—Prompto!
Era Estella. O sobresalto de Jorge, por mais imperceptivel que fosse, não escapou a Yayá, e fel-a sorrir á socapa; attribuiu-o ao susto. Estella appareceu; mas, porque já sabia da presença de Jorge, pode encaral-o sem nenhuma apparente commoção. Houve certa hesitação entre um e outro, mas foi curta. A moça inclinou-se levemente e estendeu-lhe a mão. Jorge apertou-lh'a.
—Ainda não tinha tido a satisfação de a ver depois de minha volta do Paraguay, disse elle.
É verdade, respondeu a moça; vivemos muito retirados.
Estella chegou-se ao marido, affastando-se Jorge para deixal-a passar.—Prompto, repetiu ella. Trazia-lhe um copo de geléa. Em quanto Luiz Garcia tomava a refeição de convalescente, Estella ficou de pé, ao lado delle; depois sentou-se e dirigiu a palavra ao filho de Valeria. Naturalmente falou-lhe da campanha. Elle respondeu sem affectação, e com tranquillidade.
—Ja tive occasião de lhe dizer que foi um dos heroes, interveiu Luiz Garcia olhando para a mulher; mas o Dr. Jorge teima em escurecer os seus proprios serviços. Yayá não é a mesma cousa.
—Sim? perguntou Jorge.
É verdade; durante toda a campanha matou pelo menos metade do exercito paraguayo.
Yayá lançou ao pae um olhar de graciosa censura.
—Não precisa corar, disse Jorge; era uma maneira de ser patriota; mas creia que havia menos perigo em matar o inimigo cá de longe.
—O senhor matou algum! perguntou Yayá no fim de um instante.
—Provavelmente. Na guerra é preciso matar ou morrer. Não me importava morrer; mas ha occasiões em que o mais indifferente é um heroe. Eu fiz o que pude.
Como a tarde começasse a escurecer, Estella disse ao marido que era tempo de recolher-se a casa. Ergueu-se para lhe o dar o braço; Jorge porém apressou-se a substituil-a. Estella foi adeante, e quando Jorge entrou na sala com o convalescente, ella preparava a cadeira em que este devia sentar-se, uma larga e extensa cadeira de vime. Luiz Garcia esperou alguns instantes, em quanto a mulher collocava as almofadas, resvalando serenamente de um lado para outro.
Durante essa curta espera, Jorge olhava para a moça, e era a primeira vez que o fazia mais detidamente. Pouca era differença entre a Estella de 1867 e a de 1871. Tinha o mesmo rosto pallido e os mesmos olhos severos. As feições não haviam mudado; o busto conservava a graça antiga; estava só um pouco mais cheio, differença que não destoava da estatura, que era alta. Esta era a pessoa physica. Moralmente devia ser a mesma; mas que contraste na situação! Assim,—a mulher que o levara a servir por quatro annos uma campanha ardua e porfiosa, e cuja imagem não esquecera no centro do perigo, essa mulher estava alli, deante delle, ao pé de outro, feliz, serena, dedicada, como uma esposa biblica. A comparação doeu-lhe; mas o coração começava a repetir-lhe juvenilmente as mesmas horas que já havia batido. Para refreal-o, Jorge despediu-se dez minutos depois.
—Já! exclamou Luiz Garcia. Foi visita de medico. Agradeço-lhe, entretanto, a attenção. Esta casa é sua; sabe que todos nós o estimamos.
Jorge seguiu para casa, contente e arrependido da visita que acabava de fazer. Gastou as primeiras horas da noite a folhear dez ou doze tomos, lendo a troncos duas ou tres paginas de cada um, quando os olhos estavam mais attentos na pagina aberta, o espirito saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos que haviam chegado mecanicamente ao fim da pagina tornavam ao principio, a reatar o fio da attenção. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da philosophia á historia, da critica á poesia, saltando de uma lingua a outra, e de um seculo a outro seculo, sem outra lei mais que o acaso.
O clarão da seguinte manhã dissipou uma parte dos cuidados da noite. O primeiro alvoroço tinha passado. Jorge disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da vespera, e arredar para sempre a possibilidade de outros. Não repetiria a visita a Luiz Garcia; e provavelmente não os veria nunca mais. Na rua do Ouvidor encontrou Procopio Dias, que lhe disse á queima-roupa:
—Entrei meia hora depois do senhor sair.
—Onde?
—Em Santa Thereza. Se se demora meia hora mais, encontrava-o e poderiamos ter descido juntos. Conhece ha muito tempo o Luiz Garcia?
—Desde muito moço.
—Tambem eu; mas não o via ha dez annos. Está o mesmo homem; está melhor, porque casou com uma mulher bonita. Que gente é aquella?
—A mulher foi educada por minha mãe.
—Vê-se que sim. Oh! falámos muito do senhor.
—Sim? perguntou vivamente Jorge.
Procopio Dias olhou fixamente um instante; depois riu com a testa.
—Muito, repetiu elle; eu e o Luiz Garcia travamos um duello de louvores, e se não ha nisto vaidade creio que o venci; naturalmente por que sou mais expansivo do que elle. Na verdade, elle é secco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade. Parece estimar-se muito aquella familia.
Procopio Dias tornou a falar-lhe de Santa Thereza, na noite do dia seguinte, em uma casa onde jantaram juntos. Falou-lhe primeiramente em particular, depois deante de outros. A dona da casa, que era uma Diana caçadora de boatos e novidades, farejou algum mysterio entre as rugas da testa de Procopio Dias, e dobrando as pontas do arco disparou subtilmente uma flecha que ninguem viu, mas foi enterrar-se no coração de Jorge. Este fez boa cara ao tiro, mas lá dentro sangrou um pouco de irritação e medo. Sentia no fundo da consciencia o calor de um sentimento honesto, e comtudo a opinião tendia a apoderar-se delle e a devassar-lhe as cinzas do passado; cinzas frias ou mornas, é o que elle não podia ainda discernir. Confiado em si mesmo, Jorge tremia deante da opinião,—a opinião do epigramma e da anedocta, que começava a sacudir o seu riso escarninho e cru.
Inquieto e aborrecido, saiu dalli pouco depois de jantar. O gracejo da dona da casa continuava a zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que a figura de Estella lhe surgia aos olhos, com o seu aspecto do costume. Já entrado na rua dos Invalidos, Jorge desandou o caminho e foi direito a um theatro, com o fim de aturdir-se e esquecer mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama, que lhe pareceu jovial, e a uma comedia inteira, que lhe pareceu lugubre. Não obstante, arejou o espirito dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais leve e desassombrado. Era uma hora quando chegou; o creado entregou-lhe uma carta.
—A pessoa que trouxe esta carta disse que era urgente.
Jorge reeebeu-a, sem conhecer a lettra do sobrescripto. Era lettra de mulher. Abriu-a sem pressa, mas não sem curiosidade. Não era longa; dizia simplesmente isto:—«Illm. Sr. doutor. Papae está muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa.—Lina Garcia.»
—A que horas veiu esta carta? perguntou elle ao creado.
—Ás sete.
Jorge fez um gesto de enfado e mandou buscar um tilbury. Dahi a uma hora parava á porta de Luiz Garcia. Era tudo silencio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto sobre o que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter passado, e toda a familia estaria em repouso. Espreitou pela porta do jardim, e viu uma claridade frouxa, atravez de uma veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr. Antunes que sentira parar o tilbury.
—Meu genro está mal, disse o pae de Estella; teve esta manhã uma recahida e perto das oito horas cuidamos perdel-o.
Jorge entrou.
Luiz Garcia estava prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente nos olhos. De um lado e de outro do leito, viam-se a mulher e a filha, apparentemente quietas, mas gastando toda a força moral em suster a angustia que ameaçava fazer-se em lagrimas.
—Que tem? perguntou Jorge approximando-se do enfermo.
—Uma febrinha importuna, respondeu este.
A um signal, Estella e Yayá retiraram-se da alcova, onde só ficou Jorge.
Mandando chamar o moço, Luiz Garcia punha em execução um pensamento que lhe brotara no calor da febre. Ouviu do medico algumas palavras que lhe fizeram suppôr a probabilidade da morte; e, não tendo amigos nem parentes, e não querendo confiar a mulher e a filha ao sogro, lançou mão da pessoa que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a influencia necessaria para as dirigir e proteger.
—Seu pae foi amigo de meu pae, disse elle; eu fui amigo de sua familia; devo-lhe obsequios apreciaveis. Se eu morrer, minha mulher e minha filha ficam amparadas da fortuna, por que o dote de uma servirá para ambas, que se estimam muito; mas ficam sem mim. É verdade que meu sogro, mas... mas, meu sogro tem outras occupações, está velho, pode faltar-lhes de repente. Quizera pedir-lhe que as protegesse e guiasse; que fosse um como tutor moral das duas. Não é que lhes falte juizo; mas duas senhoras sósinhas precisam de conselhos... e eu... desculpe-me se sou indiscreto. Promette?
Jorge prometteu tudo, com o fim de o tranquillisar, porque Luiz Garcia parecia excessivamente afflicto com a ideia daquella eterna separação. O pedido affigurou-se-lhe singular; attribuiu-o á exaltação febril do doente. Soube depois que a vida de Luiz Garcia dependia da primeira crise que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o medico.
Eram quasi quatro horas quando Jorge de lá saiu. Voltou ás nove e achou o medico. A crise era esperada na tarde desse dia, e só então se poderia dizer se a vida do enfermo estava perdida ou salva. Foi o que o medico lhe repetiu, á porta do jardim, aonde Jorge o foi acompanhar.
—Não obstante, concluiu o medico, elle tem outra doença que o deve matar dentro de alguns mezes, um anno ou anno e meio.
—Coração?
—Justamente.
Este noticia impressionou o moço.—Não será illusão da medicina? perguntou elle. O medico abanou a cabeça, e saiu. Jorge encaminhou-se para casa, mas teria dado apenas tres passos, quando viu Estella que vinha ao seu encontro. A moça parou deante delle.
—Que lhe disse o medico? perguntou.
—Tem esperanças; logo de tarde poderá affiançar mais alguma cousa.
—Só isso?
—Só.
—Não o desenganou?
—Não.
Estella reflectiu um instante.
—Dê-me sua palavra, disse ella.
Jorge estendeu-lhe a mão, sobre a qual Estella deixou cair a sua, não menos fria que pallida.
—Sou amigo de seu marido, disse Jorge depois de alguns instantes; creia que elle pode contar com toda a minha dedicação.
Estella pareceu accordar do momentaneo torpor; attentou no moço, retirou a mão e respondeu com um simples gesto de assentimento. A alma subjugada tornara á natural attitude. Jorge viu-a entrar em casa e ficou só alguns minutos, a recordar a revelação do medico, e a sentir que, ao pé da tristeza que o pungia, havia alguma cousa semelhante a um sentimento egoista e cruel.
Entre a esperança e receio gotejaram algumas horas longas, até que a crise veiu e passou, sem levar comsigo a vida ameaçada. Na manhã seguinte a alegria foi tamanha em redor do enfermo, que elle viu claramente o perigo e a salvação. Nem a filha nem a mulher pareciam alquebradas do trabalho e da vigilia; estavam frescas, risonhas, ageis, partindo entre si o pio da alegria, como haviam partido irmãmente o pão da angustia.
Durante a molestia e a convalescencia, Jorge visitou-os uma vez por dia; e força é dizer que, se por um instante houve em seu coração um impulso egoista, tal impulso não se lhe repetiu depois; serviu ao doente com desinteresse e lealdade. A familia deste mostrou-se-lhe agradecida. Luiz Garcia recordou ao moço o pedido que lhe fizera na noite em que o mandara chamar, e recordou-lh'o, não só para lhe agradecer a acquiescencia como para explical-o. Mas a explicação era difficil, porque elle cedera principalmente á aversão que lhe inspirava o sogro, em quem não tinha a minima confiança; não obstante as meias palavras de que usou, Jorge entendeu tudo.
A frequencia trouxe a necessidade. Levado pelas circumstancias, Jorge acostumou-se ás visitas, e amiudou-as. No mez de Septembro, a pretexto de calor, que ainda não fazia, transferiu a residencia para a casa que tinha em Santa Thereza, e que não ficava a longa distancia da de Luiz Garcia. Não havia que reparar no caso; sua mãe tinha o costume de passar alli tres a quatro mezes no anno. Demais nas ultimas semanas, elle começara a fazer-se menos visto e menos frequentado. Podia facilmente passar a outra vida mais reclusa.
Entretanto, como essa mudança antecipada para Santa Thereza podia não ter em si mesma toda a explicação razoavel, Jorge buscou enganar-se a si proprio reunindo os elementos e lançando ao papel as primeiras linhas de um trabalho, que jamais devia acabar, mas que, em todo caso legitimava a necessidade de repouso. Nos intervallos deste é que visitava a casa de Luiz Garcia, uma ou duas vezes por semana. Aos domingos, tinha sempre a jantar o Sr. Antunes, com quem jogava uma partida de bilhar. Tentou ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou ao fim de cinco licções.
—Ah! mas nem todos têm o seu talento! exclamou triumphalmente o pae de Estella.
Luiz Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre elle e Jorge; outras vezes saiam a passeio até curta distancia. Luiz Garcia acceitava de boa sombra essas distracções, que não eram turbulentas nem cançativas, mas brandas e pausadas, como elle. Demais nem sempre eram distracções sem fructo. Jorge apreciava agora melhor as conversações que não eram puros nadas, e os dous trocavam ideias e observações. Luiz Garcia era homem de escassa cultura, sobretudo irregular; mas tinha os dons naturaes e a longa solidão dera-lhe o habito de reflectir. Tambem elle ia á casa de Jorge, cujos livros lia de emprestimo. Era tarde; já não estava moço; faltava-lhe tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se soffrego, sem grande methodo nem escrupulosa eleição; tinha vontade de colher a flor ao menos de cada cousa. E por que era leitor de boa casta, dos que casam a reflexão á impressão, quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o por assim dizer, no cerebro; embora sem rigoroso methodo, essa leitura rectificou-lhe algumas ideias e lhe completou outras, que só tinha por intuição.
A necessidade intellectual de Luiz Garcia contribuiu assim para tornar mais intima a convivencia, unica excepção na vida reclusa que elle continuava a ter, ainda depois de casado. Jorge pela sua parte não desmentia até alli o bom conceito que o outro formava de suas qualidades; e a familia viu lentamente estabelecer-se a intimidade e a estima entre os dous homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de Luiz Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo. Luiz Garcia disse algumas palavras a respeito do filho de Valeria.
—Pode ser que eu me engane, concluiu o sceptico; mas persuado-me que é um bom rapaz.
Estella não respondeu nada; cravou os olhos n'uma nuvem negra, que manchava a brancura do luar. Mas Yayá que chegara alguns momentos antes, ergueu os hombros com um movimento nervoso.
Pode ser, disse ella; mas eu acho-o insupportavel.
IX
A nova ordem de cousas perturbou profundamente o animo de Estella. O procedimento de Jorge, por occasião da molestia do marido não lhe pareceu esconder nenhuma intenção particular; mas durante a convalescença, e sobretudo depois della, afigurou-se-lhe que a ideia do moço era insinuar-se na familia. Para que? Estella suppunha que o amor de Jorge, ao fim de tão longo periodo, estaria acabado de todo, como producto da primeira estação. Não lhe negou um pouco de gratidão, quando viu os obsequios que prestara ao marido enfermo, com tanta solicitude, discrição e dignidade. Agora, porém, ao ver a frequencia e a convivencia, suppoz alguma cousa mais do que a simples affeição tradiccional. Que encanto podia offerecer a casa de uma familia retirada e obscura a um homem creado em mais apparente plana social? Seu meio era outro; tendencias de espirito ou ambições de futuro o deviam levar a outra esphera. Esta consideração lhe pareceu decisiva. Concluiu que a paixão, vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e se assim era, Jorge devia estar peor que em 1866, porque então os sentimentos rompiam com violencia e sinceridade, ao passo que agora o seu principal aspecto era a dissimulação. O amor, se amor havia, trazia já os olhos abertos e dispunha da razão; de estouvado, tornava-se cautelloso e subtil.
—Que ideia faz elle de mim? perguntou Estella a si mesma.
Quando esta palavra lhe soou no espirito, Estella sentiu-se diminuida e humilhada aos olhos de Jorge. Cumpria pôr termo a uma vida de reticencias e dubiedade. Estella cogitou no meio de fazer cessar a intimidade dos dous homens; quando menos, a frequencia de Jorge naquella casa. Pensou em pedil-o directamente a Jorge; mas rejeitou desde logo a ideia, aliás incompativel com sua indole; depois, pensou em dizer tudo ao marido.
Uma noite, na primeira semana de Novembro, Estella assentou definitivamente revelar ao marido a unica pagina de seu passado. Estava sósinha, no jardim, e vira desmaiar o crepusculo da tarde—uma tarde cinzenta e amortecida. De quando em quando o espirito volvia ao passado, e toda ella estremecia com uma sensação extranha, mysteriosa e insupportavel. A noite caiu de todo, e a alma de Estella mergulharia tambem na vaga e perfida escuridão do futuro, se a rude voz do escravo não a viesse acordar.
—Nhanhã está apanhando sereno, disse Raymundo.
Estella ergueu-se e foi dalli ao gabinete do marido. Luiz Garcia trabalhava, á claridade de um lampeão, que toda convergia para elle e os papeis que tinha deante de si, graças ao effeito de um abat-jour. O resto do aposento ficava na meia obscuridade.
—Que é? perguntou Luiz Garcia sem levantar a cabeça.
Estella parou do outro lado da secretaria; Luiz Garcia ergueu então a cabeça e olhou para ella, sem lhe poder ver o transtorno das feições.
—Que é? repetiu.
Vendo-o entregue ao trabalho, por amor della e da filha, Estella hesitou; pareceu-lhe crueldade dar-lhe, em troca da protecção e do affecto, um desengano e uma afflicção. Hesitou um instante, e passou da hesitação á renuncia. Conteve-se e saiu. Escolheu o silencio.
Mas o silencio só por si não melhorava nada; tarde ou cedo, o marido viria a ler em seu rosto o constrangimento, em relação a Jorge, constrangimento inexplicavel, que elle podia interpretar contra ella. Foi então que a serpente lhe ensinou a dissimulação. A necessidade deu-lhe a intuição machiavelica; isto é, a occasião não consentia um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma cordialidade de superficie, friamente cortez, mas cortez. Desse modo, salvava-se a paz domestica, e era o essencial. Ao mesmo tempo mostraria a destemidez de seu coração, capaz de affrontar todo o artificio do outro.
Com o tempo, verificou Estella que o procedimento de Jorge, se alguma intenção escondia, não a deixava sequer suspeitar; não lhe parecia já dissimulação, mas abstenção. Elle proprio a evitava; fugia ás conversas longas, sobretudo ás conversas solitarias. Era respeitoso e frio.
Com effeito, Jorge não havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia á feição do tempo; mettia-se por um atalho, sem saber se iria dar á estrada recta ou a um abysmo. Nenhuma preoccupação lhe ensombrava a fronte risonha e placida. Dir-se-hia que, após longa e trabalhosa jornada, vingara o cume das delicias humanas.
A verdade é que o amor de Jorge tinha como que despido a qualidade de sentimento para constituir-se ideia fixa. Nascido de uma primeira explosão de juventude, curtiu alguns annos de ausencia. A ausencia disciplinou os primeiros ardores, quebrou os impetos, afrouxou o alento; o amor atou aos hombros as azas de um mysticismo quieto. Não parou nessa evolução. Do coração em que pousava tomou impulso e alou-se ao cerebro, onde assumiu a fixidez das resoluções definitivas. Não era já uma paixão, mas uma convicção, isto é, outra cousa. Pensava muitas vezes na consequencia de herdar em breve prazo a esposa de Luiz Garcia, resolução que lhe parecia necessaria; era o que elle dizia a si mesmo. E esse casamento tinha dous resultados: era uma reparação e uma desforra: reparação do mal que elle fizera, desforra do tratamento que ella lhe deu. Ambos tinham que reprochar um ao outro. O casamento absolvia-os. Talvez na balança commum não fossem eguaes as dividas, mas Jorge tinha certo fundo de equidade, e entendia que, se padecera muito e longo, não excedeu o padecimento á injuria, que, a seus olhos, fora grave.
Os ralhos da consciencia eram agora menos frequentes e menos rispidos: é o effeito natural dessa ordem de situações violentas. Os mais rigidos podem chegar assim ás complacencias inexplicaveis, e o que é hoje nobre repugnancia, é amanhã hesitação pueril. Jorge não ficou extranho a essa lei do costume. De si para si julgava-se innocente, porque era impassivel, esquecendo a lettra do decalogo que não defende sómente a acção, mas a propria intenção.
Duas circumstancias perturbaram, entretanto, o espirito de Jorge, antes do fim daquelle anno.
A primeira foi a assiduidade de Procopio Dias, que lhe pareceu pouco explicavel. Procopio Dias era recebido com agazalho mais cordial do que elle. Em relação a Jorge, o procedimento de Estella era cautelloso e apenas affavel; o de Yayá era de algum modo medroso ou hostil; uma e outra pareciam alegrar-se quando Procopio Dias assomava á porta. Era uma expressão differente. Este acompanhava-as ás vezes nos passeios, ou conversava-as largo tempo, fazendo-as rir com uma espontaneidade, que não tinham a falar com Jorge. Obedecia aos desejos da madrasta e aos caprichos da enteada, quaesquer que fossem, com tamanha tolerancia e bom humor, que fazia despeitar o outro, sem o saber. Jorge attentou nos dictos e acções do intruso, e com o tempo veiu a tranquillisar-se.
—É um celibatario necessitado da companhia de mulheres, disse comsigo.
Procopio Dias não parecia outra cousa; a atmosphera feminina era para elle uma necessidade; o ruge-ruge das saias a melhor musica a seus ouvidos. Graças á edade, Yayá era mais familiar do que Estella; ás vezes chegava a «judiar» com elle, excesso que o pae ou a madrasta reprimia, e reprimia sem necessidade. Procopio Dias não manifestava nem sentia o menor despeito; achava-lhe graça e chegava a fazer coro com ella.
A segunda circumstancia que projectou alguma sombra no espirito de Jorge, foi justamente a hostilidade de Yayá Garcia.
—Que diabo fiz eu a esta menina? perguntava Jorge a si mesmo.
Durante a molestia e a convalescença do pae, Yayá tratara Jorge com muita gratidão e cordialidade. Algum tempo depois, começou a diminuir essa apparencia, até que cessou de todo e se converteu n'outra cousa, que visivelmente era repugnancia, com uma pontasinha de hostilidade. Luiz Garcia viu logo a differença, tanto mais facil de notar quanto que Estella, se não era já tão expansiva como nos primeiros dias, tratava ainda assim o filho de Valeria com uma affabilidade, que salvava as apparencias; a unica excepção era a filha. Não deixou de a advertir; ponderou-lhe que Jorge era filho de uma pessoa a quem elles deviam estima, e de quem ella mesma houvera uma recordação posthuma; que essa circumstancia devia atenuar a antipathia, se Jorge lhe era antipathico. Yayá ouvia e calava-se; emendava-se n'um dia, para reincidir toda a semana.
—És uma extranhona, disse uma vez o pae depois de lhe repetir a advertencia.
Podia ser estranhice. A vida que Yayá tivera durante largo tempo dera-lhe o amor exclusivo da solidão e da familia. Mas no caso presente parecia ser alguma cousa mais do que isso. O rosto com que recebia Jorge não era o mesmo com que via outras pessoas. Jorge ás vezes chegava quando ella estava ao piano; Yayá interrompia-se habilmente, fazia gottejar dos dedos umas tres ou quatro notas soltas e divergentes e erguia-se. Se elle ia conversar com ella e a madrasta, Yayá tomava a parte minima do dialogo e esquivava-se cautelosamente. Não sorria nunca se elle dizia uma cousa graciosa ou fazia cumprimento; não animava nunca a adopção de qualquer projecto que viesse delle; não lia os romances que elle lhe emprestava. Se era convidada a dizer o que pensava de um ou outro desses livros, fazia descair os cantos da boca commum gesto de indifferença. Não falava nunca de Jorge; apparecia-lhe o menos que podia. Este procedimento constante, não affrontoso, porque ella o disfarçava, impressionou o espirito do moço, que não lhe pode descobrir a causa verdadeira, ou pelo menos verosimil.
A verdadeira causa era nada menos que um sentimento de ciume filial. Yayá adorava o pae sobre todas as cousas; era o principal mandamento de seu cathecismo. Instigara o casamento, com o fim de lhe tornar a vida menos solitaria, e porque amava Estella. O casamento trouxe para casa uma companheira e uma affeição; não lhe diminuiu nada do seu quinhão de filha.
Yayá viu, entretanto, a mudança que houve nos habitos do pae, pouco depois de convalescido, e sobretudo desde os fins de Setembro. Esse homem sêcco para todos, expansivo sómente na familia, abrira uma excepção em favor de Jorge; sem mostrar maneiras ruidosas, aliás incompativeis com elle, era menos reservado, de mais facil e continuado accesso. Não foi porém esse primeiro reparo que produziu em Yayá a notada mudança; foi outro. Luiz Garcia deu a Jorge algumas demonstrações de confiança pessoal, e no dia em que a filha viu a primeira, recordou-se da carta que escrevera ao moço na noite em que a molestia do pae se aggravara, e da confidencia dos dois, cujo assumpto nunca lhe chegara aos ouvidos. Neste instante sentiu borbulhar no coração uma primeira gotta de fel. Imaginou que Jorge viera roubar-lhe alguma cousa. Não cogitou se haveria assumpto que dous homens devessem tratar exclusivamente entre si; suppoz-se despojada de uma parte da confiança do pae, e porque amava o pae sobre todas as cousas, seu amor tinha os ciumes, as coleras, os arrebatamentos do outro amor, e consequentemente os mesmos odios e lastimas.
Conhecia o pae toda a intensidade da affeição filial da moça, e não era menor a do seu amor; mas elle dizia comsigo philosophicamente, e não sem pezar, que a natureza se encarregaria de lhe ensinar outro sentimento, menos grave, mas não menos intenso e imperioso. Quando elle assim reflectia, contemplava a filha com um olhar já humido das primeiras saudades.
Yayá estava então em toda a limpidez de uma aurora sem nuvens. Era leve, agil, subita—com um pouco de destimidez; ás vezes aspera, mas dotada de um espirito ondulante, esguio e não incapaz de reflexão e tenacidade. Nisto podia ficar o retrato da menina, se não conviesse falar tambem dos olhos, que, se eram limpidos como os de Eva antes do peccado, se eram de rôla, como os da Sulamites, tinham como os desta alguma cousa escondida dentro, que não era de certo a mesma cousa. Quando ella olhava de certo modo, ameaçava ou penetrava os refolhos da consciencia alheia. Mas eram raras essas occasiões. A expressão usual era outra, meiga ou indifferente, e mais de infancia que de juventude. Talvez a boca fosse um pouco grande; mas os labios eram finos e energicos. Em resumo, as feições dos onze annos estavam alli desenvolvidas e mais accentuadas.
Uma tarde Luiz Garcia recebeu ordem de ir immediatamente á casa do ministro. Saiu, deixando a mulher e a filha, anciosas pelo resultado. Jorge appareceu pouco depois. A demora de Luiz Garcia foi longa, e Jorge ter-se-hia retirado, se não fora a chegada do Sr. Antunes, que deu um sopro de vida á conversa que expirava. Nove horas, dez horas, onze horas bateram sem que Luiz Garcia voltasse. Yayá estava impaciente; receiava alguma doença subita do pae, um desastre qualquer. Eram onze horas e um quarto quando este entrou offegante, porque viera depressa, tendo encontrado Raymundo, que, ouvindo as ancias da moça, saíra a encontral-o e a dizer-lh'as.
Yayá atirou-se-lhe aos braços.
—Medrosa! disse Luiz Garcia abrangendo-lhe a cabeça com as mãos.
Sentou-se um instante para repousar; com a mão esquerda comprimia o coração. Logo depois ergueu-se, chamou Jorge e foi até uma das janellas. Conversaram em voz baixa dez minutos. Disse-lhe que talvez fosse obrigado a sair no fim daquella semana; tratava-se de uma necessidade de serviço; salvo uma hypothese, a viagem era inevitavel.
Yayá não tirava os olhos de um e de outro; despediu-se de Jorge dando lhe as pontas dos dedos. Foi no dia seguinte que Estella lhe disse que talvez fossem obrigadas a sair por algum tempo. Ouvindo a noticia, Yayá comprehendeu a confidencia da vespera, e ficou consternada. Ella era a ultima que a recebia, e o primeiro fora um extranho, um intruso,—esteve quasi a dizer um inimigo. Nenhuma palavra do pae; nenhuma communicação directa.
—A ultima!
Esse resentimento exagerado era o proprio effeito da organização da moça, e, outrosim, de sua educação quasi solitaria. Para affastal-a de Jorge não foi preciso mais; o despeito apoderou-se inteiramente della. Se até ali pouco lhe havia falado, esse pouco diminuiu ainda com o tempo; fez-se quasi nada.
E essas duas forças, uma de impulsão, outra de repulsão, tendiam a esbarrar-se, no caminho de seus destinos.
X
Ora, quatro ou cinco dias depois, Luiz Garcia que, na previsão de viagem, começara a arranjar alguns papeis esparsos e antigos, dispoz-se a concluir esse trabalho, não obstante haver sido dispensada a commissão. Era dia de anno bom,—uma bella manhã, fresca, limpida, azul. Tinham ido á missa na capella do convento; almoçaram em familia, com a presença do Sr. Antunes, que inaugurara uma sobrecasaca, e trazia nessa manhã um aspecto, não sómente venerador, mas até veneravel.
Yayá accordara extremamente alegre e boliçosa. O Sr. Antunes levara-lhe um ramalhete de cravos, dizendo que era para que ella recebesse outros ramalhetes durante todo o anno, e a menina, depois de o receber e agradecer com uma mesura, foi pol-o n'um vaso, sobre o parapeito da janella da alcova. O Sr. Antunes despediu-se della, meia hora depois de almoçado.
—Já vae?
—Vou jogar uma partida de bilhar com o Jorge, disse familiarmente o pae de Estella. Viremos cedo.
—Elle vem jantar?
—Quero ver se o trago.
—Mas... papae não está prevenido, objectou Yayá.
—Está; foi elle proprio que me autorisou a trazel-o. Verdade é que fui eu que o pedi. Devemos muito áquelle moço, e ao defunto pae e á mãe, a Sra. D. Valeria, que Deus tenha. Até logo.
Yayá ficou só, e um instante pensativa; mas, logo depois ergueu os hombros, pegou de um trabalho de agulha, inventado para matar o tempo, e caminhou para o gabinete do pae, onde o foi achar com Estella.
—Virgem Nossa Senhora! disse a moça parando á porta.
Ao pé da secretaria estava uma vasta cesta, transbordando de papeis; sobre a secretaria papeis; papeis na mão de Luiz Garcia; outros na mão de Estella; alguns esparsos no chão. Era uma liquidação de seis annos. Luiz Garcia tinha o costume de guardar tudo, cartas, exemplares de jornaes em que havia alguma cousa de interesse, apontamentos, simples copias. De longe em longe inventariava e liquidava o passado. Havia já alguns annos que não fazia a costumada operação. Começara quando suppunha ter de deixar o Rio; agora tratava de concluir. Estella tinha entrado pouco antes da enteada; sentara-se em uma cadeira rasa, e entretinha-se a receber ou apanhar algum pedaço de jornal velho, e a ler algum trecho em que os olhos acertavam de cair.
—Que é? disse Luiz Garcia logo que a filha soltara a exclamação.
—Papae vae ficar afogado em papel, disse a moça.
Luiz Garcia não respondeu; voltara os olhos para uma carta que tinha na mão, e que sem duvida, lhe trazia alguma recordação amarga, porque elle sorria tristemente. Leu-a toda; releu alguns trechos; depois fez um gesto de desdem, rasgou-a e deitou os pedaços á cesta.
Yayá foi sentar-se do outro lado, a poucos passos do pae.
Na secretaria, ao pé deste, havia um maço de cousas que serviam, um maço pequeno; a grande maioria era a dos destroços inuteis. Não é isso mesmo a imagem do passado? Luiz Garcia desdobrava ás vezes um jornal, avaramente guardado havia annos; duas cruzes ou alguns traços indicavam o trecho que nesse tempo lhe chamara a attenção. Relia-o agora; buscava o motivo da reserva e sorria. A impressão que communicara algum interesse ao escripto desapparecera de todo; o escripto era um esqueleto. Tambem as cartas eram assim. Raras escapavam á destruição; as mais dellas eram dilaceradas, umas em dous pedaços,—as infimas,—outras em trinta, as que podiam ter alguma gravidade. Estella, que o ajudava, pegou casualmente em uma carta, cuja lettra do sobrescripto lhe não pareceu extranha.
—Eu conheço esta lettra, disse ella.
—Deixa ver.
Estella deu-lhe a carta.
—É do Dr. Jorge, disse o marido.
Abriu-a, e depois de ler algumas linhas, sorriu. Leu-a depois até o fim. Quando acabou, dobrou-a e ficou a olhar para a mulher; tornou a desdobral-a machinalmente.
—Vou restituil-a, disse elle depois de curta pausa; talvez se envergonhe de haver escripto estas cousas...
E dirigiu os olhos á carta, com uma insistencia de aguçar o mais embotado appetite. Depois, volveu a cabeça um pouco para traz, onde ficava a filha, a distancia, de olhos baixos; abafou a voz e disse a Estella:
—Nunca soubeste do verdadeiro motivo que o levou á guerra?
Estella ficou ainda mais pallida do que era; o sangue todo refluiu-lhe ao coração, donde lhe não saiu uma só palavra; foi com um gesto negativo que ella respondeu. E se não podia empallidecer mais, podia corar e corou de vergonha. Luiz Garcia não viu nem a primeira, nem a segunda impressão de suas palavras. Enrolava e desenrolava com os dedos um dos cantos da carta. Naturalmente relembrava os successos daquelles cinco annos, as confidencias da mãe e do filho.
—Quem diria que depois de tamanho sacrificio.... O que são rapazes! O que são paixões! Elle gostava de uma moça; não sei quem era, mas supponho.... A mãe fez quando pode para domal-o; quando desesperou, lembrou-se de o mandar para o sul; elle acceitou. Fui confidente de um e de outro. Tempos depois de embarcar.... espera.... a data hade estar aqui.... 67.... Ainda em 67 durava a tal paixão; afinal pareceu que só esperava o fim da guerra para acabar tambem. Morreu-lhe a paixão e elle engorda. Nunca suspeitaste nada?
—Não, murmurou Estella.
Luiz Garcia deu a carta á mulher, que a recebeu tremula e fria.
—Lê, que é interessante, disse elle.
Estella olhou para o papel e para o marido, vacilante, sem saber o que faria e o que pensasse.
—Lê; é curioso, disse este, que voltara aos demais papeis, abrindo uns, separando outros, tranquillo e indifferente.
Estella, sem levantar a cabeça, olhou ainda de esguelha para elle, como a procurar-lhe na fronte a intenção escondida, se por ventura havia alguma, e esse gesto era tão travado de receio e hesitação, era sobretudo tão dissimulado, que ella propria o sentiu e arrependeu-se. Cravou depois os olhos no papel, sem ler, sem fitar nenhuma linha, uma palavra unica. Não via as lettras; via, ao longe, dous pombos que voavam e a candura de seus labios embaciada por uns labios de homem; nada mais. A mão tremia; ella firmou-a sobre a borda da secretaria; mas o tremor, ainda que pouco perceptivel, não cessou.
—Leste? perguntou Luiz Garcia dobrando um jornal que acabava de passar pelos olhos.
Estella fez um gesto para que esperasse um instante. Não reparava que havia decorrido tempo sufficiente para haver lido a carta duas vezes. Fez um esforço; voltou a pagina; duas ou tres phrases lhe feriram os olhos: «Meu amor não sabe o que seja impaciencia ou ciume ou exclusivismo; é uma fé religiosa que pode viver inteira em muitos corações»—«O essencial é saber que amo a mais nobre creatura do mundo»—«A paixão veiu commigo, e se não cresceu é porque não podia crescer; mas transformou-se. De creança que era, fez-se homem de juizo.» Chegou ao fim da carta ou pareceu ter chegado; dobrou-a, e não se atreveu a dizer nada; depois tornou a abril-a.
—Que poesia, hem? disse Luiz Garcia sorrindo.
E o sorriso era tão natural, tão despreoccupado, tão honesto, que Estella ficou tranquilla. Tinha em grande conta a dignidade e a sinceridade do marido; não podia suppôr-lhe tanta hypocrisia nem tamanha indifferença. Sorriu tambem, mas um sorriso de acquiescencia, sem convicção nem espontaneidade. Luiz Garcia inclinou-se para ella; falou-lhe com a mesma voz abafada de pouco antes; referiu-lhe o amor que Valeria tinha ao filho e a estrategia usada para o fim de o arredar do Rio de Janeiro.
—Naquelle tempo, disse elle, não sei se cheguei a arrepender-me de a ter apoiado; hoje não. O filho ficou são e salvo de seus amores, com um posto e honras de sobra.
—É verdade, murmurou Estella, que o escutara com a attenção dispersa e impaciente.
Logo depois ergueu-se e foi á janella. Alli sacudiu a cabeça com um gesto energico. Talvez lutavam nella forças contrarias; ou era o seu passado que emergia da sombra do tempo, com todas as cores vivas ou escuras, com as delicias occultas e nunca revelladas, e ao mesmo tempo com as amarguras e resistencias. Era isso; era o coração que mordia impaciente o freio da necessidade e do orgulho, e vinha pedir ainda uma vez o seu quinhão de vida, e pedia-o em nome daquella carta, expressão remota de um amor desenganado e impassivel. Estella suffocava esses impetos, mas elles vinham. Após alguns minutos, deixou a janella, tornou á cadeira onde estava. Luiz Garcia lia então um retalho de jornal. Não chegou a levantar os olhos.
Defronte, Yayá tinha os olhos cravados na madrasta. Ouvira a principio o nome de Jorge e não lhe prestara muita attenção; mas uma ou duas palavras soltas do pae haviam-lhe despertado a curiosidade. Yayá ergueu a cabeça, inclinou-a depois, ouviu a confidencia do pae, não obstante ser feita em voz baixa, e emfim não retirou mais os olhos de Estella. Viu-a receber a carta, com a mão tremula; viu-a empallidecer ainda mais; viu-lhe a confusão e o enleio. Porque o enleio e a confusão? Um amor extincto de Jorge, uma paixão que o levara á guerra, que tinha ella, que tinham elles tres com isso?
Yayá olhou a principio com curiosidade, depois com espanto, até que os olhos luziram de sagacidade e penetração. O estylete que elles escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e estendeu-a até ir ao fundo da consciencia de Estella. Era um olhar intenso, aquilino, profundo, que palpava o coração da outra, ouvia o sangue correr-lhe nas veias e penetrava no cerebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem ligação. Yayá adivinhou o passado de Estella; mas adivinhou de mais. Galgou a realidade até cair no possivel. Suppoz um vinculo anterior ao casamento, roto contra a vontade de ambos, talvez persistente, mau grado aos tempos e ás cousas. Tudo isso viu uma simples innocencia de dezesete annos. Seu pensamento cristalino e virginal, nunca embaciado pela experiencia, ignorava até as primeiras scismas de donzella. Não tinha ideia do mal; não conhecia as vicissitudes do coração. Jardim fechado, como a esposa do Cantico, viu subitamente rasgar-se-lhe uma porta, e esses dez minutos foram a sua puberdade moral. A creança acabara: principiava a mulher.
A impressão foi tão profunda, que apezar da força de resistencia que havia em sua organização, Yayá não pode ter-se alli mais tempo. Saiu e refugiou-se na alcova. Certo, aquelle amor intruso, se o havia, era para affligir e prostrar um coração de filha, amassado de ternura, para o qual a forma superior e exclusiva do sentimento era a paixão que a prendia a seu pae, como um vinculo indestructivel. Depois vinha o affecto que votava á madrasta, sua mãe electiva, affecto não menos sincero e real, e que já agora podia diminuir, quem sabe até se morrer todo?
Sentada na beira da cama, com os pés juntos, as mãos fechadas entre os joelhos, os olhos cravados no espelho que lhe ficava defronte, Yayá trabalhava mentalmente na sua descoberta. Confrontava o que acabava de ver com os factos anteriores, de todos os dias, isto é, a frieza, a indifferença, a stricta polidez dos dous, e mal podia combinar uma e outra cousa; mas ao mesmo tempo advertia que nem sempre estava presente quando Jorge alli ia, ou fugia-lhe muita vez, e podia ser que a indifferença não passasse de uma mascara. Demais, a commoção da madrasta era significativa. Estendeu o espirito pelo tempo atraz, até o dia da primeira visita de Jorge, e lembrou-se que elle estremecera ouvindo a voz de Estella, circumstancia que lhe pareceu então indifferente. Agora via que não.
Uma hora inteira gastou nesse cogitar solitario, a sós com a suspeita e o remorso. Tambem remorso, por que de quando em quando atterrada com a vista do caminho andado, a alma recuava e estremecia; tinha horror de si mesma. Mas a figura pallida da madrasta surgia ao pé della, com a expressão que lhe vira pouco antes, e a consciencia fazia as pazes com a malicia.
Vede a consequencia. Estella não era culpada; um incidente do passado é que projectava tamanha sombra na vida presente; mas bastou o espectaculo da commoção para turbar o espirito da enteada e lançar lá dentro os primeiros germens da sciencia do mal. Que seria se fosse culpada? Talvez o mais lastimoso effeito dos desvios domesticos é essa corrupção dos corações ingenuos, impassiveis testemunhas do que ignoram um dia, do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manhã: primeira violação da virgindade.
Yayá agitava-se na alcova, de um para outro lado, desejosa e receiosa ao mesmo tempo de ir ter com Estella. Duas vezes chegou á porta e recuou. Uma das vezes, voltando para dentro, deu com os olhos no retrato do pae que pendia junto á cabeceira,—uma simples photographia. Tirou-o dalli, contemplou longamente a fronte austera e pura. Que! Haveria na terra quem o amasse uma vez e não sentisse que o amor lhe dominaria a vida inteira? Tão affectuoso! tão bom! vivendo exclusivamente para os seus, sem nada invejar ao resto dos homens. Isto lhe dizia o coração, emquanto ella ia beijando o retrato com respeito, com amor, afinal com delirio. Grossas lagrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Yayá deixou-as cair: sorveu-as com seus proprios beijos. Quando essa primeira explosão acabou, acabou para se não repetir mais. Enxutos os olhos Yayá pode friamente reflectir, e a reflexão dominou a angustia.
O que se passou naquelle cerebro ainda verde, mas já robusto, foi uma resolução sem plano. Deslindar o vinculo espurio era o essencial e urgente, não cogitou no modo. Sua innocencia, assim como lhe dissimulava toda extensão possivel do mal, assim tambem lhe encobria as asperezas e os obices da execução. Era o coração que lhe designava esse papel de anjo guardador. Natureza simples e intacta, ia direito ao fim sem o temor que dá a experiencia e a contemplação da vida. Quem sabe? Não conhecia a hypocrisia, mas acabava de suspeital-a; começava talvez a apprendel-a.
Tinha-se demorado muito e era preciso sair do quarto; mas, como houvesse chorado, podiam ler-lhe os vestigios da dor. Yayá foi ao lavatorio deitou agua na bacia e começou a banhar os olhos e o rosto. O rumor da agua impediu-lhe ouvir que alguem abria a porta. Estella appareceu-lhe repentinamente.
—Que faz você aqui ha tanto tempo? disse a madrasta, parando á porta.
Yayá não se atreveu a olhar de rosto para ella; mastigou uma resposta esquiva e continuou o que estava fazendo.
—Que tens? perguntou Estella pegando-lhe dos braços e fazendo-a voltar para si. Você chorou? ... Chorou, sim; tem os olhos vermelhos. Que foi? Yayá, fala; que é?
—Não é nada, acudiu a outra procurando sorrir.
—Não minta, Yayá.
A enteada olhou de relance para o espelho; viu que era inutil mentir.
—Foi uma tolice, disse ella.
—Alguma travessura?
—Antes fosse!
Yayá pegou do retrato que puzera na borda do marmore de lavatorio, e olhou alguns instantes para elle. Estella quiz conchegal-a a si, mas a enteada fugiu-lhe com o corpo.
—Trata-se... de teu pae? perguntou a madrasta.
Yayá fitou-a e respondeu:
—Sim, mamãesinha; estava a sacudir a poeira do retrato de papae, e comecei a pensar... foi uma loucura... se elle... morresse?
Estella reprehendeu-a com uma interjeição; Yayá quiz continuar, mas a outra interrompeu-a impetuosamente:
—Cala-te, disse; não penses em tolices. Dá cá o retrato.
—Não é verdade que elle é o melhor dos homens? perguntou Yayá, em quanto Estella pendurava o retrato.
A unica resposta da madrasta foi caminhar para ella e dizer-lhe que nunca mais pensasse em semelhante cousa.
—Não sou senhora dos meus pensamentos, respondeu a moça, erguendo os hombros.
Após alguns segundos de silencio, Estella percebeu que alguma cousa preoccupava a enteada, e disse-lh'o. Yayá respondeu negativamente. Mas Estella insistiu:
—Não tens o teu ar do costume, e esses olhos andam vagamente de um lado para outro. Talvez... quem sabe...
—Não é isso que a senhora pensa, interrompeu Yayá seccamente.
Depois sentou-se, a olhar para o jardim, a morder o labio, que lhe tremia, e a comprimir os seios com a mão. Estella ficou um instante calada; emfim sacudiu benevolamente a cabeça e approximou-se da menina.
—Tu não tens confiança em mim, Yayá, disse ella pousando-lhe a mão no hombro. Se tivesses, dizias-me em que é que pensas, porque é de certo em alguma cousa. Não é difficil deixar de pensar no Procopio Dias; acho até que é a cousa mais facil; mas não será algum pensamento da mesma natureza? Anda; sê franca; sou apenas tua madrasta, e pouco mais velha que tu; posso ouvir tuas confidencias e aconselhar-te. Onde acharás melhor amiga do que eu?
Yayá tinha applacado a primeira sensação; afivellou de todo a mascara da tranquillidade, emquanto não a substituia por outra. Ergueu-se e disse com affouteza:
—Pois bem, vou confiar-lhe uma cousa... não... supponha... é melhor suppôr... tenho vergonha de dizer a verdade. Supponha que tive um amor de collegio...
—Tu? Aos treze annos!
—Aos doze e meio.
—Bonito! Não foi começar tarde. Esse amor naturalmente expirou nos braços da ultima boneca.
—Supponha que não, disse Yayá em tom serio. Ora, se eu tiver de casar com o Procopio Dias...
—Quem te fala em casar com elle?
—Por ora é um gracejo; mas, se elle teimar, é possivel que nem a senhora nem papae o desemparem, e ainda mais possivel que eu me deixe vencer para contentar a todos. Mas é este o ponto de minha confidencia; é uma ideia que me persegue ha dias. Devo eu casar com um homem amando a outro? posso fazel-o? devo fazel-o?
Estella estremeceu levemente, sob o olhar impassivel e puro da enteada, e não respondeu logo. Yayá parecia folgar com esse enleio de um minuto; mas ao mesmo tempo o coração lhe sangrava, porque o enleio era a confirmação de suas recentes supposições. A madrasta não tinha a penetração da enteada; além disso, como suppôr nella o conhecimento de um facto remoto e não divulgado? Estella nem cogitou nisso. Escoou-se o minuto, e ella respondeu com tranquillidade:
—Não deves casar, se o amor pode ser satisfeito sem obstaculo. No caso contrario, o casamento é uma simples escolha da razão: sacrifica-te.
Yayá, que tinha uma das mãos da madrasta entre as suas, largou-a subitamente. Estella riu, e bateu-lhe na testa com a ponta do dedo.
—Esta cabecinha! disse ella. Ha aqui dentro muita cousa que é preciso capinar...
No primeiro instante, Yayá empallideceu. Ao ultimo gesto de Estella, respondeu com um sorriso forçado e sem cor. Logo que esta saiu, deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mãos. Quando dalli saiu, meia hora depois, não trazia nenhum signal de lagrimas, ou sequer de tristeza. Não vinha alegre, de certo; serena, sim, daquella serenidade com que o caçador do sertão se dispõe a encarar a onça.
Jorge foi jantar, e sobre a tarde appareceu Procopio Dias. Durante o jantar e a noite, Yayá fez impressão na familia e nos extranhos, pela singular alteração de seus modos. Estava um pouco pallida, mas a viva luz dos olhos parecia communicar ao rosto uma porção do colorido ausente. Mostrou-se expansiva, e não golhofeira. Suas phrases eram longas, deduzidas, iam até o fim do pensamento, sem as interrupções e saltos do costume. De costume, parecia que a moça pensava aos fragmentos, porque era quasi impossivel ter com ella uma conversa inteiriça e ordenada com a sua variedade propria. Naquelle dia era o contrario. Como que a alma despira a roupa de bailarina, para enfiar um roupão caseiro, simples, apertado, subido até o pescoço. Era melhor assim? era peor? Nem uma nem outra cousa; era uma apparencia nova.
Mais do que ninguem, Jorge estimou essa alteração, porque em relação a elle a moça tambem havia mudado alguma cousa. Yayá sentira nesse dia mais repugnancia do que nunca ao ver o filho de Valeria, e chegou a recuar instinctivamente a mão. Cedeu, porém, e o sorriso com que corrigiu a recusa foi o primeiro que Jorge recebeu directamente della. Nesse dia a moça respondeu-lhe sem custo, e talvez lhe dirigiu a palavra alguma vez; o que tudo viu Luiz Garcia e attribuiu a effeito de suas admoestações.
Nem Luiz Garcia nem Jorge poderiam suppôr que sobre a cabeça da madrasta e da enteada a carta de 1867 agitava as suas lettras de fogo. Essa carta importuna, poupada da destruição immediata, era a scentelha subitamente lançada no amor adormecido de uma e no odio nascente de outra; Jorge estava longe de o ler no rosto affavel de Yayá, e no olhar fugidio de Estella.
Pouco depois das dez horas dispersou-se a reunião. O Sr. Antunes aposentou-se por essa noite em casa do genro. Jorge e Procopio Dias sairam juntos.
—Vae para a cidade a esta hora? perguntou Jorge.
—Repare que ainda me não offereceu cama, disse rindo o outro.
—Mas offereço-lhe agora.
—Acceito. Precisava justamente falar-lhe: negocio grave.
—Não é de certo algum fornecimento?
—Nem só de pão vive o homem, acudiu Procopio Dias.
—Que negocio é?
—Uma explicação.
—Sobre...
—Hade ser lá em casa; a noite é escura e os quintaes são traçoeiros.
XI
Entrados em casa, Procopio Dias não se apressou a dar ou pedir a explicação. Ceou primeiro, porque confessou haver adquerido esse costume, e Jorge não se demorou em obsequial-o. A ceia improvisada, composta de viandas frias e dous ou tres calices de vinho puro, deixou-o em paz com a natureza. Satisfeita esta, era a hora da explicação.
Não veiu ella com facilidade. Indolentemente reclinado n'uma ottomana, Procopio Dias fumava com volupia e falava com precaução, usando a voz pausada e avara de um homem para quem o digerir, é meditar. Se alguma ideia lhe avoaçava lá dentro, era difficil percebel-o atravez do olhar exhausto e morbido. Entretanto, a curiosidade de Jorge não lhe permittiu mais longa dilação e Procopio Dias foi compellido a salisfazel-a, quando o moço, parando deante delle, fracamente lh'o pediu.
—Parecia-me mais facil do que é, disse elle, sobretudo porque apezar de nos conhecermos ha algum tempo, não estou certo da opinião que o senhor forma de mim. Boa?
—Boa.
—Dê-me sua mão. Promette-me ser franco?
—Prometto:
—Qual das duas o leva á casa de Luiz Garcia?
Sobresaltado, Jorge retirou vivamente a mão.
—Bem vê, tornou Procopio Dias; é uma dellas.
Passada a primeira impressão, Jorge sentou-se tranquillamente, menos comtudo do que affectava estar.
—Na verdade, a sua pergunta é das mais exquisitas que eu esperava ouvir. Ignora as relações de amizade que me prendem áquella casa, relações que herdei de minha familia, e que eu apenas continuo? Qual das duas! Não ha alli duas; ha uma, uma sómente, uma... e...
—Não é essa? não é Yayá?
Jorge fez um gesto negativo.
—Acredite que me restitue a tranquillidade ao coração, disse Procopio Dias sentando-se de todo. Não é meu rival? não tem nenhuma ideia?... nenhuma ideia vaga?... É isso o que precise saber... é só isso, e é tudo.
—O senhor gosta de Yayá?
Procopio Dias fez primeiro um gesto affirmativo; depois balbuciou a confissão plena de seus sentimentos, mas com um ar de envergonhado, meio sincero e meio fingido, e tão a ponto e natural, que era difficil saber onde acabava a sinceridade e onde começava a simulação. Animou-se a pouco e pouco, e não lhe escondeu nada. Confessou que a filha de Luiz Garcia lhe transtornara de todo o espirito e que elle estava resoluto aos maiores sacrificios para obter-lhe a mão.
—Ás vezes suppunha que o senhor andava nas minhas fronteiras, concluiu elle, ideia que me affligia, porque o senhor tem sobre mim vantagens incontestaveis. A suspeita desvanecia-se e eu tranquillisava-me. Hoje, porém, confesso-lhe que a suspeita reappareceu e entrou a devorar-me o coração; e ainda assim, tinha intervallos, porque ora me parecia que o seu objecto era Yayá, ora que era a outra...
—Perdão, interrompeu Jorge; eu já lhe disse o que devia, e não posso consentir que voltemos ao mesmo ponto. Uma de suas suspeitas é injurias para mim.
—Tem razão; eu devia tel-o pensado, assentiu Procopio Dias. Mas que quer? Nada se deve imputar aos dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em todo caso, pode crer que a minha indole não é tão tolerante com o vicio que me fizesse desejar haver dado em balda certa. Não sou rigoroso; sei que as paixões governam os homens, e que a força de as reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia em que a natureza se fizer communista e distribuir egualmente as boas qualidades moraes, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo cousa nenhuma.
—Deixe-me falar-lhe com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que o senhor é ainda menos rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua suspeita, em relação á outra, tivesse fundamento, o senhor não me ouviria com indignação.
—Talvez estimasse.
Jorge não disse nada; olhou sómente para o interlocutor, com um ar de estupefacção, a que o outro sorriu benevolamente. Fez-se uma curta pausa. Procopio Dias rompeu emfim o silencio:
—Talvez estimasse, sem deixar de indignar-me depois; isto é, a indignação no momento seria abafada pelo interesse. Attenda-me, doutor; sejamos justos com o natureza humana. Virtudes inteiriças são invenções de poetas. Não me fazia bom cabello que a senhor gostasse da outra, e menos ainda que ella lhe correspondesse, porque, em summa; ambicionando entrar na familia, não desejaria que a familia tivesse a menor macula. Esta é a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais ridicula que pareça esta confissão, por mais grosseira que seja a minha casca, a verdade é que amo a enteada apaixonadamente: é o meu pensamento de todos os dias. Ora, dado que o senhor amasse a outra, qual era o primeiro movimento do meu coração? Ligal-os ao meu interesse. Desde que entre os dous houvesse um segredo, e que esse segredo fosse descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ella eram os meus melhores alliados, e a resistencia daquella menina, e a vontade do pae, tudo cedia em meu favor.
Procopio Dias proferiu estas palavras com simplicidade e convicção. Seus olhos plumbeos pareciam duas portas abertas sobre a consciencia. A expressão do rosto era a de um cynismo candido. Jorge contemplou-o alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer subjugado pelo raciocinio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza não mostrava que Procopio Dias já não suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:
—O que o senhor acaba de dizer não será animador, mas persuado-me que é a realidade pura. Admira-me sómente que tenha tanta penetração e superioridade para ver e confessar os vicios da natureza humana...
—Sou pratico, tornou o outro sorrindo. Raras vezes me irrito, comquanto lastime sempre o que é fraqueza ou perversão. Assim, por exemplo, eu não lhe ficaria querendo mal se o senhor me houvesse illudido agora acerca de seus sentimentos, porque o seu interesse e o seu dever é negal-os.
—Perdão; já lhe dei minha palavra...
—Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está pervertida.
—Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.
—Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias sorrindo.
—Pois juro-lhe...
Procopio Dias levantou-se de subito.
—Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio; creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra! Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta expansão pode ter um lado grotesco,—hade ter de certo. O que lhe affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente da fortuna não dos homens...
Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.
—O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia, com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor, porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.
—Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?
—Nunca; receio que não me deixasse acabar.
—Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.
—Sabe disse?
—Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter esperanças...
Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido. Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos, e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo. Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.
Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas; limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.
—Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso; depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um rapaz de espavento.
Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem, que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e mysteriosa de todas as forças sensuaes.
A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente, como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam dellas; não era difficil apagal-as de memoria.
Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.
Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras, devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração, trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora divina e casta, ora ardente e lubrica,—lubrica, porque elle em sua imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.
No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle, dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.
—Não podia attribuir-lhe outro motivo, redarguiu Jorge sorrindo.
—Não ficou mal commigo?
—Mal? A prova é que se dependesse de mim casal-o, casava-o amanhã mesmo.
Procopio Dias agradeceu-lhe a sympathia e o obsequio, e saiu. Jorge foi dalli vestir-se para ir passar alguns minutos no escriptorio. Emquanto se vestia, pensava na situação do ex-fornecedor do exercito. Não eram amigos, mas o caso de Procopio Dias interessava-o; era sympathico a seus olhos. Não indagou se essa sympathia brotava do medo; persuadia-se ingenuamente do contrario. Um marido apaixonado e opulento! Duas vantagens que uma moça nas condições de Yayá, devia acceitar com ambas as mãos. Talvez Procopio Dias não fosse mal acceito ao coração da moça; sómente, havia nesta uns vestigios de creança, que o tempo devia apagar.
—Naquella edade um pretendente é uma especie de boneca, dizia Jorge atando a gravata; o que é preciso, a todo trance, é fazer da boneca um esposo.
Chegando ao escriptorio, ao meio dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes consternado. Tinha dormido até onze horas, chegara tarde á casa em que trabalhava, o patrão convidara-o a fazer as contas. Era uma pequena casa de commercio, onde o Sr. Antunes, que entendia de escripturação mercantil, trabalhava desde algum tempo, graças ao obsequio de Jorge:
—Mas já foi despedido? perguntou este.
—Devo fazer as minhas contas e retirar-me no fim do mez.
Jorge escreveu duas linhas ao patrão do Sr. Antunes. De tarde, foi este a Santa Thereza. Jorge ia sentar-se á mesa do jantar; o Sr. Antunes já tinha jantado, mas acompanhou-o.
—Venha, venha, disse o moço; preciso ralhar-lhe.
Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim, reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.
—Isso mesmo, disse o pae de Estella.
—Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.
—Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça com um gesto de enfado.
Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil, porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.
Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta: «Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do bacharel.
—Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer que Yayá vae casar.
—Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um instante:—É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou eu.
—Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...
—Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante cousa. Aquella menina não tem cabeça.
—Oh! exclamou Jorge rindo.
—Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada. Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!
—Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e muitas vezes serio...
—Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.
—Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.
—Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella; não lhe tem muita sympathia, é o que é.
—Como sabe você disso?
—Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai porque já não podia aturar nem um nem outro.
Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais, pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na vespera com alguma cordialidade.
—Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella, quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.
—Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.
—Tambem Estella gosta de mim.
Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?