Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the
original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização
ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.)
NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o
livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções:
Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do
berço do seu filho, com medo que lhe morresse. A criancinha pálida
tinha os olhos fechados. Respirava com dificuldade, e às vezes tão
profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima
do que o pequenino moribundo.
Nisto bateram à porta, e
entrou um pobre homem muito velho, embuçado numa manta de arrieiro.
Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de neve e de gelo, e o
vento cortava como uma navalha.
O pobre homem tremia de frio; a
criança adormecera por alguns instantes, e a mãe levantou-se
a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho começou a
embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se
ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez
com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para
o velho:
Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não
é verdade?—
E o
velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em
ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão,
e as lágrimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada
com um grande peso de cabeça; estava sem dormir havia três
dias e três noites. Passou ligeiramente pelo sono, durante um
minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.
—Que
é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar
alucinado. O berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora,
roubando-lhe a criança.
A pobre mãe saiu
precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma mulher sentada no
meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em casa, disse-lhe
ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais depressa que o vento,
e o que ela furta nunca o torna a entregar.»
—Por
onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!»
—Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de
preto. Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções
que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa.
Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.
—Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe.
Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.—
A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas,
começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas
foram mais do que as palavras.
No
fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura
de pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.»
A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
caminho, e não sabia que direcção havia de seguir.
Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de
cujos ramos pendia a neve cristalizada.
—Não viste a Morte que levava o meu filho?»
perguntou-lhe a mãe.
—Vi, respondeu o matagal, mas
não te ensino o caminho, senão com a condição
de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
E a mãe
estreitou o matagal contra o coração; os espinhos
dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se de
folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite de Inverno
frigidíssima, tal é o calor febricitante do seio duma mãe
angustiosa.
E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir.
Foi andando, andando, até que chegou à margem dum grande
lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não estava
suficientemente gelado para se andar por ele, e era demasiadamente
profundo para o passar a vau. Contudo, querendo encontrar o seu filho, era
necessário atravessá-lo. No delírio do seu amor,
atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a água do
lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por compaixão,
faria talvez um milagre.
—Não!
não és capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e
entendamo-nos amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das
minhas águas, e os teus olhos são dum brilho mais suave do
que as pérolas mais ricas que eu tenho possuído. Se queres,
arranca-os das órbitas à força de chorar, e
levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: essa
estufa é a habitação da Morte; e as flores e as
árvores que estão lá dentro, é ela quem as
cultiva; cada flor e cada árvore é a vida duma criatura
humana.»
—Oh! o que não darei eu, para
reaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já
chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e
os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo do
lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não
teve no mundo uma rainha.
O lago então ergueu-a, e com
um movimento de ondulação depositou-a na outra margem, aonde
havia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua de
comprido. De longe não se sabia se era uma construção
artística ou uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe
não podia ver nada; tinha dado os seus olhos.
—Como
hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou ela
desesperada.
—A Morte ainda não chegou,
respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum lado para o outro,
inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste tu aqui parar?
Quem te ensinou o caminho?»
—Deus auxiliou-me,
respondeu ela. Deus é misericordioso. Compadece-te
de mim, e diz-me onde está o meu filho.»
—Eu
não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Há
aqui muitas plantas e muitas árvores, que murcharam esta noite: a
Morte não tarda aí para as tirar da estufa. Deves saber, que
toda a criatura humana tem neste sítio uma árvore ou uma
flor, que representam a sua vida e que morrem com ela. Parecem plantas
como quaisquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um coração.
Guia-te por isto, e talvez reconheças as pulsações do
coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que
tens ainda de fazer?»
—Já não tenho
nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim do
mundo buscar o que tu quiseres.—«Fora daqui não preciso
de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu
sabes que são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus
cabelos brancos.»—Não pedes mais nada do que isso?
disse a mãe. Aí os tens, dou-tos de boa vontade.»
E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido
outrora o seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
inteiramente brancos da velha.
Esta levou-a pela mão
à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma vegetação
maravilhosa. Viam-se debaixo de campânulas de cristal jacintos mimosíssimos
ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também
plantas aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em
cujas raízes se enovelavam cobras asquerosas.
Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas,
carvalhos e plátanos frondosos; depois num outro sítio
isolado havia canteiros de salsa, tomilho, hortelã e outras plantas
humildes que representavam o género de utilidade das pessoas que
elas simbolizavam.
Havia ainda grandes arbustos em vasos
demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se também
florzitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra,
circundadas de musgo, tratadas com esmero delicadíssimo. Tudo isso
representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a
China até à Groenlândia.
A velha queria
mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a mãe impacientada
pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam as plantas
pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração,
e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as pulsações
do coração do seu filho.
—É ele!»
exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que,
pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.
—Não
lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte vier,
que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a
de arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá
medo, porque tem de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem
o seu consentimento.»
Nisto sentiu-se um vento glacial, e
a mãe adivinhou que era a Morte, que se aproximava.
—Como é que deste com o
caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o
conseguiste?—«Sou mãe» respondeu ela.
E a
Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos,
tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas pétalas.
Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lhas cair
inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do que os ventos
enregelados do Inverno.
—Não podes nada comigo!»
disse a Morte.—Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a
mãe.»—«É verdade, mas eu não faço
senão aquilo que ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas
plantas, árvores e arbustos, quando começam a murchar,
transplanto-as para outros jardins, um dos quais é o grande jardim
do Paraíso. São regiões desconhecidas; ninguém
sabe o que se lá passa.»
—Misericórdia!
misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o
meu filho, agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A
Morte conservava-se impassível; agarrou então
instantaneamente em duas flores lindíssimas e disse à Morte:
«Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não
só esta, mas todas as flores que estão aqui!
—Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes
que és desgraçada, e querias ir partir o coração
de outra mãe!—«Outra mãe!» disse a pobre
mulher, largando as flores imediatamente. —Toma,
aqui tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente
que os tirei do lago. Não sabia que eram teus. Mete-os nas órbitas,
e olha para o fundo deste poço; vê o que ias destruir, se
arrancasses estas flores. Verás passar nos reflexos da água,
como numa miragem, a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a
que teria tido o teu filho, se porventura vivesse.»
Debruçou-se
no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros
risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis de miséria,
de angústias e de desolação.
—Nisto
que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, não distingo
qual era a sorte que Deus destinava ao meu filho.»
—Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em
tudo isto que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu
filho.»
A mãe desvairada, lançou-se de
joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me: era a sorte infeliz a que lhe
estava reservada? Não é verdade! Fala! Não me
respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele
sofrer desgraças tão horríveis. O meu querido filho!
Quero-lho mais que à minha vida. As angústias que sejam para
mim. Leva-o para o reino dos céus. Esquece as minhas lágrimas,
as minhas súplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.»
—Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te
entregue o teu filho ou que o leve para a região desconhecida de
que não posso falar-te!» Então a mãe alucinada,
convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos e dirigindo-se
a Deus exclamou: «Não me ouças,
Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua
vontade que é sempre justa! Não me atendas meu Deus!»
E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua
agonia dilacerante.
E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro,
e foi transplantá-lo no jardim do paraíso.
Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas
minas de ouro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas
minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve
uma grande fome no país.
Mas a rainha, que era prudente
e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, galinhas e
outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quis jantar mandou-lhe
servir essas iguarias de ouro, com que ele ficou todo satisfeito, porque não
compreendeu ao princípio qual era o sentido da rainha; mas, vendo
que não lhe traziam mais nada de comer, começou a zangar-se.
Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não era
alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a
terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazê-los nas minas
à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não
tem outro valor além da estimação que lhe é
dada pelos homens, estimação que havia de converter-se em
desprezo, logo que ouro aparecesse em abundância.
A
rainha tinha juízo.
Há entre vós, meus filhos, índoles
violentas, que não sabem dominar-se, e que são arrastadas
pelas primeiras impressões. É uma péssima disposição,
que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a
que se cometam acções, cujo arrependimento chega
demasiadamente tarde. Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.
Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha
diante dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
—Oh!
senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num cego!»
Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no
burro, para o fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e,
mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis
que eu era coxo, não teríeis sido tão covardes.»
Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar
uma palavra.
Que vos parece estas duas lições?
Estou convencido que aproveitaram a quem as recebeu.
Ouvi com atenção esta pequenina história!
No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com
flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado,
no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz
tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e
brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco
se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele,
pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente
o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças
sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele,
sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade
de Deus, e tudo o que sentia
misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável
nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se
a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa
avezinha feliz que cantava e voava.
«Eu vejo e oiço,
pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não
tenho razão de me queixar.»
Dentro da sebe havia
muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aroma tinham,
mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para parecerem
maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o
pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando:
«Como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente
visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo
espectáculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu
voo, não para as dálias e tulipas, mas para a relva, junto
do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que havia de
pensar.
O passarinho pôs-se a saltitar à roda
dele, cantando: «Como a erva é macia! oh! que encantadora
florinha, com um coração de oiro, vestida de prata!»
Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave
acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois
no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde
o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas
todo contente, olhou para as outras
flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber,
deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam
cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o
despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada. Se elas
pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis ao pobre
malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
Passados alguns
momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e
brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.
«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível;
foram-se todas.»
E enquanto a rapariguinha levava as
tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor
no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair
da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com
a cotovia.
No dia seguinte de manhã, assim que o
malmequer abriu as suas folhas ao ar e à luz, reconheceu a voz do
passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. A pobre
cotovia tinha boas razões para se afligir: haviam-na agarrado e
metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da
liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens através do
espaço ilimitado.
O pequenino malmequer tinha boa
vontade de lhe acudir: mas como? Era difícil. A compaixão
pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer inteiramente
as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente
das suas próprias folhas.
Nisto dois rapazinhos entraram
no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e afiada
como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para
o malmequer, que não podia compreender o que desejavam.
«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia,
disse um dos rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo
à volta da florinha.
—«Arranca a flor, disse
o outro.»
A estas palavras o malmequer estremeceu de
terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha abençoado tanto a
existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na
gaiola da cotovia.
«Não; deixemo-la, disse o mais
velho. Está aí muito bem.»
Foi por
conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre
passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as asas
nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
Passou-se assim toda a manhã.
«Já não
tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma
febre terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio
senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca
verdura e de todas as magnificências da criação!»
Depois enterrou o bico na relva húmida
para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal
de cabeça amigável, e disse-lhe, afagando-o: «Também
tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu
tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de
relva, e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva
substitui para mim uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas,
uma flor odorífera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas
que perdi!
—Se eu pudesse consolá-la! pensava o
malmequer, incapaz de fazer o mínimo movimento.
Contudo
o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia
sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva,
teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.
Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma
gota de água à desditosa cotovia; Estendeu então as
suas belas asas, sacudindo-as convulsivamente, e pôs-se a cantar uma
cançãozinha melancólica; a sua cabecinha inclinou-se
para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e de angústias
cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer não
pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir;
curvou-se para o chão, doente de tristeza.
Os rapazitos
só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver
dentro de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de
príncipe, e cobriram o túmulo com folhas de rosas.
Pobre passarinho! Enquanto vivia e
cantava, esqueceram-se dele e deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois
de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.
A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada;
daquele que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se
lembrou.
Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam
muito alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não
quero.» Parei e perguntei-lhe:—O que é que tu não
queres, meu rapaz?—«Não quero dizer à mamã
que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de
ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.»—E tens
razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.»
Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro pequeno, que lhe
aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.
Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de
falar com o professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os
meus dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que
o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre
sobre os dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um
magnífico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre
pronto a confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las.
O outro pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»—Não
me espanto, disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas
duas crianças; e contei-lhe o que tinha ouvido.
Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães,
e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da
quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o
pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava
nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do
pequerrucho e da sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira
recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do
Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que
o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações:
partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos
pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o
hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da
carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a
parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária
sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de
trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração
de hostilidade em quanto o homem seguiu o caminho
da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda
vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.
Era como se
dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
O
ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha
tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem
o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil
posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o
caso para o não desonrar.
Mas o homem ficou com ódio
ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do
quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem
desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até
à margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra à
outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à
água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço,
caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido
despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo
ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada,
não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal
inimigo.
Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando
voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a
vida.
Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse
dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.
Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer
recados; um dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se
cansado e deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma
estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de pão que
tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem em que vinha
um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente
e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não
tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma
garrafa de vinho.
Martinho estava pasmado a olhar para eles;
olhou depois para a sua côdea de pão, para a sua velha
jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou
baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico, em vez do desgraçado
Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu dentro daquela
carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e
repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da
carruagem, chamou Martinho com a mão.
—Ficarias
muito contente, não é verdade, meu rapaz,
podendo trocar a minha sorte pela tua?»—Peço que me
desculpe senhor, replicou Martinho corando, o que eu disse não foi
por mal.»—Não estou zangado contigo, replicou o
fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.»
—Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém
quereria estar no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o
senhor. Ando muitas léguas por dia, como pão seco e batatas,
enquanto que o senhor anda numa carruagem, pode comer frangos e beber
vinho.»—Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo
aquilo que tens e que eu não tenho, dou-te em troca de boa vontade
tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos espantados, sem
saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: «Aceitas a
troca?»—Ora essa! exclamou Martinho, ainda mo pergunta! Oh!
como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada de me ver entrar nesta
bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a ideia da entrada
triunfante na sua aldeia.
O fidalguinho chamou os criados, que
abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpresa de
Martinho, vendo que ele tinha uma perna de pau e que a outra era tão
fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para
ele de mais perto, Martinho observou que era muito pálido e que
tinha cara de doente.
Sorriu para o rapazito com ar benévolo,
e disse-lhe:—Então sempre desejas trocar? Querias porventura,
se pudesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces coradas, pelo
prazer de ter uma carruagem e andar bem
vestido?»—Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
Martinho.—«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria
pobre, se tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e
doente, sofro os meus males com paciência e faço por ser
alegre, dando graças a Deus pelos bens que me concedeu na sua
infinita misericórdia.
«Faz o mesmo, meu
amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força
e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não
podem comprar-se com dinheiro.
Tinha o coração duro, e não dava esmolas.
Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar
sete vezes o Padre Nosso.
«Não o sei, e nunca o
pude aprender, respondeu o aldeão.»
«Pois nesse
caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a crédito
um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.»
No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.
«Padre—Nosso—Que—Estais—No—Céu,
respondeu o pobre.»
«E o teu apelido?»
«Seja—Santificado—O—Vosso—Nome.»
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao
outro dia chega segundo pobre.
«Como te chamas?
«Venha—A—Nós—O—Vosso—Reino.»
«E o teu apelido?»
«Seja—Feita—A—Vossa—Vontade.»
E partiu com o seu alqueire de
trigo.
Veio terceiro pobre.
«Como te chamas?»
«Assim—Na—Terra—Como—No—Céu.»
«E o teu apelido?»
«Dai-nos—Hoje—O—Pão—Nosso—De—Cada—Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda dois pobres
sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao Amen.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
«Então já sabes o Padre Nosso?»
«Não, sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres
a quem emprestei o meu trigo.»
«Quais são?
tornou o padre.»
E o aldeão enumerou-lhos a
seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.
«Já vês, disse o confessor, que não era muito
difícil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes
perfeitamente.»
Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria,
mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se,
o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios
com uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue
inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção
da sua casa.
«Explica-me, disse um dia este último
ao seu colega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um
modo tão diferente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja
está tão bem situada como a tua, e apesar disso, enquanto tu
ganhas, eu não faço senão perder. E não
é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já
tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum
precioso talismã.»
«Efectivamente, respondeu
o outro, herdei de meu pai um talismã de uma virtude incomparável.
Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o dia por toda a
casa, do celeiro para a adega, e da adega para o celeiro. E o caso
é que tudo me corre perfeitamente.»
«Olé meu querido colega,
empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia preciosa de que tanto
necessito; podes ter a certeza de que ta restituo.»
«Pois vem buscá-la amanhã de manhã.»
Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado
um fio de seda.
O nosso homem pô-la imediatamente ao
pescoço, e começou a correr toda a casa com o talismã.
Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia.
Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a
carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o feijão; na
estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos cavalos; viu,
finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escriturados; viu
tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio,
compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por
terceira pessoa na direcção dos seus negócios.
Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã,
agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.
«Mamã, nem todas as crianças que morrem vão
para o Paraíso. O outro dia vi levar para o cemitério um
menino que tinha morrido; o seu papá e as suas duas irmãzinhas
acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a
chorar porque aquele menino tinha sido mau, não é verdade?»
«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
enquanto choravam seus pais e suas irmãs, já estava vivendo
feliz no Paraíso.»
«A alma? mamã; não
sei o que é; não compreendo bem.»
«Maria,
acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»
«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e
triste? eram os braços?»
«Não, mamã.»
«Eram as orelhas?»
«Oh! não mamã,
era cá dentro.»
«Esse lá
dentro, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, que
te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
praticas o bem.
Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu
pai e seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar árvores
e fazer sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um
único feijão produzir cem feijões e muitas vezes
mais, e de uma talhada de batata nascerem quarenta batatas magníficas;
sabia que a terra pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um
dia achou uma libra no quarto do pai, e foi enterrá-la
imediatamente no seu jardinzinho. «Há-de nascer uma árvore,
dizia ele consigo, que dará libras como uma cerejeira dá
cerejas, e irei entregá-las ao papá, que ficará muito
contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido,
mas não rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda
a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
«Vi papá; achei-a e fui semeá-la.»
«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma
couve?»
«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se
encontrava na terra.»
«É verdade, mas não
nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
Desenterrou-se a libra, e Alberto foi
castigado por dispor do que lhe não pertencia.
Há
contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir
os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como é?
É dando-o aos pobres. Faz-se no Paraíso a colheita dessa
sementeira.
Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às
lagartas!» E a cerejeira cobriu-se imediatamente de folhas, milhões
de folhas, fresquinhas e verdejantes.
A lagarta, que estava
dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a boca,
esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as folhinhas
tenras, dizendo: «Não se pode a gente despegar delas. Quem
é que me arranjou este banquete?»
Então
Deus disse de novo: «Ponham a mesa às abelhas!» E a
cerejeira cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores
delicadas e brancas.
E a abelha matinal aos primeiros raios da
aurora pousou sobre elas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café;
e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»
Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não
pouparam o açúcar!»
No Verão disse
Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cerejeira cobriu-se
de mil frutos apetitosos e vermelhos.
«Ah!
ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos apetite, e
isto dar-nos-á novas forças para podermos cantar uma nova
canção.» No Outono disse Deus: «Levantai a mesa,
já estão satisfeitos.» E o vento frio das montanhas
começou a soprar, e fez estremecer a árvore.
As
folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o
vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as
esvoaçar.
Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o
resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja
mortalha tudo dorme e descansa.
Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num
castelo na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da
altura dum álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer
à planície a ver o que faziam lá em baixo os homens,
que de cima do monte lhe pareciam anões. Um belo dia, em que seu
pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava
dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos
brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental,
que quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os
cavalos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no
castelo, onde seu pai estava a jantar.
—Que trazes aí,
minha filha?» perguntou ele.
—Olhe, disse ela,
abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais bonitos que
tenho visto.»
E pô-los em cima da mesa, a um e um,—os
cavalos, a charrua e os trabalhadores, que estavam todos
espantados, como formigas a quem tivessem transportado dum formigueiro
para um salão. A gigantinha pôs-se a bater as palmas e a rir
com uma alegria doida, mas o gigante fez-se sério e franziu o
sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso não são
brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mete
tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no imediatamente onde o
achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de
fome, se os anões da planície deixassem de lavrar a terra e
de semear o trigo.
Quando morre uma criança, desce um anjo do céu,
toma-a nos braços, e desdobrando as asas imaculadas, voa por cima
de todos os sítios que ela amara durante a sua pequenina existência;
o anjo abaixa-se de quando em quando para colher flores, que leva a Deus,
para que floresçam no paraíso ainda mais belas do que tinham
sido na terra. Deus recebe todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com
os lábios, e a flor escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa
a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o
anjo a uma criança morta, que o estava ouvindo como num sonho.
Pairaram primeiro sobre a casa em que a criança brincara, e depois
sobre jardins deliciosos, cobertos de flores.
«Qual
é a flor que desejas para plantar no paraíso?»
perguntou o anjo.
Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido
direita, vigorosa, magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e
todos os seus ramos cheios de botõezinhos lindíssimos
pendiam estiolados para o chão.
«Pobre roseira!
disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa
reflorir no paraíso.»
O
anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram
muitas flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para
Deus. Caiu a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino
andavam ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais
estreitas, cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de
farrapos, de toda a casta de imundície. Entre estes destroços
distinguiu o anjo um vaso de flores com a terra pelo chão, onde
pendiam as longas raízes duma flor dos campos, já murcha, e
que parecia não poder reverdecer: tinham-na atirado para a rua como
inútil e morta.
«Vale a pena levantá-la
disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, te contarei a história
da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela rua estreita
e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e
doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol,
sem o cansaço do andar, imaginava-se passeando; não conhecia
da floresta, da fresca verdura da primavera, senão o ramo de faia,
que uma vez o filho do vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima
da cabeça o ramo verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores
abrigadas do sol, sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho
do vizinho trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma
que tinha ainda raízes; o
pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da
cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se
grande, e todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu
único tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a;
fazia-lhe aproveitar os raios do sol até ao último. A flor
aparecia-lhe em sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o
seu aroma e ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela
que se voltou.
«Faz hoje um ano que esse pequerrucho
habita no paraíso; a sua querida flor, esquecida à janela
desde então, murchou, estiolou-se e atiraram-na à rua
finalmente. E contudo esta flor quase seca é o tesouro do nosso
ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros dum jardim
realengo.»
«Como sabes tu isso?» perguntou a
criança, que o anjo levava para o céu.
—Sei-o,
respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em muletas;
como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo
quando entravam no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus
pegou nas flores, levou-as ao coração, mas a que ele beijou
foi a florinha silvestre, desprezada e murcha: a flor adquiriu voz
imediatamente, pôs-se a cantar com as almas que rodeiam o Criador,
umas junto dele, outras ao longe, formando círculos que vão
aumentando sucessivamente, multiplicando-se até ao infinito,
povoados de seres inteiramente felizes,
cantando todos harmoniosamente—desde a criança abençoada
até à humilde florinha do campo, levantada do lodo, dentre
os tristes despojos da rua sombria e tortuosa.
Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar
de noite à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não
tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o
o melhor que pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade
que lhe ia dar, porque eram batatas cozidas a única coisa que lhe
poderia oferecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre
a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas
souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha
do que num leito de príncipes. Ao outro dia pela manhã disse
isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma
moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse
como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou que seria uma
medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao
pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que
lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou
os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:
«Esse forasteiro era nada mais nada
menos do que o nosso príncipe!
E o bom do homem não
podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas
melhores do que faisões.
«É necessário
confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há talvez
no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das
batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão
boas.
E partiu imediatamente para o palácio com uma
provisão de batatas escolhidas.
Os lacaios e as
sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar; mas
insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que
pelo contrário vinha trazer alguma coisa.
Foi, pois,
introduzido na sala da audiência.
«Meu senhor,
disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir
hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar
demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso.
Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões.
Dignai-vos aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser
nosso hospede, lá as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe,
e, como estava num momento de bom humor, fez-lhe doação de
uma quinta com trinta jeiras de terra.
Ora
o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento,
que, sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque
não me há de suceder a mim outro tanto? O príncipe
gosta do meu cavalo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que ele me
recusou. Vou-lhe fazer presente dele: se deu ao João uma quinta com
trinta jeiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com
certeza me há de recompensar ainda mais generosamente.»
Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com
ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.
«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo;
não tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos
permitir-me que vo-lo ofereça.»
O príncipe
viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse consigo:
«Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
Depois dirigindo-se a ele:
«Aceito a tua dádiva,
mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh! espera um pouco:
Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões.
Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom preço
para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a
sua sorte. «Oh! dizia ele, como são horrorosas estas linhas
uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou
um pouco mais orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para
andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã
acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e
admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros
pinheiros, que, mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida
fortuna. À noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as
folhas, meteu-as num saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos
pés à cabeça.
«Oh! disse ele, que
doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça dos
homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a
floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de
oiro; o oiro atrai as ambições.
Ah! se eu
arranjasse um vestuário de vidro! Era deslumbrante,
e o judeu avarento não me teria despido.»
No dia
seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como
pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando
desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de
nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
folhas de cristal.
«Enganei-me ainda, disse o jovem
pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto
cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas.
Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria menos brilhante,
mas viveria descansado.»
Cumpriu-se o seu último
desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades primitivas,
julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros
seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as
folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem
deixar uma única.
O pobre pinheiro, envergonhado e
arrependido, já queria voltar à sua forma natural. Conseguiu
ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.
A filha.—Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
A mãe.—Vou-te dar outra.
A filha.—Como
se fazem as agulhas, mamã?
A mãe.—Vê
se adivinhas.
A filha.—Não sei, mamã.
A mãe.—Conheces os metais?
A
filha.—Conheço mamã; tenho lá dentro muitos
bocadinhos dentro de uma caixa.
A mãe.—Ora
muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de mármore?
A filha.—Oh! não; são de metal; mas de
que metal?
A mãe.—Antes de perguntar
qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.
A
filha.—Ora espere!... uma agulha é de metal: não
é de prata, porque não é branca; não é
de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito brilhante; não
é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio,
que cheira mal... Então é de ferro, mamã?
A mãe.—Adivinhaste.
A filha.—Mas,
mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
A mãe.—É
que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
se não chama ferro, é aço.
A filha.—Bem,
as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é
que as fazem.
A mãe.—É impossível,
não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma fábrica
onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de
gostar muito.
A filha.—Tinha vontade de saber como
se fazem todas as coisas de que nos servimos.
A mãe.—Tens
razão; é uma vergonha ignorá-lo.
A
filha.—Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
A
mãe.—Olha, aí tens o meu estojo.
A
filha.—Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São
tão fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de
ser necessária para fazer uma coisinha tão delicada!
A mãe.—Lembras-te de ver na feira um carrinho de
marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
A
filha.—Lembro, mamã; era tão bonito!
A
mãe.—Li num jornal alemão que um operário
chamado Nerlinger fez um copo de um grão de pimenta, e que dentro
deste copo havia mais doze...
A filha.—Que
pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num grão de
pimenta!
A mãe.—E ainda não é
tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se no
pé.
A filha.—Que vontade eu tinha de ver
isso!
A mãe.—Tens razão de te
admirares da habilidade dos homens. É efectivamente espantoso, e
deve saber-se, o modo porque se fabricam
certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração.
A filha.—Quais, mamã?
A mãe.—Já
to digo. (Levanta-se.)
A filha.—Que quer,
mamã?
A mãe.—Quero que vejas o
microscópio de teu papá.
A filha.—Pois
sim; eu gosto de olhar pelo microscópio.
A mãe.—Este
é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais ver
a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
A filha.—Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão
grosseira!
A mãe.—Vês-lhe buracos,
riscos, asperezas, não é verdade?
A filha.—Parece
um prego muito grande e muito mal feito.
A mãe.—Pois
todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá
por elas.
A filha.—O operário que fez esta
agulha ficaria envergonhado, se a visse ao microscópio.
A mãe.—Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
A filha.—O quê, mamã?
A mãe.—O
aguilhãozinho de uma abelha.
A filha.—Oh!
que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há
de acontecer o mesmo que com a agulha.
A
mãe.—Pronto: olha.
A filha (olhando).—É
esquisito, mamã!
A mãe.—Então?
A filha.—Aumentou, aumentou como a agulha, mas não
é áspero, pelo contrario, é perfeitamente liso... A
agulha parecia que não tinha ponta, e o ferrãozinho da
abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque será
isto, mamã?
A mãe.—É porque o
operário que fez este aguilhão é muito mais hábil
do que o que fez a agulha.
A filha.—Quem é
esse operário tão hábil?
A mãe.—É
o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as
criaturas.
A filha.—É Deus.
A
mãe.—Exactamente. Pois não é Deus que fez
as abelhas e todos os animais?
A filha.—De certo.
A mãe.—Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão
desta abelha; e aí tens porque o aguilhão é superior
à agulha: é obra de Deus. Mas continuemos a olhar pelo
microscópio. Aqui está um pedacinho de musselina finíssima.
Olha pelo microscópio; o que é que vês?
A
filha.—Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.
A mãe.—Aqui tens agora um pedacinho de renda
delicadíssima.
A filha.—Essa estou bem
certa que há de ser linda, mesmo vista pelo microscópio.
A mãe.—Então?
A filha.—É
horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes buracos
desiguais.
A mãe.—As obras do homem são
todas assim.
A filha.—Oh!
mamã, vejamos agora as obras de Deus.
A mãe.—Sabes
o que é isto?
A filha.—Sei, mamã,
é um casulo de bicho de seda.
A mãe.—Os
fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.
A
filha (olhando pelo microscópio).—Não, mamã;
os fios são todos iguais, e o casulo é sempre muito liso,
muito brilhante.
A mãe.—É porque
é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há sobre
este papel?
A filha.—Pontinhos feitos com tinta e
manchazinhas redondas feitas também com tinta.
A mãe.—Estes
pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?
A
filha.—Sim, mamã, perfeitamente redondos.
A
mãe.—Vê-os agora ao microscópio.
A filha.—Oh! já não são redondos, são
todos desiguais.
A mãe.—Tira o papel;
vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta; vês que está
mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscópio; o
que é que vês?
A filha.—Vejo a mesma
coisa que via sem o vidro, só com a diferença que agora
é maior. Que belas que são as obras de Deus!
A
mãe.—Merece bem a pena estudá-las.
A
filha.—De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as
obras dos homens.
A mãe.—E sempre e em tudo
hás-de encontrar defeitos nas obras do homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a primeira
é que Deus merece tanto a nossa admiração como o
nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são
insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente belo,
perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias
de imperfeições, se as compararmos com as obras do Criador.
Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao
cabo dum Inverno rigoroso, possuía apenas um galo, e meio alqueire
de farinha. João resolveu-se a correr mundo, à busca de
fortuna. A mãe cozeu o resto da farinha, matou o galo, e disse-lhe:
«O que é que preferes: metade desta merenda com a minha
bênção, ou toda com a minha maldição?»
«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há
no mundo eu quereria a tua maldição.»
«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e
Deus te abençoe.»
E partiu. Foi andando, andando,
até que encontrou um jumento, que tinha caído num atoleiro,
donde não podia sair.
«Oh! João, exclamou o
burro, tira-me daqui, que estou quase a afogar-me.»
«Espera, respondeu João.»
E, formando uma
ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o quadrúpede
do atoleiro.
«Obrigado,
disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil,
aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»
—«Vou
por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.»
«Queres tu que eu te acompanhe?
«Anda daí.»
E puseram-se a caminho.
Ao passarem por uma aldeia, viram
um cão perseguido pelos rapazes da escola, que lhe tinham atado ao
rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para João que o
acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de tal maneira, que os
rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
«Obrigado,
disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for prestável,
aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?»
«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.»
«Queres que te acompanhe?»
«Anda daí.»
Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno
tirou a merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou
alguma erva que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato
esfaimado a miar lastimosamente.
Coitado, exclamou João!»
E deu-lhe uma asa do frango.
—«Obrigado disse o
gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde vais tu?
—«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»
—De boa vontade.
Os
quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um grito
dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um galo na
boca.
«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa,
que, vendo-se em perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando
de contente disse a João:
—«Obrigado.
Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?»
—Arranjar trabalho. Queres vir connosco?
—«De
boa vontade.»
—Então anda. Se te cansares,
empoleira-te no jumento.»
Os viajantes continuaram a
jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e não
avistavam à roda nem uma quinta, nem uma cabana.
—«Paciência,
disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a
dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada, e a
relva é macia.»
Dito isto estendeu-se no chão;
o jumento deitou-se ao lado dele, o cão e o gato aninharam-se entre
as pernas do burro complacente, e o galo empoleirou-se numa árvore.
Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo
começou a cantar.
—«Que demónio!
disse o jumento acordando todo zangado. Porque é que estás a
gritar?»
—«Porque já é dia,
respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da madrugada, que
vem rompendo?»
—«Vejo
uma luz, disse João, mas não é do sol, é duma
lanterna. Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos
recolher o resto da noite.»
Foi aceita a proposta. Partiu
a caravana; foi andando, andando, através dos campos, até
que parou junto da casa do guarda dum grande castelo, donde subiam
gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasfémias horríveis.
—Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito
devagarinho, a ver quem é que está lá dentro.»
Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se
banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.
—«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, ao
castelo do conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem
que é este porteiro. À sua saúde!»
—«À saúde do nosso amigo!» repetiram em
coro todos os ladrões.
E dum trago despejaram os copos.
João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz
baixa:
—«Uni-vos uns aos outros o melhor que
puderdes, e, assim que vos der sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa
gritaria diabólica.»
O burro, levantando-se nas
patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril duma janela, o cão
trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão
e o galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e
estoirou à uma o ornear do jumento, os latidos do cão, o
miar do gato e os gritos estridentes do galo.
—«Agora,
bradou João, fingindo que comandava um destacamento, carregar
armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»
No mesmo
instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando cada vez mais;
os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo
precipitadamente por uma porta falsa.
João e os seus
companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um excelente jantar, e
deitaram-se em seguida—João numa cama, o burro na cavalariça,
o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão
e o galo num poleiro.
Ao principio os ladrões ficaram
muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas
depois, começaram a reflectir.
—«Era bem
melhor a minha cama, do que esta erva tão húmida, disse um
deles.»
—«Tenho pena do frango que eu começava
a saborear, disse um outro.»
—«E que rico
vinho aquele! acrescentou o terceiro.»
—«E o
que é mais lamentável, exclamou um quarto, é
ficar-nos lá todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde,
tínhamos tirado das gavetas.»
—Vou ver se
torno lá a entrar! disse o capitão.
—Bravo! exclamaram os ladrões.
E pôs-se
a caminho.
Já não havia luz na casa; o capitão
entrou às apalpadelas, e dirigiu-se para o fogão; o gato
saltou-lhe à cara e esfarrapou-lha com as garras. Soltou um grito doloroso, correu para a porta,
mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma grande
dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta.
Mas quando ia a sair, o galo atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com
as unhas.
—Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão,
como poderei eu sair!»
Julgou encontrar refúgio na
estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deitou
quase morto ao meio do chão.
Passado algum tempo veio a
si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços
partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
—Então?
então?—perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
—Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma
cama para me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste
corpo, que o trago num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na
cozinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e
arrumou-me na cara com o sedeiro, deixando-me neste miserável
estado. Quando ia a sair a porta, um demónio dum remendão
atravessou-me as pernas com a sovela. Logo depois Satanás em pessoa
atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. Na estrebaria
deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
acreditam, vão lá, e experimentem.»
—Acreditamos,
disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado: Não
seremos nós que lá tornaremos.»
Pela manhã,
João e os seus camaradas almoçaram ainda excelentemente, e partiram em
seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões lhe
tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, com que
carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram
à porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do
porteiro, com uma libré esplêndida, meias de seda, calções
escarlates e cabelo empoado.
Olhou com ar de desprezo para a
pequenina caravana, e disse a João:
—Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os
recolher, vão-se embora.»
—Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do
castelo far-nos-á um bom acolhimento.
—Fora daqui
vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar
imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os
meus cães de fila.»
—Perdão, só
um instante, replicou o galo empoleirado na cabeça do jumento; não
me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
passada a porta do castelo?»
O porteiro corou. O conde
que estava à janela, disse-lhe:
—Ó Bernabé,
responde ao que esse galo te acaba de perguntar.
—Senhor,
replicou Bernabé, este galo é um miserável. Não
fui eu que abri a porta aos seis ladrões.
—Como
é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram
seis?
Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o
dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente
que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cansados
do caminho.
—Ficai certos que sereis bem tratados.
O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato
ficou na cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o
dos pés à cabeça com um vestuário magnífico,
deu-lhe um relógio de ouro, e disse-lhe:
—Queres ficar
comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe
para o pé de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu
sempre felicíssimo.