...Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na
distancia, diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das
aguas, fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar
á praia, é que o pobre abandonou o areal e se
foi, sempre a
chorar, tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento
agudissimo do Polo, na direcção do horto
silencioso...
COMEDIA
DA
PROVINCIA
A Alberto Braga.
I
PRELUDIOS DE FESTA
Esse anno, a festa da
senhora das Dôres devia ser coisa de
estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de
respeito—abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que
afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que
nem seiscentos diabos.
Mas era obra de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse
coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava
mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um
macaco,
se tivesse tempo de o acabar.
—Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a
carta. E correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no
seu
anno» a
coisa fosse de arromba! Depois,
era um despique. No
anno atraz, o
José da Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo,
só
porque
vinha lá uma peça que era um castello a
dar tiros, assim: Fff! Pum!
—Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus
botões o Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar
que na noite do arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas
pelo fogo que apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora
depois, na
villa, ninguem fallava n'outra coisa.
—Então você já sabe?
—Já sei. A cegonha.
—A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro...
—O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho,
já viu?
—Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do
Valente Rei Arauto Fiel.
Enganava-se.
O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua
com o Alves aferidor.
—Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou
ter o gosto de o ver arder.
O outro não percebeu. «Que se
explicasse...»
—Um urso, no arraial queima-se um urso.
—Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o
Alves.—Tambem se lá queima um burro.
Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de
gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se
vinha o animalejo da sua predilecção.
O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a
porta, por dentro.
—Põe a tranca, se fôr preciso.
Mas então era cá da rua:
—Ó sr. Antonio!
E na porta as pancadas ferviam:
—Truz! truz! truz! Sr. Antonio!
—Éna! c'um raio de diabos!—fazia lá de dentro o
homem, furioso.
—O senhor faz favor? É só uma palavrinha.
Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os
oculos na ponta do nariz e a carta do foguetorio na mão.
—O camello? perguntava zangado.—O urso?! Camellos me parecem
vocês, ouviram? O que o homem diz é isto.
E lia a carta, rematando:
—Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que
serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E
agora, sabem que mais?... Tirava
os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.—Irra!
E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado
segredo. Não fosse elle burro... Mesmo porque cada um
começou logo a
inventar animaes, e todos é que não podiam vir.
Claro! E
não vindo todos, ahi tinhamos nós descontentes. E
havendo descontentes, quem
lucrava era o José da Loja.
—Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com
aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a
mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava
mal do negocio...
—Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias!
—Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
soube.
E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de
eleições. Depois, bom olho para a
caçadeira. D'uma
occasião, que foi preciso dar montaria aos
ladrões, portou-se como um leão, foi
elle que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a
deu? A phrase ficou lendaria:
—Como-te a alma se te mexes!
—E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma!
commentavam convictos.
Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava
com 60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora.
Não era nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada,
olhos pequenos,
uma largura de hombros que era o principal indicio de força.
Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e
arremettia com
força, conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle
movimento sacudido.
—Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D'uma
canna, hein?
Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para
se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma
testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da
cadeira, foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava
sério
quando promettia arrebentar o José da Loja. A mulher
interveio
pacificadora:
«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem,
que não era tão mau como o pintavam.»
—Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse
velhaco! redarguiu o Fagote. Do que elle é capaz sei eu.
Mas n'esta occasião, de todas as velhacarias do
José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz
o anno atraz!
Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz
este anno.
—Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa
em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como
quem diz: «entrego-te a vara, sempre quero vêr como
te
arranjas...»
—Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das
idéas do seu Antonio.»
—Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote.
Isto foi tal e qual, assim me Deus salve!
—Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse?
—Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão
direita.—Foi este mindinho. Não falha.
E então desabafou: «que não pensasse o
José da Loja, que o havia de levar á parede.
Agora levava! A festa ha-de se fazer, e
festa de arromba;
nanja como a d'elle que
só levava seis
anjos, e
não sei quantos andores, acho que meia duzia!»
—Ó mulher, então é para que saibas
onde chega o brio d'um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo
preciso até vendia a
camisa do corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José
da Loja! E
espipava olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos,
compungida de ver assim o seu Antonio.
E poz-se então a renovar ordens,
recommendações que a mulher já estava
farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se
pensavam, não era ao atar das sangrias!»
—Leitões se os cá não houver,
manda-se o Miguel á cata d'elles por esses povos
á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos.
A mulher contraveio:—«dois seriam bastantes...»
—Mau que ahi principiamos nós!—E poz-se a assobiar e a
rufar com o pé no soalho, arreliado.—Tres é que
hão de ser.
Não quero cá dois, porque dois eram os do
outro, o anno passado.
A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do
silencio da mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o
outro.
—Agora não fanfas tu... insistiu elle, risonho.
É assim mesmo que eu gosto. Signal é que tens
vergonha. A
outra tamem
não é mais que a ti.
A
outra era a mulher do José da Loja,
está
visto.
—Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada.
—Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora
que antes de casarem...
—E olha que depois de casada... insinuou a sr.
a
Luiza, de venta no
ar, enfiando a agulha. Cala-te bocca.
Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que
não se calou. Mas n'este particular, o resto do dialogo
convém que se
omitta, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal
á mulher
do José da Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas
n'isto não lhe
faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem
sabe que eu sou conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que
por uma
associação logica de idéas a conversa
veio parar em vitellas...
—É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o
Antonio Fagote. Sem vitella é que se não faz
nada. Uma
perna sempre se gasta.
Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio.
De mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um
bom
pedaço de vitella assada.
—O prégador é que arrasta ahi muita gente,
observou a sr.
a Luiza. Para um boccado de
sentimento não ha
como elle. Quando foi das
missões, o que elle dizia d'aquelle pulpito abaixo!
É quanto se
póde!
—A mim o devem, se cá vem!—disse orgulhoso o Fagote. Que o
homem não queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha
de ir a umas caldas, e
14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle.
—Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o
missionario...
Estavam n'isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver
á janella.
—Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.
Era a creada da mestra regia, foram abrir.
—A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está
a sr.
a Luiza, e este bilhetinho para o sr.
Antonio.
Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio
Fagote foi accender uma luz.
«Que conversassem, emquanto elle via se tinha
resposta.»
—Muito calor, começou a sr.
a Luiza.
—E então a casa da sr.
a mestra que
é mesmo um
forno, disse por demais a creada.
E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.
a
Luiza, ao ouvido, de que
lhe queria uma palavrinha.
Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma
serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
—Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.
a
Luiza.
—Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu
queria dizer era pedir-lhe um favor, disse atrapalhada a creada.
—Se estiver na minha mão...
A outra começou: «A sr.
a
Luiza estava ao facto do
que se dizia d'ella com o criado do inglez. Decerto estava ao facto.
Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era
redonda mentira.»—Estamos para casar! é o que
estamos!
«Elle já mandara vir os papeis lá da
terra, não podiam
tardar».—Está claro que eu tenho
affeição ao rapaz...
—Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.
a
Luiza, para
dizer alguma coisa.
—Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi
que eu quero chegar.
—Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.
a
Luiza.
É milagroso nas quartans. Não se afflija, que
isso não ha-de
ser nada.—E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que
sabia de bom para matar quartans, pensando que era o que ella queria,
afinal.
—Não senhora. O rapaz está melhor. Caso
é que não
recáia. Mas é por
via d'isso que eu lhe quero pedir um favor.
Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou:
—Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a
bandeira, qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja,
n'aquelle estado! inda não ha nada que sahiu da cama.
—Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau,
disse com pompa a sr.
a Luiza.—Muito longe!
—Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo
com quem elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia,
vae-se para
lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais elle,
que é atrevido!
Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam
pelo pau é que ella não sabia.
—A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu
Antonio mais os mordomos. Não ouvi.
—Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu
queria, sr.
a Luiza, é que o seu
marido me não
deixasse ir o rapaz na malta,—supplicou
afflicta a rapariga.
—Lá isso, esteja descançada, não vae!
prometteu com grande auctoridade a sr.
a
Luiza.—Digo-lhe eu que
não vae. E se não
quer mais nada...
—Era só isto, muito agradecida á senhora.
N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a
testa.
—Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a
sr.
a mestra que desculpe. Mas emfim que leia
como podér.
—Então muita massada co'a festa? inquiriu solicita a
rapariga.
—Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz
despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais
aquillo. Ahi
está que já hoje mandei pedir para o Porto uma
palheta para o clarinete do Alves.
—Chh! fez admirada a rapariga.
—Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o
mais! Nicas! E depois d'uma pausa:—Só com o que se gasta no
jantar, e é
verdade que ha muita coisa de casa, mas só com o que se
gasta no jantar, a bem dizer
que se fazia uma horta, além no prado.
—Muita gente... disse a rapariga.
—Muita! e depois de certa aquella... Á meza talvez vinte e
quatro pessoas...
A rapariga benzeu-se!
—Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o
Antonio Fagote.—Olhe: o prégador...
—Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.
—É. Não o ha melhor. Missionario...—explicou o
juiz. Pois o prégador, um; com mais quatro padres, cinco;
com quatro musicos, nove; o
compadre, os pequenos, dois, doze.
—A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.
a
Luiza.
—Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O
Morgado da Fonte e o Antonio Capador, quatorze. O Telles, é
verdade, Telles
escrivão, quinze. (
Pausa). Com mais
alguem que venha,
vinte e quatro.
Póde-se contar com mais de vinte e quatro pessoas
á mesa.—E a rir-se: Mas
ha-de sobrar muita coisa, graças a Deus... E depois os
pobres?
—Isso então é uma praga! exclamou a sr.
a
Luiza.
Até parece que veem do chão assim... E collocava
em pinha os dedos todos das
mãos ambas. Assim...
Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.—«Adeusinho! o
que havia de estimar é que tudo corresse como
desejavam.»—E se
fôr preciso qualquer coisa... offereceu-se. As minhas fracas
posses...
—Obrigada. Não faltarão occasiões.
Muitos recadinhos á senhora mestra...
—E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio
Fagote.
E então explicou á mulher: «Aquelle
bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o
macaco de fogo».
—Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha
macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que
não
venha. E Deus o queira, porque o ponho ao pallio. Como tres e dois
serem cinco.
A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára.
—Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o
brazileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento
ás coisas... Mas o diabo
agora é o macaco! ponderou muito apprehensivo.
Está para ahi meio
mundo á espera do macaco...
A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
bicho não viesse.
—Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na
testa.—Dá cá d'ahi a minha vestia. Manda-se uma
«parte» ao
homem.
—Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje
é que não, aquillo já está
fechado, o fio.
—Vae ámanhã. «Agradeço
favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez accrescente:
«Não se olha a dinheiro».
Mas é que accrescento, por via das duvidas.
Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do
homem:
—Ouves? já se não póde ir ao lameiro
do Canellas pelo pau.
—Han? qual pau?
—O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.
Elle riu-se.
—Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
E como ella ficasse estupefacta.
—Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n'uma porta e que se
vende o vinho n'outra?
—Ah!...
—Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia,
e cantarolou, satisfeito:
O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho
Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de
manhãsinha o Antonio Fagote sentiu bater á porta,
de rijo.
—Vae lá ver o que será, ó
Luiza!—disse da cama o Fagote sobresaltado.
Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de
rompante pelo quarto.
—Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se.
—Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado.
—Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.
—Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte?
—Peor do que isso! resumiu o José Manco.
—Peor do que isso, então não sei...
—Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu
cá o espero na rua.
O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi
já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos
sapatos iam de rastos,
não levava chapeu.
—Prompto! cá estou!
—Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz
favor.
E rodaram rua acima.
—Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote.
—Aguarde, que já vae saber. Não tarda.
De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja.
—Roubaram Nosso Pae, aposto?!
—Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos
e veja vossemecê isto, esta porcaria!
E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de
papel, pregada na torre com miolo de pão centeio mastigado.
Era um pasquim!
Varios desenhos de
animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas,
aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:—
Farofia!
Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas,
amarasmou-se, com os olhos fitos no papel.
E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma
escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou
apenas um sorriso.
—Hum! resmungou. Bem sei...
—Não tem que saber,—fez o outro.
—O patife do Jose da Loja...
—Pois está visto.
—Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o
Fagote.—Arranque lá isso, e venha você d'ahi, se
quer ver.
O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas
opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo.
—Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e
mettendo-o na algibeira de dentro.—Pois sim!
Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora
pagar por bom semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a
offensa, com elle José Manco. Mas fazia de conta... Como o
outro que diz,
vozes de burro não chegam ao céo».
—Bem, levará só uma lambada, attendendo a que
mais ninguem viu isto, disse n'um grande ar de condescendencia o
Fagote.—E você
vá lá regar a horta.
Foi-se d'alli direito á casa do José da Loja.
Estava ainda fechada. Poz-se á cóca, de longe,
com a ira muito
exulcerada pela arrelia d'aquella demora.
—Grande cão! grande cão! monologava.
Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro
em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito
fresco.
Não deu pelo Antonio Fagote senão quando se viu
ao pé d'elle, cara a
cara entre o balcão e a porta.
—Ó sr. José.
—Dirá.
—Venho aqui saber d'um caso.
Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o
pôr ao pé da cara:
—Foi o sr. José que fez isto?
O outro olhou-o, attonito.
—Sim! se foi o sr. José que fez isto?
—Nada, eu não senhor.
—Jura pela boa sorte dos seus filhos?
Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
—Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.
O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
—É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso
é outro.
—É outro, que outro?!—disse arrogante o José da
Loja, n'um impeto, barriga panda sob o casacorio de lona.
—Isto!—E foi-lhe uma bofetada para a cara.—E muito caladinho, que eu
tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em
pedaços, e atirou-lhe com elles á cara
aparvalhada.
Sahiu d'alli e foi
matar o bicho,
tranquillamente, como quem vem de
cumprir uma obra de misericordia.
Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da
manhã, o fogueteiro passava emfim n'um deslado da villa
direito á capella da
Senhora das Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar,
galhardamente.
—O fogueteiro! chegou o fogueteiro!
Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu
o foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria
doida
pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do
fogueteiro,
a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro
ruido da festa, não havia tempo a perder. De casa dos
mordomos saiam
esbaforidas as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria
«o
sr. fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram
almoço, e que dissesse o que queria para o jantar.
Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa,
perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido
effectivamente um foguete.
—Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim
senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
—P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e
punha-se a girar de volta com o braço—o que é
fogo do
chão?—Mas tinha-se visto em calças pardas para
que o homem não faltasse.
Complicações! Pelos modos tinham-no convidado
para outra festa, com mais bagalhoça,
está claro. O caso tinha estado sério!
Mentia.
—Hein? mas não o enganavam?
—Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia
elle a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas
cargas de fogo!
O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou
cá da rua:
—Senhor abbade! ó senhor abbade!
—Que é lá?
—Chegue á janella, faz favor?
—Mas está muito sol, entre você, se quer.
—Só duas palavras:
O abbade, um rapaz novo, assomou á janella.
—Que é?
—Chegou o homem!
—O homem! que homem?
—O fogueteiro, quem ha-de ser?
—Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter
com elle?
—De cara.
—Faz-me então um favor?
—Dirá.
—Dê-lhe recados meus.
E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no
seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
aquillo tinha sido o fogueteiro.
—Grande homem! com seiscentos diabos!
Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
fogueteiro, com furia.
—Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido,
chamando-lhe «seu amigo, seu grande amigo».
—Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da
cabeça, muito solemne.—Viva o senhor fogueteiro!
—Viva!
...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou
em dizer aos senhores que o Antonio Fagote—chorou!...
I
TYPOS DA TERRA
Desembocaram n'um
largo. Era o
ponto mais central da
terra,—«
a praça.»—Aqui
e alli, ao
acaso, algumas arvores
enfezadas, quasi tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos
protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro
vasto, muito chato, com casas em volta,—o que na villa havia de melhor
em
construcções. Ficava ao meio o pelourinho,
exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e
muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de
ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva
sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um
grande
X de pedra deitado horizontalmente. Um
espigão de
ferro, de tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente
do meio do
X, perfurando o espaço. Em volta, a
casaria era triste,
sem estylo,
sem gosto, sem cal. Algumas
pedras d'armas
em velhas
paredes decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam
aristocracias remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a
negrura chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem,
fazia tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em
ruinas.
Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio,
d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas
as sete: aquelle—«
estafermo»—é
que
não andava nunca direito. De dia ninguem o entendia, com o
seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador sem lettras, d'uma pedra
azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a
povoação como se fosse a
fogo, ora atrazado ora adeantado, dando meia noite quando eram quatro
da tarde, e meio dia mal despontava
o sol.
Eram as sete. Áquella hora é que
os—«
figuros»—da terra, quasi
tudo empregados
publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns
passeavam,—seu fraque, sua bengala de canna com castão,
chapelinho á banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas
do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio cavaqueavam,—colletes
desabotoados, perna cruzada, chapeu para a nuca, ás tres
pancadas. Um de pera
comprida, no degrau superior, contava facecias. Os outros riam
alarvemente, chamavam-lhe intrujão.
Algumas—«
madamas»—pelas
janellas em volta,
nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em
cima, havia outra roda,—uns de pé, outros sentados em
caixas, alguns
montando cadeiras de pinho. Era a—
roda mais forte,—quasi
tudo
maiores burocratas:—o Mello da Administração, o
Antunes
da Camara, o Escrivão de Fazenda, o Rodrigues do Real
d'Agua. E outros. Á porta,
perfilado e muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio,
flexivel, com a sua
cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e
velho. Era de maneiras
feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva,
muito desempenado quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de
pés
como se fosse levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho.
Não se
podia fallar deante d'elle n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo
«fazia-lhe
nervoso», enojava-o, ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo
constantemente:
—Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como
não lanço fóra.»
E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como
podessem fallar em taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o
seu negocio,—um poucochinho beato,—diziam-lhe.
—Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma
nas penas do inferno, a arder. Leiam a
Missão
Abreviada,
leiam esse rico livro.
E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados,
um poucochinho sibiladas nos
ss.
—Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima,
d'esses fortes.
Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum
senhor queria? Tinham chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um
vintem.
—Pois guarde-os!—disseram alguns, horrorisados com a idéa
de dar um vintem por oito cigarros.—Guarde-os!
«O senhor engenheiro, quando vinha á villa,
perguntava-lhe sempre por elles. Dos de Lima nem o cheiro,
não gostava.»
—Olha o figurão!—disseram a rir. Por esse mundo fora
sempre ha muito idiota! forte cavalgadura!
O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos.
Á porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze.
Estavam certos.
—O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno,
ao pé dos outros.
Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo
tempo que n'um gesto acanhado, receoso, fazia
menção de
offerecer:—«alguem era servido?»
Dentro do balcão, ao pé das garrafas com
licôr, e das botijas de genebra, Ernestinho sommava a conta.
Era já
taluda.—«E vão dois e dois quatro e dois seis,
seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os receberia!»—E
suspirava, arrumando os massos encetados, sob
o olhar tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá
estava
em cima, ao alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um
caixote forrado
a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados.
Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos
do officio...
Cá fóra tinham dado fé,
acotovellavam-se chamando asno ao Ernestinho,—um pulha a quem ajudavam
a viver... Se hoje não
ha dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E
pagava-se,
c'os diabos! E pagava-se. Mas não senhor! aquella besta
mostrava sempre
má cara, o alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o
procuravam, que o preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia...
O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o
Agua leva o
regadinho. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de
enfado, um
sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros.
—Estender as pernas,—disse. Quem vem d'ahi?
Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella
semsaboria da praça.
—Até logo. Você apparece no
sitio,
á
noite?
—Appareço, vou á desforra.
E cumprimentando em roda:
—Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto.
Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as
joelheiras.
—Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o
Ernestinho lhe diga
bem-haja...
Era um parvo.—Era um tolo.—Tinha dividas nos outros estancos.—Em
toda a parte.—Lá em casa a familia passava fomes.—Um
batoteiro
de marca.
Houve agitação, alguns pozeram-se de
pé, outros mudaram de logares. Ia a passar um grande carro
de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
—Com que então...
ponha lá ao
pé dos
outros?—disseram-lhe, para o lisongear nos seus
despeitos.—Bem bom
freguez!
Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto
de martyr resignado. E não disse palavra—p'ra fallar
d'aquelle tinha de fallar tambem d'elles...
Mandaram vir limonadas,—tres limonadas!
—Ahi vão trinta réis!
Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E
pozeram-se a fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que
andavam na
praça a dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam
tomar tres
limonadas,—e sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.
O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a
varanda, onde grandes mangericões floriam:
—Ó Emilia! Emilinha!
A mulher assomou, gorducha, muito molle.
—Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa.
As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil
encontrar uma collecção d'asnos assim. Falavam
dos que
passeavam na praça, aos grupos.—Deus os faz, Deus os
ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta,