Inconveniente da riqueza
Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado
para outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas,
tudo estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do
mangual com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz.
Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma
quinta, e bateu á porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.
--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta
noite? Não se havia de arrepender.»
E
accrescentou:
--Visto que já todos estão
deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»
--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser
perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã
o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo
que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto
não nos fica nada,
e não
sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus quizer!»
Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão
pelos olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e
disse-lhe:
--«Não desanimes. Quando te pedi
hospitalidade, disse-te que não te havias d'arrepender de m'a ter
dado. Vou provar-t'o.»
Pegou na candeia, que estava
suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.
--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
tudo!»
Mas no mesmo instante, da palha, que elles
receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos
prodigiosa. Á vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados
cairam de joelhos.
--Visto que foste caritativo, disse Jesus,
visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como
um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua
fazenda, é Deus que te enriquece.»
Dito isto
desappareceu.
E a chuva dos grãos não parou em
toda a noite, e fez um monte tão alto como a egreja.
O
camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus
filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se
arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem
os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
enormemente, entrou
no celleiro, e,
recordando-se do milagre que o enriquecêra, imaginou que tambem elle
o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha,
communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado
tempo morreu na miseria mais absoluta.
Querer é poder
--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver
por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é
verdadeira.
Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador
d'uma grande cidade.
--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos
que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo
disse-me muitas vezes--
Quem procura sempre encontra, e
quem
porfia mata caça. Tomei uma grande resolução.
Quero casar com a filha do rei.
O governador mandou-o embora,
imaginando que era um doido.
O rapaz voltou no dia seguinte, no
outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade
inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão.
Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo
divertir-se, disse-lhe o rei:
--Que um homem distincto pela
gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma
princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos?
Para seres o marido
de minha filha
é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por
um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um
diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a
mão de minha filha.
O rapaz, contente com esta promessa,
foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava
a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter
assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.
Os
peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
--Que quer
este homem? perguntou o rei dos peixes.»
--Encontrar um
diamante que caiu ao rio.»
--Então, respondeu o
velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque vejo qual
é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as
ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»
Os
peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do
rei.
Qual será rei?
Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia
pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais
digno.
Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse
posto de pé contra um muro, e que o principe que acertasse melhor
com uma flecha n'aquelle alvo, seria o escolhido para successor.
Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou
durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do
defuncto. O principe soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos
atirariam peór, e que por conseguinte seria elle quem viria a
reinar.
O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um
grito ainda mais alegre do que o outro principe.
O terceiro
varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar
melhor.
Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe
metter nas mãos as flechas e o arco: mas,
desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a
chorar:
--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle,
como poderei eu jámais consolar-me de ver o teu corpo crivado de
flechas pela mão de teus proprios filhos!»
Os
grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
digno.
Os tres véos de Maria
O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a
neve. Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma
grinalda de flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas,
illudidas, vinham pousar-lhe em cima.
Este véo branco só
o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.
O
segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo
dia em que sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha,
sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpetuas roxas,
como as dos sepulchros de marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o
orvalhado com todas as suas lagrimas.
O véo negro só
o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da
Ave-Maria.
O terceiro véo era feito d'um retalho do azul
celeste, bordado d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.
Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella
entrou no paraizo.
Os pequenos no bosque
Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar:
«Vamos para o bosque que encontremos lá toda a especie de
lindos bichinhos, que não fazem outra cousa senão brincar, e
nós brincaremos com elles.»
Foram logo, e passaram
sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o
besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:
--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
outra já não está solida.»
--Eu,
disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»
--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
ninho.»
--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir
divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho.
Antes de mais nada, tenho que fazer a minha
toilette.»
E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores,
que passas o tempo a saltar e a tagarellar,
tambem não queres brincar comnosco?»
--Estes
pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então
imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não
descanço nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos
animaes, ás colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho
que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as
serralherias. Nem hoje acabára, se lhes quizesse contar o que tenho
que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com
muita pressa.»
Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a
olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.
--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»
--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o
pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além
d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o
operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com
uma outra cantiga, que á noite e de madrugada celebre a bondade do
Creador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e
não tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada
um tem a sua tarefa a desempenhar.»
Os pequenos
aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só
é ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.
O chapellinho encarnado
Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem
sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha,
que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar á neta,
deu-lhe um dia um chapéo de veludo vermelho. A pequenita andava tão
contente com o seu chapéo novo, que já não queria pôr
outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.
A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma
floresta de meia legua de comprido. Uma manhã a mãe disse
à pequenita:
--Tua avó está doente, e não
pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com
esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não
andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»
--Sim, mamã,
respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»
Atou o
seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a
caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que
nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
--Bons dias, chapellinho encarnado.»
--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
--Onde vaes tão cedo?»
--A casa da minha avó
que está doente.»
--E levas-lhe alguma cousa?»
--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para
lhe dar forças.»
Dize-me onde mora a tua, avó,
que tambem a quero ir ver.»
--É perto, aqui no fim
da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha
muitas nozes.»
--Ah! tu é que és uma bella
noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois
continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos
passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»
--O
senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
que fizesse bem a minha avó.»
--Com certeza, minha
filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e aquella.» Mas
todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre
creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te.
Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
E poz-se a correr em direcção da casa da avó,
emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle
tinha indicado.
Quando o
lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó
não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»
--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz
da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás
a chave.»
Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma
bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava
usar, deitou-se na cama.
Pouco depois entrou a pequenita,
assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado
com que a avó a costumava ter fechada.
O lobo tinha
posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho,
mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.
--Ai! avósinha,
disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
--É para te ouvir melhor, minha filha.»
--E
porque estás com uns olhos tão grandes?»
--É
para te vêr melhor.»
--E para que estás com
os braços tão grandes?»
--É para te
poder abraçar melhor.»
--E Jesus! para que tens
hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão agudos?»
--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo
arremessou-se á pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto,
adormeceu, e começou a resonar muito alto. Um caçador que
passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse
comsigo: A pobre velha está com um pesadelo,
está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra,
e vê o lobo estendido na cama.
--Olá, meu menino,
diz elle: ha muito tempo que te procuro.»
Armou a sua
espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a
dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal
com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a
barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o chão,
gritando:
--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!
A avó saiu também contentissima por ver outra vez a
luz do dia.
O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador
metteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e
escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.
Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede,
levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na
outra, e não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu
no lago, e affogou-se.
O caçador tirou-lhe a pelle,
comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha
sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado prometteu não
tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o prohibisse.
Os cinco sonhos
Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva
numerosa, perseguiu um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma,
que, apesar da ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a
pista. Foi só então que viu que estava só, tendo a
sua côrte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao
cair da noite n'uma choupana solitaria no meio da floresta. Em roda da
lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores
levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante;
cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe quizeram logo contar.
O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:
--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que
acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»
--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
--E eu que estava pondo o seu manto.»
--E eu, disse
o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pescoço
aquella
pesada cadeia d'ouro, da qual
está pendurada a sua trompa de caça.»
--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar
tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês,
e que toda e qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço
senão uma cousa, é que me deixem tocar pela ultima vez na
minha trompa de caça.»
Os salteadores responderam
que consentiam, visto que o ultimo pedido d'um moribundo deve ser
respeitado.
Carlos Magno levou á boca a sua magnifica
trompa de marfim, e tirou d'ella sons tão fortes e sonoros, que em
menos d'alguns minutos todos os seus companheiros de caça e a sua
comitiva estavam ao pé d'elle.
--Agora, disse o
imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem eu devo contar o
sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser enforcados diante
d'este casebre.»
E o sonho realisou-se immediatamente.
A egreja do rei
Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra
da Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só
elle, e mais ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na
noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e
substituido por o d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte
tornou a mandar pôr o seu nome na inscripção, e de
novo foi substituido pelo da pobre mulher; á terceira vez succedeu
o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou então que lhe trouxessem a
mulher á sua presença:
--Prohibi a todos os meus
vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem fosse com o que fosse para a
edificação d'esta egreja; vejo que não cumpriste as
minhas ordens.»
--«Senhor, respondeu a velhinha
toda tremula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da magua
que sentia por não poder offerecer o
meu pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer
a vossa magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de
feno, que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras
destinadas à construcção da egreja.»
--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras
d'ouro na inscripção do monumento, disse-lha o rei.»
Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na
lapide da egreja o nome do rei, que desde então lá se
conserva ainda.
O valente soldado de chumbo
Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos,
por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que
attitude marcial, d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes
azues e vermelhos! A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se
levantou a tampa da caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha
soldados de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas
d'alegria. Tinham-lh'os dado de presente no dia dos annos, e o seu
divertimento era formal-os sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os
soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que
tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo
lugar, e já não havia chumbo sufficiente. Apesar d'este
defeito, os outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que
elle na sua unica, e é este o que precisamente nos interessa.
Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil
outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello
de papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe
o interior dos salões. Á volta era circumdado d'uma floresta
em miniatura, que se reflectia poeticamente n'um pedaço d'espelho
que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cysnes de cêra. Tudo
isto era encantador, mas não tanto como uma menina que estava
á porta, e que era tambem de papel, vestida com um lindo vestido de
cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços
arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a
tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou
que, como elle, não tinha senão uma perna.
--Ali
está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma
grande fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No
entantanto preciso conhecel-a.»
Deitou-se atraz d'uma
caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a elegante dançarina,
que estava sempre n'um pé só, sem perder o equilibrio.
Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e
as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile.
Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque
queriam lá ir; mas como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes
começou a dar cabriolas e saltos mortaes, o lapis traçou mil
arabescos phantasticos n'uma louza, emfim o barulho tornou-se tal que o
canario accordou, e poz-se a cantar. Os unicos que
estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinasinha. Ella
no bico do pé, e elle n'uma perna só, a espreital-a.
Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé
levanta-se, e em lugar de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era
um brinquedo de surpreza.
--Soldado de chumbo, disse o
feiticeiro, trata de olhar para outro sitio.»
Mas o
soldado fez que não ouvia.
--Espera até ámanhã,
e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado
de chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro
ou por causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que
tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e
com a bayoneta enterrada entre duas lages.
A creada e o
rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»
tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A
chuva começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro
diluvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.
--Olà!
disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o navegar.»
Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado
de chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco
jogava
d'uma maneira horrorosa, mas o
soldado de chumbo conservava-se impassivel, com os olhos fixos e a
espingarda ao hombro.
De repente o barco foi levado para um
cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos
soldados.
--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do
feiticeiro que me metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella
linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão
fosse duas vezes maior.»
D'ali a pouco apresentou-se um
enorme rato d'agua; era um habitante do cano.
--Venha o teu
passaporte.»
Mas o soldado de chumbo não disse
nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco continuava o
seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando ás
palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o parar, façam-n'o parar! Não
pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
Mas a
corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para
elle, como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella
cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se
sobre a queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e
ninguem se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o
susto.
O barco, depois de ter andado á roda durante
muito tempo, encheu-se d'agua, e estava a ponto
de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do soldado, e o
barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a agua passou por
cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, pensou na
gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»
O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento
foi devorado por um grande peixe.
Lá é que era
escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que talas em
que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado estendeu-se ao
comprido com a espingarda ao hombro.
O peixe mexia-se e
remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim parou, e
pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, e alguem
exclamou:
--Olha um soldado de chumbo!»
O
peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para
a cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente
quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na barriga d'um
peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que
acontecem cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de
cuja janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que
estavam em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina
sempre
de perna no ar. O soldado de
chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria derramado
lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, ella
olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.
De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o
no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.
O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um
clarão sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres
lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das
suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas,
sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se
uma porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão
para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado
de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.
No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e
tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o
lume tinha ennegrecido.
João Pateta
João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco
simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João
Pateta. Um dia sua mãe mandou-o á feira comprar uma foice.
Á volta, começou a andar com a foice á roda, de
maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.
--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr
a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»
--Perdão, mãe, respondeu humildemente João,
para a outra vez serei mais esperto.»
Na semana seguinte
mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as não
perdesse.
--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»
--Então, João, onde estão as agulhas?»
--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as
comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá
as agulhas, não podem estar em sitio melhor.»
--De
certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de
as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»
--Perdão, respondeu João,
para a outra vez, heide ser mais esperto.»
Na outra
semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar uma
pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz
a manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça.
Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer
manteiga derretida.
A mãe já tinha medo de o
mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o
á feira vender duas gallinhas.
--Ouve bem, não
vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam outro.»
--Está entendido, respondeu João.»
Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.
--Queres seis
tostões por essas gallinhas?»
--Ora adeus! minha mãe
recommendou-me, que não acceitasse o primeiro preço, mas que
esperasse o segundo.»
--E tens muita rasão. Dou-te
um cruzado.»
--Está bem. Parece-me que tinha feito
melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe,
ella não tem que me ralhar.»
Depois d'isto, João
foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com
elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma experiencia, e
disse-lhe:
--Vae vender este carneiro á feira. Mas não
te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço
mais elevado.»
--Está bem, agora entendo, e sei o
que hei de fazer.»
--Quanto queres por esse carneiro?
--Minha mãe disse-me
que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
--Quatro mil réis?»
--É o preço
mais elevado?»
--Pouco mais ou menos.»
--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára
a uma escada.
--Quanto?»
--Dez tostões:»
--É menos, respondeu timidamente o João.»
--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a
feira não ha um preço mais elevado.»
--Tem
rasão. É seu o carneiro.»
Desde esse dia o
João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
comprar cousa alguma.
Branca de Neve
Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos.
Um dia d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de
vez em quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,
distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.
--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão
vermelhos como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns
cabellos negros como este ébano.»
Algum tempo
depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, que
tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão
branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe
não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a
casar com uma mulher d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos
extraordinario. Era tão formosa que se considerava a mulher mais
perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e
collocando-se diante d'um espelho magico dizia-lhe:
--Meu fiel
espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»
--És tu, respondia o espelho.»
No entanto Branca de Neve crescia, e de dia
para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete annos, e já
ninguem a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha,
sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:
--Meu fiel
espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»
--Não és tu, não és tu. Branca de Neve
é mais linda.»
A estas palavras a orgulhosa rainha
sentiu no coração uma dôr aguda, como uma punhalada, e
ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela innocente Branca. Não
podia socegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu odio, chamou
um creado, e disse-lhe:
--Quero quo Branca desappareça.
Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas
ordens foram executadas pontualmente, traze-me o coração.»
O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança
chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella
não tinha feito mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido
com aquellas lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta,
pensando que se as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas
sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca
á rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A
rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou contentissima, e disse
comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão
bella como eu.
A pobre
Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia
de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum,
o deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina.
Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito
arranjado e muito limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta
com uma toalha de brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete
garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas.
Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de
cada copo, deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.
Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos,
cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham
gente em casa. Um d'elles disse:
--Quem comeu o meu pão?»
E os outros successivamente:
--Quem pegou no meu garfo?»
--Quem comeu o meu caldo?»
--Quem bebeu o meu
vinho?»
E emfim um d'elles:
--Quem está
ahi deitado na minha cama?»
Reuniram-se todos á
roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz das lanternas
viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,
e affastaram-se sem fazer bulha, para a não
accordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada,
quando viu perto de si aquelles sete anões das montanhas. Mas elles
disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe
d'onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste historia, e os
anões disseram-lhe:
--Queres tu ficar comnosco, para
tomar conta da nossa casa?»
--Da melhor vontade,
respondeu Branca, completamente socegada.»
Começou
logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já
não tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu
espelho, e disse-lhe:
--Meu fiel espelho, não é
verdade que eu sou agora a mulher mais linda que ha no mundo?»
E o espelho respondeu:
--Sim, nos teus palacios e nos
teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca
é mais linda do que tu.»
Ouvindo esta resposta a
orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a
fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã
partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio
d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu
á
porta da casinha, gritando:
«Quem quer comprar bonitas joias?»
Os anões
tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas,
receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser prudente.
Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no cesto,
esqueceu-se das suas promessas.
--Veja este rico collar, minha
menina, eu mesmo lh'o vou por ao pescoço.»
Branca
consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões
voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si
pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira
não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma
cautella, não deixes entrar aqui ninguem, quando não
estivermos em casa.»
Ao entrar no seu palacio toda
contente, collocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:
--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no
mundo? Responde.
E o espelho respondeu:
--És
tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está
nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
infeliz Branca. Tornou-se
a disfarçar
em vendedeira. Chegou ás sete montanhas, e bateu á porta da
cabana.
--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á
janella, e respondeu:
--Vá-se embora, aqui não
entra ninguem.»
--Tanto peor para si, respondeu a
malvada, olhe este pente d'ouro. Já viu outro tão bonito?»
Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia.
Abriu a porta.
--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o
na cabeça.»
Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça
o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.
Á
noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.
Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.
No entanto a
cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. Apenas chegou, foi
direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu
como antecedentemente.
--Ah! é preciso que ella morra,
ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.
Vestiu-se de
camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que
estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»
--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»
--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar
ninguem, nem compro coisa alguma.»
--Está bem, não
faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
bonita, quero dar-lhe uma.»
--Obrigada, não posso acceitar.»
--Imagina que está
envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é!
Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia
no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca
deixou-se tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu
fulminada.
--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»
Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
perguntou-lhe:
--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher
mais linda?»
E o espelho respondeu:
--És
tu, és tu.»
--Até que emfim!»
Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado
reanimal-a com o licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes.
Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e
os passarinhos da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não
podiam acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão
tranquillo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir.
Não quizeram enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de
cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha d'um rei;»
puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, e um d'elles devia estar
de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos annos,
sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.
Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar
á caça, viu o caixão, e pediu aos anões que
lh'o cedessem, fosse por preço que fosse.
--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo
venderemos este caixão, que é o nosso thesouro.»
--Então dêem-m'o, já não posso viver sem
contemplar este rosto de mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu
palacio. Peco-lhes que me façam isto.»
Os anões,
commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o
levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu
um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada,
que Branca não tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo
os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e
casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou
todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha
inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia
attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:
--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»
E o espelho respondeu:
--Branca é mais formosa que
tu.
A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que
os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.
Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa
não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus
bemfeitores.
A rapariguinha e os phosphoros
Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo
de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão
passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e
os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao
sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes
sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que
a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens.
Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um
garotito, com a intenção de fazer d'elle um terço
para o seu primeiro filho.
A pequenita caminhava com os pésinhos
nús, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande
quantidade de phosphoros, e levava na mão um masso d'elles. O dia
correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não
apurára cinco réis.
Pobre pequerrucha! que frio e
que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros,
adoravelmente annelados em volta do pescoço;
mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?
As
luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares;
era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.
Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez
mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em
sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que
o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As
suas mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como
um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um
unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_!
como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena
lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um
enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão
suavemente, que era um regalo.
A pequerrucha ia já a
estender os pésitos para os aquecer tambem, quando a chamma se
apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita
de phosphoro consumido.
Accendeu segundo phosphoro, que ardeu,
que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como
vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma
meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e
sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas
fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh
surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e caíu
no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada
no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede
fria e tenebrosa.
Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se
immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda
mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos
vidros de um armazem sumptuoso.
Nos ramos verdes brilhavam
centenares de balões accesos, e as estampas coloridas, como as que
ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as
com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os balões da
arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que
se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no
ceo um longo rasto de fogo.
--É alguém que está
a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria
tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»
Accendeu
ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu
sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.
--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te
vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a
panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.
Accendeu o rosto do masso, porque não queria
que sua avó lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clarão
mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão
formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este
deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que já
não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao
Paraiso.
Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram
a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o
sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia
de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus
phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi
inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.» E
ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de
que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Anno
Novo.
O primeiro peccado de Margarida
Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo,
porque Deus tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo
no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um
d'estes dias para o paraiso.»
Margarida era uma virgem
candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar
resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e
vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias
preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
Depois
d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
E, ao
mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção
d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e
que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de
casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a
apparecer, uma a uma no firmamento.
Estava Margarida cantando a
sua canção, quando
passou
por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com
um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus
brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão
para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a
rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o
que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
O fio de linho já
não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a
roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.
Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de
si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de
velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro
saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
perguntou-lhe:
--Qual é o caminho da cidade?»
Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro
inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava
como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello
do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então
com um sorriso estranho e diabolico.
N'isto passou por ali um
mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma
esmola.
Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre
desgraçado.
O cavalleiro então, soltando um grito
de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que
era o seu anjo da guarda disfarçado--cobriu-a
com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo
para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.