiados, pode ficar inteiramente acoberto das intempéries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara as alfaias da casa, não por si, mas com a intenção de ser mais agradavel a Yayá.
Estella, entretanto, impunha uma condição.
—Não desejo parecer que me offereço, disse ella; seria desairoso para um e para outro, e não seria a realidade.
—Que te offereces, não; mas quem me pode impedir de ter adivinhado que o amas? disse a viuva maliciosamente.
—Ou que o aprecio, emendou Estella. Para um bom casamento não é preciso mais.
Luiz Garcia não ficou pouco admirado quando Valeria dahi a dias lhe perguntou se não tinha vontade de passar a segundas nupcias. Sorriu e ergueu os hombros; mas, insistindo a viuva, respondeu que a ideia de casar era já serodea para elle.
—Não diga isso, tornou Valeria. Yayá está quasi moça, vai deixar o collegio. O senhor vive só, e tendo de dar companhia a sua filha, é melhor que lhe dê uma madrasta.
Luiz Garcia abanou resolutamente a cabeça.
—Não tenho vocação para o casamento, disse elle depois de uma pausa; minha verdadeira vocação é o celibato.
—Foi por isso que enviuvou?
—Casei-me uma vez, é verdade, mas não foi por amor; além de que, era rapaz.
—Quando teimo em alguma cousa, é difficil que não vença, disse a viuva depois de alguns instantes. Ha duas pessoas de quem gosto muito, ella e o senhor, ambas dignas uma da outra; e eu entendi que as devia casar, e hei-de casal-as. Por que está a sorrir com esse ar incredulo?
Como Luiz Garcia não respondesse e continuasse a sorrir, Valeria ergueu-se e foi até a varanda, donde se olhava para a chacara; depois voltou-se para dentro:
—Ande ver sua noiva, disse ella.
Luiz Garcia foi até á varanda; a viuva apontou-lhe para o grupo de Estella e Yayá.
Na chacara havia um canteiro circular, plantado de gramma, no centro do qual jorrava a agua de um repucho. A bacia deste era orlada de plantas, cujas folhas largas, rajadas umas de escarlate, outras de branco, interrompiam a monotonia da relva. Dessas folhas colhera Estella algumas, entretecera os talos formando uma capella, a pedido de Yayá. Quando Luiz Garcia chegou á janella, a moça concluia o difficil trabalho. Uma vez prompto, Yayá que olhava para ella, infantilmente anciosa, inclinou a cabeça, e Estella cingiu-a com a grinalda rustica; depois recuou alguns passos, approximou-se outra vez, concertou-a melhor. As folhas caiam-lhe sobre os hombros irregularmente, ou erguiam-se sobre a cabeça, e o todo daria ideia de uma nayade casquilha. Estella mirou-a alguns instantes; inclinou-se para ella e beijou-a repetidas vezes. Yayá quiz pagar-lhe o trabalho e a caricia devolvendo-lhe a grinalda, e collocando-lh'a ella mesma na cabeça. Estella recusou, mas como a menina insistisse, batendo impacientemente o pé, cedeu ao desejo infantil. Inclinou-se; Yayá, que trepara a um banco, cingiu-lhe a cabeça, como a outra lhe fizera, e, satisfeito o seu capricho, saltou do banco ao chão.
Nesse momento, como Valeria falava a Luiz Garcia, não viram estes dous que a menina, saltando precipitadamente e mal, caíra na areia; só deram pelo desastre ouvindo um pequeno grito angustioso de Estella. A moça correra á menina para a fazer levantar.
A quéda fora pequena; Yayá procurava sorrir, mas um seixo que havia no chão, e sobre o qual caíra o rosto, fizera-lhe uma leve escoriação na face.
—Não foi nada, dizia ella
—Nada! Você feriu-se... Ora, isto! Papae que ha de dizer... Anda cá.
Estella levou a menina pela mão até o repucho; molhou o lenço na agua; lavou-lhe o sangue da face, inclinada sobre ella, que sorria voluntariamente. Nesse momento, Luiz Garcia, que havia descido logo, chegou ao grupo das duas.
—Não foi nada, papae, disse Yayá lendo no rosto do pae o motivo que o trouxera; fui pular do banco e caí. Foi bem feito; é para eu não ser travessa.
Luiz Garcia estendera a mão direita sobre a cabeça da filha e examinava-lhe a escoriação, que era pouco mais de nada. Tranquillisou-se e reprehendeu-a levemente, Estella, que interrompera a operação, concluiu-a dizendo que o caso era de pouca monta, mas podia ter sido mais grave. Luiz Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obsequio.
—Demais, a culpada fui eu, disse Estella, e sem desculpa, porque não sou creança. Vamos? continuou ella pegando na mão da menina.
—Então? perguntou a viuva a Luiz Garcia logo que este voltou a ter com ella.
—Não falemos nisso, ou faça-me um milagre, disse elle seccamente.
Não obstante a commoção que lhe ficou do procedimento affectuoso de Estella, em relação a Yayá, Luiz Garcia riu no dia seguinte, ao lembrar-lhe a proposta de casamento. Quando lá voltou, não ouviu falar mais em semelhante assumpto, nem Estella lhe deu a entender a menor pretenção. Pareceu-lhe que Valeria consultara apenas o seu desejo particular.
Tratando a moça de perto, Luiz Garcia havia já observado duas cousas: primeiro, o resguardo com que ella procedia, sem ostentar a intimidade de Valeria, nem cair nos ademanes daservilidade; depois um ar de tristeza, que era a sua feição habitual. Concluiu que Estella devia padecer ou ter padecido alguma vez. Apreciou, além disso, algumas de suas qualidades moraes. Suppôl-as verdadeiras, mas suppôl-as tambem caducas, como as graças do rosto ou como a flor do campo; com a differença, dizia elle,—que ha um prazo fatal para que as graças percam o primitivo frescor, e a flôr expire o seu ultimo cheiro,—ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce, e um principio de corrupção, que destroe em breve termo todas as florescencias do primeiro sol.
Estella não desistira da ideia e cogitava um meio de chegar á execução, não obstante a confiança da viuva, que lhe dizia:—Descança; a rede está lançada. Era justamente essa ideia de rede, que repugnava ao espirito directo e simples de Estella. Entretanto, cada dia que passava vinha confirmar a eleição da moça.
O resto foi obra de Yayá, obra dividida em duas partes, uma voluntaria, outra inconsciente. Voluntaria, porque tambem a menina, no silencio laborioso de seu cerebro, construira o projecto de os unir, e o dissera mais de uma vez a um e a outro. Inconsciente, porque o amor que a ligava a Estella, foi a mais poderosa força que modificou o pae. Era uma affeição intensa a dessas duas creaturas; ao passo que Yayá dava a Estella uma porção de ternura de filha, Estella achava no amor da menina uma antecipação dos prazeres da maternidade. Luiz Garcia testemunhou esse movimento reciproco e, por assim dizer, fatal. Se Yayá devesse ter madrasta, onde a acharia mais completa? Discreta, moderada, superior a seus annos, Estella tinha as condições necessarias para esse delicado papel. A primeira insinuação da viuva foi a causa primordial; mas o tempo, a convivencia, a affeição das duas, a necessidade de dar segunda mãe á menina, e antes legitima que mercenaria, finalmente, a certeza de que a Estella não repugnava a solução, taes foram os primeiros elementos da decisão de Luiz Garcia.
Faltava só o milagre, e o milagre veiu. Yayá adoeceu um dia em casa de Valeria, e a doença, posto que não grave nem longa, deu occasião a que Estella manifestasse de modo inequivoco toda a ternura de seu coração. Luiz Garcia foi testemunha da dedicação silenciosa e continua com que Estella tratou da doente. Esse ultimo espectaculo desarmou-o de todo. Entre elles, o casamento não era a mesma cousa que costuma ser para outros; nada tinha das alegrias ineffaveis ou das illusões juvenis. Era um acto simples e grave. E foi o que Estella lhe disse a elle, no dia em que trocaram reciprocamente as primeiras promessas.
—Creio que nenhuma paixão nos cega, e se nos casamos é por nos julgarmos friamente dignos um do outro.
—Uma paixão de sua parte, em relação á minha pessoa, seria inverosimil, confessou Luiz Garcia; não lh'a attribuo. Pelo que me toca, era egualmente inverosimil um sentimento dessa natureza, não porque a senhora o não podesse inspirar, mas porque eu já o não poderia ter.
—Tanto melhor, concluiu Estella; estamos na mesma situação e vamos começar uma viagem com os olhos abertos e o coração tranquillo. Parece que em geral os casamentos começam pelo amor e acabam pela estima; nós começamos pela estima; é muito mais seguro.
O casamento foi approvado pelo Sr. Antunes, com a mesma alma com que um reu sanccionaria a propria execução. Não sómente se lhe iam embora esperanças muito menos modestas, como lhe repugnava o caracter do genro. Não cedeu sem hesitação e luta; hesitação perante a viuva, luta em relação á filha; mas cedeu, porque elle nascera para não resistir. Habil, no emtamto, em espremer algum lucro dos males inevitaveis, uma vez perdida a confiança na efficacia da recusa, acceitou o accordo, não sómente com apparencia cordial, mas ainda enthusiasta.
—O dote faz-lhe foscas, gemia elle philosophicamente.
A viuva serviu de madrinha a Estella. Sua alegria era sincera, e tanto ou quanto desinteressada. Quasi se não lembrava já do perigo que, dous annos antes, lhe atordoara o espirito. As cartas de Jorge eram tão livres de qualquer oppressão, tão exclusivamente militares! Além disso, a consciencia ficava satisfeita de um desenlace que de certo modo, compensava a perda, se alguma perda havia causado a Estella. Finalmente, a satisfação com que a viu acceitar casamento, aliás suggerido por ella propria, e a felicidade de que foi testemunha durante os primeiros tempos, deram-lhe a convicção de que a moça estava já inteiramente isenta, em relação ao filho. Não obstante a paixão deste, tinha fé que o tempo fizera a sua obra.
VII
Tres mezes depois da chegada ao Rio de Janeiro, tinha Jorge liquidado todos os negocios de familia. Os haveres herdados podiam dispensal-o de advogar ou de seguir qualquer outra profissão, uma vez que não fosse ambicioso e regesse com criterio o uso de suas rendas. Tinha as qualidades precisas para isso, umas naturaes, outras obtidas com o tempo. Os quatro annos de guerra, de mãos dadas com os successos immediatamente anteriores, fizeram-lhe perder certas preoccupações que eram em 1866, as unicas de seu espirito. A vida á redea solta, o desperdicio elegante, todas as seduções juvenis, eram inteiramente passadas.
O espectaculo da guerra, que não raro engendra o orgulho, produziu em Jorge uma acção contraria, porque elle viu, ao lado da justa gloria de seu paiz, o irremediavel conflicto das cousas humanas. Pela primeira vez meditou; admirou-se de achar em si uma fonte de ideias e sensações, que unica lhe deram os receios de outro tempo. Comtudo, não se pode dizer que viera philosopho. Era um homem, apenas, cuja consciencia recta e candida sobrevivera ás preoccupações da primeira quadra, cujo espirito, temperado pela vida intensa de uma longa campanha, começa de penetrar um pouco abaixo da superficie das cousas.
Querendo adoptar um plano de vida nova, renegou a principio todos os habitos anteriores, disposto a dar á sociedade tão sómente a stricta polidez. Teve primeiro ideia de ir estabelecer-se em algum recanto silencioso e escuso no interior; mas desistiu logo, cedendo á necessidade de ficar mais á mão de uma viagem transatlantica, ideia a que aliás nunca deu principio de execução.
O primeiros tres mezes passaram depressa; foram empregados em liquidar o inventario. Poucos legados deixara a viuva. Um delles interessa-nos, porque recaiu em favor de Yayá Garcia. A viuva beneficiava assim, indirectamente, o marido de Estella. Jorge approvou cordialmente o acto de sua mãe. Não approvou menos o dote de Estella, mas o sentimento do vexame que experimentou, logo que delle teve noticia, honrava a delicadeza de seu coração.
Luiz Garcia dera-se pressa em visitar o filho de Valeria. A entrevista desses dous homens, que o curso dos successos collocara em tão delicada situação, foi cordial, mas não expansiva. Jorge não achou Luiz Garcia mais velho; era o mesmo. Não o achou tambem menos reservado que antes. A conversa, em começo não foi além dos factos geraes; falaram da guerra e das victorias. Jorge referiu alguns episodios, que o outro ouviu com interesse; e, como parecesse olvidar seus proprios feitos:
—Vejo que é modesto, observou Luiz Garcia; felizmente lemos as folhas e as partes officiaes.
—Fiz o que pude, respondeu Jorge; era preciso vencer ou ser vencido. Que é feito de tanta gente que ainda não vi? continuou elle para desviar o assumpto.
—Cada qual segue o seu destino. Meu sogro creio que já o visitou...
—Já.
—A proposito, deixe-me agradecer os beneficios que devo a sua mãe...
Jorge quiz interrompel-o com o gesto.
—Perdão; e meu dever, continuou Luiz Garcia gravemente. A Sra. D. Valeria quiz mostrar ainda á ultima hora a sympathia que sempre lhe mereci. Duas vezes o fez, além de outras. Primeiramente, resolveu-me a casar outra vez, cousa que estava longe de meus calculos. Foi ella a primeira autora dessa transformação de minha vida, e em boa hora o foi, porque não me podia fazer maior obsequio. Requintou o obsequio, occultando até a ultima hora a prova de ternura que desde alguns mezes antes dera a minha mulher; tinha-a dotado, como deve saber...
Jorge fez um gesto affirmativo.
—Achou que não era bastante e deixou, a minha filha um legado, que será o seu dote... Gostava muito della. Não podendo agradecel-o á bemfeitora, permitta que o agradeço ao...
—Desta vez hade obedecer-me, interrompeu Jorge com brandura; falemos de outra cousa.
—Sim; falemos de minha mulher. Saiba que rematou dignamente a obra de sua mãe; e mais uma vez me fez comprehender o beneficio do casamento. Logo depois de casado, propoz-me acceitar, em favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valeria lhe manifestara sua affeição. Gostei de a ouvir, por que era signal de desinteresse, mas recusei, e recusei sem efficacia. Cedi, emfim; e não podia ser de outro modo. Folgo de lhe dizer essas cousas porque são raras...
Jorge fechou o rosto ao ouvir essas palavras de Luiz Garcia. Adivinhara a causa do desinteresse de Estella.—Eterno orgulho! pensou elle. Depois reflectiu no caso e perguntou a si mesmo se a moça teria confiado ao marido alguma cousa do que se passara entre elles. Era difficil percebel-o, mas não era acertado suppôl-o. Nenhuma mulher o faria nunca, Estella menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Luiz Garcia; achou-a placido e immovel. Após alguns segundos de silencio, estendeu-lhe a mão.
—Permitte-me então que o felicite? disse elle.
—De coração, acudiu Luiz Garcia. E depois de erguer-se:—Se eu tivesse o sestro de dar conselhos, dir-lhe-hia que se casasse.
—Póde ser.
—Não lhe pergunto pela outra paixão; creio que a esqueceu de todo.
—De todo.
Luiz Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu, depois de lhe offerecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo. A noticia do dote de Estella causara-lhe certo vexame; a noticia da doação feita pela moça em favor da enteada, produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração e despeito. Ella sentia arder no mais fundo do coração da moça um residuo de odio, e em seu proprio coração não podia deixar de approvar o acto.
Sendo forçosa pagar a visita a Luiz Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever emquanto lhe foi possivel fazel-o sem reparo. Um dia, emfim, sabendo por intermedio do Sr. Antunes que a familia não estava em casa, foi a Santa Thereza e deixou lá um bilhete de visita.
A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, á qual cabia sómente uma parte minima. Estudava muito e projectava ainda mais. Delineou varias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma historia da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a colligir. Veiu depois um opusculo sobre questões juridicas e logo duas biographias de generaes. Tão depressa escrevia o titulo da obra como a punha de lado. O espirito soffrego colhia só as primicias da ideia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu proprio; ao cabo de algumas paginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, e que não saía das effusões lyricas e das proporções da anedocta.
Quando mais disposto se achava a compor essa autobiographia, occorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estella, ponto de partida dos successos que lhe transformaram a existencia. Quiz vel-a novamente; talvez alli achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quasi no mesmo estado. Entrou curioso e tranquillo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; a resurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitario e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças delle, e tão discretamente que a ninguem revelaram o desastrado episodio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estella, com os pombos ao collo, diante delle, naquella fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Comtudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e elle tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pallido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu tambem a sua propria violencia; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciencia integra, a recordação fel-o estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.
—Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.
Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chacara, donde lhe pareceu que saíra a voz. Na chacara, a vinte passos de distancia, estava um homem, que sorria para elle, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, respondeu sorrindo:
—Não durmo; estou pensando nos alugueis.
—Muda-se para aqui?
—Não.
—A casa é sua?
—É. Suba cá.
O homem galgou os seis degraos da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietario, olhando attentamente para as paredes do edificio.
—Que faz por aqui, Sr. Procopio Dias, ás dez horas da manhã? disse Jorge logo que o outro appareceu.
—Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vel-a; não sabia que era sua. Está um pouco estragada.
—Muito.
—Muito?
—Parece.
Procopio Dias abanou a cabeça com um gesto de lastima.
Não é assim que deve responder um proprietario, disse elle. Meu interesse é achal-a arruinada; o seu é dizer que apenas precisa de algum concerto. A realidade é que a casa está entre a minha e a sua opinião. Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos, é melhor vender as casas todas que possue.—Ou fica perdido... Com que então esta casa é sua? A apparencia não é feia; ha alguma cousa que pode ser concertada e ficará então excellente. Não é casa moderna; mas é solida. Eu já a vi quasi toda; desci á chacara, e estava a examinal-a, quando o senhor appareceu na varanda.
—Quer ficar com ella?
—Ingenuo! respondeu Procopio Dias batendo-lhe alegremente no hombro. Se eu confesso que ella não está muito estragada é porque não a quero para mim. É grande de mais; e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...
—Mas no caso de que haja por ahi algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.
—Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.
Os olhos de Procopio Dias eram cor de chumbo, com uma expressão reflectida e sonsa. Tinha cincoenta annos esse homem, uns cincoenta annos ainda verdes e prosperos. Era mediano de carnes e de estatura, e não horrivelmente feio; a porção de fealdade que lhe coubera, elle a disfarçava, quanto podia, por meio de qualidades que adquirira com o tempo e o trato social. Fazia ás vezes um movimento que lhe descrevia na testa cinco rugas horizontaes. Era uma das suas maneiras de rir. Além dessa particularidade, havia o feitio do nariz, que representava um triangulo de lados eguaes, ou quasi: nariz a um tempo sarcastico e inquisidor. Não obstante a expressão dos olhos, Procopio Dias tinha a particularidade de parecer simplorio, sempre que lhe convinha; nessas occasiões é que ria com a testa. Não usava barba; elle proprio a fazia com o maior esmero. Via-se que era homem abastado. As roupas, graves no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do mais perfeito acabado. Naquella manhã trazia uma longa sobrecasaca abotoada até metade do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente bordada. Entre o ultimo botão da sobrecasaca e o unico do collarinho, fulgia um brilhante vasto, ostensivo, escandaloso. Um dos dedos da mão esquerda ornava-se com uma soberba granada. A bengala tinha o castão de ouro lavrado, com as iniciaes delle por cima,—de forma gothica.
Jorge conheceu Procopio Dias no Paraguay, onde este fora negociar e triplicar os capitaes, o que lhe permittiu collocar-se acima das viravoltas da fortuna. Travaram relações, não intimas, mas frequentes e agradaveis, e até certo ponto uteis a Procopio Dias, que obteve de Jorge mais de uma recommendação. Não obstante a frequencia das relações, estavam longe da amizade estreita; e isso, não por esforço de Procopio Dias, cujas maneiras faceis assediaram por muito tempo a inexperiencia de Jorge. O motivo de Procopio Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra cessara tambem o interesse mercantil. Jorge não tinha motivo contra elle; quando o conhecera estava no periodo melancholico.
—Ainda não respondeu á minha suspeita, disse Jorge dando o braço a Procopio Dias.
—O namoro?
—Sim.
—Nem sombras disso, meu caro! Ou antes.... creio que vou entrar para um convento: é a minha ultima ambição.
Procopio Dias tinha dous credos. Era um delles o lucro. Mediante alguns annos de trabalho assiduo e finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedaes. Em 1864, por um instincto verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou a tempo os fundos que tinha em um delles. Sobrevindo a guerra, atirou-se a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, cousa que effectivamente alcançou no fim de 1869.
A não ser o segundo credo, é provavel que Procopio Dias só liquidasse com a morte. Tendo chegado a uma posição solida, aos cincoenta annos, achou-se deante de outra riqueza, não inferior áquella, que era o tempo. Ora o segundo credo era o gozo. Para elle, a vida physica era todo o destino da especie humana. Nunca fora sordido; desde as primeiras phases da vida, reservou para si a porção de gozo compativel com os meios da occasião. Sua philosophia tinha dous paes: Lucullo e Salomão,—não o Lucullo general, nem o Salomão piedoso, mas só a parte sensual desses dous homens, porque o eterno feminino não o dominava menos que o eterno estomago. Entre os collegas de negocio foi sempre tido como um feliz vencedor de corações francos. E, ao envez de outros, não punha nisso a menor vaidade ou gloriola; preferia a cautella e a obscuridade, não em attenção ao pudor publico, mas porque era mais commodo. Nenhuma diva mundana teria jamais a audacia de cortejal-o na rua ou sorrir-lhe simplesmente; perdia o tempo e o sacerdote. Gozava para si, que é a perfeição sensual.
Não conhecia Jorge nem a vida nem o caracter do outro. Procopio Dias tinha o peor merito que pode caber a um homem sem moral: era insinuante, affavel, conversado; tinha certa viveza e graça. Era bom parceiro de rapazes e senhoras. Para os primeiros, quando elles o pediam, tinha a anedocta crespa e o estylo vil; se lhes repugnava isso, usava de atavios differentes. Com senhoras era o mais paciente dos homens, o mais serviçal, o mais boliçoso,—uma joia.
—Ninguem o vê, dizia elle d'ahi a duas horas, á mesa do almoço de Jorge, na casa da rua dos Invalidos. Não conheço os seus amigos de outro tempo, mas devo crer que todos lhe censuram essa vida de bicho do matto.—Nos theatros.... nunca vae aos theatros?
—Quasi nunca.
—Vamos hoje?
—Corruptor? disse Jorge sorrindo.
De noite foram ao theatro. Procopio Dias estava de veia; a palestra, a scena, o proprio tempo, tudo conspirou para dissipar as sombras de melancholia que a manhã accumulara na fronte de Jorge.—Não se deixe apodrecer na obscuridade, que é a mais fria das sepulturas, dizia Procopio Dias, á mesa de um hotel, onde fora ceiar. Jorge não comeu nada. Mau grado o prazer que achava em estar com elle, não quiz acceitar-lhe o obsequio da ceia, apezar de lhe ter feito o do almoço. Procopio Dias percebeu isso mesmo, mas não se molestou; abaixou a cabeça, deixou passar essa onda de desconfiança, e surgiu fóra, a rir. Sairam dalli uma hora depois. A evocação da Tijuca tinha-se esvaido.
Jorge deixou-se persuadir dos conselhos do outro. Abriu mão do ultimo livro planeado, contentando-se com tel-o vivido. Demais o tempo ia minando a antiga sensação, e a vida social tornava a prendel-o em suas malhas.
Entre as pessoas que tornou a ver, figurava a mesma Eulalia, com quem a mãe quizera casal-o, alguns annos antes. Eulalia não ficara solteira; estava na lua de mel, uma lua de mel que durava mais de um anno. O casamento fora a vara mosaica, mediante a qual se lhe abrira no coração uma fontesinha de ternura. Encontraram-se n'um baile. Nenhum delles sentiu acanhamento; como nunca chegaram a tratar dos projectos de Valeria, poderam falar com a mesma isenção de 1866. A differença é que Eulalia, que era feliz, exagerava a felicidade para melhor mostral-a a Jorge e convencel-o de que antes ganhara do que perdera com a recusa delle.
—Vá lá á rua de Olinda, disse a moça; quero mostrar-lhe meu filho.
Jorge foi. Eulalia mostrou-lhe o filho, creança que valia por duas, tão gorda e vigorosa era. Jorge chegou a pegar nelle, mas não sabia haver-se com as rendas, os babados, as fitas. Eulalia que possuia já toda a destreza materna, tomou-lh'o das mãos.—O senhor não entende disto, disse ella. E depois de concertar a touca da creança, beijou-a muitas vezes, riu-se para ella, fez-lhe um monologo, tudo com uma graça e poesia, que Jorge estava longe de lhe suppôr cinco annos antes. Elle contemplava essa joven mãe, elegante e natural, e sentia-se tomado de inveja e cobiça.
—A felicidade é isto mesmo, pensou elle.
Voltou lá algumas vezes, fez-se intimo da casa. Começou a receber tambem. Viu entre os frequentadores de sua casa o pae de Estella, que achou nelle a benevolencia do desembargador. O Sr. Antunes era conviva certo ao almoço dos domingos; dava-lhe noticias do genro e da filha. Elle pranteava ainda a chimera esvaida, e achava não sei que dolorido prazer em falar de Estella ao genro de suas ambições. Demais, era um como desforço do outro, a respeito de quem aventurou mais de uma queixa. Jorge, porém, ouvia-o sem lhe responder nada.
No meado do anno de 1871, fez Jorge uma excursão a Minas-Geraes, com o fim de ajoelhar-se á sepultura de sua mãe, cujos ossos transportaria opportunamente para um dos cemiterios do Rio de Janeiro. A excursão durou seis semanas. Jorge visitou alguns parentes, e regressou nos principios de Agosto.
Um incidente transtornou-lhe os planos.
VIII
Chegando ao Rio, Jorge teve noticia de que Luiz Garcia estava enfermo. Não contava com o incidente, que o poz em grande perplexidade. Não queria visital-o, e mal poderia deixar de o fazer. Luiz Garcia fora prezado de seus paes; elle proprio lhe tinha estima e consideração: motivos bastantes a aconselhar o desempenho de um dever de cortezia. Mas, por outro lado, ir a Santa Thereza era arriscar-se á suspeita de Estella. Jorge vacillou durante dous longos dias. Certo, elle sentiu algum alvoroço, com a ideia de a ver; ideia que, se buscou rejeitar ao espirito, lá ficou latente e dissimulada. Mas a razão que confessava a si proprio era a da conveniencia.
Venceu a hesitação e foi a Santa Thereza, na tarde do terceiro dia. A casa não era já a mesma; tinha dimensões um pouco maiores que a outra. Era nova, ladeada de verdura, com as telhas ainda da primeira cor. Havia duas entradas, uma para a sala, ficando a porta entre quatro janellas, outra para o jardim, e era uma porta de grade de ferro, aberta no centro de um pequeno muro, por cima do qual vinha debruçar-se a verdura de uma trepadeira. Ahi achou Raymundo, mais velho do que o deixara, mas não menos forte. Raymundo conheceu-o, apezar de queimado do sol. Abriu-lhe a porta; acompanhou-o alegremente ao fundo do jardim.
—Meu senhor vae ficar muito contente, dizia elle fazendo-o entrar.
—Está melhor?
—Está, sim senhor. Olhe, está alli.
Raymundo apontou para um grupo de pequenas arvores, atravez de cuja ramagem se descobriam vestidos de mulher. Jorge sentiu coar-lhe pelas veias uma onda de frio. Mas passou depressa; e deu o primeiro passo tão firme, como deante das legiões de Lopez.
—Quem é, Raymundo? cantou uma voz desconhecida, no meio das arvores.
Jorge viu apparecer uma moça, que representava ter dezoito annos e não contava mais de dezeseis; reconheceu a filha de Luiz Garcia. Ella não o reconheceu logo; os trabalhos da guerra tinham-n'o mudado. Demais, nas poucas vezes que o vira não lhe havia prestado muita attenção. Jorge foi conduzido até a cadeira onde se achava estirado Luiz Garcia, entre duas outras, uma com um trabalho de agulha em cima, outras com um livro aberto. Luiz Garcia recebeu-o com satisfação e cordialidade; Jorge explicou a demora da visita pelo facto de estar ausente. A explicação era uma cortezia nova; Luiz Garcia agradeceu-lh'a.
—Estive muito prostrado, disse elle; não sei mesmo se cheguei ás portas da morte. Agora estou quasi bom.
Jorge sentara-se a um lado do convalescente, emquanto Yayá, do outro lado, brincava com os cabellos do pae ou lhe apertava uma das mãos. Luiz Garcia contou as peripecias da doença e exaltou a dedicação da familia; Jorge falou pouco, já por evitar trahir a commoção que sentia ao penetrar naquella casa, já por não prolongar a visita e podel-a terminar no primeiro intervallo de silencio. No fim de quinze minutos levantou-se.
—Espere um pouco, disse o convalescente. Yayá, vae chamar tua madrasta.
Yayá levantou-se para obececer á ordem do pae; mas no momento em que ia pousar nos joelhos deste o livro que tinha no regaço, ouviu-se um passo na areia e logo depois esta subita palavra: