Só as creaturas que soffrem é que são
dignas de viver, e na verdade são
as unicas que vivem.
No tempo infinito e no espaço limitado as moleculas
agregam-se,
desagregam-se... Só chimica, só a chimica
existe... As moleculas, que
têem em si a força vital, são hoje
arvore, amanhã animal, pedra, homem.
Conforme o quê? o que é que as modela?...
Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso
determinar, conforme as minhas
moleculas, amanhã
desagregadas, se unirem
a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei
assim pela
eternidade.
Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da
minha propria vida: quero que fale dentro em mim o
universo
que eu
já
fui--a pedra que eu já fui--a arvore que eu já
fui--o bicho humilde que
eu já fui...
A tua opinião?... De que me serve? E é ella tua,
sentel-a bem tua, ou é
aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...
Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que
compõe o meu
sêr, deixal-o prégar com a sua voz rouca--com a
sua propria voz e não
com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso,
deixae-me ser o Riso.
O momento é unico, não vale perdel-o. Porque
acaso, porque furia insana,
depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de
aguilhão, de
desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o
atlantico, tornarão a ser, se chegarão a reunir
para terem a consciencia
do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas
leis, as tuas theorias, os teus sonhos...
O momento é unico: vae perder-se
ámanhã. Seculos de canseira para terem
n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no
fundo da obscuridade, para não virem afinal á
luz, seculos de amargura,
de esforços, de tentativas abortadas--para não
chegares afinal a viver.
É como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...
Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o
seu destino.
Cumpre tu o teu. Tudo é harmonico, porque vive da verdadeira
vida: as
plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a
natureza inteira, não têem remorsos nem duvidas.
Nem tu as terás, se
viveres da tua verdadeira vida e não de outra.
A tua educação deve consistir n'isto: em fazer
falar o universo que
trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te
contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos,
tornarás a ter
consciencia? E que forças perdidas, que luctas
não vão ser
necessarias?... Quantos gritos!...
Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso,
porque nunca
voltarás a sentir senão n'uma infinidade de
seculos. Impregna-te de
vida, do teu largo quinhão de vida, para que ás
portas do Nada possas
dizer:--Vivi!...
Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os
deveres para
com os outros.
Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque
andaste nas
suas entranhas; a nuvem tua irmã; a arvore onde correste em
seiva--e o
homem porque és o homem.
Se te não deixam ser o que deves ser--resiste.
Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo,
triumpharás porque
cumpriste o teu destino.
Tu és feito de humus, tu és feito de terra. Se
ella te deu bocca para
que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao
fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia
tudo terá voz. Na verdade não haverá
fonte, arvore, bicho por mais
esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e
não faça a sua
confissão.
A educação moderna, ao contrario, tende para
isto: para que todos falem
no universo da mesma fórma.
Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual
fôr, é ser
desgraçado.
Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada?
Sabeil-o?...
Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente,
que Deus creou para um
fim... Assim nascerão creaturas que incarnarão o
Mal, dirás... Pois que
o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.
Se a natureza cria monstros, é que elles são
necessarios, como certas
pustulas que purificam.
Nunca os tigres afinal venceram.
E de que te serve andares mascarado?...
O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes,
pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme n'elle
predominam
determinadas moleculas, assim odeia ou ama.
Quando é que a chimica será tão
grande, que possa fazer esta analyse?...
Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem
sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e
és
eterno.
O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma
reminiscencia.
Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra
subtilizada
que tu és, a terra tua mãe. Essencia da terra,
trabalho insano do seu
ventre durante seculos e seculos, homem não a renegues!
Ama-a, ama a
vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a
sua emoção,
toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de
immaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena,
sê máu se ella o
quer.
Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz
na
terra.
No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas--que
são rios
de odio, outros que são rios d'amor, outros que
são a amargura, o riso,
o sonho...
X
HISTORIA DO GEBO
Elle ahi vae, aos
tropeções, amachucado e
ridiculo.
Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão
espantado só nos
fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo,
afflicto,
sem mão que o ampare--e de cabellos brancos estacados.
Gritam-lhe:
--Ó Gebo! ó Gebo!...
Não ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os
repelle do seu
seio.
Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas
no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe
custava era vêr
a filha horas e horas a scismar. Em quê?... O Gebo ao pensar
na sorte de
Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ella
é que se batia ainda
com o destino. E quasi não tinha pão para lhe
dar!
A mulher clamava:
--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és
és um mandrião. Olha os
outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida
é preciso
ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!
--Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.
E afinal cahira para sempre, sem energia e sem forças,
prostrado. A sua
vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo,
batêra a
todas as portas e assim se affizera á
humilhação e á esmola; a ser mal
recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os
amigos,
que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras
na mão:
--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode
ser, você abusa!
As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de
pôço, em que ao
deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados
á desgraça, em
que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento,
eram o unico
goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto
maiores eram os
seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que
quasi não dormia e levava a noite inteira a scismar e a
chorar, elle,
logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a
mulher nem
descançar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...
--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!
E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras,
coisas
desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:
--Dorme! Fica-te para ahi!...
Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco
tostões, que todos os
dias precisava de juntar, começára a ser
desorientada e feroz. Viam-n'o
correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua
afflicção em palavras rôtas, e depois
muito baixinho pedir. Ficava horas
á porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio
remendado
pela filha, á espera que um conhecido passasse.
Ás vezes consummiam-se
os dias e elle sem dinheiro para pão--porque os
corações são de pedra.
Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso
alguem que lhe
valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios,
pedinchão e sempre a suar. Já não
tinha que pôr no prego e muitas vezes
se lembrava da morte.
Oppresso o coração, voltava, lá ia
á espreita, n'um desespero sem fim.
Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um
transe, perguntava ao avistal-o:
--E então? então?
--Cá está, mulher! cá está!
Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem
funda, para sempre fugir
áquella fadiga de lagrimas, esquecer as
humilhações, as horas amargas
passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de
que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o
escarneo!...
Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem
tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem
na propria
casa o Gebo descansava.
Eram infindaveis os ralhos e os gritos.
Só
Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe
dava animo. Se não fosse
ella, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos
e seccos
como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e
não
lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na
desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão,
com uma unica idéa ao
acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.
Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas
palavras e passavam
pelas mesmas afflicções. Transidos pelo frio
interior, o verdadeiro
frio, que só a miseria dá, encostados uns aos
outros, raro se aqueciam
ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos,
absorvidos pela
realidade, e a Desgraça alli presente parecia rir-se.
Gastavam as
ultimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez
mais gordo
e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos,
aquelle riso fazia mais afflicção do que as
proprias lagrimas. Muitas
noites não se accendia o lume e por fim todos tres dormiam
n'uma unica
enxerga.
A ultima coisa vendida e que lhes custára as derradeiras
lagrimas
d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes
para
filhos até elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para
sempre as
arvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio
de agua da
bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo
fôra
levado, como uma parte do seu sêr, que lhes lembrava os dias
de
felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a
luzir.
A mulher já não ralhava: tombára, com
o olhar desorientado e os dias
gastos em monologos desconnexos. E elle ficára, amolgado
pelos
encontrões, gordo e ridiculo.
--Ó Gebo!
--Anh? anh?...
XI
LUIZA E O MORTO
O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira,
andára e n'essa noite, com
um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa
rota, fôra dar ao caes.
O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua
á noite
assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de
cóva. O
rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas
presagas.
Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao
largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades
poídas
do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella
respiração estrangulada,
apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e
opaca.
O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu
jantar--e teve um ah!
de allivio. Alli ninguem o procuraria,
era como se estivesse sepultado
no fundo do rio. Havia quasi dois dias que não comia e ia
emfim dar a
primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os
joelhos doridos e sentia uma
lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido,
abandonado. N'um
sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma
dentada na mão, perguntou:
--Quem está ahi?
Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.
--Ouh!
As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A
saia estava
encharcada e frios os pés.
--Estará morta.
E socegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a
mexer-se.
--Outra desgraçada...--scismou--Quem está ahi?
E, sahindo da treva, uma voz de creança, começou:
--Sou eu.
--Tu quem és?
--Não sou ninguem.
--Que estás aqui a fazer?
--Não estou a fazer nada.
--Tu que queres, então?
--Vim deitar-me ao rio.
--Ah!...
--Mas tive medo. A agua do rio sempre é mais fria do que a
morte.
A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a
prégar. As nuvens
baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da
noite.
Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e
baixinha, a
outra rouca, eram como o dialogo de duas forças ignotas, que
o acaso
rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:
--Como te chamas?
--Chamo-me Luiza.
--Quem te fez mal?
--Ninguem. Estou gravida.
--Ah!...
--Estou gravida. Eu não sabia nada. Estou gravida,
acabou-se. Porque é
que não ensinam á gente que todos nos querem
fazer mal? Uma pesssoa
devia aprender.
--O quê?
--A ser desgraçada. Ha dois dias que não como.
Tenho andado por ahi.
Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.
--Vae p'ra a tua casa.
--Eu sou do Asylo, não tenho ninguem, nem mãe,
nem nada.
--Enganaram-te?
--A mim não, ninguem me enganou. Eu não sabia
nada. Quando vim do Asylo
não sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me
fóra. Ninguem me
quer assim. Quando a gente está gravida que ha-de fazer? A
gente não tem
culpa...
--Não fizesses o filho.
--Eu era uma innocente.
--Ah!...
--Não sabia nada, juro-lhe pela minha
salvação.
--E então?
--Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O
patrão foi quem me logrou.
É sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra
uma pobre
creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do
Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor
provedor,
foi servir. Logo que o patrão viu aquella rapariguinha ao
abandono na
terra, poz-se a falar-lhe baixo, ás escondidas.
--Era como se me pizassem o coração...
Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes
agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar
sósinha.
Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria,
já vindo
á terra com este destino amargo--ser explorada. Elle
deixou-a logo e
ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais
descórada e
triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na
rua. Remexeu-lhe a
trouxa e gritou:
--O que tu merecias era ir para a policia.
Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a
andar pelas
portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até
que foi dar
ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.
Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré.
Só o rio prégava. Tu, rio,
que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas
lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste pão, encharcaste
terras,
humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado,
foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro,
e a tua voz tornou-se presaga.
Levas lagrimas salgadas ao seu destino,
tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar.
Que dizes,
rio? que prégas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano
largo, a
fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora
d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo
por
fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do
planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas,
outros
sonhos e raizes na mesma condemnação eterna e
n'um trabalho insano? É
isto? É para moeres pão negro, passares por
troncos conhecidos sempre
rio, mar profundo ou nuvem?...
Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro
tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no
negrume,
começou:
--Tu que imaginas que é isto?
--Isto quê, senhor?
--A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos
pobres; os
pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.
--Todos?
--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que
quizer.
Não grites que é peor. Ninguem te acode.
--Eu não grito.
--A tua mãe botou te fóra, para não te
crear, o teu patrão enganou-te.
Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixal-o
enganar-te? Que
has-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te
não desamparará...
--Quem? perguntou anciosa.
--A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha,
aos
pontapés e ás
voltas com a desgraça. A desgraça é
que póde tudo, ninguem no mundo tem
mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti
e dar-te terra a comer.
--Ó senhor! ó senhor! Mas então para
que me crearam no Asylo? Era melhor
terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a
ninguem. Que hei-de fazer?
Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias
que não como.
--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?
--Para me afogar... Mas tenho um medo á agua!... Quando
metti os pés no
rio tão negro, fugi... Ó minha
mãesinha!...
E tombou para o lado.
O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre
corpo, ainda
por crear, enregelado e transido.
--Tu que tens?
--Nada. Fome.
--Toma lá o meu pão.
E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.
XII
PHILOSOPHIA DO GABIRU
Em todo o caso se a
immortalidade existe deve ser bem differente de
tudo
o que se tem sonhado.
Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o
homem grande,
porque abala e acorda vozes adormecidas.
Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina
a
nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado
e fundo, é
bello--até o crime.
Não importa saber donde nasceu a idêa da
immortalidade, o que importa é
saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais
materialistas, todos
sabem que ella brilha no fundo do nosso
sêr.
Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras,
explicações mesquinhas,
o que não podem é arrancal-a. É como
certas arvores que, deitadas
abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as
extinguir seria necessario tornar esteril a terra.
Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma
aspiração... Ella
remexe sob todas as cinzas.
Mas que immortalidade?
Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia--outra
razão para ser
desgraçado.
E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás.
Interroga-te.
Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se
os
criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura
criminosos?
A educação que nos dão o melhor que ha
a fazer é esquecel-a. E
esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa
á parte. A que
adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se
aprende na
peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a
verdadeira.
O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento,
os
seus erros--e até os seus crimes. Se não existe,
inventa-a.
Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de
ninguem senão nos
primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou
disfarçam-se.
Depois começamos a ser duros.
Creio que só ha amigos até aos vinte annos,
quando ainda se não pensa na
vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da
vida a
serio e dos interesses conservam ainda amigos.
Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.
Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas
desorganizando uma
forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de
milhares de
consciencias...
A acção do que se chama espirito sobre a minha
materia produz o meu
eu, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios.
A mesma
força tira
harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que
resta, pois? A
essencia da vida?
A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia
de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.
Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se
cumprir o destino para
que se nasceu.
Que idéa tão falsa a de se suppor que a vida tem
um fim--a felicidade ou
a desgraça! Não é isto subordinar o
universo ao homem?
Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o
fim para
que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto
do que o
que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.
O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um
fio que a
emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de
colera. Eu ouço assim correr
a minha existencia...
Um dia a fonte secca-se.
A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer
não. O homem não é senão a
essencia do universo e nasce para que tudo
tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar
a
torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.
Não, não é justo que a gente morra de
subito sem protestos, sem
palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas
ambições, os seus
sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais,
não se vê,
não se ouve... E o que custa não é
deixar pessoas queridas, nem
habitos--é não viver. Morrer quando a vida
continua da mesma fórma
harmonica e impassivel--eis o horror.
Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma
outra vida senão a sua vida.
Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam
é
por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres
continuar a amar
os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e
passas a morar com a mentira. A peleja começou: é
preciso arredar,
vencer--e cada um n'essa edade é o que é.
Já se não amolda: é um ferro
desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos,
vaidade,
mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu;
é de pedra.
De fórma que se quizeres viver com os outros tens de
representar. Da tua
edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para
o mesmo fim.
Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que
é preciso arredar,
conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço.
Para triumphares tens
de os lisongear, tens de ser elles e não tu...
Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca
podem
agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos
mais
intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo
o mundo...
Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual
á do
homem que precisas conquistar.
Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus
crimes, sonhos,
odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e
fala até,
n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.
Que é preciso para que cada um se encontre? Que é
preciso para que as
arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.
Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste,
Dôr, e até nós veiu como o murmurio
apagado dos seus gritos.
Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho
as
mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha;
no ar que respiro; no
sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou
grande não importa.
XIII
ESSA RAPARIGUINHA...
Quédo-me a
scismar tão sósinho n'este
velho casarão!... De noite ouço
vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem.
Só os meus
crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a
prégar dentro em mim.
Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.
Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas,
alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei,
por demais
conheço a fórma porque as ideias se ligam,
até as mais contradictorias,
e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não
é isto: é do
fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem
nexo, como um
phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um
estalido atraz de mim
alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a
pensar n'essa
pobre creaturinha explorada.
O rumor da vida, outros crimes amontoados,
podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:
--Abandonada! abandonada!...
E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como
essa
rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem
mesmo soube o
nome, porque nem sequer lh'o perguntei.
Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao
encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando
na tristeza
das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu,
levando-a para a casa de
passe, sentia,
não orgulho nem
prazer, mas
oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me
hei-de ver livre d'ella?
Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a
rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que
sorria, e fugi
como quem foge ao remorso.
Mais nada. Porque é então--e já
lá vão muitos annos--que a certas horas
de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas,
o
sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva,
todo dorido da vida?
Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada
até aos ossos e a
sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um
sorriso tão triste que me piza o
coração.
Arqueja o lume no escuro todo povoado de
vozes,
que vão
prégar, mas
que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá
fóra e na escada soam
os passos do
gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico
sósinho, a
scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume
que
esmorece...
Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado
e roto!...
Na verdade não conheço outro homem tão
nullo, banal como a propria
banalidade. A sorrir, a amar, e até com o
coração despedaçado, esse
homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou
desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era
incapaz de odios.
Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez
algum
bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na
rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de
todas as
creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta:
enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas
philosophias o ensinam) é de quem possue a força
e aptidão... Mas hoje
estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho
casarão. Parece
que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto
esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar
dentro em
mim.
É talvez para fugir a esta obsessão que me deito
a scismar na vida
d'este homem banal como a propria banalidade.
Nem sei como conte, com que palavras faça a
narração d'uma existencia,
que é como um trapo que se deita fóra todo
molhado de lagrimas.
Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe
e
incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E
não
faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a
tisica a
romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É
por isso que
elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o
arranca do
peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.
Quem foi a tua mãe, ó S. José?...
Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle
os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.
A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino
como elle. Foi sempre
assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar.
Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com
quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S.
José conversa ás
vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal
sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as
pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo
vagalhão da vida. Nem
se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na
sua mão de
pae.
--A gente é pobre--diz elle.
--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes
passa fome.
--Passa.
--Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era
preciso dar-lhe
o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de
penar os seus
trabalhos. Tudo se acaba um dia.
--Peor do que isso é não ter ninguem.
É peor do que a fome.
--É o peor de tudo.
--Que se ha-de fazer?
--Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a
scismar porque é que a
gente soffre...
E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro
leva as lagrimas que
ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino
ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos,
ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra!
Arqueja
o lume e o predio sob a ventania arqueja.
Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou
com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na
escuridão como um brazido de gritos.
A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o
acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria
cresceu.
Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos
montes, abraçada pelas
raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou,
sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã
da terra,
sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.
Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella
retempera-se. As
suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os
seus braços quasi
cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só
elles
prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno
o granito augmenta,
qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O
Hospital
tem raizes em toda a cidade.
A Arvore é quasi uma construcção. O
tronco é corroido e as pernadas em
cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no
Hospital. Com os
annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o,
abriram
fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.
E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias
sinto um ar vivo que é a
respiração dos montes adormecidos, batendo nos
muros compactos do
Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de
minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes
e
vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de
fontes, o halito das
plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem
as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se
presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...
E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até
ás suas raizes
mais fundas.
Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio
prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço
o esforço
que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva
arqueja e a
ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae
esmorecendo...
Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra,
pallida e
triste, com um pobre vestido encharcado
de chuva ou ensopado de
lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os
braços. Eil-a!
eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na
escuridão uma
poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...
Toda a vida é uma construcção de
gritos, a cada passo para a frente ha
sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?
Não é odio que ella tem por mim, porque o seu
sorriso, que eu sinto
molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o
remorso
acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e
vesga dar-lhe
dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada
até aos
ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae
gritar? De que servem os gritos na terra, não me
dirão?
Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende.
Descalça caminha
pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao
abandono. Vem depois
outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de
soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos
risos; tem de
se affazer a ser explorada, á mentira, á
infamia... E assim caminha,
ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam
e riem;
assim vae pela vida fóra até onde?...
Até onde?
Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella
braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida
passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita
n'este valle de lagrimas! A
esta mesma hora quantos berram espesinhados,
sem mão que os
ampare? De
que servem os gritos, não me dirão?... Aquella
restea de lume é como o
ultimo fio d'uma alma que vae findar!...
E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o
soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um
sorriso
resignado de quem já presente o que a espera--quantos
gritos! quantas
lagrimas pela existencia fóra!...
Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...
XIV
O ESCARNEO
No ermo da noite o
Gabiru vae tecendo a sua teia:
«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e
calháos, torrente
que leva comsigo gritos e forças embravecidas,
turbilhão arrasto pelo
infinito fóra, não é indifferente ir
ser pedra ou nuvem, nascer em
macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma
fraga.
Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas,
para as fundir n'outras
fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue
ligar, porque os separa o
odio, e outros que se reunem com soffreguidão.
Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas,
até que se encontrem as que se devem juntar. O meu
coração unido ao teu
ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre,
mas alguem
que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu
cerebro procurará o teu
cerebro para vogarmos juntos na
mansidão d'um
rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente
até dar
comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei
topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.
Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se
sente
commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens,
andarão nos
poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias
eternas, serão construidas do coração
dos máus.
Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me
mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual
nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago
como tu,
passo os meus dias a contemplal-o!
Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o
correr...
Por força existe uma razão superior
senão o homem seria Deus, a
consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus
reles, com
miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre
despedaçado
pelos tombos.
Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.
Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o
espirito.
Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem
duvidas ou
tremessem de pavor?
Vêr o sol, o universo, olhar, já é um
prodigioso milagre. Mas tocar,
comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as
estrellas, no céo e
no oceano--é o portentoso sonho.
O homem arranca de si proprio universos de belleza.
O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de
sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado
e
enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que
a
materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde
tinha sahido.
Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza,
resequido
ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto
creaturas que
vivem sem suspeitarem que o universo existe.
Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como
n'um punhado
de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte.
Esperae,
porém, que março a toque!... Assim esse pobre
desageitado, sempre timido
e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as
horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que
vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as
princesas lendarias, e
esses amores entre um philosopho esfaimado
e uma mulher da vida, tinham
não sei que enternecido interesse. Sobre os
calhamaços do Gabiru alguem
encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o
vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no
saguão.
Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a
fé não
transformam o mundo até ás suas mais profundas
raizes? Quem diz que se
não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos
palacios ou
estrophes de luar?
As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a
Arvore. Pelo
tronco corriam já estremeções: os
gommos pareciam envernizados.
Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos
despidos, ainda nua,
mas--como direi?--vestida de emoção.
--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.
Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama
espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo
atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo
habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem
estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São
feitos de
pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem
são o Riso e é
como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos
saltos. Têm
olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já
brotou para
soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os
seres
destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela
natureza
indifferente, é porventura necessario e fecundante?....
Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca
entre os ladrões
e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas
e dos
gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que
só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com
desprezo do
soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste,
põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu
sonho. Toda
a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos.
Espancam as
mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas
como a terra, todos elles riem, com um
anh! de
satisfação por as
fazerem soffrer.
Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem
vêr
nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece,
tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:
--Ó tu!
--Anh?
--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?
Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de
repellão se
erguem.
--Esperem... Tu não ouves?
--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?
Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as
mãos geladas,
como se tivesse vontade de maltratar, clama:
--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...
E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que
foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas
como o chão:
--É o poeta!
Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge.
Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro
de gargalhadas e de gritos
esturge.
--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.
--É o enguiço,--diz a Mouca.
--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas
pernas?
--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.
E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e
transido de
frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre,
á luz
do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os
seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias
de pavor e em
semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas,
só boccas.
Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram
a força.
--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?
Elle espantado accorda:
--Anh?
Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê
a
realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres
acha-se
transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão
fazer mal.
Vão-se rir do que é pobre e desageitado;
vão-se rir do que não
comprehendem--do sonho.
--Acho que é poeta!...
E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro
é odio da materia
contra o espirito. Tem este nome--o
escarneo. Ajuntam-se os
ladrões e as
mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e
tôrto.
Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma,
preso a nuvens e de
subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos
gritos, da
tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a
desgraça? Tambem.
Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar
porque odeiam e não
comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as
mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a
Fome a
ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e
torto--e do
que é bello como os astros.
Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar
da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a
tragedia humana.
--Diz que estás apaixonado?
O Gabiru calla-se.
--Tu não falas?... Ah tu não falas,
enguiço?... É d'esta que tu gostas?
--É de mim? pergunta a
tisica e tosse,
rindo-se.
É de mim?--Está ao pé
da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um
momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de
o tornar
razo como elles...
--É por esta? Não? Então tu imaginas
que ha alguem que goste de ti, meu
desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem
sei que parece! Ahi vae o
poeta!...
Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e
chufas, vae de mão em mão
como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o
tornarem mais
reles,
mais triste, mais pobre e transido, por não lhe
poderem tirar o
pão da sua vida--o sonho.
--Ahi vae o poeta!...
Até que o largam. De pé no meio da sala, com a
sobrecasaca rôta,
amolgado, exclama, não comprehendendo:
--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....
As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas
más
clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e
vê-a
rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a
seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido
espanto.
--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.
Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem
rido sempre de
tudo, da vida, da morte e até da propria
desgraça.
--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos
á uma.
--Que é? Deixem-me!...
E scisma.
Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em
quê? Em coisas
desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no
exaspero. As ruas seguem
monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem
construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo
este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o
distingo
bem: é a sua
sombra que eu vejo, comica e
desengonçada e, ao passar pelo
lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella
sombra
agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão,
fala sósinho, discute...
Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte
a prégar por entre a casaria e o
ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do
céo.
Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta
para traz,
ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os
cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.
Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa
indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas
afflicções.
A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens
baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os
casarões
alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um
golfão de luz. A
sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o
seu sonho
ou a sua desgraça.
Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva
tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o
aguaceiro,
espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos
escondem-se as
mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes,
escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára
indecisa...
Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraça? O
mundo está cheio
de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo
está farto de sonho.
Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado
sempre gritos
e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada
um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes
tropeça,
cahe; depois lá se arrasta tropego.
Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece
desenterrada. A
casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio,
pelas ambições, pelos rancores...
Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado,
exhausto... Ao
romper da manhã começa de novo a chover e elle
chora.
Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a
desgraça... Aquella sombra
é a minha! aquelle homem sou eu!...