XV
FALA
Falo. De subito a
minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno,
pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que
acaso coube em
sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca
o riso que
ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha
reflectido... Alguem
abala uma arvore até ás suas ultimas raizes.
Arranca-a. O grito que a
terra revolvida dá foi o meu grito.
Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas,
a quem ninguem
ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida
corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr:
não fingir, mas
sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria
vida.
O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma,
que
até ahi não
tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti
tudo que estava para sempre adormecido...
O que é isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por
ventura as
arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o
coração.
Riram-se de mim! riram-se de mim!
Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido,
vão, construido de
palavras que não são minhas. Nada
conheço da vida.
O homem só é feliz quando é elle. Os
outros é que o empurram para a
desgraça. O homem precisa de se encontrar.
Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e
modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me
ser
desgraçado á minha vontade!...
Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga
á terra, pelas
suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra.
Só na
minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem
os quero, e tudo me
parece pardo e inutil.
Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me
commovi como deante da arvore mais humilde.
A desgraça que eu tenho encontrado não
é a desgraça,
nem isto é a
felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a
vida; quero o meu quinhão tal como o têm os
miserrimos bichos, os montes
ignorados e os pobres...
Ou vou morrer sem ter vivido.
Só em pequeno é que eu senti correr em mim a
vida. Guardo ainda o cheiro
á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos,
o cheiro a
bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia
scismar na
vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e
são; que
dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam
sem
remorsos.
O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de
pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar,
voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul
e
céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz
palpita. Um risco
d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem
habitações,
cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo
pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.
Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho,
uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a
agua
sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á
farta a terra
negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras
de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas
espalmadas
e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal
esfurancado
pela agua resôa como um cortiço.
Scintillações, rumores por toda a
parte, por toda a parte a solidão.
Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia
d'uma vida convencida, forte, bravia...
Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei
sabor á vida, até que acordei agora com este
grito: Nunca vivi!...
Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça
não são
verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que
afivelamos em
determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo
o trama
complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal
situação tu serás
feliz...
E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...
Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...
Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser
só.
Para que me chamam o
Gabiru? Mettido no ultimo
andar do Predio,
ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade,
para conhecer a realidade. Deitei fóra o que
aprendêra, combati commigo
mesmo...
Agora vejo a desgraça! agora encontro a
desgraça!...
XVI
HISTORIA DO GEBO
Assim a miseria foi
crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para
onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes
faltava o pão e
o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais
pobres que os
pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de
manhã escovado, limpo,
com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia
lhe ainda a mulher:
--Homem, vê se te dão um emprego...
--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.
Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e
ridiculo, envelhecido
e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto?
Aguilhoado,
todos os dias se levantava para a humilhação e
para a correria atraz
d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de
cabellos brancos estacados.
Um dia andára, rondára, a tresuar
d'afflicção. Todos
o repelliam. Era em
certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo.
Nem andar
podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de
voltar para
o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:
--Então? então?.... Arranjaste?
Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe
acudisse na sua
miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas
fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho
ridiculo e gordo,
estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo
palavras
desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido,
escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem,
n'uma
afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas
esperavam esse triste e
amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde
caminhava com passos
incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa
noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe
aos
farrapos na lama.
--Então? arranjaste?
--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá
está!... Apezar dos ralhos, todos
tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A
desgraça
anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto,
para
que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros
nem dormir
podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se,
chamou Sofia para lhe dizer baixinho:
--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.
Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos
aguados,
seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de
luctar um dia
e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de
desespero. Ella era
o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e
impellia para a
vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a
braço com o destino
ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos
de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta.
Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se
das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que
correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela
falta
que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de
tombados.
Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da
filha, ficára
branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que
ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre
toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava
e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á
procura de pão...--Sempre a mesma
vida, sem tregoas, agora sós os dois e a
Desgraça. Quando a mulher era
viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o
anno a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se
gastára a a
ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a
esperança murchára. O velho ouvia risadas na
noite profunda e boccas a
clamarem:
--Ó Gebo! ó Gebo!...
--Anh? ahi vou! ahi vou!...
Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle
ficou
abraçado á filha, soluçando.
--Se Deus nos levasse!...
Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de
o levar
pela mão como quem guia uma creança.
XVII
O QUE É A VIDA?
O Gabiru não entende a existencia. A sua alma é
como uma penha ferida,
que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro.
Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore,
as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para
onde?
para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor.
Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem
indifferente... Ao
dar de cara com a existencia, transido, ao vêr-se escarnecido
entre a
Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a
primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus
pés
a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua
cabeça a
abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas--e o homem
queda-se
inconsciente? Ha o escarneo, pedras,
constellações
e o mar profundo e o
homem continúa impassivel.
O que é isto? o que é a Vida? o que é
este mysterio onde o homem entra
como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore
cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco
se
espelha o sol e tumultua a materia em combinações
infinitas--e o homem
segue o seu trilho inconsciente!...
O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um
sonho? A vida tem
realidade? O que pratico sobre a terra é indifferente ou vae
repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, apparencia ou
temerosa
realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o
amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um
turbilhão d'almas e de
pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida
caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro
fechado, ou vivo da verdadeira existencia?
E os pobres? porque é que os pobres soffrem sem gritos,
revolvidos como
a terra por este arado ferreo--a dôr? Só se vem a
este mundo para
gritar?
O Gabirù via-os cheios de resignação
seguirem o caminho da vida, cada um
com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão,
escarnecidos,
tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que soffrer? E
toda a sua
philosophia tombára por terra...
Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntal-o ao Pitta,
ao Sabio, ao
Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas
as
bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.
Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falavam:
--Só sabem sonhar e depois...
--São homens extraordinarios, affiançou o
Pythagoras.
--Veja você... Querem que se lhes explique, o quê?
A Vida! Já o outro é
assim.
--O
homem do pacho?
--Sim, esse...--e a voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras
prodigiosas, chãos que só dão sonho.
Ha sêres inteiramente edificados de
nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no
silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma
assim
cresce á solta, branca de certo e com uma forma
inexplicavel... São
sapos de sonho.
--São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma
creatura se
arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas
d'isto, do convivio
com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um
oceano? Não a vêr, não a ouvir,
não a sentir correr continuamente, toda
d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes...
Você
comprehende?
--Comprehendo.
--A mais mesquinha terra géra mysterio. É
tão admiravel e sempre tão
diversa, como isso a que você chama o infinito.
--O quê?
--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o proprio
maravilhoso, porque
a realidade é sempre maior que a phantasia.
--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou
já na
trigessima licção... Esse homem nasceu com uma
alma destinada a uma
estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o
vejo nas
trevas...
--É horrivel?
--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto!
eu te conto!
O sabiou parou, olhando-o com admiração:
--Você, Pitta, afinal é um experimentador.
O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:
--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para
não
sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm
olhares de piedade ou
risos. Cada um pode esquecer a sua miseria, á forca de a
esbrazear. O
seu sonho é subterraneo, sabes?
--Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e
que ficam vivas debaixo
da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor.
No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam haste.
--Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se
fechou para
sempre? Talvez outrora perdido buscasse á noite alguem como
elle, para
se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite,
porque são
grotescos...
--Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar
d'alguma
estrella e elle...
--Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que
sede! Agua, se
ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar
inexgotavel entre as suas
mãos, cheia de
scintillações e murmurios;
montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e
as arvores, e
o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O
pequename
vê lá!... Da terra não conhecia nada,
quando eu surgi. Mal entreviu o
universo para logo se emparedar. Só sabe o que é
o sonho. Refugiou-se em
soffreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda
hontem,
imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um
cabello
de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o
amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em
vão quebrar
esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado
tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.
--É que o sonho é o pão dos
desgraçados. Todas as creaturas que soffrem
refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima
codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a
sonhar...
Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affiançou:
--Amigo, só nós é que já
não podemos sonhar...
--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...
Eil-os reunidos aos desgraçados e todos se põem a
falar ao mesmo tempo.
Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado accusa a
vida. Ha-os
que têm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.
--Para quê ser homem?
--Ninguem sabe.
--Quem déra não sentir, andar como anda a
essencia
do tição ardido,
perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de
agua ou no
fundo do mar.
--O que é a Vida?
--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez
um sonho. Olhae o universo, que
amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr
que sentes
deante do temeroso universo?
--Tudo é chimica,--disse o sabio profundo.
--Eis um sonho,--affiançou gravemente o Pitta.
Só os mais pobres, arredados a um canto não
diziam palavra, porque
tambem só os pobres na vida sabem soffrer.
--Mas então mais vale a morte.
--Pois mais vale.
Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados.
Ha feições
consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e
grandes de
martyres e de santos. Só elles sentem o mysterio da vida;
só elles
gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os
outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.
--A vida, concluiu o Astronomo, só vale passando-a a sonhar,
embevecido
n'uma obra.
--A sonhar não!
--Eu queria ser poeta...--torna um.
--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas
crear uma
nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine
que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.
Soára a hora da vida, em que, todas as illusões
cahidas,
se scisma ou na
morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de
existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido
de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um
d'esses homens
assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o
poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista,
protestava em nome do
ideal.
Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um
palhaço, a quem chamavam o
Corsario, o
Sabio
começou:
--Só a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as
acções e de
todos os phenomenos, só encontramos a chimica... Na
primavera e no odio.
Vocês nunca viram lá fóra onde existem
arvores?... Sim ha arvores e
aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um
laboratorio
immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos
montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billiões
de gottas. E
de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram
prodigios: reacções,
transformações, a vida emfim. Vocês
nunca viram uma
grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva
nascendo... Pois
é feita de chuva e terra... Das arvores--sabem?--cahem
gottas mais
grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os
troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois
ao
sol, n'uma vida furiosa.
--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas
não é
tudo: o infinito existe...
--Onde?
--Onde? Onde não sei, mas é lá que
vive a alma d'aquella pobre senhora
que eu outr'ora amei desesperadamente...
Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas
nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade,
a desgraça e o proprio sonho, constróem os seus
typos. Marcam-nos.
Triste é chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera,
todo em
brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um
punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do
lume que
comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te
appareceu como um fructo, arredaste-a, para só pertenceres
á tua obra: o
riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto:
queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e
o cerebro,
e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á
multidão--eil-o o
poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor,
viste que o
brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora
amarga,
a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento
e
uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia
dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho
te é
possivel: só o alcool te dá ainda
illusões, e as conversas desesperadas,
monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho
para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os
illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em
pedaços
arrancados ao poente.
Para o
Corsario chegára a velhice:
desdenhavam-n'a e ella
mergulhava
no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera;
só o
Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas
vezes
todos juntos tinham discutido a morte!...
--A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de
dinheiro. Com oiro
triumphariamos ainda.
--Com oiro! berrou o
Corsario.
--É que, respeitavel madama, hoje elle é o unico
poder, a grande força.
Permitta-me que lhe affiance: é Deus. O oiro é
tudo!
Cada um ruminava as suas idêas sem se importar com o Gabiru.
Do saguão
vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas
á
sombra, queriam entrar na alluvião eterna.
--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.
--Enforcado não. Lembra um palhaço. É
a morte a deitar a lingua de fóra
aos vivos, um trapo pendurado... É afflictivo e
dá vontade de rir.
--Já tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.
--Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das
marés...
--Perdão, no mar largo...
--Uma bala, uma bala seria mais prompto. É até
elegante. Repare que é a
morte dos namorados.
--E o veneno?
--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos
banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o
veneno a mim atterra-me.
Ficavam um pedaço a scismar. O que os prendia afinal
á vida? em que
criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as
coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhára
e aos
quarenta annos já se não constróem
nuvens. Só o Astronomo todo se
consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para
o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.
--Sonhar! sonhar!--prégava.
--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.
--Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na
solidão, e a vida para
mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em
cima, pobre, com este
casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a
existencia?....
D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão
d'astros... Quantas
riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina
e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu
seja uma arvore
sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e
eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se
desço cá
p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no
céu.
--Mas a natureza...--disse o Pythagoras.
--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é bello:
é tudo d'oiro e
verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao
pé...
--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!
--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.
--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de
nuvens!
--E que querem que faça, se eu não sei mais nada?
Nem me sei rir, nem
sei falar...
Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos
temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era
desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforço
para
materializarem a propria alma, que outra coisa não
é crear, déra-lhes
como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco.
Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a
morte os
aterrava, a morte que era o
nada para todos,
até para o
Pitta então
idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia
não era de
certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes
falhára.
Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem
dedadas na
sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella
põe, até no homem que na terra representa a
omnipotencia, o banqueiro,
arrepios de allucinação e terror, quando acaso a
Havas diz á Terra que
um Rotschild acabou de uma fórma identica á d'um
pobre diabo ou d'um
poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é
indifferente ir
apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura
pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse
oceano
negro não sahem nem gritos, nem
bençãos, nem palavras. É o formidavel,
o
mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente,
diz La Rochefoucauld.
Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ella impõe-se ao
homem, negra
e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de
relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrastra, para
outros é
noiva. Ora avança como uma furia, ora coberta de flores como
abril.
As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos,
párias,
esperam-na como a redempção. De tanta lagrima, de
tanta aspiração,
alguma cousa se deve ter creado no infinito...
Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aquelles para quem
a vida é
aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde
o mar desconhecido rola
as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de
claridade, n'uma
madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que
não tenha sido
torcida e despedaçada, sem bocca para gritar--elles
sabem-no--vão
erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma
viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar é
negro,
tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado,
onde
só monstros cresciam.
Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da
verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.
A differença é simples: ella é termo
de miserias, ou o termo do goso.
Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os
humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos
porque ella liberta, e até os incompletos, aquelles a quem
não é dado
nem
sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada
um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...
--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia
quasi sempre,
é o termo da vida? é o inicio da
vida?--perguntava o Pitta.
--As philosophias e as religiões respondem. Cada uma
assegura a fala. O
mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão:
escolher a melhor
opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para
atravessar a
existencia,--dizia o Pythagoras.
Só o Astronomo lhes explicava:
--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da
morte do
que é materia resultam bellas fórmas, arvores,
nuvens, côres; da
transformação do que é espirito alguma
cousa de radioso deverá surgir...
Ha muito que eu conheço duas figuras, que atravez das
edades, vem
prégando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.
Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras
d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra
préga, a
outra fala entre desesperos e ruinas. Vós, meus amigos,
conheceil-as--a
figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes
typos da humanidade. Ás vezes confundem-se, misturam-se:
cabeças de
idealistas e corações de pedra. Acontece tambem
que, quasi sempre, uma
segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim
vindo pelas
philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão,
ora nas
palavras
de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito
precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a materia
quer prégar--apparece Falstaff.
Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos
seus combates dentro do meu coração. Uma affirma,
a outra nega. São duas
grandes vozes, que nasceram com o homem.
Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra
põe mais
longe os seus olhos--no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria
humana,
desola-a, mas não a faz descrer:--Lá,
lá, tudo se realiza e os proprios
gritos são necessarios á Harmonia.
Uma é feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a
terra como
lôdo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que
depois
só o nada
existe.
E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a
belleza eterna para
os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos
tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a
terem creado, á
immortalidade. Se ella não existia formou-se, desde que os
desgraçados e
os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem
sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram
mundos. Desde
que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a
justiça eterna e
a sua fé--o infinito creou a.
Elles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema
da morte,
que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo
á tona
idéas, explicações, theorias,
apavorava-os. As suas aguas acarretavam
idolos, religiões, mantos purpuras de homens,
que se
debatiam, a
gesticular, querendo comprehender, vêr. Ao pé
d'essa figura negra e
indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue
amalgamado com
theorias, brazidos, lama, desesperos, que não conseguiam
sequer pôr uma
ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o céu,
tragica e
muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para
lá
caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico,
desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...
--Então a quem morre...--perguntou alguem.
--Acabou-se-lhe o sonho.
--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.
--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o
oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro
Gabiru!...
--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.
--Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro
até a fazer
gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu!
Gargalharia
do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria.
Botam as arvores flor e as creaturas emoção...
Tudo isso seria meu.
Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da
Conceição, seria
talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!...
O mal a
imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do
heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem
bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...
E como o Pythagoras fosse a sahir:
--Espera. Para onde é a ida, philosopho?
--Prégo a revolução. Ando a
prégal a...
E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:
--Ao pequename! Rica idêa! E philosophica! Um grande
elemento. Pois é
atiçar-lhe!...
E sahiram ambos.
Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles
não sabiam explicar a
vida: sentiam-n'a e soffriam. De pé explicou-lhes:
--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu
puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas
mãos
eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era
profunda como um poço. O céu esquecera-o, as
arvores esquecera-as. Um
dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a
contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito,
cá
fóra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com
pedras negras nas
mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca
viram o
sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que
desprezara!...
Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim
desperdiçára a
vida á procura d'um thesouro que tinha alli á
mão!...
Ninguem lhe respondeu. Só o Corsario, curvando-se-lhe sobre
o ouvido:
--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...
--Que é?
--É pena. A vida não se torna a viver.
Perdeste-a.
Esqueceste-te d'ella
a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade
por nuvens.
E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como
a agua que
passa limpida pelas mãos d'uma d'essas estatuas que tu
vês nas fontes.
Nunca cessa, egual, fresca, cheia de
scintillações, e nunca tambem
estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, não se
torna a ter na
bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores
são as mesmas
arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça...
Perdeste-a!
perdeste-a!...
--E tu?
--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o
que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca
moça e
viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e
então
arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como
póde
metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci á
humilhação, a
procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só
então entendi que os
homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fóra depois
de
servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que
móro com o
odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca.
Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos
desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu
odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha,
cahida, quem
toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu
daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria
arrancal-o
ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite
iria roubal-o. Ella
seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era
forçoso que
fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma
alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha.
Dir-lhe-hia tudo,
ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi.
Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada
sêr só
existe seccura e interesse. As mulheres se são honestas
é por vaidade, e
quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!...
Ella seria
minha filha! A semente germinaria, cahida n'um
coração mais duro que as
pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida,
mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o odio. Odiar-me-ia a
mim propria,
sua mãe--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...
Sahiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns
aos outros--e a um canto
os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas
lagrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se
entontecidos
a narrar, n'uma voz amarga--a voz da desgraça. Erguiam os
braços e de
cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da
guerra.
Um disse:
--Eu gosto de vêr soffrer! eu quero vêr soffrer!...
Como elle anda a
espreitar illusões a vêr se as calca! Onde nascem
flores logo as
esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol ás levadas. Calca tudo e
ri, tudo o
que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.
Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:
--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra,
minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a
vêr o sol.
--Ha desgraças e dôres que fazem rir,--diz alguem.
Outro ri, ri sempre d'afflicções, de
catastrophes. Procura dores para se
rir e doido eil-o a rir e a clamar:
--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta
de soffrer.
Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?
--Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude
rir,--préga uma bocca na escuridão.
O Gabiru sente-se agarrado pelo
homem do pacho.
O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir
d'um tumulo.
--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...
--É impossivel...
--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os
outros que se pódem
rir--e ser só, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta
mostrou-me e
depois, sabes? tive odio. Odio... Não eu não sou
amigo do sol nem das
arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com
os
outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida
come-me a vida--e triste vida d'afflicção a
minha! Fui sempre doente.
Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me.
Porque
é que Deus faz
nascer creaturas com vida e dá a outras um
quinhão de negrura? Tenho
frio e fome de sol, de saude, de forças, e vivo gelado,
sempre gelado, e
sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja
até da
terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos não
soffre.
Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se
eu te escancarasse a
minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi
dizer--é
certo?--que até as arvores noivam... Eu apenas sei que
existe a inveja,
a dôr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a
hospital. E
nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca
para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?
Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam
pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.
--Olha! olha p'ra mim!...
Sahiram--e atraz de todos, não tendo dito palavra,
caminharam os pobres,
curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor;
havia-os
tirando o pão da bocca, para o repartirem; havia-os com uma
vida de
lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.
Afinal todos se tinham ido; só na escuridão
ficára uma velha prostituta.
Era quasi uma coisa--a podridão. Não sabia falar,
nem sabia queixar-se.
Tinha apparecido para dizer o quê? Que
accusação tremenda contra a vida?
Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:
--Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...
Ella não respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a
scismar. O que
era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na
sua alma... O
Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe
disse:
--Mas então p'ra quê? p'ra que criam a gente. Eu
tenho amargado a vida e
nem posso gritar... E tu?
--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer
é afinal
reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e
vel-o calcado!...
--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se
importa? Não me
lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram
de mim e
toda a vida me bateram.
--Tu sim, pobre de ti... E amaste?
--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de
servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma
desinfeliz? Inda se a gente encontra o
pão de cada dia...
Agora sempre
anda um frio!...
--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal.
E batiam-te?
--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não
fazia mal... E a
ti?
--Puzeram-me a alma negra.
--E tu?
--Eu soffria.
--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos
é feliz.
Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi
cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles
encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos d'um lar
a apagar-se.
--Ouve, não chores... Tens frio?
--Estou gelada de frio.
--Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Tu
imaginas
que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vão
crear, para
depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a
nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se
não
extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?
--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não
fales! oh não
fales! não me lembres!...
--Se tu amaste e soffreste nada é perdido. As tuas
mãos estão geladas,
mas as minhas ardem.
--Eu já não sinto o frio... Só me
sinto de rastros, pequenina e
perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que
serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir,
dormir sempre...
--Soffre. Nada é perdido. Olha: vae-se creando com as nossas
afflicções
e os nossos gritos, uma outra terra!...
--Aonde?
--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima
dor, aos
ultimos gritos, se esbrazear...
--Conta! conta-me!
--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?
--Um sonho?!
--Um sonho é como se tivessemos na alma um mundo maior que
este. Todo em
fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto
mais
puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se
perde... Constroe-se
das nossas lagrimas... É um palacio. As pedras de que
é feito são os
gritos... Sabes?
--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor...
Consummiu-me.
--Assim...
--Um sonho!...
--Tudo se illumina dentro em nós. E a cada
humilhação elle se torna
maior. Depois que soffri, é que comecei a vêr o
que nunca tinha
presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as
agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto
mais
soffro, mais se ateia o meu sonho.
Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim
só a voz d'elle
corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.
XVIII
HISTORIA DO GEBO
Para nada me importa
a historia banal que esse homem gasto conta,
abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a
mulher, o lar ficou
gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que
transe os corações. A filha cahira a um canto sem
palavra, e o Gebo
poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não,
era preciso
tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo
chão, atraz de
esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome,
já ninguem
o esperava n'uma ancia como outrora:
--E então? então? Arranjaste?....
Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia
afflicções, não tinha
para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle
velho todo
branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas
para não o
affligir.
--Não se consumma! não se consumma!
--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?
--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.
--Acho que não! acho que não!...
Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um
filho. E o
Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer,
n'uma voz
molhada de lagrimas:
--A minha filha! a minha pobre filha!...
Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um
exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga,
elle
era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado
e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os
cabellos em
pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a
timidez.
Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir
desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais
pedinchão e mais
gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o
Gebo,
e
perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:
--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu
não tens uma filha?
E elle logo com um riso no olhar:
--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...
--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?
Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças
para protestar,
respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:
--Boas pernas... boas pernas...
Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia.
Lá ia levado,
enlameado e de rastros, a chorar.
Illusões? já as
não tinha, se illusões
não servem senão para se soffrer. Quando viva, a
mulher, era quem ainda
arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no
mesmo lar,
com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os
ultimos farrapos,
agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro
sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa,
prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e,
juntos,
todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres
a
scismar.
Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a
illusão. Elle
chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que
dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar,
dormir por uma vez sem
mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro,
apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo
era
cobarde: tinha um grande medo á morte.
Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que
choravam. Sob
este solo que calcamos atraz, das nossas
ambições, anda um humilde rio
de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e
corre sem ruido...
Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora
cansava, mal podia
andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da
enxerga. Quereis
crêr que estava mais gordo e mais picaro?
E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de
sepulchro,
espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia
cansada e
amargurada.
Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:
--Tenho pena de ter sido honrado...
Porque é que a desgraça se não cansava
de o perseguir? Este aguilhão
cravado no peito não lhe deixava um minuto de
descanço: a sorte da
filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.
--Tenho pena de ter sido honrado.
Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos
e
escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo
salvára
acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.
O Gebo não entendia a vida.
--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.
E elle meio tonto:
--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...
Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco.
Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos
seus: o lar
apagado, a afflicção da mãe, o choro
do pae ao voltar para casa sem pão.
A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo,
quando lhe perguntava
anciosa:
--Arranjaste?
E elle a bufar, exclamava succumbido:
--Valha-me Deus, mulher!
N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao
Gebo, que nem
sequer tinha forças para as sustentar a ambas.
--Olha os outros! olha os outros!
E elle atrapalhado:
--Mas que hei-de eu fazer, mulher?
--Vae roubal-o! vae roubal-o!...
Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de
fome,
todo o dia na negra faina:
--E agora como ha-de ser?
A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á
bocca e em torno do pão,
esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella
dizia que não
havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de
dinheiro--oiro! Mas
quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes
fazia
falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a
má sorte.
De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim
fôra crescendo sem
queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do
velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que
passava horas
e horas a chorar.
--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...
--Filha que ha-de ser de ti!
Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de
todo as forças. Extendia
a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e
expulsavam-n'o das
lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:
--Eu já não posso mais! eu já
não posso mais!...
Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se
pareciam, como a desgraça se assemelha á
desgraça. Até que cahiu por
terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de
lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou
prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça
havia-o
emfim aniquilado:
engordára-o, exhaurira-o e
pregára-o para sempre a
chorar n'um colxão de trapos.
Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem
tregoas, d'olhos
postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o
viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro
d'afflicção--alheada, mais alta, desceu as
escadas e entrou em casa das
prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com
pão para
o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como
uma bola de
sebo--e de cabellos brancos estacados.
Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz
dos
desgraçados, dos pobres, dos que não
têm pão, nem felicidade, nem arrimo
na terra!...
XIX
O GABIRU TRESLÊ
Noite de luar. A
Arvore mergulha os braços n'um oceano de
luar
translucido, biliões de atomos luminosos errando.
É um collosso de
verdura e de bondade, uma construcção cheia de
frescura e rumores.
Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem
ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o
luar é tanto que faz afflicção.
Sente-se a satisfação gigantea da
Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte,
simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite
callada, branca e cheia de tanto luar que faz
afflicção. Por entre os
raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas
sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar
dão-lhe vida.
Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra
é tanto o luar que só
se vê uma brancura.
O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a
scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão
sosinho--que lhe não
fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos.
Só escarneo! só
escarneo!...
Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a.
Não é
ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e
cheio de
luar sorri extasiado...
Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em
pequena anda
rôta, quasi nusinha, e o pão da vida
dão-lh'o os ladrões e soldados.
Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe
do sonho--e
que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a
egual das
pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as
aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos.
Só soffre. Vêm uns, vêm
outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e
ri-se até da
desgraça.
Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece,
á medida
que o Gabiru vae tecendo. É não sei o
quê de incerto que mexe--fio de
luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru
olha
extasiado.
Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais
revolvida a
materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida
da Mouca que começou a
soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso.
Ella
ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare
senão
prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se
perde na
vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro,
conhecerá
o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma
maravilhosa forma de luar.
O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia
pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou
construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar,
de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos
fios de luar...
--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto,
erguendo-se.
Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e
não me podendo fugir,
pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te
hei-de
dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes,
arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem
soube
dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me
déra ser a
noite, a arvore, o luar, que me enche
d'afflicção! Juro-o, as arvores
falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas
tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos,
confundidos deante da
gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na
solidão, magoam
como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...
Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas
desfeita em luar.
Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha
cabeça, tanto!
Olha!...
Sob a Arvore--realidade ou illusão?--uma figura se constroe
de luar, na
sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar,
amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva!
viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar
muito triste... O Gabirú
corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de
gotas de luar
tombando sobre folhas.
Elle sorri e diz:
--Eis como se cria uma alma!
Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.
--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto
mais a Mouca soffre, mais
esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite,
melancholica e pallida
como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus
cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão
os teus
olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...
O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o
muito tempo.
--Minha alma!
Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua
claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida,
toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a
Sombra
opaca se
tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia,
n'um
ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da
Sombra acordava. Eil-a!
eil-a!...
--Minha vida!
Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos
compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os
olhos se
perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra
rir.
--Não fujas!
Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo
imbebido
em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e
na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e
dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo
chão corria um fio de agua ou um fio de choro...
--Meu amor! meu amor!