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Yayá Garcia

Chapter 6: I
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About This Book

A narrativa acompanha Luiz Garcia, funcionário público solitário que vive em casa modesta com o criado Raymundo e a filha Lina (Yayá). Descreve sua rotina metódica e previsível, a relação afetuosa e paternal com a menina e a amizade tranquila com o velho servente, e revela sua melancolia interior e ceticismo adquirido. A prosa explora pequenos episódios domésticos e encontros que perturbam a monotonia, mostrando como afeição, memória e costumes moldam a vida privada. Estruturalmente, alterna descrição psicológica com cenas corriqueiras que vão construindo um retrato íntimo e contido do cotidiano.

The Project Gutenberg eBook of Yayá Garcia

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Title: Yayá Garcia

Author: Machado de Assis

Release date: April 5, 2022 [eBook #67780]
Most recently updated: October 18, 2024

Language: Portuguese

Original publication: Brazil: Livraria Garnier, 1919

Credits: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK YAYÁ GARCIA ***

COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES
DA
LITTERATURA BRASILEIRA


YAYÁ GARCIA


POR

MACHADO DE ASSIS


NOVA EDIÇÃO


LIVRARIA GARNIER

109, RUA DO OUVIDOR, 109—6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
RIO DE JANEIRO—PARIS
1919




INDICE

CAPITULO I
CAPITULO II
CAPITULO III
CAPITULO IV
CAPITULO V
CAPITULO VI
CAPITULO VII
CAPITULO VIII
CAPITULO IX
CAPITULO X
CAPITULO XI
CAPITULO XII
CAPITULO XIII
CAPITULO XIV
CAPITULO XV
CAPITULO XVI
CAPITULO XVII




YAYÁ GARCIA




I

Luiz Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando appareceu um creado e lhe entregou esta carta:

«5 de Outubro de 1866.

«Sr. Luiz Garcia—Peço-lhe o favor de vir falar-me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso de seus conselhos, e talvez de seus obsequios.—VALERIA.»

—Diga que irei. A senhora está cá no morro?

—Não, senhor, está na rua dos Invalidos.

Luiz Garcia era funccionario publico. Desde 1860 elegera no logar menos povoado de Santa Thereza uma habitação modesta, onde se metteu a si e a sua viuvez. Não era frade, mas queria como elles a solidão e o socego. A solidão não era absoluta, nem o socego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que cá embaixo. Os frades que, na puericia da cidade, se tinham alojado nas outras collinas, desciam muita vez,—ou quando o exigia o sacro ministerio, ou quando o governo precisava da espada canonica,—e as occasiões não eram raras; mas geralmente em derredor de suas casas não ia soar a voz da labutação civil. Luiz Garcia podia dizer a mesma cousa; e, porque nenhuma vocação apostolica o incitava a abrir a outros a porta de seu refugio, podia dizer-se que fundara um convento em que elle era quasi toda a communidade, desde prior até noviço.

No momento em que começa esta narrativa, tinha Luiz Garcia quarenta e um annos. Era alto e magro, um começo de calva, barba rapada, ar circumspecto. Suas maneiras eram frias, modestas e cortezes; a physionomia um pouco triste. Um observador attento podia adivinhar por traz daquella impassibilidade apparente ou contrahida as minas de um coração desenganado. Assim era; a experiencia, que foi precoce, produzira em Luiz Garcia um estado de apathia e scepticismo, com seus laivos de desdem. O desdem não se revelava por nenhuma expressão exterior; era a ruga sardonica do coração. Por fora, havia só a mascara immovel, o gesto lento e as attitudes tranquillas. Alguns poderiam temel-o, outros detestal-o, sem que merecesse execração nem temor. Era inoffensivo por temperamento e por calculo. Como um celebre ecclesiastico, tinha para si que uma onça de paz vale mais que uma libra de victoria. Poucos lhe queriam deveras, e esses empregavam mal a affeição, que elle não retribuia com affeição egual, salvo duas excepções. Nem por isso era menos amigo de obsequiar. Luiz Garcia amava a especie e aborrecia o individuo. Quem recorria a seu prestimo, era raro que hão obtivesse favor. Obsequiava sem zelo, mas com efficacia, e tinha a particularidade de esquecer o beneficio, antes que o beneficiado o esquecesse.

A vida de Luiz Garcia era como a pessoa delle,—taciturna e retrahida. Não fazia nem recebia visitas. A casa era de poucos amigos; havia lá dentro a melancolia da solidão. Um só logar podia chamar-se alegre; eram as poucas braças de quintal que Luiz Garcia percorria e regava todas as manhãs. Erguia-se com o sol, tomava do regador, dava de beber ás flores e á hortaliça; depois recolhia-se e ia trabalhar antes do almoço, que era ás oito horas. Almoçado, descia a passo lento até á repartição, onde, se tinha algum tempo, folheava rapidamente as gazetas do dia. Trabalhava silenciosamente, com a fria serenidade do methodo. Fechado o expediente, voltava logo para casa, detendo-se raras vezes em caminho. Ao chegar a casa, já o preto Raymundo lhe havia preparado a mesa,—uma mesa de quatro a cinco palmos,—sobre a qual punha o jantar, parco em numero, mediocre na especie, mas farto e saboroso para um estomago sem aspirações nem saudades. Ia d'alli ver as plantas e reler algum tomo truncado, até que a noite caía. Então, sentava-se a trabalhar até ás nove horas, que era a hora do chá.

Não sómente o teor da vida tinha essa uniformidade, mas tambem a casa participava della. Cada movel, cada objecto,—ainda os infimos,—parecia haver-se petrificado. A cortina, que usualmente era corrida a certa hora, como que se enfadava se lhe não deixavam passar o ar e a luz, á hora costumada; abriam se as mesmas janellas e nunca outras. A regularidade era o estatuto commum. E se o homem amoldara as cousas a seu geito, não admira que amoldasse tambem o homem. Raymundo parecia feito expressamente para servir Luiz Garcia. Era um preto de cincoenta annos, estatura mediana, forte, apezar de seus largos dias, um typo de africano, submisso e dedicado. Era escravo e livre. Quando Luiz Garcia o herdou de seu pae,—não avultou mais o espolio,—deu-lhe logo carta de liberdade. Raymundo, nove annos mais velho que o senhor, carregara-o ao collo, e amava-o como se fora seu filho. Vendo-se livre, pareceu-lhe que era um modo de o expellir de casa, e sentiu um impulso atrevido e generoso. Fez um gesto para rasgar a carta de alforria, mas arrependeu-se a tempo. Luiz Garcia viu só a generosidade, não o atrevimento; palpou o affecto do escravo, sentiu-lhe o coração todo. Entre um e outro houve um pacto que para sempre os uniu.

—És livre, disse Luiz Garcia; viverás commigo até quando quizeres.

Raymundo foi dalli em diante um como espirito externo de seu senhor; pensava por este e reflectia-lhe o pensamento interior, em todas as suas acções, não menos silenciosas que pontuaes. Luiz Garcia não dava ordem nenhuma; tinha tudo á hora e no logar competente. Raymundo, posto fosse o unico servidor da casa, sobrava-lhe tempo, á tarde, para conversar com o antigo senhor, no jardinete, emquanto a noite vinha caindo. Alli falavam de seu pequeno mundo, das raras occurrencias domesticas, do tempo que devia fazer no dia seguinte, de uma ou outra circumstancia exterior. Quando a noite caía de todo, e a cidade abria os seus olhos de gaz, recolhiam-se elles a casa, a passo lento, á ilharga um do outro.

—Raymundo hoje vae tocar, não é? dizia ás vezes o preto.

—Quando quizeres, meu velho.

Raymundo accendia as velas, ia buscar a marimba, caminhava para o jardim, onde se sentava a tocar e a cantarolar baixinho umas vozes de Africa, memorias desmaiadas da tribu em que nascera. O canto do preto não era de saudade; nenhuma de suas cantilenas vinha afinada na clave pezarosa. Alegres eram, guerreiras, enthusiastas; por fim calava-se. O pensamento, em vez de volver ao berço africano, galgava a janella da sala em que Luiz Garcia trabalhava e pousava sobre elle como um feitiço protector. Quaesquer que fossem as differenças civis e naturaes entre os dous, as relações domesticas os tinham feito amigos.

Entretanto, das duas affeições de Luiz Garcia, Raymundo era apenas a segunda; a primeira era uma filha.

Se o jardim era a parte mais alegre da casa, o domingo era o dia mais festivo da semana. No sabbado, á tarde, acabado o jantar, descia Raymundo até á rua dos Arcos, a buscar a sinhá-moça, que estava sendo educada em um collegio. Luiz Garcia esperava por elles, sentado á porta ou encostado á janella, quando não era escondido em algum recanto da casa para fazer rir a pequena. Se a menina o não via á janella ou á porta, percebia que se escondera e corria a casa, onde não era difficil dar com elle, porque os recantos eram poucos. Então caíam nos braços um do outro. Luiz Garcia pegava della e sentava-a nos joelhos. Depois, beijava-a, tirava-lhe o chapellinho, que cobria os cabellos acastanhados e lhe tapava parte da testa rosada e fina; beijava-a outra vez, mas então nos cabellos e nos olhos,—os olhos, que eram claros e filtravam uma luz insinuante e curiosa.

Contava onze annos e chamava-se Lina. O nome domestico era Yayá. No collegio, como as outras meninas lhe chamassem assim, e houvesse mais de uma com egual nome, accrescentavam-lhe o appellido de familia. Esta era Yayá Garcia. Era alta, delgada, travessa; possuia os movimentos subitos e incoherentes da andorinha. A boca desabrochava facilmente em riso,—um riso que ainda não toldavam as dissimulações da vida, nem ensurdeciam as ironias de outra edade. Longos e muitos eram os beijos trocados com o pae. Luiz Garcia punha-a no chão, tornava a subil-a aos joelhos, até que consentia finalmente em separar-se della por alguns instantes. Yayá ia ter com o preto.

—Raymundo, o que é que você me guardou?

—Guardei uma cousa, respondia elle sorrindo. Yayá não é capaz de adivinhar o que é.

—É uma fructa.

—Não é.

—Um passarinho?

—Não adivinhou.

—Um doce?

—Que doce é?

—Não sei; dá cá o doce.

Raymundo negaceava ainda um pouco; mas afinal entregava a lembrança guardada. Era ás vezes um confeito, outras uma fructa, um insecto exquisito, um molho de flores. Yayá festejava a lembrança do escravo, dando saltos de alegria e de agradecimento. Raymundo olhava para ella, bebendo a felicidade que se lhe entornava dos olhos, como um jôrro de agua pura. Quando o presente era uma fructa ou um doce, a menina trincava-o logo, a olhar e a rir para o preto, a gesticular, e a interromper-se de quando em quando:

—Muito bom! Raymundo é amigo de Yayá... Viva Raymundo!

E seguia d'alli a mudar de roupa, e a visitar o resto da casa e o jardim. No jardim achava o pae já sentado no banco do costume, com uma das pernas sobre a outra, e as mãos cruzadas sobre o joelho. Ia ter com elle, sentava-se, erguia-se, colhia uma flor, corria atraz dos insectos. De noite, não havia trabalho para Luiz Garcia; a noite, como o dia seguinte, era toda consagrada á creança. Yayá referia ao pae as anedoctas do collegio, as puerilidades que não valem mais nem menos que outras da edade madura, as intriguinhas de nada, as pirraças de cousa nenhuma. Luiz Garcia escutava-a com egual attenção á que prestaria a uma grande narrativa historica. Seu magro rosto austero perdia a frieza e a indifferença; inclinado sobre a mesa, com os braços estendidos, as mãos da filha nas suas, considerava-se o mais venturoso dos homens. A narrativa da pequena era como costumam ser as da edade infantil: desegual e truncada, mas cheia de um colorido seu. Elle ouvia-a sem interromper; corrigia, sim, algum erro de prosodia ou alguma reflexão menos justa; fóra disso, ouvia sómente.

Pouco depois da madrugada todos tres estavam de pé. O sol de Santa Thereza era o mesmo da rua dos Arcos; Yayá, porém, achava-lhe alguma cousa mais ou melhor, quando o via entrar pela alcova dentro, atravez das persianas. Ia á janella que dava para uma parte do jardim. Via o pae bebendo a chicara de café, que aos domingos precedia o almoço. Ás vezes ia ter com elle; outras vezes elle caminhava para a janella, e, com o peitoril de permeio, trocavam os osculos da saudação. Durante o dia, Yayá derramava pela casa todas as sobras de vida, que tinha em si. O rosto de Luiz Garcia accendia-se de um reflexo de juventude, que lhe dissipava as sombras accumuladas pelo tempo. Raymundo vivia da alegria dos dous. Era domingo para todos tres, e tanto o senhor como o antigo escravo não ficavam menos collegiaes que a menina.

—Raymundo, dizia esta, você gosta de santo de comer?

Raymundo empertigava o corpo, abria um riso, e dando aos quadris e ao tronco o movimento de suas danças africanas, respondia cantarolando:

—Bonito santo! santo gostoso!

—E santo de trabalhar?

Raymundo, que já esperava o reverso, estacava subitamente, punha a cabeça entre as mãos, e affastava-se murmurando com terror:

—Eh... eh... não fala nesse santo, Yayá! não fala nesse santo!

—E santo de comer?

—Bonito santo! santo gostoso!

E o preto repetia o primeiro jogo, depois o segundo, até que Yayá, aborrecida, passava a outra cousa.

Não havia só recreio. Uma parte minima do dia,—pouco mais de uma hora,—era consagrada ao exame do que Yayá aprendera no collegio, durante os dias anteriores. Luiz Garcia interrogava-a, fazia-a ler, contar e desenhar alguma cousa. A docilidade da menina encantava a alma do pae. Nenhum receio, nenhuma hesitação; respondia, lia ou desenhava, conforme lhe era mandado ou pedido.

—Papae quer ouvir tocar piano? disse ella um dia; olhe, é assim.

E com os dedos na borda da mesa, executava um trecho musical, sobre teclas ausentes. Luiz Garcia sorriu, mas um veu lhe empanou os olhos. Yayá não tinha piano! Era preciso dar-lhe um, ainda com sacrificio. Se ella aprendia no collegio, não era para tocar mais tarde em casa? Este pensamento enraizou-se-lhe no cerebro e turbou o resto do dia. No dia seguinte, Luiz Garcia encheu-se de valor, pegou da caderneta da Caixa Economica e foi retirar o dinheiro preciso para comprar um piano. Eram da filha as poucas economias que ajuntava; o piano era para ella egualmente; não lhe diminuia a herança.

Quando no seguinte sabbado, Yayá viu o piano, que o pae lhe foi mostrar, sua alegria foi intensa, mas curta. O pae abrira-o, ella accordou as notas adormecidas no vasto movel, com suas mãosinhas ainda incertas e debeis. A um dos lados do instrumento, com os olhos nella, Luiz Garcia pagava-se do sacrificio, contemplando a satisfação da filha. Curta foi ella. Entre duas notas, Yayá parou, olhou para o pae, para o piano, para os outros moveis; depois descaiu-lhe o rosto, disse que tinha uma vertigem. Luiz Garcia ficou assustado, pegou della, chamou Raymundo; a creança affirmou que estava melhor, e finalmente que a vertigem passara de todo. Luiz Garcia respirou; os olhos de Yayá não ficaram mais alegres, nem ella foi tão travessa como costumava ser.

A causa da mudança, desconhecida para Luiz Garcia, era a penetração que madrugava no espirito da menina. Lembrara-se ella, repentinamente, das palavras que proferira e do gesto que fizera, no domingo anterior; por ellas explicou a existencia do piano; comparou-o, tão novo e lustroso, com os outros moveis da casa, modestos, usados, encardida a palhinha das cadeiras, roido do tempo e dos pés um velho tapete, contemporaneo do sophá. Dessa comparação extrahiu a ideia do sacrificio que o pae devia ter feito para condescender com ella; ideia que a poz triste, ainda que não por muito tempo, como succede ás tristezas pueris. A penetração madrugava, mas a dor moral fazia tambem irrupção naquella alma até agora isenta da jurisdicção da fortuna.

Passou! Bem depressa os sons do piano vieram casar-se ao gorgeio de Yayá e ao riso do escravo e do senhor. Era mais uma festa aos domingos. Yayá confiou um dia ao pae a ideia que tinha de ser mestra de piano. Luiz Garcia sorria a esses planos da meninice, tão frageis e fugidios como suas impressões. Tambem elle os tivera aos dez annos. Que lhe ficara dessas primeiras ambições? Um residuo e nada mais. Mas assim como as aspirações daquelle tempo o fizeram feliz, era justo não dissuadir a filha de uma ambição, aliás innocente e modesta. Oxalá não viesse a ter outras de mais alto vôo! Demais, que lhe poderia elle desejar, senão aquillo que a tornasse independente e lhe désse os meios de viver sem favor? Yayá tinha por si a belleza e a instrucção; podia não ser bastante para lhe dar casamento e familia. Uma profissão honesta aparava os golpes possiveis da adversidade. Não se podia dizer que Yayá tivesse talento musical: que importa? Para ensinar a grammatica da arte, era sufficiente conhecel-a.

Resta dizer que havia ainda uma terceira affeição de Yayá; era Maria das Dores, a ama que a havia creado, uma pobre catharinense, para quem só havia duas devoções capazes de levar uma alma ao ceu: Nossa Senhora e a filha de Luiz Garcia. Ia ella de quando em quando á casa deste, nos dias em que era certo encontrar lá a menina, e ia de S. Christovão, onde morava. Não descançou em quanto não alugou um casebre em Santa Thereza, para ficar mais perto da filha de creação. Um irmão, antigo forriel, que fizera a campanha contra Rosas, era seu companheiro de trabalho.

Tal era a vida uniforme e placida de Luiz Garcia. Nenhuma ambição, cobiça ou peleja vinha toldar-lhe a serenidade da alma. A ultima dor séria que tivera foi a morte da esposa, occorrida em 1859, mezes antes de ir-se elle esconder em Santa Thereza. O tempo, esse chimico invisivel, que dissolve, compõe, extrahe e transforma todas as substancias moraes, acabou por matar no coração do viuvo, não a lembrança da mulher, mas a dor de a haver perdido. Importa dizer que as lagrimas derramadas nessa occasião honraram a esposa morta, por serem conquista sua. Luiz Garcia não casára por amor nem interesse; casara porque era amado. Foi um movimento generoso. A mulher não era de sua mesma indole; seus espiritos vinham de pontos differentes do horizonte. Mas a dedicação e o amor da esposa abriram nelle a fonte da estima. Quando ella morreu, viu Luiz Garcia que perdera um coração desinteressado e puro; consolou-o a esperança de que a filha havia herdado uma parcella delle.

Assim vivia esse homem sceptico, austero e bom, alheio ás cousas extranhas, quando a carta de 5 de Outubro de 1866 veiu chamal-o ao drama que este livro pretende narrar.




II

A hora aprazada era incommoda para Luiz Garcia, cujos habitos de trabalho mal soffriam interrupção. Não obstante, foi á rua dos Invalidos.

Valeria Gomes era viuva de um desembargador honorario, fallecido cêrca de dous annos antes, a quem o pae de Luiz Garcia devera alguns obsequios e a quem este prestara outros. Não havia entre ella e Luiz Garcia relações assiduas ou estreitas; mas a viuva e seu finado marido sempre o tiveram em boa conta e o tratavam com muito carinho. Defunto o desembargador, Valeria recorrera duas ou tres vezes aos serviços de Luiz Garcia; com tudo, era a primeira vez que o fazia com tamanha solemnidade.

Valeria recebeu-o affectuosamente, estendendo-lhe a mão, ainda fresca, apezar dos annos, que subiam de quarenta e oito. Era alta e robusta. A cabeça, forte e levantada, parecia protestar pela altivez da attitude contra a molleza e tristura dos olhos. Estes eram negros, a sobrancelha basta, o cabello abundante, listrado de alguns fios de prata. Posto não andasse alegre nos ultimos tempos, estava naquelle dia singularmente preoccupada. Logo que entraram na sala, deixou-se cair n'uma poltrona; caiu e ficou silenciosa alguns instantes. Luiz Garcia sentou-se tranquillamente na cadeira que ella lhe designou.

—Sr. Luiz Garcia, disse a viuva; esta guerra do Paraguay é longa, e ninguem sabe quando acabará. Vieram noticias hoje?

—Não me consta.

—As de hontem não me animaram nada, continuou a viuva depois de um instante. Não creio na paz que o Lopez veiu propor. Tenho medo que isto acabe mal.

—Póde ser, mas não dependendo de nós...

—Porque não? Eu creio que é chegado o momento de fazerem todas as mães um grande esforço e darem exemplos de valor, que não serão perdidos. Pela minha parte trabalho com o meu Jorge para que vá alistar-se como voluntario; podemos arranjar-lhe um posto de alferes ou tenente; voltará major ou coronel. Elle, entretanto, resiste até hoje; não é falta de coragem nem de patriotismo; sei que tem sentimentos generosos. Comtudo, resiste...

—Que razão dá elle?

—Diz que não quer separar-se de mim.

—A razão é boa.

—Sim, porque tambem a mim custaria a separação. Mas não se trata do que eu ou elle podemos sentir: trata-se de cousa mais grave,—da patria, que está acima de nós.

Valeria proferiu estas palavras com certa animação, que a Luiz Garcia pareceu mais simulada que sincera. Não acreditou no motivo publico. O interesse que a viuva mostrava agora em relação á sorte da campanha era totalmente novo para elle. Excluido o motivo publico, algum haveria que ella não quizera ou não podia revellar. Justificaria elle semelhante resolução? Não se atreveu a formular a suspeita e a duvida; limitou-se a dissuadil-a, dizendo que um homem de mais ou de menos não pesaria nada na balança do destino, e desde que ao filho repugnava a separação era mais prudente não insistir. Valeria redarguia a todas essas reflexões com algumas ideias geraes acerca da necessidade de dar fortes exemplos ás mães. Quando foi preciso variar de resposta, declarou que entrava no projecto um pouco de interesse pessoal.

—Jorge está formado, disse ella; mas não tem quéda para a profissão de advogado nem para a de juiz. Goza por em quanto a vida; mas os dias passam, e a ociosidade faz-se natureza com o tempo. Eu quizera dar-lhe um nome illustre. Se fôr para a guerra, poderá voltar coronel, tomar gôsto ás armas, seguil-as e honrar assim o nome de seu pae.

—Bem; mas vejamos outra consideração. Se elle morrer?

Valeria empallideceu e esteve alguns minutos calada, emquanto Luiz Garcia olhava para ella, a ver se lhe adivinhava o trabalho interior da reflexão, esquecendo que a ideia de um desastre possivel devia ter-lhe accudido, desde muito, e se não recuara deante della, é porque a resolução era inabalavel.

—Pensei na morte, disse Valeria dahi a pouco; e, na verdade, antes a obscuridade de meu filho que um desastre... mas repelli essa ideia. A consideração superior de que lhe falei deve vencer qualquer outra.

Em seguida, como para impedir que elle insistisse nas reflexões apresentadas antes, disse-lhe claramente que, deante da recusa de Jorge, contava com o influxo de seus conselhos.

—O senhor é nosso amigo, explicou ella; seu pae tambem foi nosso amigo. Sabe que um e outro sempre nos mereceram muita consideração. Em todo caso, não quizera recorrer a outra pessoa.

Luiz Garcia não respondeu logo; não tinha animo de acceitar a incumbencia e não queria abertamente recusar; procurava um meio de esquivar-se á resposta. Valeria insistiu por modo que era impossivel calar mais tempo.

—O que me pede é muito grave, disse elle; se o Dr. Jorge der algum peso a meus conselhos e seguir para a guerra, assumo uma porção de responsabilidade, que não só me ha-de gravar a consciencia, como influirá para alterar nossas relações e diminuir talvez a amizade benevola que sempre achei nesta casa. O obsequio que hoje exige de mim, quem sabe se m'o não lançará em rosto um dia como acto de leviandade?

—Nunca.

—Nesse dia, observou Luiz Garcia sorrindo levemente, ha-de ser tão sincera como hoje.

—Oh! o senhor está com ideias negras! Eu não creio na morte; creio só na vida e na gloria. A guerra começou ha pouco e ha já tanto heroe! Meu filho será um delles.

—Não creio em presentimentos.

—Recusa?

—Não me atrevo a acceitar.

Valeria ficou abatida com a resposta. Após alguns minutos de silencio, ergueu-se e foi buscar o lenço que deixara sobre um movel, ao entrar na sala. Enxugou o rosto, e ficou a olhar para o chão, com um dos braços cahidos, em attitude meditativa. Luiz Garcia começou a reflectir no modo de a dissuadir efficazmente. Seu scepticismo não o fazia duro aos males alheios, e Valeria parecia padecer naquelle instante, qualquer que fosse a sinceridade de suas declarações. Elle quizera achar um meio de conciliar os desejos da viuva com a sua propria neutralidade,—o que era puramente difficil.

—Seu filho não é creança, disse elle; está com vinte e quatro annos; pode decidir por si, e naturalmente não me dirá outra cousa... Demais, é duvidoso que se deixe levar por minhas suggestões, depois de resistir aos desejos de sua mãe.

—Elle respeita-o muito.

Respeitar não era o verbo pertinente; attender fora mais cabido, porque exprimia a verdadeira natureza das relações entre um e outro. Mas a viuva lançava mão de todos os recursos para obter de Luiz Garcia que a ajudasse em persuadir o filho. Como elle lhe dissesse ainda uma vez que não podia acceitar a incumbencia, viu-a morder o labio e fazer um gesto de despeito. Luiz Garcia adoptou então um meio termo:

—Prometto-lhe uma cousa, disse elle; irei sondal-o, discutir com elle os prós e os contras do seu projecto, e se o achar mais inclinado...

Valeria abanou a cabeça.

—Não faça isso; desde já lhe digo que será tempo perdido. Jorge ha-de repetir-lhe as mesmas razões que me deu, e o senhor as acceitará naturalmente. Se alguma cousa lhe mereço, se não morreu em seu coração a amizade que o ligou a nossa familia, peço-lhe que me ajude francamente neste empenho, com a autoridade de sua pessoa. Entre nisto, como eu mesma, disposto a vencel-o e convencel-o. Faz-me este obsequio?

Luiz Garcia reflectiu um instante.

—Faço, disse elle frouxamente.

Valeria mostrou-se reanimada com a resposta; disse-lhe que fosse lá jantar naquelle mesmo dia ou no outro. Elle recusou duas vezes; mas não pode resistir ás instancias da viuva, e prometteu ir no dia seguinte. A promessa era um meio, não só de pôr termo á insistencia da viuva, mas tambem de encaminhar-se a saber qual era a mola secreta da acção daquella senhora. A honra nacional era certamente o colorido nobre e augusto de algum pensamento reservado e menos collectivo. Luiz Garcia abriu velas á reflexão e conjecturou muito. Afinal não duvidava do empenho patriotico de Valeria, mas perguntava a si mesmo se ella quereria colher da acção que ia praticar alguma vantagem especialmente sua.

—O coração humano é a região do inesperado, dizia comsigo o sceptico subindo as escadas da repartição.

Na repartição soube da chegada de tristes noticias do Paraguay. Os alliados tinham atacado Curupaity e recuado com grandes perdas: o inimigo parecia mais forte do que nunca. Suppunha-se até que as propostas de paz não tinham sido mais do que um engodo para fortalecer a defesa. Assim, a sorte das armas vinha reforçar os argumentos de Valeria. Luiz Garcia adivinhou tudo o que ella lhe diria no dia seguinte.

No dia seguinte foi elle jantar á rua dos Invalidos. Achou a viuva menos consternada do que deveria estar, á vista das noticias da vespera, se por ventura os successos da guerra a preoccupassem tanto como dizia. Pareceu-lhe até mais serena. Ella ia e vinha com um ar satisfeito e resoluto. Tinha um sorriso para cada cousa que ouvia, um carinho, uma familiaridade, uma intenção de agradar e seduzir, que Luiz Garcia estudava com os olhos agudos da suspeita.

Jorge, pelo contrario, mostrava-se retrahido e mudo. Luiz Garcia, á mesa do jantar, examinava-lhe a furto a expressão dos olhos tristes e a ruga desenhada entre as sobrancelhas, gesto que indicava nelle o despeito e a irritação. Na verdade, era duro enviar para a guerra um dos mais bellos ornamentos da paz. Naquelles olhos não morava habitualmente a tristeza; elles eram, de costume, brandos e pacificos. Um bigode negro e basto, obra commum da natureza e do cabelleireiro, cobria-lhe o labio e dava ao rosto a expressão viril que este não tinha. A estatura esbelta e nobre era a unica feição que absolutamente podia ser militar. Elegante, occupava Jorge um dos primeiros logares entre os dandies da rua do Ouvidor; alli podia ter nascido, alli poderia talvez morrer.

Valeria acertava quando dizia não achar no filho nenhum amor á profissão de advogado. Jorge sabia muita cousa do que aprendera; tinha intelligencia prompta, rapida comprehensão e memoria vivissima. Não era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma intelligencia theorica; para elle, o praxista representava o barbaro. Possuindo muitos bens, que lhe davam para viver á farta, empregava uma particula do tempo em advogar o menos que podia—apenas o bastante para ter o nome no portal do escriptorio e no almanack de Laemmert. Nenhuma experiencia contrastava nelle os impetos da juventude e os arroubos da imaginação. A imaginação era o seu lado fraco, por que não a tinha creadora e limpida, mas vaga, tumultuosa e esteril. Era generoso e bom, mas padecia um pouco de fatuidade, que lhe diminuia a bondade nativa. Havia alli a massa de um homem futuro, á espera que os annos, cuja acção é lenta, opportuna e inevitavel, lhe dessem fixidez ao caracter e virilidade á razão.

Não foi alegre nem animado o jantar. Falaram a principio de cousas indifferentes; depois Valeria fez recahir a conversação nas ultimas noticias do Paraguay. Luiz Garcia declarou que lhe não pareciam tão más, como diziam as gazetas, sem comtudo negar que se tratava de um serio revez.

—É guerra para seis mezes, concluiu elle.

—Só?

Esta pergunta foi a primeira palavra de Jorge, que até então não fizera mais do que ouvir e comer. Valeria tomou a outra ponta do dialogo, e confirmou a opinião de Luiz Garcia. Mas o filho continuou a não intervir. Acabado o jantar, Valeria ergueu-se; Luiz Garcia fez o mesmo; a viuva, pousando-lhe a mão no hombro, disse em tom familiar e intencional:

—Sem ceremonia; eu volto já.

Uma vez sós os dous homens, Luiz Garcia achou de bom aviso ir de ponto em branco ao assumpto que alli os reuníra.

—Não tem vontade de ir tambem ao Paraguay? perguntou elle logo que Valeria desappareceu no corredor.

—Nenhuma. Comtudo, acabarei por ahi.

—Sim?

—Mamãe não deseja outra cousa, e o senhor mesmo sei que é dessa opinião.

Uma resposta negativa roçou os labios de Luiz Garcia; a tempo a reprimiu, confirmando com o silencio a pia fraude de Valeria. Tinha nas mãos o meio de inutilisar o effeito do equivoco: era mostrar-se indifferente. Jorge distraía-se em equilibrar um palito na borda de um calix; o interlocutor, depois de olhar para elle, rompeu emfim a larga pausa:

—Mas porque motivo cede hoje, depois de recusar tanto tempo?

Jorge ergueu os olhos, fez-lhe um signal e foram para o terraço.

—O senhor é amigo velho de nossa casa, disse elle; posso confiar-lhe tudo. Mamãe quer mandar-me para a guerra, porque não póde impedir os movimentos do meu coração.

—Algum namoro, concluiu friamente Luiz Garcia.

—Uma paixão.

—Está certo do que diz?

—Estou.

—Não creio, tornou Luiz Garcia depois de um instante.

—Porque não? Ella conta com a distancia e o tempo, para matar um amor que suppõe não haver creado raizes profundas.

Luiz Garcia dera alguns passos, acompanhado pelo filho de Valeria; parou um instante, depois continuaram ambos a passear de um para outro lado. O primeiro reflectia na explicação, que lhe pareceu verosimil, se o amor do rapaz era indigno de seu nome. Essa pergunta não se animou a fazel-a; mas procurou uma vereda tortuosa para ir dar com ella.

—Uma viagem á Europa, observou Luiz Garcia depois de curto silencio, produziria o mesmo resultado, sem outro risco mais que...

—Recusei a viagem; foi então que ella pensou na guerra.

—Mas se ella quizesse ir á Europa, o senhor recusaria acompanhal-a?

—Não; mas mamãe detesta o mar; não viajaria nunca. É possivel que, se eu resistisse até á ultima, em relação á guerra, ella vencesse a repugnancia ao mar e iriamos os dous...

—E porque não resistiu?

—Primeiramente, porque estava cançado de recusar. Ha mez e meio que dura esta luta entre nós. Hoje, á vista das noticias do sul, falou-me com tal instancia que cedi de uma vez. A segunda razão foi um sentimento mau—mas justificavel. Escolho a guerra, afim de que se alguma cousa me acontecer, ella sinta o remorso de me haver perdido.

Luiz Garcia parou e encarou silenciosamente o mancebo.

—Sei o que quer dizer esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu sou apenas natural. O sentimento mau teve só um minuto de duração. Passou. Ficou-me uma sombra de remorso. Não accuso mamãe; sei as lagrimas que lhe vae custar a separação...

—Ainda é tempo de recuar.

—O que está feito, está feito, disse Jorge erguendo os hombros.

—Sabe que mais? Acho mau gosto dar a este negocio um desenlace epico. Que tem que fazer nisto a guerra do Paraguay? Vou suggerir-lhe um meio de arranjaras cousas. Ceda metade sómente; vá á Europa sósinho, volte no fim de dous ou tres annos...

Jorge sorriu desdenhosamente.

—Seu conselho mostra a differença de nossas edades, disse elle. Se eu fosse para a Europa, que sacrificio faria á pessoa a quem amo? Pelo contrario, a sacrificada era ella. Eu ia divertir-me, passear, ver cousas novas, talvez achar novos amores. Indo á guerra, é differente; sacrifico o repouso e arrisco a vida; é alguma cousa. Separados, embora, não me negará sua estima...

—Sua estima? disse Luiz Garcia admirado.

Não continuou; mas Jorge comprehendeu, por aquella só palavra, a que classe de mulheres elle suppunha pertencer a eleita de seu coração. Fez um gesto; não se animou a dizer nada. Arrependeu-se talvez de haver dito tanto. Sem ousar recommendar-lhe silencio, começou a insinual-o delicadamente; tactica escusada, porque Luiz Garcia não era homem de revelar o que se lhe confiava; e perigosa, porque fazia crescer as proporções do mysterio. Luiz Garcia sorriu interiormente ao sentir a arte cautelosa de Jorge; e quando ella lhe pareceu enfadonha:

—Descance, disse elle; não receie que eu vá publicar seus amores. Repito-lhe o conselho: não se atire de cabeça para baixo n'uma aventura sem fundo. Ir para a guerra é muito nobre, mas hade ser levado de outros sentimentos. Um desaccordo por motivo de namoro, não é o Porto Alegre nem o Polydoro, é um padre que lhe deve pôr termo.

Jorge sorriu com ar affavel, e despediu-se de Luiz Garcia; foi dalli vestir-se para ir ao theatro. Luiz Garcia estava mais do que nunca resoluto a deixar que os acontecimentos tivessem livre curso, sem nenhuma intervenção sua. Logo que Jorge saiu, dispoz-se a fazer o mesmo, despedindo-se de Valeria. Esta acompanhou-o ate á porta da sala.

—Não me diz nada? perguntou ella quando o viu prestes a transpor a porta.

—Que lhe hei-de dizer?

—Falou a meu filho?

—Falei.

—Achou-o disposto?

—Não digo que não.

—Mas de má vontade?

—Não digo que sim.

Valeria sorriu com uma ponta de despeito.

—Vejo que este assumpto o aborrece.

Luiz Garcia disse que não. Valeria encostou-se ao portal.

—Ninguem! exclamou ella. Não tenho ninguem a meu lado. Só; ficarei só.

—Sejamos francos, disse Luiz Garcia; seu filho cede, mas cede violentado, e não vejo que se possa fazer delle um heroe. Que motivo tão forte a obriga a exigir desse moço um sacrificio superior a suas posses?

Valeria não respondeu.

—Sei o motivo, disse elle d'ahi a um instante.

—Sabe?

—Suspeito; e se me permitte ser franco, direi que o acho singular, pelo menos não ha proporções entre a causa e o effeito. Seu filho ama. Trata-se de uma mulher de certa especie? São correrias da mocidade, e as delle não são taes que façam escandalo, creio eu. Trata-se de alguma moça, cuja alliança lhe não pareça acceitavel? Nada lhe direi a tal respeito; mas reflicta primeiro antes de o mandar ao Paraguay.

Valeria prendeu a mão direita de Luiz Garcia entre as suas; reflectiu longo tempo; depois disse com voz sumida:

Supponha... que se trata... de uma senhora casada?

Luiz Garcia curvou a cabeça com um gesto de assentimento. Como seus olhos baixassem ao chão não pode ver no rosto da viuva uma ligeira cor que avermelhou e desappareceu. Se lh'a visse, se a fitasse imperiosamente, talvez a viuva baixasse os olhos envergonhada de haver mentido. Luiz Garcia não viu nada. Calou-se, approvou a viuva, e prometteu auxilial-a.

Era noite quando Luiz Garcia saiu da casa de Valeria. Ia aborrecido de tudo, da mãe e do filho,—de suas relações naquella casa, das circumstancias em que se via posto. Galgando a ladeira a pé, detendo-se de quando em quando a olhar para baixo, ia como apprehensivo do futuro, supersticioso, tomado de temores intermittentes e inexplicaveis. Não tardou a apparecer-lhe a luz da casa, e, dahi a pouco, a ouvir a cantilena solitaria do escravo e as notas rudimentaes da marimba. Eram as vozes da paz; elle apertou o passo e refugiou-se na solidão.




III

Luiz Garcia pouco trabalho teve no animo de Jorge. A resolução deste, uma vez declarada, não recuou mais. Não desconhecia o moço que a empreza a que mettia hombros era crespa de difficuldades. A guerra, sobretudo depois do desastre de Curupaity, promettia durar muito; não havia desanimo, e o governo era auxiliado efficazmente pela população. Jorge obteve uma patente de capitão de voluntarios.

Vinte dias depois da conversa no terraço da rua dos Invalidos, apresentou-se Jorge em Santa Theresa, fardado e prompto, de tal modo porém que era ainda difficil separar o casquilho do militar. A mesma tesoura que lhe cortava os fraques, talhara a farda de capitão. Trazia á cintura uma banda vermelha, cujas pontas caíam graciosamente ao lado. Calçava um botim reluzente, sobre o qual assentava a calça de fino panno. Inclinado levemente á direita, o boné não lhe desconcertava o cabello, penteado ao estylo de todos os dias; o bigode tinha as mesmas guias longas, agudas e lustrosas.

Luiz Garcia não pode furtar-se a um sentimento de pena, ao vel-o entrar fardado e prestes a seguir para o sul. Pareceu-lhe descobrir por traz delle o perfil da morte, com o eterno sorriso sem labios. Mas esse sentimento de commiseração passou; lembrou-lhe logo a ultima palavra da viuva, e não pode deixar de condemnal-o. Viu até, com certa repulsa, esse coração de vinte e quatro annos, que ia arriscar a vida propria, e talvez a de sua mãe, para não rejeitar um sentimento mau.

—Estou a seu gosto? perguntou Jorge com um ar de benevola ironia.

—Ha de estar melhor no fim da guerra, Sr. general, respondeu o outro.

—General? Pode ser.

Dizendo isto, Jorge entrou a falar de suas esperanças e futuros. A imaginação começava a dissipar a melancolia. Elle via já naquillo uma aventura romanesca e mysteriosa; sentia-se uma resurreição de cavalleiro medievo, saindo a combater por amor de sua dama, castellã opulenta e formosa que o esperaria na varanda gothica, com a alma nos olhos e os olhos na ponte levadiça. A ideia da morte ou da mutilação não vinha agitar-lhe ao rosto suas azas pallidas e sangrentas. O que elle tinha deante de si eram os campos infinitos da esperança. Comtudo, o momento era grave, e difficilmente podia o espirito esquivar-se á reflexão intermittente. Além disso, Jorge subira a Santa Theresa com a resolução de contar tudo a Luiz Garcia, afim de deixar um confidente austero e unico de seus amores; mas a palavra não se atrevia a sair do coração. Ou a edade do outro ou a indole de suas relações tolhia essa confidencia intima; ainda mais do que uma e outra razão, havia naquelle momento o gesto singularmente preoccupado e duro de Luiz Garcia. Jorge deu de mão ao projecto.

—Dê-me o abraço de despedida, disse elle; embarco amanhã.

—Já amanhã!

—Vim despedir-me do senhor.

Luiz Garcia considerou-o silenciosamente durante dous ou tres minutos; depois apertou-lhe as mãos.

—Vá, disse; trabalhe pela terra; não se poupe a trabalhos, nem se exponha sem utilidade; em todo o caso, obedeça á disciplina, e não se esqueça um só dia de sua mãe.

Jorge saiu e desceu a passo largo e trémulo na direcção da rua de D. Luiza. A meio caminho parou, como se quizesse tomar outra direcção; ergueu os hombros e proseguiu. Ia mergulhado em si mesmo, e só deu accordo ao parar deante de uma casa daquella rua.

Antes de lá entrar, vejamos quem eram os moradores.

O defunto marido de Valeria, no tempo em que advogava, tinha um escrevente, que, mais ainda do que escrevente, era seu homem de confiança; Chamava-se o Sr. Antunes. Foram serviços de certa ordem que os ligaram mais intimamente. A fortuna troca ás vezes os calculos da natureza; uma e outra iam de accordo na pessoa daquelle homem, nado e creado para as funcções subalternas. Familiar com todas as formas da adulação, o Sr. Antunes ia do elogio hyperbolico até o silencio opportuno. Tornou-se dentro de pouco, não só um escrevente laborioso e pontual, mas tambem, e sobretudo, um fac-totum do desembargador, seu braço direito, desde os recados eleitoraes até ás compras domesticas, vasta escala em que entrava o papel de confidente das entreprezas amorosas. Assim que, nunca lhe fez mingua a protecção do desembargador. Viu crescer-lhe o ordenado, multiplicarem-se-lhe as gratificações; foi admittido a comer algumas vezes em casa, nos dias communs, quando não havia visitas de ceremonia. Nas occasiões mais solemnes era elle o primeiro que se esquivava. Ao cabo de tres annos de convivencia tinha consolidado a situação.

Justamente nesse tempo succedeu morrer-lhe a mulher, de quem lhe ficou uma filha de dez annos, menina interessante, que algumas vezes visitara a casa do desembargador. Este fez o enterro da mãe e pagou o luto da filha e do pae. O Sr. Antunes, que não era de extremas philosophias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Ecclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que ha larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal. Morta a mulher, alcançou do desembargador um enxoval completo para fazer entrar a filha n'um collegio, visto que até então nada aprendera, e já agora não podia deixal-a sósinha em casa. O desembargador dera o enxoval; algumas vezes pagou o ensino; as visitas amiudaram-se; a creança, que era bonita e boa, entrou manso e manso no coração de Valeria que a recebeu em casa, no dia em que a pequena concluiu os estudos.

Estella—era o seu nome,—tinha então dezeseis annos. Pouco antes fallecera o desembargador. O Sr. Antunes recebeu dous golpes em vez de um: o de o ver morrer, e o de o não ver testar. As aneurismas têm dessas perfidias inopinaveis. Afim de emendar a mão á fortuna, o pae de Estella concentrou na viuva a attenção que até então repartira entre ella e o marido; facto que aliás decorria da propria obrigação moral em que se achava para com a familia do desembargador. Estella devia a essa familia educação e carinho; podia talvez vir a dever-lhe um dote, um marido e consideração. Quem sabe? Talvez o coração de Jorge vinculasse as duas familias. Esta ambição affagava-a o Sr. Antunes no mais profundo de sua alma.

Jorge estava prestes a concluir os estudos em S. Paulo; ia na metade do quarto anno. Vindo á Capital durante as férias, achou-se deante de uma situação inesperada; a mãe esboçara um projecto de casamento para elle. A noiva escolhida era ainda parenta remota de Jorge. Chamava-se Eulalia. Tinha dezenove annos na certidão de baptismo e trinta no cerebro. Era uma moça sem illusões nem vaidades, talvez sem paixões, dotada de juizo recto e coração simples, e sobre tudo isso uma belleza sem macula e uma elegancia sem espavento.—Uma perola! dizia Valeria quando insinuou ao filho a conveniencia de casar com Eulalia. A perola, entretanto, não parecia anciosa de ornar a fronte de ninguem. Quando Valeria fez as primeiras sondagens no coração da joven parenta, achou alli uma agua tranquilla, sem curso nem recurso de marés. Tratou de saber se alguma brisa lhe roçara a aza, e descobriu que não; então chamou em seu auxilio o sirocco e o pampeiro. Não foi difficil a Eulalia perceber os desejos da viuva, nem resistiu quando chegou a entendel-a. A razão disse-lhe que o casamento era acceitavel; esperou. Valeria ficou satisfeita com o resultado, e deu-se pressa em sondar as disposições de Jorge, quando elle voltou no fim do anno.

Graças á sua arte de assediar as vontades alheias, Valeria alcançou do filho uma resposta condicional. Era já alguma cousa. O motivo da insistencia da viuva era complexo; eram as qualidades da parenta, a affeição grande que lhe votava, o receio de morrer subitamente e a confiança que tinha em si mesma para conhecer e eleger caracteres. Durante o ultimo anno da Faculdade, Jorge pensou algumas vezes no casamento como se pensa n'um projecto remoto; mas, á proporção que o tempo corria, o coração ia-se-lhe tornando retrahido e medroso. Uma vez formado, deu de mão á ideia; não teve a franqueza de o declarar á mãe, e Valeria esperou confiadamente que o coração do filho dissesse n'outra lingua aquillo que ella já lhe havia dito na sua.

Para conhecer exactamente o motivo da repulsa de Jorge em relação a uma moça, cujas qualidades deviam tentar qualquer outro, convem não esquecer que essas qualidades eram justamente as mais avêssas á indole do filho de Valeria. Não bastava ser elegante e bonita, discreta e mansa; era preciso alguma cousa mais, que exactamente correspondesse á imaginação delle; faltava-lhe um grão de romanesco.

A isto accrescia um sentimento novo, que se apossou delle, ao cabo de tres semanas depois da chegada ao Rio de Janeiro. A vista quotidiana de Estella produziu em Jorge uma impressão forte. Posto vivessem na mesma casa, era difficil acharem-se nunca a sós, porque a filha do escrevente passava todo o tempo ao pé da viuva; circumstancia que não teve a virtude de mudar o curso aos acontecimentos. Não podendo passar de palavras geraes e extranhas ao que lhe quizera confiar, Jorge falava-lhe com os olhos,—linguagem que a moça não entendia, ou fingia não entender. A imperturbavel seriedade de Estella foi um aguilhão mais, não menos cruel que a gentileza de suas formas, e certo ar de resolução que lhe transparecia do rosto quieto e pallido.

Pallida era, mas sem nenhum tom de melancolia ascetica. Tinha os olhos grandes escuros, com uma expressão de virilidade moral, que dava á belleza de Estella o principal caracteristico. Uma por uma, as feições da moça eram graciosas e delicadas, mas a impressão que deixava o todo estava longe da meiguice natural do sexo. Usualmente, trazia roupas pretas, côr que preferia a todas as outras. Nu de enfeites, o vestido punha-lhe em relevo o talhe esbelto, elevado e flexivel. Nem usava nunca trazel-o de outro modo, sem embargo de algum dixe ou renda com que a viuva a presenteava de quando em quando; rejeitava de si toda a sorte de ornatos; nem folhos, nem brincos, nem aneis. Ao primeiro aspecto dissera-se um Diogenes feminino, cuja capa, atravez das roturas, deixava entrever a vaidade da belleza que quer affirmar-se tal qual é, sem nenhum outro artificio. Mas, conhecido o caracter da moça, eram dous os motivos—um sentimento natural de simplicidade, e, mais ainda, a consideração de que os meios do pae não davam para custosos atavios, e assim não lhe convinha affeiçoar-se ao luxo.

—Porque não põe os brincos que mamãe lhe deu a semana passada? perguntou Jorge a Estella, um dia, em que havia gente de fóra a jantar.

—Os presentes mais queridos guardam-se, respondeu ella olhando para a viuva.

Valeria apertou-lhe a ponta do queixo entre o pollegar e o indicador:—Poeta! exclamou sorpudo. Você não precisa de brincos para ser bonita, mas vá pol-os, que lhe ficam bem.

Foi a primeira e ultima vez que Estella os poz. A intenção era patente de mais para não ser notada, e Jorge não esqueceu nem a resposta da moça nem o constrangimento com que obedeceu. Não podia suppôr-lhe ingratidão, porque via a affeição com que Estella tratava a mãe. Em relação a elle não parecia haver affeição egual, mas havia certamente respeito e consideração, rara vez familiaridade, e ainda assim, uma familiaridade enluvada, um ar de visita de pouco tempo.

Jorge começou a achar mais agradavel a casa do que a rua; e as noites, quando não havia pessoas de fora, passava-as á volta de uma mesa, lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as trabalhar, em quanto contava anedoctas da academia, lia as correspondencias do Paraguay e de Buenos-Ayres, ou simplesmente alguma pagina de romance. Nessa vida, meio patriarchal, as horas corriam depressa, tão depressa, que elle não as sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se elle seu proprio confessor, examinou a consciencia, descobriu lá dentro alguma cousa que não era a phantasia sensual do primeiro instante, e, longe da absolver-se, condemnou-se á crua penitencia de abstenção. Voltou aos antigos habitos e deixou os serões domesticos. Mas a applicação do remedio, por mais sincera que fosse, já não podia muito contra a acção do mal. Estella frequentava-lhe tenazmente a memoria; e na rua, no theatro, nas assembléas a que ía, o perfil severo da moça vinha metter-se entre elle e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a convalescença não era ainda difficil; mas como fugir á lembrança de uma mulher, cuja figura lhe apparecia durante algumas horas de cada dia? Demais, a somnambula que elle tinha no cerebro vinha auxiliar a fatalidade das circumstancias. No fim de um mez, a indole do sentimento havia mudado: era mais pura; mas o sentimento não parecia disposto a esvair-se: era mais violento.

Como o Sr. Antunes levasse a filha, uma noite, a visitar pessoa de sua amizade, Jorge aproveitou a circumstancia para insinuar a Valeria a conveniencia de restituir Estella a seu pae.

—Porque? perguntou a viuva.

—Sempre é um tropeço, uma pessoa extranha mettida entre nós,—replicou Jorge. Não lhe nego que tem boas qualidades; mas... é uma pessoa extranha.

—Que importa, se me dou bem com ella? Conheço-a desde pequena; é uma companhia melhor que qualquer outra. Mas porque te lembras disso agora?

—Estive pensando na responsabilidade que pesa sobre nós. Se fosse nossa parenta, vá, não se podia dispensar a obrigação; mas não sendo, creio que era melhor libertarmo-nos.

—Descança; quando fôr tempo, caso-a. O que não admitto é algum marido de pouco mais ou menos. Ha-de ser pessoa que a mereça. Não sabes o que vale aquella menina. Não é só boa, tem certa elevação de sentimentos; nunca me desattendeu e nunca me adulou.

Jorge confirmou com a cabeça e não disse mais nada. O que acabava de fazer não passava de uma tentativa sincera, mas frouxa, para arredar Estella da casa; era o imposto pago á consciencia; Quite com ella, entregou-se aos acontecimentos, confessando a si mesmo que o perigo não era tão grave, nem o remedio tão urgente; finalmente, que elle era homem.

No meio de semelhante situação, que sentia ou que pensava Estella? Estella amava-o. No instante em que descobriu esse sentimento em si mesma, pareceu-lhe que o futuro se lhe rasgava largo e luminoso; mas foi só nesse instante. Tão depressa descobriu o sentimento, como tratou de o estrangular ou dissimular,—trancal-o ao menos no mais escuso do coração, como se fora uma vergonha ou um peccado.

—Nunca? jurou ella a si mesma.

Estella era o vivo contraste do pae, tinha a alma acima do destino. Era orgulhosa, tão orgulhosa que chegava a fazer da inferioridade uma aureola; mas o orgulho não lhe derivava de inveja impotente ou de esteril ambição; era uma força, não um vicio,—era o seu broquel de diamante,—o que a preservava do mal, como o do anjo de Tasso defendia as cidades castas e santas. Foi esse sentimento que lhe fechou os ouvidos ás suggestões do outro. Simples aggregada ou protegida, não se julgava com direito a sonhar outra posição superior e independente; e dado que fosse possivel obtel-a, é licito affirmar que recusara, porque, a seus olhos seria um favor, e a sua taça de gratidão estava cheia. Valeria, que tambem era orgulhosa, descobrira-lhe essa qualidade, e não lhe ficou querendo mal; ao contrario, veiu a aprecial-a melhor.

Pois o orgulho de Estella não lhe fez sómente calar o coração, infundiu-lhe a confiança moral necessaria para viver tranquilla no centro mesmo do perigo. Jorge não percebera nunca os sentimentos que inspirara; e, por outro lado, nunca viu a possibilidade de os inspirar um dia. Estella só lhe manifestava o frio respeito e a fria dignidade.

Um dia, vagando uma casa de Valeria no caminho da Tijuca, determinou-se a viuva a ir examinal-a, antes de a alugar outra vez. Foi acompanhada do filho e de Estella. Sairam cedo, e a viagem foi alegre para a moça, que pela primeira vez ia áquelle arrabalde. Quando a carruagem parou, suppunha Estella que mal tivera tempo de sair da rua dos Invalidos.

A casa precisava de alguns reparos; um mestre de obras, que já alli estava, acompanhou a familia de sala em sala e de alcova em alcova. Só elle e Valeria falavam; Estella não tinha voto consultivo, e Jorge parecia indifferente. Que lhe importava a elle o rebôco de uma parede ou o concerto de um soalho? Elle gracejava, ria ou sussurrava ao ouvido de Estella um epigramma a respeito do mestre de obras, cuja prosodia era execravel. Estella, que sorria com elle, cerrava entretanto o gesto aos epigrammas.

De sala em sala, chegaram a uma pequena varanda, onde uma circumstancia nova os deteve algum tempo. N'uma das extremidades da varanda havia um pombal velho, onde elles foram achar, esquecido ou abandonado, um casal de pombos. As duas aves, após vinte e quatro horas de solidão, pareciam saudar as pessoas que alli appareciam repentinamente.

—Coitadinhos! disse Estella logo que entrou na varanda.

Valeria prestou um minuto de attenção, talvez meio, e seguiu a ver a casa. Estella ficara a olhar para os dous pombos, e não a viu sair.

—Quer leval-os? disse a voz de Jorge.

A moça voltou-se e respondeu que não:—Comtudo, continuou ella, era bom dal-os a alguem para não morrerem á fome. São tão bonitos!

—Mas porque não os ha de levar a senhora mesma?

—Vou pedir ao mestre que os tire dalli, disse ella dando um passo para dentro.

—Não é preciso: eu vou tiral-os.

Estella recusou, mas o bacharel resolvera e ia satisfazer elle proprio o desejo da moça. O pombal não ficava ao alcance da mão; era preciso trepar ao parapeito da varanda, crescer na ponta dos pés e estender o braço. Ainda assim, precisaria contar com a boa vontade dos pombos. Jorge trepou ao parapeito. Se perdesse o equilibrio poderia cair ao chão da chacara; para evital-o, Jorge lançou a mão esquerda a um ferro que havia na columna do canto, e que o amparou; depois esticou o corpo e alcançou com a mão o pombal. Um dos pombos ficou logo seguro; o outro, a principio arisco, foi colhido depois de algum esforço. Estella recebeu-os; Jorge saltou ao chão.

—A Sra. D. Valeria, se visse isto, havia de ralhar, disse Estella.

—Grande façanha! respondeu Jorge sacudindo com o lenço as mãos e a aba do fraque.

—Podia cair.

—Mas não caí; foi um risco que passou. São bonitinhos, não são? continuou elle apontando para os pombos que Estella tinha entre as mãos.

A moça respondeu com um gesto e deu alguns passos, afim de ir ter com a viuva. Jorge deteve-a, mettendo-se entre ella e a porta.

—Não se vá embora, disse elle.

—Que é? perguntou Estella erguendo tranquillamente os grandes olhos limpidos.

—Disfarçada!

Estella baixou silenciosamente a cabeça e buscou dar outra volta para entrar na sala ao pé; Jorge, porém, interceptou-lhe de novo o caminho.

—Deixe-me passar, disse ella sem colera nem supplica.

Jorge recuara até a porta, unica das tres que estava aberta. Era arriscado o que fazia; mas, além de que Valeria e o mestre estavam no pavimento superior,—elle ouvia-lhes os passos,—perdera naquella occasião toda a lucidez de espirito. Era deserto o logar, e naturalmente seria longo o tempo de que poderia dispôr para lhe dizer tudo. Mas os labios ficaram cerrados alguns instantes, em quanto os olhos diziam a eloquencia da paixão mal contida e prestes a irromper.

Não insistiu Estella, mas ficou diante delle, quieta e sem arrogancia, como esperando ser obedecida. Jorge quizera-a supplicante ou desvairada; a tranquillidade feria-lhe o amor proprio, fazendo-lhe ver que o perigo era nenhum, e revellando, em todo caso, a mais dura indifferença. Quem era ella para o affrontar assim? Era a segunda vez que formulava essa pergunta; tinha-a feito nas primeiras auroras da paixão. Desta vez a resposta foi deploravel. Cravando os olhos em Estella, disse com voz tremula, mas imperiosa:

—Não ha de sair daqui, sem me dizer se gosta de mim. Vamos; responda! Não sabe o que lhe pode custar esse silencio?

Não obtendo resposta, continuou depois de alguma pausa:

—É animosa! Saiba que posso vir a odial-a e que talvez já a odeio; saiba tambem que posso tirar vingança de seus despresos, e chegarei a ser cruel, se fôr necessario.

Estella suspirou apenas, e foi encostar-se ao parapeito, a olhar para a chacara. Era sua intenção não irrital-o, com a resposta secca e má que lhe dictava o coração, e esperar que Valeria descesse. Entretanto, na posição em que ficara tinha as costas voltadas para Jorge, circumstancia que não era intencional, mas que pareceu a este um simples meio de lhe significar o seu desdem. A irritação de Jorge foi grande. Após uns dous ou tres minutos de silencio, Jorge caminhou na direcção do parapeito, onde estava Estella, com a cabeça inclinada, a beijar a cabeça dos pombos, que tinha encostados ao seio. Deteve-se, sem que a moça mudasse de posição. Contemplou-a ainda um instante, e se Estella olhasse para elle veria que a expressão dos olhos era de respeitosa ternura e nada mais.

Esse instante, porém, voou depressa, e com elle a consideração. Inclinando-se para a moça, Jorge falou de um modo que nem a educação nem a indole, mas só o despeito explicava.

—Porque hade gastar com esses animaes, uns beijos que podem ter melhor emprego?

Estella estremeceu toda e ergueu para o moço uns olhos que fuzilavam de indignação. Já não estava pallida, mas livida. Estupefacta, não sabia que dissesse ou fizesse, e infelizmente não sabia tambem que a pergunta de Jorge, por mais offensiva que lhe parecesse, não era ainda a maxima injuria. Não era; Jorge tinha uma nuvem deante de si, atravez da qual não podia ver nem o seu decoro pessoal nem a dignidade da mulher amada; via só a mulher indifferente. Lançou-lhe as mãos treabeça, puxou-a até si e antes que ella pudesse fugir ou gritar, encheu-lhe a boca de beijos.

Soltos com o movimento, os pombos esvoaçaram sobre a cabeça de ambos, e foram pousar outra vez na casinha de pau, onde nenhuma fatalidade moral os condemnava áquelle amor sem esperança, áquella colera sem dignidade.

Estella suffocara um gemido e cobrira o rosto com as mãos. Ouviam-se as vozes de Valeria e do mestre, que se approximavam; Jorge teve um instante de incerteza e hesitação; mas a reacção operara-se, e, além disso, urgia apagar os vestigios daquella scena, de maneira que os não visse a viuva.

—Ahi vem mamãe,—disse elle baixinho a Estella; não tive culpa no que fiz, por que gosto muito da senhora.

Estella voltou-se para fora e enxugou o rosto; dahi a pouco entraram Valeria e o mestre. Este saiu logo depois, tendo ajustado as obras que era indispensavel fazer na casa. Valeria irritada com a vista dos estragos que encontrou, criticava o desleixo dos inquilinos. Só depois dos primeiros instantes reparou que nenhum dos dous lhe respondia nada, Jorge parecia acanhado, e Estella triste. Posto houvesse enxugado as lagrimas, Estella tinha o rosto desfeito e murchos os bellos olhos. Jorge não ousava olhar para a mãe nem para Estella; olhava para a ponta dos botins, onde ficara um pouco da caliça do parapeito; tinha as mãos nas costas e estava arrimado a um portal. Valeria reparou na attitude dos dous; mas como possuia a qualidade de dissimular as impressões, não alterou nem o gesto nem a voz. Os olhos é que nunca mais os deixaram.

Dahi a nada metteram-se no carro. Era tarde. A viagem foi quasi inteiramente silenciosa; pelo menos, só Valeria disse algumas palavras. Chegando á rua dos Invalidos, a viuva suspeitava que alguma cousa havia entre os dous e grave. Todo aquelle dia meditou nos meios de conhecer a natureza e os pormenores da situação, e nada achou melhor do que interrogar directamente um delles. Jorge saíra de casa logo depois e não voltou para jantar; Estella não sorriu em todo esse dia e quasi não falou.

Não foi preciso interrogal-a. Logo na seguinte manhã, acabando de levantar-se, entrou-lhe Estella na alcova, e pediu alguns minutos de attenção. Expoz-lhe a necessidade de voltar para casa; estava moça, devia ir prestar ao pae os serviços que elle precisaria de alguem e tinha o direito de exigir da filha. Não era ingratidão, accrescentava; levaria dalli saudades eternas; voltaria muitas vezes; seria sempre obediente e grata. Cedia sómente á necessidade de acompanhar o pae. Este pedido confirmava a suspeita de Valeria, mas só esclarecia metade da situação. A retirada de Estella era um meio de fugir a Jorge ou de lhe falar mais livremente? Valeria tratou de prescrutar o coração da moça, dizendo-lhe que a razão dada era insufficiente e que alguma causa occulta a movia; depois, recordou-lhe a amizade que lhe tinha e a confiança a que Estella não devia faltar.

—Vamos lá, disse ella; confessa tudo.

Estella affirmou que nada mais havia; mas, insistindo a viuva, respondeu curvando a cabeça,—o que importava meia confissão. Valeria lutou ainda muito tempo; empregou a brandura e a intimação, mas a moça não cedeu mais nada.

—Bem, disse a viuva; faça-se a tua vontade.

Foi assim que Estella, ao cabo de algum tempo de residencia na casa de Valeria, regressou á casa do pae, na rua de D. Luiza. O Sr. Antunes ficou desorientado com a noticia; disse que vivia perfeitamente só; achou pouco decoroso e menos justo o procedimento de Estella, em relação á viuva do desembargador; gastou largos conceitos, que lhe não aproveitaram, porque Estella não recuou da resolução, nem a viuva tentou dissuadil-a.

A separação não valia nada ou valia cousa peor; fez recrudescer o amor de Jorge, por isso mesmo que entre um e outro rasgava espaço á imaginação. Duas forças reagiram no coração do rapaz; o obstaculo, que tornava mais intenso o amor, e o remorso que o fazia mais respeitoso. Nenhum resentimento lhe ficara da resolução de Estella; sentia-se culpado, e mais ainda, sentia-se victima da fuga da moça. Nem tudo isso seria effeito sómente da paixão; cabia uma parte de influencia á severidade do caracter de Estella, que acabou por incutir no espirito de Jorge ideia differente da que elle a seu respeito fazia. Valeria descobriu a pouco e pouco a inefficacia do remedio que acceitara; estava certa da paixão do filho, e via que, longe de expirar, entrava pela vida adeante, menos estouvada talvez, mas não menos sincera e profunda; soube que Jorge frequentava a casa da rua de D. Luiza; estremeceu pelo futuro e cogitou no modo de estrangular as esperanças em flôr.

—Ou ella já o ama ou pode vir a amal-o, dizia comsigo.

Valeria encarava os dous desenlaces possiveis da situação, se a moça lhe amasse o filho: ou seria a quéda de Estella, que a viuva estimava muito, ou o consorcio dos dous, solução que lhe repugnava aos sentimentos, ideias e projectos. Jamais consentiria em semelhante alliança. Urgia prompto remedio.

Voltou energicamente ao projecto de casar o filho com Eulalia, e o intimou a obedecer-lhe. Jorge começou resistindo e acabou dissimulando; mas o artificio não illudiu a mãe. Valeria chamou logo em seu auxilio a joven parenta. Eulalia, que tivera tempo de reflectir, francamente lhe disse que não estava disposta a ser sua nora, porque Jorge não a amaria nunca; e comquanto, não visse no casamento uma pagina de romance, entendia que a antipathia ou total indifferença era o mais frouxo dos vinculos conjugaes.

Desamparada desse lado, a viuva cogitou então a viagem á Europa; e, quando elle lh'a recusou, recorreu á guerra do Paraguay. Não sem custo lançou mão desse meio, violento para ambos; mas, uma vez adoptado, luziu-lhe mais a vantagem do que lhe negrejou o perigo. Assim foi que de um incidente, comparativamente minimo, resultara aquelle desfecho grave, e de um caso domestico saía uma acção patriotica.




IV

Era noite fechada, quando Jorge chegou á casa de Estella. O Sr. Antunes estava á porta e talvez contava com a visita; recebeu-o com alvoroço e tristeza.

Quatro mezes haviam decorrido depois da scena da Tijuca, e durante esse tempo Jorge fora muitas vezes á casa da rua de D. Luiza. Não lhe fugira Estella nem o maltratara; usou a mesma serenidade e frieza de outro tempo, falando-lhe pouco, é certo, mas com tamanha isenção, que parecia não ter havido entre elles o menor dissentimento.

Pela sua parte, Jorge forcejava por apagar a lembrança daquelle episodio, havendo-se com o respeito e consideração que lhe pareciam bastantes para resgatar a estima perdida. Ás vezes ficavam a sós na sala, porque o Sr. Antunes inventava algum motivo que o obrigasse a eclipses parciaes, com o fim unico, dizia elle comsigo,—de ajudar a natureza. Mas sobretudo nessas occasiões, aliás propicias, não transpunha Jorge a linha que a si mesmo traçara, não lhe sussurrava uma unica palavra amorosa, não lhe deitava um só olhar que a pudesse fazer corar ou reagir. Qualquer allusão á scena da Tijuca, ainda de submissão, seria prejudicial á causa de Jorge; elle evitava esse erro trivial, nada dizendo que proxima ou remotamente pudesse lembral-a á moça. Falavam pouco e de cousas indifferentes, como pessoas de nenhuma intimidade.

Foi só quando perdeu de todo a esperança de a vencer pelos meios ordinarios, que elle acceitou a proposta de se alistar no exercito. No dia em que lhes deu a noticia, a impressão no pae e na filha foi profunda, mas diversa, porque o pae ficou totalmente consternado e morto, ao passo que a filha sentiu a alma respirar livremente, e se uma voz secreta e medrosa lhe disse: não o deixes ir; outra mais dominadora e forte lhe bradou que a partida era a liberdade e a paz. A viagem, a distancia, o tempo, a natureza das occupações militares deviam arrancar ao moço um sentimento que Estella temia fosse origem de dissenções domesticas, e que em todo o caso a abatia a seus proprios olhos.

—É então amanhã? perguntou o Sr. Antunes fazendo entrar o joven capitão.