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TEXT
OS POBRES
OBRAS DO AUCTOR
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|
A
Arvore: |
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| I |
-- |
Historia d'um
palhaço. |
| II |
-- |
Os
pobres. |
| III |
-- |
Raizes
(em
preparação). |
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Theatro: |
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|
(De
collaboração com Julio Brandão) |
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| A
noite de Natal, drama em 3 actos, representado
no theatro de D.
Maria II. |
RAUL BRANDÃO
OS POBRES
Precedido de uma CARTA-PREFACIO
DE
GUERRA JUNQUEIRO
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Typographia R. Ivens, 45 e
47
1906
CARTA--PREFACIO
Meu bom amigo:
O seu livro é a historia patetica d'uma alma. Qual? A do
Gebo, a de
Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos
Pobres
emfim? Não. A
sua.
Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma,
transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia
espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e
divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta d'um organismo
que sente a
musica mysteriosa do universo, d'um coração que
repercute a dôr eterna
da natureza, mas que só ao cabo de
oscilações, duvidas e desanimos,
coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com
as
formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.
Não vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos,
da
imaginação e da volupia. Vejo um acto profundo,
espontaneo, d'imensidade
religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me.
Não a
confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca
que tem dentes, para o
ouvido que tem sombras. Não a confissão-analise,
a confissão dos
criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida
confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas
de
eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha
lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se
desdobram,
a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da
natureza. Andou o
infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o
sonha. Quando o genio
explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo
é o santo.
O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.
As confissões augustas são as dos poetas e dos
santos. No homem vulgar a
personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e
difusas. O inconsciente imenso não acorda, porque
está, como um aroma,
dentro d'um bloco duro, impenetravel. É o sonho captivo n'um
ovo
hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas
conservam aquella graça radiante, aquella
omnipresença espiritual, que
as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O
sonhador dos
Pobres é um evocador
atormentado e religioso.
Busquei no
seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vêr se a
desenho com
rapidez e precisão.
Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro,
esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece,
palpita, murmura
e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a
féra, a
rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluviões
de nebulosas,
incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o
tempo não exgota, porque a morte creadora continuamente o
desorganisa e
reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam,
penetram, correspondem. É uma teia vertiginosa de fios sem
fim, de fios
moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade
impenetravel, sem ninguem ver o tecelão. Rigidez, solidez,
inercia, não
existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos,
dramas, turbilhões de moleculas e vontades. As cordilheiras
inabalaveis
são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o
material
evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua
do
sol, que é sol volatilisado, pesa menos que uma folha de
rosa na mão
d'uma creança. Em cada bloco metalico latejam oceanos
dormentes, de
vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado,
irradia no ether. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme.
Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e
é seiva; a seiva gerou, e é
flor e é fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o
sangue
vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa.
Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma
vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila,
desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não ha terra em
que poise,
nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio,
ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa
os olhos
do
imenso ao grão d'areia, o grão d'areia,
infinitessimo, resolve-se-lhe em
vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo,
a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.
Abismo de aparencias ocultas, abismo de vozes que se não
ouvem. A
natureza taciturna exprime-se magicamente, em linguas vagas,
silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que
bocas humanas ha na terra, o que não dirá o
coloquio formidando de todas
as vontades do universo! Tem cada organismo a sua lingua peculiar. Os
que vivem mais proximos entendem-se melhor. O ar segreda á
agua, a raiz
ao lodo, a luz á folha, o polen ao ovario. Ha fluidos que se
casam,
raizes que se querem bem. O oxigenio é intimo do ferro, o
azougue é
intimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as
electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!
Materia infinita,--forças infinitas, infinitamente
caminhando. E no
pelago vertiginoso da mobilidade universal é cada atomo
invisivel um
desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...
O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do increado, das
linguas tacitas da natureza, alguem o ouviu que se recorde? Alguem: o
homem. O homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha
e onda; foi nebulosa, foi gaz impalpavel, foi ether invisivel.
Articulou
todas as linguas, e d'ellas conserva, obscuramente, vagas memorias
dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a
intuição
prodigiosa do meu amigo.
Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por tres formas ou
em
tres fases emotivas. Estudei a primeira,--
a
emoção dinamica. O mundo
resolve se lhe n'um jogo de forças, n'um conflicto de
vontades,
brigando, casando-se, transfigurando-se em aparencias rapidas,
ilusorias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.
Mas o que é a vida? Chega á segunda fase. Deslisa
da emoção dinamica á
emoção moral. Depois de ver o mundo atravez dos
sentidos, julga-o
atravez da rasão e da consciencia.
O que é a vida?
A vida é o mal. A expressão ultima da vida
terrestre é a vida humana, e
a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um
tumulto desordenado de egoismos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram.
O Progresso, marca-o a distancia que vae do salto do tigre, que
é de dez
metros, ao curso da bala, que é de vinte kilometros. A fera,
a dez
passos, perturba-nos. O homem, a quatro leguas, enche-nos de terror. O
homem é a fera dilatada.
Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de
guerra, com as escamas d'aço, os intestinos de bronse, o
olhar de
relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando
lavaredas, vomitando morte.
A pata prehistorica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do
chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte
escavacava um cedro, o canhão Krup rebenta baluartes e
trincheiras. Uma
vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.
Os grandes monstros não chegam verdadeiramente na epoca
secundaria;
aparecem na ultima, com o homem. Ao pé d'um
Napoleão um megalosauro é
uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas duzias de
viandantes, emquanto milhões e milhões de
miseraveis cahem de fome e de
abandono, sacrificados á soberba dos principes, á
mentira dos padres e á
gula devoradora da burguezia christã e democratica. O
matadoiro é a
formula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros
para verdugos. Uns jantam, outros são jantados. Ha creaturas
lobregas,
vestidas de trapos, minando montes, e creaturas esplendidas, cobertas
d'oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem
pobresas metalisadas. Ha homens que ceiam n'uma noite um bairro funebre
de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesans rosarios d'esmeraldas e
diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosarios de craneos ao
peito de selvagens.
Vivem quadrupedes em estrebarias de marmore, e agonisam parias em
alfurjas infectas, roidos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou
aldeolas de miseraveis. E, visto os palacios devorarem pocilgas, todo o
boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma forca. O deus
milhão não digere sem a guilhotina de sentinella.
Os homens repartem o
globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior
quinhão. Homens
que têm imperios, e homens que não têm
lar.
Os pés mimosos das princezas deslizam lusentes d'oiro por
alfombras, e
os pés vagabundos calcam, sangrando,
rochedos hirtos e
matagaes. Bebem
champagne alguns cavalos do sport, usam anneis de brilhantes alguns
cães
de regaço, e algumas creaturas, por falta d'uma codea,
acendem
fogareiros para morrer. Bemdito o oxido de carbone, que exhala paz e
esquecimento! E a natureza, insensivel ao drama barbaro do homem!
Guerras, odios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades,
deixam-na tão indiferente e inconsciente, como o rochedo
imovel,
bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angustias
não arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri
com o mesmo
esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil, e as
hervas
gulosas não distinguem a podridão de Locusta da
podridão de Joana d'Arc.
Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Christo, e os
lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrocharão,
egualmente
candidos e nevados.
A humanidade, emfim, é a victoria dos arrogantes sobre os
humildes, dos
fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher
entre
vencidos e vencedores, entre o amor e o odio, o mal e o bem, o riso e
as
lagrimas, o seu coração misericordioso de poeta
inclinou-se
espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.
A dôr é o seu deleite. Busca-a, desejo
febril!--por hospitaes, por
cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros
leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes,
virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam
promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como
entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas
sem fundo, abismos
hiantes, boqueirões de sombra. Explora desvãos,
trapeiras, minas, covas,
esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas,
que gotejam sangue, nas roucas escuridões tumultuosas,
pavidas de
gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.
E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectraes de
crucificados, hordas de monstros, bandos de miserias, cardumes de
abominações e de agonias. Ullulam tropeis
disformes e sangrentos,
regougam fauces patibulares, choram, coroadas de ulceras, Magdalenas
lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam
ralas estorturantes, gemem creanças vagabundas, tossem
tisicos, ardem
febres, lusem gangrenas e podridões... E tudo vago,
indistincto,
confuso, n'um rumor longo e subterraneo. Não se destacam,
não se
desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada
mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. É o
mundo cahotico
da miseria, que a noite putrida gerou e a noite soturna ha-de
engulir...
É o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionario,
quasi
desconhecido e genial.
Homens de gosto colecionam quadros ou estatuas. O meu amigo coleciona
dôr. Não em galerias ou museus, como quem se
dedica ao estudo biologico
das varias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surprehende,
não a invasilha n'um frasco, guarda-a no
coração.
Conta-lhe os ais, não os microbios. Em vez de a analisar,
decompondo-a,
analisa-a beijando-a. No seu
laboratorio chimico existe apenas um
reagente, que dissolve tudo: lagrimas.
O poeta dos
Pobres não é um
romancista. A alma
do evocador
fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que elle evoca.
Dir-se-hiam espelhos, brancos, verdes ou azues, planos, concavos ou
convexos, reflectindo todos elles um unico semblante, que julgamos
distinto, porque aparece deformado.
Chamei aos
Pobres uma confissão
religiosa. Não
ha duvida. Os seus
pobres, meu amigo, são bocas de visões,
articulando a alma d'um vidente.
Falam a sua lingua e contam-nos a sua historia. Não a
historia, no
minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a historia, no espaço
e no tempo,
do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.
No drama dos
Pobres ha duzias de actores e um
só
personagem: o
dramaturgo. As suas figuras não constituem individualidades
reaes,
caracteres verosimeis, logicamente architetados e definidos pelas
inumeras causas de existencia, conglobados em duas ordens genericas,--a
herança e o meio. Os seus ladrões, assassinos e
meretrises, não roubam,
não matam, não copulam: sofrem. Sofrer, eis o seu
mister. Mouca, Luiza,
Gebo, Golim,--pseudonimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos
elles
é um só: a Dôr.
Inevitavel. Desde que o meu amigo rasgou as mascaras enganadoras ao
Universo, para lhe descobrir a essencia e natureza intima, e desde que
a
lei do Universo é o predominio do mais feroz e do mais
forte, toda a
imensa humanidade, tumultuosa e vária, se resume logicamente
em dois
homens apenas: o algoz
e a vitima, o homem que sofre e o homem que faz
sofrer. Os bons são os que padecem. A miseria, mesmo
sinistra e
delinquente, é já um principio de virtude. Nenhum
dos ladrões, nenhuma
das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por
vontade
propria, por fatalidade fisiologica. Obrigou-os a fome, calcou-os a
injustiça. A sua infamia e a sua ignominia é a
avareza ou a luxuria dos
homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos,
são
perversos, e todos os miseraveis, ainda roubando ou esfaqueando,
são
creaturas boas, porque são vitimas dos primeiros. Os
retratos dos
bemfeitores do seu hospicio (pag. 59) parecem-lhe «uma
galeria de
afogados, todos solemnes, ricos e maldosos, hirtos, de labios finos e
ar
de cerimonia.» E as alfurjas, cadeias e prostibulos, onde se
amontoam,
n'um horror tenebroso, os vicios alucinados e os crimes exorbitantes,
afiguram-se-lhe á imaginação
misericordiosa como templos de angustias,
santuarios sagrados de tribulações e de
martirios. É um flos-sanctorum
da miseria, a dor do enxurro canonisada e sublimada.
Mas se a lei da natureza é iniqua e feroz, visto os maus
triunfarem e os
bons sucumbirem, d'onde vem essa lei, quem a gerou, quem a impoz ao
universo? Quer a creasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ella
seja imanente ao universo infinito, é, nos dois casos, uma
lei
monstruosa, negadora da suprema ideia do espirito do homem, a ideia do
bem e da justiça. Contradição
inexplicavel: A natureza é iniquidade,
porque a lei que a rege assegura o predominio e a sobrevivencia do mais
forte. Mas quem me leva a dizer que
a natureza é iniqua? O
sentimento do
bem e da justiça, desenraisavel do meu
coração e do meu cerebro. Logo
existe tambem na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da
justiça, contraposta á lei da força e
da violencia. Se Christo morreu na
cruz, a natureza é o mal. Mas sendo a natureza o mal, como
é que d'ella
nasceu o mesmo Christo, afirmação de todo o bem?
A ideia do bem e da perfeição, levada ao
infinito, é a ideia de Deus.
Mas como hamornisar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como
fazer sahir a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal
do
bem, o universo de Deus?
Chegamos á terceira e ultima fase do seu espirito:
á fase religiosa, á
emoção divina.
A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em dôr e
resolveu-se lhe em amor. Movimento infinito, dôr infinita,
amor
infinito, eis os tres rostos da natureza no espelho cada vez mais
profundo da sua consciencia, nos olhos cada vez mais abertos da sua
alma. O dinamismo atomico do universo reduziu-o,--pavorosa
sinteze!--á
dôr sem fim, á dôr universal. Viver
é sofrer, e tudo vive, tudo sofre.
Vida infinita egual á dôr eterna, eis a
equação matematica da natureza.
Pandiabolismo, satanaz-universo. Um circulo infernal, hermeticamente
inexoravel. Não ha, pois, evasiva? Ha. D'esse inferno sobe
uma escada de
chamas tenebrosas, que vae ao purgatorio, e do purgatorio uma espiral
de
luz radiante, que nos leva ao céo. A dôr, que se
lhe afigurou a essencia
intima da vida e sua unica expressão, não era, ao
cabo, o substracto
ultimo da natureza, o fundo
irredutivel do universo. A dôr
não era
irredutivel. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. Não ha
bellesa
esplendente, que não fosse dôr caliginosa. A flor
é a dôr da raiz, a lua
a dôr das estrellas, e a virtude ou o genio a dor ascendente
do ether
luminoso, cristalisando no homem, ao fim de um calvario inenarravel de
milhões e milhões de seculos sem conta. A alma de
Jesus proclama o
triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Venus entoa a
victoria da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha
brúta e
desharmonica. Bellesa de essencia ou bellesa de aparencia, virtude de
Jesus ou formosura de Venus, tem, ancestralmente, a inicial-as o mesmo
horror e a mesma imperfeição. Do verbo odiar
nasceu, evolutivamente, o
verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentada. Toda a alegria
vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria é o
sofrimento
amoroso, o sofrimento espiritualisado. Deus é, pois, o amor
infinito,
vencendo infinitamente a infinita dôr. E, vencendo a infinita
dôr, elle
é a infinita alegria, a paz absoluta, a gloria eterna, a
bemaventurança
ilimitada. Deus sustenta-se realmente, como diz o meu amigo, do
sofrimento universal.
Nos meus
Ensaios Espirituaes, ainda ineditos, eu
exprimo inumeras
vezes a mesma ideia. Quer vêr? Destaco uma pagina:
«Só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus,
amor absoluto,
sustenta-se do sofrimento do universo. É uma luz eterna,
alimentada por
um incendio eterno. Deus, amor absoluto, projeta-se em dôr
infinita da
natureza. Para ser a perfeição absoluta, encarnou
se na imperfeição
ilimitada do universo. Deus não se comprehende sem universo.
O perfeito
vive do imperfeito, como a chama vive do combustivel. O mal
é a condição
do bem, o erro a condição da verdade, o crime a
condição da virtude. O
santo é santo, porque venceu o demonio. Sem o demonio, o
santo não se
comprehende. Sem universo imperfeito não ha Deus perfeito.
Satanaz é uma
das faces de Deus. Mais ainda: Satanaz é o corpo de Deus.
Deus é Deus,
isto é infinita perfeição, infinito
amor, porque vence eternamente
infinitas imperfeições e infinitas
dôres. Deus é a completa
affirmação
do Bem, pela completa e continua victoria sobre o mal. No instante em
que o mal acabasse, acabava Deus. Deus não é
idéa, pensando-se
infinitamente:
é acto infinito, amor infinito, a
realisar-se pela
infinita vontade na duração infinita.
Eliminando
o imperfeito, o
perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruireis o absoluto:
o
absoluto que fica é o absoluto não-ser.
O
infinito amor de semelhante
Deus seria o infinito amor de si proprio, o infinito egoismo.
É como se
quizessemos resumir a infinidade dos numeros em um numero unico,
infinito, eterno, inalteravel, o numero absoluto perfeito, e
realizassemos a sinteze da infinidade numerica no absoluto do zero.
Tudo
egual a nada. Não! Deus é infinito amor,
esforço infinito, actividade
infinita. O universo é o corpo de Deus, é a carne
de Deus. Deus é
absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa
diversidade infinita não ha, nem póde haver, a
união suprema. Mas a
sinteze da vida é irrealisavel na ideia de numero e
quantidade, na ideia
concreta de
materia. Só na ordem moral se unifica
absolutamente a vida
varia do universo.
As quantidades, traduzidas em
imperfeições, os
numeros traduzidos em egoismos, são reductiveis ao absoluto
na ideia
unica d'amor. Ahi o imperfeito torna-se a
condição matematica do
perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta se dos egoismos
infinitos, continuamente evolucionando para elle. Deus, beatitude
eterna, vive e sustenta-se das dôres infinitas do universo.
Deus como
corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espirito puro,
Deus, amor absoluto, não sente dôr, nem
sofrimento. É a bemaventurança e
a gloria eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do
seu corpo. O santo verdadeiro dá-nos a imagem palida de
Deus. Deus é o
santo perfeito, o Christo absoluto e universal.»
Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma sinteze. Mas o
auctor dos
Pobres não desvendou,
ideologicamente,
abstractamente, o
segredo da natureza, a explicação religiosa e
intima da vida universal.
Não a estudou como filosofo, descarnando-a, dissecando-a,
até lhe
descobrir as leis inalteraveis e reconditas da sua estructura
evolutiva.
Não fez do cerebro um instrumento de visão, agudo
e claro, gelido e
penetrante, com elle interrogando, dia a dia, no sorvedoiro cosmico, o
borbulhar infinitiforme da existencia. Não mediu a vida a
compasso, não
a formulou em theoremas ou equações. Viveu-a. O
seu livro não é a
historia dialetica da razão d'um homem, sistematisando e
codificando a
natureza. Não é a historia d'um encefalo,
desdobrada em ideias. É a
historia d'um homem,
a historia plena e formidavel d'um organismo
inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lagrimas, das
mãos que
abençoam e que destroem, dos olhos que choram e que
fulminam, da boca
que resa e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanaz, da alma do
anjo que se encaminha para Deus. Sim, a historia universal d'um homem,
gemida e rugida, furiosa e candida, não para que o mundo lha
ouça (então
seria hipocrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no
silencio. É a confissão clamorosa, satanica ou
celeste, das energias
infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no misterio pavido
d'um homem. O abismo insondavel, retrahindo-se, cristalisou n'um ponto;
e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondavel.
Almas inumeras se agrupam na alma sintetica e central. Ha em cada alma
infinidades d'almas. E umas tão horriveis e loucas, que as
escondemos
para que as não vejam, e outras tão inconscientes
e profundas, que,
habitando comnosco, as não chegamos sequer a conhecer. O
poeta dos
Pobres conheceu-as e confessou-as todas. Desde a
mais clara
á mais
crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado
nascente, ingenuas e vivas, sem occultar uma unica.
O seu Deus não é o ultimo termo d'uma cadeia
logica de silogismos. Não o
descobre pela razão, atinge-o pela
emoção. O meu amigo não raciocina,
isoladamente, com o encefalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo.
As
ideias brotam-lhe espontaneas, como o sangue da facada ou a flor da
haste. Palpitam de vida, mas vida viva,--no estado genesico.
Não falam,
não discursam, não discorrem. Gritam, uivam,
ululam, gemem, resam,
blasfemam. Ciclones d'ais, de orações, de
imprecações, de furias, de
lamentos. O meu amigo pensa, forma juizos, como as eletricidades formam
raios.
O seu Deus é a expressão da sua emotividade. Ou,
bem no fundo, da sua
moralidade. Só crê em Deus, só descobre
Deus, quando em si, pela
virtude, momentaneamente o realisa, ou tenta realisar. Se a bondade e a
paz lhe existem no coração, a natureza resolve
se-lhe em Deus, em amor
supremo. Mas, d'ahi a instantes, o egoismo invade-o, e não
é já em Deus,
é na chimica, que a explicação do
mundo lhe apparece. Qual a fonte do
ser, a rasão da vida? É o acaso, é o
apetite, é o amor, é Deus ou
Satanaz, conforme as horas ou os dias conforme o equilibrio instavel da
sua carne e do seu espirito. Logo de começo, a paginas 29 e
30, define
Deus abrazadoramente n'uma lingua de chamas, n'um paroxismo de dor e de
misericordia, n'um extase candente e lagrimoso, tão fervido
e tão
lucido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe subito, no amago da alma,
a
verdade da vida. A vida é um calvario. Sóbe-se ao
amor pela dôr, á
redempção pelo sofrimento. Christo é
um redemptor humano, Deus o
redemptor universal. É o ser infinito, porque é o
amor ilimitado. E a
natureza tenebrosa, vista de Deus, divinisou-se por encanto. Guerras,
lutas, crimes, catastrofes, desordens, evaporam se e fundem-se em
harmonia magica e perfeita.
Mas logo adiante, a paginas 42, a natureza, divinisada, reverte e
regressa á sua forma demoniaca, de materia bruta.
«Ser só, sem amigos, sem apertos de
mão, sem conhecidos, ser só e livre,
que sonho!»
Do altruismo absoluto, do absoluto amor, que é Deus,
retrogradou ao
individualismo anarquista, ao egoismo feroz, que é Satanaz.
Do polo
positivo saltou ao polo negativo. Entre os dois polos, entre o bem e o
mal, entre Deus e o Diabo, vae oscilar e flutuar a sua alma, ora
aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilisando-se
quasi, pelo hausto indutivo das duas correntes antagonicas.
Tal um Christo, penosa e religiosamente escalando o calvario, e que, a
meio da encosta, varado de dôr, esvahido o animo e evolada a
fé,
arrojasse a cruz dos hombros, exclamando n'um impeto: «Basta!
Se o
caminho do céo é um martirio abrupto, uma
inferneira ingreme, desisto do
céo e volto para traz para o conchego do meu lar, para a
ternura de
minha mãe, para o afecto dos meus parentes e meus
irmãos. Antes risonho
e feliz, junto do meu pae humano, que é carpinteiro, a
aplainarmos
cruzes, do que, morto e crucificado, na gloria infinita do meu divino
Pae celestial!»
E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da
amargura, para já lá no fundo, voltar a subil-a
novamente, a cruz nos
hombros, com maior fé e maior ancia.
O seu poema é a historia da escalada tragica do seu
calvario. Mil vezes
o meu amigo tomou nos hombros a cruz da dôr e da
paixão, e outras tantas
a deixou cahir, exhausto, com ais de desanimo, ou a sacudiu exasperado,
cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e
chorando, galgou a
montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e
em
Deus ficaram imoveis e serenos os olhos tristes da sua alma.
Polarisou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, emfim! Libertou-se.
Não volte á servidão, á
escravatura negra e demoniaca. Mantendo-se
liberto, a obra d'hoje, patetica, mas angustiosa e desigual, a obras
futuras, vastas, claras e radiantes, servirá de entrada e de
prefacio. A
arte vale mais ou menos, segundo a porção de amor
que abrange e que
revela. A arte soberana é a que conjuga a natureza
toda,--homens e
monstros, aguas e arvores, pedras e nuvens, soes e nebulosas, com o
verbo infinito e perfeito, o unico verbo creador, que é o
verbo amar. O
universo atomico, particulas inumeras e vagabundas, fraternisa em Deus,
unificado n'uma só alma e n'um só corpo.
Resar o universo é polarisal-o no infinito amor. Cantar
não basta. Resar
é mais. Resar é o superlativo divino de cantar. A
oração é a
canção
angelisada, a canção chorada e de mãos
postas. O universo absorve a,
comprehende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as aguas
e
os rochedos, vagamente a percebem, como um halito amigo, uma caricia
branda e luminosa. Rese todas as dôres, pobresas, miserias,
lutos,
soffrimentos. Rese o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o
carcere, a enxovia, a terra tragica, ulcerada de mortes, e a noite
concava e funebre, ulcerada de soes e de nebulosas. Rese a
dôr, mas rese
tambem a alegria, que é dôr vencida e desbaratada
pelo amor. Rese o
triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha
épica da
vida pelo caminho
eterno, que não tem fim. Rese chorando,
mas lagrimas
fecundas, que façam parir a terra, palpitar o seio e
germinar a semente.
Lagrimas d'aurora, orvalho vivo e creador. Resar e chorar, mas
heroicamente, na acção e na luta, no mundo e para
o mundo. Resar, como
Nuno Alvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que
vão
para Deus, voltando as costas á natureza. Quem se quizer
salvar, ha de
salvar os outros. Quem renegar a natureza, renega Deus. A ascese
egoista, eis o atheismo verdadeiro. A imobilidade é
sacrilega, a
escuridão é sacrilega, o silencio é
sacrilego. A vida é som, é luz, é
movimento. A vida marcha por abismos, tragica e formidavel, mas ruidosa
e simfonica, vestida de luz e de mil côres. Amortalhal-a de
negro,
arrancar-lhe a lingua, para que não cante, e os olhos, para
que não
deslumbre e não dardeje, é como se lhe
cravassemos no coração uma facada
sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo
e nihilismo,--dois zeros, dois sinonimos. O frade catolico, na concha
da
mão, exangue e paralitica, sustenta uma caveira.
É o nada olhando o não
ser. O monge ideal, na dextra poderosa, em vez da caveira, tem um globo
d'oiro constelado. Tem o universo. É o monge futuro.
Seja elle o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa
fé e a
nossa arte. Resemos, vivificando e sublimando. Arte creadora, que seja
pão e seja luz.
Se nos acusarem de hipocritas, deixal-os accusar; mentem. E a mentira
só
aos mentirosos prejudica. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a
gloria, desviando de nós as multidões, que
não pensam e vão para
onde as
levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem,
ficarão comnosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos
favor. Lezam-nos
sómente na vaidade, que é vicio ruim, grama que
custa a deitar fóra.
Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos
perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor
ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil
hesitações e
desenganos, cravou as raizes para sempre n'um ideal de amor e de
verdade, pódem calcal-a e tortural-a, pódem-na
ferir e ensanguentar, que
quanto mais a calcam, mais ella penetra no ideal que busca, mais ella
se
entranha no seio ardente que deseja.
Seu amigo e camarada cordealissimo
1902.3
Guerra Junqueiro.
OS POBRES
I
O ENXURRO
Vem o inverno e os
montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza
inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra.
As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.
É como um rôlo mysterioso e profundo que vem d'um
mar desconhecido. E a
chuva começa. É um ruido dôce o da
chuva. Faz sonhar em tantas coisas
idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia,
a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra,
põe raizes á mostra,
arrasta n'alluvião o humus, as folhas seccas das arvores, os
cadaveres
dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos,
dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.
Assim a vida. É um rio de lagrimas, de brados, de mysterio.
A onda turva
põe as mais fundas raizes á
mostra, a torrente
leva comsigo de roldão a
desgraça e o riso; sem cessar carreia este
terriço humano para uma
praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram
emfim a mão
que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar,
ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se
converte em realidade...
Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas
que passam viajam
gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da
vida,
mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este
predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a
escutar... Ouço um rio
que os mais não sentem. Cada creatura nascida traz comsigo
uma fonte,
fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos
jorros. É ella que tira á vida a sua seccura. Em
certas creaturas pobres
e simples quasi se ouve essa agua correr e tão
amoravelmente, que dá
vontade de nos chegarmos á sua sombra. É
emoção. Minae, não na deixeis
seccar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.
N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o
ruido da levada; corre
sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!...
Préga o
inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae,
escutae!...
São meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas,
ao pé de mim dois
casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S.
José. As
mulheres passam
ás vezes na rua, com chales purpuras a
rasto; o gato
pingado só sahe á noitinha, á hora dos
morcegos. Mais timido que eu,
encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e
rôto.
Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar,
para berrar,
para que lhes deem um pedaço de pão e
só se deitam no sepulchro. Caminho
sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o
cansaço, a
humilhação e a fome.
Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, tão lindo,
que até as
proprias macieiras de commovidas se vão desentranhando em
flor, sabeis o
que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os
passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que
elles vivem
aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que
é que Deus os
cria?
O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma
pázada de
terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu
alto
embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no
braço. Nunca fala.
Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão
que só sahe para os
enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou.
Os garotos
apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto
e casaca, rigido
clown da morte, que em logar de
gargalhadas toda a
sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os
caixões como quem arranca o coração
dos vivos, ao ouvir gritos, tem um
riso interior, jubilo de quem está farto de viver
só, arredado,
humilhado... Gato pingado! gato pingado!
Vive de lagrimas, sustenta-se
de dôres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar
atraz d'um
carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a
pensar,
esbaforido e triste?....
Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem
mãe
atiraram-n'a um dia para um collegio d'orphãos, onde cresceu
entre maus
tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava
a vida na enfermaria e os medicos--acho que de proposito--livraram-n'a
da morte, para que depois soffresse.
Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos
rôtos, e
magra e desleixada que faz piedade.
--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá
uma Irmã que
me beijava e fazia festas...
Mais felizes são os cães vadios, mais felizes,
incomparavelmente, são as
arvores.
O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella
chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella não
dá palavra e só
pensa:--Antes eu fosse para creada de servir!--elle quer que a Rata
grite e chore.
Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...
Esta manhã appareceu com os olhos inchados e pisaduras na
cara. O
vestido já lhe não serve. E como está
frio, reparei, traz os pés
mettidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende
na vida,
soffre! Nada te valerá. Até á morte,
até que te acabe de matar com maus
tratos. Ás vezes, se elle sahe,
põe-se
á janella, a scismar na Irmã,
que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e
pergunta-se:
--Porque não morri então?....
Calla-te e soffre. E até á morte, até
o teu pobre corpo cahir exhausto,
moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente,
inexoravelmente.
Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e
molle, de
cabellos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos
com um olhar
aguado e tonto.
--Ó Gebo!
E elle, erguendo o carão afflicto:
--Anh?...
E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo
as
pedras. A ventania açouta o casarão e passa,
levando poeira de scisma,
ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma
multidão feita de terriço, de creaturas tendo
arrancado a mascara:
certos homens são sonhos, outros dil-os-hieis gritos.
Põe-se o Gebo a
contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio
dos palhaços, o Astronomo, um sabio hirsuto, o
Gabirú, philosopho esguio
e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas
mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idéas e
nunca olhou
cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que
descobriu á prôa do seu barco como um navegador.
No subterraneo do
predio mora--ha quantos annos?--
o homem do pacho,
de
quem ninguem
sabe
a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os
seres e as coisas, março, a arvore, a vida tumultuaria e
larga como um
rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só
as paredes esbrazeadas,
á força d'elle sonhar, a rubro como as pedras
d'uma forja, conhecem a
sua historia. Pára no patamar o Gebo contando o que soffreu
aos pobres
que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e
narra pedaços d'uma triste existencia de
humilhação e de esmola, sempre
esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do
mundo, as
suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do pão
para os seus.
E termina sempre:
--Tenho pena de ter sido honrado...
A ventania présaga augmenta, abalando o Predio. De que
é construida uma
casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o
homem. A arvore
e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a
isto
gritos. De pedra, d'arvores e de gritos fôra construido o
Predio. Juntem
a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos,
outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De
fórma que
toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma
feição
d'aquellas existencias. É a habitação
do Gebo, das prostitutas, do
Gabiru, do Pitta. Escancara-se o portão, cahem-lhe os
telhados, mas se,
em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol,
acredital-a-heis a
scismar, a cantar. É effectivamente de pedra--e de sonho.
Chove, mas em torno a terra arida, não tem agua nem plantas.
Só uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se
de dor. As
suas raizes foram minando até ao Hospital, construido em
frente da
casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas
nuvens, a toca--eis um phantasma d'arvore todo de pó de
luar.
Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo
este enxurro vivo. Muitas
vezes são lagrimas que correm ou
emoção que brota com o ruido d'um fio
de bica cheio de scintillações e rumores. O cahir
de lagrimas é sempre
d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade:
arvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do
chão, montes
solitarios, parece que os prohibe aos desgraçados: como um
velho
sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por
dentro,
todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.
O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura ás vezes ao
contemplal-o:
--A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos
não assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra,
de granito
bem solido, para que se não ouçam os gritos
cá fóra.
II
O GEBO
Heis de tel-o
encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos
estacados
e um ar d'afflicção que faz riso e piedade. Tomba
ás vezes na rua,
levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois
caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de
cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola.
Tem
um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo--de cabellos
brancos
estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e
rôto e por a desgraça o
ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.
Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida não n'a
entendia e a
cada empurrão tinha um ar espantado e afflicto de quem
não comprehende.
Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o
soffrimento
faz rir?
E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo,
pedinchão e
desgraçado.
As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase--ser infeliz. Ha seres
que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria
tôrto, até as
coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo
existem, e elle punha-se a olhar para a desgraça, atarantado
e estupido.
Que mal fizera para soffrer?
Alem de desgraçado, este homem fôra sempre picaro:
assim no globo passam
existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que não
deixam o mais
simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto
são a
vida da terra.
Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados,
fazia rir.
Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo
tinha
um coração igneo. Era d'estas creaturas a quem um
montão de desgraças
torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome.
Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão,
elle ahi vae...
--Ó Gebo!
E todos se riam ao vel-o chorar d'afflicção.
Diziam uns:--Que não fosse
tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o
vêr
calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a
razão porque a
desgraça alheia consola a nossa propria desgraça,
dizem-me?...
A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr
molle e
gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as
creanças crêem.
Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o
deixou? Ha
creaturas em quem a desgraça se escarrancha no
cachaço, e é p'ra sempre!
p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra,
afflicções sem
conto, ainda mais negras que o coração dos
outros. Enganavam-n'o, com a
alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão d'aqui,
empurrão
d'acolá, aos tombos por esse mundo.
Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!...
Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem
nas
mãosinhas uma força!
Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fôra feliz outr'ora.
Era
d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia
d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas.
Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso
d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli
era a felicidade. Dão-nos as arvores toda a sua sombra:
nunca nos
enganam.
Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o
Gebo em
casa, com o coração torcido, para que ellas
fossem felizes mais algumas
horas--ultimas horas tiradas á desgraça.
Até que um dia succumbiu:
--Eu não te queria dizer... Mas ó mulher!
ó mulher!...
--Que é? que foi?
--Estamos perdidos, estamos perdidos...
--Perdidos?!
--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me
vale, ninguem se importa.
Tenho pedido, tenho andado... e já não posso!
Estamos perdidos,
mulher!...
--Estamos perdidos?
--Sim...
--Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura
nenhuma. Riem-se de ti.
Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que
queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa
das tuas
tolices, das tuas desgraças?...
--Não, mulher, não, bem sei...
--Anda!
E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma
noite a mulher
viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto--e de cabellos
brancos
estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepusculo.
Tombado,
como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando
baixinho:
--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se
importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha
filha!
Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos
os lados
havia vozes a clamar, a escarnecel-o:--ó Gebo! ó
Gebo!--Nunca mais houve
paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os
ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh
essas
horas ferreas em que olhára em torno perdido e só
vira seccura e risos!
essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflicção
para o resto dos seus
dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da
mulher,
amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos
desenganos e pela
indifferença dos outros.
--E agora? agora? perguntava-lhe ella.
E elle cahido:
--Agora não sei... Agora morremos todos á fome.
Batera em vão a todas as portas, anniquilado, sem
idéas e sem forças. Só
sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a
desgraça
seccára, lhe atirava improperios, gritos:
--Mas levanta-te! procura! salva-nos!
Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos,
pedinchão, desnorteado,
atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de
subito a esbracejar com gritos e soluços.
Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos
estacados, aos empurrões na vida e com um ar
d'afflicção que faz riso e
piedade.
--Ó Gebo!
--Anh?
--Conta!
E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as
lagrimas:
--Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido!
Quanto mais
faço peor, inda é peor... E já
não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe
pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as
afflicções,
para arranjar ao menos o triste pedaço de pão
para a bocca... O peor é
d'ellas. O meu coração estala, tanto tenho
soffrido. Trago a noite cá
dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho
pena de ter
sido honrado...
E fica com a bocca aberta, chorão, de cabellos brancos
estacados.
III
AS MULHERES
Ao vir a noite
põem-se as prostitutas a cantar; entre as
pedras
resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar.
São pobres,
tristes, sêres de descalabro e piedade, lama que o homem
géra de
proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos,
flocos de tristeza, que são como a alma, a
afflicção da noite, a
soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a
vossa hora! De
blócos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades
esparsas,
neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor.
E
d'entre as meias portas surgem physionomias como só o
remorso as cria:
dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as
das mortas.
É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos,
do Gebo
contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem
á procura
de pão.
No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes
somem-se as
boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva
falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:
--Ó tu!...
--Que é?
--Lembrou-me agora uma coisa.
--O quê?
--N'esta vida sabeis o que ha de peor? É nem a gente poder
estar triste.
--Ahi começas tu...
Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão
sente-se pairar
a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz
começa:
--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra
que se lhe importa?
--E então?
--Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente
não poder ao menos
lembrar-se...
--De quê?
--Do que lá vae...
--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.
--Tomára eu ser como morta--affirma outra voz.
--E tu?
--Eu? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do
escuro.--Tomára
eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como
quando a vi estirada
no caixão, por
vê de mim...
--Quem?
--Á minha mãe.
--Ah!...
--Pois é...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente
não se deve
lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!
E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma
tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as
mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as
ouçam. Ha
uma que ri de tudo. É magra, pallida e gasta. Traz um pacho
negro n'um
olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as
suas desgraças.
--Eu sou a Mouca--começa ella ás risadas.--A
minha mãe deitou-me fóra
era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á
roda p'ra
ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na
rua e a minha
cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os
ladrões.
Vidas! vidas!...
--Tu não te calarás!
--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta.
Até foi bom,
agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês
não querem saber?
Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a
vida... Aos
treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que
parecia um
S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter
ouvido falar. A gente
só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou
feita de terra, da terra
que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha
desgraças
peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não
ter uma codea p'ra a
bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a
encarado... Faz mal quem
se
abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e
inda é peor.
Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o
mesmo,
as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor
é quando se começa a
gostar d'um homem...
Vocês sabem o que é o amor? O amor é
cada qual ser como um cão. É a
gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que
é o amor.
Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates
é porque
gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor,
é a gente ser menos que um
cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de
soffrer.
--Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.
--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse?
Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por
dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um
braço, mas a gente é
como os cães, que só gostam d'um dono que lhes
dê pontapés. O peor foi
que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o
mesmo... Vidas!
vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou
p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a
querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle
disse-me:--Fóra!--E eu
fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para
atormentar uma dor que se me pozera no coração.
Mas elle vem! elle
torna!... Qual!...
--Como se chamava?
--Que te importa? Não é bom allumiar os mortos.
Deixae estar quem está
quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!...
Vêr morto um corpo que
se teve
nos braços é como vêr no
caixão um filho. Por mais que a gente
grite não lhe dá vida! Trazia sempre no
coração a mesma dôr... Vae uma
vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.
--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E
ri-me.--Já
sei que me não podes vêr, acabou-se!
não me importo. O que te peço é que
me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir.
Depois
veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moça,
quanto me
daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os
pés ponho eu
a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de
mim.--Anda
escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu
ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no.
Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma
dor do
coração. Levaram-me em braços. Na
cadeia chamaram-me a perguntas e eu só
me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto
a meu
lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm,
cada qual
cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a
Mouca--terminou ás risadas.
Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente
do
Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao
pé da dor. As
paredes são negras e humidas: mãos ao
roçarem-nas deram-lhes afflicção,
gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da
mesma pedra de que é feita a vida.
Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as
mulheres expõem-se como
farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar
d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas
que gargalham. Duas á
porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida
em
magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho.
É
dura, espremida, de feições crueis e coleras
subitas. Ás vezes
prega-lhes horas e horas:
--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte...
Não no queiram,
ouviram?
--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente
sósinha no
mundo,--diz uma derreada e tisica.
--E ter o quê? Escarneo, só se
fõr...--accrescenta outra.
--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me
affogava.
--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraça.
É só fartar.
Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas
de desgraças.
Antes morrer no rio!
--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa?
Se o meu me
deixasse antes queria acabar... Pela minha
salvação que ia direitinha ao
rio.
--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que
arroladas.
--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer
terra,--affiança outra.
--A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber
d'uma
desinfeliz?
--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.
--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?
--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...
--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão
habituada a que me dêm dinheiro,
que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol...
Quando
acordo e as encontro, parece que me pagaram.
As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:
--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu
á Maria? Affogou-se e o amante
ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E
todas morrem se se deixam
ter coração.
--Ás vezes mais vale morrer.
--Morrer!...--exclama a tisica.
--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi
sósinha no mundo. Elle
tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de
agua-ardente com
lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que
se
sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava
com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a
mãe que eu
matei á força de lagrimas, por me vêr
na triste vida. Nem podia gritar.
Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...
A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de
manhã ao frio. Os
homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o
que cada um traz dentro do coração. Scismei,
passei a noite ora a
scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este
lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda
tenho
as marcas. Estas só na
cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me
deixes...--Vae elle e
disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso
vêr.--Vejam
vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente
cá vem p'ra isto, p'ra
nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor
morrer... E antes
tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...
--O Hospital está á espera, raparigas--diz a
patroa d'um canto.
--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...
--E a mim que me importa?
--Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os
outros!...
--Depois da morte a gente não sente.
--Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a
estudar.
--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser
retalhadinho!
--Lá está o Hospital á espera,
raparigas!...
--Tu não te calarás!
Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:
--Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso
é muita experiencia da
vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não
ha nada peor do que
envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão,
dão-vos
escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio,
ouviram?
--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.
--E tu p'ra que vieste?
--Foi o meu fado.
E a velha continua:
--Haveis de querer comer e tereis...
--O quê? diz uma anciosa.
--Pedras.
--Acabou-se! diz outra.
E fica scismatica.
--Mais nos valia morrer.
--Mais valia.
--Andae, andae! Lá está o Hospital á
espera. Lá tendes todas uma enxerga
e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente.
Aquelle nunca se farta.
--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.
--Pois tem,--affiança a companheira.
--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.
--Envelhecei pobres e vereis! vós
vereis!...--ameaça a patroa pondo-se
de pé.
--O quê senhora?
--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no
coração sem se poder
arrancar.
--Então para que nasce a gente? Só para
soffrer?--pergunta Sofia.
--Só. A este mundo vem-se para soffrer.
--Ah!...
--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O
resto tudo é fingido...
Mas uma, triste e magra, a
tisica:
--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem,
um pobre como a gente...
--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.
--Ao pé de quem se não sinta desprezada.
--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode
sahir--affiança
outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que
nada, é como a
terra...
Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em
frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada
vê-se
o
banco do hospital. Nada mais poído do que essas
miseras
taboas de pinho
seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem,
estremecem. Ha coisas que á força de serem
tocadas por mãos humanas,
ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos
que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se
sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de
naufragos (todos os que
entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca
cheia
de gritos) começaram uma outra existencia.
Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres.
É ainda mais
bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão,
ao sol, á
tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente
erguida para a dôr. Taboas
que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de
azul, vieram
servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas
d'afflicção e
suor de desgraçados que se entranhou na madeira.