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TEXT
OS MEUS AMORES
TRINDADE COELHO
OS MEUS AMORES
(Contos e Balladas)
2.ª
edição
LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira
50, 52—Rua Augusta—52, 54
1894
LISBOA
Typographia e Stereotypia Moderna
11—Apostolos—11
Ao
Doutor
Antonio Xavier PERESTRELLO
«Os Meus Amores»
Folhas dispersas dos meus
annos de oiro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
As Desdémonas sois de um outro moiro.
As brancas horas que eu em sonhos doiro,
Essas horas febris, illuminadas,
Eil-as fugindo, em tristes debandadas...
Levaes nas azas todo o meu thesoiro.
Folhas: subi, voae ao céo tão alto,
Que o ceo em estrellas vos converta e mude,
Lá nas longinquas illusões que exalto;
Como as frementes aguas d'um açude,
Levae a Deus, no derradeiro salto,
O derradeiro adeus da juventude...
Luiz Osorio.
IDYLLIO RUSTICO
A Fialho d'Almeida.
Quando atravessou a
povoação, rua abaixo, com o
rebanho atraz d'elle, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas
tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha
das
habitações o mais insignificante ruido. Dormia-se
a somno solto por todas aquellas casas.
Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo
chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde
ficara de sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite
fazendo companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores
entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios,
n'alguma esturdia, a deshoras...
Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a
banda, n'uma grande pacificação de templo
adormecido. Nem viv'alma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho
em zig-zags. Fulgiam no
céo
azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a
largura, a paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito
mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da
noite. No emtanto a
manhã era calma; nem rumores de briza pela rama das
azinheiras velhas que faziam guarda ao corrego por onde o rebanho
tomara. Cigarras, grillos nas hervagens, rãs que coaxavam
nas regueiras, era o mais que se
ouvia acima do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em
todo o
rebanho que se ia submissamente á mercê do pequeno
pastor,
parando se elle parava a colher as amoras frescas dos silvados,
recomeçando
marcha se de novo elle se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro,
que o echo levou para longe.
—Não gastes polvora, Antonio!—recommendou o
pastor.—Ouviste?
E logo a voz do guardador:
—Madrugas hoje, Gonçalo!
—P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
—Está bem. Adeus!
—Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz,
no som, na côr. Invadia a amplidão da cupula
celeste uma tinta alvacenta, onde as
estrellas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira
d'além, entravam
de fazer-se nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes
rochedos tinham altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra...
N'este assomo d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a
alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos
levantavam-se repentinamente, em vôo perpendicular, e
cortavam ares
fóra, chilreantes e alegres, até se perderem de
vista por de traz dos
arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas immoveis, o
rafeiro espreitava as hervagens
seccas, onde algum reptil passasse vagaroso.
—Busca, Turco!—fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo
ás cobras.—Busca, valente!
Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas
ouvia-se, mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas
primeiro que
lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de
passos e de paciencia,—reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte
os interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre,
á frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos
começaram
de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle
céo ainda
estrellado, o Gonçalo desabafou:
—Uff! até que emfim!—E pensava aliviado:—Nada mais facil
do que terem-me sahido os lobos!...
Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a
corrente liquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava
lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham
morrido afogados, n'uma
lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes
acudissem, em tamanho transe afflictivo. A margem de lá,
especialmente,
era toda accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre
os quaes
no inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que
era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem
incautos, n'um
descuido involuntario—simples remadela pouco a tempo, manobra menos
segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro,
projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e
desconforme, que mais triste fazia o
sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente,
fazendo limitada a paizagem.
A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se
então a beber manso e manso, e sem o minimo ruido.
Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de
lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem.
—Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada...
E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta,
pensava:
—Ora se será ella?...
Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um
clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como
elle, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito
não
vira.
—Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo.
E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se
attentamente á escuta do tilintar dos chocalhos na margem
opposta.
«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o
pastor é que podia ser outro que não a
Rosaria...»
Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de
contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando
para deante o
bornal, feito da pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou
de lá
a sua flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de
cantiga
rustica.
No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
—Ehlà, Gonçalo, és?
O pastor desatou a rir.
—Uhlá, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
—Não te esqueceu a moda, rapaz!
—Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?—Se outra fosse que m'a
tivesse ensinado...
N'este meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e
o marmeleiro para ir ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou:
—Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
—Vem tu d'ahi. Por cá sempre é outra coisa
p'r'as ovelhas. Han?
—Basta!
E dando o signal da partida, o Gonçalo pôz-se em
marcha. D'ahi a pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte
moirisca, toda severa de
construcção nos seus tres arcos
lançados sem elegancia, atufados de parasitas seculares que
a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas bravas.
A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno
oratorio ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades
de arame, diziam
dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde
nicho com respeito se descobrissem, e com devoção
rezassem uma velha prece que era como um talisman precioso para livrar
de maiores desgraças—naufragios no rio, e então
maus
encontros por aquelles caminhos escabrosos, que eram um perigo
constante para homens e
animaes.
D'ahi a pouco, as duas creanças estavam perto uma da outra,
cada qual seguida do seu rebanho.
—Ora viva a Rosaria!—disse o pastor muito alegre, parando defronte da
cachopa.
—Bons dias, Gonçalo; então que ventos?
Entre os dois travou-se então um longo dialogo em que se
contaram tudo o que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham
voltado juntos
da feira dos Caniços.
—Por signal que nem rez se vendeu!—lembrou o Gonçalo.
—Por signal!—disse com pena a Rosaria.
Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na
fé que a encontrava. «Vêl-a agora,
só por
milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja elle...»
—Mas se eu estive tão doente!—volveu triste a Rosaria.
E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou:
—Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate!
Febre que era mesmo lume desde manhã até ao
escurecer... Uma
assim!
E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas
vezes, na febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por
montes e
prados, como agora tinha acontecido, «tal e qual».
—Assim te Deus salve, ó Rosaria?—atalhou rapido o pastor,
a quem enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga.
—Assim; pois que duvida?—tornou-lhe confiada a Rosaria.
—Não!—disse agastado o Gonçalo.—Não
has-de dizer assim... Diz certo, has-de jurar direito.
—Pois assim me Deus salve...
—Como é verdade...—Diz tudo, Rosaria!—supplicava o
pastor.
—Sim, volveu-lhe paciente a companheira,—como é verdade
que sonhava que nos encontravamos—concluiu por fim, muito risonha.
E sem disfarçar o jubilo, prestes o Gonçalo a
certificou de que tambem não a esquecera. «Tanto
é que tirava da
frauta as cantigas todas que ella lhe tinha ensinado.»
—Lembras-te?
A Rosaria faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na
frauta de sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
—Sahem d'aqui sem falhar uma.—E resoluto:—Vá feito,
Rosaria, pede por bocca!
A Rosaria pediu então a
Pastorinha.
—Eu é da que mais gosto,—explicou.—É a mais
linda.
—E é!—concordou o Gonçalo.—Ora escuta
lá.
E levando aos labios a avena, pôz-se a tocar a
Pastorinha,
emquanto a Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a
lettra:
Onde vás,
ó
Pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li,
ai-lé...
—Sabes essa! É mesmo assim!—disse-lhe a Rosaria a rir-se.
—É como vês!—affirmou contente o
Gonçalo.
Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já
os dois rebanhos, confundidos, andavam na pastagem.
—Olha as ovelhas juntas!—notou o Gonçalo.
—Tambem nós nos quedámos juntos,—volveu-lhe a
pequena, sorrindo.—As pobres dão-se bem, são
amigas...—continuou com
jubilo.
—E nós tambem, ora tambem, Rosaria?
—Tambem—respondeu afoita a pastora.
E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias.
A esse tempo, no céo alto e lavado a estrella d'alva
fenecera por fim, e o horisonte começava de carminar-se ao
de leve. Por todo o
céo em cupula, a luz fresca e viva da manhã
vibrava harmonias
extranhas que iam despertar tudo, a côr da paizagem e a
musica dos ninhos,
cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos.
Manhã de
verão, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um
movimento extraordinario de azas—passarada alegre que sahia agora dos
ninhos e voava a matar a
sêde á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam
as suas
casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos
onde a
vegetação era mais rica de seiva e mais facil a
presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte,
tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques
verdejantes, gente em
mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em
torcicóllos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo
machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada
chó!
que se ouvia na outra
ladeira. Já nas povoações proximas
sinos chamavam para a
missa d'alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os
tectos, dizendo
horas de almoço. De modo que o sol quando
rompeu, solemne e
triumphante no céo immaculado, encontrou muita vida pelos
campos, toda a natureza acordada
para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o
rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois
pastores e continuavam conversa.
Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua
côr trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas.
Não se lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe
parecia agora a Rosaria...
—Mas o cabello assim cortado...—disse com magua, mirando-lhe a
cabeça nua, e passando a mão pela
d'elle,—é que te
não fica bem!
«Melhor fôra que lhe tivessem deixado as
tranças. Negras, de mais a mais, que era como elle
gostava...»
—Promessa da mãe se eu melhorasse—explicou a
Rosaria—Lembranças... A gente quando está
afflicta...
—...Quando está afflicta...—repetiu como um echo o
pequeno. E depois, amuado:—Se promette os olhos...
A rapariga fitou-o, espantada.
—...é porque t'os tirava!—concluiu convicto.
Houve um momento de silencio, em que o Gonçalo se
pôz a escavar o chão com uma pedra, e a Rosaria a
torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas
chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que
chiava, com uvas para algum lagar.
—Não fallas, Rosaria?—perguntou o pastor sem levantar os
olhos para ella.
—Tambem tu...—começou com medo a pequena,—logo te zangas!
Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso,
credo!—E depois animando-se:—Já foste á Senhora
dos Remedios?
O Gonçalo fez signal que não tinha ido.
—Pois foi lá que deixámos as tranças,
eu mais a mãe. N'um prego ao lado do altar, um lacinho verde
nas pontas. Ficou lindo.
O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a
conversa. E para acabar com ella:
—Que emfim como melhoraste...—fez que concordava, pondo o bilro a
girar.—Olha como dança...—E depois, mais pensativo,
batendo com o bilro nos dentes:
—Que ás vezes as promessas pouco fazem...—E
interrompendo:—Sabes quem fez este bilro?
—Foste tu, aposto.
Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lh'o
orgulhoso—«que visse os
torneados.»
Depois
continuou:
—Vae uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora,
os santos!—Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A
gente
bem resou e bem promessas fez, mas ella foi-se.
E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
—Aquella ovelha, a branca, não vês? A que se vae
agora deitar... Pois era p'ra Nossa Senhora, repara que é a
melhor.—E
deitando-se para traz:—Lá anda ella a pastar!—concluiu
desalentado.
—Mas tinha de ser,—volveu-lhe triste a Rosaria,—que as promessas
sempre fazem, lá isso...
E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o
Gonçalo de que sempre valiam as promessas. No emtanto,
deitado de costas, com a
jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os
joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que
constantemente ia subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do
cão
que ali perto se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a
Rosaria ia entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o
rapaz acudia, firme na sua objecção:
—Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e
fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados,
para se livrarem da
estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia,
que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os
pinheiraes, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros
levaram de conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado
fé que as
horas passassem tão depressa.
Ainda armaram aos passaros,
mas foi
o mesmo que nada, os demonios andavam espantados e já
conheciam as
esparrellas.
—Olha lá não caiam,—tinha dito o
Gonçalo, já cançado de estar
á espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao
dedo.—Se elles fossem tolos...
E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella
então propoz que jogassem a pocinha.
—E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos
domingos de tarde, bato-me com qualquer, sabias?
E generoso:—Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás
quarenta...
Como o tempo rendia, jogaram tudo—a pocinha, o fito, as necas, a
bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á
mão, era elle que ia buscar o pausinho, quando zinia longe.
—Turco, traz cá!
No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo
esmorecia no seu azul suavissimo. Em todo o espaço o ar
estava tranquillo e
sereno, e já começava para poente a
decoração
phantastica do occaso. Parece que se ouvia mais distincto o marulhar
das aguas no rio; já
não faiscava assim tão viva a areia branca das
margens.
Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se
chegando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de
pernoitar. E
fitando fixamente
os olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim:
—Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste?
«Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas
tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no
mesmo curral, essa
noite?»
—E o mais, ó Rosaria?—perguntou de novo com interesse.
A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a
olhar, respondeu:
—Tambem.—E sorriu-se.—Pois eu...
Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se
levantou, e deu o signal de partida, assobiando aos cães.
D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz
alaranjada tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez
normal.
—É bonito!—fez notar o pastor.
A Rosaria explicou logo:
—São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias?
Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á
flôr da corrente as cabeças dos dois rapazotes do
moleiro. Dentro da
chata
que vogava serenamente, a mãe
com o mais novito ao collo
não
os perdia de vista, emquanto o pae, em mangas de camisa, de
pé n'um topo de
fraga, lhes ia ensinando as
manobras. Ao fundo,
tres vitellas
passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espaços,
alongando o
pescoço para a veia d'agua serena, bebendo mansamente. Sobre
o vitello das malhas brancas, o guardador cantarolava, acenando com o
chapeu ao
moleiro—«boas tardes! boas tardes!» Ao sahir da
ponte, o rebanho teve de se
affastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa
fila de machos carregados, tilintando campainhas.
—Adeus pequenos! cumprimentou.
—Venha com Deus!—tornaram-lhe ambos.
E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
confraternisavam os cães como bons e leaes amigos.
Á frente, o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo
que a Rosaria cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava
de todo o rebanho, casava-se com a musica, fundindo-se n'uma nota
subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada...
Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal
rasteiro, e então, parando um momento, o Gonçalo
perguntou,
collocando na sua frente a Rosaria, e pondo-lhe á cara a
flauta, na
direcção em que devia olhar.
—Vês além... n'este direito? Rez-vez do
castanheiro, não enxergas?
A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
—Então é ali?
—Ali mesmo—volveu-lhe já de marcha.
E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da
rapariga, repetiu-lhe muito contente:
—É mesmo além.
N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o
espaço que as ovelhas tinham de occupar essa noite.
—Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só
mau p'ra quem passa a cavallo.
E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra,
quiz então saber:
—Estás triste, ó Rosaria?
—Triste... não. Já agora... tem de
ser—volveu-lhe cabisbaixa.
—Huum! Arrependeu-se...—volveu comsigo o pastor.
Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes.
Gado para dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle
ainda trazia
azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o
Gonçalo apontou para a cabana que ficava alli perto, e
propoz que se deitassem:
estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada
agora.
Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se
deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a
cabeça
um do outro os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de
todo a
noite, e formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida
no azul indefinido do céo.
—E os lobos?—perguntou a Rosaria com medo.
—Não ha perigo—tranquilisou-a o Gonçalo.—Isso
é lá com os cães.
Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos
chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia
dormir profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada
toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum
tempo, n'um ciciar brando de vozes, até que por fim,
vencidos da
fadiga, se deixaram adormecer,—quando a historia das moiras encantadas
ia no seu melhor episodio...
E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a
estrella da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do
que a alma simples e boa d'aquellas duas
creanças...
Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a
vêr o céo...
—Bonito dia, Gonçalo!
—Bonito dia, Rosaria! Olha...
...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
voando...
SULTÃO
(Copiado do Natural)
Ao meu Henrique e a
Beldemonio, seu amigo.
I
Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa,
cançado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no
campo.
—Meus peccados, boa tarde!—dizia elle para a mulher, com um sorriso a
affectar seriedade.
Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a
benção.
—Deus te abençoe.
—Pae, olhe que o «Sultão»... ia a dizer
o pequeno.
—Bem sei! atalhava logo o Thomé.—O
«Sultão» é um maroto e tu
és outro.
E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de
meia-lua, que lhe custara um pinto havia bons
quinze annos, e abria a
gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de
interesseiro comsigo mesmo, resmungando alto p'ra que a mulher o
ouvisse:
—É que por este caminho não tenho um dia
descançado... Nem uma hora...
Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
—...Pois vamos já que já era tempo... Porque
p'ra mim ha de chegar... A modos que vou já
cançando...
Mas o Thomé não era homem que dissesse estas
coisas de coração. Pareciam-lhe longos,
interminaveis, os aborrecidos domingos que passava
sem ir campos fóra, madrugador como um melro.
—Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé
encolhendo os hombros, como quem está desgostoso com um
genio assim.
Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito
á vontade.
Costume velho do Thomé:—mal se sentava, mastigando o
«boccado», dizia logo para o filho:
—Ouves, Manuel? Bota cá fóra o
«Sultão».
O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se
a pular de contente, dizendo cá da rua:
—«Sultão»! Sae cá p'ra
fóra, «Sultão»!
No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento,
orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um
movimento moroso de
palpebras pestanudas...
E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,—um grande
riso de alegria nas feições amorenadas, contente
de ver o
seu «Sultão».
Mas o pequeno jumento não avançava um passo,
divertindo-se em arreliar o Thomé, fitando-o com um ar
estagnado. Altivo na sua nobre
linha de quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia
lêr no
olhar, mole e impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o
dono...
Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava
graça. E punha-se então a fallar muito serio,
entre resignado e cortez, para o
pequeno e desdenhoso jumento—o pão e o queijo esquecidos
n'uma das
mãos, na outra a navalha de
meia-lua:
—Então, «Sultão»,
não vens?
—Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto,
continuava a envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia
d'aquella immobilidade de estatua, apenas
de quando em quando uma
pequenina
patada na soleira, zap!
—Zangado, «Sultão»? perguntava o
lavrador.—De mal comigo?
E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á
vontade...—que não fosse vel-o o
«Sultão»... Mettia entre dentes um
pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas
grandes rugas na testa, de quem começa a zangar-se,
voltava-se
então muito serio:
—Ficas ahi, «Sultão»? Já
não és meu amigo?
O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço,
parece que fazendo-se humilde...
—Então se és, anda d'ahi. Olha...—E mostrava um
pedacito de pão.—P'ra ti se vieres...
O «Sultão» dava tres passos, e ficava
fóra do cortelho. E por se vingar, o Thomé
carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada,
e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto,
affirmando que
já lhe não dava o pão. E
desfechando-lhe emfim a
ameaça de o vender a um cigano, entrava a tratal-o por
senhor—
sôr
«Sultão»...
Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que
pedindo perdão da arrelia.
Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra
banda, a rir como um perdido.
—Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle
de
fazer rir as pedras, o mariola!—E tossia de engasgado, uma
migalhita de queijo na guela.
No emtanto, o «Sultão» ia
avançando, muito ronceiro, até que tocava com o
focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé
sacudia-o:
—Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se
voltar.—Cuidas talvez que te não conheço,
cuidas? Já te
não quero, vae-te!
Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer,
chegava-lhe ao focinho um pedacito do pão, o melhor da
fatia.
«Sultão» lançava um olhar
obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o
beiço superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão.
Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas
agudas, muito estridulas.
—Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.
a
Josefa.—Até pareces doido!
—Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba
seu dono? perguntava o Thomé, n'uns grandes gestos.—Vamos
que eu lhe
não queria dar da merenda? Ladrão, de mais a
mais!... Ora bem! agora brinque.
Era precisamente o que o Thomé queria:—ver o
«Sultão» a brincar.
...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe
consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes
causticantes e chuvas torrenciaes.
Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das
«partidas» e «diabruras» do
«Sultão»! Ás vezes, o pequeno
jumento, ferido não sei por que vespa invisivel, despedia
sem mais
nem menos n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras,
agitando a cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a
banda n'um
alarido o rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam
como
doidas, cacarejando, como se um pé de vento as levasse.
Accudia
gente aos postigos, ás portas, ás janellas, a ver
a
polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos,
descalços, alguns quasi
nús, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe,
espantando-o—como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a
todos, varrendo a propria rua... E um lá ia a terra, e sobre
esse passavam os outros,
e sobre todos voava o «Sultão», apupado,
perseguido, acclamado, na malta espavorida dos inimigos...
—«Sultão»! eh lá!
«Sultão»!
Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga,
não lhe desse na bôlha atacal-os... E abriam alas
de repente, quando
elle, tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se
não deixar atropellar investia com o
«Sultão» de braços abertos, o
que era, já se vê, um modo de o
abraçar,
fingindo medo. E vinham as gargalhadas estridulas, os rogos para que
pozesse treguas, as supplicas para que se
accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da
escada, onde se deixava cair,—derrotado!
—P'ra lá, «Sultão»! p'ra
lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe
os pés, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito
inclinado para traz, a
rir como um perdido.
Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes
rompia a girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as
patas,
cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé
solicito
dava aos rapazes o aviso de se arredarem—«porque era doido,
aquelle
demonio»!...
Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito
cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um
cão, certa mulher que passava. Até que
lá ia uma
focinhada, e logo após os saltos do costume, respondendo com
uma ameaça de pinotes
á surpresa da viandante.
—Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o
Thomé, com ares de zangado. E depois, batendo o
pé, pedindo que lhe dessem uma
verdasca:—«Sultão»! venha já
p'r'aqui! intimava.
E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia
logo direito a elle, muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um
cumprimento humilde de focinho. O cão regougava,
desconfiado, entreabrindo a
dentuça, preparando a sua dentada. Não dava o
«Sultão» signaes de medo, e humilde
proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava
um passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada
ganhava o terreno perdido—fitando impassivel o cão... O
bruto formava então o salto, regougando forte, o
pêllo
eriçado; e ao investir para a primeira dentada, salvava-o de
um pulo o
«Sultão», evitando-o, até que
por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais
feitio que outra coisa», pondo em fuga o mastim, corrido,
ganindo, vencido:
—Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé.
E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo
ao correr a caravelha:
—Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia
para a cama sem primeiro descer a vêr o
«Sultão»,—de candeia na mão
esquerda, e na direita, contra o sovaco, a bella quarta do
grão, acogulada.
Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de
candeia attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de
cima, a
sr.
a Josefa tinha de intervir então,
gritando-lhe pelas
frinchas do
sobrado:
—Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha
que são horas.
E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que
fallou,—historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto
que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo
desgosto que o «Sultão» lhe
não respondesse:
—Boas noites!