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Yayá Garcia

Chapter 20: XV
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About This Book

A narrativa acompanha Luiz Garcia, funcionário público solitário que vive em casa modesta com o criado Raymundo e a filha Lina (Yayá). Descreve sua rotina metódica e previsível, a relação afetuosa e paternal com a menina e a amizade tranquila com o velho servente, e revela sua melancolia interior e ceticismo adquirido. A prosa explora pequenos episódios domésticos e encontros que perturbam a monotonia, mostrando como afeição, memória e costumes moldam a vida privada. Estruturalmente, alterna descrição psicológica com cenas corriqueiras que vão construindo um retrato íntimo e contido do cotidiano.

Yayá transpoz a soleira e saiu; precisava de ar, de espaço, de luz; a alma cobiçava um immenso banho de azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas purpuras mais bellas. Jorge acompanhou-a; a commoção delle era sincera e forte, mas menos intensa, menos desvairada que a de Yayá, cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava, desde o sol poente até ao ultimo grelo de capim:—olhae, vede as bodas do meu coração; este é o meu amado. Perto da noite, Raymundo veiu buscal-a; Jorge acompanhou-a. Yayá lembrou-se de traçar com um grampo, no musgo que reveste o aqueducto, o nome de Jorge e a data; instando com elle, Jorge escreveu tambem o nome d'ella. Raymundo sorria entre dentes. Em caminho falaram do presente e do futuro; e, n'um intervallo, tocaram levemente no passado.

—Sabe que eu tinha um desgotosinho? disse Yayá. Jorge interrogou-a com os olhos. É verdade, um capricho, continuou ella. Quizera que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e é bem possivel que não seja este o primeiro amor de seu coração.

—Não é, respondeu Jorge depois de um instante de reflexão. Amei uma vez, ha muito tempo; mas todo esse passado acabou.

—Está certo de que acabou?

—Creança! Que noiva receiou nunca de um amor antigo, começado e acabado, antes d'ella ser amada tambem? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado, é como os defuntos; reza-se por elle, quando se reza.

—Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Yayá sorrindo.

Yayá mostrou-se tão expansiva n'aquella noite e nos seguintes dias, derramou de tal modo a vida que a enchia que Estella comprehendeu tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. Ha uns amores, aliás verdadeiros, a que precedem muitas contrafacções; primeiro que a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensações intimas. Yayá ignorava tudo; não soletrara o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o coração intacto. Seu accordar foi uma aurora subita, mas rutilante e limpida. No meio da embriaguez que lhe dava o novo sentimento, não cogitou nas possiveis consequencias d'elle; não perguntou a si propria se era verdade que no coração da madrasta havia uma saudade ou uma esperança silenciosa, e se isso podia ser a raiz de largos odios e dissenções domesticas. Não interrogou o futuro. Phenomeno curioso! A lembrança do pae foi por um instante esquecida; o egoismo do amor devorou-a.




XV

A fronte de Estella não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia no coração, como um mau hospede; e o espectaculo daquelles ultimos mezes não fizera mais do que irrital-o. Mas a força moral de Estella subjugou-o. A luta fora longa, violenta e cruel; a consciencia do dever e o respeito de si propria acabaram vencendo. Talvez não fosse difficil perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cançasso que deixam as grandes tempestades moraes. A tempestade ninguem lh'a viu.

Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe pareceu evidente, Estella sentiu rugir-lhe no coração um vento de colera; vento forte e instantaneo. Dessa vez, o olhar penetrante de Yayá não pode ler no fundo da alma da madrasta; e por ventura lhe diminuiu a suspeita, quando a viu contemplar sem irritação nem abatimento a situação nascida de seu esforço unico.

Entretanto, a molestia, que solapava a existencia de Luiz Garcia, aggravou-se por aquelle tempo, e o enfermo foi compellido a pedir alguns mezes de licença. Chamado a vel-o, o medico reconheceu que a enfermidade tocava ao desenlace, e com a enfermidade a vida. Não o disse á familia, mas não o escondeu de Jorge, quando este directamente lh'o perguntou.

—Está condemnado á morte, disse elle; a molestia devorou-o lentamente, mas com segurança. Pode viver dous a tres mezes.

Jorge ficou atterrado, Os acontecimentos tinham tomado tal feição, que elle já pedia a vida de Luiz Garcia. Quem lh'o dissera alguns annos antes? Não sómente padeceria com a morte do enfermo, mas teria de ver padecer Yayá, de cuja adoração filial era testemunha, e chegava a receiar que o golpe lhe fosse fatal. Nada disse; affectou tranquillidade e indifferença, mas entendeu que os successos o designavam a proteger a familia e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse occasião.

Estella não receiou menos do que na molestia anterior; mas dessa vez não interrogou Jorge, com quanto o visse falar ao medico. Nos ultimos tempos, o seu silencio era mais continuo e habitual. Parecia desinteressada de tudo, menos do marido. Suspeitou da gravidade da molestia, interrogou o medico, e ouviu deste palavras de esperança:

—Não lhe peço esperanças illusorias, disse Estella; peço-lhe que me diga toda a verdade.

—A verdade é cruel de dizer.

—Perdido? disse ella com voz surda.

O silencio do medico foi a confirmação d'aquella palavra. Estella sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não soltou uma lagrima. Pode reflectir no perigo de ser vista essa denuncia do mal, e dominou-se. Quando se achou só comsigo, deu livre campo ás angustias; encarou a catastrophe e pensou nas consequencias da morte e no incerto futuro que a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o presente levou-a ao passado. A vida só lhe dera alegrias medias e dores maximas. Não foi a paixão que a levou ao casamento, mas sómente a conveniencia e o raciocinio. No casamento achara os sentimentos de apreço, a mutua consideração, a brandura das relações domesticas; esse fogo, porém, cuja intensidade não dura, mas que é o férvido sol dos primeiros dias, precursor necessario da tarde repousada e da noite tranquilla, esse fogo, essa fusão de duas existencias, esse ardor expansivo, condição de sua natureza moral, não os conheceu Estella. Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a paixão sanctificada. Pois bem, se alguma cousa podia compensar-lhe a falta, era a longa duração de uma felicidade segura, embora tibia; era envelhecer sob a monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O destino negava-lhe a compensação.

Não tinha Estella ao pé de si com quem repartisse as tristezas. O pae seria o ultimo de todos. A viuvez deixal-a-hia sem familia. Esta ideia trouxe outra,—a de apressar o casamento da enteada, de modo que nenhum vinculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luiz Garcia adormecido, Estella deu a perceber á enteada que o estado do pae era grave. Yayá empallideceu. Jorge fez um gesto de reprovação.

—A molestia não é leve de certo, disse este; nas não se segue dahi que se deva...

—Tudo se deve prever, tornou Estella. Pela minha parte, entendo que prevenir um caso fatal não é fazer com que elle se dê. Yayá sabe o amor que lhe tem seu pae; seria para elle uma fortuna poder abençoal-a. Vamos lá, continuou ella, pegando nas mãos de um e de outro, por que é que se não casam?

Momentaneamente acanhados, nenhum delles assentiu nem recusou. Yayá olhava espantada para a madrasta.

—O silencio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer que concordam commigo, não é? Nesse caso, seremos tres para fazer a cousa mais simples do mundo, que é casar duas creaturas, que se amam... Porque não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro de poucos dias, á capucha, cousa simples...

Yayá tinha emfim sahido do primeiro instante de estupefacção.—Mas, papae, está mal? disse ella.

—Todos nós estamos mal, apezar de termos saude, respondeu Estella; n'um dia cae a casa. A doença delle é grave, é coração...

—Tem razão, interveiu Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias, duas semanas, quando muito, ou tres.

Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estella. Conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois examinou-se a si proprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração. Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não foi importuno; foi antes licção e philosophia. Mentalmente sorriu. Era elle o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto ás soluções tragicas; agora, com egual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na fronte desta mal ousara roçar um osculo medroso e casto, elle, que fizera a scena da Tijuca. O homem não era o mesmo. Embora a isenção presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria sem amargura, mas com um travo de melancolia.

—Aquelle orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia elle.

No dia seguinte, Procopio Dias veiu accordal-o em casa.

—Quando chegou? perguntou Jorge.

—Hontem de tarde, a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais do que queria; mas emfim cá estou,—cá estou, e mais magro. O senhor é que me parece mais gordo.

Procopio Dias falou compridamente da politica argentina e da magistratura de Buenos-Ayres; falou tambem um pouco das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o outro intercalasse alguma cousa menos extrangeira; Jorge, porém, falava pouco e sem appetite; o constrangimento delle foi visivel quando Procopio Dias o interrogou, acerca da familia de Luiz Garcia; respondeu-lhe sem interesse. Procopio Dias fitou-o durante alguns segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.

—E Yayá! disse elle; parece-lhe então que nenhuma esperança...

Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz explicativo. Procopio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após um silencio largo, entrou a rir de bom humor.

—Quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle. Saiba que volto curado. Quando penso na molestia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da figura que fiz. Já sou muito maduro para cavallarias altas. A doença ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao menos na minha edade, é uma especie de beri-beri... Hade ter-se rido de mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.

Jorge contestou com um simples gesto; mas Procopio Dias falava com tanta naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação deu á conserva a vida que ella tendia a perder. Jorge foi mais expansivo, mais alegre; não lhe confiou a nova situação, mas o segredo parecia debruçar-se-lhe das palpebras e dos cantos da boca. Essa alegria era um respiro da consciencia, que se sentia um pouco vexada em presença daquelle homem, cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era tambem a satisfação de não ter conseguido ligal-o á filha de Luiz Garcia; consorcio repugnante, hybrido, cujo resultado seria dar á moça uma longa amargura sem certeza de resgate.

Quando Procopio Dias saiu d'alli ia suspeitoso da realidade.—Mas a outra? dizia elle comsigo. Sacudiu os hombros, e não ficou mais tranquillo. Levava já no peito um pouco de impaciencia e irritação; tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde allumiou-a um clarão subito, ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez houvesse julgado com precipitação: era possivel attribuir a reserva de Jorge, não á competencia pessoal, mas a uma maneira de entender as maximas do decoro. Quem sabe? Elle podia ter-se arrependido de haver permettido tanto. Essa reflexão arejou um pouco o espirito, sem lhe tirar de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade. Nesse mesmo dia, foi elle a Santa Thereza.

Luiz Garcia concedera n'aquella manhã a mão da filha. Na occasião em que Procopio Dias alli entrou, tinha-a elle ao pé de si, e contemplava-a com amor e saude,—duas vezes saudade, porque tambem a morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos em que elle e ella eram, um para o outro, toda a terra e todo o ceu; e perguntava á natureza se era justo sobrepor ao primeiro vinculo outro vinculo extranho, e a natureza lhe respondia que não sómente era justo, mas até necessario. Então o pae sentia-se feliz com a felicidade da filha, cujo egoismo lhe ensinava a abnegação. Se ella devia amar a outrem, que faria elle mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe todas as approvações; era o unico extranho que lhe penetrara um pouco mais na intimidade; amante, bemquisto e opulento, podia dar á moça, além da felicidade do coração, todas as vantagens sociaes, ainda as mais solidas, ainda as mais frivolas:—e esse homem obscuro, enfastiado e sceptico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das cousas, que elle não cobiçara nunca.

Uma noite bastou a Procopio Dias para conhecer a situação. Não obstante as declarações do pretendente, que acceitou como sinceras, Jorge buscou dissimulal-a. Se Procopio Dias não tornasse a ver a moça, é possivel que o tempo lhe abafasse a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais bella do que a deixara.

—E a outra? dizia elle.

Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma ideia comsigo, deante da qual Procopio Dias chegou a recuar. Esse ideia era envenenar na propria origem a affeição recente; nada menos que denunciar a madrasta á enteada. Se alguma cousa pudesse attenuar a perversidade de semelhante recurso, era a persuasão que elle tinha de que diria a verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço poderia fazer suppôr que o casamento da filha de Luiz Garcia era uma suggestão da madrasta. Elle proprio achava essa combinação verosimil, conveniente, reparadora.

—Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.

A occasião veiu. Um pouco irritada com a assiduidade de Procopio Dias e a confiança que parecia renascer nelle, Yayá assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a casar. Procopio Dias empallideceu. Suppunha apenas provavel o que era já definitivo. Olhou longamente para ella; a extincção da esperança não implicava a extincção do desejo; pela contrario, vinha pungil-o e açulal-o. Seus olhos mostraram então duas expressões diversas; a primeira involuntaria, a mesma com que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e mau; a segunda voluntaria, não de queixa, não de supplica, mas de lastima. A ideia ruim tornava a arder-lhe no cerebro.

—Não sabia, disse elle, depois de curta pausa. Com quem?

—Com o Dr. Jorge.

—Ah!

Procopio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de lastima.—Pobre moça! murmurou elle entre dentes. Yayá fitou-o severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:

—Não approva a escolha?

—A escolha é excellente, disse elle; mas ha circumstancias que fazem do optimo pessimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; suppõe talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive ideia de casar com a senhora; perdi a ideia, mas guardei o sentimento. Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo á voz da consciencia, sem calcular com a sua approvação...

Fez uma pausa.

—Acabe, disse a moça.

—Ha cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não acceite o casamento; desfaça-o, não para casar commigo, mas desfaça-o.

Yayá fez-se pallida. Procopio Dias, pasmado do proprio arrojo, comprehendeu que havia ido muito longe naquellas poucas palavras; mas já não havia meio de as explicar de modo verosimil. Como se fizesse um monologo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do labio, emquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vitreo das fortes concentrações. Yayá olhou para elle atonita e confusa: não sabia o que pensasse, não podia ou não queria entender. Afinal, collingido todas as forças, perguntou audazmente porque motivo lhe cumpria desfazer o casamento.

—Qualquer que seja o motivo, disse elle, não lhe aconselho que o acceite logo como decisivo. Reflicta antes de resolver; a responsabilidade será sua, do mesmo modo que o beneficio ha de ser seu. Meu conselho é que o desfaça.

—Porque muitas vezes o casamento é... é uma mascara, uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem?

Yayá fizera-se livida. Terror, indignação, abatimento, sua alma passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação fulminara-a; nunca Procopio Dias chegou a comprehender o motivo de tamanho e tão subito effeito. O effeito aterrou-o em parte, e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição moral de todo o seu ser, essa bastou a resentir o golpe que elle mesmo vibrara.

—Outra... Que outra? balbuciou Yayá segurando-lhe um dos braços.

Procopio Dias abanou a cabeça solemnemnte, como a dizer que não podia ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silencio largo, durante o qual a moça pode vencer a primeira commoção e reflectir sobre o que lhe convinha entender.

—Ama a outra? disse ella. Quem quer que seja essa rival, já agora o noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ella, visto que prefere casar commigo...

Não obstante a firmeza que procurava dar á palavra, a palavra era difficil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procopio Dias comprehendeu que a commoção estava apenas dominada, e que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa; depois do regresso, achou-a senhora reflectida; naquella occasião, a dor, occulta embora, como que lhe dava um encanto mais. Effectivamente o rosto de Yayá trahia o estado do coração; os olhos não correspondiam ao esforço que ella fazia para os fixar.

—Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse elle, e não me leve a mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado. Não importa; creia que ha casamentos impossiveis; casamentos destinados a... não sei a que... pode ser que a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito grave.

—Cale-se! rugiu surdamente a moça.

Procopio Dias continuou:

—Uma só palavra, disse elle. Hade attribuir ao despeito o aviso que lhe dei. É verdade; ha uma grande porção de despeito em mim. Porque lhe falaria eu, se não tivesse um motivo pessoal? Esse homem trahiu-me; eu tinha-lhe confiado o deposito do meu amor; elle abusou da confiança: fez-se amado em meu logar. Não me queixo da senhora. A senhora não me devia nada;—um pouco de sympathia, talvez;—no futuro, pode ser que me deva tambem um pouco de gratidão.

Procopio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito; desde que pode formular em um ou dous raciocinios o sentimento occulto que o fazia agir, achou nelle a legitimidade de tudo o que acabava de dizer. Era um duello; recebera um golpe na espadua, respondia com outro no coração, mais certeiro e provavelmente mortal; e se não era duello, era emboscada por emboscada; direito de represalia.

Prostrada com o golpe que acabava de receber, Yayá não teve sequer as lagrimas do desespero nem as da indignação. Ha dores seccas, como ha coleras mudas. A suspeita, que o tempo devia carcomer de todo, e que o amor de Jorge ia já tornando problematica, essa ruim suspeita renascia tão vivaz e pertinaz como alguns mezes antes, quando arrancou aos olhos de Yayá as primeiras lagrimas de mulher. Não podia crer que o amor de Jorge não fosse sincero; era-o; parecia-o, ao menos. Mas a existencia do outro amor, não era já o coração que lh'o dizia, era uma voz extranha que a vinha delatar: circumstancia nova, que fazia convalescer a duvida anterior, até o ponto de lhe dar todos os visos da realidade. Yayá sentia-se arrojada outra vez ao vasto e escuro espaço de suas antigas cogitações;—erma, desamparada de toda protecção humana, não lhe restava mais que duvidar e gemer, até achar na propria ductilidade de seu espirito a força que lhe não podia dar nenhuma origem exterior.

A madrasta foi ter com ella meia hora depois de sair Procopio Dias. Pouco antes, o marido tivera tamanha afflicção, que Estella chegou a receiar o ultimo golpe; agora ficava prostrado. Estella appareceu á enteada com o olhar ainda assustado e o passo mal seguro; Yayá não viu essa mudança, nem ouviu as primeiras palavras com que ella lhe falou do pae. Olhava só, emquanto o coração parecia querer despedaçar-lhe a arca do peito.

—Yayá, ande ter com seu pae; seu pae está hoje muito doente.

Vendo que a moça não se movia, Estella lançou-lhe o braço á roda da cintura.—Vamos, disse. Yayá estremeceu toda; depois, mettendo-lhe as mãos nos hombros, empurrou-a violentamente e caminhou para a porta.

—Yayá! bradou a madrasta.

A enteada voltou-se, e, estendendo o dedo sobre os labios, impoz-lhe silencio. O olhar desvairado e inconscio parecia antes de loucura que de indignação. Estella ficou estupefacta.

Luiz Garcia foi o laço que ainda pode conservar atadas essas duas existencias, já agora antipathicas uma á outra. A vida delle era necessaria a ambas. Uma punha nella todas as esperanças de um coração credulo; outra apenas lhe dava aquella porção ultima, que não desampara os necessitados. Tregoas houve, mas sombrias e violentas. Não se falavam as duas, não trocavam um só olhar na ausencia de Luiz Garcia; deante delle, mostravam-se como d'antes. Esta situação incomportavel parecia, aliás, definitiva.

Jorge percebeu-a; elle proprio sentiu a principio o effeito de um acontecimento, que não podia adivinhar e necessariamente era grave. Yayá, porém, venceu-se depressa em relação a elle. A alma, se o vento lh'a fizera dobrar, para logo retomou a posição dos outros dias; mostrou-se terna com elle, affavel, impaciente de concluir o casamento. Um só pensamento influia nella: confiscar aquelle homem, arrastal-o comsigo, dominal-o depois, despedaçar de uma vez o laço que suppunha atal-o ao coração da madrasta.

Marcou-se um sabbado para o casamento; mas os primeiros dias da semana foram de tão mau agouro, que a familia resolveu deferil-o para melhor occasião. O enfermo peiorou rapidamente. A molestia entrou no ultimo periodo.

Yayá viu morrer tristemente o sol do sabbado, e não viu nascer mais aprazivelmente o de domingo. Não pensava ainda na morte do pae, mas alguma cousa lhe fazia tremer o coração. A presença de Jorge é que lhe dava animo e conforto, posto que elle proprio se sentisse apprehensivo com o desenlace proximo da enfermidade de Luiz Garcia.

Lenta e caprichosa nos primeiros tempos, a enfermidade teve rapido e inflexivel o periodo ultimo. No fim de poucos dias a morte foi declarada imminente. Estella, não obstante achar-se preparada para o golpe, mal pode resistir ao primeiro abalo. Yayá ficou como douda. O pae fora a sua primeira e continua adoração. Durante alguns annos não conheceu outro mundo, outro affecto, outra familia, além daquelle homem grave e terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam. No primeiro instante não pode crer na triste nova. Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi então que a alma tentou romper todos os elos e voar, antes d'elle, a esperal-o na immensa vastidão azul, para emprehenderem juntos a derradeira viagem. Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe as lagrimas; mas estas vieram logo depois, e ella as verteu em silencio, suffocando os soluços, estorcendo-se na solidão da alcova.

Luiz Garcia reiterou a Jorge o pedido que lhe fizera um vez, em relação á familia; mas agora restringia-o a Estella.

—Peço-lhe que não desampare os meus. Sei que morro, e quero ter a certeza de que só deixo algumas saudades. O senhor vae casar com minha filha; nada me inquieta a este respeito. Mas Estella, que não é mãe de Yayá, ou é sómente mãe de coração, Estella vae ficar só, e eu não quizera morrer com a ideia de que a deixo infeliz. Promette-me que não a desamparará nunca?

Jorge prometteu. Estella, que estava presente, procurou tranquillisar o enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luiz Garcia não attendeu; exaltou as virtudes da mulher, a dedicação, o zelo, a affeição que lhe tinha.

—Digo-lhe que fui feliz, concluiu elle; minha alma era já velha, quando a d'ella se lhe uniu, e comtudo... sim, minha alma rejuvenesceu um pouco...

—Já tem falado muito, interrompeu Estella, descance, não quero que diga mais nada.

Luiz Garcia pediu ainda á mulher e á filha que se amassem como até alli. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. D'alli em deante, a morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua victima. Já a noite d'esse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte dia foi de angustia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a agonia d'elle, que durou algumas horas.

Ao vel-o morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a primeira vez que contemplavam a morte. Nenhuma d'ellas vira nunca expirar uma só creatura humana, e a primeira que a seus olhos se despedia da vida representava para ellas largos annos de affeição terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra. N'esse instante solemne, abraçaram-se sem reflexão; a dor impelliu-as com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram alli suas nobres, tristes e inuteis lagrimas.

Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a afflicção duas das mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raymundo, não pode ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela violencia dos soluços.




XVI

A morte de Luiz Garcia foi uma complicação mais. Passados os primeiros dous mezes, Jorge pensou em realisar o casamento, sem apparato, como um simples acto de interesse domestico, aliás necessario pela situação em que se achavam as duas senhoras. O Sr. Antunes fora morar com ellas, e era o chefe natural da familia; mas Jorge não esquecera que Luiz Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa do sogro; demais, entregara directamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalisar e sanctificar a designação do moribundo.

Mas, se isto lhe parecia claro e necessario, não se atrevia ainda assim propôl-o á noiva, e por duas razões. A primeira era o natural respeito á dor da filha, que elle podia magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e o silencio com que esta o tratava depois da morte do pae. A differença era positiva e inexplicavel; mas a boa fé explica tudo, e Jorge attribuiu essa nova feição da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia da paixão filial de Yayá; era testemunha dessa adoração constante, que parecia contar com a eternidade da vida.

A ideia de falar a Estella apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem esforço. Limitou-se a esperar, e ia alli com a assiduidade que lhe permittia a condição de noivo. Ia ás noites, não todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar uma conversação frouxa, muita vez sem interesse. Sobre todos tres, mas principalmente sobre as duas, pesava ainda a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas conversações intimas, e era elle quem forcejava por lhes dar a perdida animação; temperava-a com algum dito folgazão, ouvido com indifferença, quando não com tedio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da filha estivesse tratado, elle nutria a esperança de que alguma cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o futuro.

Uma noite, Jorge propoz directamente a Yayá a necessidade de apressar o casamento.

Não sendo a ceremonia publica, disse elle, não daremos que falar aos outros, se alguma cousa ha que falar...

—Quer a minha resposta hoje mesmo? interrompeu Yayá.

—Podia ser hoje.

Estella que estava presente, apoiou a reflexão de Jorge.—Convem decidir quanto antes, disse ella; não vale a pena deixar passar mais tempo sem utilidade.

—Sem utilidade, repetiu Yayá olhando para o tecto.

—Decerto...

Yayá baixou os olhos aos dous; fitou-os a um e outro, longo tempo, com severidade; depois, retorquiu em tom rispido:

—Deixem-me ao menos o tempo de chorar meu pae!

Jorge proferiu algumas palavras de affeição; Estella não protestou nem retorquiu; erguendo-se silenciosamente e deixou-os. O silencio foi longo. Jorge não tomara á má parte a supplica da noiva; attribuiu-a ao sentimento de piedade filial, que era nella mais forte que qualquer outro.

—Yayá, disse elle, ninguem lhe nega o direito de chorar seu pae; se insistimos é em beneficio da familia. Seu pae recommendou-me que olhasse pelos seus, e eu quizera poder fazel-o, não como extranho, mas como parente; por isso lembrei a conveniencia de realisar o casamento quanto antes, mas se lhe parece que pode ser addiado...

—Pode.

—Até quando?

—Até um dia.

—Que dia?

—Sabbado de Alleluia, por exemplo.

—Falemos serio, disse Jorge.

—Serio? Dia de S. Nunca.

Jorge franziu a testa.

—Que quer isso dizer? Retira a sua palavra? Em todo o caso, tenho direito de saber o motivo, porque algum motivo ha de haver...

Yayá tinha-se levantado, pegou-lhe na mão e levou-o até á janella. O transtorno das feições era visivel; os olhos luziam de impaciencia, emquanto a palavra parecia medrosa e recalcitrante. Pasmado do que via, e curioso do que ella lhe iria dizer, Jorge não pensou sequer em a aquietar; se lhe pegou nas mãos foi por um movimento instinctivo; mas quando as sentiu geladas e tremulas ficou atterrado.

—Que tem Yayá? Você padece; vamos, fale, diga-me tudo. Já me não ama?

—Se o não amo! disse vivamente a moça deitando os olhos ao ceu, como a tomal-o por testemunha da sinceridade de seu coração; mas logo depois arrependeu-se e continuou de um modo compassado e frio.—Amei-o; não importa saber se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que me fez bater o coração de um modo differente do que elle batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que me fizeram bem...

Jorge lançou-lhe o braço a cintura e conchegou-a ao coração.—Pois sim, disse elle; eu repetirei essas palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja franca. Para que ha de negar o que se está vendo? Eu sei que ainda me ama...

—Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços. Eu tenho-lhe horror.

Jorge sorriu.—Horror, por que? disse elle. Mas o gesto da moça veiu apagar-lhe o sorriso começado. Yayá levara as mãos ao seio, como se quizera conter os impetos do coração; os olhos luziam-lhe de extraordinario fulgor. Offegante, por alguns minutos, não pode articular uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:

—Que razão ha agora para que nos casemos? E depois de uma pausa:—Tenho ciumes do passado, e o senhor amou já uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o coração limpo de qualquer outro affecto, assim quizera que o senhor nunca houvesse amado a ninguem. Que é o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso; esse mesmo resto não me pertence, não é meu; fiquemos neste ponto, e tome cada um de nós a sua liberdade.

Yayá recusou outra explicação, aliás desnecessaria; a linguagem era transparente. Jorge saiu dalli com o espirito transtornado e confuso. O motivo da recusa, para ser sincero, era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva teve ciumes de um amor anonymo e extincto; logo, a allusão de Yayá não era vaga e sem objecto, mas ia direito á pessoa de Estella. Seria isso? Jorge não queria crer e mal podia duvidar.

No dia seguinte, acabado o almoço, appareceu-lhe o pae de Estella.

—Yayá manda-lhe isto, disse elle saccando da algibeira uma carta.

Jorge recebeu-a presurosamente e abriu-a; leu estas palavras unicas:—«Não posso ser sua mulher; esqueça-me e seja feliz.» Empallideceu; tornou a ler a carta, sem a entender, posto que ella não fosse mais do que a formula escripta e secca do que Yayá lhe dissera na vespera. Mas entre as queixas e effusões de uma hora de desanimo e aquella intimação, havia um abysmo; a carta trazia o cunho da resolução definitiva, que elle não achara ou não quizera achar nas declarações verbaes da moça.

—Yayá deu-lhe isto agora mesmo?

—Antes do almoço, respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava por soletrar no rosto de Jorge algumas linhas do drama que suppunha haver lá dentro.

—Não lhe parece que Yayá anda triste? perguntou Jorge no fim de um minuto.

—A morte do pae prostou-a muito.

Jorge foi dalli ao gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A preoccupação do moço era uma chuva benefica ás esperanças do pae de Estella, que todas pareciam reflorir. Como este falasse da filha com a prolixidade astuta do pretendente, Jorge attentou n'uma ideia, que a principio lhe pareceu absurda, mas com a qual se familiarisou a pouco e pouco; mordeu-lhe o coração a suspeita de que o procedimento de Yayá era uma desforra de Estella, uma como vingança posthuma. O inexplicavel da carta podia justificar até certo ponto essa suspeita sem fundamento nem verosimilhança, que afinal acabou por não achar nenhuma repulsa na consciencia delle.

Duas horas depois Jorge escrevia estas poucas palavras á viuva de Luiz Garcia:

«Yayá mandou-me ha pouco o incluso bilhete. Peço-lhe o favor de uma explicação.»

A carta de Yayá fora escripta naquella manhã, depois de uma noite de agitação e luta. Nem foi a unica. Yayá escrevera outra, menos laconica, a Procopio Dias. Morto o pae, esse homem fora alli tres vezes, sem trocar com a moça uma só palavra relativa á extranha confidencia que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora, não mais; durante esse curto lapso de tempo, Procopio Dias não discrepava um instante da gravidade um pouco triste que adoptara. Não era o folgasão primitivo, mas tambem não era um poeta desesperado e pallido; ficava a egual distancia de um e outro modelo. Os acontecimentos pareciam aconselhar-lhe uma discreta ausencia; mas, além de não ter melindres nem escrupulos, floria-lhe no peito a esperança, a esperança tenaz dos cabiçosos. Não a sussurrava ao ouvido da moça, nem a ostentava nos olhos, na compostura, nos meneios, todos elles impregnados da submissão de uma alma desenganada e passiva. Yayá tratava-o com bondade, já agora mais constante; posto não lhe passasse pela cabeça a ideia de vir a desposal-o, não lhe destoava o aspecto dessa paixão resignada e muda.

Depois de soltar a palavra decisiva, Yayá entendeu que lhe devia dar a forma ultima, desligando-se da solemne promessa. Não o fez sem muita lagrima solitaria. A pobre creança amava o filho de Valeria com a singeleza de um coração quasi adolescente, e só então mediu todo o imperio que elle adquirira sobre ella. Mas duas circumstancias a induziam ao desfecho; era a primeira a revelação de Procopio Dias, confirmação de suas suspeitas; a segunda foi o espectaculo que se lhe offereceu aos olhos, naquella noite, logo depois de se despedir do noivo. Sabendo que a madrasta estava no gabinete do pae, alli foi ter e espreitou pela fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada ao chão, desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe mettera as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabello em ondas amplas sobre a espadua, com a desordem da peccadora evangelica. Yayá não a viu sem que os olhos se humedecessem.

—Que se casem! disse a moça resolutamente.

Desligando-se da promessa feita, Yayá reflectiu que ia ficar só, e que precisava forçosamente de um amparo; foi então que lhe lembrou Procopio Dias. Não encarou a ideia sem repugnancia; acceitavel na palestra, Procopio Dias era-lhe antipathico para a convivencia conjugal. Não o podia amar, e, uma vez resoluta a acceital-o, começou logo de o aborrecer. Que muito? Era um marido; não exigia outro merito. A carta que lhe escreveu não saiu de um jacto, foi trabalhada e repizada; o texto definitivo dizia que fosse alli sem demora para lhe falar de objecto que interessava á felicidade de ambos. Isto, e nada mais que uma lagrima, que lhe resvalou dos cilios no papel como um protesto contra o que ia nelle escripto.

Raymundo, chamado para levar essa carta, recebeu-a depois de alguma hesitação. Olhou para o papel e para a sinhá moça. Depois sacudiu a cabeça com um ar de duvida. Yayá simulou não ver nada, mas o gesto do preto impressionou-a. Ia affastar-se, Raymundo reteve-a dizendo:

—Yayá me desculpe... esta carta... Raymundo não gosta de falar áquelle homem.

—Não lhe fales; basta deixar a carta em casa delle.

Raymundo não insistiu; acompanhou com os olhos a filha de seu antigo senhor, abanando a cabeça com o mesmo ar de alguns momentos antes. Depois olhou para a carta, como se quizesse adivinhar o que ia dentro. Não era só presentimento, mas tambem deducção do que elle via naquellas ultimas semanas. Tinham-lhe dado noticia do casamento; falara-se nisso todos os dias antes da morte de Luiz Garcia. Morto este, cessou toda a allusão ao projecto, que parecia dever executar-se dentro de pouco tempo. O coração do preto dizia que aquella carta era alguma cousa mais do que um recado sem consequencia. Quiz leval-a a Estella; mas rejeitou o expediente, por lhe parecer infidelidade. Dez minutos depois saiu em direcção á casa de Procopio Dias.

Entretanto, chegavam ás mãos de Estella o bilhete de Jorge e o de Yayá. A viuva não podia crer o que lera. A carta da enteada era um acto de insubordinação, inexplicavel na essencia e na forma: e se essa carta a fez pasmar, a de Jorge fel-a gemer. O noivo desenganado recorria á intervenção de Estella. A primeira amada desse homem era agora a sua confidente, a quem elle escrevia sem saudade, sem remorso, talvez sem hesitação.

—Sogra! concluiu Estella com amargura; e erguendo os olhos do papel para o espelho, que pendia da parede fronteira, contemplou caladamente as suas graças ainda em flor. Yayá entrou nessa occasião. A madrasta chamou-a ao pé de si, e mostrando-lhe o bilhete que escrevera ao noivo, perguntou-lhe o que queria dizer aquillo. A enteada ficou silenciosa durante alguns segundos; mas a resolução deu-lhe força e tranquillidade.

—Quer dizer o que ahi está escripto, respondeu ella; não posso casar com o Dr. Jorge.

—Porque?

—Não posso.

—Porque? repetiu Estella com autoridade.

—Amo a outra pessoa.

—Não creio; tem de certo outro motivo.

—Que motivo?

—Nenhum que seja sensato, acudiu a madrasta, mas algum ha de haver, que não seja esse. O passo que deu é grave; não é proprio de uma moça obediente; chega a ser contrario á cortezia. Não importa; tudo se pode explicar; explique-me esta carta.

Yayá não obedeceu á intimação da madrasta, e para tirar á recusa qualquer apparencia offensiva, conservou um ar de modestia e resignação. Estella não se deu por vencida; demonstrou-lhe que só um motivo grave podia justificar semelhante procedimento, e que era forçoso dizel-o ao noivo; lembrou-lhe finalmente a estima que sempre houvera entre Jorge e o pae. Neste ponto Yayá estremeceu e fitou na madrasta uns olhos que não eram os de pouco antes. Parecia-lhe sacrilegio evocar o nome do pae. Não se pode ter; deu um passo e interrompeu-a com sequidão:

—Não posso casar, porque a senhora gosta delle.

Estella, que já então estava sentada, ergueu-se de golpe ao ouvir esta subita e inesperada explicação. A face pallida, que o traje de viuva ainda mais empallidecia, tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser confusão ou indignação. Durante uma pausa relativamente longa, Yayá não tirou os olhos da madrasta. Essas duas lampadas buscavam examinar-lhe, no momento supremo todos os recantos da consciencia, e todos os atalhos do passado. Não disse nada, para melhor gozar do abalo que acabava de produzir em Estella; era o juro do sacrificio. Mas Estella sentou-se dahi a pouco, e foi a primeira que rompeu o silencio.

—Tu estás maluca, disse ella tranquillamente. Quem te metteu semelhante ideia na cabeça?

—Não examinemos agora quem foi ou o que foi que me fez adivinhar a verdade, respondeu Yayá; basta saber que decidi romper o casamento, que o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que talvez dentro de poucos dias outra pessoa lhe pedirá minha mão.

Estas palavras transtornaram de todo a viuva, que, atonita e irritada, deu alguns passos na sala, buscando conter a explosão de seus sentimentos. Yayá foi ter com ella, falou-lhe com brandura e submissão.

—Não se zangue, mamãesinha, se lhe não disse antes o que fiz agora mesmo; estava certa de que approvaria, ou me perdoaria, quando menos. O homem de que lhe falo ama-me, e a senhora mesma não rejeitou a ideia de me ver casada com elle.

—Não tens culpa da imprudencia que commetteste, disse Estella; porque antes disso tinhas perdido a razão. Vem cá; disseste-me ahi uma palavra absurda, e é preciso que me digas outra com que expliques a primeira. Porque eu gosto delle? continuou depois de alguns instantes. Que quer dizer com isso?

Yayá curvou a cabeça.

—Fala!

—Não direi nada; essa palavra explica tudo. Se gosta como eu creio, é a sua felicidade que lhe trago, não digo a troco da minha, porque seria lançar-lhe em rosto o sacrificio, mas a troco de uma illusão, e nada mais. Não pense que lhe quero mal; não posso querer mal a quem me tem ou teve alguma affeição e substituiu dignamente minha mãe. Se lhe quizesse mal, é provavel que não fizesse o que fiz.

Em quanto falava a enteada, Estella tinha a fronte inclinada e pensativa; attitude em que se conservou ainda durante algum tempo.

—Bem vê que acertei, disse Yayá; seu silencio confirma a minha supposição.

—Eu! exclamou Estella estremecendo. Tu não entendes nada dos sentimentos, não conheces o coração. Eu amal-o? eu? Não! não é possivel!

—Talvez não, mas o que está feito, está feito.

A madrasta quiz retel-a, mas não pode; Yayá saiu sem dizer nada. Estella ficou atordoada, confusa e até medrosa; reboavam-lhe aos ouvidos as palavras de Yayá, não como um som exterior, mas como o brado da propria consciencia. Venceu o abatimento, reagiu depressa como lh'o pediam as circumstancias e a propria necessidade de sua natureza. Não teve tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a suspeitar um sentimento que ella recalcara no coração. Urgia reparar o mal feito pela imprudencia da moça. Estella dispoz-se a responder desde logo á carta de Jorge, e não sabia ainda claramente o que lhe havia de dizer. Tratou primeiro de chamar Raymundo, e vendo que elle não acudia foi ter com Yayá.

—Raymundo foi levar uma carta minha ao Procopio Dias, respondeu esta.

Estella caiu n'uma cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o espirito uma ideia cruel: a ideia de que a suspeita de Yayá fosse mais do que uma simples e innocente conjectura. Os olhos que lançou á moça ardiam de indignação. Cobriu-os depressa, não para chorar, mas para fugir aos da outra. O olhar de Estella fez vacillar por um instante a convicção da enteada; a colera pareceu-lhe sincera e até excessiva; mas o gesto que se lhe seguiu attenuou e desvaneceu a primeira impressão. Yayá suppoz ver na attitude da madrasta uma confissão involuntaria, uma expressão de abatimento e desespero, como de pessoa que entrevê a felicidade propria e julga dever sacrifical-a á de outrem. Era generosa. Caminhou para ella, dobrou as curvas, pousou-lhe no regaço os braços, tremulos de commoção; com as mãos desviou as de Estella e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.

—Fui estouvada, confesso, disse ella; devia tel-a consultado antes de fazer o que fiz. Mas eu temia a sua opposição, e não queria tornal-a desgraçada. Sou mais moça que a senhora; se tivesse de consolar-me, consolava-me despressa. Mas não tenho; não amava; cedi a um capricho, e não sinto a menor dor ao despedir-me delle. Ande, perdôe-me; e esteja certa de que não a amarei menos do que até agora.

Ergueu-se e procurou beijal-a. A madrasta recuou instinctivamente a cabeça; era um resto de repugnancia, que a physionomia ingenua e pura de Yayá para logo dissipou. Em tão verdes annos, sem nenhum trato social, era licito suppôr na menina tamanha dissimulação? Estella concluiu que a acção da enteada vinha, não de uma supposição ultrajante, mas de um impulso desinteressado. Qualquer que fosse o fundamento da suspeita, o procedimento da enteada trazia o cunho da candura e da boa fé; assim pensando, Estella sentiu desopprimir-se-lhe a alma. Não era generosa,—ou tinha sómente a generosidade fria e altiva, que nasce da soberba. Mas não era insensivel, e o desinteresse da menina tocou-lhe profundamente o coração. Inclinou-se para ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos e fitou-a, com um olhar severo e maternal ao mesmo tempo.

—Perdoo-te, disse finalmente, porque não sabes o que fizeste. A intenção é que te salva do meu odio; digo mal, do meu desprezo. Se queres medir bem a profundidade do abysmo que acabas de cavar, fica sabendo que me injuriaste, pensando servir-me, e que o resultado do teu erro pode talvez arrancar-te lagrimas amargas e inuteis. Teu castigo será que só eu os enxugarei;—ouves bem? só eu.

Dizendo isto, soltou a cabeça da enteada com um gesto rispido, em que havia ainda um pouco de irritação. Yayá estava pallida. Sentiu na palavra secca e fria da madrasta um alento de indignação sincera; e a alma caiu-lhe prostrada, mais ainda do que o corpo, que não podendo suster-se, procurou amparar-se no movel que achou mais proximo. A duvida, que já antes atravessara o espirito da moça, começou a invadil-o. Yayá fitou Estella com o mais agudo de seus olhares, acompanhou-a de um lado para outro, por que a madrasta, logo depois das palavras que lhe disse, entrara a andar e a reflectir. Se a viuva era sincera, Yayá acabava de fazer gratuitamente a sua propria desgraça; foi o que a moça pensou. No atordoamento moral em que esta hypothese a lançou, Yayá achou-se entre dous desejos, mal definidos, mas inteiramente oppostos um ao outro. Quizera e não quizera ter-se enganado; aspirava a conciliar o coração e a consciencia. Seu espirito evocou a hora inicial da suspeita,—aquella funesta manhã, em que a carta de Jorge foi lida por Estella; recordou o gesto da madrasta, o tremor, a lividez, os vivos symptomas da consternação, do medo ou do remorso. Seria engano aquillo? não era evidente que elles se haviam amado, que se amavam ainda naquella occasião; e, dada affirmativa, era acaso impossivel que Estella, ao menos, o amasse ainda hoje?

Yayá ateve-se a esta conclusão, embora confirmasse a ruina de suas esperanças; a conclusão, porém, contrastava com a impassibilidade da madrasta. Já então perdera Estella o alvoroço do primeiro momento. Depois de alguns minutos de reflexão, parara em frente da enteada. Era difficil ver na attitude quieta, no aspecto de matrona severa e digna alguma cousa que se parecesse com as ancias, o triumpho ou o abatimento de uma rival. Yayá deixou-se estar deante della, a fital-a e a revolvel-a. A porção da alma que transparecia do rosto da viuva era tão fria, tão indifferente, que mal se podia combinar com o sentimento que Yayá lhe attribuia. Foi o que esta pensou ver com seus olhos finamente sagazes; e no meio desse contraste entre o aspecto presente e a revelação passada, Yayá acabou por não saber definitivamente onde ficava a verdade, e esteve a ponto de lh'a pedir de joelhos.

Achavam-se então no gabinete de Luiz Garcia, defronte da secretaria, onde o finado encontrara, com outros papeis, a carta que dera logar ás conjecturas de Yayá. Não havia mudança nem no numero nem na disposição dos moveis. Só a luz era differente, porque a daquelle dia era viva e clara, coada atravez de uma atmosphera serena, como a vida anterior dessa familia, ao passo que a de hoje vinha turva e meia apagada pelas nuvens de um ceu chuvoso e triste. Na longa pausa que houve entre a madrasta e a enteada, os unicos sons que se ouviam eram o rufar da chuva na folhagem do jardim e o tic-tac de um relogio de parede.

—Escuta, disse finalmente Estella; se alguma razão tens para crer que amo esse homem, é necessrio mostrar-te a realidade das cousas.

Estella abriu duas ou tres gavetinhas da secretaria, e depois de alguma busca entre os maços de cartas que ahi encontrou, tirou uma, abriu-a e deu-a á enteada. Yayá recebeu-a com as mãos tremulas de curiosidade; leu-a toda; devia ser a mesma que o pae mostrara á madrasta.

—Essa moça era a senhora? murmurou ella como se ainda esperasse resposta negativa.

—Era eu.

Yayá deixou-se cair n'uma cadeira raza, a mesma em que Estella estivera sentada, quando ouviu a confidencia do marido.

—Vês? disse Estella; foi por mim que elle fez o sacrificio de ir para a guerra, sem esperança de ser retribuido nem de contar um dia com a minha gratidão. Foi para a guerra, lutou, padeceu, fiel ao sentimento que o tinha levado, até o ponto de o crer eterno. Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns annos. É duro de ouvir, minha filha, mas não ha nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas paixões morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso, arrisca a vida, affronta a vontade de sua mãe, rebella-se, e pede a morte; e essa paixão violenta e extraordinaria acaba ás portas de um simples namoro, entre duas chicaras de chá...

—A senhora não o amou nunca? interrompeu Yayá, ao sentir o tremor e o despeito com que a madrasta proferira as ultimas palavras.

—Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estella. Eu era humilde e obscura, elle distincto e considerado; differença que podia desapparecer, se a natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda a distancia que nos separava e tratei simplesmente de evital-o. Foi então que elle embarcou; interiormente approvei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento entre nós, era impossivel, ainda que todos trabalhassem para elle; era impossivel, sim, porque o consideraria uma especie de favor, e eu tenho em grande respeito a minha propria condição. Meu pae já me achava, em pequena, uns arremeços de orgulho. Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era preciso dar-me outra indole. Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pae. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e por isso acertada. Não tínhamos illusões; pudemos ser felizes sem desencanto. Teu pae não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais timido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns annos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquelle homem aqui appareceu; era necessario. Um dia teu pae mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão encoberta que ahi se conta; podes imaginar se ouvi tranquilla. Mas fóra desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi nenhuma porta abrir-se-me por obsequio, nenhuma mão apertou a minha por simples condescendencia. Não conheci a polidez humilhante, nem a afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto á natural curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ella? donde veiu? Ninguem me perguntou donde vinha, não é verdade? Perguntaste-me quem era eu? Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isso bastou-nos estender os braços; não foi preciso descer nem subir.

—Não foi, bradou Yayá commovida, apertando-lhe as mãos.

—Já vês quem eu era e sou; uma especie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisongeada com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois ahi tens a minha historia, a historia, dessa carta, que já agora podemos rasgar...

Estella pegou na carta e rasgou-a lentamente, em pedaços miudos, emquanto a enteada reflectia nas revelações que acabava de ouvir. A madrasta deitou os fragmentos do papel á cesta.

—Resta concertar a imprudencia e casar, disse Estella dando á palavra um tom galhofeiro.

—Não sei! murmurou Yayá. O que a senhora me disse é grave; não ha sentimentos eternos. Parece que depois de tamanha paixão, qualquer outro affecto não terá longa vida.

—Porque não? Não has de querer agora uma paixão, que o leve á guerra; seria um desastre. Mas está nas tuas mãos fazer que elle te ame sempre e muito.

Yayá reflectiu um instante.

—Jure-me que o não ama!

Estella franziu o sobr'olho; depois mostrou-lhe o bilhete que Jorge lhe escrevera pouco antes, e cuja redacção dissiparia á moça qualquer duvida em relação ao noivo. Era uma evasiva para lhe não confessar nem mentir. A primeira vez que lhe negara o amor, foi antes um grito do coração que queria enganar-se a si proprio: agora preferia calar-se. A certeza da isenção de Jorge importava muito mais que a de Estella; a alma de Yayá no primeiro instante, respirou á larga. O respeito que tinha á madrasta, e um pouco de ciume retrospectivo que a mordia, ao pensar naquella paixão tão violenta e tão desenganada, empeciam á moça qualquer outra manifestação. Quando se achou a sós comsigo, levava o espirito arejado da suspeita que o opprimira durante largos mezes; mas o vento que o lavou das sombras, lá lhe queimou algumas das flores desabotoadas ao calor do primeiro sol. A felicidade tinha um travo de desgosto e humilhação; o coração tremia de medo.

Quando mais absorta estava nesse contraste de sensações, viu Raymundo transpor a porta do jardim.




XVII

Yayá foi ter com Raymundo.

—Entregaste?

—Não entreguei, disse o preto.

Yayá ficou alguns instantes immovel. Raymundo tirou a carta do bolso, e esteve com ella nas mãos, sem atrever-se a levantar os olhos; levantou-os emfim e disse resolutamente:

—Raymundo não achou bonito que Yayá escrevesse áquelle homem, que não é seu pae nem seu noivo, e voltou para falar a nhanhã Estella.

—Dê cá, disse a moça seccamente; não é preciso.

Raymundo entregou-lhe a carta, e sacudiu a cabeça encanecida, como se quizera repellir os annos que sobre ella pesavam, e retroceder ao tempo em que Yayá era uma simples creança, travessa e nada mais. Tinha-lhe custado a resolução; tres vezes investira a porta de Procopio Dias para obedecer á filha do seu antigo senhor, e tres vezes recuara, até que venceu nelle o presentimento,—uma cousa que lhe martellava no coração, dizia elle dahi a pouco a Estella, quando lhe referiu tudo.

Estella não se deteve mais. Na carta, que escreveu a Jorge, disse que a enteada era apenas uma menina romanesca, desconfiada e curiosa; queria desfazer o casamento, porque suppunha não ser amada com egual ardor ao seu.—«Yayá adora-o, concluia Estella, e não se sente adorada. Venha prostrar-se ao pé do altar, e terá em mim a mais piedosa sacristã.»

Yayá teve noticia da carta, e já tarde para oppôr qualquer objecção. O primeiro impulso foi agradecer a pia fraude da madrasta; mas a alma, picada por um resto de ciume, depressa conteve o impulso, e a unica resposta da moça foi um gesto de acanhamento e um silencio largo. Ouviu-a depois sem azedume nem impaciencia, attenta á menor hesitação que lhe truncasse a palavra, ou á minima sombra de desgosto que lhe velasse os olhos. A verdade é que a ternura da madrasta e a jovialidade recente de seus modos traziam certa nota desusada e violenta, e esse excesso fazia reflectir a enteada.

Entretanto, a carta de Estella chegou ás mãos de Jorge, que a leu duas vezes para conseguir entender-lhe o sentido. A explicação tinha o defeito de ser um pouco subtil; mas a alma de Jorge conservava sempre uma porta aberta aos sentimentos extraordinarios. Demais, qualquer explicação favoravel era um beneficio, e aquella tinha a vantagem de affagar o amor-proprio, além de vir ajustada com o espirito inquieto e subito da noiva. Leu a carta sem cotejar o texto com a assignatura, sem attentar naquella sacristã em cujos hombros quizera outr'ora atar a veste sacerdotal.

Nessa mesma noite foi á casa da noiva, que o recebeu sem contentamento nem mortificação, um pouco laconica e meditativa. Nem um nem outro alludiu aos successos ultimos; fel-o Estella com muita pertinencia e tacto. Não obstante, como a explicação da viuva não correspondia exactamente á realidade das cousas, a situação ficou ainda obscura e vaga, e por ventura exagerou o acanhamento reciproco. A persuasão de que Yayá exigia da parte delle maior intensidade de sentimento, não inclinara o espirito de Jorge a nenhuma ostentasão theatral,—mas acabou por lhe infundir deveras maior ternura, e augmentou a vitalidade de um sentimento, que é a forma desinteressada do egoismo,—a felicidade de fazer outrem feliz.

—Marquemos o casamento para esta semana, disse Estella na noite de um domingo.

—Ainda não, respondeu a enteada.

Posto visse dissipada a tempestade que lhe negrejara sobre a cabeça, Yayá enxergava ainda para o lado poente um spectro, e para o lado do nascente uma possibilidade. Esses dous pontos negros vinham estragar a belleza azul do ceu e tornal-o pesado e melancholico. O mysterio do futuro unia-se ao mysterio do passado; um e outro podiam devorar o presente, e ella receiava ser esmagada entre ambos. A convivencia da familia atterrava-a. Que seria para ella o casamento, se tivesse de penetrar nelle com a perpetua ameaça deante dos olhos, uma antiga semente de amor, que a primara brisa da primavera podia fazer brotar e crescer de novo? Acreditava na isenção presente da madrasta, e na inteira cura do marido, mas o futuro? A belleza de Estella estava ainda longe do declinio, e a modestia de Yayá fazia-a persuadir de que, ainda no declinio, seria superior á sua.

Uma noite, entrou o Sr. Antunes e deu uma carta á filha, que a leu silenciosamente.

—Olha, disse ella apresentando a carta á enteada.

Yayá leu-a; eram duas paginas escriptas de alto abaixo, e por lettra desconhecida. Uma antiga condiscipula de Estella, residente no norte de S. Paulo, acceitava a proposta que esta lhe fizera, de ir dirigir-lhe o estabelecimento de educação que alli fundara desde alguns mezes.

—Bem vês que é necessario casar-te quanto antes, disse Estella logo que a enteada acabou a leitura.

Yayá sentiu os olhos humidos e atirou-se aos braços da madrasta. A effusão era sincera; havia alli affecto, reconhecimento e admiração. Mas, por isso mesmo que era sincera, deveria molestar a madrasta, se alguma cousa podesse já molestal-a. Estella sorriu,—um sorriso que queria dizer:—Bem sei que sou de mais. A lingua, porém, não proferiu uma palavra unica.

—Que quer dizer isso? perguntou o pae de Estella, que nada sabia da carta, e consequentemente nada entendia daquella expansão da moça.

Estella mostrou-lhe a carta. O pae não pode acabar de ler: a primeira pagina fizera-lhe comprehender tudo. Seus olhos iam do papel á filha e da filha ao papel, sem que a boca se atrevesse a formular nenhuma queixa ou censura.

—Não digo que me obedeças, murmurou elle; mas parece que podias consultar-me...

—Eu estava certa da sua approvação, respondeu Estella. Ou parece-lhe que fiz mal?

—Nunca fizeste bem em cousa nenhuma, disse tristemente o pae. E pegando-lhe nas mãos:—Tão moça! tão bonita!

O dia do casamento foi definitivamente marcado naquella noite. Como Estella declarasse que ella propria serviria de madrinha, Yayá procurou dissuadil-a cautelosamente; tambem ao noivo repugnou a intervenção espiritual da viuva. Mas Estella não se deu por entendida. O papel de acolyta, que a si mesma distribuira, tinha-o desempenhado com lealdade e dignidade. Quiz ir até o fim. Era o melhor modo de se mostrar isenta e superior. Jorge sentia-se vexado e transportado ao mesmo tempo, ao observar a simplicidade e o desvello que a viuva punha naquelle acto. Yayá sentia só admiração e gratidão. Tinha já certeza de que o passado era pouca cousa, e de que o futuro seria cousa nenhuma. O casamento ia separal-as, reconciliando-as.

Casados os dous, Estella preparou-se para seguir viagem, não obstante a resistencia do pae, que foi tenaz e habil. O pae ficaria. Estava já tão cançado para viagens longas! A differença do clima, a falta de relações, a necessidade de não abrir mão do emprego, eram motivos de grave peso para não arriscar-se a deixar o Rio.

—Ao menos, promettes vir ver-me de quando em quando? disse o Sr. Antunes sentindo tremer-lhe nos olhos uma lagrima sincera.

Estella respondeu que sim; depois pediu-lhe que acceitasse uma mezada. O pae recusou commovido.—Tu vales muito, exclamou elle. O tom com que preferiu estas palavras deu uma esperança á filha.

—O senhor pode valer ainda mais do que eu, disse ella.

Depois contou-lhe a paixão de Jorge e todo o episodio da Tijuca, causa originaria dos acontecimentos narrados neste livro; mostrou-lhe com calor, com eloquencia, que, recusando ceder á paixão de Jorge, sacrificara algumas vantagens ao seu proprio decoro; sacrificio tanto mais digno de respeito, quanto que ella amava naquelle tempo o filho de Valeria. Que pedia agora ao pae? Pouca e muita cousa; pedia que a acompanhasse, que cessasse a vida de dependencia e servilidade em que vivera até alli; era um modo de a respeitar e respeitar-se. O pae escutava-a attonito.

—Tu chegaste a amal-o! exclamou elle. Não aborrecias? Amaram-se? E só agora sei... Bem digo eu; tu és uma fera. Não tens, nunca tiveste pena de minha velhice... Elle é tão bom! tão digno! E se morresse por tua causa? não terias remorsos? não te havia doer o coração quando soubesses que um moço tão bem nascido, que gostava de ti... Sim, elle gostava muito de ti; e tu tambem... e só hoje!

Estella fechou os olhos para não ver o pae. Nem esse amparo lhe ficava na solidão. Comprehendeu que devia contar só comsigo, e encarou serenamente o futuro. Partiu; o pae despediu-se della com o desespero no coração,—e desta vez a dor era desinteressada e pura. Jorge consolou-o depressa. Não houve interrupção na convivencia, e o Sr. Antunes continuou a achar alli a mesma protecção e cordialidade. Se o casamento fora um attentado, elle os absolveu disso, e repartiu com ambos infinita solicitude. Outra vez comensal assiduo, tornou a ser o homem de confiança. Fóra dalli, as horas de lazer que lhe deixava o pouco trabalho, eram empregadas nas sessões do jury, nas galerias da camara dos deputados ou nos bancos do Carceller. Não tendo já a aspiração de uma alliança vantajosa, adoptou a devoção da loteria. Era elle quem dava, secretamente, noticias de Estella a Yayá.

Esta achou no casamento a felicidade sem contraste. A sociedade não lhe negou carinhos e respeitos. Se antes de casar, Yayá possuia o abecedario da elegancia, depressa aprendeu a prosodia e a syntaxe; affez-se a todos os requintes da urbanidade, com a presteza de um espirito sagaz e penetrante. Nenhuma nuvem do passado veiu sombrear a fronte de um ou de outro; ninguem se interpunha entre elles. Yayá escrevia algumas vezes a Estella, que lhe respondia regularmente, e no mais puro estylo de familia. De longe em longe a enteada presenteava a madrasta, que lhe retribuia logo na primeira occasião. Quanto a encontrarem-se, era difficil; Estella applicava todos os seus cuidados á nova occupação.

Procopio Dias viu a morte de todas as esperanças ultimas, com uma philosophia que não suppunha ter em si. Naturalmente padeceu alguns dias de despeito; mas o despeito acabou com o amor. Verdade é que o ambiciado casamento abriu nelle o desejo de não morrer solteiro; e, perdida uma opportunidade, tratou de haver outras á mão. Ultimamente voltou á religião do celibato. Duas ou tres vezes encontrou Yayá e o marido. A ultima foi n'um sarau. Jogou o voltarete com Jorge e acompanhou a mulher até á carruagem, não sem lançar um olhar furtivo ao estribo, onde Yayá pousou o pé, cançado de valsar.

No primeiro anniversario da morte de Luiz Garcia, Yayá foi com o marido ao cemiterio, afim de depositar na sepultura do pae uma corôa de saudades. Outra corôa havia sido alli posta, com uma fita em que se liam estas palavras:—Á meu marido. Yayá beijou com ardor a singela dedicatoria, como beijaria a madrasta se ella lhe apparecesse naquelle instante. Era sincera a piedade da viuva. Alguma cousa escapa ao naufragio das illusões.




FIN