IV
O GABIRU
No ultimo andar do
predio móra o Gabiru, um solitario
philosopho, esguio
e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais
estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe
para lá do Hospital é para elle um grande mar
ignorado e verde.
A realidade tambem não na entende: solitario e pencudo, da
vida só se
fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda--o sonho.
Tem o olhar
extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços,
deixa correr
as suas idéas á solta como os rios. Assim,
metaphisico e pobre, de raras
palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.
Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na
mansarda
e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e
nunca
viu
ao pé os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em
idéas profundas
e nunca encontrou a realidade.
É assim feliz e triste. Posto á janella do
cubiculo sente correr o
doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as
idéas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo
o dia ri
com os ladrões e os soldados.
Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porém existe de
immaterial--emoção
violeta e oiro--que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos
soluços. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:
«Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre
branco e sem
murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu
quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a
escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de
braços
erguidos, o caliginoso mar...
O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das
coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto,
d'um
raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu
quarto. Nunca me
pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que
significação tem
isto? É um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes
verdes e
ethereos, constellações infinitas, nevoa que do
mar nasce e sobre o mar
vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...
E não adquiro o habito. Todas as manhãs
é como se pela vez primeira me
achasse deante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus
rios, florestas,
o mar a bramir e arvores que são
sêres!... Por isso,
sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz
d'Adamastor a prégar á terra e ás
coisas dilaceradas, eu me ponho,
escondido e só, a discutir o enigma...
Devo, porém, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha
até quem me
supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos
vivos e
despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e
transido. A esta hora
da noite em que o universo parece deshabitado e em que até o
rumor da
penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me:
alguma
coisa, que não sou eu proprio, se põe
então a murmurar baixinho. E
eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a
sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo igneo...
Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim;
de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaços vivos de
sonho. Oh eu
creio que cada creatura é um composto d'almas de montes, de
pedras,
d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa
ligação entre o homem
e os mundos. Estou preso ás estrellas e aos cardos humildes.
Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:
--Lá vae o Gabiru!
Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes
quero conviver com os desgraçados do que com os outros.
D'elles tiro
emoção para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta
trapeira alta,
construida nos telhados e donde se vêem sêres
admiraveis:
labaredas
verdes que se agitam--e são arvores; nuvens pousadas sobre a
terra com
oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido--e
são montes; e rôlos
que correm vivos e fluidos--e são rios. Muito tempo levei a
decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque
o Hospital
enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nóras,
torrentes de
detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol, é
desconhecida a todos os
que soffrem lá em baixo, entre o granito resequido.
Só outro pobre, o
Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a
Mãe.
Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas
estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio.
Ouço as
palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que não
comprehendo o
sentido. Os sons são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras
verdes. O ar
é fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os
grandes montes
pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo até
ao vir da
noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido é o
murmurio dos
fontes, como se não quizessem perturbar o espantoso dialogo.
É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo
as
palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias
de emoção e
de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me
envolve e toca, e que fala! que vae falar!...
Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe
prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas sons,
que
misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo
giganteo.
E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por
ventura?.... São syllabas, são vozes da Terra que
entra no dialogo. E
mundos, estrellas, são palavras d'Aquelle que no infinito
préga. É
sempre a mesma força, a unica força que cria a
belleza e o sonho, a
força donde brota a Vida.
Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma
coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedaço de
sonho, que,
apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas
fique um
farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para
amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito
existe sempre viva uma porção de belleza. Da cova
nascem coisas
materiaes, fórmas, arvores, nuvens--da dor jorra a belleza
absoluta.
E com que fim? dir-me-hão.
Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar
um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro,
petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus
esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de
extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo
atravessa.
De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O
soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre
debruçadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela
rosacea gothica
ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de
poalha:
estremecem, levantam vôo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio,
como o
luar, dá vida ao sonho.
Para se crear é preciso soffrer-se. Hoje e sempre
só a dor é que deu
vida ás coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte
faz-se uma
obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons
perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir,
fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e
seccas lettras do abecedario, um desgraçado com genio,
mettido n'uma
agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma
construcção mais solida e
mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao
coração das
montanhas.
O que é então a dor, milagre extraordinario, que
consegue dar vida ás
fragas? o que é esse assombroso fluido, que se communica,
alma arrancada
da propria alma e que se póde repartir como o
pão? Nunca houve sob o sol
creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento
não consolasse
ou salvasse. Até as mais humildes, tal como arvores que
ainda depois de
mirradas, vão aquecer e allumiar os pobres.
A dôr dá a vida e não é a
propria vida: cria, redime, obra prodigios e
nada ha que se communique, que convença, que torne os homens
irmãos,
como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos
n'um só
grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no
infinito com
essa enxurrada de lagrimas? Deus?
Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de
creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.
E d'esse mar espesinhado nasciam clarões, as nebulosas
d'onde surgem
mundos. Esse eterno rio de gritos,
a correr desde que o homem existe,
vae desaguar no infinito.
É que a dôr é a unica força
que verdadeiramente cria e destroe: é a
Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlantico de
fogo, é o espirito do
universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz
nascer
montanhas.
As arvores são emoções da terra.
Sonhae! soffrei!
Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido,
uma gotta
cahida d'um oceano infinito de belleza.
O universo é o sonho dolorido de Deus.
Nada se perde. A alma, as idéas e as
emoções, fazem parte da força que
faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.
Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em
fogo.
O mundo é mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um
tumulo d'onde
renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva
onde o
Desconhecido remexe fórmas: o mar, as creaturas, as pedras,
as
tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu
tremo de pavor.
Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito,
ladrões, philosophos, coveiros, mulheres
perdidas,
são esmagadas para
que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as
macieiras anãs. Sob a nossa vista indifferente a cada passo
se cumpre um
milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...
Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o
que as coisas dirão!... Estão transidas--ha que
dias chove!...--o vento
despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas
lagrimas. Por momentos
quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a
escutar ou se pozessem a
falar baixinho entre si...
Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro
A
Arvore. É do lodo d'estas coisas humildes, que eu
construo
a minha
estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus
pensamentos
como n'um largo horisonte, não reparei que pela porta aberta
alguem
entrára. De fórma que tive um sobresalto, ao
ouvir a meu lado n'uma voz
pausada:
--Maquinações philosophicas, meu preclaro
amigo...
--Hein?
Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a
menos e não sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e
mais sordido.
--Maquinações philosophicas meu preclaro amigo. A
realidade é triste e
amarga. Isto que d'aqui vê e não comprehende,
arvores, montes e aguas, é
no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem
uma raiz e
despedaça outra raiz, um braço que se crie
empurra logo outro braço.
Cada monte gera tanto odio como o coração do
homem.
--Por ventura o amigo já viu arvores ao pé? Eu
só vi a do saguão.
--Sim, conheço-as não só dos bons
auctores, como de ter dormido á sua
sombra movediça e fresca... São differentes:
são vivas e enormes...
--E o mar?
--O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do poeira verde,
é tragico e
feroz. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e
cheio de coleras... Só
eu n'este momento lhe posso dar informações
cathegoricas, reaes,
absolutas, só eu, Pitta da Conceição,
é que possuo no universo esse
segredo temeroso.
--E a Mãe, a natureza?
--Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; fórmas
revolvidas e
trituradas, boccas que não pódem gritar. Veja...
Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios
esquecidos de sol
emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no
emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros,
gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um
ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda
d'um trago.
As nóras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da
noite que
descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.
--Maquinações philosophicas, meu preclaro
amigo...»
V
HISTORIA DO GEBO
Por fim, na entrada
d'esse frio e rigoroso inverno, já tinha
vendido
tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro
e gordo,
dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de
cabellos brancos
estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.
--Ó Gebo!
--Anh?
A mulher, que fôra sempre bôa, azedára
com a pobreza. Nervosa e secca
passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou
prégava dias
inteiros: monologos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todos
lavados em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os
desgraçados, nem o tempo se apréssa; vae moendo
na sua mó,
consumindo-as, as
tristezas, as afflicções e o
pão negro. O desespero
d'aquella creatura cahia em improperios sobre a cabeça do
Gebo
espantado, a suar, e a quem nem a propria desgraça conseguia
impedernir
o coração.
Todos os dias eram da mesma fórma eguaes, sombrios e
tristes. Isto de
chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que
chove e se não sahe do
inverno.
--Déste, emprestáste a toda a gente. E agora?
agora?--dizia-lhe a
mulher--Riem-se de ti inda por cima, e ninguem te ajuda. Morremos
á
fome.
--É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciencia...
--O peor é de nós, de mim e da pequena.
--Pois é o que me afflige, que por mim quem me
déra morrer!
--Não fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.
--Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu não me
dirás o que hei-de fazer?
--Roubal-o! roubal-o!...
E eram palavras negras, afflicções sem conto.
Ás vezes esqueciam-se e
ainda palravam em torno d'uma esperança, a qual, agora
nascida, logo a
desgraça calcava. A mais humilde poeira d'illusão
bastava, para que
todos tres, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, promptos
a
edificar os mais altos castellos e esquecidos de tudo. Só a
filha,
Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso
tão triste que lembrava certas horas em que ha sol e chuva
misturados. E
como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver
rapar miserias, e por ser o unico sêr no globo, que lhe
não dizia más
palavras.
Lá ia indo pela vida fóra, cossado e com um ar de
afflicção que fazia
rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais
lhe sahiam.
A mulher passava os seus dias n'uma lucta desesperada com a
desgraça,
arrancando-lhe os ultimos trapos, disputando-os um a um até
vel-os
desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas
escadas e a sua respiração--anh! anh!--suffocada.
--Ahi vem elle...--murmurava a mulher.
O Gebo entrava e ella logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o
dia ruminára:
--Até que vieste, homem! E então? Conta.
Então ha alguma esperança?
--Não ha nada, mulher.
E sentava-se arrazado.
--Tambem ninguem faz caso de ti. Que és tu? Sabes o que tu
és?
--Eu não, o quê?
--Um ente inutil. Não ha ninguem que se não ria
de ti, das tuas
desgraças, das tolices que tens feito... Que é do
dinheiro que tanto nos
custou a poupar?
--Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais
n'isso... O que lá vae,
lá vae.
--Pois é o que tu queres... Mas hei de falar, has-de-me
ouvir. Déste
cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas
a
pequena. Reparasses, era a tua obrigação.
--Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma
sécca. Não me
basta a minha afflicção!... De que serve isso
agora?
--De que serve? Serve de muito!
Á noite, á luz do petroleo, o Gebo fazia
escriptas com um cobertor pelos
hombros e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na
sombra,
compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a
luz
do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos
tristes, e, do outro lado da meza, só se viam illuminadas as
mãos de
Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descanço.
--Já tive uma lettra tão linda e agora... Os
desgostos cansam a gente.
--É de ti! é de ti! Outros têem penas,
desgostos, cahem e tornam a
levantar-se...--dizia-lhe a mulher.
--Têem sorte, é o que é. Para tudo
é preciso sorte.--E curvado sobre os
livros contando, murmurava mais baixo:--E vão sete--...
--Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens
energia nenhuma. Procura!
Deixas-te ficar espapaçado p'ra ahi... Tu o que queres
é comer e dormir.
--Ó mulher!...--E erguia o carão afflicto, onde
batia a claridade de
chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.--Ó mulher, a gente
tambem perde as
forças... Sempre a desgraça! sempre a
desgraça!...
--Tudo nos corre torto!
--Mas...
--Tudo! Deixa-me!...
E desatava a chorar. Então o Gebo, afflicto, a
mão curta e gorda
ronronando no papel, mentia para lhe dar animo.
--Qualquer dia entro ahi n'um negocio, tu verás...
Não te afflijas.--E
vão cinco...--Tambem ha-de chegar
o nosso S. Miguel. A
desgraça ha-de-se
cansar de nos perseguir.
E o pão que trazia para casa era quasi uma esmola. Mas tanto
mentia, que
chegava elle proprio a illudir-se.
A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no chale
rapado.
--Não, que é preciso sahirmos d'este atoleiro.
--Agora vae, agora vae, tu verás. Ando ahi com um negocio...
Sabes tu
que mais?... Deixa-me trabalhar.
Ia a mãe deitar-se e Sofia, até ahi silenciosa,
dizia erguendo-se:
--Pae não se afflija.
--Eu não, filha, eu não. Aquillo é
genio, coitada. Ella tem razão, tem
soffrido muito. Vae tu tambem p'ra cama. Dá cá um
beijo... Assim. Eu cá
fico com a escripta.
--Muito boa noite.
Sósinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois,
horas e
horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar...--E
vão cinco,
e vão sete... noves fóra nada...--até
que a vista se lhe toldava, e a
deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza,
soluçando:
--Não posso! não posso mais! E tinha uma lettra
tão linda!...
Na propria desgraça cahem por vezes resquicios de sol. Assim
houve tempo
em que respiraram. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz
dos olhos,
e a vida d'expedientes tornára-se mais aziaga.
Achavam-no
ridiculo, ninguem o tomava a serio, a esse homem gordo e
chorão, que
vivia com esta pedra a gastal-o--a sorte da filha. Escondido da mulher
empenhára a casinha onde moravam, e passava as noites
trabalhando nos
livros.
Quasi sempre ao deitar falavam da filha.
--É o que nos vale a nossa filhinha.
--Sempre nos dá mais animo.
--É tão boa, tão nossa amiga!...
A velha trabalhava, ruminava projectos desconnexos para enriquecerem; a
roupa andava defendida e cuidada até ás ultimas.
Luziam as coisas e
quasi não comiam para poupar, sobretudo ella que tudo
guardava para o
Gebo e para a filha.
--Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e
tu estás sempre na cepa
torta!
--Deixa estar, mulher! As coisas não vão como tu
pensas.
--Ora não vão! não vão!...
Era ella afinal que o empurrava, áquelle ser gordo e inutil.
Fortalecia-o.
--Por vossa causa é que eu lucto,--dizia elle sempre.
Ás vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e
as duas
mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Ha creaturas que
só
apparecem quando a desgraça entra n'uma casa. Era uma velha,
de chale
preto sem pello, e que vivia de aproveitar os restos da miseria. Trazia
novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que
pessoas suas
conhecidas tambem eram infelizes, tinha pena dos que
soffriam como ella!
--Ó Anninhas ouvi dizer que a Desideria está por
baixo, coitada!...
--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.
E ella n'uma ancia:
--Fome? passa fome? Coitada!
--Mesmo fome, filha.
--Que me dizes?
--É isto que te digo. E tu como vaes com a tua vida?
--Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas
vão-se remediando.
Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os
negociantes fallidos, os professores sem discipulos, os burguezes
desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam
illudir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem,
mas para
tornarem mais visivel a sua aspiração, o sonho
que traziam escondido.
Discutiam imaginarias emprezas, negocios impossiveis.
--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho ahi um logar...
Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:
--Cuido que está cada vez peor.
--Um homem que teve um credito na praça!
--Tem a fome á porta.
--Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um
negocio...
Porque é que elles não trabalham? Porque a
quebra,
as afflicções, a
ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só
sonham em se
tornar ricos. Vivem illudidos e tombam no sepulchro gastos e com a
scisma em maravilhosos lucros. E não têm
porventura razão? Não vão
amanhã quinhoar d'essa larga e mysteriosa empreza--a Morte?
VI
PHILOSOPHIA DO GABIRU[1]
E que tu acreditas na immortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?
Tenho horas em que creio: é uma esperança, um
raio de luz entrando n'um
tumulo vasio pela juncta abalada d'uma pedra. Porque crêr?
porque não
crêr? Theorias, palavras... No intimo, porém, sou
materialista como toda
a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom--dormir para
sempre. Ir ser
arvore, luz, detricto,
correr nas veias da terra, é quasi
consolador--excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um
dia.
Na primavera quasi sempre sou materialista, no inverno idealista e com
a
mesma sinceridade, quasi com ferocidade.
Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem
conhecidos, ser só e livre,
que sonho!...
Ser só por cobardia, para não ter este
aguilhão da vaidade a
espicaçar-me:--Então tu não fazes, e
este, aquelle, o diabo,
fizeram!--Ser só para sonhar e para vêr este
espectaculo unico---a
natureza; para passar os meus dias vendo as
transformações d'uma
d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...
Quando me fecho e estou só, sou tão
differente!... Como o homem é
desconhecido até de si proprio, porque o tempo passa, vem a
morte e elle
não esteve sósinho! Se estou só
vêm falar-me
vozes--eu mesmo--mas com
que palavras unicas! Os sêres de que sou composto, se me
habituo á
solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam!
pregam!...
Tenho a certeza de que fui arvore e é por isso que tanto as
amo.
Ha livros que falam baixinho, ha livros que falam alto. Uns
têem por si
o encanto, outras a força. Ás vezes as palavras
murmuradas impressionam
mais: passado tempo ainda ellas acordam em nós fibras
adormecidas.
Porque é que a agua, até o mais humilde charco,
attrahe e faz sonhar os
homens de imaginação?
Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella é
inalteravel.
O homem prende-se com muitas coisas inuteis: a riqueza, a
ambição,
interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que
não tem
tempo de vêr, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas
creaturas,
existem que nunca olharam para o céo? A natureza, arvores,
montes, rios,
esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indifferentes; as horas de
preguiça e sonho deixam-os indifferentes. Nunca tiveram
tempo para amar
as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno
não no viveram. Por
mim antes quero comer pão e scismar, deixar correr as minhas
idéas como
um regato corre--até onde tem agua. Alguns morrem sem terem
reparado que
existiram.
É por isso que eu corto sempre com tudo que me
não deixa sonhar--e que
quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um
suspiro
d'allivio. É uma amarra de menos.
Habituar-se a gente a viver com idéas simples é
como habituar-se a andar
com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se
viver arredado.
A morte aterra-me pouco. Porquê? Porque só penso
na morte como n'uma
divida distante. Fica para muito longe ainda.
Ha horas, porem, á noite, de subito, em que, sem
ligação, essa idéa
rapidamente me toma e abala até ás mais
reconditas fibras. Suffoco então
aterrado.
Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!...
Quantas vezes
me surprehendo a assassinar eu a desejar a morte--é a mesma
coisa, com
este acrescimo, a cobardia--de pessoas que soffreram por mim! Por a
menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento
é este:
--Se elle morresse...
É claro que protestas logo. Protesta o teu
coração, a tua educação, os
teus habitos e até a tua hypocrisia. Mas se deixares
trabalhar a
imaginação á vontade, sem peias,
é uma hecatombe--por futilidades.
VII
PRIMAVERA
O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Ia
crear! ia crear!... Aquelle chão que só o arado
do sonho lavrára, eil-o
atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida.
Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos
perdidos de scisma...
Acordára emfim para a realidade e elle, que tinha passado a
vida a
revolver um brazido d'idéas, longe da terra e do seu lodo,
amou a Mouca,
raza como o chão. Todos se riam d'ella, magra e pallida, de
pacho n'um
olho, com um ar de mascara que vae gritar
d'afflicção.
O seu ideal prendera-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de
fórma que ao erguel-os, déra de cara com a vida e
perguntára: Que é
isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubiculo vejo, arfando ao
sol,
penetrado de ruidos e de sombras? Arvores acenando-me com os
braços, vozes d'aguas fartando as terras imbebidas? Isto?...
Tudo é luz,
é uma chamma? E como tudo é bello!
Vêr ao pé arvores e montes, a esse esguio
philosopho habituado a
conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe tão
irrealisavel como subir
ás estrellas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida.
Por isso
acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo,
o
extraordinario mar: «Vós que me
quereis?» E no alto da mansarda sorria
para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.
--Porque a amas tu, philosopho?
--Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vel
a. Amo os seus olhos
tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque
qualquer outra me
desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella é parecida commigo,
talvez tenha
pena de mim.
Todos somos constructores. De terra e de emoção
andamos pelo mundo a
amassar estatuas; de realidade e de sonho architectamos as figuras que
se misturam na nossa vida. Ellas existem mais pelo que lhes damos de
nós
mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de
sonho, de lodo
e piedade, construira uma figurinha offendida e triste, andando no
mundo
aos tombos, sem pão e sem abrigo. A elle que
passára a vida inteira a
atear um brazido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escarneo de
ladrões e de
soldados.
A casa das mulheres de dia é funebre, mas de noite,
á luz do petroleo
que esvoaça e deixa tudo n'uma
meia tinta
d'afflicção--candieiros
partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desgraça,
onde palhaçadas
tragicas façam gargalhar e onde os ladrões e as
mulheres enfarinhadas
representem a serio vicios e crimes, com risos e choros á
mistura, para
que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar
gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e
soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos osseas e enormes
sempre frias
e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso tragico.
Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle não ha a
esperar
piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem
outros e toda a
noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.
Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as
feições endurecem, o riso é atroz. O
homem tem vontade de ouvir gritos.
Paga, maltrata. É lodo, não ha que ter piedade. E
as mulheres cantam
sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do
passado, com
medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A historia
é
identica, o eterno humus amassado em lagrimas. Ellas sabem que nasceram
para soffrer e resignam-se: o esgoto é necessario. Tudo na
vida se
alimenta de gritos, como as raizes na terra se sustentam d'agua.
Enganam
nas e não se queixam. É o Fado. Não
têem odio a quem as illudiu; ao
contrario não esquecem esse fio de sonho espesinhado, que
ainda sentem
correr na vida, longiquo e triste, quasi a sumir-se de todo. O Fado as
faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida--lagrimas,
pancadas, pão e
assim as leva a sorte até á cova.
Ouvi: esta
seiva dolorida fará nascer
um dia alguma mysteriosa Arvore.
São irmãs e unidas, sustentam-se na
desgraça. Os amantes moem-nas e
ellas humildam-se, tão triste é não
ter ninguem a quem amar. E as
desgraçadas, aquellas que, de confundidas com a lama, se
não enxergam,
são as que de todo se sacrificam por elles. Miseras
creaturas, a quem se
paga com injurias, quanto mais afundadas na desgraça e mais
pobres,
quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas
para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o
tenham. Tiram
a ultima camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se
se as desilludirem. Sêres de ignominia só amam
idealmente. Assim será o
amor das hervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza
é
pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é a unica
realidade.
A casa é tragica, de tectos negros, sumidouros, corredores
onde toda a
noite agonisa uma luz de petroleo.
Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que
insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia,
é
alta, curva, cansada, e tão cheia de
resignação que parece morta; outra,
Luiza, a quem chamam a Asylada, quasi não fala. Olha
soturna, com os
negros cabellos violentos todos soltos e a physionomia empedrada de
magoa.
Ao fundo divide a casa um corredor com cubiculos. Ás vezes,
altas horas,
tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruido de choro
suffocado.
Fóra vê se o Hospital e a rua negra, onde o
enxurro
humano sem cessar
carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas ás esquinas
creaturas
esperam... Parecem pedaços de noite destacados da propria
noite.
Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram á treva para se
embrulharem um
farrapo do seu manto. Ás vezes da escuridão sae
um perfil, mãos que
querem arrepellar, mas logo tudo se some entre roupagens, que
têm a
rigidez tragica das estatuas. Só a mão, que o
lampião illumina, fica
decepada. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge,
para logo se
anniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se
mexem, petreas: se choram são a Dor. Algumas, de viverem
d'um passado de
fogo, parecem mirradas, outras procuram mingoar, extinguir-se,
não
occupar logar na terra. E entretanto as mulheres vão
cantando na mesma
toada de catastrophe, que a noite traga, como farrapos de sonho
espesinhado...
Todas as noites o Gabiru lá vae sentar-se a um canto a
scismar. Olha a
Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os
soldados e ellas
vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:
--Lá vem o enguiço!
A Mouca ás risadas diz:
--Cá temos o enguiço!...
Mas em vão! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a
penca
cahida, sem vêr nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa
baixinho,
entre as mulheres, os ladrões e os soldados:
«O que eu sonho! Eu que sou tão timido, ponho-me a
falar e a scismar...
E tanto scismo!... Troco tudo.
Como é que tu gostas de mim,
que nem te
sei sorrir?
Ando a inventar uma lingua nova, que seja como a das fontes e a das
arvores, quando desponta março, para te exprimir o que
sinto. Todas as
palavras me parecem mirradas e servidas.
Olha, dize-me: chamas-te Maria, não é?»
E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:
--«Tu não te callarás,
estupor!»
E uma tisica, magra, só com a pelle e o osso, explica:
--Uma mulher da vida... Que estão vocês a dizer
das mulheres da vida? Eu
inda queria vêr... Quando tu não tens
pão quem t'o dá?
E o ladrão responde:
--És tu.
--O pão que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?
--Commigo.
Mas outra do outro lado berra:
--A gente aqui é como os cães. Toca a rir,
raparigas! Se uma mãe
adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada
para
um que entra:--Olha lá, ó coisa, pozeste-me o
corpo negro n'outro dia...
Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?
--Abaixo as patas!
Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto
só ri, com
uma bocca disforme, escancarada na sombra:
--Tu que eras, ó velho?
Mas elle ri-se com a bocca aberta sahindo do escuro--só
bocca--como a
fauce desdentada d'um lobo, e um outro é que responde:
--O velho era lavrador. Olhae-lhe p'ras mãos. Cheira a terra
e a pobre.
O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com
os
soldados:
--«Tenho muito que te dizer--tanto!...--e não sei
o que te hei-de
dizer!...
Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam
para
a terra.
As arvores levam todo o inverno a sonhar inchadas e um dia acordam
desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.
Ora vem ahi março, já rebentaram novas fontes...
Maria é um nome tão
lindo!»
Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio.
Uma traz meias amarellas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com
um chale de seda que a não aquece.
--E tu que eras?
--Eu nada. Basta de conversas. Dás-me um beijo?
--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz
de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, raparigas...
Já
viram alguem rir-se assim?
--Ó minha arrolada!
E deu-lhe um pontapé.
Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:
--N'esse dia tomo uma bebedeira, que ha-de dar que falar.
--Tu?
--Sim.
--A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.
E ninguem se importa com o Gabiru, que tece, vae tecendo a sua teia,
toda de emoção e de nuvens, encolhido a um canto,
absorto, sem vêr nem
ouvir:
--«Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim.
Do meu coração sahe
uma bica que rega as coisas mais seccas. E ouço! o que eu
ouço!... Ao
luar, lá em cima, ouço as montanhas em dialogo e
falarem arvores e
pedras!...»
E a
tisica, voltada para o ladrão,
diz-lhe:
--Que queres mais que te eu dê?
E elle, rindo:
--Ora! dinheiro...
--Nem p'ra pão já o tenho, quanto mais!...
Já o não ganho. Quem me quer,
se todos dizem que estou tisica? Estarei...
--Tu arranjas sempre.
--Aonde? os meus trapos estão no prego, este chale
é emprestado por
misericordia. O lenço que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar
á patroa. E
amanhã entro para o Hospital.
Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi á porta murmura:
--Bem sei onde ir buscal-o.
Magra, desconjunctada, a tossir, a
tisica
exclama:
--Pois vae! vae!... Se outras te dão mais, vae!...
Deixa-me!...
--Pois vou...
E logo ella, arrependida, torna:
--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um
filho
meu...--E para as outras com um amargo sorriso:--Ó
raparigas, quem ha
ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?
Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a
tisica,
estendendo a mão:
--Já a não ganho com o meu corpo.
E beija as cruzes ao dinheiro.
--Toma.
Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:
--Antes de eu morrer, promettes que me vaes vêr ao Hospital?
Todos dizem
que estou tisica. Não é por nada, mas vae-me
custar morrer, sem vêr
ninguem ao pé de mim... Quem hei-de eu vêr? Agora
olha como te portas
sósinho, ouviste? Inda te levam para o chelindró.
Vocês em se pilhando á
solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã
para o Hospital e na
quinta é dia de visita. Não te
esqueças de mim, ouviste? A gente
prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu
faço n'este mundo?....
Tu ha boccado disséste que bem sabias onde ir buscar o
dinheiro. Era á
Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou prompta! Sou um
cangalho, só sirvo de tropeço... Mas olha que fui
sempre tua amiga. Já
agora deixa-me acabar, p'ra lhe não dares esse gosto...
Só te peço uma
coisa. É que me vás vêr antes de eu ir
p'ra a cova. P'ra a terra! Isto
de a gente morrer sem mais nem menos até me parece
exquisito... Que
haverá no outro mundo?... Estou prompta. O medico hontem
disse:--Estás
prompta!--E atiram assim com a gente
p'ra o cemiterio!... Eu ainda
queria que me dissessem o que é que a gente cá
vem fazer...
--Sei lá!
--Chorar. Só se fôr... E levar má vida.
Apertando-lhe as mãos, envergonhada:
--Então vê lá se te esqueces de mim.
--Ágora!...
E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a
bocca
descorada como um reflexo de sol:
--Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os
homens são todos o mesmo, falam
todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e
tudo leva comsigo.
O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:
«Que tempo este em que estamos. Parece feito de
emoção... E tudo vae
sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas
pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te
queria dizer!
tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»
VIII
MEMORIAS DE LUIZA
É assim a historia de uma das mulheres:
«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos
gelados vem de muito
longe, de pequenina.
Nunca tive mãe, nem ninguem. Fecho os olhos e só
vejo o Asylo, os
corredores humidos, o dormitorio, o frio refeitorio abobadado de
granito. Toda aquella pedra parecia sepultar-nos.
Tambem guardo de pequenina esta impressão: a vontade que
tinha de
beijar, sem ter ninguem a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia
eram
hirtos.
Vou vêr se me lembro bem... Primeiro é tudo
confuso: depois vae-se
espancando a nevoa e eu recordo a triste existencia do Asylo.
Noite ainda nos erguiamos para resar. Tocava um sino. Mal sabiamos
andar, tropegas como velhinhas. A algumas era preciso vestil-as. A
Irmã
ralhava se nos demoravamos. Aquelle somno da manhã de que
nos arrancavam
era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para
sempre. Para que vem a gente ao mundo?
De tantas que conheci quasi todas, mais felizes, morreram por
não terem
mãe.
Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já
crescidas. E não sei quê
de amargo, de reflectido, de soffrimento, de experiencia da vida.
Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez
uma
disse alto:
--Ó mamã!...
E foi um escandalo. Onde aprendera ella, que não tinha
mãe a pronunciar
aquella palavra?
Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas
recolhidas,
tristes por não terem filhos.
E no entanto eu curto saudades d'essa negra existencia do Asylo.
Na cerca havia um curral com vaccas, que nos davam um leite aguado.
D'uma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por
piedade
perguntei ao hortelão o que ella tinha.
--Soidades por lhe levarem o filho.
E ha mães que os deitam fóra!
Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um
filho para o
Asylo!
Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram
desageitadas,
de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram
feias.
Faltava-lhes não sei que graça, que só
existe nas que têem mãe, por mais
feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...
Ás vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem secco,
rispido, de
cara rapada, que nos vinha lembrar que viviamos por esmola:
--É preciso que se recordem d'isto: a sua vida devem-n'a aos
bemfeitores.
Elle proprio era um bemfeitor. O seu retrato lá estava
collocado ao pé
dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o ultimo da sala enorme,
gelada, onde os passos echoavam, toda cheia de retratos em torno. Os
bemfeitores!...--Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solemnes,
seccos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.
Todas as noites as Irmãs nos faziam resar por elles, a quem
deviamos o
pão e a vida.
Era prohibido falar, a não ser ás horas de
recreio, e isto explica
talvez os vincos que todas tinhamos, ainda as mais pequeninas, aos
cantos da bocca.
O melhor sitio do Asylo era a enfermaria por isto:
era mais quentinho:
dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as arvores da cerca: e por a
Irmã
enfermeira ser a unica que tinha coração e que
gostava de nos beijar.
Todas eramos amigas d'ella.
É curioso. Lembro-me das grandes arvores que de
lá se avistavam, mas só
as recordo descarnadas e despidas, n'um céu pallido. Sempre
no inverno.
Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos.
Nunca mais
consegui aquecel os.
O pão do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro
pão, por mais
desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e
requentado. E em
todo o refeitorio havia um cheiro identico. Tudo, até o
Christo, até o
caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam
parecia dizer-nos: «Olhae
que viveis por caridade! Habituae-vos á
desgraça!»
Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as creanças
que não têem
mãe. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.
No dormitorio tudo era regular, branco e monotono, e, apesar de branco,
funebre. O sol, que entrava pelas janellinhas, abertas n'uma muralha de
prisão, era pallido, e, mesmo de verão, parecia
um sol d'inverno; as
camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas ás paredes
caiadas e
nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um
Christo de louça azul
manchava aquella brancura.
O recreio não era na cerca do convento. Brincavamos sem
barulho no
claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar arvores e sombras. O
claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectangulo
do céo, e a sombra geometrica estendia-se cá em
baixo. De um lado era
sempre frio e humido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um
golphinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio
d'agua frigida. De tudo aquillo sahia uma paz transida de sepulchro.
Só
andorinhas cortavam em cima o céo; mas d'uma vez que em
março vieram,
afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas
deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de
pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro.
Passaram de mão em mão com alvoroço.
Algumas das asyladas scismavam,
olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elles. Uma disse:
--É um berço...
Destruil-os porquê? Para que não soubessemos que
as aves têm mãe e
cuidam dos filhos? Para que não tivessemos saudades das
nossas, que não
conheceramos? para que ignorassemos?... Mas que candura a das
Irmãs se
era por isto! Nós presentiamos, adivinhavamos tudo aquillo e
quando uma
das mais pequeninas explicou ás que faziam roda:
--É o berço dos passarinhos...
--quantas de nós já tinham scismado n'um
berço assim agasalhado e
fôfo!...
D'aquella vida identica, secca, dura, vinha um
dia, quando eramos
grandes, arrancar-nos o provedor.
Era um dia solemne. Iamos partir. Quem precisasse d'uma creada que
comesse pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns
trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:
--Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem devem-n'o aos
bemfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas
orações do bem que lhe
fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-n'as por
esmola...
E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partiamos para a
Vida.
Oh! minha mãesinha!»
IX
PHILOSOPHIA DO GABIRU
Ter os mesmos
direitos que as arvores e os bichos á
immortalidade,
humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão
do que é
pequeno e desgraçado.