João e os seus camaradas
Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno
rigoroso, possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João
resolveu-se a correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu
o resto da farinha, matou o gallo, e disse-lhe:
«O que
é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção,
ou toda com a minha maldição?»
«Que
pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no mundo eu
quereria a tua maldição.»
«Bem, meu
filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te abençôe.»
E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento,
que tinha caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.
«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi
a afogar-me.»
«Espera, respondeu João.»
E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar
o quadrúpede do atoleiro.
«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te
posso ser util, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»
--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha
vida.»
«Queres tu que eu te acompanhe?
«Anda d'ahi.»
E puzeram-se a caminho.
Ao
passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a
ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa
te for prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»
«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»
«Queres que te acompanhe?»
«Anda d'ahi.»
Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma
erva que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a
miar lastimosamente.
Coitado, exclamou João!» E
deu-lhe uma asa do frango.
--«Obrigado disse o gato. Oxalá
que um dia eu te possa ser util. Aonde vaes tu?
--«Procurar
trabalho. Se queres, anda comnosco.»
--De boa vontade.
Os quatro viajantes puzeram-se a
caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um grito dilacerante, e viram uma
raposa correndo a toda a brida com um gallo na bocca.
«Agarra!
agarra!» bradou o pequeno ao cão.
E no mesmo
instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em perigo,
largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente disse a João:
--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde
vaes tu?»
--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?
--«De boa vontade.»
--Então anda. Se
te cançares, empoleira-te no jumento.»
Os
viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma
quinta, nem uma cabana.
--«Paciencia, disse João,
outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre;
além d'isso a noite está socegada, e a relva é macia.»
Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado
d'elle, o cão e o gato aninharam-se entre as pernas do burro
complacente, e o gallo empoleirou-se n'uma arvore.
Dormiam
todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou a
cantar.
--«Que demonio! disse o jumento accordando todo
zangado. Porque é que estás a gritar?»
--«Porque
já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a
luz da madrugada, que vem rompendo?»
--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol,
é d'uma lanterna. Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos
poderiamos recolher o resto da noite.»
Foi acceita a
proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez dos campos, até
que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, d'onde subiam
gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasphemias horriveis.
--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho,
a ver quem é que está lá dentro.»
Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se
banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.
--«Que
bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que
é este porteiro. Á sua saude!»
--«Á
saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
E d'um trago despejaram os copos.
João voltou-se
para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
--«Uni-vos
uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der signal, rompei
todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»
O burro,
levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao
peitoril d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o
gato á cabeça do cão e o gallo á cabeça
do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes
do gallo.
--«Agora,
bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»
No mesmo
instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando cada vez mais;
os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
precipitadamente por uma porta falsa.
João e os seus
companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um excellente jantar,
e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na cavallariça,
o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão
e o gallo n'um poleiro.
Ao principio os ladrões ficaram
muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas
depois, começaram a reflectir.
--«Era bem melhor a
minha cama, do que esta erva tão humida, disse um d'elles.»
--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear,
disse um outro.»
--«E que rico vinho aquelle!
accrescentou o terceiro.»
--«E o que é mais
lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
gavetas.»
--Vou ver se torno lá a entrar? disse o
capitão.
--Bravo! exclamaram os ladrões.
E poz-se a caminho.
Já não havia luz na
casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se para o
fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as
garras.
Soltou um grito doloroso, correu
para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma
grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da
porta. Mas quando ia a sair, o gallo atirou-se a elle, rasgando-o com o
bico e com as unhas.
--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o
capitão, como poderei eu sair!»
Julgou encontrar
refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o
deitou quasi morto ao meio do chão.
Passado algum tempo
veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços
partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
--Então?
então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que
o trago n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha
fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na
cara com o cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair
a porta, um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a
sovella. Logo depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me
com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se
vocês me não acreditam, vão lá, e experimentem.»
--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo
todo ensanguentado: Não seremos nós que lá
tornaremos.»
Pela manhã, João e os seus
camaradas almoçaram
ainda
excellentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro
que os ladrões lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente
dentro de dois saccos, com que carregou o jumento. Foram andando, andando,
até que chegaram á porta do castello. Diante d'essa porta
estava o malvado do porteiro, com uma libré esplendida, meias de
seda, calções escarlates e cabello empoado.
Olhou
com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se
embora?»
--Não queremos nada de ti, respondeu João.
O dono do castello far-nos-ha um bom acolhimento.
--Fóra
d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar
immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os
meus cães de fila.»
--Perdão, só um
instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do jumento; não
me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
passada a porta do castello?»
O porteiro córou. O
conde que estava á janella, disse-lhe:
--Ó Bernabé,
responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.
--Senhor,
replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui
eu que abri a porta aos seis ladrões.
--Como é
então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o
dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que
nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cançados
do caminho.
--Ficae certos que sereis bem tratados.
O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou
na cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés
á cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio
d'ouro, e disse-lhe:
--Queres ficar comigo? És esperto e
honrado, serás o meu intendente.»
João
acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé
de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.
O rabequista
Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram
uma egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.
As
rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em
romaria um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada
tinha sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge
não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.
Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca
com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou
enternecida ao vel-o tão pobre e ao escutar aquella musica
deliciosa. Quando terminou, Santa Cecilia abaixou-se, descalçou um
dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o ao pobre musico, que tonto
d'alegria, dançando, cantando, chorando, correu á loja d'um
ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa,
prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do juiz.
Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o,
e foi condemnado á morte.
Chegára o dia da execução.
Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo poz-se em marcha ao som dos
canticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons
da rabeca do condemnado, que pedira, como ultima graça, o
deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. O cortejo
chegou defronte da capella da santa, e quando pararam supplicou o triste
desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
derradeira melodia.
Os padres e os chefes da escolta
consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e
debulhado em lagrimas começou a tocar. Então o povo,
maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de novo, descalçar
o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
Os pecegos
Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria.
Á noite o pae perguntou-lhes:
--Então comeram os
pecegos?
--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era!
Guardei o caroço, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.»
--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar
no futuro.»
--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o
logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era
doce como mel.»
--Ah! acudiu o pae, foste um pouco
guloso, mas na tua edade não admira; espero que quando fores maior
te has de corrigir.»
--Pois eu cá, disse um
terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fóra,
quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu
pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á cidade.»
O pae meneou a cabeça:
--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.
--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?
--Eu, meu pae,
respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que está
coitadinho com febre. Elle não o queria, mas deixei-lh'o em cima da
cama, e vim-me embora.
--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós
é que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?
E os três
pequenos disseram á uma:
--Foi o mano Eduardo.
Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o
com os olhos arrazados de lagrimas.
A urna das lagrimas
Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só
momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu
e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias,
sem repousar um momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de
magua e de saudades. Não comia, não fazia senão
chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no
mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do
quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma
expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha
cheia até ás bordas.
--«Oh! minha querida mãe,
disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu
as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas
lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando
a minha felicidade no paraiso.
A pequenina desappareceu, e a mãe
não tornou a chorar para a não affligir.
Reconhecimento e ingratidão
Os vossos filhos serão para vós como vós
tiverdes sido para vossos paes. E é natural. As creanças
veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta
maneira o proverbio que diz,--que a benção ou a maldição
d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por
se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.
Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava
muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas
que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
principe, que para as suas despezas d'administração e
representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe
ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios,
andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão,
que lhe respondeu:
«Gasto diariamente comigo a terça
parte d'essa quantia; outro terço é para pagar as minhas
dividas;
e o resto é para ir
juntando algumas economias.»
Era um novo enigma para o
principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.
«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não
podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força
para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na
minha infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando
os annos tiverem pesado sobre mim.»
O principe, ouvindo
isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educação
de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente
a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu
d'uma maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que
este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho
ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma
tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade
fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como
ultima esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe
servia de leito. O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e
disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse
velho rabujento_. Mas notou que a creança ao partir tinha escondido
um dos lençoes a um canto, atraz da porta.
Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque
fizera aquillo.
«Foi, respondeu a creança
desabridamente, para me servir mais tarde d'este lençol, quando
pela minha vez te mandar tambem para o hospital.
O fato novo do sultão
Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu
rendimento.
Quando passara revista ao exercito, quando ia aos
passeios ou ao theatro, não tinha outro fim senão mostrar os
seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz d'um
rei: Está no conselho; dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A
capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças á
quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um
dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam
fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só eram
extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além d'isso
os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade maravilhosa:
tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos aquelles que não
exercessem bem o seu emprego.
--São vestuarios
impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, saberei
distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos
ministros. Preciso d'esse estofo!»
E mandou em seguida
adiantar aos dois charlatães
uma
quantia avultada, para que podessem começar os trabalhos
immediatamente.
Os homens levantaram com effeito dois teares, e
fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada
nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante;
mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até
á meia noite com os teares vasios.
--«Preciso
saber se a obra vae adiantada».
Mas tremia de medo ao
lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E,
apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente em
todo o caso mandar alguem adiante.
Todos os habitantes da
cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos
de verificar se seria exacto.
--Vou mandar aos tecelões
o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento, e por
isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o estofo.
O
honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com
os teares vasios.
--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os
olhos, não vejo absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se.
Os dois tecelões convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua
opinião sobre os desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o
velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela rasão
simplicissima de nada lá existir.
--Meu Deus! pensou
elle, serei realmente estupido? É necessario que ninguém o
saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que
não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
--«Então que lhe
parece?» perguntou um dos tecelões:
--«Encantador,
admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este desenho... estas
cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei completamente
satisfeito.»
--«Muito agradecido, muito agradecido»,
disseram os tecelões; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios,
fazendo-lhe d'elles uma descripção minuciosa. O ministro
ouviu attentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.
Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais
oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso
trabalhavam sempre.
Passado algum tempo, mandou o sultão
um novo funccionario, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando
estaria prompto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao
ministro: olhava, olhava e não via nada.
--Não
acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente de
não existir.
--Mas que diabo! eu não sou tolo!
dizia o homem comsigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu
lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o deixo eu.»
Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração
pelo desenho e o bem combinado das cores.
--É d'uma
magnificencia incomparavel, disse
elle
ao sultão. E toda a cidade começou a fallar d'esse tecido
extraordinario.
Emfim o proprio sultão quiz vel-o
emquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas
distinctas, entre as quaes se contavam os dois honrados funccionarios,
dirigiu-se para as officinas, em que os dois velhacos teciam
continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de especie alguma.
--Não acha magnifico? disseram os dois honrados
funccionarios. O desenho e as cores são dignos de vossa alteza.»
E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali
estavam podessem ver alguma cousa.
--Que é isto! disse
comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça
que me acontece!» Depois de repente exclamou: «É
magnifico! Testemunho-vos a minha satisfação.»
E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito
olharam do mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e
no entanto repetiam como o sultão: «É magnifico!»
Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia
da grande procissão. «É magnifico! é
encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e
a satisfação era geral.
Os dois impostores foram
condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.
Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro,
trabalhando à luz de dezeseis velas.
Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-o com umas grandes
tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, e declararam, depois d'isto,
que estava o vestuario concluido.
O sultão com os seus
ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores levantando um braço,
como para sustentar alguma cousa, disseram:
«Eis as calças,
eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; ó a
principal virtude d'este tecido.»
--Decerto, respondiam
os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
--Se vossa alteza
se dignasse despir-se, disseram os larapios, provar-lhe-iamos o fato
deante do espelho.»
O sultão despiu-se, e os
tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca,
depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.
--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»
Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.
--Está
á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á
procissão, disse elle.»
--Bom! estou prompto,
respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito
do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.
E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um
docel deslumbrante, toda a gente na rua e
ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que cauda tão
graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, que não
via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os
fatos do sultão tinham sido tão admirados.
--Mas
parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do pae.
--É a voz da innocencia, disse o pae.
--Ha ali uma
creança que diz que o sultão vae em cuecas.
«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que
realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolução
de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com
respeito a cauda imaginaria.
Boa sentença
Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um
honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e
disse:
--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a
quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu
amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis d'alviçaras:
estamos pagos por conseguinte.»
O bom camponez, que nem
por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se
com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má
fé do avarento, deu a seguinte sentença:
--Um de
vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se
julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
encontraste,
e guarda-o até que
appareça o individuo que perdeu sómente setecentos mil réis.
E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciencia
até que appareça alguem que tenha achado os teus oitocentos
mil réis.
Os animaes agradecidos
Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a
quem perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
respondeu:
--«Senhor: eu sou um desgraçado, um
miseravel; nasci no vosso reino, e chamo-me
Ingratidão.»
--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
tomava-te ao meu serviço.»
O nosso homem prometteu
ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a
palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão
solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu
intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então
não conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha
compaixão dos desventurados.
Ora, na visinhança
do palacio havia uma floresta cheia d'animaes selvagens e perigosissimos.
O intendente mandou ahi fazer por toda a parte covas profundas, cobertas
com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, podessem ser agarradas.
Um dia que o intendente atravessava a
floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que
se precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.
Passado um
instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador,
ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança
de salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por
mais que gritasse, ninguem o vinha soccorrer.
Esqueceu-nos
dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado Antonio,
que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para ganhar o pão
necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem lá
foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção
não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem
era que estava ali.
--«Sou o governador do palacio do
rei, e, se me tirares d'aqui, prometto encher-te de riquezas; estou em
companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma enorme serpente.»
--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não
tendo para sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho;
bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá
pois, se cumpres a tua promessa?
O intendente continuou:
--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso
senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.»
Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou
com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão
atirou-se a ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro
julgava que era o intendente.
Quando chegou acima, o leão
agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora
à procura de jantar, porque tinha fome.
Antonio deitou
outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador,
enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a serpente; foi
necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este
não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o
palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as
brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã,
foi o pobre homem bater à porta do palacio. O porteiro
perguntou-lhe o que queria.
--«Faça-me o favor,
respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o homem com
quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»
O
porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na
floresta; que se ponha a andar, porque o não conheço.»
O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
O pobre homem tornou para casa mui descorçoado,
e contou á mulher a odiosa perfidia de
que tinha sido victima.
A mulher disse-lhe:
--«Tem
paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e foi
talvez por isso que te não pôde receber.»
Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á
porta do palacio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que
não tornasse ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado
a empregar meios violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:
--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez
Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não
penses mais n'isso.»
No dia seguinte o bom do homem
voltou á carga; e tendo o porteiro consentido á força
de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este encolerisado
atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre homem d'uma
tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do chão.
A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um burro,
poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis
mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair
dividas para pagar ao medico. Quando finalmente tinha recobrado algumas
forças, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha.
Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle tinha
ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de
si, e
este burro estava carregado de
saccos cheios de preciosidades. O leão, vendo Antonio, parou e
inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso agradecimento. Depois
d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal de que ficasse com o
jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal para casa, abriu os
saccos, e viu que estava rico.
No dia seguinte, voltando de
novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu
trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto lhe era agradecido.
Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado o burro com a lenha,
viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha tirado do fôjo, e
que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em que brilhavam três
côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao
pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto d'elle, e depois
dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio levantou a pedra,
examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ella
teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em
decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra,
offereceu-lhe por ella uma grande quantia. Antonio respondeu-lhe que a não
queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.
O velho
respondeu:
--«São três as virtudes d'esta
pedra: abundancia continua, alegria imperturbavel e luz sem trevas. Se
alguém t'a comprar por menos dinheiro do que vale, tornará
immediatamente para a tua mão.»
Antonio ficou
muito contente com esta resposta,
agradeceu ao velho da sciencia maravilhosa, e correu a contar á
mulher a sua felicidade. Como se imagina, graças á virtude
da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em diante, nem honras nem
riquezas.
Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas
prosperidades, mandou chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o
precioso talisman.
Antonio, vendo que semelhante desejo era uma
ordem, respondeu:
--«Devo prevenir a vossa magestade de
que, se esta pedra me não for paga pelo que vale, tornará
ella mesma para o meu poder.»
--«Hei de pagar-t'a
bem, disse o rei.»
E mandou-lhe dar trinta mil libras em
oiro. No dia seguinte de manhã, Antonio achou outra vez a pedra em
cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:
--«Torna
a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se
que lh'a furtaste.»
O nosso homem seguiu este conselho,
e, quando chegou á presença de sua magestade, pediu-lhe que
lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.
--«Mandei-a
metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete
chaves, disse o rei.»
Antonio mostrou-lhe então a
joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber
como elle tinha adquirido semelhante thesouro.
Antonio
contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
intendente, e disse-lhe:
--«Homem
preverso, com justo motivo te puzeram o nome de
Ingratidão,
porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e
pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será
feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o
castigo de seres enforcado.»
Admiraram todos a sentença
do rei, e Antonio desempenhou as suas altas funcções com
tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o
substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.
O ermitão
Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa,
deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente
ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando,
ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa
de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite
lembrou-se de que já tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e
podia ser contado entre os santos mais notaveis.
Na noite
seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
--Ha no
mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e
cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou
no seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
--Irmão, dize-me que
boas
obras fizeste, e por meio de que orações e penitencias te
tornaste agradavel a Deus.
--Ora, respondeu-lhe o musico,
abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca
fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre
de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em
casa a divertir os outros.»
O austero ermitão
continuou a insistir:
--Estou certo que, no meio da tua
existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»
--Em verdade não poderia citar nem um só.»
--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste
frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?»
--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo
marido e filhos tinham sido condemnados á escravidão para
pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a.
Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que
possuia para resgatar a sua familia, e levei-a á cidade, onde ella
devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não
teria feito outro tanto?»
A estas palavras o ermitão
poz-se a chorar, e exclamou:
--Nos meus setenta annos de solidão
nunca pratiquei uma obra tão meritoria, e apezar disso chamo-me o
homem de Deus, emquanto que tu não passas d'um pobre musico.»
Carlos Magno e o abade de S. Gall
Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S.
Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da
abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens
energicos e activos, e o abade era indolente. Além d'isso o
imperador tinha mais d'um motivo de queixa contra elle.
--Bons
dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a
bondade de me responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão
solemne do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu
valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
rev.
ma vier á minha presença, pensamento que deve
ser um erro. Trate d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás
deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um
burro com a cara voltada para o rabo.»
O abade não
sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores
mais
famosos pela sua sciencia, não
lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época
fatal aproximava-se; já não faltava senão um mez, já
não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O
abade, que n'outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um
esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. Andava errante nos bosques
lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.
--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está
doente?»
--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»
--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas
resposta ás minhas tres perguntas.»
--É então
latim?»
--Não, não é latim, senão
os doutores tinham-me arranjado tudo.»
--Visto que não
é latim, queira v. rev.
ma dizer-me o que é: minha
mãe era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»
Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
barrete ao ar, e disse-lhe:
--Se é apenas isso, eu me
encarrego de responder por si, e v. rev.
ma póde
continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
habito.»
Quando chegou o dia, o pastor disfarçado
com o habito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador
presidia o conselho imperial.
--Então, senhor abade,
parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do
enigma? Vamos lá a ver a primeira
pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»
--Senhor, o filho
de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por trinta dinheiros, sua
magestade vale á justa vinte e nove, só um dinheiro menos.»
--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não
posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda
pergunta, não ha de ser tão facil dar a resposta. Vamos lá
a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»
--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro
horas.»
--Decididamente, v. rev.
ma é um
grande finorio, e d'esta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não
d'essas á que se responde com supposições. Quem lhe
ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha de provar que este
pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
enganado, porque eu sou o seu pastor.»
--Mas então
tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
sendo.»
--Não sei latim, mas, se vossa magestade
quer fazer-me um favor, peco-lhe outra cousa.»
--Não
tens mais que fallar.»
--Peço a vossa magestade
que perdoe ao meu amigo.»
Carlos Magno não era
homem que faltasse á sua palavra.
A boneca
Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
boneca!
Não ha muitos annos, mas ainda não era a
cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infancia folga por entre
macissos de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o
espirito a vista dos dois monumentos, que a meu ver symbolisam as duas
mais horriveis calamidades, que podem aniquillar um homem--o hospital e a
cadeia!--ainda não ha muitos annos, repito, estava eu, uma noite,
encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.
Cançado
das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella especie de
lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, quando novos
personagens me chamaram a attenção.
Eram os meus
visinhos
ricos.
Aqui é preciso uma rapida
explicação.
Das famílias da minha visinhança,
só conheço tres.
Qual d'estas tres familias será
mais feliz?...
Pelo que tenho notado, não tem que
invejar umas ás outras.
São todas felizes; cada qual a seu modo.
Vi, pois,
chegar os meus visinhos
ricos.
Parou o carro, o creado
saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso
ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, tomou nos
braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se
com ella e com a menina para a barraca onde eu estava.
Não
havia ali segredo a surprehender.
Havia um homem, exemplar como
marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer áquella
formosa criança a manifestação de qualquer desejo.
No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
felicidade de dez crianças menos abastadas.
Tinha o
necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
rica.
Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
Todo risos e
attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.
Depois de muita hesitação e de, já com os
olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil creança
acabou por escolher uma magnifica boneca de dois palmos d'altura, com
cabello em
bandeaux e olhos azues.
Uma boneca como as
outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica recheada, braços
e pernas de páu.
Uma vive na loja da casa, que habito.
É uma tribu de crianças, que fazem o martyrio e a alegria da
pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.
Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam
encantadores; assim, parecem anjos, caidos do céo sobre um monte de
lama.
São os meus visinhos
pobres.
A
segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
immediata.
É como se costuma dizer, gente
que vae
muito bem com a sua vida.
A filha que terá dez
annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente
gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.
São os meus visinhos
remediados.
A
terceira é a dos meus visinhos
ricos.
Casa
nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
estado--nada falta áquella ditosa gente!
Compõe-se
egualmente de marido, mulher e filha.
Que formosa criança!...
Terá oito annos.
Franzina e pallida, com os cabellos
negros, os olhos grandes e scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas
mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas d'uma côr
de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz
namorado--provavelmente ainda a crescer--que hade um dia ter o direito de
lh'as cobrir de beijos.
Feita a compra, o pai pagou, chamou o
creado, e este mudou todas aquellas preciosidades de sobre o balcão
da barraca para dentro do carro.
A boneca teve a honra de ser
transportada pela aristocratica criança.
Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui
fazendo até casa variadissimas considerações,
suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina recebèra
brinquedos, que representavam um par de moedas.
Que contraste
com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da mesma idade
namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois
pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a
boca por outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã
preta!
Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos
remediados não havia luz.
Na dos meus visinhos
pobres,
o pai batia a sola, cantando ao som de tres assobios e duas campainhas de
barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.
Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas
da manhã.
Na rua agenciavam nova camada de immundicie os
filhos do sapateiro; na casa immediata não se via ninguem--estava a
pequena na mestra; no palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla
pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar,
com auxilio d'uma linha, uma magnifica
caleche descoberta, puxada
por cavallos brancos.
Dentro da
caleche pavoneava-se a
boneca opulentamente vestida.
--«Ahi está a tua
caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim para mim. «Ensaias
nas bonecas o que vês no mundo a
que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este
mundo!...»
Retirei-me da janella.
Durante uma
semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.
A boneca
ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia tres e
quatro vezes!
Ao que eu, porém, achava mais graça,
era ao respeito com que a dona a tratava!
Chamava-lhe sr.
a
D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente com a boneca um
d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que se falla de tudo,
sem se dizer coisa alguma.
Um dia,--estava eu de costas
voltadas para a janella dos meus visinhos
ricos--ouvi um grito de
susto.
Era devido a um accidente, a que está sujeito
quem anda de carro.
Voltára-se este, e a boneca caíra,
ferindo a fronte na pedra da janella.
O primeiro movimento da
pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, porém, que a ferida
havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só
lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés
e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais perto de mim bradou
voz timida e suplicante:
«Não atire!... Dê-m'a.»
Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra
fé até então.
Assim invocada, a menina
rica
franziu levemente
as sobrancelhas e lançou
um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.
Vendo
uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
encolhendo os hombros, respondeu:
--«Já não
presta!... Está esmurrada!...»
--É o
mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cubiça.
--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os
hombros.
E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a
boneca nas mãos da visinha, que tremia, receiosa de que aquelle
thesouro fosse despedaçar-se nas lages da rua.
Fugiram
ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra,
para mostrar á mãe a que ella ainda não podia
acreditar, que fosse sua!
Por espaço de mezes foi a
boneca a principal occupação da nova dona.
A
pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia!
Chamavam-lhe sr.
a D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos,
do desmazello da creada, da missa das almas, de coisas finalmente,
completamente estranhas para ella!
E a desgraçada perdia
as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azues; mas o que
mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais
escura: parecia uma nodoa, um estygma!
Nos primeiros tempos,
emquanto durou o vestido,
que trouxera
no corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto,
fitas velhas, rendas amarelladas, chapéos impossiveis, viessem
contrastar com a elegancia do vestido. Dava ares de se ter equipado ao
acaso, na loja d'uma adeleira.
Mas o vestido foi-se tornando
velho; desappareceu o brilho, e com elle as ondulações do
_moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.
Muito mal
lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o vêr-se
tão mal arranjada.
Eu retirei-me da janella soltando um
suspiro, e balbuciei:
--É justo!... Cada qual segundo as
suas posses.»
Por esse tempo, entrei em relações
com o meu visinho sapateiro.
O honrado homem soubera, que eu me
queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra
a primeira occasião, para me pedir desculpa.
Vendo-me
conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de
nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave
risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.
Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze
annos, com quem sympathisei logo á primeira vista.
Chama-se Maria.
Por um d'estes acasos da Providencia, que
parece
ás vezes comprazer-se em
crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do
sapateiro, fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.
E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança,
porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
«Esta é a minha Maria!»
E tinha razão!
Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo
era.
--É quem vale á mãe!...--accrescentou
o velho.»--Ali, onde a vê, faz o serviço d'uma
mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve doente--bem pensei
que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e olhava pelos irmãos!...
E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella pequena esteve tres dias
sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu
obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»
E o
desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, havia
muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
cabeça coberta por um lenço branco.
Desde que o
pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca
mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
á pequena.
Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a
Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.
--Eu conheço aquella boneca!...--disse
eu de mim para mim.
E, não podendo resistir á
curiosidade, bradei:
--Ó Maricas!... Quem te deu a
boneca?...
Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita,
córando de prazer.
Era escusado dizer-m'o.
Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não
podia duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez
mais visivel na fronte.
De tempos a tempos, nas raras horas de
descanço, Maria entretinha-se com ella.
--Quem te viu e
quem te vê!...--pensava eu.
Ás vezes, se Maria se
descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que tratos que sofria a
desgraçada!
Roçada por aquellas mãos, de
que um carvoeiro se envergonharia, empregada como pella, submettida a
torturas, era, ainda assim, singularissimo o aspecto da triste!
Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
fraternisar com o povo.
A misera mudára mais uma vez de
nome!...
De sr.
a D. Anna passara a ser sr.
a
Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.
Trajava vestido de
chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.
Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava
com a boneca.
Esta, umas vezes, representava o papel de mulher
casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ella,
obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por
haver
falta de trabalho, por ter os
filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que mais familiares eram
á pequena.
Outra vezes passava a boneca a ser creada de
servir. Reprehendiam-n'a, mandavam-n'a buscar agua á fonte,
pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.
Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára
de ser feliz.
Iam longe os bons tempos em que ella, rica,
morava no palacio visinho!
Desmaiada de côres, quasi
perdido o cabello, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos labios, a
boneca não promettia longa duração.
Foi
este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, tentando em
vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.
Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
Um
dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem
mil immundicies.
Eu estava á porta de casa, esperando
que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a agua negra, que
corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei
machinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja,
atravessou o espaço voando, e foi cair no leito do enxurro...
Olhei... Era a boneca!...
A misera, arrastada pela agua,
vogou rua abaixo até esbarrar n'uma pedra; mas o redemoinho
envolveu-a,
e, depois de a fazer girar
tres ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado
entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até
ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na
passagem!
Será pieguice, será o que o leitor
quizer; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.
Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á
vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?
--Não
fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...
--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
feia!...
Curvei a cabeça ante aquella razão, e
segui o meu caminho.
Pobre boneca!