BALLADAS
A Luiz Osorio
I
MARICAS
Vocês
lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos
muito castanhos, quasi louros, que morava defronte da
redacção, lembram-se? A boa da rapariga era nossa
amiga, pois não era? Sempre
benevola e complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o
dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram,
as
nossas balburdias e algazarras...
Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
encantadora—a de não mostrar jamais na sua amisade
preferencia por algum de nós. Dir-se-hia que era nossa
irmã, ou
mesmo nossa mãe, pois que nos queria a todos por igual, a
pobre Maricas de olhar azul e brando...
Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com
que ella vos perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela
solicitude e interesse com que me perguntava por vocês,
quando faziam
gazeta ao escriptorio.
—Então esses cabulas? então esses marotinhos?
Doente, algum?
—Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá...
—Ora vejam!—fazia ella quasi escandalisada.
Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos
que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos
outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um
tête-à-tête que
durava horas, muito
familiares, muito dados, quasi que chamando-lhe por tu e ella a
nós!
Como eu me lembro!
Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia
inexhaurivel. Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a
adorar aquella
ingenuidade singela do seu coração de vinte
annos. A boa da
Maricas era adoravel, toda ella bondade e paciencia para os nossos
disturbios e para as
nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante.
Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella,
é que me não lembra, e porventura a nenhum de
vocês, acho eu. O que
é certo, rapazes, é que nós como que a
consideravamos uma
companheira de redacção, especie de directora com
casa áparte e viver independente pois que
se entravamos no escriptorio (parece mesmo
que estou a ver aquella
barafunda d'escriptorio!) e, assomando á janella, a
não
viamos na sua, diziamos quasi sem querer, mas invariavelmente:
—Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo,
á formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde
fóra, em casa da
freira de
Quebra-Costas—d'essa
lembram-se vocês... No
emtanto, deveis recordar-vos que ella, no dia
seguinte...—coitada!—...a primeira cousa que fazia era justificar a
sua falta, «estive
aqui, estive alli, fui a umas compras com a mamã»,
um
pouco ruborisada e confusa, como se na realidade a sua
obrigação
fosse estar alli a aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia
de mãos
postas que lhe perdoassemos, a boa da rapariga.
E nós então galhofeiros, brincalhões:
—Sem mais
aquellas, D. Maricas! A
congregação
risca-lhe a falta, ora essa!...
E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:
—Pois sim, mas é que ás vezes...
—Ás vezes quê?...
«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella
estivesse zangada comnosco. Saíra, porque tinha de sair,
essa é
boa...»
—Pois não era verdade—perguntavamos-lhe—que ella adorava
aquella
troupe de bohemios?
—São todos muito bons rapazes—dizia já a
sorrir.—Todos me tractam muito bem...
E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se
illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque
sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?
Quando nos via em palestras interminaveis, nas
libações do
congnac e do
café,
ouvia-se lá da janella um
pschiu!
muito sibilado.
—Que manda a D. Maricas? É servida?
E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:
—Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
O cuidado que lhe dava o jornal!
—Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora
que lembrança, o jornal!
Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás
vezes que na semana passada o typographo viera queixar-se de que havia
falta de originaes, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as
provas emendadas.
E por fallar em provas:—a Maricas sabia todos os signaes das emendas,
todos.
—Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais
n'esta palavra.
—Risco por cima, risco á margem, e um
d
cortado;
é facil.
—Um
m de pernas para o ar, e esta?
—Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está
farto de o saber...
Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre
que lhe fosse mostrando as tiras, á medida que as
escrevesse, talvez
porque adivinhava que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe
então a vontade,
e mal escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a
janella,
acenando-lhe com o papel:
—Maricas, cá está uma, vá contando.
Veja: escripta d'alto a baixo.
Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de
lá com um
bravo! e recommendava,
solicita, cinco minutos
de folga, emquanto se fumava um cigarro.
A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e
que bella gomma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi
sempre nos sabbados
á noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era
estreita atirava-se-lhe da janella.
—Maricas, ahi vae ainda fresquinho!
—'stá bem, obrigada. Vou lêr, até
ámanhã.
Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á
nossa amiga.
—Durma bem, ouviu?
E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do
artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que
mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito
bom, «escripto com muita graça e muito
bem», como ella dizia.
Nos serões que faziamos e que por via de regra
não passavam de um interminavel cavaco, dizia-se mal das
mulheres, discutiam-se
escandalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as
redacções... Mas da Maricas ninguem tinha que
dizer senão bem; era a
privilegiada n'aquellas sessões de má lingua.
Quasi sempre a conversa
degenerava em algazarra—um que se lembrava de cantar, outro que ia
pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de violão. E
era de
vêr o Santos Mello, d'olhos cerrados e cabeça
á banda, como cantava a
sua quadra predilecta:
Sei cantigas mysteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lirios dizem
ás rosas,
Que as rosas me vêm dizer.
Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava
silencio.
«Com mil demonios! não viam que a Maricas
não podia pregar olho...»
Todavia...—ó suprema bondade!—...ella nunca se queixava
quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara
a estroinice,
o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e,
até, as vezes que as cadeiras tinham caido.
«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A
Maricas que desculpasse; palavra d'honra! d'óra
ávante...»
Ella então acudia logo, como a remediar uma grande
desgraça:
—Não, não, eu até gósto.
Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora essa...
Pois, meus amigos, a boa da Maricas—morreu! vocês
não sabiam! E morreu tysica, a desgraçada
Maricas! Só depois que o
soube, é que eu comecei a pensar n'aquella tossesinha muito
secca em que ás vezes a surprehendiamos, n'aquelle branco
pallido das suas faces, no bistre das
suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas
mãositas de marfim...
Pobre Maricas!
Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella,
onde continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia
lá para onde ella tinha ido?!...
Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e
tão só! porventura na valla commum, sem umas
folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde,—onde n'este instante
cáe chuva e chuva! Ainda se
as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora
relembro
cheio de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita
resignação:
—...«Entretem-me vêl-os alegres, até me
faz bem»...
Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a
tua alma era triste... Mas porque foi que nos não disseste,
pobresinha!
que n'essa phrase singela ia a revelação do
presentimento
que tinhas da tua morte prematura?! Triste creança que
nós não
mais veremos!
Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não
dizes—
bravo!—ora não?...
...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella
rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos
a avigorar-lhe as seivas...
II
PARA A ESCOLA
No velho
casarão do convento é que era a aula.
Aula de primeiras lettras. A porta lá estava, amarella com
fortes pinceladas
vermelhas, ao cima da grande escadaria de pedra, tão suave
que era um
regalo subil-a. Obra de frades, os senhores calculam... Já
tinha principiado
a aula quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um
silencio
nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas
lições e a sua taboada, n'um rithmo cadenciado e
monotono, cantarolando. E ouviu-se
então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um
d'oculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço
vermelho, atado em
nó sobre a testa:
—Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui
está a encommendinha.
Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á
escola. Ali estava a encommendinha!
—Está bem, que fica entregue. E lá em casa como
vão?
E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
enfiava-me no braço o cordão da saquinha
vermelha, com borlas, onde ia mettido nem eu sabia o quê. Meu
pae é que
lá sabia... E alli estava eu entre os joelhos do senhor
professor, com o
bonnet n'uma das
mãos e a saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A
Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e
disse-me adeus.
—Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino.
Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella.
—Não, agora o menino fica—disse-me a Helena.—Isto aqui
é a escola, é onde se aprende a ler.—E
agachando-se, deante de mim:—Olhe tanto menino, vê?
—Mas fica tu tambem—disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
iracundo:
—Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de
fóra? Caluda, que vae tudo razo com bolaria!
Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles
eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E
estavam todos
alegres, p'los modos. Reanimei-me. Então já eu
podia ficar, estavam ali
os meus amigalhotes, cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam
alguns, o
Estevão principalmente.
—Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita
somma de paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.—(Pausa. Olho
duro sobre as bancadas.)—Mas está bem, diga lá
que a
encommendinha cá fica. Em boa hora entrasse...
—Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho?
Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito
os olhos.
—É verdade,—insistiu por sua vez o professor—o menino
ha-de estudar as suas lições, não
é
assim?
—Diga, sim senhor—ensinou-me então a Helena.—Hei-de
estudar muito e ser socegadinho na aula, diga.—E a meia voz para o
professor:—isto em
casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
Elle riu, já sabia; as creanças são
todas assim, emquanto estão no mimo das mães. Mas
uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam
um pouco. E piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou
transida.
—Faz milagres, sr.
a Helena. Digam lá
o que disserem, olhe
que faz milagres.
Eu tinha percebido. Começava de novo a
embezerrar,
com
vontade de sair quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que
servia, a palmatoria...
—Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa,
ora não?
—Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as
minhas obrigações, diga.
—Ora ahi é que está—atalhou o
professor.—Vê, sr.
a Helena? Aqui
já os pequenos
tem a sua obrigaçãosinha, os seus
deveres a cumprir, as suas coisas...
—Sim senhor, sim, emquanto que em casa...
—Em casa é o que nós sabemos. Tudo
são mimos, meu menino isto, meu menino aquillo.
Vão assim creados á lei da
natureza, sabe vossemecê? É mau isso, pessimo!
Porque é que os rapazes são
todos teimosos?—E bateu n'um «Monteverde» pousado
sobre a mesa,
dizendo:—Olhe, aqui está n'este livro: «
de
pequenino...
—...
é que se torce o pepino»—concluiu
rapida a
Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada!
—Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa
que se cria na horta...
Risota dos rapazes!
—Ora vê isto, sr.
a Helena?
vê estes brutinhos?—E
com entono, de palmatoria alta, fazendo-se carrancudo:
—Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço
licença á sr.
a Helena,
começo n'uma
ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos,
tudo, mas o que se chama tudo!
E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os
rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros.
É verdade
que elle podia pedir licença á sr.
a
Helena, e
mesmo
deante d'ella
cascar de rijo... Uma sombra de
terror passou por toda
a sala, socegaram;
até o Estevão deixou de me fazer caretas.
—É o que vê, sr.
a
Helena—disse então
victorioso, a
sorrir-se, o bom do professor.—É o que
vê! Um mestre sem
palmatoria é um artista sem ferramenta, não faz
nada.
Santa Luzia milagrosa! Aqui onde
a vê tem feito muitos doutores.
—Essa?—perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle
pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito
muitos doutores.
—Não, mulher, se não foi esta, outras como esta,
essa é boa! Isso não faz ao caso.
Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da
pobre Helena. Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes
investigara com
magua o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico
doutor... Morreria sem ter essa «gloria,» decerto!
Forte martyrio que
a Helena veio recordar-lhe!...
Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e
de braço no ar pedia para ir lá fóra.
—
Licéte!—foi como elle disse,
arremedando o latim
licet. Outros havia que diziam, por
troça,
Aniceto!
—Ora já a mim me admirava,—tornou-lhe o professor.—Se tu
não havias de pedir para ir lá fóra,
tu...—E ficou-se a
fital-o, meneando pausadamente a cabeça.—Ora vá
você
lá fóra.
O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
—Olá?—chamou zangado o sr. professor.
O outro assomou á porta, contrafeito.
—Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés,
ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem
tanta pressa, eu não
tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco.
Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
—Tu não... tu não... tu não... Tu,
olá, venha cá!
Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.
—Canalha!—gritou-lhes então, batendo o
pé.—Corja de atrevidos! Sentados, já!
Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde,
se era elle, apontando para o peito.
—Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.
Mediu-o d'alto a baixo. Depois:
—Isso mesmo. Essa mão no bolso é que
não é do
regulamento,
fóra com ella.
Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle
sujeito? o tal das pressas?...
—Vejo, sim senhor.
—Bem sei que vês, se o não vissem é
porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o,
já sabe p'ra que. E sempre quero
ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas.
Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor:
—Olá?
Elles assomaram, outra vez, atrapalhados.
—Então, seus cabeças d'avelã, torres
de vento, então não falta nada?
Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito
compromettidos. Faltava com effeito alguma coisa...
—Então é ahi?
Elles avançaram até ao meio da sala,
tropeçando um no outro.
—Ora passa por esta vez, em attenção a estar
aqui a sr.
a Helena.—E enrugando o sobr'olho,
commandou em tom
marcial:—Ordinario! marche!
Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava
o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir
ordens suas:
—Ordinario! marche!
Sentou-me então no joelho e perguntou:
—Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar,
queres? Assim como o sr. capitão do destacamento, que
lá está
aboletado em casa, queres?
—Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr.
prior, dizer missas.
Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr.
professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem
já
assim uma
tendencia qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas
nas bochechas.
—Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é
preciso escolher.—E para a Helena:—Pois olhe que os tenho conhecido,
sr.
a Helena, que respondem
a pés junctos que não querem ser nada. Mau
signal,
pessimo, sr.
a Helena! Quando elles assim dizem,
de ordinario assim
fazem, depois. Nunca
são gente.—E virando-se para mim:—Mas então,
Josésinho, em que ficamos? Corneta ou prior?
Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito,
especialmente em dias de festa, com aquella capa toda doirada...
—Muito bem, escolheste bem. «
Telha de egreja...
—...
sempre gotteja»—concluiu a Helena
que ainda hoje
é forte em adagios.
O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
—Prior, então! Está muito bem, seu reverendo.
Pois olha, Josésinho, para ser prior é preciso
estudar, saber ler no missal, ora
é?
—É.
—Ah!... Não é assim que se diz. É,
sim senhor—emendou a Helena.
O sr. professor teve um gesto de indulgencia.
—Mas tu não sabes ainda, ora não?
—Não senhor.
Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que
eu trazia na sacca era um livro.
—Querem ver que é um livro?...
—Diga—ensinou a Helena—é o meu livro para aprender a ler.
Mostre-o lá ao sr. professor, tome.
Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
meu livro.
—Muito bem! muito bem!—applaudiu o sr. professor.—Mas este livro
é mesmo para aprender a prior... O menino já
tinha dito
lá em casa que queria ser prior, ora já?
Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como
é que elle o sabia?
—Bem se vê por este livro. É livro para prior.
Queres então principiar, não queres?
—Quero, sim senhor,—ensinou ainda a Helena e eu repeti.—O que eu
quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
—Primeiro do que aquelles?—perguntou voltando-me para as bancadas.
Então fui eu mesmo que respondi:—«Sim
senhor!»—contente com a lembrança de vir a dizer
missa, e de a vir a dizer primeiro
do que todos aquelles. Até podia acontecer que o
Estevão das
caretas me ajudasse a alguma...
—Ora então está muito bem, estamos
entendidos.—E com intenção, ferindo muito as
palavras, para m'as gravar no espirito:—A primeira coisa que
é precisa para prior é saber bem isto,
vês?—E
punha-me deante dos olhos o livro aberto na primeira pagina.—Isto aqui
é já
missa, chama-se o
a b c, e é aquillo
que os priores dizem
quando vão
para o altar.
—
Ito?—inquiri curioso, furando a pagina com o
dedo.
—Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui
até ali. Hein? valeu?
—Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira
lição!
A B C D E F!
A minha primeira lição!
—Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.
a
Helena?
isto que eu tenho estado a fazer?
—Sim senhor, sei... é assim... como quem diz...
é...
—Não sabe, não admira,—disse complacente o sr.
professor.—Puxar o gosto, sr.
a Helena, puxar o
gosto é que
isto é.
Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim,
até
já vae estudar com mais gosto, digo-lh'o eu; olé
se vae!
«Mas elle não a queria demorar mais, tinha
lá em casa as suas obrigações, as suas
voltas, e deviam ser
horas.»
—Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei
que é, custa-me a separar do menino...—disse a boa da
Helena, quasi a chorar.
—Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a
coisa. Pois tenha paciencia. Aprender é tão
preciso como
mamar—concluiu n'uma prosa que é mesmo poesia.
—Pois é preciso, é!...
E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me
ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
—sr.
a Helena!
—Meu senhor!—respondeu, levando aos olhos o avental.
—Já agora, espere mais um instante.
Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
Depois, intimou:
—Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te
chamas, abaixo um pouco.—E virando-se para a pobre mulher
lacrimosa:—Ora
é alli, sr.
a Helena, alli
é que é o
logar do pequeno.
Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar.
E dos braços do meu professor passei para os
braços da ama. Novo beijo, lagrimas mais quentes, e saiu a
boa da Helena, deixando-me no meu logar...—o meu primeiro posto na
arriscada milicia das lettras...
Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a
conversar por acenos com a pessoa que estava de fóra.
Pequeno como era,
percebi, no emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica:
—Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.
a
Helena, mas isso, quando
forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos...
Han?
mesmo com a mão?... Está bem... Descance... Mesmo
com a
mão...
E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre
lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...
...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
principiei n'esse dia. Não volto mais á escola!
Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquelle beijo—dulcissimo beijo
aquelle!—que tu
então me déste. E afinal não fui
prior, ora
vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal
beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
que não fui prior, ainda bem... Não é
verdade, Helena?
Em Coimbra,
no dia do meu acto de formatura.
TRAGEDIA RUSTICA
I
Madrugada de
segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo,
á porta do José Grillo
Truz! truz! truz!
Os de casa acordaram, sobresaltados.
—Schiu! nem pio!—fez o José Grillo para a mulher.—Moita!
—Truz! truz! truz!
Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a
chamar pelo pae.—Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se
queria divertir...
Mas logo outra vez na porta:
—Truz! truz!
—Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem
é! gritou
de dentro o José Grillo, zangado. E
pois que se poz á cóca, de
orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu
distinctamente os passos de alguem que fugia.
—Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz
divertir—explicou elle para a mulher.
Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á
ideia que lhe tinham vindo pôr zôrro...
—Ó mulher, queres tu ver que ha novidade?
De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
casebre.
—Elle que demonio de embrulho...?
Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança,
envolta em dois trapinhos muito velhos.
—Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha.
—Grandes cadellas!—E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
gente da casa.
—Andem! a pé! levantem-se! está aqui este
innocentinho que vem dar os bons dias á gente!
Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do
José Grillo mettera a creança na cama, visto que
a pobresinha estava
gelada...
—Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha
do Antonio das
Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites
que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a
rapariga que ia correndo:
—Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que
fôr.
Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de
pé no meio da casa, a saia amarella deitada pela
cabeça, de braços
cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
—Ó mulher, nada de afflicções,
é tal e qual como se fosse nosso, faz de
conta...—observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar
taciturno da femea.
Ella só redarguiu que
nosso era um
modo de fallar. Seria
d'elle, mais de qualquer desavergonhada...
O José Grillo, que estava a enfiar as calças,
parou no serviço e pregou-lhe uma gargalhada.
—Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez
esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de
entrudo.
A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço,
levou-a ao pé da creança, affirmando-lhe
ás risadas que sim,
que o pequeno era filho d'elle.
—O pequeno?... mas é que pode ser cachopa—disse o
José Grillo para a mulher.—E certificando-se:—Nada!
é rapaz.
Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a
chorar, ia jurando pela sua salvação que
«o
crianço» era filho do seu homem.
—Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica,
braços no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo
pescoço n'um geito
de sobrepeliz.—Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae
ser de mim!
—Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que
é rapaz—disse-lhe de lá o José
Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a
creança.
Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço,
muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José
Grillo
virou-se para ella e disse-lhe muito solemne:
—Pois assim me Deus salve como não é meu o
rapaz.
Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se
logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.
—Juras pelas cinco chagas, ó homem?
—Juro pelas cinco chagas.
—Assim te Deus dê saude, ó José?
—Assim me Deus dê saude.
—Preto sejas tu como o teu chapeu?
—Preto seja eu como o meu chapeu.
A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e
abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa
Senhora da Conceição, pegada na face interna da
tampa, com
boccadinhos d'hostia.
Depois desabafou, muito aliviada:
—Ai!
O José Grillo poz-se a rir.—«O demonio da Joanna,
com ciumes!»
—Mas ciumes de quê, ó mulher? não
farás favor de me dizer de que diabo tens tu
ciumes?—perguntava muito casto o amigo José Grillo,
serenissimo deante da mulher desconfiada.
A outra, muito delambida, redarguiu com ironia—«que o seu
homem era um santinho...»—O José Grillo ia
defender-se. Mas
ella, atalhando logo, reguingou d'alto:
—Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a
cadella que engeitou este...
Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:
—Mas quem seria a grande cadella?
Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares
de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas:
—Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que
é tem mesmo entranhas de lobo.
O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do
José Grillo.
—É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que
coisa é mamar—disse contristado o lavrador.
Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem
vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.
—Tua irmã, tua irmã é que se
cá precisava. Que demonio vens tu cá fazer?
Ouves? não me dirás que diabo vens tu
cá fazer?—E deu um bofetão na filha,
«para que soubesse dar o recado».
A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha
culpa. A irmã é que a mandara para levar a
creança, porque ella, adoentada,
fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...
—Só se lhe queres tu dar de mamar—insistiu ainda o
José Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus
dezenove annos inda virgens.
A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:
—Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por
graça.
—Eu sei lá se não se dizem?—observou o
lavrador, muito zangado.—Dá cá d'ahi o pequeno.
Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao
José Grillo. O lavrador depol-o nos braços da
Dorotheia, com mil cuidados,
e depois elle mesmo ajudou
as mulheres a ageitar o pequenino, em termos
que
fosse bem quente.
—Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de
tarde por lá appareço, p'ra ver isto do ajuste.
A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que
tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga:
—Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.
Então poz-lhe os farrapos ao hombro—uns pedaços
miseraveis de velha chita—e a Dorotheia partiu onde á
irmã.
II