SCENAS CONTEMPORANEAS.
SCENAS CONTEMPORANEAS
POR
CAMILLO CASTELLO-BRANCO.
2.ª EDIÇÃO.
PORTO:
EM CASA DE CRUZ COUTINHO—EDITOR,
Rua dos Caldeireiros
n.os
18 e 20.
1862.
Porto—TYPOGRAPHIA DE
ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA,
Rua da Cancella Velha n.º 62.
MORRER POR CAPRICHO.
I.
Os meus amigos, de certo, não sabem o que é
caçar coelhos na neve?
Não admira.
Imaginem-se em qualquer aldêa, nas visinhanças do
Marão. Olhem em redor de si, e contemplem o quadro que os
viajantes na Suissa lhes descrevem todos os dias, supposto que nunca
sahissem da sua terra.
A primeira impressão que recebem é a do assombro.
Leguas em roda, nem na terra nem no céo, se descobre uma
crista de rochedo, a frança d'uma arvore, a dobra d'uma
nuvem, que não seja branca, alvissima, desde um horisonte a
outro horisonte.
E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio
funebre. Não cantam as aves, não balam os
cordeiros, não silva o buzio de pegureiro,
não soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.
Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, não
vos afasteis para longe da casa d'onde
presenceaes, com o coração confrangido, esta
scena.
É uma alcatéa de lobos, que descem famintos da
serra, e
serão capazes de vos hirem buscar á cozinha, onde
naturalmente tiritaes de frio, sentados ao pé do
tóro de carvalho.
Faço-vos esta recommendação porque
sois uns homens afeminados, que nunca sahistes dos salões,
dos botequins, dos theatros, e das praças. Aposto que se
desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces inflammadas,
antes que o lobo vos désse o cordial abraço da
fome, já vós tinheis perdida
a sensibilidade, e consciencia da vida, e até o direito que
todo o homem tem de matar não só o seu
semelhante, mas até um lobo, em justa defeza!
Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma
d'essas manhãs de neve, com meio covado de altura nos
terrenos chãos, tomasseis um cajado, e, com duas finas
cadellas de coelho, fosseis dar na serra um passeio d'algumas horas.
O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que
só com muita pratica se acerta, e, quando mal vos
precatasseis, resvalar n'um abysmo de neve, onde nem as orelhas de
fóra dissessem ao passageiro que um moço, a todos
os respeitos excellente, fôra
alli absorvido por um sorvete dos que a natureza offerece aos amantes
de refrescos, com menos economia que o
Guichard.
Afóra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas
vezes tomam conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma
perfeição e rapidez fabulosas, e, quando Deus
quer, fazem dos nossos corpos um supplemento nutritivo ás
nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande obsequio.
O terceiro percalço, affecto á caça do
coelho na neve, aconteceu-me a mim, ultimo dos mortaes, em 26 de
Dezembro de 1844.
É o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo
seguinte.
II.
Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os á serra,
porque o sol refrangia-se em scintillas na neve, que parecia
desfazer-se em laminas de prata.
Fui muito contente da consideração que se me
dava, como caçador, porque, em verdade vos digo, atirei com
certeiro olho a perdizes e galinholas. Se nunca matei nenhuma, o que
tambem é verdade, deve-se á pessima polvora das
nossas fabricas. Em
compensação, matei muito melro e tordo nas
serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos
caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um
grande homem antes de escrever folhetins! Deus perdôe a quem
me torceu a vocação! Eu podia, a estas horas, ser
um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre dos galgos
sociaes.
Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles,
permitte-me dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que
eu hei-de saltar por cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se
não és galgo, sensato
amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar
direitos de mercê.
Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim.
III.
Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em
tres grupos, e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de
nos perdermos encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso
esconder-nos
os
cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.
Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as
pégadas dos coelhos impressas de fresco na neve. Eram
muitos, e morriam á pancada, porque os pobresinhos alapados
debaixo das urzes, se fugiam, eram logo mordidos pelos cães;
se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais
previdentes, tinham
emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas sinuosidades
interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o
furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os
cães, farejando as avenidas da colheita,
recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o rancor do instincto, e
atiravam-nos mortos aos nossos pés.
Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão
esquecidos do mundo, que nunca tão distrahida hora eu tive
na minha vida, a não ser aquellas em que durmo, e sonho que
hei-de tornar áquelles meus dias de candura, depois de lidar
muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que vestiriam, por
innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes
não dissesse que
andavam indecentes.
Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de
neve.
O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque
(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas
estarão cobertas, e não
saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.
—Eu, por ora, não vou—lhe disse eu.
—Porque?
—Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta
chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola
em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça,
afigura-se-me
o fumo do grande incendio no juizo final! Olha... não te
parece que o vento espalha já as cinzas d'uma grande
cidade!
Não vês Sodoma lá em baixo
vomitando columnas de fumo?...
—Eu não vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas
visões... vamos embora...
—Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, dá
um tiro, que eu lá vou ter. Estou bem aqui; não
me mudo por cousa nenhuma.
—Até logo.
IV.
E eu continuei a vêr as minhas visões.
Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em
elevações d'alma para cousas de
imaginação, que não era esta fria
imaginação, que
tenho hoje.
Absorvido no meu quadro do juizo final, que só uma phantasia
abrasada poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e
não fiz caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por
aquelles homens, prosa vil, que não tiravam partido do
grandioso panorama, que a mão liberal da natureza
desenrolava diante de meus olhos absortos.
Não sabeis que o nevoeiro embriaga?
É uma verdade. A cabeça enfraquece; nos ouvidos
ha um zunido, que vos faz perder o rumo. Sentis uma
sensação desagradavel, semelhante á do
giro penoso em que a indigestão do vinho vos traz a
cabeça
vertiginosa.
Foi o que eu senti, quando me furtei ás minhas
contemplações improprias do tempo e do lugar.
Ergui-me, e não sabia já designar a
direcção que levára o meu companheiro,
nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha clavina, mas a
humidade inutilisára a escorva. Os cães, que
poderiam
ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. Não
desanimei.
Tal direcção pareceu-me que deveria ser a melhor,
e segui-a. O nevoeiro deixava-me vêr apenas o
espaço que pisava. Atravessei a lombada da serra, e comecei
a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da encosta, e senti a
neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro, descendo, descendo,
sem encontrar uma
povoação. Conheci que estava perdido. A neve
augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de vida!
Então, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem
solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum
lobo.
E, de mais a mais, eu tinha fome.
Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um
pedaço de brôa para o meu
furão. Reparti-o entre nós. O animalsinho comeu
com appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar
coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fóra
um gato bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados
de neve.
Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!
Continuei o meu caminho, sem esperanças de encontrar
pousada.
Escureceu.
Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre
cabeça uma cabeça academica.
Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em
provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma
povoação, por isso que os
castanheiros, campos, e paredes eram indicios de aldêa
proxima. N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma
sineta, que tocava ás «Ave-Marias.»
Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido.
Orei com a devoção dos
dezoito annos. Não vos digo mais nada a este respeito,
porque me não entenderieis. Sois excellentes pessoas para
devorar
um romance em dez volumes; mas não lerieis, sem abrir tres
vezes a bocca, uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do
céo, que o poeta não deve nunca profanar,
misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao alcance de todas as
capacidades.
Eu creio que entre vós ha entendimentos muito finos,
paladares muito apurados no sabor do bello,
corações muito brandos para
emoções suaves. Creio que sim; mas o melhor
é fazer de conta que os não ha.
V.
Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde
nunca estivera. Encontrei uma velha que castigava um porco, rebelde
á invocação de sua ama,
com uma roca.
Perguntei-lhe que povo era aquelle.
—Alpedrinha—disse ella.
Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era
necessario pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde
morava o parocho. Mostrou-me a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que
n'esse momento voltava da igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem
eu era, e tratou-me delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa
de minha familia.
O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da
côrte. Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa
correcção, e offerecia aos
seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em bons
crystaes e polida salva de prata.
Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do
meu sympathico sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito
pallido e magro, com chapéo hespanhol, faxa vermelha, e
botas d'agua.
Era um estudante de Coimbra, que voltava doente
para
sua casa, e costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.
A primeira pergunta do academico foi esta:
—Como está a snr.
a D. Amelia?
—O mesmo...—respondeu padre Joaquim.
—E seu mano? Tem vindo a casa?
—Não senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres
mezes, não voltou....
Eu estava ancioso por conhecer a snr.
a D.
Amelia, porque
até ao momento em que o estudante chegou, suppunha eu que
toda a familia do parocho se limitaria a alguma ama, e alguns
pequenitos, que, de ordinario, são afilhados do padre.
Depois das perguntas do meu illustre companheiro de hospedagem, fiquei
sabendo que n'aquella casa existia uma snr.
a D.
Amelia, e um senhor
delegado de * * *.
Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de
caçador; disse-lhe que me tinha achado muito fino
(referia-se naturalmente á magresa), e fez a apologia dos
meus olhos, que, naturalmente, revelavam uma extraordinaria esperteza,
espiritualisados pelo espirito de vinho, que o sacerdote me injectou
nas veias marasmadas pelo frio.
Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra:
quantos canellões soffria um calouro; o calculo aproximado
dos puxões de orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso
na cabeça.... &c.
&c.
O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu
protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha
partida.
VI.
—Snr. Valladares—disse o padre ao estudante—minha
cunhada ergueu-se
da cama para vir comprimental-o...
—É uma grande consideração, que eu
lhe não mereço; mas a delicadeza da snr.
a
D.
Amelia é
sempre um severo preceito que ella se impõe.
Fallou bem.
N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu
uma cousa nova. Eu não conhecia assim nenhuma. Era alta,
muito magra no rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos
cabellos, em tudo se via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril
tão estreme do vulgo, que eu, creança e poeta,
senti-me tão acanhado como o mais boçal dos
pastores de
cabras d'aquella freguezia.
—Como passou, snr. Valladares?—perguntou ella com voz tremula,
tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da
sua capa.
—Sempre doente, minha senhora... Por não poder mais,
recolho-me a casa...
—Eu bem lhe disse que não fosse... v. s.
a
teimou, agora
já sabe que os conselhos d'uma mulher não
são sempre pieguices...
—E os de v. exc.
a nunca poderão
sêl-o... E a
snr.
a D. Amelia como está?
—D'este modo que vê... Tossindo sempre, sempre mal, sem
descanço d'este lado, que me parece que já
não vive, se não para matar o resto
de vida que tenho...
D. Amelia indicava o coração.
—Porque não dá um passeio até
Lisboa?—tornou o academico.
—Isso lhe tenho eu dito todos os dias—atalhou o padre.
—De que me serve Lisboa?
—São ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do
coração com as suas amigas de collegio...
—Eu já
não tenho coração
para contacto com amigas nem inimigas, snr. Valladares...
—O que v. exc.
a tem é uma
ardentissima
imaginação, alma de poeta, que só tem
a sensibilidade do que é triste, e não sabe tirar
recursos da
esperança...
—Esperança!...—murmurou ella com um triste sorriso, e
voltando-se para mim, perguntou-me:
—Já sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite
divertida com os lobos...
—É verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me
ao paraizo, depois de me ter mostrado o inferno.
—Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena
comerem-no os lobos!...—disse o padre, desafiando um gracioso sorriso
de Amelia.
—Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim
como nós esta noite o salvaremos de ser victima dos
lobos—disse-me ella, apertando affectuosamente a mão de
Valladares, em despedida, porque a tosse exasperava-se cada vez mais.
Esta rapida apparição impressionou-me muito.
Queria fazer mil perguntas; mas eu não tinha a quem. O padre
e o estudante fallaram em assumptos, que me não interessavam
nada. O que eu queria era a vida, a historia, os soffrimentos, a poesia
d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não sei que
romance, onde vira uma mulher assim...
Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D.
Amelia. Era uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.
Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos
corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um
excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.
No fim, demos graças a Deus.
O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á
cabeceira de sua
cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.
VII.
O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava
comigo sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como
dous futuros companheiros de casa em Coimbra.
Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu
recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava
signaes de desenfado, quando naturalmente devêra querer
dormir, depois de uma fatigante jornada, em dia de neve.
Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha
curiosidade a respeito de D. Amelia.
—O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?—disse eu.
—Que é? quantas horas são?... são
10... quer dormir?
—Não, senhor: queria saber quem é esta snr.
a
D.
Amelia?
—É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em
* * *.
—Isso já eu sabia... pouco mais ou menos.
—Então sabe tanto como eu...
—Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio
que ouvi dizer que era de Lisboa.
—É verdade... nasceu em Lisboa...
—E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como
eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e
cá ficou! Pois eu dou-lhe a
minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco, retiro-me sem
mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.
O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o
leitor póde tambem rir-se, se lhe
aprouver.
E acrescentou ao sorriso:
—Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui
sem ser impellida por um acaso?
—De certo... Já não admira que ella tenha tosse
de tisica... O que me espanta é ella viver, se cá
está desde hontem!... Quando veio ella?
—Ha dous annos.
—Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que
encontrei esta martyr a uma minha tia, que é capaz de jurar
que a viu fazer milagres...
—O menino é sarcastico! Se o não visse
tão inclinado a rir-se de cousas serias, contava-lhe uma
historia triste...
—E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me
não rio, quando me dizem alguma cousa que me toque o
sentimento. A minha familia chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo;
não sei bem o que sou; mas o que não sou
é insensivel...
Vê... já não tenho vontade de
gracejar... Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra
que me fez chorar, porque é uma passagem tão
infeliz, que, se eu
fizesse novellas, escrevia uma.
—Talvez as escreva no futuro...
—Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um
alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de
alfaiate... Não tenho habilidade nenhuma. O meu gosto
é lêr os sonetos do abbade de Jazente, e as
quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem
quero saber... Vamos á historia, sim?
—Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas,
antes de mais nada, promette não contar a ninguem o que vou
dizer-lhe?
—Pois é segredo!
—É.
—Prometto...
—Pois ahi vai.
VIII.
—Esta senhora viveu em Lisboa até aos dezeseis annos. Hoje
o mais que póde ter são vinte e dous.
—Só?! Eu calculava trinta e tantos
bons, como diz minha tia, quando
quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella.
—Pois deixemos lá sua tia, que deve ser, pouco mais ou
menos, como todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa,
senão adormeço, e o
meu curioso amigo perde a occasião de saber quem
é a
snr.
a D. Amelia...
—Isso de modo nenhum—atalhei eu com sobresalto—Prometto
não interromper a historia.
—Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de
familia deliberou que a orphã viesse para a provincia, onde
tinha tios, e o seu patrimonio em quintas.
Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e
disputaram
a primazia no namoro. D. Amelia não aceitava, nem repellia a
côrte de nenhum.
Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma
delicadeza.
Havia alli um rapaz que não frequentava a sociedade de
Amelia, porque não frequentava sociedade nenhuma.
Fôra educado em Genova, viera de lá aos quinze
annos, vivera no Porto até aos vinte e cinco, e quando
recolheu á provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua
familia que emigrára em 1828, ninguem o conhecia, e elle
mesmo não queria conhecer ninguem.
Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e
não sei que muitas outras lisonjas do charco de certos
espiritos, que não podem sahir da pequena esphera de lama,
que a natureza lhes deu por homenagem.
D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle
mandára abrir na sepultura de seu pai que o
deixára em Genova no collegio, e viera morrer em 1836
á patria: comprimentou-o de passagem, respondendo a um
distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que, desde esse
encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu que pensar
á sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e
retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou
alli o invisivel extravagante da opinião publica.
—Como se chamava elle? Eu conheço alguns rapazes de * * *
que foram meus condiscipulos em logica.
—Não é nenhum dos seus condiscipulos.
Já lhe disse que este sujeito veio do Porto para a
provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O seu appellido
é Côrte-Real, conhece?
—Nada, não conheço; mas ouço fallar
todos os dias n'esse rapaz.
—Que ouve dizer?
—Que está em Lisboa, doudo, no hospital...
—O senhor afiança-me isso? Ha que tempo endoudeceu?
—Ha dous ou tres mezes...
—Quem lh'o disse?
—Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos
doudos.
O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir.
—Não ouve?—disse elle.
—Ouço... é alguem que soluça...
—É ella...
—D. Amelia?
—Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica...
—É admiravel!... Pois o quarto d'ella não
é longe d'este?
—Passam-se tres quartos, mas os repartimentos são de
tabique, e eu não me lembrei de tal...
Calemo-nos...
—E a historia?... Falle mais baixo, que ella não
ouvirá mais nada...
—Agora, é impossivel... Aquelles soluços
transtornaram-me a cabeça... Deite-se, e
ámanhã
fallaremos antes de nos despedirmos...
IX.
Á cabeceira do meu leito, estava um volume das
Viagens de Cyro, e o quinto volume
d'uma
Miscellanea curiosa e
proveitosa, onde encontrei uma longa poesia
a
D. Ignez de Castro, que me fez
dormir até ás 8 horas da manhã.
O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e
escrevendo nas paginas d'uma carteira.
—O senhor está a fazer versos?—perguntei eu.
—Adevinhou.
—Faz favor de recitar, se não é segredo!
—Recito: olhe lá se entende:
Eras um anjo? Se o eras
Que torvo facho do inferno
Te queimou as azas? Diz:
Porque, tão cedo, infeliz
Cahes no
abysmo eterno!... eterno!
—Entendeu?
—Não, senhor.
—Veja se entende agora:
Eras pura, quando lagrimas
Tu me déste,
e me pediste...
Tu choraste aqui, choravas...
Mas porque? prophetisavas
Este abysmo em que cahiste?
—Entendeu?
—Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que
ficou suspensa?
—Não, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta
casa, e que é toda minha...
—Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a vêr se
aqui arranjo tambem alguma historia para contar a minha tia, que
está resando o quadragesimo responso a Santo Antonio por
minha causa, se é que
já me não resou por alma... Então o
senhor
não conta ao menos a primeira historia completa?
—Hei-de contar.
—Quando? Eu vou-me embora logo.
—Não vai. Já aqui esteve o padre, e disse que
não sahiriamos d'aqui hoje, porque augmentou de noite a
neve.
—Deixal-a; mas a minha familia, se eu não
appareço, nem dou parte de mim, julga-me morto, e
é capaz de me fazer officio de corpo ausente.
—Não se assuste, que o padre hontem á noite
mesmo fez partir para a sua aldêa um criado com a certeza de
que o senhor ficava vivo, e mais o seu furão.
—A proposito, sabe se já dariam de almoçar ao
meu furão.
—É natural que sim... Ahi vem o snr. abbade;
perguntemos-lhe...
Snr. padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o
furão ja almoçou.
—Comeu quatro ovos, e está agora brincando com minha
cunhada, que é muito amiga de bichos.
—E como passou ella?—perguntou Valladares.
—Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira
chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a
com o furão no regaço, a sorrir-se como quem
é muito
creança e muito feliz... Sabe o senhor que...
Não sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante.
Desconfio, pela resposta, que o resto do segredo era o receio de que
ella endoudecesse.
Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de
Côrte-Real, e a tisica de Amelia.
X.
Almoçamos.
D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei
que palavras a meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim,
supposto que ahi se fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina.
Tudo mysterios!
O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares,
tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso
levita teve a delicadeza de nos não convidar a participarmos
da sua missa, que n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos
devotos.
—Ahi vai agora a continuação da historia—disse
o academico, engulindo o fumo de quatro cigarros successivos—A familia
d'esta senhora é muito realista, muito fanatica, arde em
odio contra os impios, que são todos, menos os sectarios de
D. Miguel, e alguns, senão todos, de D.
Sebastião. A familia de Côrte-Real
é
ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle odio saturado na
emigração, e não admitte honra,
intelligencia, nem merecimento em homem que não fosse capaz
de cortar as orelhas a um miguelista, se elle estiver por isso.
Já vê que as duas familias detestam-se. De parte a
parte no momento em que as relações de Amelia com
Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que
não hiria!
—Então elles namoravam-se?
—Pois eu não lhe disse já que sim?
—Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes
no cemiterio para vêl-o, mas que
não o via muitas vezes. Eu queria saber como se
encontraram... porque... desejo saber como é que a gente
póde sahir d'um encontro d'esses!... Não ha muito
que me vi entalado com um d'esses encontros... Eu tinha o recado na
ponta da lingua, e, quando vi a mocetona, que não era cousa
de atarantar um estudante de logica, pegou-se-me a lingua ao
céo da bocca, como diz
não sei que poeta...
vox faucibus
hoesit... Que lhe disse elle quando a viu?
—Isso é que eu não sei, porque não
ouvi. O que sei é que se fallavam por cartas, e entretiveram
assim relações seis mezes. Por fim, descobre-se o
namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com Amelia:
um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta
fechada, e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto
abre a porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram
fóra do combate. No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa,
o chapéo, e uma clavina, que fôra tres vezes
batida á queima roupa do tal varredor de feiras.
—E depois?
—D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e
conduzida a casa d'este padre.
—Para que?
—Para ninguem
saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde
ella tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um
convento.
—E Côrte-Real que fez?
—Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia.
Como o não soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve
accessos de loucura, e, pelo que o senhor me disse, está
hoje no hospital de Rilhafolles.
—E Amelia casou-se?
—Pois no casamento é que está o interessante da
historia.
Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o
irmão do padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito
natural que sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se,
porque sabia os precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si,
tractava-o com a fria delicadeza da indifferença,
até ao
momento, em que recebeu de uma sua tia a noticia de que viera ordem do
conselho de familia para ser conduzida a Lisboa, e lá
recolhida em um convento.
Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente
sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo
dispensa de banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem
consultar a philosophia, a religião, e a consciencia,
casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a liteira que devia levar a
orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio com um
desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida
nenhuma em hir para Lisboa, e para um convento, mas é
necessario que meu marido vá comigo.»
—Seu marido!—exclamou o tio estupefacto.
XII.
—Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico
capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido
arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque
sabia que dava um passo que devia matal-a. E, com effeito,
está alli... está morta...
...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa...
CONCLUSÃO.
Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:
—Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as
suas ultimas palavras ao marido foram estas:
morro
por capricho.
UMA PAIXÃO BEM
EMPREGADA.
UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.
I.
O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no
Penedo da
Saudade, sentou-se, accendeu um cigarro com
perfeição academica,
abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes, me
recitára em Alpedrinha.
—Lembras-te?—disse elle.
—Perfeitamente. Prometteste contar-me então uma historia.
—Vou cumprir a promessa.
—E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.
—Disse, e vaes vêr porque. Olha que eu não vou
fazer estilo. Prepara-te para uma narração
simples, e clara. Não pertenço á
escóla dos nossos lapidarios de palavras, que nos dizem em
estilo de Corneille as scenas comicas de Moliere. A minha historia, se
tal nome lhe cabe, é uma tragedia com muitas scenas de
farça. Ainda que me não vejas rir, tens a
liberdade da gargalhada. Ahi vai:
Em 1843 fui á feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei
ahi uma familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se
d'uma senhora idosa, que era mãi d'um cavalheiro, e este
cavalheiro era pai d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei
d'ella, ou antes confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde
que a vi, pela primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes.
Não lhe disse quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e,
aos dezoito annos, um moço d'aldêa tem o
coração
acanhado, e córa facilmente, quando encontra os olhos d'uma
mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A rapariga
chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te
digo que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que
é o tempo!...
Combinamos partir juntos de Villa-Real. Não recordo na minha
vida um dia mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade
animava-me a dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem
senão a sombra do sentimento. Miquelina corava, mas nem por
isso sustinha as redeas do cavallo para esperar a avó e o
pai, que vinham alguns passos distantes.
Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a
velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e
deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.
Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabeça, e uma perna
quebrada. Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos
recolhessemos. Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre
onde me encontraste.
O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o
irmão do abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os
facultativos disseram que era impossivel continuar jornada, e ahi
ficamos vinte dias.
N'este espaço de tempo, sonhei a felicidade, por
que
hoje sei que não existe a realidade d'esses sonhos. Fui
muito feliz, senti-me poeta, idealisei á sombra de Miquelina
cousas e pessoas que nunca tiveram senão materia vilissima
para as aspirações do poeta. Em
fim, meu caro, cheguei a recuperar a fé perdida nas cousas
da Providencia, porque me parecia impossivel tanta felicidade sem
consentimento especial da Providencia.
Disse a Miquelina tudo que humanamente póde dizer-se.
Traduzi-lhe em palavras os extasis, que as não tinham.
Interessei-a na comprehensão da minha alma, e arranquei-lhe
uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos labios, como queimada pelo
ardor do pejo. Quando ella me disse «amo-o» se
não endoudeci
de contentamento, é porque a
disposição do meu cerebro
é invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e
tu, se te não ris, agouro-te que não
poderás dizer o mesmo a respeito da tua cabeça,
passados alguns annos.
—Porque?
—Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade
é endoudecer. Viver com ella em boa paz é
escarnecel-a. Ou doudo ou cynico.
Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que
indistinctamente voto a tudo, é a
negação da piedade
para todas as dôres nobres, e a do odio para todos os
prazeres infames. Não me espanta nada. Aperto a
mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma
graça. Recebo todos os desaforos como factos consumados.
Não dou dez reis pela virtude dos missionarios do
Japão, nem daria cinco de volta se elles me trocassem a sua
fé pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos bons,
ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos de
Deus, e Deus, que nos conserva, lá sabe a razão
porque o faz...
—Tu não sentes o que dizes...
—Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que
digo?! Tu não vês o que está dentro
d'este homem,
nem
pódes ainda ajustar á face do cadaver a
mascara que o retrate...
—Mas é possivel ser-se o que tu és?!
—Se é!... Se me não tivesses interrompido,
já sabias a razão porque o sou... Nada de
interrupções... Se começo a divagar,
digo diabruras, perco-me em abstracções, que te
hão-de parecer
pretenciosas, e lá vai a historia...
—Palavra, que não te interrompo...
—Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina
eram já suspeitas ao pai, que não se entremettia
paternalmente no negocio. Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e
Miquelina não era muito mais rica. Era possivel, e
até vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este assumpto em
casa do padre, e eu fui consultado por elle.
Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem
tão cedo direitos ao materialismo. A pequena,
porém, não tinha culpa. Eram cousas da velha, que
quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira
para seguir o recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos,
casamento, filhos, aborrecimento, barrete de dormir, catarrho,
cangalhas no nariz, e rheumatismo.
Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do
officioso abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque
não queria dar tal passo sem o consentimento d'um tio, que
fôra receber ao Brazil uma herança, que viria
augmentar consideravelmente a minha casa.
Ficamos n'isto.
Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei
Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão
não era das que fogem quanto mais
faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de
coração, ajuizada de cabeça, fina de
espirito, e em
quanto
á cara, ao corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as
seducções eram tantas, e tão a
proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma
illusão
desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica.
Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao
coração com o enthusiasmo do primeiro
abraço. Recebi da sua mão tremula, como prenda, o
lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me
com o
coração partido, mas vaidoso de
esperanças, que a saudade me dourava no meu lindo futuro.
Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram
vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei,
e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo
o que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos
os homens sabem dizer n'uma carta de namoro.
Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram
verdadeiros... pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a
primeira carta, o coração
timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que é
a felicidade do homem que primeiro os tira do
coração d'uma virgem.
Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis
das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um
correio. Zangas sem odio, se o coração de
tão longe a criminava
de ingrata. Tres mezes assim... e no fim de tres mezes... adevinha o
que aconteceu...
—Eu sei cá... morreu?
—Não.
—Veio cá ter comtigo?
—Não.
—Abandonou-te?
—Abandonou.
—Isso é incrivel!
—Acredita. Agora
adevinha por quem eu fui preferido.
—Eu só te conheço a ti na tua terra...
—Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura
succumbiu ás
seducções invenciveis?
—Só assim.
—Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes
nada de mulheres...
—Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro
muito rico?...
—Tambem não...
—Diz lá isso, que estou impaciente...
—Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que
corava se o meu halito lhe roçava nas faces, a minha
pudibunda Virginia que recebeu o meu primeiro beijo a tremer, a minha
mimosa sensitiva que parecia resequir-se á mingoa dos meus
carinhos... sempre queres que te diga?
—Pois então?
—A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?
—Acaba, homem!
—Com um lacaio da casa!... Ólá! não
fiques assim atordoado! Rite, como eu...
—Isto é inconcebivel!... E depois?
—Depois... que queres que eu te diga?
—Que fim teve essa mulher?
—Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado
summariamente para não dar que fazer á
justiça.
—E ella... vive?
—Creio que sim.
—Na companhia da familia?
—Não... Tu não me disseste que viras no Porto...
Fiquemos aqui...
—Isso de modo
nenhum... Has-de concluir...
—Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no
Porto uma meretriz que revelava uma boa educação,
e não queria dizer d'onde
era, nem como viera áquella vida?...
—Disse... mas não se chamava Miquelina...
—Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina,
é a mesma... é a minha promettida esposa,
é o anjo dos meus primeiros amores, é a pomba
alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É
ella... Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te
quizeres embriagar comigo, vamos ao
Paço do
Conde, e beberemos á saude da exc.
ma
Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo
infeliz lacaio, que desceu ao tumulo... das illustres victimas.
Já sabes como se faz um cynico? A esses parvos, que por ahi
andam a gaguejar um scepticismo que cheira a cueiros, dá-lhe
com uma palmatoria.
E não tornou a fallar-me n'esta mulher.
DE ABYSMO EM ABYSMO.
Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade
com a descosida revelação de Valladares.
Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a
Miquelina; mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas
relações estiveram a
romper-se, e reataram-se com a condição de eu
nunca lhe tocar
ligeiramente em semelhante assumpto.
Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo
acaso, alcancei esclarecimentos, que illucidam a
degradação da pobre mulher.
Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a
sabem. Como veio ella tão abaixo?
Foi assim:
Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina
foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver
ao golpe, quiz salvar a neta da colera do filho. Este
ausentára-se para Chaves, no momento em que a filha
entrára em casa. De lá, escrevendo
á mãi, dizia-lhe que désse
á infame algum destino, porque, em quanto a sua
presença envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria
alli.
D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de
Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns
mezes na sua casa.
Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os
seus instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que
frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.
O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem,
que, por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem
chamar-se José Maria,
não era tão escasso de meios que não
comprasse um
creado da casa. O creado era o intermedio da correspondencia, menos da
ultima carta, surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava
José Maria a empregar a
força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo
dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de
um
general, cunhado de seu tio.
O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem
conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para
não desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas
praticas das theorias um pouco irrisorias na sua idade.
Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que,
mutatis mutandis, professavam as
idêas do
irmão.
Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era
um viveiro de moral.
Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As
irmãs do general fallavam muito da virtude, e da honra. Quem
as não conhecesse, acrescentaria duas martyres ineditas
ás onze mil virgens conhecidas, de que Byron duvidou, e eu
não me sinto muito propenso a acreditar, nem o meu amigo
Valladares.
O José Maria não sei que fim levou. Seria algum
d'esses quatro que em 1845 se precipitaram dos «Arcos das
Aguas-livres!?» Se foi, não andou bem, porque fez
as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os
Werthers
sabem escolher as
occasiões, senão... é melhor
deixarem-se morrer de tedio, que é a morte que me espera a
mim, e a ti, leitor, no fim d'este livro, se não morreres no
meio.
O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a,
abriu-lhe a outra meia porta da corrupção.
Porque foi assim que as cousas se passaram:
Miquelina affeiçoou-se ao general, como se
affeiçoára a Valladares, ao lacaio, e ao
José Maria. Trazia o cunho da
perdição! Era uma d'estas
desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a
despeito de todos os estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o
movimento n'estas machinas, sem coração nem
cabeça? Não se sabe! A verdade é que
eu sinto vontade de
chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de
blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este
mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra,
e rasgo o papel...
Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina
deve merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos
afianço que o amou, até ao ciume.
Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço
entrára no quarto do general, que era ao
rez da rua. Miquelina estava doente de cama. Ergueu-se com febre,
vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas cambaleando de fraqueza,
escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e palavras
obscenas.
Era noite, quando isto se passava.
As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram
a procurar o irmão. Miquelina, quando as sentiu, na
incerteza do que devia responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma
rua que não conhecia, atravessou umas poucas, chegou a uma
praça onde encontrou umas mulheres esfarrapadas que a
tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas d'uma
igreja,
onde um
soldado lhe veio dizer
palavras desconhecidas.
Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella.
O frio da noite, e a febre do coração
aniquilaram-na. Sentou-se n'um portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe
com a ponta do pé, e a desgraçada
não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.
Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos.
Miquelina gemeu, abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos
que a deixassem morrer. Estava perto do hospital de S. José.
Os soldados pediram soccorro ao proximo corpo da guarda, e mandaram-na
para lá.
No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos
que enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de
manhã, mandou retirar a mulher para um quarto particular,
pago á sua custa.
Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de
caridade? Não. «Pois
não tens uma palavra boa para explicar uma
acção
nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que
sois melhores pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada,
com as feições de Miquelina. As despezas da cura,
além de ficarem encontradas no seu ordenado, seriam
pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao tratamento de
oito dias.
Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela
enfermeira, em cuja casa foi residir.
Desde esse dia, chamou-se Rosa.