XX
A MOUCA
Noite de chuva,
d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma
angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um
clarão de
tochas á porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do
gato pingado.
Trouxe-a para casa uma noite, a essa creança que encontrou
cahida na
rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe
quer o gato pingado fazer, não me dirão?...
Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão d'um
garoto, que não
lhe é nada. Elle que não tem onde cahir morto,
chora o pão que tiraria á
propria bocca para o dar a outro.
Morreu-lhe hontem. É decerto um gato pingado a menos.
Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de
primavera negra,
em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos
á escuridão.
--Deitam flôr á noite...--diz o Sabio.
A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva
sinistros clarões d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o
redemoinho da
noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vão
mulheres perdidas e
a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixão
de passarito,
comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de
brandão em punho,
chapeo alto e casaca a esvoaçar... A que irão
elles deitar fogo na noite
tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho
tisico... Na
volta vêm decerto a cahir de bebados.
Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital.
Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe
resta?
O Gebo a sustentar.
Todas as manhãs sobe á mansarda onde o velho
dorme, levando-lhe pão, que
elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e
só diz:
--Filha!
A existencia é como um circo. Não ha piedade.
Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea
bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que força
é que se
constroe, de que chimica é que se forma a bondade profunda,
inabalavel,
inextinguivel, que sustenta e ampára os pobres?...
As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora
menina,
depois que a vem sua egual. Repartem com ella o pão que
ganham, e ao
vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois não sabem
consolal-a.
--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.
--Isto aqui é uma vida de cão.
--Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra,--conclue
outra.
Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada,
maltrata
agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos
se riram com
escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer.
Não havia
ser mais degradado, não porque fosse má, mas
porque era como todas as
creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.
A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar,
de
a verem chorar lagrimas d'afflicção, para a
igualarem.
--Cá temos a
menina!
--Quem no diria? Não falava a ninguem a mosquinha morta!
É para
aprender!
--Deixae-a!
--Deixae-a o que? Ella é como as outras.
--Deixae a pobre, que não faz senão chorar.
Vocês não tem coração.
--Tambem a gente soffre.
Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco,
deante
d'aquella dôr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se
a amal-a.
Tratavam-n'a
por
menina. Uma queria penteal-a,
outra ajudal-a.
Só a
Mouca lhe tinha o mesmo odio.
--Olha lá, ó parida!
--É commigo que fala?
--Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora.
Já estou farta. Tu
aqui és tanto como eu, sabes?
--Sei--diz Sofia.
--Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem
sou.
Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?
Sofia olha-a silenciosa.
--Ah, tu não falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo?
Não quero que
olhes p'ra mim, não quero, ouviste? Ai, não
falas? Toma!
E deu-lhe uma bofetada.
--E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui és uma
desgraçada
como eu. Aqui não ha meninas. E agora? agora? pensas que
és mais do que
as outras?
--Sou mais desgraçada.
E poz-se a soluçar.
Mas de subito a Mouca clamou:
--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba:
não a podia ver
por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu
dizia cá
commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a
tive? Os outros são
infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da
terra. Crearam me os ladrões, já deve ter ouvido.
Tenho sido muito má
p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja.
Peço-lhe que se
ria p'ra mim, para me mostrar que não está
zangada commigo.
É bôa! eu
dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão
raza como eu. Que é ella mais do
que eu? Sabe porque lhe tinha esta
osga? Por
vêr que a
menina era
infeliz e bôa p'ra todos. Eu sou assim, sou como um
cão. Peço-lhe uma
coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.
XXI
AHI TÉM OS SENHORES A NATUREZA!
N'essa madrugada o
Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio
ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que só elle sabia
a
existencia. As paredes arrombára-as d'onde a onde a raiz
torcida da
Arvore.
--Anda! anda! Estas raizes são mais duras que a pedra. Nada
lhes
resiste, nem o granito. A Arvore ha-de acabar por nos tragar a todos.
Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto.
Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que é como a
agua da
rocha, que appetece sempre beber e que traz comsigo existencias
d'arvores, cheiinho de emoção. Param. Uma
brancura, nebulosa na cova
onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No céu brilham
estrellas e
sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das arvores
tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos
além são
espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma
estrella enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de
claridade... Eis o
sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem
calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de nevoa e a
verdura da herva, na manhãsinha, é immaterial,
como se fosse a
respiração da terra. As aves, nas moutas,
começam o seu dia cantando.
--Que sentes?--pergunta o Pitta ao Gabiru.
--Espera! espera!--diz o outro entontecido.
--Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos...
Mas o que eu ouço! que
sem numero de vozes, de palavras precipitadas!
--Vês arvores?
--Só vejo um clarão. É como um
relampago, offusca-me! Mas o que eu ouço!
quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem arvores
porque ouço o seu ruido e a sua voz...
--Procedamos com methodo. Eis ahi a terra, ahi a tens a teus
pés. Ahi
tens um charco.
Tudo já estava cheio de sol.
--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.
--Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as
mãos. Ahi
nas tuas mãos, n'esse pedaço de lama, tens tudo,
particulas d'arvores e
de sonho, realidade e emoção...
--Isto é então...
--Um turbilhão,--affiança gravemente o Pitta.
--Isto é vida?
--É vida. Esse pedaço de terra é
humus. Incha com a primavera, fala.
Está morna e escuta, põe-n'a ao ouvido... Ouves?
--Ruido, vozes, gritos d'embryões, um borborinho...
--Ora repara. É sempre a mesma coisa.
Maquinações philosophicas... Isto
é um mundo e isto--e aponta um charco--é um
mundo. N'esse charco
adeante, ahi, vês?...
--É oiro.
--Não, é agua onde o sol se espelha, apenas
agua...
O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na
poça. Tira-as
depois para fóra fascinado. As gottas d'aquella agua turva
cahem qual
oiro liquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.
--Eis estrellas! exclama commovido.
--Perdão, é apenas como te disse, um charco, um
desprezivel charco.
Habitua-te primeiro a vêr.
--Quero vêr mais!
--Habitua-te primeiro a vêr...
O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sêres
e as
coisas. No dia humido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os
troncos engrossam, a agua nasce inchada, n'essa manhã de
primavera, em
que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e
até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a
chuva
encharcára, irrompe uma vida exuberante, apressada, de
sêres que em
minutos de existencia têm uma prodigiosa tarefa a cumprir:
amar, crear,
morrer...
--Eis uma arvore--aponta o Pitta.
--Como ella gesticula para nós!
--Pois ahi tens uma arvore.
--Que coisa enorme e bella que é uma arvore! É
differente da outra... E
é uma arvore? Uma arvore dá agua, ouço
a agua a cahir.
--E o ruido das suas folhas.
--Uma arvore é viva. Fala? É o ser mais bello que
eu conheço. É verde,
mexe-se...
--E alli, longe, um monte.
--Aquillo pequeno? Um torrão como este que os meus
pés desfazem. Só é
violeta. Maior é uma arvore! maior!... E esta poeira
luminosa que nos
envolve, que é? Alma?
--Maquinações philosophicas... Caminha agora,
vê... Eu vou-me deitar á
sombra... Podes vêr...
O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao pé d'um sobro. Da
algibeira
saccou o caderno de notas e poz-se a escrever:
Deve
á D.
Antonia, tres
mezes em atrazo--30:500 rs.;
a Haver das
explicações da natureza aos
domicilios--25$000... Differença...
O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as
mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes
orvalhadas,
arvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica
absorvido defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira
treme, carregadinba de flor. Ha galhos que lhe parecem
emoção. Os pés
calcam hervas espesinhadas, que tambem deitam cá
fóra o seu sonho;
esquece-se ao pé das fontes vendo-as jorrar e
põe-se a respirar fundo,
querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.
De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e
rapidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-n'a, as
flores
abrem-se tontas e escondem gotas nas corollas; vêm-se crescer
as
pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gommos tingidos de
resina estalam, abrem, com um ruido suffocado--ah!... Tudo fica
baço a
principio, a terra molhada é d'um negro gordo; um fremito
corre nas
folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol
começa de novo
a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios d'oiro e
no chão ha
toalhas e caminhos d'oiro e sombras.
--Senhor Pitta, eu quero ser isto...
--Isto quê? resmunga o outro concentrado.
--Quero ser isto!...
Mas o Pitta, enfronhado nos calculos resmoneia:
--Maquinações philosophicas. Deixa-me... Eis a
differença--22$000
réis... Eis!...
O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se
a
vêr os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que
parece uma teia de
luar esquecido. Primeiro o tronco incha: ha como ponto negro que
estoura, para ser botão e depois flor... Medita.
Está um dia morno e
humido. Sahiram das tocas os bichos internados todo o inverno. Vespas
passeiam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra
remexe.
Acredital-a hieis viva.
Em que se põe a pensar? O seu ouvido de enclausurado,
affeito ao
silencio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos,
tanto tempo
empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e
sobem para a luz, o
glu glu das raizes gordas e
felizes ao
mergulharem
no humus.
É um barulho de maré longinqua que cresce, galga,
augmenta, trasborda...
Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas
escondidas, os tojos bravios, para quem ninguem repara, crescem. Ha-os
nas pedras; ha-os no ventre resequido dos calháos.
Anda, anda, e dá com aguas grossas, felizes, apressadas; com
quintalorios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros,
depois
silvas, bravios--e até nos sitios mais estereis encontra a
mesma vida e
o mesmo amor.
Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?
É uma torrente, um rio subterraneo branco e verde, que vem
á suppuração?
Um riacho de tintas, brotando á superficie do solo em
labaredas verdes,
todas roxas, inteiramente brancas? Ha verdura tão tenue que
dil-a-hieis
uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou
aos troncos.
A sombra das arvores enche-o de refrigerio, envolve-o na atmosphera de
sympathia e frescura que ellas exhalam.
Por fim o Pitta vae encontral-o tolhido, d'olhos estasiados entre
flores
esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores
esmigalhadas.
XXII
PHILOSOPHIA DO GABIRU
Oh descubro agora a
torrente esplendida que é a vida!
É a emoção. Ella é
o veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens,
prende-os--e o egoismo afasta-os.
Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande
atlantico de
belleza. As creaturas humildes e simples tem uma existencia como um fio
corrente--agua ou lagrimas, mas sempre claro. A colera, a
ambição, os
interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a agua.
Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros,
é tornar a
existencia simples, monotona e grande; é fazel-a parecida
com as mantas
grossas, d'uma unica côr neutra, que agasalham os pobres.
O homem que tem emoção e que ama é
sempre feliz:
as coisas conhecem-n'o,
as arvores são suas amigas. Sente-se enternecido deante do
mais
resequido calháo.
O que odeia, o ambicioso e o máu, passaram pela natureza
como o homem na
guerra: não viram nem ouviram. As coisas emmudecem para
elles. Nada lhe
dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste
deante d'um
sitio recolhido e simples, deante das desgraças alheias, tu,
pobre, que
tombaste na cóva desprezado, rôto, e a quem a
terra recebe como a um
amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente,
como morre tudo o que é simples, tu viveste... Communicaste
pela piedade
e pela emoção, com a natureza inteira e o teu
amor repartiste o pelos
mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu
soubeste e presentiste tudo.
O que é grande é sempre simples.
Desperta em ti a emoção para que possas
dizer:--Vivi!
Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra--seu
sustento e sua
cóva. O pão de cada dia deve grangeal-o com o
suor do seu rosto.
É singular a inconsciencia com que o homem trata as coisas
mais
profundas da vida--e a gravidade com que discute as que são
apenas
apparencias vans.
A desgraça é sempre boa--porque approxima o homem
dos desgraçados.
Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a
folha que se
deixa vogar na mansidão de um rio até que o
oceano a traga.
Nada na existencia nos prende como os grandes espectaculos da natureza:
o monte, a arvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de
coração e vida simples, pacifica e grande.
Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se
que o pão
que se come não é tirado a nenhuma bocca, nem o
lume que nos aquece
roubado a alguma velhice friorenta.
Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão
saboroso e negro e o tronco
para o nosso lume!...
Quando se ama, a emoção sahe de nós
como d'uma fonte e a gente prende-se
aos outros. Não se sente sósinha: faz parte da
Vida, d'uma torrente
d'amor mysteriosa e esplendida. O amor torna-nos irmãos.
O homem não faz senão complicar a vida, que em si
é afinal bem simples.
As coisas despresadas são as melhores da vida: a paz, as
horas
esquecidas, a agua desnevada que se bebe, os
minutos de silencio em que
se sente Deus comnosco.
De que serve accumular odios, ambições, riquezas?
Não é isto demais para
uma vida terrena?
Não saber nada senão amar--repartir
emoção com os outros!
De rastros! de rastros! Odio, ambição, gritos,
tudo isso é nada! Toda a
existencia perdida a sonhar, a viver sósinho, absorto em
coisas nullas,
quando a vida é tão grande e tão
simples e se reduz--a amar! Pelo amor
conhece-se tudo, até o que os sabios ignoram. Olha para um
mysterio com
amor, e elle desvenda-se logo; olha para um calháo com amor,
que até
n'elle encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu
irmão,
até ao mais degradado, com amor, que n'elle
depararás com Deus. Deus
vive ao pé de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. Que
precisas para o
sentir? Amor.
Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se approximam, com
emoção
e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso
mysterio, e serás
feliz.
Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te á
abobada do
céo, ao homem, á montanha, á arvore,
ao mar--e ouvirás Deus em ti,
sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a agua das rochas.
Deus está muito perto de ti--e é por isso mesmo
que o não vês. A palmos
da seccura passa muitas vezes um veio d'agua escondido. Basta cavar na
crosta
da terra, para que o chão gretado e pedregoso se
transforme. Que
torrente de emoção não vae
atravessando os mundos, os homens, as folhas
seccas e os globos d'oiro do céo!
O homem enredou se de tal forma na ambição, no
odio, na guerra, que
perdeu o sentido da vida--tão simples e tão
larga--e que deixou de vêr
Deus, sempre presente ao seu lado.
Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e
grandes--ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o
seu coração
a esse fluido mysterioso.
A vida artificial é que transformou o homem. Da vida
artificial é que
nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os
erros, o crime--e até a
piedade. Se todos vivessemos da verdadeira existencia--o homem seria
feliz. Como se pode redimir tudo isto? Prégando o Amor.
Só o Amor nos
pode ainda salvar.
Agora vejo! agora vejo! Que montão d'infamias! que
montão de crimes! O
homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da
ambição, da vaidade, do
sonho vão, para quê? Para ser
desgraçado. Um trabalho ferreo e
herculeo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova,
com
inutilidades, carregado de dores e de opprobrios. Não
hesitou em
despedaçar, em calcar, em mentir--em busca do que elle
julgava a
felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para
olhar a
montanha, o mar, o ceo--o espectaculo de Deus não o
viu--porque corria
atraz da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como
um mendigo,
tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos
desgraçados, porque vivia
n'uma afflicção, atraz do quê? Da
felicidade. Não se sentiu a sós
comsigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida
perdeu
olhando-se cara a cara, elle e a sua alma, fechado com o seu
coração.
Porquê? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a
vida, a
respiração dos montes; riu-se do amor, da
emoção--futilidades--porque
feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um
minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro
e
pão, tirado a outras boccas, tendo feito gritar, blasphemar,
contente o
seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente
desgraçado. Está a
dois passos da cóva. Interroga-se e não
comprehende. Então isto é que
era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado
não reparou
que a felicidade na vida estava exactamente no que elle tinha
desdenhado!
Ama, ama a teus irmãos e vel-os-has transformados e cheios
de belleza:
mesmo nos mais seccos irás encontrar coisas inesperadas; ama
a natureza,
os montes, as pedras--e verás que espectaculo sublime; ama
que sentirás
a mão de Deus pousar se sobre a tua cabeça.
Torna á vida simples e serás feliz. A tua vida
não custará gritos; o teu
pão não será furtado a boccas
famintas. Por cada homem que amontoa oiro,
ha cem creaturas morrendo no desespero e na
afflicção.
XXIII
A OUTRA PRIMAVERA
Os dias passaram-se e
a Arvore era um collosso.
N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao
vento.
--Pitta você tem um ar estranho.
E o Pitta, transido, murmurou:
--Você deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...
O outro, cheio de serenidade, affiançou:
--Foi a primavera.
--A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles
só
apparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com
creaturas que nunca
vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem,
dir-se-hia que todos
os sonhos tomaram corpo.
--Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Você
tem visto um
charco, lama e agua revolvida?
Vem a primavera e aquillo transforma-se.
O mesmo sôpro que faz bater mais alto o
coração dos montes, cria
n'aquelle palmo negro a vida--murmurios, gritos, um arrancar de
mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida
furiosa. Eu já vi...
--Então...
--Então, Pitta, você medite, é isto...
Esta lama que se cria nos
saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites
a crear...
Veio d'alli--e apontou para os lados do Hospital--um effluvio, o mesmo
que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.
--A noite tem realmente qualquer coisa que afflige...
Oppressão,
mysterio...
--Emoção que foi até ás
tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e
crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um
riachão,
gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á
terra...
--Crearam?
--Crearam. Isto que nós vemos não são
elles, são apparições. É o
que
elles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo.
Só nós é que
não podemos sonhar.
--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos
desgraçados tomaram emfim corpo!
--Tanto sonharam! tanto sonharam!...
--Mas foi a Noite então?....
--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e
de noite. Elles só
deitam flôr á noite e só podem sonhar
á noite.
--E você como soube?
--Meditei.
--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem
estatuas vivas, outros são
disformes...
--Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Creaturas de
fogo, outras de
crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que
tudo acarrete...
--O que elles sonhariam para chegar a materializar!
--De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos
sitios mais
negros é que elles irrompem em braza. Hontem vi um que
parecia uma
flôr---branco, todo branco ou de luar gelado...
--E falam!
--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?
Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido
até aos
alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia
coleras, engrossára, rompera para a luz; o esgoto acossado
carreava
oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru
prégava aos
desgraçados. O Pitta mostrando-lhe ao pé os
montes, as arvores, a
natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e
falar-lhes
baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.
As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia
á
procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes,
apontando o Hospital:
--É alli! alli!...
Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella
manhã de
março esbraseara-o.
--É uma coisa esplendida! É ao mesmo tempo a
frescura e o fogo, um
incendio verde que pacifica e estanca toda a sêde. Aguas a
rolar e
arvores esgalhadas falando... Sabeis o que são arvores? Ha
alli
montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...
Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite,
esguio como um enterro.
--Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas
arvores, oiro
nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as aguas a rolar.
Ha seda viva
e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!
E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça,
escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do
Gabiru
empoeiravam-n'os d'inquietação e tristeza, e a
noite era como um brazido
que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho
affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.
--Ha oiro! para lá ha oiro!...
E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O
Predio
parecia abalado. Todo aquelle terriço de creaturas o
esbrazeara.
--Tanto sonharam! tanto sonharam!...
Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a
um outro universo que
elles presentiam igneo?
Á força de sonhar materialisaram o sonho.
Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em
cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não
conheciam da vida
senão a dôr. Gesticulavam,
olhavam absorvidos,
perdidos de emoção, como
quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem
se
entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a
historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas
mansardas e nos
saguões, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de
sonhar. De
uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e
lhes faziam precipitar as illusões represas... É
verdade afinal que ha
arvores e fontes todas d'oiro? Porque é que eu nasci para
soffrer?
Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que
não chegam a
ter força para germinar?
Tocados d'essa primavera negra, de que falára o sabio,
juntavam-se para
se queixar e cada um, á força de sonhar,
creára uma figura,
desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma
apparição d'uma belleza estranha; d'outros nevoa,
phantasmas. Todos
traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por arvores, pelo
odio, pelo riso, por monstros...
--Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam
flôr!...
E na noite elles botavam realmente flôr, e de tanto falarem
nas arvores
e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.
Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar
illusões,
sonho de sébes, de calháos, de tudo que no
planeta se cria de ignorado e
humilimo.
XXIV
A MORTE
Oh eu já
não sei bem, pobre de mim, o que
é realidade e o que é sonho.
Por vezes me parece que o proprio Hospital se põe a falar
pela sua bocca
de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve
em algido
luar, eil-o que enternecido conta sonhos rôtos e tristes, o
sonho dos
pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas,
como
os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de
musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...
Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe
no craneo um ruido extranho. Constellações de
fogo, mundos e coisas
terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do
casaco d'alpaca, olhava o céo n'um extasi. De
que
tombára? De fome ou
d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.
Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de
casa
d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira
d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou
descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o,
cahira fulminado? Em
torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas
prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um
viva a republica!
outro,
morra a D. Antonia! contas e um soneto bocagiano
pela mão
do Pitta--e
entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das
constellações, que luzem até no fundo
das latrinas.
Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas á tona.
Só a Arvore
cresce e á medida que ella cria forças a Mouca se
consomme. A tosse
desconjuncta-a. Creou-a a desgraça humana, construiu-a do
lodo das ruas
e d'abjecção. Mas a dôr vem e purifica:
é como o fogo que torna um galho
apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra,
alta,
luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados,
batem-lhe
os ladrões e só ella não ri como
outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca
chora. Um dia ao vêr que batiam em Sofia diz-lhe:
--E se nós nos matassemos?
--Calla-te! calla-te!
--Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já
não me importo de viver. Perdi
o amor á vida. Olhe para o meu corpo. Já
não tenho senão ossos. Porque
será
que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do
velho que se não quer
matar?
--É, está callada.
--Eu cá sou assim, que quer? Ás vezes, quando
não tenho com quem falar,
ponho-me a falar sosinha. Antigamente não me lembravam
coisas que me vem
agora á idéa. Esta vida sempre é mais
negra, não é?
--É.
--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra.
Sempre a gente nasce com
cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe
ir p'ra o
Hospital.
--Não fales...
--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A
gente tem de morrer,
não é? Então quanto mais depressa
melhor...
Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a
olhal-a como
um cão ao dono. Por fim disse-lhe:
--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais
vale
acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem
medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.
--Não, deixa! não te afflijas!...
--Eu, sim! Bem m'importo!...
De noite muitas vezes tinha afflicções,
suffocada. Agarrada a Sofia:
--Ó valha-me!...
No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo
estava tranzido.
--Na primavera...
--Sim, na primavera.
--Vês a Arvore, vêl-a? Assim que tiver flor,
é mais quentinho...
Mas veiu março e depois abril e que
transformação! Quasi que nada
restava da Mouca, escarneo de ladrões e de soldados.
Até a voz se lhe
sumira...
Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Começo da noite.
Fóra, na rua,
lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae
morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e
pé ante pé
vem os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga
vêl-a acabar.
Moldado pelo lençol um corpo resequido e no silencio
d'espera ouve-se só
a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a
morte esgana--mais perto! mais perto!...
O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de lá os
seus olhos
brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e
humidas. O lenço
está ensopado de suor d'afflicção.
--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.
--Está a passar?
--Shiu! baixinho...
Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta
da
enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas
feições crueis, ha
espanto e terror.
--Inda fala?
--Shiu!...
Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como
se a morte fosse
apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na
cara branca e immaterialisada:
--Menina! menina valha-me!...
--Estou ao pé de ti.
--Tenho frio, muito frio...
Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em
roda--e pé ante
pé tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os
braços e d'um
lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.
--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um
farrapo de
manta cossada.
--Shiu! já não precisa.
--É melhor deital-a com a enxerga no chão, para
acabar de
penar--aconselha a patroa.
A Mouca respira afflicta.
--Tenho frio... nas mãos, na cara...
Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a
tinham
maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina;
a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de
correr. Haviam ficado em volta immoveis.
Este acto do espirito se libertar é de tal forma grande, o
inicio do
mysterio, que até o Pitta olhava estarrecido.
Fóra disse para os
ladrões:
--A morte, rapazes, ensina. Não ha
licção mais formidavel. É doloroso e
no emtanto pacifica. Vêr morrer, enche de grandes
idéas, filhos!...
XXV
A ARVORE
O Morto tinha um feitio singular. Uma força
desconhecida--d'essa
corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A
sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem
sós e a quem o tempo sobra para reflectir.
--Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.
--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo
ninguem o saberá. Não tenho familia.
--Quem te creou?
--Os ladrões.
--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.
E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando
d'estacão, para de
novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.
Ás vezes o ladrão tornava e o philosopho repartia
com elle o seu pão.
Depois dizia-lhe:
--Dorme.
Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados
á beira um do outro
falam durante largo tempo.
--Não sei porquê este tempo
afflije--começa o Morto--Não devia haver
este tempo.
--Qual?
--Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite
assim o luar
consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam
sobresaltados. Tenho
visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma
creança por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas
encostou a
bocca ás grades para respirar com soffreguidão e
desatou a cantar. Este
tempo tira a força.
--Escuta. Não ouves nada?
--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os
que matam inda são os que tem melhor
coração.
--Tu para que roubas?
--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o
seu. Tudo o
que a gente faz está escripto no livro do destino. Eu bem
sei que inda
hei-de fazer peor quando soar a hora...
--Que hora?
--A minha hora. Todos n'este mundo têem uma hora em que
cumprem aquillo
para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por
exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para
roubar? Matam
uma creança que nunca lhes fez mal.
--De que serve fazer mal?
--Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para
fazer mal,
é sempre bom fazel-o. Tenho
horas em que tudo em
mim--tudo!--me préga
que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem
matar. Ás vezes sonho
que mato. É signal que a minha hora ainda não
soou.
--E Deus?
--Deus foi que me creou, Deus não se importa. Que tenho eu
que fazer
n'este mundo? Só mal. É porque Deus me creou para
o mal.
--Resiste.
--Quando a gente é creada para isto, não ha nada
que nos impeça.
--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.
--Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não
vives. Morrer sem ter
vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu
de ser
perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de
seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver
é
preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sêr,
é preciso a gente
sentir-se só contra todos e no entanto proseguir o seu
destino... Andar
inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...
--Mas o mal...
--Que sabes tu do mal?
--Nada.
--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas
mãos!...
Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder
respirar;
encher depois o peito, com o coração a estalar,
escondido n'um canto
negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o
travor da
terra!... Não respirar e ter a noite
por amiga!... A gente
poder fazer
chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...
--E eu que tinha pena de ti!...
O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz
em luar e,
no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores,
com fórmas de sonho.
--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu és a terra, tu
és a terra a
falar... Tu és só terra. Eu não vivi?
Tu és como a forja apagada e eu
não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...
Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?
--Não, não quero ver. Isto tira a
força á gente.
--Olha! olha!
Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um
sonho que o outro não podia vêr...
Foi esta noite! foi esta noite! Ha dias em que eu sinto como uma
torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras
estremecem impellidas. Ha como uma ligação entre
a Arvore e o que para
lá existe. Os seus galhos engrossaram quasi a rebentar e
hontem á tarde
eu vi que a Arvore já não era a mesma. Foi
quando, como agora acontece
sempre desde março, o sol lhe deixou poeira d'oiro nos
galhos. Vae-se o
sol embora e ainda--vou jural-o--lhe fica sol nos ramos. Hontem
á tarde
parecia transformada, dirieis haver n'ella não sei o
quê
d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma mãe. Puz-me
a vel-a
tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descobri
perdida, quasi sumida, uma flôr tão miuda,
tão tenue... Qualquer sôpro
do vento leval-a-hia para sempre.
A noites estremecia despedaçada. Uma nevoa viva, torrente
luminosa,
arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das
aguas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade
ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sentiu que alguma coisa
d'extraordinario se passava n'essa madrugada d'abril: um jorro de vida
brotára, uma apparição, um sonho
realisara-se tornado em materia. A
propria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Arvore.
Envolvia um fluido, um rastro d'emoção. Erguida,
enorme, transformára em
flor a dor que as suas raizes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o
Gabiru pendurado n'um ramo.
Namorára sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore,
scismando
n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos ultimos dias,
quando a morte a tocára, não tirava dos troncos
despidos o olhar
absorto.
--Aquella Arvore,--dizia--aquella Arvore...
Não sei se repararam... As creaturas mesmo antes da agonia
pertencem
mais a um outro mundo do que á terra. A materia
está já toda imbebida de
mysterio, ha mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo
emmudecem e põe-se a falar dentro em nós a poeira
d'astros de que é
feita a alma.
--A Arvore! a Arvore!...--dizia ella para Sofia--Donde nasce
aquillo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz...
Lembra-se do anno
passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da
sua voz? Parecia agua a cahir...
Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais.
Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sitios que ella
amára. As
noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos,
de vida no
escuro, de palores esquecidos...
Altas horas á janella, todo o céo pontilhado
d'estrellas, ouviu soluços
na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia
esperar escutando. Só muito ao longe, no silencio que lhe
pareceu
presago, dir-se-hia que uma nascente deixára correr um fio
de agua--só
um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se
a olhar inquieto. A Arvore mais esguia ao palor do luar, parecia
transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquella, fina e
meiga, que o chamava?.... Ou seria agua nascendo ou um fio de luar a
correr?
Desceu tres a tres os degráus e eil-o no quintal. Vestira o
luar a
Arvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se.
Cobriam-na
flores--cheiinha--e todas ellas eram como pequeninas boccas a chamal-o,
com uma voz conhecida.
Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Arvore como um branco
phantasma a fugir e a chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o
tomar
e ouvindo aquella voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos
ramos...
XXVI
NATAL DOS POBRES
Natal...
Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para
lá as arvores
despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta
hora arrasto
pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito.
Tudo na
natureza se concentra e sonha. Ha no emtanto um grande rio revolto que
nunca cessa de correr...
Longe pelos caminhos, atravez de pinheiraes sumidos e callados,
vão
velhinhas tristes, de saia pelos hombros, para consoar n'esta noite com
os filhos. Andam tropegas legoas e legoas. As suas mãos
callosas, as
caras enrugadas, onde as lagrimas abriram sulcos, os olhos tristes,
contam o que ellas tem passado na vida, dias sem pão, suor
d'afflicções,
desamparos, máus tratos...
Os cavadores deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga.
Que tudo repouse. O vinho d'hoje conforta, como as lagrimas choradas
pelas nossas desgraças, o lume d'hoje aquece como o amor de
nossas mães.
Nos soutos, sob a chuva que cahe mansa e continua, andam pobres que
não
têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem.
Deus os
tenha na sua mão de pae. Partem, chegam, vêm de
muito longe, para verem
os seus meninos, matando saudades. Quasi não comem e
sustentam filhos,
sustentam netos. Os velhos, que têm atraz de si uma vida de
martyrio e
fomes, dizem:
--É hoje o maior dia do anno...
Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevão. A cosinha
é negra, de telha
vã, é negro o frio, mas as almas sentem-se
agasalhadas. Por um buraco
avistam-se as estrellas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das
pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é
o suor do seu rosto,
bebem um vinho aquecido em arvores que as suas mãos
cortaram.
Sentados ao lume não falam. As brazas vão-se
extinguindo como um poente,
ou como uma alma que vae deixar-nos. A Morte passa. No buraco do
telhado
a estrella reluz, o nevão cabe com um ruido de
flôres desfolhadas, e
cada um scisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longinquo:
em
certa hora da vida, na mãe, n'um filho ausente, n'aquella
morta que
passou seus dias a sacrificar-se por nós...
--O lume apaga-se...
--Deitae-lhe canhotos.
O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoados, vém
escutar-nos
attentas.
Os pobres são como os rios. Estancam a sêde da
terra, fazem inchar as
raizes e crescer as arvores; acarretam; móem o
pão nos moinhos. Eil-a a
vida da terra. Todas as cathedraes se construíram da sua
dôr; sem elles
a vida pararia.
Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que
creaturas
miserrimas, encontram ainda na sua gelida nudez, horas para recordar e
amar? Pobres repartem o seu pão; espesinhados
dão-nos das suas lagrimas.
Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a
afflicção. Chegam-se uns
para os outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sitios onde se
soffre, os miseros e os doentes quedam-se muito tempo a scismar. Os
pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparadas,
onde nem o lume se accende; cuidam n'uma velhinha, que, a essa mesma
hora, scisma, abandonada e sósinha, ao pé de
brazas extinctas, no filho
doente, no filho ausente... Ha cabanas nuas, lares rôtos,
almas mais
gelidas que o nevão.
As lagrimas que se choram e se não vêm
são as peores: cahem sobre a
alma.
Sofia sóbe as escadas com uma caneca de vinho quente, para
repartir com
o Gebo. Na sua physionomia ha um cansaço enorme.
A chorar, misturando-lhe lagrimas, o velho, mais gordo e todo branco,
bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados
soluçam na
trapeira fria. Fóra não se ouve rumor: as coisas
ingeridas escutam.
Põem-se a scismar na mãe que descança
na terra encharcada. Tudo tão
triste, dias sem pão, e o amor a prendel-os, a unil-os, mais
forte que a
desgraça. Não sentem odio, nem teem
forças para gritos. Baixinho o velho
Gebo e a filha choram aquella que a terra primeiro tragou.
--Se o Senhor tambem nos levasse...
E Sofia bebendo do mesmo copo:
--Tenha paciencia, tenha paciencia...
--Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que
não tinha
tanto frio.
--Ahi tem pão.
--Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse comtigo, minha filha,
não
tinha tanto medo.
--A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as
precisões e as lagrimas...
--Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se tambem a
desgraça.
--Aqui tem o vinho.
Natal dos pobres, noite de communhão, noite de lagrimas e
saudades! Não
é chuva que cahe sem ruido, são lagrimas. O Gebo
abre a janela e põe-se
a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta,
com palavras
que a noite leva. Sofia o ampára.
Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovellos fincados
nas taboas, olham o vinho
quente e scismam... Ceia de natal! Ceia de
natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moidas de
pancadas,
tem más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se
pequeninas para
que lhes perdoem uma vida infame.
Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar
emoção a
estas creaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre
lagrimas, risos sem piedade... Uma começa:
--Ninguem canta?
E logo outra, como se as palavras lhe sahissem de golphão:
--Eu cá foi por fome que me desfructaram. Ninguem queria
saber de mim e
a minha madrasta calcava-me aos pés.
--Eu nem sei como foi...
--E eu então--continua--foi por fome. O pae estava
encarangado e a minha
madrasta era tão má, que, por eu me demorar n'um
recado, partiu-me um
braço.
--Pois eu foi assim de repente...--diz outra--Ia pela rua
fóra. Vinha da
fabrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um
homem poz-se a
falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquillo foi... E a
falar, a falar, até me doía o
coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho
que nem o conheço.
--Enganam e nunca mais querem saber.
--A mim minha mãe bem me prégava, mas a gente que
ha-de fazer?
--Hontem os soldados pozeram-me o corpo negro,--diz uma.
E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nodoas. No
hombro os ossos furam-lhe a pelle.
--Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...
--Tola!
--Que tem? Tenho alli a roupa apartada.
--A mim quando sahi do asylo enganaram-me, levaram-me. Eu
não sabia
nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me
fóra... Depois
não tinha mais para onde ir ...
--Eu cá tive um filho...
Uma que estava callada soluçou no escuro. E como todas se
voltassem
poz-se a rir e a ageitar os cabellos.
--Eu tive um filho e puz-me a creal-o. Depois de isso o meu amigo nunca
mais quiz saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o innocente
e elle punha se a rir.--Mulheres não faltam, dizia-me.
Vae-te!--E a
gente fica feia. Vae um dia e disse-me:--Se cá tornas chamo
a
policia.--Eu chorei até não ter mais lagrimas e
acabou-se tudo. São
todos o mesmo. N'outro dia vi-o mas elle fingiu que não me
conheceu.
--E o teu filho era bonito?
--Era um anjinho do céo. Tanto chorei que seccou-se-me o
leite de
chorar. A gente sempre é mais tola!... Poz-se muito
chupadinho e morreu.
--A Maria já deitou um á roda.
--Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por elle.
Não tinha
coração para o dar a crear.
--A gente não podemos ter filhos.
--Eu cá era uma innocente. Até me dá
riso! Tinha treze annos e foi logo
ao entrar para a fabrica. O mestre
foi quem me desfructou. Agarrou-me,
mas eu não sabia e puz-me a chorar.--Calla-te! se dizes,
vaes para a
rua!--Abandonou-me, outros vieram... A gente ha-de cumprir o seu fado.
--Eu cá fui um miminho. Meu pae tinha de seu... Depois tudo
esqueci,
porque senão a gente morria. Meu pae era muito meu amigo.
Era preciso
não ter coração para o enganar. Nem
elle podia suppôr mal de mim, nem do
outro que entrava na nossa casa. Meu pae era tambem muito amigo d'elle
e
tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pae commigo no
collo me dizia:--Tu és o meu
coraçãosinho...--Eu sempre tive um collo!
Olhae: emballava-me como ás creanças.--Falta-te a
tua mãe, mas eu sou a
tua mãe, queres?--Era uma dôr do
coração enganal-o e nós enganamol-o
ambos. E eu bem sabia que elle era casado, mas mentia-me...
--Porque será que os homens mentem sempre?
--Mentia-me sempre, e eu era innocente. Mentiu-me e mentia a meu pae. O
peor é que um dia fiquei gravida. Começou o meu
castigo.--Vou-lhe dizer
tudo.--Diz--disse elle. Matal-o. Se queres diz...--Eu callei-me.--E
agora?--Agora...--Eu já lhe não queria, acho
mesmo que nunca lhe quiz
deveras. Foi uma desgraça. Já estava escripto que
fosse desgraçada,
acabou-se!... Depois não podia esconder o meu erro.
Só meu pae não
reparava... E elle que me imaginava uma inocente!... Esperae...--E
agora? agora?.... perguntei-lhe. Então arranjei com que meu
pae me
deixasse ir com elle e a mulher para uma quinta. Se vós
visseis!... A
pobre da mulher! Batia-lhe sempre,
tratava-a peor que a um
cão.--Calla-te!--e ella callava-se, a pobre.--Fala!--e ella
falava.--Ó
estupor tu não te callarás!--Ella tinha os
cabellos todos brancos e vae
em um dia perguntei-lhe quantos annos tinha.--Trinta, respondeu-me, e
callou-se. Fiquei passada. O homem deante d'ella dava-me beijos para a
ver chorar. Dizia-lhe:--Vou dormir com ella, ouves, velha?--E dormia
commigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim
uns olhos
tão tristes, que faziam afflicção. Um
dia que ficamos sósinhas, ella
disse-me:--A menina ha-de ser uma infeliz--Eu chorei, e ella com a
mão
nos meus cabellos, a fazer-me festa:--Coitada! coitada, que sorte a sua
tão negra!... Ainda eu...--Porque o não deixa?
perguntei-lhe.--Já me
tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.
--Elle sempre ha desgraças? Ás vezes mais vale
ser mulher da vida.
--Esperae pelo resto... Tive as dôres uma noite no
verão, em agosto, e a
pobre da senhora é que me tratou. Elle levou-me logo o
filho. Na outra
sala ouvi gritos. Vae e atirei-me pela cama fóra, sem saber
o que
fazia.--Onde está o meu filho?--Fui mesmo de rastros e
puz-me á porta a
escutar. Elles berravam--Se falas esgano-te!--dizia o malvado
á
mulher.--Mata-me! tornava ella.--Tu queres a minha desgraça?
Estorcego-te!--Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta.--O
nosso
filho? o meu filho?--Nasceu morto.--A mulher a um canto chorava. Chorou
sempre depois.
--Tinha-o matado, o malvado?....
--Tinha. Affogou o na latrina. Depois veio a policia. Esperae... A
creada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa d'um lado e
descobre do outro. Elle fugiu para o Brazil, eu fui presa, e meu pae
deante d'uma ingratidão tão negra--queria
crêr?--estalou-lhe o coração.
Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina
escripta.
--E a ti?.... Não falas?--perguntam a uma sumida no escuro.
--A mim enganaram-me. Foi ha tanto tempo que já me
não lembra. Tudo
perdi.
--E a tua familia?
--A gente não tem familia.
Na noite, a um canto do Hospital o velho
banco de
taboas puidas,
dá
lhe tambem para scismar. A ventania parou. D'uma fresta tomba luar. A
treva amontoa-se ao fundo, e, para alem, nos corredores abobadados,
arde
um lampeão. Direis que o negrume remexe: pedaços
de escuridão
destacam-se, escoam-se sem ruido pelas muralhas humidas e espessas.
Mais
para o fundo ha como um abysmo, valla commum de treva empastada. Os
gritos redobram; depois, por momentos, o silencio suffoca, como o d'um
sepulchro.
--Se é luar que cahe d'aquella fresta,--cuida o banco.--Se
fosse
luar!...
Pela escada vê se a enfermaria onde os lampiões em
fila dão uma
claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, cahidos nos
leitos: parece uma necropole subterranea e immensa.
--Se fosse luar...--Ha que tempos que não sinto
o luar. Era
como um
ruido branco que me envolvia outrora na floresta. Neva ás
vezes luar. E
havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites
nascem! Era differente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos
ramos historias acontecidas n'outros montes. Ha epochas em que o vento
traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados ás
flores... Se
aquella poeira fosse luar... E se o luar se pozesse a correr sobre mim,
aquecendo-me como outr'ora, quando em mim subia não sei o
quê de
mysterioso e forte?
Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os ultimos
lampiões
apagam-se um a um, como se alguem lhes soprasse. É a Morte
seguindo o
seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo,
vive, mais
callada, maior, valla infinita, a que uma luzinha dá alma. E
o
banco
scisma:
--Ha que tempos que não sinto em mim a luz da
manhã, que traz comsigo a
vida de tudo o que existe, dos rios, das outras arvores, nem o sol a
crescer em vagas d'oiro, nem a agua verde, melancholica, e
tão mansa
entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me
transido...
Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E
não ha nevão,
mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!...
D'estas
enfermarias corre tambem um sonho parecido com luar... Será
uma
fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as
minhas fibras mergulham n'um mar revolvido, que eu ignoro, mas que
é
feito de gritos.
Baixo a pedra começa tambem a lembrar-se e
áquella hora perdida da noite
toda a alma inconsciente do
Hospital estremece. Quer recordar, palpita
e
logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes,
materialisam-se e são como nuvens: são de fogo,
são de luar. Sombras aos
bandos dissolvem-se, para outra vez se crearem.
--Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes
corriam pelo
meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta n'uma poeira
azul
andava um turbilhão de bichos. Outras arvores fluctuavam na
mesma poalha
e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe--e que encanto
aquella companhia sempre presente e amiga!--o fio do rio chalrava.
Folhas cahiam e iam devagarinho viajar sobre a agua verde. Para
onde?.... Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas
raizes quantas
vidas protegi e defendi!... As minhas raizes tocavam na vida!... As
vezes cahia um pé d'agua, mas depois vinham sempre teias de
sol, fios de
sol, para me enredar--e o sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo
que consola, o halito dos montes e dos pinheiros meus amigos.
Nas temporadas funebres em que a agua cahe a golphões, a
gente
concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens,
os
bichos na terra tremem de frio sob as raizes e as folhas seccas estalam
e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a
nevoa, os montes são mendigos, com um grande manto
remendado. Ao fim da
tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sóbe e
se
dispersa. É a nevoa. Baba d'oiro luz na agua e os choupos
são sombras.
Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois
poentes doirados... Porque é que me ponho a pensar e a
scismar? Ha tanto
tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Ha-de ser do
luar... Oh se ainda houvesse luar!
As mulheres callaram-se. Não ha ruido. Ellas proprias
sonham. Em torno
da meza, na cosinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas
pensam decerto n'um lar e bebem as lagrimas que cahem no vinho e o
gelam.
--A esta hora a minha mãesinha ha-de por força
pensar em mim...--começa
uma.
--E tu porque não foste consoar com ella?
--Punham-me fóra! queriam-me lá!... Meu pae, meus
irmãos...
--Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Ássam-se
pinhas no
lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs
pequeninas!...
E suffocada desata de repente a chorar. As outras não se
riem como de
costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta: