O rabequista



Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos músicos.

As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.

Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, cantando, chorando, correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à presença do juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.

Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento. O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua derradeira melodia.

Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lágrimas começou a tocar. Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. À vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente prestar-lhe as mais honrosas homenagens.




Os pêssegos



Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos, extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. À noite o pai perguntou-lhes:

—Então comeram os pêssegos?

—Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei-de plantá-lo para nascer uma árvore.»

—Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.»

—Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»

—Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não admira; espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»

—Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for à cidade.»

O pai meneou a cabeça:

—Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.

—E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?

—Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.

—Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego que eu lhe dei?

E os três pequenos disseram à uma:

—Foi o mano Eduardo.

Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrasados de lágrimas.




A urna das lágrimas



Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de mágoa e de saudades. Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até às bordas.

—«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, não chores mais. Olha, o anjo das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lágrimas correrão sobre mim, inquietando-me no túmulo e perturbando a minha felicidade no paraíso.

A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não afligir.




Reconhecimento e ingratidão



Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos pais. E é natural. As crianças vêem diariamente o que fazem seus pais, e imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que diz,—que a bênção ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.

Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele. Depois de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que trabalhava nele mediante um salário de doze vinténs por dia. O príncipe, que para as suas despesas de administração e representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:

«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia; outro terço é para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas economias.»

Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre camponês explicou-lho deste modo.

«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha infância; e espero que os segundos não me abandonem, quando os anos tiverem pesado sobre mim.»

O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se da educação de seus filhos; e a bênção que lhe deram os seus velhos pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.

Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O filho ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de leito. O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse ao seu pequeno, de dez anos de idade, que os fosse levar a esse velho rabujento. Mas notou que a criança ao partir tinha escondido um dos lençóis a um canto, atrás da porta.

Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.

«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me servir mais tarde deste lençol, quando pela minha vez te mandar também para o hospital.




O fato novo do sultão



Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.

Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está no conselho; dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.

—São vestuários impagáveis, disse consigo o sultão; graças a eles, saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estofo!»

E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.

Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até à meia noite com os teares vazios.

—«Preciso saber se a obra vai adiantada».

Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente em todo o caso mandar alguém adiante.

Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

—Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele avaliar o estofo.

O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vazios.

—Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de nada lá existir.

—Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? É necessário que ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»

«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:

—«Encantador, admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que fiquei completamente satisfeito.»

—«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam sempre.

Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.

—Não acha um tecido admirável?» perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.

—Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas deixá-lo, não o deixo eu.»

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.

—É duma magnificência incomparável, disse ele ao sultão. E toda a cidade começou a falar desse tecido extraordinário.

Enfim o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de espécie alguma.

—Não acha magnífico? disseram os dois honrados funcionários. O desenho e as cores são dignos de vossa alteza.»

E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.

—Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça que me acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a minha satisfação.»

E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto repetiam como o sultão: «É magnífico!» Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnífico! é encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.

Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois disto, que estava o vestuário concluído.

O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:

«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.»

—Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

—Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios, provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»

O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.

—Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesãos. Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!»

Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias.

—Está à porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão, disse ele.»

—Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»

E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.

E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a gente na rua e às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém queria dar a perceber, que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

—Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao colo do pai.

—É a voz da inocência, disse o pai.

—Há ali uma criança que diz que o sultão vai em cuecas.

«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda imaginária.




Boa sentença



Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

—Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos pagos por conseguinte.»

O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

—Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente setecentos mil réis. E tu, o único conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciência até que apareça alguém que tenha achado os teus oitocentos mil réis.




Os animais agradecidos



Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este respondeu:

—«Senhor: eu sou um desgraçado, um miserável; nasci no vosso reino, e chamo-me Ingratidão

—«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu serviço.»

O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho desde então não conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos desventurados.

Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou ele mesmo dentro duma das covas.

Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em tão extraordinária companhia, ficou tão horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperança de salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ninguém o vinha socorrer.

Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado António, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para ganhar o pão necessário à sua mulher e aos seus filhos. António também lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não longe da cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava ali.

—«Sou o governador do palácio do rei, e, se me tirares daqui, prometo encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo e duma enorme serpente.»

—«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável jornaleiro, não tendo para sustentar a minha família, mais que o produto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se cumpres a tua promessa?

O intendente continuou:

—«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.»

Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o intendente.

Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.

António deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez subiu a serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre homem bater à porta do palácio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

—«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.»

O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

—«Vai dizer a esse homem, que eu não vi ninguém na floresta; que se ponha a andar, porque o não conheço.»

O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou à mulher a odiosa perfídia de que tinha sido vitima.

A mulher disse-lhe:

—«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e foi talvez por isso que te não pôde receber.»

Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.

Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não tornasse ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar meios violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:

—«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe ela, talvez Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais nisso.»

No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro consentido à força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando finalmente tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o leão, que ele tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão, vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou o animal para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.

No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua uma pedra preciosa, em que brilhavam três cores,—o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. António levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia. António respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.

O velho respondeu:

—«São três as virtudes desta pedra: abundância contínua, alegria imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta comprar por menos dinheiro do que vale, tornará imediatamente para a tua mão.»

António ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a sua felicidade. Como se imagina, graças à virtude da famosa pedra, não lhe faltaram daí em diante, nem honras nem riquezas.

Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talismã.

António, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

—«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»

—«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»

E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:

—«Torna a levá-la ao rei imediatamente; não vá ele persuadir-se que lha furtaste.»

O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença de sua majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.

—«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»

António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido semelhante tesouro.

António contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e disse-lhe:

—«Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de Ingratidão, porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes, e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a António as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres enforcado.»

Admiraram todos a sentença do rei, e António desempenhou as suas altas funções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos gloriosos.




O ermitão



Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que já tinha merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado entre os santos mais notáveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:

—Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do músico e mal o encontrou disse-lhe:

—Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitências te tornaste agradável a Deus.

—Ora, respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.»

O austero ermitão continuou a insistir:

—Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»

—Em verdade não poderia citar nem um só.»

—Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu património e o produto do teu ofício?»

—Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma dívida. Essa mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para resgatar a sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»

A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e exclamou:

—Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas dum pobre músico.»




Carlos Magno e o abade de S. Gall



Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos e activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha mais dum motivo de queixa contra ele.

—Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. rev.ma vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada para o rabo.»

O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores mais famosos pela sua ciência, não lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal aproximava-se; já não faltava senão um mês, já não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era gordo e anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.

—Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»

—Estou, meu caro Félix, estou muito doente.»

—Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»

—Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas três perguntas.»

—É então latim?»

—Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»

—Visto que não é latim, queira v. rev.ma dizer-me o que é: minha mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»

Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou com o barrete ao ar, e disse-lhe:

—Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.ma pode continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu vista o seu hábito.»

Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o hábito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.

—Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»

—Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só um dinheiro menos.»

—Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há de ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»

—Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro horas.»

—Decididamente, v. rev.ma é um grande finório, e desta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à que se responde com suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»

—Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.»

—Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas sendo.»

—Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, peço-lhe outra coisa.»

—Não tens mais que falar.»

—Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»

Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.




A boneca



Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história—a história duma boneca!

Não há muitos anos, mas ainda não era a Cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infância folga por entre maciços de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a vista dos dois monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horríveis calamidades, que podem aniquilar um homem—o hospital e a cadeia!—ainda não há muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.

Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por aquela espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por findo o espectáculo, quando novos personagens me chamaram a atenção.

Eram os meus vizinhos ricos.
Aqui é preciso uma rápida explicação.

Das famílias da minha vizinhança, só conheço três.

Qual destas três famílias será mais feliz?...

Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas às outras.

São todas felizes; cada qual a seu modo.

Vi, pois, chegar os meus vizinhos ricos.
Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depô-la no chão, e oferecendo, em seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca onde eu estava.

Não havia ali segredo a surpreender.

Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação de qualquer desejo.

No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos abastadas.

Tinha o necessário para montar completamente a casa duma boneca... rica.

Faltava apenas a dona da casa—a boneca.

Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que tinha de melhor.

Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma magnífica boneca de dois palmos de altura, com cabelo em bandeaux e olhos azuis.

Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de pelica recheada, braços e pernas de pau.

Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças, que fazem o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.

Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, caídos do céu sobre um monte de lama.

São os meus vizinhos pobres.

A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa imediata.

É como se costuma dizer, gente que vai muito bem com a sua vida.

A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.

São os meus vizinhos remediados.

A terceira é a dos meus vizinhos ricos.

Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do estado—nada falta àquela ditosa gente!

Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.

Que formosa criança!... Terá oito anos.

Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado—provavelmente ainda a crescer—que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.

Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do carro.

A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática criança.

Saí dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas considerações, sugeridas pela quase indiferença, com que aquela menina recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.

Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, horrível artefacto português, em que os olhos são representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!

Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados não havia luz.

Na dos meus vizinhos pobres, o pai batia a sola, cantando ao som de três assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.

Quando, no dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.

Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na casa imediata não se via ninguém—estava a pequena na mestra; no palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com auxílio duma linha, uma magnífica caleche descoberta, puxada por cavalos brancos.

Dentro da caleche pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

—«Aí está a tua caricatura, minha feiticeira!...»—disse eu de mim para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»

Retirei-me da janela.

Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.

A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia três e quatro vezes!

Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!

Chamava-lhe sr.a D. Luísa; dava-lhe excelência; sustentava finalmente com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.

Um dia,—estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos ricos—ouvi um grito de susto.

Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.

Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janela.

O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vítima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com despeito à rua, quando mais perto de mim bradou voz tímida e suplicante:

«Não atire!... Dê-ma.»

Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não dera fé até então.

Assim invocada, a menina rica franziu levemente as sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sítio donde vinha a súplica.

Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:

—«Já não presta!... Está esmurrada!...»

—É o mesmo!... Dá-ma?...—bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cobiça.

—«Dou...»—volveu a rica, encolhendo novamente os ombros.

E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despedaçar-se nas lajes da rua.

Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, para mostrar à mãe a que ela ainda não podia acreditar, que fosse sua!

Por espaço de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.

A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! Chamavam-lhe sr.a D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente estranhas para ela!

E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!

Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.

Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas amareladas, chapéus impossíveis, viessem contrastar com a elegância do vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.

Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele as ondulações do moiré, até que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa—-no Inverno!—xaile e manta na cabeça.

Muito mal lhe ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o ver-se tão mal arranjada.

Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:

—É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»

Por esse tempo, entrei em relações com o meu vizinho sapateiro.

O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião, para me pedir desculpa.

Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.

Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita de onze anos, com quem simpatizei logo à primeira vista.

Chama-se Maria.

Por um destes acasos da Providência, que parece às vezes comprazer-se em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.

Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.

E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a minha Maria!»

E tinha razão!

Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.

—É quem vale à mãe!...—acrescentou o velho.»—Ali, onde a vê, faz o serviço duma mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve doente—bem pensei que não arribasse!—a pequena era quem cozinhava e olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu obrigá-la, que ela não a queria deixar!...»

E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lágrima, que, havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.

Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por um lenço branco.

Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à pequena.

Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.

—Eu conheço aquela boneca!...—disse eu de mim para mim.

E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:

—Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...

Foi ali a menina da vizinha!—respondeu a pequenita, corando de prazer.

Era escusado dizer-mo.

Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. Não podia duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez mais visível na fronte.

De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com ela.

—Quem te viu e quem te vê!...—pensava eu.

Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!

Roçada por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, singularíssimo o aspecto da triste!

Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a fraternizar com o povo.

A mísera mudara mais uma vez de nome!...

De sr.a D. Ana passara a ser sr.a Rosinha e tratavam-na por vossemecê.

Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço na cabeça.

Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com a boneca.

Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que mais familiares eram à pequena.

Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.

Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz.

Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio vizinho!

Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos lábios, a boneca não prometia longa duração.

Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última vez que a vi, tentando em vão agradar à última dona que o seu destino lhe dera.

Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

Um dia chovia a cântaros!—o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na passagem mil imundícies.

Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no leito do enxurro...

Olhei... Era a boneca!...

A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo até esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar três ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.

Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

—Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?

—Não fui eu...—balbuciou a pequena, chorando.—Foi ali o Joaquim!...

—E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...

—Ora!...—respondeu o garoto com enfado.—Ora!... Estava velha... e feia!...

Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho.

Pobre boneca!




Inconveniente da riqueza



Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum lado para outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam já todas fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas, tudo estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro duma quinta, e bateu à porta. Foi um camponês que lha veio abrir.

—Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? Não se havia de arrepender.»

E acrescentou:

—Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»

—Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse amanhã o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha dívida. Depois disto não nos fica nada, e não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus quiser!»

Ao dizer isto o camponês limpava o suor da testa, e passava a mão pelos olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve dó dele, e disse-lhe:

—«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»

Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e aproximou-a do trigo.

—Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a tudo!»

Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.

—Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te enriquece.»

Dito isto desapareceu.

E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto como a igreja.

O camponês pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e seus filhos adquiriram costumes perdulários, tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguém os ajudou na sua miséria. Uma noite o velho camponês, que bebera enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais absoluta.




Querer é poder



—Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; quero ver por experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima é verdadeira.

Pôs-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade.

—Senhor, disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes—Quem procura sempre encontra, e quem porfia mata caça. Tomei uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o rei ouviu falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com uma ideia tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

—Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela ciência, pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais são os teus títulos? Para seres o marido de minha filha é necessário que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um diamante dum valor incalculável. Aquele que o encontrar obterá a mão de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava a tirar água com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a rezar.

Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

—Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»

—Encontrar um diamante que caiu ao rio.»

—Então, respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil seria esgotar as últimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa.»

Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do rei.




Qual será rei?



Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

Resolveram além disso que o cadáver do rei fosse posto de pé contra um muro, e que o príncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele alvo, seria o escolhido para sucessor.

Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defunto. O príncipe soltou grito de alegria, cuidando que seus irmãos atirariam pior, e que por conseguinte seria ele quem viria a reinar.

O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais alegre do que o outro príncipe.

O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus gritos de triunfo quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia impossível acertar melhor.

Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mãos as flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a chorar:

—«Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus próprios filhos!»

Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais digno.




Os três véus de Maria



O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve. Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em cima.

Este véu branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunhão.

O segundo véu de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua mãe lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de mármore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas lágrimas.

O véu negro só o trouxe uma vez,—no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da Avé-Maria.

O terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado de estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.

Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou no paraíso.




Os pequenos no bosque



Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos para o bosque que
encontraremos lá toda a espécie de lindos bichinhos, que não fazem outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.»

Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:

—Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a outra já não está sólida.»

—Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o Inverno.»

—Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu ninho.»

—Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a minha toilette

E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?»

—Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanso nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às colinas, aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incêndios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»

Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um pintassilgo, em cima dum ramo.

—Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar connosco?»

—Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operário com o meu chilrear, e tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga, que à noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»

Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que o prazer só é legítimo, quando é a recompensa do trabalho.




O chapelinho encarnado



Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um dia um chapéu de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéu novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapelinho encarnado.

A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia légua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:

—Tua avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta logo.»

—Sim, mamã, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja.»

Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.

—Bons dias, chapelinho encarnado.»

—Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»

—Onde vais tão cedo?»

—A casa da minha avó que está doente.»

—E levas-lhe alguma coisa?»

—Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe dar forças.»

Diz-me onde mora a tua, avó, que também a quero ir ver.»

—É perto, aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim há muitas nozes.»

—Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:—Olha, que bonitas árvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinais que se encontram!»

—O senhor, é com certeza um médico, respondeu a inocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»

—Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta também, e aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

—Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»

E pôs-se a correr em direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.

Quando o lobo chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?»

—É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»

—Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»

Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível.

—Ai! avozinha, disse a criança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»

—É para te ouvir melhor, minha filha.»

—E porque estás com uns olhos tão grandes?»

—É para te ver melhor.»

—E para que estás com os braços tão grandes?»

—É para te poder abraçar melhor.»

—E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns dentes tão agudos?»

—É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se à pobre pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está com um pesadelo, está pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e vê o lobo estendido na cama.

—Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te procuro.»

Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e saltou para o chão, gritando:

—Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada!

A avó saiu também contentíssima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador meteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e afogou-se.

O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho proibisse.