Vai alta a lua
na
mansão da morte
com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques.
Só tinha uma coisa boa—a
caligraphia.—Um talhe de letra
bonito,—confessavam.—E as calças, hein? reparem
vocês n'aquellas calças, vae flammante.
Casualmente, Fernandinho olhou de
longe para os do estanco, disse-lhes
adeus com a
mão,
affavel.
Corresponderam todos, muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre
os dentes:—idiota, palerma, pechisbeque...
Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas
botas, olhos no céo, o Telles escrivão passava ao
largo, ruminando alguma poesia.
Ás vezes quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo
entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto
e punha-se de novo
em marcha, contrafeito.
—Ó senhores! mas não me dirão em que
anda a parafusar o Telles, aquelle telhudo? E isto:—e poz-se a imitar
o escrivão.
Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um
logogripho em acrostico.
—Isso é o Telles!—fez um que vinha da
praça.—Aquillo é um intrujão. Na rua
não é que se adivinham logogriphos.
Ó Ernestinho, você ainda tem d'aquillo que
ferve?
O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia...
—Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas...
—Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas...
—Ora é isso mesmo, nem mais.
—Bem sei.
Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra
que? Achavam caro um tostão...
—Eram aos tres para beber uma garrafa...
—Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar,
fazia o
Hervas uma sóda,—objectaram
alguns. Ponha
lá que em
gosto é a mesma coisa.
—E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria
amarella que sujava tudo de escuma?
Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
seiscentos diabos!
—Cerveja!—disse o Ernestinho—cerveja! uma coisa que lá
p'ra baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.
E com um sorriso de desdem, exclamou:
—O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do
Filho...
Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a
palavra—«
pulha»—pronunciada
com
força. Sahiram em tropel, ficaram só tres.—O que
pagava as limonadas exultou:—Homem! nem de proposito! Ficava
exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella sucia lhe
chupava o refresco:
—Tó Russa! já lá vae esse tempo.
Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma
bandeja:—Que provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas
parecia-lhe que devia estar bom...
Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para
aquellas coisas.
—Obrigado, ó Mello!
—Obrigado, ó menino!
E os dois sairam de rompante, chamando
pato ao
Mello, rindo-se d'elle
e limpando os beiços.
Quando o Mello ia sahir,—a ver o que ia na praça,—o
Ernestinho, muito cortez, objectou-lhe que faltavam trinta
réis:—Se alli
não tinha, depois. Isso era o mesmo...
—Mas trinta réis?!... De que são os trinta
réis?—perguntou desconfiado o Mello.
—Do assucar, foi do refinado,—explicou o Ernestinho. O mascavado
acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O
senhor Mello desculpe.
Não tinha que desculpar; sómente notava que
aquellas coisas diziam-se no principio.—E sahiu sem dar mais palavra,
furioso:—Uma ladroeira! Tres
vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o
refresco...
Na praça tinha cessado a altercação,
os grupos, reunidos, formavam uma grande roda, commentava-se. O Mello
quiz informar-se:—que lhe contassem—«
o
escandalo».
Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado
que as correspondencias na
Voz do Districto eram
escriptas pelo
Albano. Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O
Veiga que
é casmurro, teimou:—que não acreditava, ainda
assim!—Vae o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi
está!
—Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?—quiz saber o Mello. Aquillo
ha-de ser escripto por alguem, está claro.
Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem
sabiam elles...
—Quem, então?
Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano.
Um ou outro dava a sua palavra de honra que tambem não era
elle,
jurava-o. Houve um que se lembrou se aquillo seria do padre
Mendonça.
—Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia
coisa melhor, se se mettesse n'isso. Olha o padre Mendonça,
o da
gibreira de Braga...
Mas o da idéa insistiu, renitente:—havia alli suas coisas
que o faziam lembrar, certas facecias, como a de chamar
Frei
Asneira
ao Reitor e
Cabeça de Comarca ao
Felisberto.
—Pois se é elle, que se regale, póde limpar as
mãos á parede. Mente como um alarve, mente da
primeira linha até á
ultima!—disse firmemente o verdadeiro auctor das correspondencias.
Olhem o que elle diz do juiz de direito, só calumnias! O
juiz! um homem teso! Tem
lá o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso
não é
defeito.
De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma
infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma
coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os
rapazes não havia duas amizades leaes, que era tudo uma
impostura...
Houve um silencio significativo, talvez de
approvação.
—Só de pulha!—rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal
que escrevia as correspondencias com o pseudonymo de
Aramis.
Vejam
vocês
aquellas gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá
fazer
politica?! Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor,
discuta-se o homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a
marreca, os fundilhos das calças;
ninguem quer saber se os
creados lhe
param em casa ou se não. E depois, aquellas
allusões
á família, aquellas piadas á D.
Engracia, pobre velha...
—A quem?—interrogaram uns poucos. Á Dona quê?
—Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata
que fazia piugas de lã aos missionarios é ella.
Presumo eu que é
ella—fazia o Nunes das correspondencias com um
grande ar de
supposição.
Eu cá foi para onde deitei.
Os outros não. E como o das correspondencias tinha
promettido explorar a chronica beata, aguardariam mais
informações.
Suppunham, no emtanto, ser com a D. Joanna, a
do—«
chá de herva
cidreira.»—Outra canalhice! A D. Joanna, para
festejar os
annos da filha, convidára tudo,
lazarões e penicheiros, não
fizera politica.
Depois foi aquella tareia
que se viu:—que o chá era herva cidreira, que tinham bolor
os
doces de ovos, que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora
isto
não se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de
cór phrases inteiras
da correspondencia. Por exemplo:—
A
deusa da festa dizem que recebeu telegrammas de... amor.—Uma
facecia
de mau gosto alludindo ao
Proença telegraphista. Depois do que por ahi se diz,
é forte... Que
afinal, quem sabe lá? Entre os dois que diabo
póde haver?
Namoro?
No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
—Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia
é uma rapariga séria...
Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse.
—Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se
lá com o
banzé,
vocês deixem
fallar,—tornou o Nunes, formalisado. Quando
digo uma rapariga séria, quero dizer... sim... quero
dizer...—e
procurava a phrase, entalado,—por exemplo, que ella não
é
capaz de receber ninguem, alta noite, lá pelos quintaes,
como o tal das
correspondencias quer fazer suspeitar.
Iam replicar-lhe, mas elle atalhou:
—Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre!
Isto agora é fallar franco.
Saltaram-lhe:
—E você jura, ó Nunes? você
jura?—perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas.
Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os
diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar...
—Léria!—disseram todos.
O Nunes parece que estava com os beiços com que
mamára. Com que então, para elle era tudo uma
récua de
santas? Desenganasse-se,
que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de
ingenuidade!
O Nunes observou modesto, quasi agradecido:
—Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O
que sou é prudente. Desconto sempre noventa por cento
áquillo que
vocês dizem, ahi é que está...
—Vocês é um modo de fallar,—emendaram alguns.
—Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem
correspondencias,—explicou sophisticamente o Nunes.
Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de
verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao
lado da
mãe, solemnemente. Tiraram todos o chapeu, cortejando
risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimental-as, submisso.
—Dar o seu passeio, não é verdade?—E
apertando-lhes a mão:—Vosselencia como passou? A senhora D.
Amelia?
Obrigadissimo. Assim... assim...
Então? que diziam áquelle calor?
—Abafava-se, alli pelas duas. Que forno!
—O Brazil tal e qual—reforçou o Nunes.
Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde
os annos? Uma noite de truz, aquillo sim!
—Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem
por isso, foi pena! O Abelsito andava constipado.
A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já
não era para aquellas noitadas.—E em voz mais baixa, quasi
dolente:
—Depois, veio a
Voz do Districto, aquillo
chocou-a muito.
—Não ha tal!—fez a mãe. Metteu-se-te isso na
cabeça. Deixe-a fallar, senhor Nunes.
E por pouco que não chorava ao dizer isto.
O Nunes affectou um sentimento profundo:—Era melhor não
fallar n'isso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos
lhes faziam
justiça. Tinham acabado de fallar na tal correspondencia,
agora mesmo. Uma garotada!—resumiu o Nunes.—E em tom confidencial:
—Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e
depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr
soará. É preciso dar um exemplo,—concluiu
terminantemente. Uma severa
lição!
Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes—«a parte que
tomava no seu desgosto.»—E seguiram cumprimentando para as
janellas,
perguntando se vinham d'ahi, um boccadinho até á
capella,
espairecer.
As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava
muito bem aquelle vestido á Amelia.
Não podiam subir, talvez á volta.
—Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio
está quasi prompto, que trabalhão!
Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não
gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro,
talvez mais
bonito. Coisas de anjinhos:
—Verás.
Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,—homens com malhos, e
mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia
n'uma serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, official da
administração, com fama de typo de
chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna,
obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta,
os outros formavam roda. Todos riam, pediam
bis.
—Tu has-de conhecer isto, ó Chico,—dizia o Paula para o
Francisco Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de
conhecer
isto.
O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e
philosopho, affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas.
Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda,
senão já o tinha demittido, ás vezes
que lhe entrava borracho pela
repartição. E pedia a rir, boçalmente:
—Ó Paula, aquella do
bate-bate, canta
lá.
E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.—Se era
preciso, o Fernandinho ia pelo violão.
—É verdade, você que fez hoje que não
me appareceu na repartição, ó
Fernando?
—Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo
ás vezes. Olhem que pergunta!
Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.
—Então, ó Paula...—supplicava o administrador.
—Está fechado o realejo... Depois.
Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao
«sitio». Ou perder ou ganhar; tinha alli seis
tostões que eram para um
mico.
—Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe
dizia hontem que a
dama se negava? Eu estava
mesmo a ver aquillo...
Bem feito!
«gramou» um entalão que se consolou.
—Quatro corôas.—Na vespera tinha ganho um quartinho.
N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos
tiraram o chapeu, elle passou gravemente, cortejando.
—Quem eu te quero á perna é o
Aramis...—rosnou o Telles escrivão que
embirrava com o
juiz desde que o suspendera uma vez.—E ainda elle
não sabe tudo...—insinuava perfidamente.
—Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o no
Almanach
de
Lembranças, em verso—fez d'um lado o Rodrigues
do Real
d'agua.
O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava
confiança a analphabetos.
—E eu a brutos, sabe você?
Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo
officio... Ó senhores, lá porque ambos faziam
versos não se seguia que
devessem embirrar um com o outro. Pelo contrario.
O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que
nem lhe dava essa importancia, essa honra.
O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que
d'outra vez seria, que fizesse de conta que já lá
tinha na
cara quatro bofetadas tesas.
—Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.
Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro,
só para ter o gosto de dizer depois, n'um communicado, que
desaffrontara as lettras
portuguezas,—elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real
d'Agua.
Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se.
—Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes
gestos.—Bem sei que não valho nada. Escrevi, é
verdade que
escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na
cabeça. Uma rapaziada!
Estão maus? Concordo. Mas não ha de ser aquelle
négalhé que o
ha-de dizer. Não o julgo habilitado. Lá porque
tem soletrado dois romances,
não se segue. Mas o que mando para publico sim, o que
entrego aos prelos—é
meu!—E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso,
n'umas raivas, de
orgulho triumphante.—Não roubo! nunca roubarei!—affirmou
mais alto
o Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois
amigos, conciliadores, o ouvisse.—Repito: não roubo,
não faço como elle!—E as palavras sahiam-lhe
salivadas, violentas, por entre os labios espumantes, atiradas ao
Telles como pedradas.
Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão
ao Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria
dizer.
—As provas...—e metteu a mão no bolso do seu casaco de
lona, com impeto:—as provas, vel-as aqui estão!
Mostrou no ar a brochura verde do
Almanach de
Lembranças.—Era do anno que vem, tinha-lhe
chegado hoje.
Alli estava o Peres do correio que
lh'o tinha entregado elle mesmo.
—Sou testemunha—confirmou do lado não sei quem.
O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar,
contaria a coisa em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr.
Telles, lembrara-se
um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os
annos—zás! versalhada para o
Lembranças...
—Era collaborador—disse o Antunes da Camara que admirava o talento de
Telles.—Era collaborador.
—Era quê?—interrogou logo o Rodrigues, de mão
atraz da orelha.—Massador, massador é que elle era. Nunca
lhe
admittiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na
correspondencia
troçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna
pelas tombas, que o
não chamava Deus para as lettras. Aquelle
Serei
ousado?
é
elle, sei que é elle. Nunca o admittiram.
—Lembro-lhe a
Flor do Campo, sr. Rodrigues,
lembro-lhe esses
versos—insistiu o Antunes.
O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da
Camara. Não lhe respondeu. Subiu os tres degraus do
pelourinho, pausadamente, com pompa, e chamou a
attenção dos amigos. Ia ler.
Abriu o
Almanach de Lembranças, onde
trazia um papel, e
rompeu:—«Indignidade».
—Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar.
E colou ao peito o
Almanach, voltando para
fóra na pagina
onde o seu dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto
em epigraphe.
Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que
lêsse.
«Os versos intitulados
Flor do Campo,
que viram a luz no
Almanach de Lembranças do anno
extincto, foram-nos
remettidos pelo sr.
José Maria Telles, escrivão.»
—Copiados por mim, uma letra floreada—esclareceu o Fernandinho.—Elle
depois assignou—e fez no ar, com o dedo, o traço complicado
da firma complicada do Telles.
Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou:
«Publicámol-os na convicção
de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois que elle os
assignava.»
—E então?—perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda.
—«Pura illusão!»—continuou
solemnemente o Rodrigues.—«Escreve-nos
o mimoso e assaz
conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo
que os versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu
volume
Lyra Matutina.»
Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais
alto, fugindo aos commentarios:
«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os
leitores avaliarão a probidade do sr. Telles, a quem mais de
uma vez tinhamos fechado a
nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara—por
indigno.»
E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
porta na cara do Telles escrivão; tomou praça
fóra, o livro debaixo do braço, e foi-se para o
estanco do Ernestinho, altivo,
solemne,—vingado!
Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior
ao Rodrigues—e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...—tinham dado uma
sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo
no theatro, por occasião da festa de Santa Barbara, a
Flor
do Campo
que elles tinham mandado imprimir avulso—para lisongear o Telles que
tivera o trabalho de os ensaiar no
Santo Antonio.
Hein? quem diabo
havia de dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes,
outros
amarellos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto,
e quasi disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos
diabos,
encerravam uma insidia,—um logro á boa-fé,
á
credulidade ingenua de toda a comarca!
E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o
Fernandinho vestido da menino do côro, batina vermelha e
roquete de
rendas, cobrindo-se de teias de aranha
lá pelo
fôrro do
theatro, de gatinhas e com um «tôco» de
vela na mão,
aos tropeções, só para ter o gosto de
ser elle a despejar do
oculo aquella papelada; o
Mello da
administração, vestido de Frei Antonio, sandalias
e grande chinó de calva
redonda, feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por
entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em
habitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao
poeta!
ao
grande Telles,
ensaiador da rapaziada!
Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi
se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver
agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem
feito!
O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o
da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera
para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva,
Praça Velha n.º 11,
que mandava os impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como
especial favor. O homem—prompto. Duzentos exemplares, quinze
tostões. Quinze
tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do
Porto, mas que desembolsara elle só, afinal. Bem feito!
ninguem o mandava
ser burro. Arre! cavalgadura!
E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico.
—Mas a bem dizer, tudo isso é nada!—continuou commovido o
Antunes.—Ó senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura
que eu fiz n'aquelle intervallo do drama para a farça?...
Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada
uma! E relembravam:—levantara-se
o panno quando os ouvintes menos o
esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás
doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na mão,
ensacando os
rebuçados. Ia um reboliço pela plateia. Na
«galeria dos
camarotes» para onde só iam senhoras, gente fina,
começavam a apparecer caras barbadas
de sujeitos que iam saber «que tal», perguntar se
ia uma
pinguinha de licôr, um docinho. Em cima, na galeria alta,
creadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito,
apontavam para o palco, d'olhar
attonito.
—Elle que dianho é?—perguntavam.
De baixo, da plateia, todos faziam
chut! voltados
lá para
cima:
—Caluda, sua gentalha!
No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O
Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de
cardeal, baculo
em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de
côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no
seu fatinho de Olivia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro
final da
Gloria, em que
ella subira n'um cesto vindimo á
«região sidéra dos astros»; o
pae de Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo
pescoço,
livido como saira do tumulo; aquella canalha da tropa—todos emfim!
N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello
vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que
fazia de Frei Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto
mandou tocar o
Hymno da Carta á meia duzia de musicos que não
entravam na
peça. O hynmo rompeu com grande estampido de pratos, n'uma
cadencia funebre. No palco, tudo immovel. Ninguem sabia o que era
aquillo, não estava no
cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.
Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de
centurião, durindana e botas d'agua, irrompe furioso do
buraco do ponto e
préga um discurso na bochecha extatica do Telles:
«Não era elle o mais competente, de certo, o
mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal.
Só sentia não ter
phrases, oratoria, porque emfim estava falando a um
poeta...—collaborador do
Almanach de
Lembranças para Portugal e Brazil—accrescentou
voltado
para o publico, esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo:
dar-lhe um
abraço em nome de todos...—e abraçou-o
commovido, emquanto os
espectadores berravam
apoiados, dando
palmas—«... e para
isto»—accrescentou fazendo com a mão que se
calassem, que se calassem depressa.
Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças
gritavam—«ó Emilinha!» Era com effeito
a Emilinha, a filha do Alves dos
Pesos e Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo,
tules verdes e muita lentejoula a brilhar.
Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o
Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da
«melodia», elle fez-lhe com a cabeça
«que entrasse», e a Emilinha rompeu n'uns guinchos,
cantando a
Flor do Campo, com musica da
Muchagateira original do Peres do correio.
O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a
Frei Ignacio:—Era de mais, era de
mais, elle não
merecia...—Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros—seriamos ingratos
se...
A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com
palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Se
não quando, os do palco
desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de
que as bambolinas
do tecto desabassem.
Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação
viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o
Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos.
Cuidaram de estoirar a rir.
Da bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a
arder
que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando
Satanaz nos impetos da colera. O panno começou a descer,
obliquo, esfarrapado d'uma
banda. O Freixedas, suspenso, atirou fóra o
algodão e
gritou, furibundo:
—Alto! suas bestas! Inda não!...
Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a
hombro dizia em caracteres amarellos—
C'est fini!
O panno desceu
então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para
os outros, não tinham percebido... Foi n'esse momento que o
sr.
Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz
alta:
—
É findo!
VAE VICTORIBUS!
A Maria Lucilla.
Em dezembro,
ás seis é noite cerrada. Mais
boccado, menos boccado, a essa hora recolhia do monte o José
Gaio, sósinho,
sachola ao hombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao
longe, em surdina. Por
cima d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa
negrura espessa de tempestade que infunde pavôr á
gente, e da qual
os proprios passaros teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul
principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros,
fazendo-os
murmurar não sei que extranha elegia... A um relampago mais
vivo, o
José
Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a
Magnificat. O
trovão chegou, depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em
roldões na
larga amplitude do céo. Debaixo dos pés, o
José Gaio
sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo
o dia. Mas a ponte
já não ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio
da ladeira a casa.
—Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se.
Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle
surgiu de repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente
illuminada.
Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte
veio em seguida o trovão, que elle instinctivamente parou e
levou ao céo as
mãos afflictas, n'um gesto de quem implora misericordia.
N'aquella imminencia de perigo as proprias arvores lhe pareciam
immobilisadas pelo terror, á
beira do caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era
como a
voz implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um
longo
côro de supplicas...
O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente,
sem saber d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente:
—Ó José Gaio!
O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os
braços da cruz negra, que era o signal de alli terem matado
o José
Tendeiro, ha annos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito
á ponte. Mas
então a mesma voz tornou-lhe mais de perto:
—Ó José Gaio!
Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um
relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou
os olhos com força, nervosamente, ferido por aquelle
deslumbramento que
por milagre
o não prostrou. E quando o trovão
bramiu,
rudemente, uma immobilidade de estatua prendia o camponez á
terra. Foi então que
veio de novo aquella voz, como um prolongamento do trovão:
—Ó José Gaio!
Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez
transposta, galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente,
cedendo a uma força violentissima, entrou de retroceder,
cambaleando.
Aquelle rugir da agua que logo abaixo da ponte fazia cachão,
rugir violento
mas monotono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se
retroceder...
Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz:
—Ó José Gaio!
E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago
côr de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos
aquella cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre
firmes, que pareciam
desafiar a tempestade...
Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre
exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que
fôra tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira
o cerebro, que n'um fundo
côr de sangue, como n'um transparente de magica, elle via
nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o
estonteara.
Então deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem
parecia dilatar-lhe o peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento,
a voz tornou a chamar:
—Ó José Gaio!
Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu
ser. Um longo desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima
fibra de
energia, como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe
tambem o cerebro: não formava um só raciocinio
nem
elaborava sequer uma idéa, a mais simples. E foi preciso um
grande trovão para todo elle
tremer, abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez
reviver
n'elle a vida do espirito; sentiu um grande pavôr
áquelle
aspecto subito do campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado
como se estivesse
todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda
a banda casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos,
definidos maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores
despidas, sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de
recorte
que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos
troncos e
ramarias. No meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e
tetrico, o
triste camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli
chumbado
á terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um
só gesto
implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos
labios crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o
mais
formidavel trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois,
aquella voz
não o largava, imperturbavel e monotona:
—Ó José Gaio!
E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a,
exorcismal-a como se fosse a voz d'um duende. E para esta
evocação do sobrenatural muito concorria, como os
senhores comprehendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalavel
sob a aza agitada da procella.
N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua
depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul
furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo,
não se mexeu sequer. Como todo elle ardia em febre, aquelle
diluvio era quasi um celeste beneficio para a sua cabeça
n'um vulcão. Mas
quando os relampagos vieram, aquella reverberação
da luz nas cordas
d'agua fez-lhe um deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o
caminho lamacento por
onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:
—Ó José Gaio!
Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como
cahiu assim ficou—de bôrco. Depois, quando abriu os olhos,
na larga
poça onde quasi tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a
cada relampago. Ella
lá estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta
como um exemplo... E pois que parara o diluvio, dos seus
braços abertos as gottas
da chuva cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de
sangue...
Cobarde! Nenhuma comparação póde dar
idéa do estado de prostração d'esse
miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi
inacção de besta morta. Dir-se-hia um immundo
trapo alli cahido, abandonado alli na lama
ignobil de um caminho, á espera da enxurrada que o
levasse... Era
abjecto!... E emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que
uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o
encastellamento
phantastico das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo,
metralhando com
furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o
nosso espirito póde conceber
de mais grandioso e de mais
sublime,
epico e tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente.
Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos
trovões, aquella voz:
—Ó José Gaio!
Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o
outro, o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho
como se
fosse uma rocha. No emtanto, a espaços, tinha a
comprehensão clara da sua posição e do
seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o:
queria erguer-se, fugir, desapparecer—erguer-se como aquella cruz,
fugir como
aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam
rastro na treva...
Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes
para lhe provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli,
miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem
amputado as quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de
viver lhe
suggeriu, apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli!
Mas que duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava
por alli
viv'alma, a taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma
noite medonha
de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos
braços hirtos—morrer alli!... Eram então
já por elle as
lagrimas que essa cruz parecia chorar?...
Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia.
Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de
tropeçar n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver.
Estava salvo. Em breve estaria de pé,—de pé como
essa cruz que um
relampago muito vivo
acabava de lhe mostrar... No emtanto, a voz
é que se não
importava:
—Ó José Gaio!
Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse
que o calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas
energias,
e rebolou-se para um lado, até ficar detraz d'umas urzes.
Coisa notavel
foi, senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se
recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o
surprehendessem... E quem quer que era passou, cabeça nua,
deante da cruz
gottejante... Aos ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de
prece... Não
ia só a rezar; ia tambem chorando, aquelle homem...
...Quem seria?
Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido
como um espectro, o filho do José Tendeiro...
O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia
annos, por uma noite como aquella...
Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha
ponte. Só aquelle cobarde não se mexeu, prostrado
sobre as urzes, quasi arrumado
á cruz.
E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a
tempestade, perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema
fimbria do
horizonte... Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil,
nem a grande
sombra da cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma
benção, logrou reanimal-o. Tinha morrido, o
estafermo!
Ao outro dia, está claro, foram lá os da
justiça. O velho abbade foi depois, buscar o corpo. Os
medicos nem lhe tinham mexido.
—Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma
congestão muito linda—dissera um a rir.
—E muito mal empregada—fizera o outro do lado, indifferente.
Mas quando os da maca disseram a um tempo—
Upa!—esse
bom velho do
abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão
agudissima de choro. E elevando ao céo as mãos
mirradas—ao
céo que um divino azul fazia diaphano—elle exclamou,
soluçando:
—Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda,
como é infinita a vossa misericordia!
...Segredo de confissão...—mas o abbade bem sabia quem
tinha alli matado o José Tendeiro...