Só as creaturas que soffrem é que são dignas de viver, e na verdade são as unicas que vivem.



No tempo infinito e no espaço limitado as moleculas agregam-se, desagregam-se... Só chimica, só a chimica existe... As moleculas, que têem em si a força vital, são hoje arvore, amanhã animal, pedra, homem. Conforme o quê? o que é que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso determinar, conforme as minhas moleculas, amanhã desagregadas, se unirem a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei assim pela eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da minha propria vida: quero que fale dentro em mim o universo que eu já fui--a pedra que eu já fui--a arvore que eu já fui--o bicho humilde que eu já fui...

A tua opinião?... De que me serve? E é ella tua, sentel-a bem tua, ou é aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu sêr, deixal-o prégar com a sua voz rouca--com a sua propria voz e não com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso, deixae-me ser o Riso.

O momento é unico, não vale perdel-o. Porque acaso, porque furia insana, depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de aguilhão, de desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o atlantico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciencia do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas leis, as tuas theorias, os teus sonhos...

O momento é unico: vae perder-se ámanhã. Seculos de canseira para terem n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no fundo da obscuridade, para não virem afinal á luz, seculos de amargura, de esforços, de tentativas abortadas--para não chegares afinal a viver. É como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino. Cumpre tu o teu. Tudo é harmonico, porque vive da verdadeira vida: as plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a natureza inteira, não têem remorsos nem duvidas. Nem tu as terás, se viveres da tua verdadeira vida e não de outra.

A tua educação deve consistir n'isto: em fazer falar o universo que trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos, tornarás a ter consciencia? E que forças perdidas, que luctas não vão ser necessarias?... Quantos gritos!...



Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca voltarás a sentir senão n'uma infinidade de seculos. Impregna-te de vida, do teu largo quinhão de vida, para que ás portas do Nada possas dizer:--Vivi!...



Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para com os outros.



Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas suas entranhas; a nuvem tua irmã; a arvore onde correste em seiva--e o homem porque és o homem.



Se te não deixam ser o que deves ser--resiste. Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo, triumpharás porque cumpriste o teu destino. Tu és feito de humus, tu és feito de terra. Se ella te deu bocca para que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia tudo terá voz. Na verdade não haverá fonte, arvore, bicho por mais esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua confissão.



A educação moderna, ao contrario, tende para isto: para que todos falem no universo da mesma fórma.



Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual fôr, é ser desgraçado.



Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada? Sabeil-o?...



Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus creou para um fim... Assim nascerão creaturas que incarnarão o Mal, dirás... Pois que o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.



Se a natureza cria monstros, é que elles são necessarios, como certas pustulas que purificam.



Nunca os tigres afinal venceram.



E de que te serve andares mascarado?...



O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes, pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme n'elle predominam determinadas moleculas, assim odeia ou ama.

Quando é que a chimica será tão grande, que possa fazer esta analyse?...



Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e és eterno.



O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscencia.



Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada que tu és, a terra tua mãe. Essencia da terra, trabalho insano do seu ventre durante seculos e seculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoção, toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de immaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena, sê máu se ella o quer.



Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz na terra.



No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas--que são rios de odio, outros que são rios d'amor, outros que são a amargura, o riso, o sonho...



X

HISTORIA DO GEBO


Elle ahi vae, aos tropeções, amachucado e ridiculo.

Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão espantado só nos fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo, afflicto, sem mão que o ampare--e de cabellos brancos estacados. Gritam-lhe:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

Não ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os repelle do seu seio.


Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era vêr a filha horas e horas a scismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ella é que se batia ainda com o destino. E quasi não tinha pão para lhe dar!

A mulher clamava:

--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida é preciso ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!

--Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.

E afinal cahira para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo, batêra a todas as portas e assim se affizera á humilhação e á esmola; a ser mal recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos, que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras na mão:

--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!

As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de pôço, em que ao deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados á desgraça, em que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento, eram o unico goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que quasi não dormia e levava a noite inteira a scismar e a chorar, elle, logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a mulher nem descançar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...

--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras, coisas desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:

--Dorme! Fica-te para ahi!...

Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os dias precisava de juntar, começára a ser desorientada e feroz. Viam-n'o correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua afflicção em palavras rôtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas á porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado pela filha, á espera que um conhecido passasse. Ás vezes consummiam-se os dias e elle sem dinheiro para pão--porque os corações são de pedra. Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguem que lhe valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios, pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes se lembrava da morte.

Oppresso o coração, voltava, lá ia á espreita, n'um desespero sem fim. Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um transe, perguntava ao avistal-o:

--E então? então?

--Cá está, mulher! cá está!

Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir áquella fadiga de lagrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escarneo!...

Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem na propria casa o Gebo descansava. Eram infindaveis os ralhos e os gritos. Só Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe dava animo. Se não fosse ella, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e seccos como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e não lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão, com uma unica idéa ao acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.

Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam pelas mesmas afflicções. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro frio, que só a miseria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela realidade, e a Desgraça alli presente parecia rir-se. Gastavam as ultimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez mais gordo e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos, aquelle riso fazia mais afflicção do que as proprias lagrimas. Muitas noites não se accendia o lume e por fim todos tres dormiam n'uma unica enxerga.

A ultima coisa vendida e que lhes custára as derradeiras lagrimas d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes para filhos até elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para sempre as arvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio de agua da bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fôra levado, como uma parte do seu sêr, que lhes lembrava os dias de felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.

A mulher já não ralhava: tombára, com o olhar desorientado e os dias gastos em monologos desconnexos. E elle ficára, amolgado pelos encontrões, gordo e ridiculo.

--Ó Gebo!

--Anh? anh?...



XI

LUIZA E O MORTO


O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andára e n'essa noite, com um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fôra dar ao caes. O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua á noite assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cóva. O rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas presagas.

Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades poídas do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella respiração estrangulada, apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu jantar--e teve um ah! de allivio. Alli ninguem o procuraria, era como se estivesse sepultado no fundo do rio. Havia quasi dois dias que não comia e ia emfim dar a primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:

--Quem está ahi?

Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.

--Ouh!

As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava encharcada e frios os pés.

--Estará morta.

E socegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

--Outra desgraçada...--scismou--Quem está ahi?

E, sahindo da treva, uma voz de creança, começou:

--Sou eu.

--Tu quem és?

--Não sou ninguem.

--Que estás aqui a fazer?

--Não estou a fazer nada.

--Tu que queres, então?

--Vim deitar-me ao rio.

--Ah!...

--Mas tive medo. A agua do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prégar. As nuvens baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da noite. Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a outra rouca, eram como o dialogo de duas forças ignotas, que o acaso rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

--Como te chamas?

--Chamo-me Luiza.

--Quem te fez mal?

--Ninguem. Estou gravida.

--Ah!...

--Estou gravida. Eu não sabia nada. Estou gravida, acabou-se. Porque é que não ensinam á gente que todos nos querem fazer mal? Uma pesssoa devia aprender.

--O quê?

--A ser desgraçada. Ha dois dias que não como. Tenho andado por ahi. Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.

--Vae p'ra a tua casa.

--Eu sou do Asylo, não tenho ninguem, nem mãe, nem nada.

--Enganaram-te?

--A mim não, ninguem me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asylo não sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me fóra. Ninguem me quer assim. Quando a gente está gravida que ha-de fazer? A gente não tem culpa...

--Não fizesses o filho.

--Eu era uma innocente.

--Ah!...

--Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

--E então?

--Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra uma pobre creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor, foi servir. Logo que o patrão viu aquella rapariguinha ao abandono na terra, poz-se a falar-lhe baixo, ás escondidas.

--Era como se me pizassem o coração...

Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar sósinha. Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo á terra com este destino amargo--ser explorada. Elle deixou-a logo e ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais descórada e triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na rua. Remexeu-lhe a trouxa e gritou:

--O que tu merecias era ir para a policia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.

Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio prégava. Tu, rio, que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste pão, encharcaste terras, humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado, foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro, e a tua voz tornou-se presaga. Levas lagrimas salgadas ao seu destino, tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar. Que dizes, rio? que prégas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros sonhos e raizes na mesma condemnação eterna e n'um trabalho insano? É isto? É para moeres pão negro, passares por troncos conhecidos sempre rio, mar profundo ou nuvem?...

Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no negrume, começou:

--Tu que imaginas que é isto?

--Isto quê, senhor?

--A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

--Todos?

--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer. Não grites que é peor. Ninguem te acode.

--Eu não grito.

--A tua mãe botou te fóra, para não te crear, o teu patrão enganou-te. Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixal-o enganar-te? Que has-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

--Quem? perguntou anciosa.

--A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha, aos pontapés e ás voltas com a desgraça. A desgraça é que póde tudo, ninguem no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

--Ó senhor! ó senhor! Mas então para que me crearam no Asylo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguem. Que hei-de fazer? Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias que não como.

--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

--Para me afogar... Mas tenho um medo á agua!... Quando metti os pés no rio tão negro, fugi... Ó minha mãesinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda por crear, enregelado e transido.

--Tu que tens?

--Nada. Fome.

--Toma lá o meu pão.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.



XII

PHILOSOPHIA DO GABIRU


Em todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo o que se tem sonhado.



Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande, porque abala e acorda vozes adormecidas.



Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é bello--até o crime.



Não importa saber donde nasceu a idêa da immortalidade, o que importa é saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sêr. Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicações mesquinhas, o que não podem é arrancal-a. É como certas arvores que, deitadas abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?



Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia--outra razão para ser desgraçado.



E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás. Interroga-te.



Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se os criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?



A educação que nos dão o melhor que ha a fazer é esquecel-a. E esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa á parte. A que adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdadeira.



O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os seus erros--e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.



Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de ninguem senão nos primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou disfarçam-se. Depois começamos a ser duros.

Creio que só ha amigos até aos vinte annos, quando ainda se não pensa na vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da vida a serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.



Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de milhares de consciencias...

A acção do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu eu, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A essencia da vida?



A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.



Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para que se nasceu.



Que idéa tão falsa a de se suppor que a vida tem um fim--a felicidade ou a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto do que o que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.



O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr a minha existencia...

Um dia a fonte secca-se.



A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer não. O homem não é senão a essencia do universo e nasce para que tudo tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.



Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê, não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem habitos--é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma fórma harmonica e impassivel--eis o horror.



Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma outra vida senão a sua vida.



Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres continuar a amar os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar, vencer--e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolda: é um ferro desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos, vaidade, mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.

De fórma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim. Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que é preciso arredar, conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço. Para triumphares tens de os lisongear, tens de ser elles e não tu...

Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos mais intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo o mundo...

Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual á do homem que precisas conquistar.



Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos, odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala até, n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.

Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.

Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmurio apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.


XIII

ESSA RAPARIGUINHA...


Quédo-me a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a prégar dentro em mim. Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas, alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais conheço a fórma porque as ideias se ligam, até as mais contradictorias, e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estalido atraz de mim alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados, podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

--Abandonada! abandonada!...

E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o nome, porque nem sequer lh'o perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu, levando-a para a casa de passe, sentia, não orgulho nem prazer, mas oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos annos--que a certas horas de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva, todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um sorriso tão triste que me piza o coração.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de vozes, que vão prégar, mas que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá fóra e na escada soam os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que esmorece...

Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade não conheço outro homem tão nullo, banal como a propria banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de odios. Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta: enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas philosophias o ensinam) é de quem possue a força e aptidão... Mas hoje estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho casarão. Parece que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar dentro em mim.

É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a scismar na vida d'este homem banal como a propria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faça a narração d'uma existencia, que é como um trapo que se deita fóra todo molhado de lagrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É por isso que elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.

Quem foi a tua mãe, ó S. José?...


Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.

A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino como elle. Foi sempre assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar. Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa ás vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de pae.

--A gente é pobre--diz elle.

--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes passa fome.

--Passa.

--Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus trabalhos. Tudo se acaba um dia.

--Peor do que isso é não ter ninguem. É peor do que a fome.

--É o peor de tudo.

--Que se ha-de fazer?

--Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a scismar porque é que a gente soffre...


E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lagrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos, ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o predio sob a ventania arqueja.

Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brazido de gritos.

A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu. Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou, sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.

Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quasi cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só elles prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta, qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital tem raizes em toda a cidade.

A Arvore é quasi uma construcção. O tronco é corroido e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no Hospital. Com os annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.

E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de fontes, o halito das plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até ás suas raizes mais fundas.


Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a! eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...

Toda a vida é uma construcção de gritos, a cada passo para a frente ha sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?

Não é odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada até aos ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?

Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de se affazer a ser explorada, á mentira, á infamia... E assim caminha, ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem; assim vae pela vida fóra até onde?... Até onde?

Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mão que os ampare? De que servem os gritos, não me dirão?... Aquella restea de lume é como o ultimo fio d'uma alma que vae findar!...

E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas lagrimas pela existencia fóra!...


Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...



XIV

O ESCARNEO


No ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:

«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo infinito fóra, não é indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga. Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue ligar, porque os separa o odio, e outros que se reunem com soffreguidão.

Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas, até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre, mas alguem que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu cerebro procurará o teu cerebro para vogarmos juntos na mansidão d'um rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.


Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se sente commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias eternas, serão construidas do coração dos máus.


Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu, passo os meus dias a contemplal-o!


Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...


Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus reles, com miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado pelos tombos.


Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.


Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o espirito.

Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou tremessem de pavor?


Vêr o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar, comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no céo e no oceano--é o portentoso sonho.


O homem arranca de si proprio universos de belleza.


O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde tinha sahido.


Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza, resequido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.


Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte. Esperae, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguem encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.

Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não transformam o mundo até ás suas mais profundas raizes? Quem diz que se não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou estrophes de luar?

As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo tronco corriam já estremeções: os gommos pareciam envernizados. Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua, mas--como direi?--vestida de emoção.

--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.

Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São feitos de pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já brotou para soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os seres destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza indifferente, é porventura necessario e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas e dos gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste, põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas como a terra, todos elles riem, com um anh! de satisfação por as fazerem soffrer.

Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vêr nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece, tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:

--Ó tu!

--Anh?

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se erguem.

--Esperem... Tu não ouves?

--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?

Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas, como se tivesse vontade de maltratar, clama:

--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:

--É o poeta!

Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge. Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos esturge.

--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

--É o enguiço,--diz a Mouca.

--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas pernas?

--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, á luz do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias de pavor e em semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, só boccas. Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram a força.

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Elle espantado accorda:

--Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal. Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não comprehendem--do sonho.

--Acho que é poeta!...

E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro é odio da materia contra o espirito. Tem este nome--o escarneo. Ajuntam-se os ladrões e as mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e tôrto.

Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma, preso a nuvens e de subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.

Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar porque odeiam e não comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto--e do que é bello como os astros.

Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragedia humana.

--Diz que estás apaixonado?

O Gabiru calla-se.

--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?

--É de mim? pergunta a tisica e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar razo como elles...

--É por esta? Não? Então tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o poeta!...

Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mão em mão como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o pão da sua vida--o sonho.

--Ahi vae o poeta!...

Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta, amolgado, exclama, não comprehendendo:

--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas más clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e vê-a rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido espanto.

--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.

Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de tudo, da vida, da morte e até da propria desgraça.

--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos á uma.

--Que é? Deixem-me!...

E scisma.


Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no exaspero. As ruas seguem monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo bem: é a sua sombra que eu vejo, comica e desengonçada e, ao passar pelo lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão, fala sósinho, discute... Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.

Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz, ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.

Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflicções.

A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho ou a sua desgraça.

Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro, espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes, escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...

Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraça? O mundo está cheio de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho. Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça, cahe; depois lá se arrasta tropego.

Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio, pelas ambições, pelos rancores...

Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exhausto... Ao romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.

Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquella sombra é a minha! aquelle homem sou eu!...