Andando um dia Carlos Magno à caça com uma
comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava tais saltos, e corria por
tal forma, que, apesar da ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe
completamente a pista. Foi só então que viu que estava só,
tendo a sua corte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao
cair da noite numa choupana solitária no meio da floresta. Em roda
da lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores
levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante;
cada um deles tinha tido um sonho, que lhe quiseram logo contar.
O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:
—No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que
acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»
—Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
—E eu que estava pondo o seu manto.»
—E
eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
meu pescoço aquela pesada cadeia
de ouro, da qual está pendurada a sua trompa de caça.»
—Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção
de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de
vocês, e que toda e qualquer resistência seria inútil.
Não lhes peço senão uma coisa, é que me deixem
tocar pela última vez na minha trompa de caça.»
Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último
pedido dum moribundo deve ser respeitado.
Carlos Magno levou
à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou dela sons tão
fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os seus companheiros
de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele.
—Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também
eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
enforcados diante deste casebre.»
E o sonho realizou-se
imediatamente.
Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica
em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse
contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o
edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei
gravar numa pedra do mármore uma inscrição em letras
de ouro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado
a cabo aquela obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi
apagado da inscrição, e substituído por o duma pobre
mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar pôr o seu
nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da
pobre mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera,
ordenou então que lhe trouxessem a mulher à sua presença:
—Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem
fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo
que não cumpriste as minhas ordens.»
—«Senhor,
respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas ordens,
apesar da mágoa que sentia por não
poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem; mas
julguei não desobedecer a vossa majestade, deixando por vezes de
jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas
aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção
da igreja.»
—«O teu nome é mais digno
do que o meu de figurar em letras de ouro na inscrição do
monumento, disse-lhe o rei.»
Mas na noite seguinte uma mão
invisível restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei,
que desde então lá se conserva ainda.
Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos,
por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude
marcial, de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e
vermelhos! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a
tampa da caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados
de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria.
Tinham-lhos dado de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era
formá-los sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se
pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma
perna de menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e
já não havia chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os
outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que ele na sua
única, e é este o que precisamente nos interessa.
Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo
de papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o
interior dos salões. À volta era circundado duma floresta em
miniatura, que se reflectia poeticamente num pedaço de espelho que
fingia um lago, onde nadavam pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era
encantador, mas não tanto como uma menina que estava à
porta, e que era também de papel, vestida com um lindo vestido de
cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços
arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a
tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou
que, como ele, não tinha senão uma perna.
—Ali
está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma
grande fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de
vinte e quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela.
No entanto preciso conhecê-la.»
Deitou-se atrás
duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a elegante dançarina,
que estava sempre num pé só, sem perder o equilíbrio.
À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as
pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile.
Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque
queriam lá ir; mas como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes
começou a dar cabriolas e saltos mortais, o lápis traçou
mil arabescos fantásticos numa lousa, enfim o barulho tornou-se tal
que o canário acordou, e pôs-se a cantar. Os únicos
que estavam quietos eram o soldado de
chumbo e a dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa
perna só, a espreitá-la.
Deu meia noite, e zás,
a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar de rapé,
saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.
—Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro sítio.»
Mas o soldado fez que não ouvia.
—Espera até
amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado
de chumbo à janela, mas de repente ou por influência do
feiticeiro ou por causa do vento caiu à rua de cabeça para
baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a
barretina, e com a baioneta enterrada entre duas lajes.
A
criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas
estiveram quase a esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado
tivesse gritado: «Cautela!» te-lo-íam achado, mas ele
julgou que seria desonrar a farda. A chuva começou a cair em
torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois do aguaceiro
passaram dois garotos.
—Olá! disse um deles, um
soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo navegar.»
Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado
de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O
barco jogava duma maneira horrorosa, mas
o soldado de chumbo conservava-se impassível, com os olhos fixos e
a espingarda ao ombro.
De repente o barco foi levado para um
cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos
soldados.
—Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante
do feiticeiro que me meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela
linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão
fosse duas vezes maior.»
Dali a pouco apresentou-se um
enorme rato de água; era um habitante do cano.
—Venha
o teu passaporte.»
Mas o soldado de chumbo não
disse nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco
continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e
gritando às palhas, e aos cavacos:—Façam-no parar, façam-no
parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do
dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais
valente. Havia na extremidade do cano uma queda de água tão
perigosa para ele, como é para nós uma catarata.
Aproximava-se dela cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez
vertiginosa. O barco lançou-se sobre a queda de água, e o
pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se
atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo,
encheu-se de água, e estava a ponto de
naufragar. A água já chegava ao pescoço do soldado, e
o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a água
passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento
supremo, pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma
voz que dizia:
—Soldado: o perigo é enorme, a
morte espera-te.»
O papel rasgou-se, e o soldado passou
através dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.
Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E
além disso, que talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido,
o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.
O
peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que
enfim parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a
luz do dia, e alguém exclamou:
—Olha um soldado de
chumbo!»
O peixe tinha sido pescado, exposto na praça,
vendido, e levado para a cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma
enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a
sala, onde toda a gente quis admirar esse homem extraordinário, que
tinha viajado na barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se
sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali—tanto é
verdade que acontecem coisas extraordinárias neste mundo—achou-se
na mesma sala, de cuja janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e
os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo palácio, e a
adorável dançarina sempre de
perna no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa
vontade teria derramado lágrimas de chumbo, mas não era
conveniente. Olhou para ela, ela olhou para ele, mas não disseram
uma palavra um ao outro.
De repente um dos pequenos pegou nele,
e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da
caixa do rapé.
O soldado de chumbo lá estava
perfilado, alumiado por um clarão sinistro, e sofrendo um calor
terrível. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se
pudesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus
desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que também
olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre intrépido,
conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma porta, o vento
arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não
era mais que uma pequena massa informe.
No dia seguinte, quando
a criada veio tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio dum
pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina
era a fivela do cinto azul que o lume tinha enegrecido.
João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas
um pouco simplório. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira
João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o à feira comprar
uma foice. À volta, começou a andar com a foice à
roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.
—Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito
era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno dalgum dos
vizinhos.»
—Perdão, mãe, respondeu
humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»
Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
as não perdesse.
—Fique descansada. E voltou todo
orgulhoso.»
—Então, João, onde estão
as agulhas?»
—Ah! estão em lugar seguro.
Quando saí da loja em que as comprei, ia a passar o carro do
vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não podem
estar em sítio melhor.»
—De certo, estão
em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as tornar a
ver. Devias tê-las espetado no chapéu.»
—Perdão, respondeu João,
para a outra vez, hei-de ser mais esperto.»
Na outra
semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar
uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe,
pôs a manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça.
Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer
manteiga derretida.
A mãe já tinha medo de o
mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandá-lo
à feira vender duas galinhas.
—Ouve bem, não
vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam outro.»
—Está entendido, respondeu João.»
Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.
—Queres seis tostões por essas galinhas?»
—Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse
o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»
—E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»
—Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o
primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não
tem que me ralhar.»
Depois disto, João foi
condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com ele, e se
riam dela. Uma manhã quis fazer uma experiência, e disse-lhe:
—Vai vender este carneiro à feira. Mas não te
deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço
mais elevado.»
—Está bem, agora entendo, e
sei o que hei de fazer.»
—Quanto
queres por esse carneiro?
—Minha mãe disse-me que
o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
—Quatro mil réis?»
—É o
preço mais elevado?»
—Pouco mais ou menos.»
—É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que
trepara a uma escada.
—Quanto?»
—Dez
tostões:»
—É menos, respondeu
timidamente o João.»
—Sim, mas vês até
onde chega esta escada. Em toda a feira não há um preço
mais elevado.»
—Tem razão. É seu o
carneiro.»
Desde esse dia o João Pateta não
tornou a ser encarregado de vender ou comprar coisa alguma.
Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter
filhos. Um dia de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano
olhando de vez em quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no
chão, distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de
sangue.
—Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns
beiços tão vermelhos como este sangue, uma pele branca como
esta neve, e uns cabelos negros como este ébano.»
Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma
filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão
branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe
não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a
casar com uma mulher duma grande beleza, e dum orgulho não menos
extraordinário. Era tão formosa que se considerava a mulher
mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e
colocando-se diante dum espelho mágico dizia-lhe:
—Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda
que há no mundo?»
—És tu, respondia o
espelho.»
No entanto
Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha
apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar
maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho,
disse-lhe:
—Meu fiel espelho, responde-me: qual é
a mulher mais linda que há no mundo?»
—Não
és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»
A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração
uma dor aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio
mortal pela inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de
noite. Para satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:
—Quero que Branca desapareça. Conduze-a à
floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas
pontualmente, traz-me o coração.»
O criado
levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e dispunha-se a
executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e
lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não
tinha feito mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com
aquelas lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na
floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era
dele, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração
de Branca à rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração.
A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou contentíssima, e
disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo
é tão bela como eu.
A
pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas
pedras, e andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela
primeira vez também via animais ferozes. Mas as feras não
lhe faziam mal algum, o deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado
sete montanhas.
À noite chegou ao pé duma casinha
muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo
estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a
mesa, coberta com uma toalha de brancura irrepreensível, sete
pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas
muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu
uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, rezou, e adormeceu
profundamente.
Momentos depois os donos da casa entraram. Eram
sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura.
Viram logo que tinham gente em casa. Um deles disse:
—Quem
comeu o meu pão?»
E os outros sucessivamente:
—Quem pegou no meu garfo?»
—Quem comeu
o meu caldo?»
—Quem bebeu o meu vinho?»
E enfim um deles:
—Quem está aí
deitado na minha cama?»
Reuniram-se todos à roda
do pequeno leito em que dormia Branca. À luz das lanternas viram o
doce rosto da criança, que dormia tranquilamente, e afastaram-se sem fazer bulha, para a não
acordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada,
quando viu perto de si aqueles sete anões das montanhas. Mas eles
disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe
donde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste história,
e os anões disseram-lhe:
—Queres tu ficar
connosco, para tomar conta da nossa casa?»
—Da
melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.»
Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente
todos os dias. Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões
iam trabalhar para as minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam
achavam tudo em ordem.
Durante esse tempo a rainha andava
satisfeita, quando pensava que já não tinha que recear uma
rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:
—Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a
mulher mais linda que há no mundo?»
E o espelho
respondeu:
—Sim, nos teus palácios e nos teus
castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é
mais linda do que tu.»
Ouvindo esta resposta a orgulhosa
rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer
desaparecer a inocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu
disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio de objectos
de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à porta da casinha, gritando: «Quem quer
comprar bonitas jóias?»
Os anões tinham
recomendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os
emissários da rainha, e ela tinha prometido ser prudente. Mas,
quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se
das suas promessas.
—Veja este rico colar, minha menina,
eu mesmo lho vou pôr ao pescoço.»
Branca
consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões
voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios
algumas gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou
a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha
acontecido.
—Podes estar certa, disseram-lhe eles, que
essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a
rainha. Toma cautela, não deixes entrar aqui ninguém, quando
não estivermos em casa.»
Ao entrar no seu palácio
toda contente, colocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:
—Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que
há no mundo? Responde.
E o espelho respondeu:
—És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos,
mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do
que tu.»
A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez
tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou às sete
montanhas, e bateu à porta da cabana.
—Quem quer
comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu:
—Vá-se embora, aqui não entra ninguém.»
—Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de
ouro. Já viu outro tão bonito?»
Branca não
pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a
porta.
—Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na
cabeça.»
Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça
o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.
À
noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria.
Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e tornaram
a recomendar-lhe que fosse prudente.
No entanto a cruel rainha
voltava contentíssima para o seu palácio. Apenas chegou, foi
direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu
como antecedentemente.
—Ah! é preciso que ela
morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.
Vestiu-se
de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que
estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.»
—Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»
—Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo
entrar ninguém, nem compro coisa alguma.»
—Está
bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs.
Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.»
—Obrigada, não posso aceitar.»
—Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um
pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao
pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã,
que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou à
boca o outro pedaço, e caiu fulminada.
—Aí
tens, para castigo da tua formosura.»
Quando chegou ao
palácio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:
—Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
E o espelho respondeu:
—És tu, és tu.»
—Até que enfim!»
Os anões
estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com
o licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os
passarinhos da floresta choraram também. No entanto as boas
avezinhas não podiam acreditar que ela estivesse morta, e vendo o
seu rosto tão tranquilo, as suas faces tão frescas, parecia
que estava a dormir. Não quiseram enterrá-la. Meteram-na num
caixão de cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha
dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas, e um
deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim
durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.
Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar
à caça, viu o caixão, e pediu aos anões que
lho cedessem, fosse por preço que fosse.
—Somos muito ricos, e por nada deste
mundo venderemos este caixão, que é o nosso tesouro.»
—Então dêem-mo, já não posso viver
sem contemplar este rosto de mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do
meu palácio. Peço-lhes que me façam isto.»
Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no
caixão para o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão
sofreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã
envenenada, que Branca não tinha engolido, e que lhe ficara na
boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O jovem príncipe levou-a
para o seu castelo, e casou com ela. O casamento fez-se com grande pompa.
O príncipe convidou todos os reis e rainhas dos diferentes países,
e entre elas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico
vestido, que devia atrair todos os olhares, pôs-se diante do
espelho, e disse a rainha:
—Meu fiel espelho, qual a
mulher mais linda que há do mundo?»
E o espelho
respondeu:
—Branca é mais formosa que tu.
A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus
crimes fossem descobertos, que morreu de repente.
Branca viveu
muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de princesa não
se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.
Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o
último de Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e
desta escuridão passou na rua uma desgraçada pequerrucha,
com a cabeça descoberta e os pés descalços. É
verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco
tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado,
tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a
correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto
ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de
fazer dele um berço para o seu primeiro filho.
A
pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha no
seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na mão
um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
compradores, e por isso não apurara cinco réis.
Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço;
mas pensava ela porventura nos seus
cabelos anelados?
As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se
na rua o cheiro dos manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis
no que ela pensava.
Deixou-se cair a um canto, entre dois
muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a
voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os
seus fósforos. Além disso em sua casa fazia tanto frio como
na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apesar de
o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãozinhas já
quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso lhe faria
bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o
aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: ritche! como estoirou!
como ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena
lamparina. Que luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um
enorme braseiro de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão
suavemente, que era um regalo.
A pequerrucha ia já a
estender os pezitos para os aquecer também, quando a chama se
apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita
de fósforo consumido.
Acendeu segundo fósforo,
que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chama tornou-se
transparente como vidro. Olhando através desse muro, a pequerrucha
viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha alvíssima,
deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha assada com
recheio de ameixas e de batatas fumegava
exalando um perfume delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a
galinha saltou do prato, e caiu no chão ao pé da
pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo,
e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.
Acendeu
terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo de uma
magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do
que a que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém
sumptuoso.
Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões
acesos, e as estampas coloridas, como as que há às portas
das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarrá-las com as duas mãos,
apagou-se o fósforo; todos os balões da árvore do
Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha
enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu um
longo rasto de fogo.
—É alguém que está
a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria
tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»
Acendeu ainda
outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe apareceu sua
avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo.
—Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu
sei que te vais embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás
como a panela de ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.
Acendeu o rosto do maço, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e os fósforos
espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó
tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas
alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão
alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias:
haviam chegado ao Paraíso.
Mas quando rompeu a fria
madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com
as faces incendiadas, o sorriso nos lábios... morta, morta de frio
na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio alumiar o pequenino
cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que faltava um
maço, que tinha ardido quase inteiramente.—Quis aquecer-se,
disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas
coisas que ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a
sua velha avó no dia do Ano Novo.
Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu,
porque Deus tinha dito:—É uma boa alma, e, como lá em
baixo no mundo lhe pode acontecer alguma desgraça, vou trazê-la
um destes dias para o paraíso.»
Margarida era uma
virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como ela; todos os
dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe
tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não
tinha jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção
de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e
que podia sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.
Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de
casa fiando linho, à hora em que as estrelas começam a
aparecer, uma a uma no firmamento.
Estava Margarida cantando a
sua canção, quando passou
por ali uma das suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um
vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus
brincos e o colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão
para que visse bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir,
toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.
O fio de
linho já não passava tão rapidamente entre os dedos
de Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe
das mãos.
Ao cair o fuso despertou do êxtase,
abriu os olhos, e viu diante de si um cavaleiro magnificamente vestido,
tendo na mão um gorro de veludo preto, com uma pluma vermelha, da
cor do fogo. O cavaleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz
harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:
—Qual é
o caminho da cidade?»
Margarida estendeu a mão
para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um anel de
ouro com um diamante, que brilhava como uma estrela, e meteu-o no dedo de
Margarida, que o achou mais belo do que o anel da sua companheira. O rosto
do cavaleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabólico.
Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
Margarida tirou do dedo o
anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado.
O cavaleiro então,
soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre Margarida,
mas o mendigo—que era o seu anjo
da guarda disfarçado—cobriu-a com as asas. E o cavaleiro,
isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou
aniquilado diante do espírito celeste.
Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma
humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não
vendo, nem ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no
casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
—«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater
à mesma porta.
—Pelo amor de Deus! gritou a
velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»
—Foi por isso que eu voltei—disse em voz baixa o
mendigo.
E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do
bolso, pondo-os em cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas
moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a
velha a primeira vez.
—Aqui te fica isto, santinha—disse-lhe
ele afectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de
lhe agradecer.»
Não sabemos qual era o nome do
mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no Paraíso, e mais
tarde nós o viremos a saber.
O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais
delicadas e transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus
raios sobre ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer,
como o dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
—Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito
crescido, e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz.
Não há ninguém que seja mais feliz do que eu sou.
Tenho saúde e um belo futuro. A luz acaricia-me, e a chuva
encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder
ser!»
—Como és ingénuo! disseram as
silvas do valado; tu não conheces o mundo, de que nós outras
temos uma larga experiência.»
E rangendo
lastimosamente, cantaram:
—Não tão cedo como vocês imaginam,
respondeu o linho; está uma bela manhã, o sol resplandece,
e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
florir. Sou muitíssimo feliz.»
Mas um belo dia
vieram uns homens que agarraram no linho pela cabeleira, arrancaram-no com
raízes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro
mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e
depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!
—Não
se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário
sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.»
Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, puseram-no
numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
—Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio
daquelas torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades
perdidas.»
E ainda estava dizendo—perdidas, e já
o estavam a meter no tear e a transformá-lo numa peça de
pano.
—Isto é extraordinário, nunca o
imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquelas silvas quando
cantavam:
Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é
verdade, mas por isso também agora sou mais feliz do que nunca.
Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto
é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguém trata
da gente, e não bebemos outra
água a não ser a da chuva. Agora é o contrário:
que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e à
noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura fez um
discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça
da paróquia. Não posso ser mais feliz.»
Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no
e picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável,
mas em compensação fizeram dele uma dúzia de camisas
magníficas.
—Agora decididamente começo a
valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou
útil neste mundo. É preciso isso para se viver em paz, e
ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas
formamos um só grupo, uma dúzia. Que incomparável
felicidade!
O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.
—Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda,
mas não se fazem impossíveis.»
E as camisas
foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a
sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem adivinharem o
que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnífico.
—Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou
muito mais fino do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não
escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas
diante de inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e
melhores.
—Ora aqui está
uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na
terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de
servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me
está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que
nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Ele que
gradualmente me elevou, até chegar à maior glória.
Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais
risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam
ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis;
agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me
feliz, imensamente feliz!»
Mas o papel não foi
viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá estava
escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que
recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a
volta à roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
—É justo, disse o papel, não tinha pensado
nisso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu
que recebi as letras, as palavras caíram directamente da pena sobre
mim, fico no meu lugar, e os livros vão por esse mundo fora. A sua
missão é realmente bela, e eu estou contente, e julgo-me
feliz.
O papel foi empacotado, e lançado para uma
estante.
—Depois do trabalho é agradável o
descanso, pensou ele. É neste
isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante
é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo
é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda
acontecer? Progredir, está claro.»
Passados
tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que
o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar.
E todas as crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo
arder, e ver também, depois da labareda, as milhares de faíscas
vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma após
outra. O maço inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como ele
ardia! Tornara-se numa grande chama, que se erguia tão alto, tão
alto como o linho nunca erguera as suas flores azuis; a peça de
pano nunca tinha tido um brilho semelhante.
Todas as letras,
durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as
ideias desapareceram em línguas de fogo.
—«Vou
subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que
pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé,
e no meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos
do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha
dado. Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se
extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra,
ainda eles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a,
pequeninas centelhas encarnadas.
As crianças cantavam
à roda da cinza inanimada:
Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não
se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e
julgo-me feliz.»
As crianças não puderam
ouvir, nem compreender estas palavras; mas também não era
necessário, porque as crianças não devem saber tudo.