Os cinco sonhos



Andando um dia Carlos Magno à caça com uma comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só então que viu que estava só, tendo a sua corte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitária no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe quiseram logo contar.

O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:

—No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»

—Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»

—E eu que estava pondo o seu manto.»

—E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pescoço aquela pesada cadeia de ouro, da qual está pendurada a sua trompa de caça.»

—Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e qualquer resistência seria inútil. Não lhes peço senão uma coisa, é que me deixem tocar pela última vez na minha trompa de caça.»

Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último pedido dum moribundo deve ser respeitado.

Carlos Magno levou à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou dela sons tão fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele.

—Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser enforcados diante deste casebre.»

E o sonho realizou-se imediatamente.




A igreja do rei



Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do mármore uma inscrição em letras de ouro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, e substituído por o duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar pôr o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou então que lhe trouxessem a mulher à sua presença:

—Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.»

—«Senhor, respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção da igreja.»

—«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na inscrição do monumento, disse-lhe o rei.»

Mas na noite seguinte uma mão invisível restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.




O valente soldado de chumbo



Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial, de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era formá-los sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e já não havia chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que ele na sua única, e é este o que precisamente nos interessa.

Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo de papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos salões. À volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia poeticamente num pedaço de espelho que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas não tanto como uma menina que estava à porta, e que era também de papel, vestida com um lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou que, como ele, não tinha senão uma perna.

—Ali está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma grande fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de vinte e quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela. No entanto preciso conhecê-la.»

Deitou-se atrás duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a elegante dançarina, que estava sempre num pé só, sem perder o equilíbrio.

À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas e saltos mortais, o lápis traçou mil arabescos fantásticos numa lousa, enfim o barulho tornou-se tal que o canário acordou, e pôs-se a cantar. Os únicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa perna só, a espreitá-la.

Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar de rapé, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.

—Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro sítio.»

Mas o soldado fez que não ouvia.

—Espera até amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»

No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de chumbo à janela, mas de repente ou por influência do feiticeiro ou por causa do vento caiu à rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta enterrada entre duas lajes.

A criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas estiveram quase a esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: «Cautela!» te-lo-íam achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva começou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.

—Olá! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo navegar.»

Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O barco jogava duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se impassível, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.

De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos soldados.

—Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas vezes maior.»

Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de água; era um habitante do cano.

—Venha o teu passaporte.»

Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando às palhas, e aos cavacos:—Façam-no parar, façam-no parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»

Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente. Havia na extremidade do cano uma queda de água tão perigosa para ele, como é para nós uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a queda de água, e o pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, encheu-se de água, e estava a ponto de naufragar. A água já chegava ao pescoço do soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a água passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento supremo, pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

—Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»

O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.

Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além disso, que talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.

O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que enfim parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a luz do dia, e alguém exclamou:

—Olha um soldado de chumbo!»

O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente quis admirar esse homem extraordinário, que tinha viajado na barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali—tanto é verdade que acontecem coisas extraordinárias neste mundo—achou-se na mesma sala, de cuja janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável dançarina sempre de perna no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa vontade teria derramado lágrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ela, ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra um ao outro.

De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

O soldado de chumbo lá estava perfilado, alumiado por um clarão sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre intrépido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma porta, o vento arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio dum pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha enegrecido.




João Pateta



João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas um pouco simplório. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o à feira comprar uma foice. À volta, começou a andar com a foice à roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.

—Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.»

—Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»

Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que as não perdesse.

—Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.»

—Então, João, onde estão as agulhas?»

—Ah! estão em lugar seguro. Quando saí da loja em que as comprei, ia a passar o carro do vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não podem estar em sítio melhor.»

—De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as tornar a ver. Devias tê-las espetado no chapéu.»

—Perdão, respondeu João, para a outra vez, hei-de ser mais esperto.»

Na outra semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe, pôs a manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça. Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandá-lo à feira vender duas galinhas.

—Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam outro.»

—Está entendido, respondeu João.»

Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.

—Queres seis tostões por essas galinhas?»

—Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»

—E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»

—Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não tem que me ralhar.»

Depois disto, João foi condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com ele, e se riam dela. Uma manhã quis fazer uma experiência, e disse-lhe:

—Vai vender este carneiro à feira. Mas não te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

—Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

—Quanto queres por esse carneiro?

—Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

—Quatro mil réis?»

—É o preço mais elevado?»

—Pouco mais ou menos.»

—É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada.

—Quanto?»

—Dez tostões:»

—É menos, respondeu timidamente o João.»

—Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não há um preço mais elevado.»

—Tem razão. É seu o carneiro.»

Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou comprar coisa alguma.




Branca de Neve



Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando de vez em quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão, distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.

—Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros como este ébano.»

Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher duma grande beleza, e dum orgulho não menos extraordinário. Era tão formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho mágico dizia-lhe:

—Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no mundo?»

—És tu, respondia o espelho.»

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:

—Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no mundo?»

—Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dor aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal pela inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:

—Quero que Branca desapareça. Conduze-a à floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o coração.»

O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não tinha feito mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com aquelas lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca à rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão bela como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez também via animais ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

À noite chegou ao pé duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham gente em casa. Um deles disse:

—Quem comeu o meu pão?»

E os outros sucessivamente:

—Quem pegou no meu garfo?»

—Quem comeu o meu caldo?»

—Quem bebeu o meu vinho?»

E enfim um deles:

—Quem está aí deitado na minha cama?»

Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia Branca. À luz das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia tranquilamente, e afastaram-se sem fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste história, e os anões disseram-lhe:

—Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?»

—Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.»

Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:

—Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda que há no mundo?»

E o espelho respondeu:

—Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio de objectos de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas jóias?»

Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha prometido ser prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se das suas promessas.

—Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pôr ao pescoço.»

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios algumas gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

—Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, não deixes entrar aqui ninguém, quando não estivermos em casa.»

Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:

—Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que há no mundo? Responde.

E o espelho respondeu:

—És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou às sete montanhas, e bateu à porta da cabana.

—Quem quer comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu:

—Vá-se embora, aqui não entra ninguém.»

—Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. Já viu outro tão bonito?»

Branca não pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a porta.

—Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na cabeça.»

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.

À noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria. Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu palácio. Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu como antecedentemente.

—Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.

Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.»

—Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»

—Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo entrar ninguém, nem compro coisa alguma.»

—Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.»

—Obrigada, não posso aceitar.»

—Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

—Aí tens, para castigo da tua formosura.»

Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:

—Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»

E o espelho respondeu:
—És tu, és tu.»

—Até que enfim!»

Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com o licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os passarinhos da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas não podiam acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquilo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quiseram enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas, e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.

Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar à caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lho cedessem, fosse por preço que fosse.

—Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que é o nosso tesouro.»

—Então dêem-mo, já não posso viver sem contemplar este rosto de mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu palácio. Peço-lhes que me façam isto.»

Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão sofreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos os reis e rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha:

—Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do mundo?»

E o espelho respondeu:

—Branca é mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.




A rapariguinha e os fósforos



Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o último de Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escuridão passou na rua uma desgraçada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de fazer dele um berço para o seu primeiro filho.

A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na mão um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não apurara cinco réis.

Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço; mas pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?

As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava.

Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os seus fósforos. Além disso em sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãozinhas já quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso lhe faria bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: ritche! como estoirou! como ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena lamparina. Que luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão suavemente, que era um regalo.

A pequerrucha ia já a estender os pezitos para os aquecer também, quando a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita de fósforo consumido.

Acendeu segundo fósforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando através desse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha alvíssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do prato, e caiu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.

Acendeu terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo de uma magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém sumptuoso.

Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões acesos, e as estampas coloridas, como as que há às portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarrá-las com as duas mãos, apagou-se o fósforo; todos os balões da árvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu um longo rasto de fogo.

—É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»

Acendeu ainda outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe apareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo.

—Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás como a panela de ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.

Acendeu o rosto do maço, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e os fósforos espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraíso.

Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lábios... morta, morta de frio na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio alumiar o pequenino cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que faltava um maço, que tinha ardido quase inteiramente.—Quis aquecer-se, disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas coisas que ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Ano Novo.




O primeiro pecado de Margarida



Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu, porque Deus tinha dito:—É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe pode acontecer alguma desgraça, vou trazê-la um destes dias para o paraíso.»

Margarida era uma virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como ela; todos os dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e que podia sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.

Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de casa fiando linho, à hora em que as estrelas começam a aparecer, uma a uma no firmamento.

Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por ali uma das suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.

O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe das mãos.

Ao cair o fuso despertou do êxtase, abriu os olhos, e viu diante de si um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de veludo preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:

—Qual é o caminho da cidade?»

Margarida estendeu a mão para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabólico.

Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado.

O cavaleiro então, soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo—que era o seu anjo da guarda disfarçado—cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espírito celeste.




Um nome inscrito no céu



Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

—«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»

E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater à mesma porta.

—Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»

—Foi por isso que eu voltei—disse em voz baixa o mendigo.

E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

—Aqui te fica isto, santinha—disse-lhe ele afectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»

Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no Paraíso, e mais tarde nós o viremos a saber.




O linho



O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.

—Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. Não há ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saúde e um belo futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»

—Como és ingénuo! disseram as silvas do valado; tu não conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiência.»

E rangendo lastimosamente, cantaram:

—Cric, crac! cric, crac! crac!
—Acabou-se! acabou-se! acabou-se!


—Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bela manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e florir. Sou muitíssimo feliz.»

Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela cabeleira, arrancaram-no com raízes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!

—Não se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.»

Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, puseram-no numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.

—Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio daquelas torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas.»

E ainda estava dizendo—perdidas, e já o estavam a meter no tear e a transformá-lo numa peça de pano.

—Isto é extraordinário, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:

Cric, crac! cric, crac! crac!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!


Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso também agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguém trata da gente, e não bebemos outra água a não ser a da chuva. Agora é o contrário: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e à noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça da paróquia. Não posso ser mais feliz.»

Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no e picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável, mas em compensação fizeram dele uma dúzia de camisas magníficas.

—Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou útil neste mundo. É preciso isso para se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um só grupo, uma dúzia. Que incomparável felicidade!

O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.

—Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas não se fazem impossíveis.»

E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnífico.

—Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»

E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas diante de inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e melhores.

—Ora aqui está uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, até chegar à maior glória. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, imensamente feliz!»

Mas o papel não foi viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta à roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.

—É justo, disse o papel, não tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as palavras caíram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os livros vão por esse mundo fora. A sua missão é realmente bela, e eu estou contente, e julgo-me feliz.

O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.

—Depois do trabalho é agradável o descanso, pensou ele. É neste isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»

Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar. E todas as crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo arder, e ver também, depois da labareda, as milhares de faíscas vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma após outra. O maço inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande chama, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguera as suas flores azuis; a peça de pano nunca tinha tido um brilho semelhante.

Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as ideias desapareceram em línguas de fogo.

—«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé, e no meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda eles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas encarnadas.

As crianças cantavam à roda da cinza inanimada:

Cric, crac! cric, crac! crac!
Acabou-se! acabou-se! acabou-se!


Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»

As crianças não puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas também não era necessário, porque as crianças não devem saber tudo.


FIM.





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