CONTOS
PARA A
INFANCIA
ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES
POR
GUERRA JUNQUEIRO
LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
de thomaz quintino
antunes, impressor da casa real
Rua dos Calafates, 110
1877
A mãe
Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço
do seu filho, com medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os
olhos fechados. Respírava com difficuldade, e ás vezes tão
profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais
lastima do que o pequenino moribundo.
N'isto bateram á
porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado n'uma manta
d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de
neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.
O
pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns
instantes, e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com
cerveja. O velho começou a embalar a creança, e a mãe,
pegando n'uma cadeira, sentou-se ao lado d'elle. E contemplando o seu
filhinho doente, que respirava cada vez com mais difficuldade, pegou-lhe
na mãosinha descarnada e disse para o velho:
--Oh! Nosso
Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--
E o velho, que era a Morte, meneou
a cabeça d'uma maneira extranha, em ar de duvida. A mãe
deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas corriam-lhe em
fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabeça;
estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou ligeiramente pelo
somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a tremer de frio.
--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si
o olhar hallucinado. O berço estava vasio. O velho tinha-se ido
embora, roubando-lhe a creança.
A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho.
Encontrou uma mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A
Morte entrou-te em casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu
filho. Anda mais depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a
entregar.»
--Por onde foi ella? gritou a mãe.
Dize-m'o pelo amor de Deus!»
--Sei o caminho por onde
ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. Mas só t'o ensino,
se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu
filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.
--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não
me demores, porque quero encontrar o meu filho.--
A Noite ficou
silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou
a cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais
do que as palavras.
No fim
disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de
pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»
A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
caminho, e não sabia que direcção havia de seguir.
Diante d'ella havia um mattagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores,
de cujos ramos pendia a neve cristallisada.
--Não viste a Morte que levava o meu filho?»
perguntou-lhe a mãe.
--Vi, respondeu o mattagal, mas não
te ensino o caminho, senão com a condição de me
aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
E a mãe
estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos
dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se de
folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite d'inverno
frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
angustiosa.
E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia
seguir. Foi andando, andando, até que chegou á margem d'um
grande lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não
estava sufficientemente gelado para se andar por elle, e era
demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo, querendo
encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio do seu
amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do
lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão,
faria talvez um milagre.
--Não!
não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e
entendamo-nos amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das
minhas aguas, e os teus olhos são d'um brilho mais suave do que as
perolas mais ricas que eu tenho possuido. Se queres, arranca-os das
orbitas á força de chorar, e levar-te-hei á estufa
grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a habitação
da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro,
é ella quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida
d'uma creatura humana.»
--Oh! o que não darei eu,
para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já
chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus
olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo do lago,
transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no mundo
uma rainha.
O lago então ergueu-a, e com um movimento de
ondulação depositou-a na outra margem, aonde havia um
maravilhoso edificio, com mais d'uma legua de comprido. De longe não
se sabia se era uma construcção artistica ou uma montanha
com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
tinha dado os seus olhos.
--Como heide eu reconhecer a Morte
que me roubou o meu filho!» bradou ella desesperada.
--A
Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava
d'um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas.
Como vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»
--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso.
Compadece-te de mim, e dize-me onde está
o meu filho.»
--Eu não o conheço, e tu
és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas e muitas arvores,
que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para as tirar da
estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este sitio uma
arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ella.
Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um
coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
pulsações do coração de teu filho. E que davas
tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?»
--Já
não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até
ao fim do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não
preciso de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos
negros; tu sabes que são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos
meus cabellos brancos.»--Não pedes mais nada do que isso?
disse a mãe. Ahi os tens, dou-t'os de boa vontade.»
E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o
seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
inteiramente brancos da velha.
Esta levou-a pela mão
á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma vegetação
maravilhosa.
Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos
mimosissimos ao lado de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem
plantas aquaticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas
raizes se ennovelavam cobras asquerosas.
Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos frondosos;
depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, ortelã
e outras plantas humildes que representavam o genero de utilidade das
pessoas que ellas symbolisavam.
Havia ainda grandes arbustos em
vasos demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se tambem
floresitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra,
circumdadas de musgo, tratadas com esmero delicadissimo. Tudo isso
representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a
China até à Groenlandia.
A velha queria
mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe impacientada
pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas pequeninas;
tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração,
e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as pulsações
do coração do seu filho.
--É elle!»
exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que,
pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.
--Não
lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte vier, que não
tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de arrancar
todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque
tem de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o
seu consentimento.»
N'isto sentiu-se um vento glacial, e
a mãe adivinhou que era a Morte, que se approximava.
--Como é què deste com o
caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o
conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.
E a
Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos,
tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas petalas.
Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lh'as cair
inanimadas. O halito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados
do inverno.
--Não pódes nada comigo!» disse
a Morte.--Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a mãe.»--«É
verdade, mas eu não faço senão aquillo que elle
manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e arbustos,
quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins, um
dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões
desconhecidas; ninguém sabe o que se lá passa.»
--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não
me roubem o meu filho, agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e
gemia. A Morte conservava-se impassivel; agarrou então
instantaneamente em duas flores lindissimas e disse á Morte:
«Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não
só esta, mas todas as flores que estão aqui!
--Não
as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra
mãe!» disse a pobre mulher, largando as flores
immediatamente.--Toma,
aqui tens os teus
olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei do
lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses
estas flores. Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma
miragem, a sorte destinada a cada uma d'essas duas flores, e a que teria
tido o teu filho, se porventura vivesse.»
Debruçou-se
no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros
risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de miseria,
d'angustias e de desolação.
--N'isto que eu vejo,
disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a sorte que
Deus destinava ao meu filho.»
--Não posso
dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto que te appareceu
viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»
A mãe
desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é
verdade! Falla! Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não
vá elle soffrer desgraças tão horriveis. O meu
querido filho! Quero-lho mais que á minha vida. As angustias que
sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. Esquece as minhas lagrimas,
as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.»
--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te
entregue o teu filho ou que o leve para a região desconhecida de
que não posso fallar-te!» Então a mãe
allucinada, convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos e
dirigindo-se
a Deus exclamou: «Não
me ouças, Senhor, se reclamo no fundo do meu coração
contra a tua vontade que é sempre justa! Não me attendas meu
Deus!»
E deixou cair a cabeça sobre o peito,
mergulhada na sua agonia dilacerante.
E a Morte arrancou o
pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no jardim do paraiso.
O ouro
Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas
d'ouro, empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas
minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve
uma grande fome no paiz.
Mas a rainha, que era prudente e que
amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, gallinhas e
outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quiz jantar mandou-lhe
servir essas iguarias de ouro, com que elle ficou todo satisfeito, porque
não comprehendeu ao principio qual era o sentido da rainha; mas,
vendo que não lhe traziam mais nada de comer, começou a
zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não
era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassallos em cultivar a
terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazel-os nas minas á
busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não tem
outro valor além da estimação que lhe é dada
pelos homens, estimação que havia de converter-se em
desprezo, logo que ouro apparecesse em abundancia.
A rainha
tinha juizo.
Doçura e bondade
Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não
sabem dominar-se, e que são arrastadas pelas primeiras impressões.
É uma pessima disposição, que é necessario
corrigir; dá lugar a disputas, e a que se commettam acções,
cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. Citar-vos-hei dois
exemplos de que fui testemunha.
Um rapaz, sacudido
violentamente na rua por um homem que vinha diante d'elle, volta-se e dá-lhe
uma bofetada.
--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena
que vae ter! bateu n'um cego!»
Um homem ainda novo
montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns camponezes grosseiros
começaram a apupal-o e a bater no burro, para o fazer correr. O
homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a sua perna
aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não
terieis sido tão covardes.»
Os camponezes,
envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.
Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que
aproveitaram a quem as recebeu.
O malmequer
Ouvi com attenção esta pequenina historia!
No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no meio
da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos
vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella manhã,
já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre
florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o
calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças
sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle,
sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade
de Deus, e tudo o que
sentia
mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com admiravel
nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a
olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
feliz que cantava e voava.
«Eu vejo e oiço, pensou
o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não tenho
rasão de me queixar.»
Dentro da sebe havia muitas
flores altivas, aristocraticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas
se aprumavam. As dalias inchavam-se para parecerem maiores do que as
rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. As tulipas
brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se
pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o
pequeno malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando:
«como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente
visital-as. Graças a Deus, poderei assistir a este bello
espectaculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu vôo,
não para as dalias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre
malmequer, que morto d'alegria não sabia o que havia de pensar.
O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando:
«Como a herva é macia! oh! que encantadora florinha, com um
coração d'oiro, vestida de prata!»
Não
se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave
acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois
no azul do firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde
o malmequer reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas
todo contente, olhou
para as outras
flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber,
deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam
cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e ponteagada manifestava o
despeito. As dalias tinham a cabeça toda inchada. Se ellas podessem
fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis ao pobre malmequer. A
florinha viu isto, e ficou triste.
Passados alguns momentos,
entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante,
aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.
«Que
desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se
todas.»
E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o
malmequer alegrára-se por ser simplesmente uma pequenina flor no
meio da herva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da
tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a
cotovia.
No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer
abriu as suas folhas ao ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho,
mas o seu canto era triste, muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas
rasões para se affligir: haviam-n'a agarrado e mettido n'uma
gaiola, suspensa entre uma janella aberta. Cantava a alegria da liberdade,
a belleza dos campos e as suas antigas viagens atravez do espaço
illimitado.
O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe
acudir: mas como? Era difficil. A compaixão pelo pobre passarinho
prisioneiro, fez-lhe esquecer
inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura
resplandecente das suas proprias folhas.
N'isto dois rapazinhos
entraram no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e
afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas.
Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o que
desejavam.
«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de
relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e começou a fazer um
quadrado profundo à volta da florinha.
--«Arranca
a flor, disse o outro.»
A estas palavras o malmequer
estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era morrer; e nunca tinha abençoado
tanto a existencia, como no momento em que esperava entrar com a relva na
gaiola da cotovia.
«Não; deixemol-a, disse o mais
velho. Está ahi muito bem.»
Foi por conseguinte
poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre passarinho,
queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia com as azas nos arames
da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus desejos,
articular-lhe uma palavra de consolação.
Passou-se assim toda a manhã.
«Já não
tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao
menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre terrivel,
sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do
sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
creação!»
Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu então
o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,
afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez
do mundo inteiro, que eu tinha à minha disposição,
deram-me um pedacito de relva, e a ti só por unica companhia. Cada
pésinho de relva substitue para mim uma arvore, e cada uma das tuas
folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! como me fazes recordar de todas as
coisas que perdi!
--Se eu podesse consolal-a! pensava o
malmequer, incapaz de fazer o minimo movimento.
Comtudo o
perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia
sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a herva,
teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.
Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta
d'agua á desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas
azas, sacudindo-as convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha
melancolica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração
quebrado de desejos e d'angustias cessou de bater. Vendo este triste
espectaculo, o malmequer não pôde como na vespera fechar as
suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.
Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o
passarinho morto, rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram
o cadaver dentro d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro
de principe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas.
Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava,
esqueceram-se d'elle e deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de
morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposissimas.
A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada;
d'aquelle que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.
Não quero
Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.»
Parei e perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu
rapaz?--«Não quero dizer á mamã que venho da
escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, mas antes quero
que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe eu.
És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto
que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo,
ia-se embora todo envergonhado.
D'ahi a alguns mezes, passando
pela mesma aldeia e tendo de fallar com o professor, entrei na escola,
onde reconheci immediatamente os meus dois pequenos; o que não quiz
mentir, sorria-me, emquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao
despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alumnos: Oh! disse-me elle,
fallando do primeiro, è um magnifico estudante, um pouco teimoso,
mas honrado, sincero, sempre prompto a confessar as suas faltas e o que
é ainda melhor, a reparal-as. O outro pelo contrario, é
mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto, disse
eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças;
e contei-lhe o que tinha ouvido.
Piloto
Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães,
e o infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.
Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João
lhe lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na
bocca e trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da
sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava
vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do Piloto. Depois eram
corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do creado
da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:
partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.
Quando o
hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da
carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a
parede da quinta.
Uma vez deu prova d'uma extraordinaria
sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar saccos
de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um sacco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração
de hostilidade emquanto o homem seguiu
o
caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o
guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.
Era como se
dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»
O
ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha
tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem
o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta
difficil posição, reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem
divulgar o caso para o não deshonrar.
Mas o homem ficou
com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausencia do
quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para elle sem
desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até
á margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra á
outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o á agua;
mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço, caiu tambem.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda
do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado
duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que
estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o cão
que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.
Teve
vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo
e combateu as suas más inclinações.
O
exemplo do cão corrigiu o homem.
O rico e o pobre
Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para
jantar, quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com
o seu preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham
tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
vinho.
Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois
para a sua codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu
chapeo todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle
menino tão rico, em vez do desgraçado Martinho! que fortuna
se elle estivesse aqui, e eu dentro d'aquella carruagem!» O
preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu
alumno, que, lançando a cabeça fóra da carruagem,
chamou Martinho com a mão.
--Ficarias muito contente, não
é verdade, meu
rapaz, podendo
trocar a minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor,
replicou Martinho córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não
estou zangado comtigo, replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo
fazer a troca.»
--Oh! está a divertir-se comigo!
tornou Martinho, ninguem quereria estar no meu lugar, quanto mais um bello
e rico menino como o senhor. Ando muitas leguas por dia, como pão
secco e batatas, emquanto que o senhor anda n'uma carruagem, póde
comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, volveu o fidalguinho, se me
queres dar tudo aquillo que tens e que eu não tenho, dou-te em
troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos
espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou:
«Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, ainda m'o
pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada de me ver
entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a idéa
da entrada triumphante na sua aldeia.
O fidalguinho chamou os
criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a
surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma perna de pau e que a outra
era tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois,
olhando para elle de mais perto, Martinho observou que era muito pallido e
que tinha cara de doente.
Sorriu para o rapazito com ar
benevolo, e disse-lhe:--Então sempre desejas trocar? Querias
porventura, se podesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces córadas,
pelo prazer de ter
uma carruagem e andar
bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro os
meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças
a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.
«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e
comes mal, tens força e saude, coisas que valem mais que uma
carroagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.
Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
Tinha o coração duro, e não dava esmolas.
Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitencia resar sete
vezes o Padre Nosso.
«Não o sei, e nunca o pude
aprender, respondeu o aldeão.»
«Pois n'esse
caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a credito um
alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da minha parte.»
No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.
«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo,
respondeu o pobre.»
«E o teu appellido?»
«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
E o
pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao outro dia
chega segundo pobre.
«Como te chamas?
«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
«E o teu appellido?»
«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
E partiu com o seu alqueire de
trigo.
Veiu terceiro pobre.
«Como te chamas?»
«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»
«E o
teu appellido?»
«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda dois pobres
successivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao
_Amen_.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
«Então já sabes o Padre Nosso?»
«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos
pobres a quem emprestei o meu trigo.»
«Quaes são?
tornou o padre.»
E o aldeão enumerou-lh'os a
seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.
«Já vês, disse o confessor, que não era muito
difficil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
O talisman
Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria,
mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se,
o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus
negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção
da sua casa.
«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu
collega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um modo
tão differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está
tão bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu
não faço senão perder. E não é porque
eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado
algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso
talisman.»
«Effectivamente, respondeu o outro,
herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao
pescoço, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do
celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso é que
tudo me corre perfeitamente.»
«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa
reliquia preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de
que t'a restituo.»
«Pois vem buscal-a ámanhã
de manhã.»
Quando ao outro dia foi procurar o seu
generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avellã, através
da qual tinha tinha passado um fio de seda.
O nosso homem pòl-a
immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa
com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha
o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feijão;
na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos;
viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
terceira pessoa na direcção dos seus negocios.
Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.
A alma
«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão
para o Paraizo. O outro dia vi levar para o cemiterio um menino que tinha
morrido; o seu papá e as suas duas irmãsinhas acompanhavam o
caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a chorar porque
aquelle menino tinha sido mau, não é verdade?»
«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
emquanto choravam seus paes e suas irmãs, já estava vivendo
feliz no Paraizo.»
«A alma? mamã; não
sei o que é; não comprehendo bem.»
«Maria,
acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»
«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e
triste? eram os braços?»
«Não, mamã.»
«Eram as orelhas?»
«Oh! não mamã,
era
cá dentro.»
«Esse
lá
dentro, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
praticas o bem.
Alberto
Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e
seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma
talhada de batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra
pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma
libra no quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu
jardimzinho. «Ha de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará
libras como uma cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá,
que ficará muito contente.» Todas as manhãs ia ver se
a libra tinha nascido, mas não rebentava nada. Entretanto o pae
procurava a libra por toda a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a
tinha visto.
«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»
«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma
couve?»
«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se
encontrava na terra.»
«É verdade, mas não
nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
Desenterrou-se a libra, e Alberto foi
castigado por dispor do que lhe não pertencia.
Ha
comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir
os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como é?
é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa
sementeira.
A canção da cerejeira
Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!»
E a cereijeira cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de
folhas, fresquinhas e verdejantes.
A lagarta, que estava
dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a bocca,
esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as folhinhas tenras,
dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem
é que me arranjou este banquete?»
Então
Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a
cereijeira cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores
delicadas e brancas.
E a abelha matinal aos primeiros raios da
aurora pousou sobre ellas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café;
e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»
Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não
pouparam o assucar!»
No verão disse Deus: «Ponham
a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira cobriu-se de mil fructos
appetitosos e vermelhos.
«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião;
temos appetite, e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar
uma nova canção.» No outono disse Deus: «Levantae
a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento frio das
montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.
As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as
esvoaçar.
Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o
resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja
mortalha tudo dorme e descança.
Os gigantes da montanha e os anões da
planicie
Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície
a ver o que faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe
pareciam anões. Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido
á caça e sua mãe estava dormindo, a joven giganta
desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou
surprehendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas
para ella. «Oh! que lindos brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e
estendeu por terra o avental, que quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe
dentro os homens, os cavallos, a charrua; de dois passos tornou a subir a
montanha, e entrou no castello, onde seu pae estava a jantar.
--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.
--Olhe,
disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais
bonitos que tenho visto.»
E pol-os em cima da mesa, a um
e um,--os cavallos, a charrua e os trabalhadores, que estavam
todos espantados, como formigas a quem
tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle.
Isso não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem
estimar-se e respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de
lavrar a terra e de semear o trigo.
A creança, a anjo e flôr
Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos
braços, e desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os
sitios que ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se
de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma creança
morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro sobre a
casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
deliciosos, cobertos de flores.
«Qual é a flor que
desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.
Havia
n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, magnifica; mas
quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de botõesinhos
lindissimos pendiam estiolados para o chão.
«Pobre
roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
reflorir no paraiso.»
O
anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas
flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
A
colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus.
Caiu a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam
ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas,
cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a
casta de immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um
vaso de flores com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes
d'uma flor dos campos, já murcha, e que parecia não poder
reverdecer: tinham-n'a atirado para a rua como inutil e morta.
«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho,
voando, te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá
ao fundo, naquella rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma
creança miseravel e doente. Quando se sentia melhor, o mais que
podia conseguir era passeiar com a ajuda das moletas ao longo de seu
pequenino quarto. Em certos dias de verão os raios do sol
visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Então a creança
sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o
ramo verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol,
sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho
trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que
tinha ainda raizes;
o pequerrucho
plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da cama. A flor
plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que
se voltou.
«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita
no paraiso; a sua querida flor, esquecida á janella desde então,
murchou, estiolou-se e atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo
esta flor quasi secca é o thesouro do nosso ramilhete. Deu mais
prazer e alegria do que todos os canteiros d'um jardim realengo.»
«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o
anjo levava para o céo.
--Sei-o, respondeu o anjo,
porque era eu o pequenino doente que andava em moletas; como não
havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
A creança
abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam no céo
onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao
coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
formando circulos que vão augmentando successivamente,
multiplicando-se até ao infinito, povoados
de seres inteiramente felizes, cantando todos harmoniosamente--desde a
creança abençoada até á humilde florinha do
campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
tortuosa.
Presente por presente
Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de
noite á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não
tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o
o melhor que pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe
ia dar, porque eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia
offerecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre a
palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas
souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha
do que n'um leito de principes. Ao outro dia pela manhã disse isto
mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda
de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma
pequena lembrança, a boa camponeza julgou que seria uma medalha, e
sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao pescoço.
Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha
acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos
e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:
«Esse forasteiro era nada mais nada
menos do que o nosso principe!
E o bom do homem não
podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas
melhores do que faisões.
«É necessário
confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha talvez no
mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das batatas;
hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.
E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de
batatas escolhidas.
Os lacaios e as sentinellas ao principio não
o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que não
vinha pedir nada, e que pelo contrario vinha trazer alguma cousa.
Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.
«Meu
senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir
hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis o
motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das batatas,
que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
A honrada
simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava n'um momento
de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta geiras
de terra.
Ora o carvoeiro
tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da
fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não
me ha de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer presente
d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
recompensar ainda mais generosamente.»
Tirou o cavallo da
estrebaria e levou-o para defronte das portas do palacio; recommendou ao
creado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios,
penetrou na sala da audiencia.
«Ouvi dizer, disse elle,
que vossa alteza gosta do meu cavallo; não tenho querido trocal-o a
dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o offereça.»
O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e
disse comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que
mereces:
Depois dirigindo-se a elle:
«Acceito
a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões.
Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom preço
para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
O pinheiro ambicioso
Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua
sorte. «Oh! dizia elle, como são horrorosas estas linhas
uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou
um pouco mais orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para
andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã
acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e
admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros
pinheiros, que, mais sensatos do que elle, não invejavam a sua
rapida fortuna. Á noite passou por alli um judeu, arrancou-lhe
todas as folhas, metteu-as n'um sacco, e foi-se embora, deixando-o
inteiramente nu dos pés á cabeça.
«Oh!
disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de
oiro; o oiro attrae as ambições.
Ah! se eu
arranjasse um vestuario de vidro! Era
deslumbrante, e o judeu avarento não me teria despido.»
No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam
ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e
orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo
cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza
negra as folhas de cristal.
«Enganei-me ainda, disse o
joven pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto
cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas.
Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria menos brilhante,
mas viveria descansado.»
Cumpriu-se o seu ultimo desejo,
e, apesar de ter renunciado ás vaidades primitivas, julgava-se
ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos.
Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de
nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as todas sem deixar uma unica.
O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria
voltar á sua fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e
nunca mais se queixou da sua sorte.
Perfeição das obras de Deus
A filha.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
A mãe.--Vou-te dar outra.
A filha.--Como
se fazem as agulhas, mamã?
A mãe.--Vê
se adivinhas.
A filha.--Nã sei, mamã.
A mãe.--Conheces os metaes?
A filha.--Conheço
mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de uma caixa.
A mãe.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas
são de pau, de pedra, de marmore?
A filha.--Oh!
não; são de metal; mas de que metal?
A mãe.--Antes
de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.
A filha.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não
é de prata, porque não é branca; não é
de oiro, porque não é de um lindo amarello muito brilhante;
não é de cobre, porque não é de um amarello
muito feio, que cheira mal... Então é de ferro, mamã?
A mãe.--Adivinhaste.
A filha.--Mas,
mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
A mãe.--É
que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
se não chama ferro, é aço.
A filha.--Bem,
as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é
que as fazem.
A mãe.--É impossivel, não
és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma fabrica onde se fazem
agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar muito.
A
filha.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
nos servimos.
A mãe.--Tens razão;
é uma vergonha ignoral-o.
A filha.--Mamã,
deixe-me ver as suas agulhas.
A mãe.--Olha, ahi
tens o meu estojo.
A filha.--Meu Deus! Que pequeninas
algumas! Que lindas! São tão fininhas, tão
fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para fazer uma coisinha
tão delicada!
A mãe.--Lembras-te de ver
na feira um carrinho de marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia
de oiro?
A filha.--Lembro, mamã; era tão
bonito!
A mãe.--Li n'um jornal allemão
que um operario chamado Nerlinger fez um copo de um grão de
pimenta, e que dentro d'este copo havia mais doze...
A
filha.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um grão
de pimenta!
A mãe.--E ainda não é
tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se
no pé.
A filha.--Que vontade eu tinha de ver
isso!
A mãe.--Tens razão de te admirares
da habilidade dos homens. É effectivamente espantoso, e
deve saber-se, o modo porque se fabricam
certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.
A filha.--Quaes, mamã?
A mãe.--Já
t'o digo. (
Levanta-se.)
A filha.--Que quer,
mamã?
A mãe.--Quero que vejas o
microscopio de teu papá.
A filha.--Pois sim; eu
gosto de olhar pelo microscopio.
A mãe.--Este
é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes ver a
mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
A filha.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão
grosseira!
A mãe.--Vês-lhe buracos,
riscos, asperesas, não é verdade?
A filha.--Parece
um prego muito grande e muito mal feito.
A mãe.--Pois
todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá
por ellas.
A filha.--O operario que fez esta agulha
ficaria envergonhado, se a visse ao microscopio.
A mãe.--Tiremos
a agulha, e vejamos outra coisa.
A filha.--O quê,
mamã?
A mãe.--O aguilhãosinho de
uma abelha.
A filha.--Oh! que pequenino, que
bonito!... Como é liso, como é brilhante!... Mas já
sei que visto ao microscopio ha de acontecer o mesmo que com a agulha.
A mãe.--Prompto:
olha.
A filha (olhando).--É exquisito, mamã!
A mãe.--Então?
A filha.--Augmentou,
augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não
tinha ponta, e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão
fina como um cabello. Porque será isto, mamã?
A
mãe.--É porque o operario que fez este aguilhão
é muito mais habil do que o que fez a agulha.
A
filha.--Quem é esse operario tão habil?
A
mãe.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as
plantas e as creaturas.
A filha.--É Deus.
A mãe.--Exactamente. Pois não é Deus
que fez as abelhas e todos os animaes?
A filha.--De
certo.
A mãe.--Foi elle por conseguinte que fez
o aguilhão d'esta abelha; e ahi tens porque o aguilhão
é superior á agulha: é obra de Deus. Mas continuemos
a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de musselina
finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?
A filha.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.
A mãe.--Aqui tens agora um pedacinho de renda
delicadissima.
A filha.--Essa estou bem certa que ha
de ser linda, mesmo vista pelo microscopio.
A mãe.--Então?
A filha.--É horrorosa... Parece feita de pellos
grosseiros com grandes buracos deseguaes.
A mãe.--As
obras do homem são todas assim.
A filha.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
A mãe.--Sabes o que é isto?
A
filha.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
A mãe.--Os fiosinhos que o compõem são
muito finos, muito lisos; olha pelo microscopio a ver se te parecem
deseguaes.
A filha (olhando pelo microscópio).--Não,
mamã; os fios são todos eguaes, e o casulo é sempre
muito liso, muito brilhante.
A mãe.--É
porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha sobre
este papel?
A filha.--Pontinhos feitos com tinta e
manchasinhas redondas feitas também com tinta.
A mãe.--Estes
pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?
A filha.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
A mãe.--Vê-os agora ao microscopio.
A
filha.--Oh! já não são redondos, são
todos deseguaes.
A mãe.--Tira o papel; vejamos
a obra de Deus. É uma aza de borboleta; vês que está
mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscopio; o que
é que vês?
A filha.--Vejo a mesma coisa
que via sem o vidro, só com a differença que agora é
maior. Que bellas que são as obras de Deus!
A mãe.--Merece
bem a pena estudal-as.
A filha.--De certo. Farei
sempre por isso, comparando-as com as obras dos homens.
A mãe.--E
sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do homem, emquanto
que
as obras de Deus, quanto mais se
observam, mais perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas
coisas: a primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração
como o nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são
insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente bello,
perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias
de imperfeições, se as compararmos com as obras do Creador.